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(De novo) esperando que ninguém se machuque de novo

Expectativa é algo recorrente no Houston Texans, especialmente porque, nos últimos anos, a franquia tem ostentado alguns dos melhores elencos da NFL. Mas como na offseason todos os times são bons, nem sempre essa realidade permanece quando a temporada se inicia.

Problemas médicos

Um dos principais fatores para que os Texans assustem tanto a cada offseason e não correspondam à expectativa (além de serem os Texans) em setembro são os frequentes problemas de lesões que acometem o time ao longo das últimas temporadas.

Quase como uma “maldição”, Houston sofre com a perda de jogadores importantes à medida em que se aproxima a hora em que a “onça bebe água”. Na última temporada, tivemos Whitney Mercilus, Deshaun Watson, C.J. Fiedorowicz, Devin Street, D’Onta Foreman e J.J. Watt (esse já sócio do departamento médico) frequentando a Injury Reserve em algum ponto da temporada.

Watt, franchise player dos Texans desde que Andre Johnson parou de ser o santo milagreiro da casa, esteve em campo por apenas oito jogos nas últimas duas temporadas. Jadeveon Clowney sofreu com lesões graves em seus primeiros anos antes de começar a causar impacto na defesa.

JJ, aliás, jogador espetacular dentro e fora do campo, talvez já tenha passado de seu auge físico e técnico por causa das sucessivas graves lesões, algo a se confirmar quando a temporada começar de fato (você viu primeiro aqui).

Tentando ISOLAR as lesões.

Quando as coisas pareciam se ajustar em meio a esse turbilhão que mais parecia um episódio old school de House, e um sopro de esperança parecia se desenvolver em Deshaun Watson, o QB, responsável por um dos jogos mais espetaculares da temporada em 2017, machucou-se exatamente na semana seguinte, rompendo o ligamento cruzado anterior em uma sessão de treinos individuais. Fim de temporada para o calouro, que no momento da lesão, mostrava-se uma das histórias mais sensacionais daquele ano.

Watson vem para a temporada de 2018 com um histórico de ruptura do ligamento cruzado anterior nos dois joelhos, um deles à época em que jogava na universidade de Cleiton, Clemerson, CLEMSON.

O azar em Houston não chega ao nível do Chargers (esse, que aparentemente trocou a saúde de seus jogadores pelo direito de se mudar de cidade), mas o front office aparentemente não se ajudou. Assim como o Vasco contratou Marcelo Oliveira em 2013 após este ser BI-VICE da Copa do Brasil pelo lendário Coritiba-que-chegou-duas-vezes-seguidas-na-final-da-Copa-do-Brasil, os Texans contrataram Tyrann Mathieu, chutado de Arizona pelos constantes problemas de lesão. Um casamento perfeito. Unha e carne.

As entradas

Além do Texugo do Mel™, outras chegadas interessantes em Houston se dão pelo CB Johnson Bademosi e o OG Zach Fulton (fingimos que os conhecemos pra parecer que estudamos o jogo). O time renovou os contratos do CB Johnathan Joseph, um dos melhores da defesa, e do punter já idoso Shane Lechler.

Os Texans não tiveram a escolha de primeira rodada devido à troca do ano anterior, que resultou na escolha de Deshaun Watson. A primeira pick foi apenas na 68ª escolha, o safety Justin Reid, de Stanford. Com outras duas escolhas ainda na terceira rodada, vieram o T Martinas Rankin, de Mississippi State e TE Jordan Akins, de Central Florida.

Jogadores escolhidos no terceiro dia do draft raramente prosseguem na NFL, então não vamos fingir que entendemos sobre eles. Talvez o DE Duke Ejiofor seja um nome em que o caro leitor se lembre, devido a algum Bowl suspeito visto na TV no final do ano passado.

As saídas

Após ter garantido a vida das próximas três gerações da família Osweiler, os Texans basicamente pagaram uma escolha de segunda rodada para o Cleveland Browns a fim de se livrarem do cap hit e, principalmente, da ruindade do “jogador”.

Outras perdas notáveis se deram pela aposentadoria do TE C.J. Fiedorowicz e pela dispensa do LB Brian Cushing. Este último era um frequentador do tópico de lesões no início do texto, mas ainda assim, uma perda importante de liderança na defesa e daqueles companheiros de equipe que querem crescer seus músculos “naturalmente”.

Um ataque para chamar de seu

Após anos jogando bola trajando chinelo, Bill O’Brien finalmente ganhou uma chuteira oficial em 2017 com a aquisição de Deshaun Watson. Junto com Lamar Miller, D’Onta Foreman e DeAndre Hopkins, o ataque dos Texans parecia ser uma das boas notícias da temporada. Três vitórias e três derrotas antes da bye-week, e um jogo sensacional de Watson contra uma defesa de Seattle que, até aquele momento, ainda não havia sucumbido.

