Tony Romo ou o melhor quarterback que não soubemos valorizar

04/abr/17


Era uma tarde de 28 de dezembro de 2008 quando Tony Romo nos mostrou, sem pudor algum, tudo aquilo que o definia; na semana 17 daquela temporada regular, o Eagles anotara 38 pontos na cabeça do Dallas Cowboys e a franquia do Texas estava mais uma vez fora da pós-temporada. Após o jogo, Romo encara os repórteres e diz:

“Se está é a pior coisa que irá acontecer comigo, então tive uma vida muito boa”.

Se naquele dia parecia que Romo não tinha a real noção da importância do football hoje, olhando em retrospecto, percebemos que na verdade nós estávamos errado: Romo tinha a noção exata do que significava, de sua representatividade e da pessoa que se tornara. Somente aquele mesmo Tony Romo seria capaz de sentar ao lado do gramado e assistir a ascensão de Dak Prescott, somente ele saberia a hora exata de sair de deixar os holofotes.

Perspectivas

Quando Romo foi ao chão em setembro passado em duelo desimportante da pré-temporada contra o Seattle Seahawks, a pior parte da notícia em si foi que, no fundo, ninguém pareceu surpreso. Quando tudo ganhou forma e soubemos que uma lesão nas costas o tiraria de ação por algo entre 6 a 10 semanas, não houve choque: houve apenas um misto de tristeza e resignação.

O ar de inevitabilidade, a constatação que Tony tinha à sua disposição provavelmente o melhor Dallas desde que assumira a condição de titular em 2006, tornava tudo ainda mais decepcionante. O que importava, naquela situação, era mais do que a lesão ou o que o Dallas Cowboys perderia com ela: era um momento sobre o que Tony acabaria perdendo.

Não se vá.

Construindo uma equipe para Romo

Entre 2010 e 2014 o Dallas Cowboys seguiu um plano desenvolvido sob medida de maneira perfeita; naquele período, eles usaram quatro de suas cinco escolhas de primeira rodada nos drafts seguintes em peças que se tornariam fundamentais à franquia: o WR Dez Bryant, inegavelmente um dos grandes nomes da NFL, e os integrantes daquele que se consolidaria como uma das melhores linhas ofensivas da liga (Tyron Smith, Travis Frederick e Zack Martin).

O resultado foi um jogo corrido extremamente eficiente, combinado a uma proteção sólida, que permitia a Romo o tempo necessário para encontrar Dez livre 30 ou 40 jardas após o snap. Era um esquema moldado para potencializar o impacto de um quarterback já flertando com seus 35 anos e, enfim, após muitas temporadas em que Romo precisava fazer muito, encontrar soluções e escapar da pressão, agora ele tinha a oportunidade de fazer o que ele sempre fez com eficiência: passes rápidos e precisos e, quando necessárias, bombas de mais de 35 jardas.

Dessa forma, aos 34 anos, ele registrava a melhor temporada de sua carreira: foram 12 vitórias como titular, o primeiro lugar da NFL em porcentagem de conclusão de passes (69,9%) e em jardas por tentativa (8,5) – Aaron Rodgers terminaria aquele ano como MVP indiscutível, mas mesmo assim é inegável que Romo teve uma temporada digna de ser também um real candidato ao prêmio.

Mas quando Dallas foi eliminando em uma decisão polêmica após um passe incompleto para Dez Bryant, a sensação predominante era que Romo e o Cowboys haviam perdido apenas uma oportunidade, afinal, com um ataque terrestre dominante, Bryant em seu auge e Tony na sua melhor forma desde que iniciara sua carreira profissional, era razoável crer que a franquia iria se manter no topo da NFC por mais duas ou três temporadas. Porém, desde aquela derrota, Romo entrou em campo em apenas cinco oportunidades, terminando partidas somente duas vezes.

Um dos caras mais fáceis de gostar (mas o mais difícil de depositar suas esperanças)

Você sabe como Antonio Ramiro entrou nas nossas vidas? Da mesma forma que Tom Brady, em um jogo transmitido nacionalmente, substituindo Drew Bledsoe. Ok, ele nunca levou o Cowboys à glória como Tom levou New England, mas desde seus primeiro momentos injetou energia em um ataque até então inerte, levando uma franquia aparentemente quebrada aos playoffs em 2006 após nove vitórias. O que vem a seguir, porém, todos sabemos.

E a primeira grande frustração, em um FG potencialmente vencedor, deu tom a uma narrativa que seguiria Tony Romo desde aquele dia: para qualquer sucesso de sua trajetória (e foram muitos), sempre haveria mais densidade em suas falhas.

