Torcendo para manteiga cair virada para cima

16/ago/18


Regressão é um conceito estatístico que pode ser aplicado quando se observa uma variação muito diferente entre amostras de dados. Fazendo um mea culpa por esse momento monóculo, esse conceito ilustra bem as duas últimas temporadas do Atlanta Falcons. Um time que esteve a 25 pontos do paraíso em 2016 (nunca poderemos nos esquecer da vantagem de 28 a 3 ao fim do terceiro quarto no Super Bowl), mostrou-se muito menos explosivo em 2017.

A queda de produção no ataque

Em 2016, Matt Ryan foi MVP em um ataque que se tornou referência de jogo moderno na NFL, ao contar com aplicação de conceitos clássicos já estabelecidos no modelo profissional, além da adição de elementos de College Football. Tudo era lindo até que o sistema se mostrou vítima da própria complexidade no Super Bowl, quando se precisava de chamadas mais simples para queimar tempo. Em 2017, esse cenário mudou.

A substituição de Kyle Shanahan por Steve Sarkisian, vindo de passagens por USC e Alabama, foi como cancelar o pacote de internet mais foda que você tem disponível na sua cidade (ESPAÇO DESTINADO À MARCAS INTERESSADAS EM PARCERIAS) e voltar para a internet discada.

Nos primeiros jogos, Sarkisian até tentou manter os conceitos do ataque, muito pela manutenção das peças, mas à medida em que a temporada foi avançando, as tendências ficaram gravadas em game tape, tornando complicada a missão de manter o nível ofensivo.

“Você se importaria em chamar as jogadas no meu lugar?”

Sarkisian foi criticado principalmente por diminuir o envolvimento do WR Julio Jones na endzone: Julio recebeu apenas 3 TDs na temporada. A falta de capacidade do coordenador de variar as chamadas de acordo com a situação de campo fez com que o ataque emperrasse por muitas vezes na redzone. Um exemplo dessa inépcia são as duas partidas nos playoffs. Após uma vitória improvável contra os Rams em Los Angeles, em que a defesa se sobressaiu para parar o ataque mais prolífico da temporada, uma ida à Philadelphia. Um jogo bem feio.

O ataque teve o último drive da partida, com placar em 15 a 10. Após chegar a redzone com uma sequência de boas jogadas, duas tentativas de fade (aquela que, no Madden, você muda no audible) para Julio Jones, uma delas com rollout, determinaram o destino de Atlanta. Os Falcons terminaram o ano com um record 10-6, e a regressão se mostrou clara nas estatísticas das principais peças do ataque. Comparando, Matt Ryan foi de uma temporada de 4944 jardas e 38 TDs para 4095 jardas e 20 TDs, mesmo com as peças em 2017 sendo praticamente as mesmas de 2016.

Para o infortúnio do torcedor do estado da Georgia, não houve manutenção do elenco para 2018, com o time perdendo os WRs Taylor Gabriel e Andre Roberts e o TE Levine Toilolo. Via Draft, Atlanta adicionou o WR Calvin Ridley (escolha de primeira rodada) e o RB Ito Smith. Ridley é apontado como um grande corredor de rotas e provavelmente terá uma transição tranquila para o jogo profissional, o que não ocorre com a maioria dos recebedores.

LEIA TAMBÉM: Patriots e Brady: vencer é mera formalidade

No papel, um ataque com Matt Ryan, Julio Jones, Mohamed Sanu, Calvin Ridley, Austin Hooper, Jake Matthews, Alex Mack, Andy Levitre, Tevin Coleman e Devonta Freeman é bastante talentoso, mas fica a dúvida se Sarkisian será capaz de fazer tanto talento corresponder dentro de campo. Se o cenário não mudar, é provável que o coordenador ofensivo entregue o boné ao fim da temporada, o que já deveria ter sido feito, inclusive.

Uma defesa modelo

Se o ataque dos Falcons foi decepção, o torcedor não pode reclamar da defesa (na realidade, até pode, pois é inalienável o direito do torcedor à corneta gratuita e injustificável – especialmente quando sua defesa permite AQUELA conversão de terceira descida). A unidade, construída com a velocidade como foco, deu um grande passo em 2017 para se tornar uma das grandes forças na NFL. O trabalho de Dan Quinn vem dando resultados e é possível ver evoluções inclusive em relação à sua passagem pelo Seahawks.

“Excuse me, but I’ll take this.”

Nomes como Takkarist McKinley, Grady Jarrett, Keanu Neal, De’Vondre Campbell, Desmond Trufant, Robert Alford, além dos principais destaques: Vic Beasley e Deion Jones. Um time muito jovem e talentoso, que ainda terá destaque por pelo menos as próximas cinco temporadas. Apesar de uma regressão de Beasley no número de sacks, o time aumentou a quantidade de pressões em relação a 2016 e viu os holofotes se voltarem para Deion Jones, atualmente um dos melhores linebackers da liga. À medida em que essa jovem defesa se torna mais experiente, vai roubando espaço com uma das melhores da liga.

A disponibilidade de talento no lado defensivo da bola em Atlanta é enorme, o que se evidencia pelo fato de que, mesmo após as saídas de Dontari Poe e Adrian Clayborn, a expectativa para 2018 é de melhora.

Precisamos falar sobre Special Teams

Apesar de um visível contrabalanço na gestão de ataque e defesa dos Falcons, o fiel da balança para o time salvar o pescoço de Steve Sarkisian está no special teams. Espera-se que a defesa segure ataques logo no início dos drives, com sua agressividade e velocidade. Se o ataque emperrar, a atuação do punter Matt Bosher e do kicker Matt Bryant será essencial como forma de desafogo. O punter pode colocar a defesa em situação de anotar pontos através de turnovers, enquanto o kicker pode garantir aqueles field goals longos essenciais a um ataque que pouco produz quando o campo diminui. Para isso, o Falcons conta com dois dos melhores jogadores da NFL nesse quesito, capazes de ter importante contribuição para o placar das partidas.

Nota do editor: perceba a fé que o jovem tem nos esquemas de Steve Sarkisian. 

Palpite

É praticamente impossível prever o desenrolar da NFC South, que conta com três times que foram aos playoffs em 2017 e ainda tem condições de repetir o feito. Em uma divisão que é uma legítima briga de foice no escuro, não perder jogos para o Tampa Bay Buccaneers em pura implosão será obrigatório. Enquanto isso, a tabela não facilita em nada, com confrontos contra Eagles, Panthers, Saints e Steelers em quatro das cinco primeiras semanas.

O time é talentoso, mas terá que lidar com o azar de ter uma força de tabela muito alta devido à sua divisão. Podemos visualizar um cenário em que o Falcons encaixe uma campanha de 14 vitórias e garanta uma semana de descanso nos playoffs. Mas também pode acontecer de o time “trocar” derrotas com os rivais de divisão, precisando fazer contas para entrar no Wild Card. Tudo parece estar nas mãos do ataque comandado por Steve Sarkisian. A unidade deve ser o fiel da balança ao final da temporada. Com base no histórico do coordenador ofensivo, isso não acontecerá e o time pode terminar o ano entre 8 e 10 vitórias. 

Tags: , , , , , , , ,

COMPARTILHE