Entretanto, tudo se perdeu como lágrimas na chuva quando Deshaun estourou o joelho nos treinos. A partir de então, os Texans venceram apenas uma das nove partidas restantes. A esperança é a última que morre, então o torcedor espera que as peças do ataque, principalmente os calouros, retornem saudáveis para que a boa impressão deixada nas primeiras semanas de 2017 seja o que esse time verdadeiramente é. 

DeAndre Hopkins assumiu o fardo de ser o principal recebedor da equipe após a saída de Andre Johnson em 2015, e produziu números significativos em suas temporadas, por pior que fosse o cidadão que lançasse (ou pelo menos tentasse jogar) a bola em sua direção.

Seu pior desempenho desde o ano de calouro foi exatamente em 2016, quando ocorreu o experimento Brock Osweiler. Em contrapartida, produziu mais de 1000 jardas nas temporadas restantes. Will Fuller aparece como um bom coadjuvante no grupo de recebedores, tornando o ataque muito perigoso verticalmente.

“Poderia jogar a próxima mais na minha direção, por favor?”

Um ataque de propensão vertical precisa que o QB seja hábil o suficiente para se esquivar e uma linha que bloqueie razoavelmente (veja que, por falta desse item, Andrew Luck deixou este mundo). Entretanto, a linha ofensiva dos Texans foi problemática em 2017. O Center Nick Martin talvez seja o melhor bloqueador da unidade, enquanto paira a incerteza de se os reforços trarão o impacto (positivo) necessário.

No backfield, D’Onta Foreman, Alfred Blue e Lamar Miller dividirão snaps. Enquanto Foreman se recupera de uma ruptura de tendão de aquiles ocorrida em novembro, Miller perdeu carregadas para Blue, que apesar de bom, não é tanto assim. Essa é a receita preparada para que Deshaun Watson seja bastante exigido a sair do pocket, o que não é muito recomendável quando se já teve os dois joelhos reconstruídos cirurgicamente.

Uma defesa em busca de afirmação 

Durante os anos em que não teve um QB, Houston, como todo bom menino mimado, decidiu que ninguém poderia ter um e, portanto, buscou construir uma defesa com uma única missão: assassinar os signal callers adversários.

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Com as lesões de Whitney Mercilus e JJ Watt, além das perdas na secundária, que caiu da melhor contra o passe para apenas a 24ª no quesito em apenas um ano, a defesa, outrora poderosa, virou um ponto de interrogação. Jadeveon Clowney se tornou um lobo solitário. Entretanto, acredita-se que Mercilus e Watt retornem 100% ao início da temporada, resta saber se os mesmos permanecerão saudáveis. Em uma defesa com atletas que jogam com muita intensidade física e são excelentes tackleadores, lesões são risco a se assumir.

A tabela

Um fator muito importante, que às vezes é deixado de fora da análise, é a ordem dos jogos na tabela. Uma sequência de jogos positiva ou negativa pode influir mentalmente no time, ditando assim o rumo de sua temporada. No caso dos Texans, três dos quatro primeiros jogos são fora de casa, um deles em New England (onde os bons morrem cedo). Apesar dessa sequência forte no início, a coisa deve se tornar mais tranquila ao decorrer da temporada.

Palpite

Expectativa é a mãe de todas as derrotas, e uma tabela desfavorável deve complicar as coisas para os Texans em uma disputa pela divisão, enquanto os Jaguars possuem um dos melhores elencos da NFL e os Colts rezam para que ocorra o milagre da vida com Andrew Luck. Um ataque com propensão vertical e uma linha com problemas na proteção do passe devem ser fatores que limitarão o desempenho de Deshaun Watson, que ficará sobrecarregado se o trio de running backs não cooperar. Uma campanha 9-7 ou 10-6 deve ser a realidade em Houston, enquanto eles precisarão fazer contas no mês de dezembro para saber o record será suficiente para vencer uma divisão que deve ser embolada. Talvez o time descole uma vaga marota no Wild Card da poderosíssima-mas-só-que-não AFC.

Bons e maus negócios: Texans, Brock Osweiler e o Browns

Na NFL, assim como no mundo empresarial, existem bons e maus negócios. Também há negócios horríveis e há, ainda, aqueles que se revelam tão desgraçados que uma das partes envolvidas precisa assumir o erro e apenas se livrar dele – porque, afinal, um erro por si só pode ser compreensível, mas insistir nele é imperdoável.

