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Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Análise Tática #25 – Parte 4: O ataque do New England Patriots

Metamorfose. A unidade comandada por Tom Brady e coordenada por Josh McDaniels mostra, além de tudo, ser a prova do tempo e imprevisível. O time é capaz, mais do que qualquer outro na liga já foi, a ajustar adequadamente a cada adversário e explorar suas fraquezas.

O Patriots já foi um time de spread offense no início da década, aplicou bastante 12 personnel quando Rob Gronkowski e Aaron Hernández jogavam juntos, utilizou de run-heavy para vencer os Colts na final de conferência em 2014. Nos playoffs, New England utilizou bastante formações com dois running-backs contra os Titans e contra os Jaguars valeu-se bastante dos passes em rotas cruzadas.

E esse filme se repete há 18 anos. Domingo será a oitava aparição em Super Bowl da dupla Bill Belichick e Tom Brady, e na maioria delas o time manteve o grau alto de desempenho. Se nos três títulos entre 2001 e 2004 a fortaleza do time era a defesa, no Super Bowl XLIX e LII, o ataque fez seu trabalho. Esse cenário se repetirá no US Bank Stadium no domingo, com Tom Brady sendo responsável por comandar o melhor setor do time.

Estatísticas

Os Patriots conseguiram 8 touchdowns na pós-temporada, sendo 5 passados por Tom Brady e 3 corridos. Brady não foi interceptado e o único giveaway dos Patriots foi um fumble cometido Dion Lewis contra os Jaguars.

Passes para Running Backs

Utilizar os jogadores de backfield no jogo aéreo é uma arma utilizada por vários times da liga. Masterizado pela West Coast Offense de Bill Walsh, o passe para RBs é uma forma de criar uma dimensão extra para a defesa ler, aumentando as possibilidades de sucesso das jogadas.

O Patriots extrapola a dimensão do passe para RBs com o conceito jet-sweep. Trick plays são sempre pontos utilizados como inversores de fase no jogo, uma forma de “tapa na cara” do adversário.

A Jet-Sweep consiste em uma forma de passe parecido com o levantamento do vôlei. Um jogador sai em motion em direção ao quarterback, e no momento em que ele se encontra, sai o snap. O QB toca a bola com a ponta dos dedos e o ballcarrier a pega no ar. Com a bola na mão, o RB corre uma rota wheel na direção oposta do campo, como se fosse um end around.

Nesse outro exemplo, o Patriots ataca o flat a partir do playaction em uma jogada que deveria ser de passe longo mas as opções estão marcadas. Os Titans estão sem safeties por estarem preocupados com o jogo corrido nesse ponto da partida, aspecto básico do futebol americano.

Tom Brady se livra da pressão e encontra Dion Lewis para um ganho de 8 jardas.

Rob Gronkowski como eixo motor

Falar sobre como Gronkowski é bom é chover no molhado. O TE é uma aberração física, criando um matchup desfavorável em 90% das defesas da NFL, mesmo após tantas lesões.

Bill Belichick investiu no TE após a derrota contra os Jets no divisional round de 2011. A partir daquele momento, o Patriots fez a transição do spread offense para um ataque de rotas mais curtas. Como diz Chris B. Brown em “The Essential Smart Football”, Belichick usa os TEs para tornar o ataque flexível mesmo com um set pesado, sendo capaz de receber passes e bloquear com a mesma excelência.

Isso nos ajuda a entender como Belichick trata seus RBs como assets descartáveis, ao mesmo tempo em que tem apreço por seu QB e seu TE. Mesmo se não fossem talentos geracionais dentro de suas posições, as tarefas que esses dois desempenham no ataque são primordiais para a execução do mesmo. Belichick pensa primeiro nas tarefas, ter dois talentos absurdos executando as mesmas é quase como um bônus que ninguém é tolo de recusar.

Simplesmente marcar Rob Gronkowski seja individualmente ou em zona é uma tarefa quase impossível. Além disso, Belichick e Josh McDaniels ainda potencializa ao máximo as chances de seu TE na jogada chamando um slant-flats.

