Tempo de recomeçar

02/set/18


Uma das franquias mais estáveis da NFL inegavelmente atravessa um período turbulento: Ozzie Newsone, único GM desde que os Ravens desembarcaram em Baltimore há pouco mais de 20 anos, deixará o cargo após esta temporada.

Steve Bisciotti, também conhecido como O HOMEM QUE PAGA A CONTA, admitiu recentemente que John Harbaugh, inquestionável até então, balançou no cargo após não chegar aos playoffs pelo terceiro ano consecutivo – eliminação confirmada em um jogo patético diante de um Cincinnati Bengals que não tinha mais nada a perder, exceto a dignidade – seja lá o que isto signifique.

Todo o cenário desenhado aponta que, em 2018, o Ravens joga pela vida de Harbaugh e, claro, de Joe Flacco – que está sob os holofotes (e não do ponto de vista positivo) como nunca esteve em nenhum momento de seus 10 anos de NFL até aqui.

Reconstruindo sem implodir

O Baltimore Ravens protagonizou algum BAFAFÁ no último draft, com um trade up ao final o primeiro round para selecionar Lamar Jackson, quarterback de Lousville vencedor do Heisman Trophy; uma decisão até certo ponto lógica, considerando que Joe Flacco assinou um novo contrato de seis anos pela bagatela de US$125 milhões há duas temporadas e, como habitual, muitas questões pairam sobre o QB que liderou o Ravens na conquista do seu mais recente Super Bowl.

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É honesto se perguntar se Joe conseguirá, em algum momento, aproximar-se do nível de atuação que o consagrou em 2012; tanto a idade (33), como inúmeras lesões reduziram a eficiência do quarterback com o passar do tempo. É bem verdade, claro, que o elenco de apoio não contribuiu, mas é o preço a se pagar quando se investe toneladas de cap space (também conhecido como DÓLARES) em um QB de qualidade (no mínimo) questionável.

Neste contexto, também é justo pensar se os Ravens não deveriam emular um movimento similar ao que o Texans fez há pouco tempo, ao sacrificar um ano (e um draft) para se livrar do contrato de Brock Osweiler. Recomeçar com Lamar, claro, um jovem ainda extremamente cru, mas com imenso potencial físico, não seria uma atitude digna de repreensão – obviamente Jackson não está pronto para assumir o controle da franquia (talvez nem da própria vida), então assistir a última chance de RGIII enquanto o garoto de Louisville realiza a transição para o football profissional, faria algum sentido; neste cenário, os Ravens não iriam para os playoffs em 2018, mas bem, também parece improvável que eles cheguem lá se considerarmos os últimos três anos de Joe Flacco.

As novas (velhas) armas

Podemos considerar que Baltimore teve uma significativa melhora no seu corpo de recebedores  – mas as mesmas palavras foram ditas quando eles contrataram Jeremy Maclin em 2016, e todos sabemos o final desta história (errado é quem espera diferente). De qualquer forma, Michael Crabtree é uma ameaça real na endzone (são 25 TDs nas últimas três temporada), mas ele já ultrapassou a casa dos 30 anos, então é possível (e provável) que seus melhores dias sejam apenas uma lembrança.

Além disso, da FA também vieram John Brown (ex-Cardinals) e Willie Snead (ex-Saints) – é improvável acreditar que Snead contribua de fato (como sabemos, Joe Flacco não é Drew Brees), mas Brown, apesar de sofrer com diversos problemas médicos nos últimos anos, tem algum potencial.

Os TEs também são novos: tanto Hayden Hurst quanto Mark Andrews vieram do draft, dando a perspectiva de que os Ravens conseguirão ameaçar o seam, algo que não acontecia desde aquela época em que Dennis Pitta estava vivo.

De qualquer forma, embora não pareça um cenário completamente animador, as perspectivas são melhores do que as oferecidas por Mike Wallace, Jeremy Maclin e Breshad Perriman (in memorian) em 2017 – e também não é como se piorar fosse uma opção.

Pelo chão, Baltimore redescobriu o jogo corrido após dois anos fedendo. Alex Collins, que chegou no início de setembro após ser chutado de Seattle, correu para 973 jardas e seis TDs, deve continuar sendo a primeira opção, afinal os Ravens parecem acreditar que o desempenho de Alex não se trata de um ponto fora da curva, mas sim que este pode inclusive crescer se ele permanecer saudável. Kenneth Dixon também está voltando de lesão, mas resta saber se John Harbaugh confiará no menino (spoiler: não).

Já a OL, que permitiu menos de 30 sacks no último ano, traz Marshal Yanda e Alex Lewis de volta dos mortos – parece, porém, não ser suficiente, já que gente como Matt Skura e James Hurst tendem a ser incapazes de bloquear um pato manco.

Se nada der certo, já sabemos o que esperar: basta chegar ao meio do campo e esperar Justin Tucker fazer alguma mágica.

Ponto de equilíbrio

Os Ravens seriam um fracasso se sua defesa fossa abaixo da média – o que está longe de ser o caso; o sistema defensivo, que retorna praticamente intacto, permite que a equipe se mantenha competitiva: Baltimore cedeu o sexto menor número de pontos em 2017 (18.9) e liderou a liga em takeaways (34). Mas quando a pressão aumentou, a corda estourou; como nos momentos finais do duelo contra o Steelers em dezembro, ou o já citado CREPÚSCULO DE ANDY DALTON, quando um TD de 49 jardas deixou a equipe fora da pós-temporada.

De qualquer forma, a secundária é a força motriz do sistema: Jimmy Smith é um ótimo CB e Marlon Humphrey, que já impressionou em sua temporada de estreia, deve evoluir ainda mais. Tavon Young também retorna de lesão e dá ainda mais profundidade para o setor. Já o grupo Safeties tem talento de sobra em Eric Weddle e Tony Jefferson.

A DL ainda é capaz de pressionar os QBs adversários, graças a Terrell Suggs – que mesmo já cruzando a barreira dos 35 anos, vem de uma temporada com mais de 10 sacks. Além disso, Baltimore cercou Suggs com diversos jogadores jovens e talentosos, para aprender com um dos melhores atletas da posição: Matt Judon, Za’Darius Smith, Tim Williams e Tyus Bowser podem aproveitar muito a presença de Terrell – Judon, aliás, teve 8 sacks em 2017.

O corpo de LBs, porém, levanta algumas dúvidas: CJ Mosley é um monstro, mas não esteve em sua melhor forma no último ano – sobretudo graças a uma cirurgia no ombro. Ele deve retornar melhor, claro, mas outros nomes do setor, como Patrick Onwuasor (fede), tem sido uma decepção até aqui.

Palpite:

Os Ravens, por muito tempo, recusaram-se a partir para mudanças drásticas, sempre afirmando que estavam a um ou dois jogos dos playoffs (o que, enfim, não deixou de ser verdade). Mesmo assim, desde que venceu o SB XLVII, Baltimore está 40-40 na temporada regular – ser medíocre é uma boa opção na vida de uma pessoa comum, mas parece não ser uma estratégia inteligente em esportes profissionais. De qualquer forma, tudo passa por Joe Flacco: se ele redescobrir sua capacidade de conectar grandes jogadas (agora sem a importante ajuda de Rahim Moore), é possível brigar por playoffs. Se ele não o fizer, bem, pode ser a hora de começar a olhar para Lamar Jackson com mais carinho – talvez seja o que acontecerá após um 8-8.

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