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Ainda odiados, cada vez melhores: nada muda em New England

Não somos fãs de discussões definitivas sobre aqueles que são, eventualmente, os melhores da história dentro de campo – invariavelmente, não se chega a lugar algum: Manning pode ter sido melhor que Brady e, na verdade, isso pouco importa. Hoje, e talvez até mesmo quando o sol engolir o planeta terra e todos derretermos, pode ser possível que Rodgers seja enfim considerado um atleta melhor e mais completo que Brady. Ou tudo isso é um misto de delírio e negação e, bem, Brady é melhor que Montana, Elway e Marino somados.

O fato é que se dentro das quatro linhas sempre haverá margem para discussões, fora delas, Bill Belichick construiu um império particular capaz de suplantar qualquer dúvida: em 17 anos, o New England Patriots têm 15 títulos de divisão, chegou no AFC Championship Game 12 vezes e ao Super Bowl outras sete – o número de anéis, claro, você já sabe de cor.

Falando em números, quando isolamos as conquistas do Patriots – e as quantificamos – em um recorte de tempo histórico, eles soam ainda mais irritantes. E ainda assim, não são capazes de contar a história em sua totalidade.

O domínio na AFC é produto direto da máquina que Bill construiu e aperfeiçoou a cada temporada – ele é o Head Coach, o GM e, por um momento, também foi coordenador defensivo; hoje ele talvez mande mais que Robert Kraft e ninguém saiba.

E enquanto é possível comparar jogadores, é quase impossível colocar Bill ao lado de outras treinadores e traçar comparações sólidas: não há HC na NFL contemporânea que sequer se aproxime de seus êxitos e, caso voltemos muito no tempo, pesará a seu favor a longevidade; enquanto grandes nomes como Vince Lombardi e Bill Walsh estiveram na NFL por uma década, nada indica que Belichick não chegará aos 20 anos comandando o Patriots – e, nas próximas semanas, ao seu oitavo Super Bowl, com o sexto título conquistado.

Sim, se existe uma sabedoria popular que deveria ser incorporada ao imaginário coletivo é esta: quando antes você aceitar seu triste destino, menor será frustração. Pode soar duro, mas é a mais pura verdade: estamos todos prestes a entrar em uma realidade em que Brady e Belichick venceram o Super Bowl seis vezes.

Bem louco.

Por que pode dar errado?

A sabedoria popular também nos ensina que quando tudo parece que dará errado é preciso se apegar ao passado. Mesmo dominantes, as derrotas de New England contaram com, claro, o destino: David Tyree recebeu um passe com o capacete, Asante Samuel caiu em desesperança, Randy Moss não alcançou bolas que normalmente alcançaria. Tudo ao mesmo tempo.

Enfim, mesmo para as equipes que costumeiramente estão no topo, algumas vezes, vencer ou perder pode ser determinado por um capacete.

Por que o Patriots vencerá?

Porque, afinal, está é a ordem natural das coisas: nada parece estar acontecendo e, mesmo assim, o New England Patriots está no topo da NFL. Eles podem não ter Tom Brady por quatro jogos, mas Brissett ou Jimmy G (também conhecido como o homem mais lindo que já pisou na terra) darão conta do recado.

Você também pode não ter escolhas de primeira rodada no draft e, mesmo assim, o planeta continuará girando normalmente: tudo está sempre sob controle e nada fará com que a franquia faça uma movimentação desesperada. Com o Patriots aprendemos sempre a esquecer o presente, afinal, eles estão sempre um passo a frente.

É tudo resultado de um longo processo, que pode parecer complexo, mas na verdade é essencialmente simples: faça as coisas certas, repetidamente. Em algum momento elas já funcionaram e você sabe o resultado final. Repita o processo ao longo dos anos e, invariavelmente, os resultados aparecerão.

Lógico, é impossível vencer sempre: times comuns implodem ao não saber lidar com suas frustrações, além de não ser possível controlar todos os fatores, como o capacete de Tyree ou as mãos de Wes Welker.

Ao olhar o sucesso do Patriots, entendemos porque nos desesperamos com os altos e baixos das demais franquias: é inacreditável o que o Vikings vem fazendo, mas parece que, para eles, é a última oportunidade de alcançar a glória – e, caso ela não venha, tudo será implodido. Lembramos que, por muito tempo, Indianapolis rodeou Peyton Manning por idiotas sem a mínima coordenação motora e esperou que seus milagres se repetissem até fevereiro. Ou ainda ficamos pasmos ao sermos confrontados com a ideia de que o Packers está desperdiçando os melhores anos de Aaron Rodgers com uma defesa, ano após ano, composta exclusivamente por débeis mentais.

Enquanto isso, em New England, absolutamente nada sai de controle.

Esperança.

O que nos resta?

O esporte é usado como válvula de escape para nossas frustrações, então é difícil, mas compreensível, aceitarmos o sucesso alheio repetido exaustivamente diante de nossos olhos. Queremos esforço coletivo e jornadas heroicas; queremos que David derrube Golias com uma frequência quase diária – para que assim possamos nos sentir vingados, seja de um boleto atrasado, de um chefe babaca ou do aumento da gasolina.

Por que alguns têm tanto enquanto nós temos tão pouco? De certa forma, a inveja é essencial para a evolução humana. Schadenfreude, palavra alemã que emprestamos para um segmento de nosso podcast (e o resto da civilização também emprestou para usar como julgar melhor), refere-se basicamente à felicidade que sentimos com a desgraça alheia.

Algo, ao mesmo tempo, humano e desprezível, mas que, de alguma forma, tentamos transparecer ainda mais no esporte, ainda mais em nossa relação com o New England Patriots: assim como o resto da liga, queremos ver seu reinado em chamas – mas ao mesmo tempo, podemos deixar esse egoísmo de lado e apreciar um momento tão raro como este, aproveitando o que resta disso: nenhuma dinastia dura para sempre.

A do Patriots, por exemplo, deve durar só mais uma década ou duas décadas. Começando no próximo dia 4.

OBS: se Blake Bortles e os Jaguars vencerem domingo, por favor, esqueçam esse monte de merda.