Aqui, basta Tom Brady mandar um backshoulder fade e esperar que seu jogador ganhe a bola na força física. Basicamente, se um jogador tentar defender esse passe, fará uma falta de interferência, colocando os Patriots na linha de gol. Exemplo de como o Patriots é tão dominante por tanto tempo, um time que além de ter bons jogadores, ainda utiliza o sistema para maximizar suas habilidades.

Ajuste às necessidades

Em boa parte do AFC Championship Game os Patriots estiveram sem Rob Gronkowski, que saiu do jogo por concussão. Em parágrafos anteriores, eu disse que Gronk é o ponto central do ataque (à exceção do quarterback), então como o Patriots conseguiu a virada sem seu principal recebedor?

Bem, é de conhecimento geral que os Patriots são o time que melhor ajusta o plano de jogo de acordo com a situação. É talvez a capacidade que mais importa pelo fato de essa dinastia durar tanto tempo. Quando Gronkowski saiu do jogo, Josh McDaniels passou a colocar em campo sets mais variados de recebedores, bem como a habilidade dos mesmos em rotas curtas. Forma semelhante à que utilizou para combater a Legion of Boom no Super Bowl XLIX.

A jogada acima mostra as rotas utilizadas no primeiro touchdown de Danny Amendola no jogo contra os Jaguars. Sem Edelman, Amendola foi o responsável por usar as rotas de opção com cortes curtos ao longo da temporada. Aqui, ele corre uma shallow cross contra uma marcação em zona, e reagindo ao posicionamento em zona dos linebackers, cruza o campo inteiro. As demais rotas têm o objetivo de atrair os jogadores dos Jaguars para o fundo da endzone.

Observe que Brady poderia ter tentado o backshoulder fade em Brandin Cooks alinhado de Split-end, mas esse é um passe de baixa taxa de conversão. Ele espera a segunda leitura e conta com Amendola ganhando jardas após a recepção para o touchdown.

O TD da virada contra os Jaguars é mais um exemplo de como Brady tem a paciência de esperar a melhor opção para o passe aparecer livre, bem como o excelente trabalho de Dante Scarnecchia com a linha ofensiva ao permitir que isso aconteça. Duas rotas dig ao fundo da endzone enquanto Cooks corre uma slant/out.

Brady espera Amendola aparecer em cima do “P de Patriots” na endzone e manda o passe perfeito, o tipo de conexão que só é possível graças à capacidade do QB de antecipar esse momento. Vitória por 24 a 20 e os Patriots vão para o oitavo Super Bowl comandados por Bill Belichick.

Pontos-chave para o Super Bowl

É tolice não considerar os Patriots como favoritos no Super Bowl LII, ao mesmo tempo que também não se deve descartar o trabalho dos Eagles. Conter o poderoso front seven dos Eagles é uma necessidade. David Andrews terá um trabalho primordial contra Fletcher Cox no A-Gap.

Ano passado em Houston vimos um Patriots que parecia despreparado (uma novidade) contra os Falcons e que conseguiu fazer história graças aos ajustes de intervalo. Esse tipo de previsão não é possível de ser feita, já que seria pretensão afirmar que os técnicos não se preparariam adequadamente para um jogo da grandeza do Super Bowl.

Com Gronkowski fora do protocolo de concussão, o TE terá sua segunda atuação na grande final totalmente saudável fisicamente, já que esteve fora ano passado e jogou machucado no Super Bowl XLVI, em Indianapolis. O terror dos matchups será mais uma vez o eixo motor dos recebedores do New England Patriots.

 

Ainda odiados, cada vez melhores: nada muda em New England

Não somos fãs de discussões definitivas sobre aqueles que são, eventualmente, os melhores da história dentro de campo – invariavelmente, não se chega a lugar algum: Manning pode ter sido melhor que Brady e, na verdade, isso pouco importa. Hoje, e talvez até mesmo quando o sol engolir o planeta terra e todos derretermos, pode ser possível que Rodgers seja enfim considerado um atleta melhor e mais completo que Brady. Ou tudo isso é um misto de delírio e negação e, bem, Brady é melhor que Montana, Elway e Marino somados.

O fato é que se dentro das quatro linhas sempre haverá margem para discussões, fora delas, Bill Belichick construiu um império particular capaz de suplantar qualquer dúvida: em 17 anos, o New England Patriots têm 15 títulos de divisão, chegou no AFC Championship Game 12 vezes e ao Super Bowl outras sete – o número de anéis, claro, você já sabe de cor.