O melhor exemplo destas negociações vergonhosas foi protagonizado pelo Houston Texans, e o atestado de culpa foi o envio de Brock Osweiler (e uma escolha de segunda rodada no draft de 2018) para o Cleveland Browns para simplesmente se livrar de seu contrato – e, claro, de um quarterback com aparentes problemas de coordenação motora.

Paralelamente, isso significava também que os Texans estariam preparando terreno para receber Tony Romo (o que, pouco mais de um mês depois, ainda não ocorreu – mas aguardemos com a devida paciência. Nota: aguardamos e um dia após a publicação destas tortas linhas, Antonio Ramiro se aposentou. Chupa, Texans!): seria um ajuste perfeito para uma equipe que nas últimas temporadas construiu uma das melhores defesas da liga e possui talentos razoáveis em diversas posições ofensivas; DeAndre Hopkins é inegavelmente um dos grandes WRs da NFL e Lamar Miller, senão entrará para a história, ao menos é um ótimo RB.

O problema é que, em 2016, tudo isso esteve à disposição de um QB abaixo da linha de mediocridade, que após faturar um Super Bowl graças a Von Miller e amigos, garantiu quase US$40 milhões em sua conta bancária. E, após sua primeira temporada como titular, com média de 5.8 jardas por tentativa, só foi melhor do que Ryan Fitzpatrick – o que sabemos, não quer dizer nada.

O último ato

Houston chegou a semifinal da AFC e o jogo que pôs fim a temporada do Texans é um retrato perfeito da franquia nos últimos anos: o sistema defensivo interceptou Tom Brady duas vezes naquela tarde de sábado (igualando o que o então futuro MVP do Super Bowl tinha feito em toda a temporada). No que essas interceptações resultaram? Dois field goals. E embora o placar final, 34 a 16 para New England, não mostre, até o Super Bowl Houston fora o adversário que mais proporcionara problemas para o Patriots na pós-temporada.

Agora, em uma análise fria graças a distância temporal, fica ainda mais nítido que o desempenho de Houston foi traído por um ataque comandado por Brock Osweiler, que converteu apenas três de 16 terceiras descidas. Foi um choque de realidade, um pequeno novo lembrete do quão distante eles estão de se tornarem contenders, afinal, ali estava evidenciado que com uma defesa deste nível, até mesmo um ataque minimamente eficiente poderia ter causado reais problemas para o Patriots – no entanto, no final da história, eles conseguiram apenas 285 jardas totais e 16 pontos.

Alô, galera de cowboy!

Choque de realidade

Brock terminou sua última partida com a camisa do Texans com média inferior a 5 jardas por tentativa (198 em 40 passes), um TD e 3 INT. Ele teve um bom momento, um passe profundo para o touchdown de Will Fuller, mas foi apenas um lampejo, logo apagado porque por quase 60 minutos ele foi o mesmo quarterback que havia sido o ano todo.

Lamar Miller, Jadeveon Clowney e DeAndre Hopkins, nos seus melhores anos, tiveram mais uma temporada desperdiçada (JJ Watt, o deus, lesionado, tinha o 2016 jogado no lixo já, o que não deixa de ser uma desculpa). E se o trabalho de Bill O’Brien parecia seguro – merecidamente – agora havia o que se questionar: por três anos ele conseguiu extrair o máximo de uma equipe com péssimos quarterbacks, mas seu papel na contratação de Brock não havia sido preponderante?

Era evidente que todos os fatores envolvendo Osweiler colocavam o Texans em uma situação complexa: uma grande defesa, bons talentos ofensivos, mas tudo isso preso a um QB inerte?

O processo

Assim que a notícia da troca entre Texans e Browns se tornou pública, as especulações de que Cleveland nem mesmo manteria Brock em seu roster ganharam a internet; mesmo que fosse preciso desperdiçar alguns milhões de dólares mantendo ou dispensando Osweiler, Cleveland tinha essa flexibilidade e os ganhos nos próximos drafts compensariam qualquer movimento.

De qualquer forma, a negociação apenas evidenciou o processo que o Browns estava adotando (algo semelhante ao que Sam Hinkle fez com o Philadephia 76ers na NBA): desde o início eles sabiam que Osweiler não seria o futuro da franquia, que Brock sequer seria um QB decente, mas eles sabiam que precisavam “queimar” US$100 milhões na próxima temporada e, graças a isso, conseguiram mais um ativo valioso.

Inegavelmente, é um processo de reconstrução genial para uma franquia que por muito tempo não passou de uma piada: nos dois próximos drafts, Cleveland terá 11 escolhas em cada um deles; dez delas nas cinco primeiras rodadas deste ano, e 8 nos cinco rounds iniciais de 2018.

