Um peru amargo, um golpe de marketing e um time ruim

25/nov/17


Você deve se perguntar porque diabos, ano após ano, o Lions passa vergonha no dia de Ação de Graças. A resposta óbvia é, que bem, é uma tradição – e todos sabemos que tradições devem ser respeitadas. Então, todos os anos, desde 1934 – excetuando uma pequena interrupção durante o período da segunda Guerra Mundial -, o Detroit Lions entra em campo na quinta-feira de Thanksgiving.

O fato é que hoje os Lions não são sinônimo de muitas coisas boas, então talvez a associação com o dia de “Ação de Graças” seja a melhor delas.

História

Há quase oito décadas, na última quinta-feira de novembro, Detroit se divide entre perus e a bola oval – seja nas épocas boas (qualquer ano com Barry Sanders carregando a pelota em direção ao nada), ou nas más (volte na linha do tempo até 2008 e relembre a gloriosa temporada 0-16).

A tradição, porém, começou com um golpe publicitário de fazer inveja a qualquer agência descolada da Vila Olimpia (SP) nos dias atuais: em 1934 os Lions estavam em sua primeira temporada em Detroit, após deixar Portsmouth (Ohio), ainda como Spartans; uma bela cidade, dizem os registros, mas pequenas demais para uma franquia da NFL.
Mas, mesmo com uma campanha com 10 vitórias e apenas uma derrota, os registros de público eram constrangedores: em média 10 mil #guerreiros acompanhavam o time, em uma cidade cujo a grande paixão era o baseball – o próprio Detroit Tigers tinha vencido um bilhão de jogos naquele distante ano, ocupando todo o espaço no coração daquele sofrido povo de Michigan.

À essa altura ainda havia esperança.

Desesperado para parar de passar vergonha, George A. Richards, proprietário de uma rede de rádios e que havia comprado a franquia e a levado para Detroit teve então a brilhante ideia de “adiantar” o duelo contra o Bears alguns dias – além de usar sua influência para que mais de 90 estações de rádios ao redor dos EUA transmitissem a partida.

Detroit, claro, perdeu, mas uma multidão para os padrões da época (26 mil desocupados) passou pelas catracas, além de muitos (10 mil, esses ainda mais desocupados), terem acompanhado a partida nos arredores do University of Detroit Stadium.

Hoje o Lions tem um campanha de 36 vitórias, 39 derrotas e 2 empates em jogos no dia de Ação de Graças. Entre 2004 e 2012, aliás, uma sequência de 9 derrotas – interrompida por quatro animadores triunfos nos anos seguintes. De qualquer forma, frustrar uma torcida também parece ser tradição em Motor City.

Tradição

Por que passar o feriado mais importante do país sentado ao longo da avenida Woodward enquanto suas extremidades congelam lentamente? Tradição e família, responderá qualquer morador de Detroit, que chegou à Woodward antes mesmo das 8 horas da manhã.

Um povo sofrido.

Então resta acompanhar um dos maiores desfiles do país por cerca de três horas e entao rumar para o Ford Field, assistir o Lions. A casa da franquia, aliás, traz um pouco de calor: é um dos estádios mais charmosos da NFL e, quase como aquela sua tia simpática, o presenteia logo na chegada.c

Dias antes do jogo, em entrevista à imprensa local, o S Glover Quin foi questionado sobre sua memória favorita do dia de Ação de Graças: “Vencer, eu acho. Eu estou invicto”, respondeu. E até então, o Lions vinha com uma campanha incrível em novembro sob o comando de Jim Caldwell (11 vitórias e 3 derrotas, desde 2014). Aliás, com Caldwell como HC, foram 4 vitórias na tradicional data.

“O duelo contra o Eagles foi muito divertido”, relembrou o QB Matthew Stafford, se referindo a partida de 2015. “Sempre que você vence, o peru tem um gosto melhor”, completou.

Naquele dia, Stafford completou 27 passes em 38 tentativas, para 5 TDs e mais de 300 jardas. E, bem, foi um bom dia em Detroit.

Ganhar é melhor que perder. Mas perder faz parte. 

“Tudo bem perder”

Nesta quinta-feira de Ação de Graças o Lions recebeu o Vikings, disputando o topo da NFC North, já que o Bears não merece ser levado a sério e o Packers sem Aaron Rodgers é, na melhor das hipóteses, um amontado de figurantes de The Walking Dead.

E o Lions perdeu, é claro. Como quase sempre perde. Stafford foi irreconhecível nos primeiros trinta minutos e Jim Caldwell ainda não percebeu que tem um time física e mentalmente incapaz de correr com a bola. Mesmo assim, Eric Ebron não dropou nenhuma bola, chocando a torcida local em um claro milagre de Thanksgiving.

A calmaria antes da tempestade.

Mas, por um momento, Detroit empatou o jogo nos instantes finais, bloqueando um FG e retornando-o para TD (confira o lance aqui). Durante aqueles poucos segundos, desconhecidos se abraçaram, o Lions ganhou alguns novos torcedores e tudo fez sentido – mesmo que na realidade, Darius Slay tenha cometido uma falta e Nevin Lawson tenha corrido 85 jardas em vão.

Quando falamos que desconhecidos se abraçaram, não mentimos. Essa foi a nossa reação na arquibancada. Como assistimos o jogo atrás do Goal Poast (o popular “Y”), não deu para ver a falta que eventualmente anularia a jogada. Por isso, fomos do êxtase à decepção em questão de segundos. Ouça como foi:

Por muito tempo, o jogo de Ação de Graças trazia consigo uma dualidade para Detroit: uma equipe horrível em campo, mas que por um dia o país pararia assisti-la. Perder, no esporte, normalmente lhe faz mais forte e, de qualquer forma, jogar (e perder) no maior feriado nacional, ano após ano, provavelmente seria uma tradição insignificante para torcedores de Patriots, Packers ou Steelers, franquias acostumadas aos holofotes e ao frio de fevereiro.

Mas ir ao Ford Field após congelar na Woodward Avenue ainda é a única a coisa que os Lions têm – e, graças a Deus, esporte não é sobre vencer.

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