Falando em números, quando isolamos as conquistas do Patriots – e as quantificamos – em um recorte de tempo histórico, eles soam ainda mais irritantes. E ainda assim, não são capazes de contar a história em sua totalidade.

O domínio na AFC é produto direto da máquina que Bill construiu e aperfeiçoou a cada temporada – ele é o Head Coach, o GM e, por um momento, também foi coordenador defensivo; hoje ele talvez mande mais que Robert Kraft e ninguém saiba.

E enquanto é possível comparar jogadores, é quase impossível colocar Bill ao lado de outras treinadores e traçar comparações sólidas: não há HC na NFL contemporânea que sequer se aproxime de seus êxitos e, caso voltemos muito no tempo, pesará a seu favor a longevidade; enquanto grandes nomes como Vince Lombardi e Bill Walsh estiveram na NFL por uma década, nada indica que Belichick não chegará aos 20 anos comandando o Patriots – e, nas próximas semanas, ao seu oitavo Super Bowl, com o sexto título conquistado.

Sim, se existe uma sabedoria popular que deveria ser incorporada ao imaginário coletivo é esta: quando antes você aceitar seu triste destino, menor será frustração. Pode soar duro, mas é a mais pura verdade: estamos todos prestes a entrar em uma realidade em que Brady e Belichick venceram o Super Bowl seis vezes.

Bem louco.

Por que pode dar errado?

A sabedoria popular também nos ensina que quando tudo parece que dará errado é preciso se apegar ao passado. Mesmo dominantes, as derrotas de New England contaram com, claro, o destino: David Tyree recebeu um passe com o capacete, Asante Samuel caiu em desesperança, Randy Moss não alcançou bolas que normalmente alcançaria. Tudo ao mesmo tempo.

Enfim, mesmo para as equipes que costumeiramente estão no topo, algumas vezes, vencer ou perder pode ser determinado por um capacete.

Por que o Patriots vencerá?

Porque, afinal, está é a ordem natural das coisas: nada parece estar acontecendo e, mesmo assim, o New England Patriots está no topo da NFL. Eles podem não ter Tom Brady por quatro jogos, mas Brissett ou Jimmy G (também conhecido como o homem mais lindo que já pisou na terra) darão conta do recado.

Você também pode não ter escolhas de primeira rodada no draft e, mesmo assim, o planeta continuará girando normalmente: tudo está sempre sob controle e nada fará com que a franquia faça uma movimentação desesperada. Com o Patriots aprendemos sempre a esquecer o presente, afinal, eles estão sempre um passo a frente.

É tudo resultado de um longo processo, que pode parecer complexo, mas na verdade é essencialmente simples: faça as coisas certas, repetidamente. Em algum momento elas já funcionaram e você sabe o resultado final. Repita o processo ao longo dos anos e, invariavelmente, os resultados aparecerão.

Lógico, é impossível vencer sempre: times comuns implodem ao não saber lidar com suas frustrações, além de não ser possível controlar todos os fatores, como o capacete de Tyree ou as mãos de Wes Welker.

Ao olhar o sucesso do Patriots, entendemos porque nos desesperamos com os altos e baixos das demais franquias: é inacreditável o que o Vikings vem fazendo, mas parece que, para eles, é a última oportunidade de alcançar a glória – e, caso ela não venha, tudo será implodido. Lembramos que, por muito tempo, Indianapolis rodeou Peyton Manning por idiotas sem a mínima coordenação motora e esperou que seus milagres se repetissem até fevereiro. Ou ainda ficamos pasmos ao sermos confrontados com a ideia de que o Packers está desperdiçando os melhores anos de Aaron Rodgers com uma defesa, ano após ano, composta exclusivamente por débeis mentais.

Enquanto isso, em New England, absolutamente nada sai de controle.

Esperança.

O que nos resta?

O esporte é usado como válvula de escape para nossas frustrações, então é difícil, mas compreensível, aceitarmos o sucesso alheio repetido exaustivamente diante de nossos olhos. Queremos esforço coletivo e jornadas heroicas; queremos que David derrube Golias com uma frequência quase diária – para que assim possamos nos sentir vingados, seja de um boleto atrasado, de um chefe babaca ou do aumento da gasolina.