Já no ano seguinte, o Cowboys conquistou 13 vitórias, Romo lançou para 36 TDs, mas no fundo, ele estava muito ocupado passeando com Jessica Simpson pelo México – e, acreditem, a reação da imprensa foi semelhante a ocorrida após o passeio de barco de Odell Beckham e seus amigos.

Tudo era condicionado a fortalecer a narrativa de que Tony podia ser um excelente quarterback, mas lhe faltava aquele fator decisivo, aquele timing que só aqueles que têm a real importância do significado do football possuem: ele era bom o suficiente para ganhar jardas e mais jardas, mas não tinha consigo algo intangível, que só gente como Troy Aikman tinha, que só quem não parecia distraído tinha, já que Romo estava ocupado jogando golfe nas horas vagas e tentando participar do US Open. Ou perdia tempo namorando estrelas como a já citada Jessica Simpson e Carrie Underwood – não importando que Carrie tenha declarado que o relacionamento acabou porque “Tony se importava muito com football”.

Romo viveu o football, mas também viveu além do football. E talvez esse tenha sido seu único “erro”.

Um cara massa.

Você ainda não sabe que sentirá saudades

A hipótese de que qualquer atleta teve sua carreira, seus melhores anos roubados por lesões, é extremamente dolorosa. Mas com Romo, de alguma forma, é ainda pior: a ideia de que Tony é realmente um dos melhores quarterbacks da NFL contemporânea demorou anos para se inserir no inconsciente coletivo.

Tudo isto é traduzido naquele que foi, sem dúvida, seu maior momento como atleta. E naquela fração de tempo, ele não estava levantando um troféu ou anotando touchdowns; ele estava em uma sala, expondo aquilo que melhor o definia.

“Você está triste e para baixo e se pergunta por que isso aconteceu. E neste momento você descobre quem você realmente é, qual sua essência. Você vê que o football é uma meritocracia e nada lhe é dado de graça. Você tem que ganhar tudo, todo dia, tudo de novo. Você tem que provar. É assim que a NFL funciona e é assim que o football funciona”.

A lesão contra o Seahawks o colocara em um lugar em que ele jamais estivera:

“Machucado dois anos em sequência, no meio de seus 30 anos. A imprensa está falando. Todos têm dúvidas, você passou sua carreira trabalhando para chegar aqui. E agora tem que começar tudo de novo. Você se sente quase um estranho. É um lugar sombrio”.

Naquele 15 de novembro, Tony esteve em sua encruzilhada particular, um momento entre ser Tony Romo ou um quarterback definido pelas oportunidades perdidas. Mas você consegue imaginar Tom Brady na sideline enquanto assiste Jimmy Garoppolo levantar o Vince Lombardi? Consegue imaginar Drew Bledsoe aceitando o papel de backup de um calouro selecionado no sexto round? Consegue imaginar Brett Favre estendendo um tapete vermelho para Aaron Rodgers? Bem, se para a primeira situação é possível argumentar que não existe uma resposta concreta, não é possível dizer o mesmo sobre as duas seguintes.

“Há momentos especiais que aparecem, nos quais há um comprometimento compartilhado, tendo um papel enquanto todos fazem as coisas juntos. É isso que você se lembra, não suas estatísticas ou seu prestígio, mas seus relacionamentos e os feitos que você criou junto de um grupo. É difícil fazer isso, mas há muita alegria em fazê-lo. Ao mesmo tempo, queima o desejo de ser o melhor que você jamais foi. Você pode ser ambos”.

As mesmas características que fizeram Romo um quarterback distante da perfeição, lhe ofereceram um outro tipo de grandeza – maior que qualquer esporte pode conferir. O Tony Romo naquela sala de imprensa em 15 de novembro de 2016 era exatamente o mesmo que em dezembro de 2008 afirmara que tivera “uma vida muito boa”: alguém ciente de que há algo além do football do que podemos supor.

Por muito tempo, Tony entrou em um campo e jogou football – e ele foi muito, muito bom naquilo que se propôs a fazer. Mesmo que, apesar de todo seu esforço e sua luta contra lesões, alguns insistissem em não enxergar. Hoje, seu corpo e mente dizem que é hora de ir e, bem, ele já fez alguns milhões de dólares enquanto se divertia nesse esporte, ele não precisa mais jogar.

Agora é hora de continuar se divertindo enquanto assiste Dak e seus antigos companheiros lutarem em campo: é hora de viver, Tony. E, como você mesmo disse, “se isto é o pior que lhe aconteceu, você teve uma vida muito boa”.

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