Uma grande enfermaria em Los Angeles II

15/ago/17


Vamos tirar duas coisas do caminho para poder falar normalmente do Chargers: primeiro, Joey Bosa, talvez você não saiba que eu exista, mas perdoe pelas críticas. Você é muito melhor (10,5 sacks em apenas 12 jogos melhor) do que esperávamos e plenamente capaz de ser o que quiser nessa vida (se resolver largar o football para virar astronauta, vai na fé. Vai dar certo, não deixaremos ninguém duvidar de ti). Segundo, provavelmente Chargers é o melhor time da divisão. Mas não se iluda, daqui para frente é só ladeira abaixo.

(Sério. O time tem bom grupo de LBs. Enquanto o texto era escrito, Denzel Perryman, inside linebacker líder do grupo, se machucou e está fora por pelo menos um mês. Time desgraçado.)

Outro problema que incomoda bastante ao analisar ex-time de San Diego é o seu estádio. Por pior que a equipe tenha sido nos últimos anos e mesmo com a constante ameaça de abandonar a cidade, a média de público esteve sempre acima dos 60 mil por partida (exceto em 2016: 57 mil), ainda que se possa afirmar que boa parte desses eram torcedores das equipes adversárias.

Ao mudar-se para LA para ser inquilino de Stan Kroenke (e assim, como fica claro para qualquer um que queira ver, ser o time simpático secundário da cidade), o time resolve alugar um estádio de futebol de 27 mil pessoas para jogar pelos próximos três anos, porque a construção do novo estádio foi adiada. Faz algum sentido para os senhores? Pois nem para a torcida deles, já que esta sequer lotou o StubHub Center na estreia da equipe na cidade (a efeitos de comparação, os Rams bateram o recorde de público em um jogo de preseason da NFL em sua estreia em 2016).

Mais deserto que a Arena Amazonas.

A última grande novidade fica por conta do HC Anthony Lynn, que fez seu nome estabelecendo um potente jogo corrido com LeSean McCoy e tornando Tyrod Taylor em um QB especialmente capaz. Veremos o que ele pode fazer com um QB candidato ao Hall da Fama.

Nem Philip Rivers quis ir para LA

Philip Rivers é um cara tão injustiçado quanto os defensores do Jacksonville Jaguars. Titular em todos os jogos do time desde 2006 (jogando inclusive com joelho estourado e alma costurada), lançando para mais de 4000 jardas e 25 TDs desde 2008 (exceto em 2012).

Não obstante, é importante lembrar os absurdos 30 turnovers em 2016, que mostram que ele já não é mais o cara para carregar sozinho o time, já que a idade parece estar pesando sobre seu braço direito (aliás, sua porcentagem de acerto de passes diminuiu bastante entre a primeira e a segunda metade da temporada).

Além disso, o quarterback foi um dos principais críticos da mudança para Los Angeles, tanto que ele não abandonará sua residência no norte de San Diego em prol de seus oito filhos. O jogador optou por fazer diariamente o caminho de aproximadamente 120km entre sua casa e o novo CT dos Chargers – no famoso trânsito infernal da região.

A ajuda vem…

Quando Rivers está sob pressão, ele é perigoso. Obviamente, só nos resta imaginar o que ele seria capaz de fazer tendo tempo para jogar (spoiler: ele é um monstro). Sabendo disso, o time não poupou esforços para melhorar a linha ofensiva: para substituir o aposentado King Dunlap, o time trouxe o bom LT Russell Okung (com um contrato teoricamente monstruoso, mas que é essencialmente de 2 anos) que teve sua primeira temporada saudável pelo rival Denver Broncos. Além disso, o draft foi bom para a unidade e permitiu a adição dos guards Feeney e Lamp (começou com “my name is Forrest, Forrest Lamp” e, adivinha, também explodiu o joelho), que deveriam ter sido escolhidos antes do que realmente foram pelos Chargers.