Por que alguns têm tanto enquanto nós temos tão pouco? De certa forma, a inveja é essencial para a evolução humana. Schadenfreude, palavra alemã que emprestamos para um segmento de nosso podcast (e o resto da civilização também emprestou para usar como julgar melhor), refere-se basicamente à felicidade que sentimos com a desgraça alheia.

Algo, ao mesmo tempo, humano e desprezível, mas que, de alguma forma, tentamos transparecer ainda mais no esporte, ainda mais em nossa relação com o New England Patriots: assim como o resto da liga, queremos ver seu reinado em chamas – mas ao mesmo tempo, podemos deixar esse egoísmo de lado e apreciar um momento tão raro como este, aproveitando o que resta disso: nenhuma dinastia dura para sempre.

A do Patriots, por exemplo, deve durar só mais uma década ou duas décadas. Começando no próximo dia 4.

OBS: se Blake Bortles e os Jaguars vencerem domingo, por favor, esqueçam esse monte de merda.

Semanas #13 e #14: os melhores piores momentos

Depois de merecidas férias, voltamos com a coluna que já faz parte da cultura brasileira e é um patrimônio nacional.

Vamos direto ao que interessa.

1 – Fuck It, I’m Going Deep Fan Club

À essa altura, todos já aprenderam a amar e respeitar o Fã Clube que mais cresce no Brasil e no mundo.

1.1 – Semana 14

1.1.1 – Tom Brady

Mostrando que, cedo ou tarde, todos querem estar aqui.

1.1.2 – Jay Cutler 

Figurinha carimbada, não só por aqui, mas também na coluna. Repare na situação que Jay resolveu ir deep.

1.1.3 – Russell Wilson 

Intended for Jimmy Graham. Que ainda cometeu falta no lance. Não dá pra nos deixar mais felizes.

1.2 – Semana 13 

1.2.1 – Jay Cutler 

É claro.

1.2.2 – Blaine Gabbert

É claro. intensfies 

1.2.3 – Brett Hundley

A coluna sentirá saudades.

2 – Punts 

Você tira os olhos da TV por um instante e, quando olha, deu merda.

2.1 – Miami Dolphins (Semana 14) 

Fica feio por esse ângulo, né? Então… Só piora.

2.2 – Tennessee Titans (Semana 14)

Teve gente falando em Mike Mularkey pra Coach of the Year. Gente que foi PAGA pra isso.

2.3 – Carolina Panthers (Semana 13)

Aqueles deliciosos casos em que a descrição da jogada é tão boa que merece ser colocada aqui.

3 – Imagens que trazem PAZ.

3.1DeVante Parker (Semana 14)

Dar uma carada na bola infelizmente se mostrou uma estratégia falha para conseguir a recepção.

3.2 – Estatísticas (Semana 14) 

Porque sim.

3.3 – Por que jogar no Special Teams é uma merda (Semana 14)

3.4 – Joe Flacco (Semana 13) 

Faltaram palavras.

3.5 – A defesa dos Redskins (Semana 13)

Da série: estratégias ousadas que infelizmente falharam.

4 – Nossos lances preferidos 

4.1 – Semana 13: William Jackson

Porque cãibras mentais são reais.

4.2 – Semana 14: DeShone Kizer

Porque tudo nessa jogada é lindo. E porque é o Browns.

5 – Troféu Dez Bryant da Semana

Você já sabe do que estamos falando. Aquele jogador de nome que some quando seu time precisa.

Deixa o esquema tático pra depois. Os jogadores do outro time não são tão técnicos. Joga a bola no Dez Bryant. Vai sem medo…

Foram duas interceptações. Nenhuma terceira descida convertida. Um QBR que foi metade do de Jay f*cking Cutler. Por tudo isso, e mais (mais o quê especificamente preferimos não comentar), TOM BRADY vence o Troféu Dez Bryant, o único que faltava na sua coleção. Parabéns!

Mas o que é isso?

Podcast #6 – uma coleção de asneiras VI

Trazemos as análises mais acertadas do mundo sobre o último dia de trocas na NFL. E, de brinde, apresentamos algumas trocas que não aconteceram, mas gostaríamos de ter visto.

