Um novo messias em Los Angeles

18/jun/17


Sean McVay. Nessa altura do campeonato, você já deve ter ouvido seu nome algumas vezes no noticiário, afinal ele é o novo head coach da principal (eles são os donos do futuro estádio, não é) franquia da segunda maior cidade dos Estados Unidos: o fracassado Los Angeles Rams.

Após cinco temporadas abaixo de 50% de aproveitamento com o histórico Jeff Fisher, Stan Kroenke e cia resolveram inovar. E, por inovar, entendam de todas as maneiras possíveis: McVay é o HC mais jovem da história da NFL, com apenas 30 anos; quando ele nasceu, Jeff Fisher estava começando sua carreira como treinador. Além disso, Sean era também um ilustre desconhecido: seu trabalho na ascensão de Kirk Cousins era visível, mas se cruzássemos com ele na rua, provavelmente pensaríamos estar vendo Carson Wentz; se ouvíssemos seu nome, provavelmente pensaríamos em algum destes novos atores que surgem no Netflix – e desaparecem na mesma velocidade.

O início

Como é de se imaginar, Sean tem bons contatos no mundo NFL. Seu avô, John McVay, foi treinador do New York Giants no final da década de 70 (demitido após o primeiro “Miracle in the Meadowlands”). John também foi uma das peças principais do front office da dinastia que levou cinco Super Bowls em San Francisco – Sean, por outro lado, não era sequer nascido nas duas primeiras conquistas.

McVay cresceu em Atlanta e teve uma boa carreira no ensino médio, quando foi eleito jogador de ataque do ano da Georgia como QB e ainda jogou dois anos na Universidade de Miami (Ohio) até 2007, sem grandes aspirações a NFL. Novamente, para dar uma ideia de sua juventude: o último jogador com carreira na liga a sair desta universidade foi Ben Roethlisberger, draftado em 2004.

Tempo bom que não volta mais.

Assim que se graduou, conseguiu uma vaguinha como assistente em Tampa Bay, com o irmão daquele que lhe daria a grande oportunidade, Jon Gruden. No ano seguinte, foi trabalhar na extinta UFL, em um time em que Jay Gruden era coordenador ofensivo. Em 2010, foi contratado pelos Redskins como “assistente de treinador de tight ends” e, no final dessa mesma temporada, acabou promovido porque o responsável pela posição abandonou o cargo para virar HC de uma equipe de college football.

Dessa forma, com 24 anos, ele era responsável por um jogador como Chris Cooley, um veterano estabelecido três anos e meio mais velho que ele e em uma de suas melhores temporadas; a princípio, ele desconfiou das capacidades do jovem treinador, mas assim que Sean abriu a boca, Cooley acabou impressionado: “Aprendi mais sobre football em quatro semanas do que tinha aprendido em toda a minha carreira”.

Washington Redskins

Uma rápida pesquisa é suficiente para encontrar diversas declarações apaixonadas dos TEs que trabalharam com McVay. Jordan Reed, que teve grandes temporadas sempre sob a tutela do treinador, pediu especificamente para continuar realizando trabalhos individuais com ele quando Sean foi promovido a coordenador ofensivo entre a demissão de Mike Shanahan (e do treinador dos 49ers, Kyle Shanahan) e a contratação de Jay Gruden (em 2014).

Logan Paulsen, hoje nos 49ers, ressalta a facilidade que McVay tem de recordar nomes e tratar de maneira extremamente pessoal cada pessoa que trabalhava nos Redskins, desde outros treinadores às tias da limpeza. Essa mesma habilidade foi apontada por jornalistas que lhe entrevistaram durante o encontro anual de treinador em Phoenix: estudioso, conhecia e se referia a cada repórter pelo primeiro nome ao dar as respostas. O já citado Cooley, talvez seu maior fã depois do próprio pai, falava já no início de 2016 para quem quisesse ouvir que McVay ia ser head coach em 2017. A princípio, riram dele.

Entretanto, o novo treinador dos Rams não ganhou a sua posição por um bom trabalho com TEs. Talvez não por ter sido excepcional em suas duas entrevistas com o seu novo chefe – durante a qual Kevin Demoff, da diretoria dos Rams, enviou uma mensagem para Jon Gruden dizendo “meu deus, ele é igualzinho a você”.

Seu trabalho com Kirk Cousins, um jogador draftado na quarta rodada exclusivamente para ser reserva de RG3, levando ele ao nível que sempre se esperou alcançar com Griffin, foi o que lhe garantiu um novo emprego. Recordes consecutivos de jardas lançadas em Washington foram quebrados (4.917 em 2016), além de um rating de elite e 63 TDs ao longo de dois anos inteiro juntos, resultando também em mais de 40 milhões de dólares que Kirk recebeu com sua franchise tag dupla; como princípio de funcionamento do ataque, o objetivo era sempre ter Cousins em uma posição favorável de terceiras descidas.

Brothers.

É fato que muito se fala de Kyle Shanahan em San Francisco como destino de Kirk quando ele inevitavelmente não consiga o contrato que ele quer em Washington para continuar ali nas próximas temporadas; entretanto, seu sucesso realmente veio com McVay. Obviamente, o jovem treinador tem um desafio interessante em Los Angeles, mas se tudo der errado com Jared Goff, atenção a esse leilão em 2018.

O desafio Goff

Pouco preocupa a defesa dos Rams. Esse lado do time está muito bem resolvido ancorado pelo monstruoso Aaron Donald; melhor do que isso, McVay agiu rapidamente e contratou Wade Phillips (Texans, Broncos) para ser seu coordenador defensivo. Se alguma coisa vai mudar por ali, será para melhor. Isso dá uma boa base para um setor ofensivo que precisará fazer o mínimo para chegar longe, especialmente em uma NFC sempre tão disputada.

Todd Gurley também deverá voltar a jogar bem – é difícil acreditar que aquele talento do primeiro ano tenha desaparecido; é bem mais fácil botar a culpa em Jeff Fisher e sua incapacidade generalizada. O time também trouxe reforços para a linha ofensiva, como os veteranos Andrew Witworth, ex-Bengals, e John Sullivan, ex-Vikings – inclusive, dois dos três únicos jogadores que são mais velhos que McVay: o Rams é o time mais jovem da liga já há alguns anos.

Mas a eficiência do setor ofensivo passa pelo QB. O dos Rams, de quem já falamos aqui e zoamos sempre que possível, não é grande coisa. Na verdade, até o momento, provou ser um bust daqueles. Tentando observar por outra perspectiva, seus números podem equivaler-se àqueles que Kirk Cousins tinha antes de encontrar seu guru em McVay – como última curiosidade etária, se pode esperar ao menos que McVay se entenda bem com Goff, somente oito anos mais jovem que ele; Belichick, por exemplo, tem 25 anos a mais que Brady.

Novo no pedaço.

Além disso, não se deve riscar qualquer jogador depois de apenas sete partidas: sempre soubemos, Goff era um “projeto” a ser desenvolvido e não é culpa dele que os Rams tenham investido tudo o que investiram; eles não têm o direito de esperar retorno imediato.

De qualquer forma, não será por falta de trabalho da parte do treinador. Dormir entre 22h e 23h é comum para Sean, assim como acordar no dia seguinte às 4 da manhã. E, como brinca Chris Cooley, dá um soco no ar de animação para mais um dia de football. Esperemos apenas que Goff ou, vai saber, Sean Mannion ou algum outro desavisado que passe na frente do CT e saiba, realmente, lançar uma bola, não destrua todo este entusiasmo.

Tags: , , , , , , , ,

COMPARTILHE