Danny Woodhead (o Darren Sproles 2.0) deixa o time, mas deverá ser substituído por Branden Oliver (o Darren Sproles 3.0) sem muita perda de qualidade. O RB principal da equipe, Melvin Gordon, finalmente marcou seu primeiro TD da carreira em 2016 – e adicionou mais 11 em apenas 13 jogos. Obviamente, esses “apenas 13 jogos” nos levam ao próximo tópico: a maldição que afeta o Los Angeles Chargers.

Ou seria Mike Tolbert 2.0?

… se ficar inteira

Por exemplo, a única temporada em que Okung disputou os 16 jogos foi em 2016. Melvin Gordon também ainda não aguentou chegar ao final do ano saudável. O grupo de WRs é ainda mais afetado: Keenan Allen, teoricamente o principal alvo de Rivers, perdeu todo 2016, tendo ficado de fora também por metade da temporada de 2015; para substituí-lo, o time escolheu Mike Williams na 7ª posição do draft. Acho que o leitor já pode adivinhar que, durante a pré-temporada, Williams também se machucou (uma hérnia de disco, que pode até mesmo tirar o jogador da temporada).

Ainda que tenha dificuldades em estabelecer um WR1 (o que melhoraria bastante a sua vida e o peso da idade no seu braço), Rivers não acabará carente de alvos: Tyrell Williams surgiu do nada e substituiu Keenan Allen superando as 1000 jardas em 2016; Dontrelle Inman e Travis Benjamin também tiveram um 2016 razoável, aproveitando as oportunidades que apareceram (basicamente, se você passar por 2016 e 2017 sem ter ao menos um recebedor dos Chargers em seu time de fantasy football, você não se aventurou o suficiente nos waivers).

Além disso, é válido lembrar dos TEs Hunter Henry e Antonio Gates, que combinaram para 15 TDs em 2016. Resumindo: ajuda existirá para Philip Rivers produzir, resta saber se será suficiente.

Surpreenda-se: o outro lado é bom também

Ainda que Keenan Allen seja a lesão mais lembrada do ano amaldiçoado dos Chargers (sério, 23 jogadores acabaram na injured reserve; para comparar, os Patriots colocaram apenas cinco atletas lá), provavelmente a lesão mais dolorosa ocorreu do outro lado do passe: era esperado que o CB Jason Verrett se tornasse outro grande defensor da NFL, até que seu joelho resolveu explodir.

Em 2017, ele deverá voltar e formar dupla com o outro excelente cornerback Casey Hayward, uma das melhores contratações de San Diego (e, provavelmente, da liga) nos últimos anos. Ainda que ambos sejam anões para os padrões com que o novo coordenador defensivo Gus Bradley (fracassado em números nos Jaguars, mas arquiteto original da Legion of Boom e de uma boa defesa em Jacksonville) está acostumado, não se vê a defesa aérea de Los Angeles devendo algo – especialmente com a aparente ascensão do undrafted Michael Davis (esse sim, com quase 1,9m) e da escolha de 5º round Desmond King, aparentemente um faz-tudo na secundária.

A chegada de Bradley trouxe mais mudanças à equipe: o time abandonará o 3-4 e passará a defender com um 4-3, servindo às habilidades do seu melhor pass-rusher, Joey Bosa (eu já pedi perdão, caras).

“Não ia ser um bostão?”

Do outro lado, Melvin Ingram, que passou quatro anos sonhando com algum complemento nessa defesa, agora deverá servir como um bom complemento para a jovem estrela. O novo esquema também deverá ser benéfico para o meio da linha, composta por Corey Liuget e Brandon Mebane, o primeiro por ter mais liberdade para ir atrás do QB (conseguiu 17 sacks entre 2012-14) e o segundo tendo que tapar menos buracos como NT – fazendo um serviço mais parecido com o que tinha em Seattle.

Previsão: 9-11 vitorias, vencendo Jets e Oakland no final da temporada para chegar aos playoffs. Isso, obviamente, supondo que o time se cure da maldição que o afeta já há alguns anos e que a home field advantage de um estádio de 27 mil lugares seja conseguida com a pressão esperada pelo mão-de-vaca do Dean Spanos. Caso contrário, provavelmente o highlight da temporada será ver o kicker sul-coreano Younghoe Koo (!) em campo, com todos os trocadilhos que isso deverá trazer.

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