Em seguida, voltamos com o #spoiler: dessa vez, quais jogadores vencerão os prêmios de MVP, Defensive Player of the Year Offensive Rookie of the Year. Já pode fazer suas apostas que o dinheiro é garantido.

Depois abrimos espaço para cada um destacar uma pauta que chamou a atenção nessa temporada – inclusive uma tentativa medonha de defender o Cleveland Browns (!!!). Por fim, damos as tradicionais dicas de jogos para o amigo ouvinte ficar de olho nas próximas semanas. Só jogão.

Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos eternos amadores em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor (dessa vez acreditamos que foi bom, é um milagre).

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Jared Goff estrelando “O verdadeiro bust era Jeff Fisher”

O que faz um bom jogador? Talvez essa seja a pergunta mais difícil de se responder no futebol americano – e se soubéssemos a resposta já estaríamos ricos. Anualmente, milhares de jovens deixam suas faculdades para entrar na NFL, onde as franquias procuram filtrar esses atletas para selecionar os melhores. Mas como isso é feito? Algumas equipes apostam no atleticismo, outras apostam no conhecimento de jogo, outras no potencial e algumas tentam aliar as três características.

E, anualmente, percebemos que não sabemos qual desses atributos é o mais importante ao avaliar quem será a próxima estrela da liga. Tom Brady teve testes ridículos no Combine e seu talento não era visto por ninguém como algo transcendental. Mas o que permitiu a Brady atingir o (enorme) sucesso que ele alcançou?

Primeiramente, seu próprio mérito, principalmente o comprometimento com o jogo e como ele se prepara para ele. Além, claro do seu talento, temos que avaliar o contexto: quando estreou na liga, Tom não precisou carregar um bando de imbecis – o bando de imbecis não era um bando de imbecis, mas jogadores que ajudaram a tirar a pressão e o peso de seus ombros. Além disso, Brady contou uma comissão técnica extremamente eficiente e que permitiu a ele jogar de acordo com suas capacidades.

Nosso último texto também discutiu essa questão, ao abordar o caso de Alex Smith: até que ponto o ambiente em torno de um jovem prospecto influencia seu jogo? Mais uma vez, não sabemos a resposta exata para essa pergunta, mas uma coisa podemos ter certeza: é melhor ser treinado por Andy Reid e Jim Harbaugh do que por seja lá quem treinou Alex no início de sua carreira. Ou por Jeff Fisher.

Como tentar estragar a carreira de um jovem e ainda gastar múltiplas escolhas do draft no processo

Quando foi selecionado com a primeira escolha geral do draft em 2016, Jared Goff se encaixava na categoria do “jogador com potencial”. Sabia-se que ele era “cru”, muito em função do esquema em que estava inserido na faculdade. Jared talvez precisasse até mesmo não jogar em sua temporada de calouro, primeiro porque ele não tinha a capacidade de fazê-lo, segundo porque um ano ruim pode desgraçar a cabeça de alguém para sempre – e aí já era.

Os Rams sabiam de tudo isso quando escolheram Goff, mas o que talvez a franquia não sabia (nós sabíamos, você sabia, o mundo sabia) era que Jeff Fisher é um péssimo técnico. Além disso, na comissão comandada por Fisher, não havia nenhuma mente ofensiva brilhante capaz de ajudar a desenvolver o talento de seu quarterback: Rob Boras, o coordenador ofensivo, é hoje técnico de Tight Ends no Buffalo Bills. Chris Weinke, o técnico de QBs, é hoje “analista ofensivo” em Alabama (seja lá o que isso queira dizer).

Los Angeles até começou fiel ao plano de manter Jared no banco ao início da temporada, mas as atuações errantes de Case Keenum (mais um nome que compõe a lista de pessoas-que-você-não-quer-ensinando-o-seu-franchise QB) fizeram com que Goff assumisse a posição de titular. Vamos poupar sua visão dos números, mas acredite, eles são horríveis – coloque no Google estando ciente dos riscos.

