Uma carta para Deus (você também deveria sentir falta de Tim Tebow)

11/ago/16


Caro Tebow, criador de emoção em jogos fáceis, padroeiro dos QBs medíocres, injustiçado por Rex Ryan e Chip Kelly e verdadeiro Messias nas horas vagas.

Lia esses dias uma reportagem em que você aparecia ressuscitando um homem em um voo comercial e fiquei grato de saber que continua operando milagres também fora dos gramados. Também me agradou ver você dando o bolo na convenção republicana de Donald Trump. Mas tudo isso me fez perceber a necessidade de dizer que sinto a sua falta. A minha saudade aumentou ainda mais hoje enquanto estudava a lista de quarterbacks previstos para serem titulares na semana 1 dessa temporada que se inicia em setembro de 2016.

Não é possível que todos estejam cegos e não vejam o mesmo que eu: que tipo de piada são Blaine Gabbert e Case Keenum (ainda que seja para que Jared Goff tenha tempo de se adaptar a liga – o que também não é o que se espera de uma primeira escolha de draft séria) comandando times que jogam na que era aparentemente a divisão mais forte da NFL? Geno “desbocado” Smith esteve lá por um bom tempo, aparentemente mantendo o assento de QB titular na sala de reuniões quente para Ryan Fitzpatrick, mas também pode ser que o general manager Mike Maccagnan tenha cansado de negociações e simplesmente decidido que Smith pode produzir como “fruto do sistema” do OC Chan Gailey.

Olhamos para essa imagem e só conseguimos lembrar dos dois dividindo o campo com Sanchez como WR...

Olhamos para essa imagem e só conseguimos lembrar dos dois dividindo o campo com Sanchez como WR…

Ou então Robert Griffin III e Sam Bradford (também só criando tempo para Carson Wentz, segunda escolha do draft), ali baseados em um suposto potencial que só apareceu em uma boa temporada para nunca mais voltar. Você também teve uma boa (incrível) temporada, antes de ser desprezado por um saco de batatas disfarçado de Peyton Manning, para quem a incrível defesa criada por Wade Phillips e liderada por Von Miller deu de presente o segundo Super Bowl da carreira – o segundo que ele ganhou (sempre válido lembrar: o primeiro, de 2006, pelos Colts, ele ganhou contra o incrível Rex “Sexy Rexy” Grossman). Com certeza o caminho teria sido bem mais divertido se John Elway e John Fox não tivessem lhe passado a perna.

Também me dói lembrar que no mesmo 2011 em que você botou Tim Tebow na história da NFL foram draftados no primeiro round o já citado Blaine Gabbert (pelos Jaguars), Jake Locker (Titans) e Christian Ponder (Vikings), que continuaram tendo chances de mostrar o seu valor pelo menos até 2014, oportunidade que não lhe foi dada. Hoje, as três equipes já voltaram a gastar novas escolhas de primeiro round em outros quarterbacks (Bortles, Mariota, Bridgewater respectivamente), que poderiam ter investido melhor (junto com os anos desperdiçados) se dessem a oportunidade a quem realmente merece.

Dizem por aí que você é um mau quarterback porque lhe faltam bons números. A esses, eu lembro que Andy Dalton (25 TDs para 7 interceptações apenas) e Kirk Cousins (4166 jardas, rating de 101.6) não conseguiram vencer nenhum jogo de playoff mesmo depois da melhor temporada de suas carreiras. Pior ainda, Ryan Tannehill, Philip Rivers e Matthew Stafford podem lançar para 4000 jardas aparentemente toda temporada e nunca nem pisar na pós-temporada. Quão melhor podem ser esses QBs quando um com 46.5% de passes completos e 1729 jardas em 11 jogos é quem realmente consegue levar seu time em frente?

Ou ainda, caro Tebow, podemos ser mais humildes e aceitar que você não seja adequado a todo tipo de sistema e por isso nem todos os times possam ter você como primeira opção. Mas eu tenho certeza que Bruce Arians poderia ser criativo e que você ganharia mais jogos do que Drew Stanton ou aquele desfile de QBs da CFL que os Cardinals têm guardado para quando Carson Palmer inevitavelmente se machucar.

Tebowing eterno.

Tebowing eterno.

A situação no Texas não é diferente. Brandon Weeden, do alto da sua velhice combinada com inexperiência, jogou tanto por Dallas (quando Tony Romo também inevitavelmente quebrou algo) quanto por Houston – que não satisfeitos, deram quase 20 milhões por ano para o pouco testado Brock Osweiller. E nada é mais deprimente que ter Brandon Weeden como titular no seu time, a não ser, talvez: ver seu salary cap todo preso a Drew Brees e Joe Flacco e o resto do time complementado com jogadores medíocres; sonhar que um dia Alex Smith chegará a mostrar-se capaz de fazer grandes jogadas e ganhar títulos; ou ainda ter que imaginar mais um ano com Jay Cutler e todo o seu espírito de liderança e motivação pela vitória.

Mas talvez não possa me indignar com times que nunca tiveram a oportunidade de te ter vencido em campo, e por isso lhe confesso que a real motivação dessa carta indignada foi ter percebido que o bizarro Mark Sanchez, o mesmo que Rex Ryan insistiu em manter na titularidade dos Jets a sua frente porque “você não era bom o suficiente nos treinamentos”, será responsável por comandar o seu mesmo Denver Broncos, da defesa magnífica atual campeã do Super Bowl, e saber que ele é capaz de ser levado a disputar o título da AFC como fez em 2009 e 2010 com uma outra grande defesa, do New York Jets. E que, novamente, falhará, porque lhe faltará a estrela que reserva Deus aos campeões.

E essa, qualquer um que tenha um mínimo de coração e memória, se arrepiará lembrando que você tem*. Porque parece que foi ontem que todos nos maravilhamos naquele final de jogo em Denver contra os Steelers de Big Ben Roethlisberger (um QB de verdade, 4000+ jardas 30 TDs blablabla), no ano de 2012, devido aquele passe de pura iluminação para o escolhido WR Demaryius Thomas, que o carregou para marcar um TD de 80 jardas encerrando uma das prorrogações mais rápidas, mas não menos emocionante, da história dos playoffs da NFL.

E aqui um fã registrou Tebow realizando seu milagre dentro de um avião.

E aqui um fã registrou Tebow realizando seu milagre dentro de um avião.

Por último, válido lembrar também todos os sinais deixados em seus stats daquele seu último grande jogo: 316 jardas passadas, 31.6 jardas por passe completo (um recorde da NFL) e os níveis de audiência máximos nos EUA de 31.6, remetendo diretamente à passagem bíblica João 3:16:

“Porque Deus amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas alcance a vida eterna. ”

Eu seguirei acreditando e esperando seu retorno.

Amém.

*a derrota por 45-7 para os Patriots que seguiu a esse jogo histórico pode ser muito bem atribuída a uma defesa inexperiente, em que Von Miller era apenas um rookie. Hoje, certamente, isso não se repetiria. Especialmente porque o próprio Tebow teria muito mais rodagem do que tinha em seu apenas segundo jogo de playoff.

Tags: , , , , ,

COMPARTILHE