Tem sido assim desde que Paul DePodesta, ex-MLB, assumiu o comando de Cleveland: independente do que o Browns faça com Osweiler, é uma tentativa válida. Nenhuma equipe da NFL tentou o que ele vem tentando. Obviamente, outras equipes flertaram com a linha da mediocridade por longos períodos, mas nenhuma equipe buscou reconstruir seu futuro ao redor de jovens escolhas de forma tão intensa: eles possuem a escolha de primeira rodada do Eagles e a de segunda de Tennessee em 2017, as escolha de segunda rodada de Houston e do mesmo Eagles em 2018 e até mesmo a escolha de quarta rodada do Panthers, que conseguiram em uma troca por um punter. Sim, um punter!

Não foque no óbvio, que o Browns buscaram em Osweiler um quarterback, posição que tem sido a encarnação de todas as falhas da franquia ao longo dos últimos anos. Concentre-se no quão profundo é o movimento: os Browns estão aberto a negócios ou dispostos a preencher salary cap em troca de picks. Para eles, não é um negócio sobre Osweiler, se ele permanece ou seguirá seu caminho: ele é apenas um bônus – na medida em que um quarterback com problemas de coordenação motora pode ser considerado um bônus, mas ainda um bônus.

“Que porra é essa?”

Novas perspectivas

Olhando em retrospecto a contratação de Osweiler se tornou uma piada, mas não se pode criticar a tentativa de Houston – poderíamos, claro, se eles não tivessem reconhecido o erro. De qualquer forma, contratá-lo após meia dúzia de partidas em que, evidentemente, foi carregado por uma das grandes defesas da história em seu auge, foi apenas um reflexo do que a NFL se tornou: uma liga desesperada por quarterbacks, afinal, o número de tentativas de passes cresceu aproximadamente 20% na última década; infelizmente, para as equipes, o crescimento do número de bons QBs não acompanhou esta demanda e o resultado disto é que, para preencher a posição mais importante do jogo, vemos alguns absurdos, como o próprio Brock ganhando mais dinheiro do que Russel Wilson em 2017.

É extremamente raro franchise quarterbacks chegarem a free agency, então é natural que erros sejam cometidos. O Chicago Bears, por exemplo, foi maltratado por Jay Cutler por quase uma década após uma tentativa frustrada. Houston errou, mas seu erro não mudou só a franquia, alterou também a NFL.

Podemos então traçar um paralelo com Kirk Cousins: o quarterback do Washington Redskins está longe de ser um gênio, mas por outro lado, possui um histórico real e efetivo de adaptação – o que de cara já prova que ele é muito superior a Brock. Então, mais uma vez, foi preciso usar a franchise tag em Cousins e ele será pago como um franchise quarterback.

O exemplo do que ocorreu com o Texans em 2016 assusta qualquer franquia minimamente séria: não ter um quarterback confiável pode ser um pesadelo; não é uma opção viável. E seria ainda mais terrível para Washington, que vem lutando por vaga na pós-temporada a quatro anos, com mais acertos do que erros.

Cousins sabe que está em um nível intermediário entre as grandes estrelas e um mercado recheado de mediocridade e o medo do desconhecido, de repetir erros do passado, lhe dá o poder necessário para ficar milionário. E, claro, ele gosta disso.

O sistema defensivo de Houston é outro que, paradoxalmente, foi auxiliado pelo fator Osweiler: sem JJ Watt e liderados por Jadeveon Clowney e Whitney Mercilus, eles cederam o menor número total de jardas na última temporada. E também foram a segunda melhor unidade contra o passe. Mas nada disso pesa mais que a “estatística de vitórias apesar de Brock Osweiler”: foram nove!

Até mesmo John Elway, GM do Denver Broncos, pode comemorar – mesmo que o The Denver Post afirme que Elway tentou segurar Brock, mas ele preferiu a proposta de Houston. “Muitas vezes os melhores negócios são aqueles que você não faz”, justificou em meados de setembro passado. Já o Browns, como mencionamos, ganhou escolhas e melhores perspectivas para o futuro.

O maior vencedor e os perdedores

Nada que Brock Osweiler mostrou em 2016 e mesmo que ele inicie a temporada como titular no Browns, indica que ele terá perspectivas futuras na NFL; na verdade, tudo nos leva a crer que ele será mais um jogador cuja carreira será definida por um contrato ruim. Dentro de campo, em dezembro, ele já era reserva de Tom Savage. E só recuperou a posição graças a uma concussão de Tom.

Mas nada disso importa, já que mesmo sem capacidade mental para lançar um passe, mesmo sendo um dos piores QBs da atualidade, Brock Osweiller pode dizer que venceu um Super Bowl e está milionário – enquanto nós nos divertimos falando mal dele de graça e nunca mais teremos de volta aquelas tardes de domingo em que ele maltratou nossos olhos.