Novos amigos

O tempo passou, Jeff Fisher (sdds) foi demitido e os Rams iniciaram o processo de consertar as merdas feitas. Abordamos elas aqui (spoiler: são muitas). A franquia sabia que poderia resolver todos seus problemas, mas de nada adiantaria se Jared Goff continuasse sendo um QB abaixo da linha da crítica (em linguagem popular: ruim para caralho). Para isso, o foco na contratação do novo treinador era apenas um: encontrar alguém que fosse capaz de fazer Jared jogar bola como gente.

Sean McVay foi o escolhido e teve a liberdade de remontar o ataque da forma como entendia (e ele entende para caralho). No draft (nós criticamos, é verdade) as escolhas de Cooper Kupp e Gerald Everett deram a Goff duas armas confiáveis: um TE  atlético e um slot receiver confiável (até certo ponto). Na free agency, o LT Andrew Whitworth foi contratado para melhorar uma linha ofensiva que era qualquer coisa, menos confiável.

“Aquilo ali é um hater?”

Esses movimentos têm se mostrado acertados: Kupp tem 19 recepções, 265 jardas e 2 TDs; Everett não tem números brilhantes, mas já foram três jogadas para mais de 20 e uma para mais de 40 jardas – em 2016 os Rams simplesmente não tinham peças explosivas como ele na posição. Já Whitworth tem sido sólido como era esperado, e se não sabemos como ele estará nos próximos anos em função da sua idade, pelo menos agora ele tem proporcionado mais segurança do que alguém como Greg Robinson (hahahahaha) um dia proporcionou.

Adicione a isso duas novas dimensões: Todd Gurley voltou a correr como gente e Sammy Watkins é uma ameaça perigosa. Gurley deixou o péssimo ano de 2016 para trás, e tem sido uma arma confiável tanto recebendo passes como correndo com a bola. Assim, o ataque fica mais balanceado e a ameaça de um jogo terrestre eficiente abre espaços para os Rams lançarem passes. Sammy Watkins ainda não teve uma atuação astronômica, mas seu talento e ameaça em profundidade abrem novas dimensões para o jogo de Los Angeles. Além disso, quantos jogadores na liga fazem jogadas como essa?

Os tempos de “dar um jeito de colocar a bola nas mãos de Tavon Austin” ser a principal jogada da equipe acabaram. Hoje, Austin é só mais um role player que, devido ao seu salário, mais um grande legado de Jeff Fisher, não deve durar muito tempo em Los Angeles.

Você é com quem você anda

Criada toda uma estrutura em seu entorno, Goff finalmente recebeu a oportunidade de brilhar: sua primeira partida no ano, um duelo contra os Colts de Scott Tolzien, serviu para dar confiança na temporada que começava; sua defesa jogou bem, marcou pontos e, contra a fragilizada secundária de Indianapolis, Jared lançou mais de trezentas jardas pela primeira vez na carreira.

Na semana seguinte, vimos que ainda havia muito a ser feito: os números pioraram, e uma interceptação no final do jogo custou aos Rams a chance de vencer o jogo. Repare como a jogada foi juvenil: Goff olha para o seu recebedor desde o momento que recebe o snap. O LB, percebendo isso, consegue interceptar o passe.

Em seguida, duas vitórias maiúsculas: contra os 49ers, em que Goff lançou 3 TDs e completou mais de 78% de seus passes naquele que foi o primeiro jogo de horário nobre da sua carreira: o país todo viu que ele não era mais a desgraça em forma de QB. A segunda vitória, em Dallas, mostrou para todos que Goff, mesmo com números razoáveis, não ia estragar tudo: os Rams merecem ser levados a sério.

O duelo contra Seattle foi duro. Jared completou menos da metade de seus passes e lançou duas interceptações, mas, incrivelmente, o saldo final foi positivo. Contra uma das melhores defesas da liga, Goff levou seu time até o campo de ataque no final do jogo e, se não fosse pelo drop de Cooper Kupp, os Rams teriam vencido a partida. Repare uma evolução em relação ao último drive que Goff teve para tentar vencer o jogo. Veja esse belo passe:


Agora, com o auxílio do All 22, perceba que Goff olhou para o outro lado o tempo todo e assim conseguiu tirar Earl Thomas da jogada.

O mesmo aconteceu no já citado drop de Kupp, e o próprio Thomas reconheceu isso.

Somos amadores e mesmo assim temos uma chance 74% maior de perceber esses detalhes do jogo que Jeff Fisher.

Afinal, quem é Jared Goff?

Goff não é o bust que seu primeiro ano indicava, disso podemos ter certeza: afinal, ser ruim daquele jeito constantemente talvez seja humanamente impossível (até Blake Bortles já conseguiu enganar). Mesmo assim, ainda não sabemos quem ele será. Talvez não se torne um Aaron Rodgers – aquele tipo de QB que transforma qualquer grupo de palermas ao seu redor em bons jogadores; mas o início da atual temporada indica que Jared pode ser capaz de levar longe um grupo bem treinado e recheado de boas peças – veja o quanto vale um Kirk Cousins, por exemplo.

É apenas sua segunda temporada, que poderíamos estar chamando de primeira. Jared ainda tem muito que jogar, evoluir e aprender. Afinal, agora, como você definiria o estilo de jogo dele? Ainda é cedo pra dizer. O que sabemos é que hoje Goff está em posição de mostrar suas habilidades: não precisando mais se preocupar com seu entorno, ele depende só de si para ser a cara do Los Angeles Rams por muitos anos.

Mais do que tudo, o exemplo de Goff nos mostra como é difícil avaliar um jogador em um esporte tão coletivo como a NFL. Se mesmo com carreiras longas não sabemos o que pensar de alguns jogadores (oi de novo, Alex Smith!), tirar uma conclusão sobre alguém em 13 jogos é mais que precipitado: é burrice.

Um final feliz.

OBS: Acontece que ser burro é muito mais fácil que esperar para tirar conclusões. É o que fazemos aqui no Pick Six e por isso falamos tanta bobagem.

Análise Tática #12 – Semana #3: Ainda não cansamos de falar de Kansas City

Kareem Hunt não se cansa de bater recordes. Em nossa primeira análise tática de 2017, mostramos como ele conseguiu bater o recorde de jardas totais em uma estreia. Na semana 3, Hunt se tornou o primeiro jogador na história da NFL a anotar TDs de pelo menos 50 jardas em suas três primeiras partidas. No jogo contra o Los Angeles Chargers, a longa corrida de 69 jardas até a endzone veio no último quarto do jogo e selou a vitória do Kansas City Chiefs.

Com o TE Travis Kelce posicionado no slot e com um WR na parte de cima da tela, o Chiefs tinha três bloqueadores do lado esquerdo do campo. A jogada, porém, seria iniciada para o lado direito. Como a jogada provavelmente seria uma corrida, o Chargers deixou apenas um safety em profundidade.

Quando Hunt recebeu a bola, toda a defesa do Chargers se moveu para o lado direito do ataque. Com o bom trabalho dos bloqueadores na parte de cima da tela, foi criado um buraco na defesa.

Um corte rápido para a esquerda fez com que Hunt só tivesse que usar sua velocidade para bater o safety e anotar o TD.

Surpreendentemente, o New England Patriots sofreu bastante para vencer o Houston Texans por 36×33, em Foxborough. A vitória só veio nos segundos finais, com um passe perfeito de Tom Brady para o WR Brandin Cooks. No alto da tela, Cooks tinha uma rota vertical e tinha dois jogadores na marcação: o CB, logo a sua frente, e o S em profundidade.

O problema para o Houston Texans é que a marcação era em zona e nenhum dos dois marcadores fez a leitura correta da rota de Cooks, o que abriu uma pequena janela para Tom Brady, que estava a centímetros de sofrer um sack de Jadeveon Clowney.

O passe, porém, foi perfeito para o espaço dado pela marcação. Quando os defensores perceberam a rota, já era tarde demais. Cooks estava a duas jardas de distância dos dois marcadores e anotou o TD que deu a vitória sofrida para New England – e mais uma vez calou o twitter do site. 

JJ Watt e Houston: football é maior fora de campo

Houston vem passando por uma série de catástrofes naturais: as chuvas e os eventos decorrentes do furacão Harvey deixaram a cidade destruída e debaixo d’água. Para colocar em perspectiva, na última semana, as chuvas no local foram o equivalente aos últimos 13 meses de precipitação em Manhattan.

Como você pode imaginar, muitas pessoas perderam tudo que tinham e, alguns lugares – casas, inclusive -, acabaram destruídos. O Astrodome, um dos estádios da cidade, tem servido de abrigo para muitos desabrigados.

É uma situação tensa, que tampouco conseguimos mensurar em palavras – a maioria de nós tem a sorte de nunca perder nada em situações como estas, e não conseguimos imaginar o tamanho da dor e dificuldades que quem sofre as consequências está passando. Mas, em momentos como esse, vemos alguns motivos para, com o perdão do clichê, não perder a fé na humanidade.

Robert Kraft, dono dos Patriots; Amy Adams, dona dos Titans; Christopher Johnson, dono dos Jets e Bob McNair, dono dos Texans doaram, cada um, um milhão de dólares para ajudar na reconstrução de Houston e da vida de seus habitantes.  

Mas quem tem mesmo se destacado é JJ Watt. O DE do Texans começou uma campanha no Twitter para arrecadar 250 mil dólares em doações. A visibilidade de Watt permitiu que a meta fosse, cada vez mais, aumentando. 500 mil dólares foram arrecadados em um um dia. Ao tempo da publicação desse texto, o número já era de 6 milhões e a meta de 10 – esperamos que continue crescendo.

Jogadores como Ezekiel Elliott, Dez Bryant e Chris Paul, da NBA, ajudaram na campanha que começou com uma doação de 100 mil dólares do próprio JJ. O DE tem atualizado seu perfil no Twitter a medida que as metas são batidas, incentivando as pessoas a doar.

O exemplo que ele vem dando mostra a importância dos atletas profissionais para a sua comunidade. Além de proporcionar alegrias dentro de campo, muitos jogadores se comprometem a ajudar os habitantes de suas cidades de outras maneiras. O esporte é uma forma de escapar dos problemas e o impacto no cotidiano das pessoas é ainda maior que aquele causado por uma jogada importante.

Home Sweet Dome

Talvez a história que melhor exemplifica a importância do esporte para uma cidade seja o punt bloqueado pelos Saints contra os Falcons. Em decorrência do furacão Katrina, que devastou New Orleans, os Saints não jogaram sequer um jogo da temporada de 2005 em seu estádio, que serviu de abrigo para os moradores da cidade. Assim, a equipe mandou suas partidas em diferentes locais: no Giants Stadium (em um jogo contra os Giants, teoricamente em casa); no Alamodome, em San Antonio, Texas; e no Tiger Stadium, em Baton Rouge, Louisiana.

No retorno do time ao Superdome, a jogada, logo no ínicio do jogo, mostrou uma torcida em êxtase por ter seu time de volta após tempos difíceis, tanto para a equipe, quanto para a cidade. O fato de o jogo ter sido no horário nobre (Monday Night Football) apenas elevou a emoção do momento.

Renascimento.

Esses são exemplos do legado mais importante que um atleta – ou uma equipe – profissional pode deixar. Dentro de campo, times e jogadores podem fazer a alegria (ou a tristeza) de milhões de pessoas e servir de inspiração para muitas delas.

Por isso, inspirados em momentos como esses, separamos alguns casos em que jogadores mostram que o esporte é ainda maior fora de campo. Afinal, a NFL está repleta de exemplos como o de JJ Watt. Jogadores que, por afinidade com uma causa, um ideal a seguir, ou até mesmo pura bondade no coração, fazem muito fora de campo. Mais do que a sua diversão nas tardes de domingo, eles proporcionam a outras pessoas oportunidades de construir uma vida melhor.

Andrew Luck: um clube do livro.

Você já conhece o Andrew Luck dos passes para touchdown e das grandes jogadas. O que você talvez não conhece sobre o quarterback dos Colts é a sua paixão pela leitura. E que ele tem um clube do livro.

A ideia surgiu a partir de brincadeiras de membros da imprensa que, ao descobrirem a paixão de Luck, sugeriram a criação de um clube do livro; em abril de 2016, Andrew lançou o Andrew Luck Book Club. É um espaço onde ele, quatro vezes por ano, durante a offseason, dá sugestões de livros. Um para crianças, incluindo aqueles que ele lia quando era mais novo, e um para adultos, que ele leu recentemente ou está lendo no momento.

Desde que me entendo por gente, eu amo ler. Devo isso aos meus pais, que liam para mim todas as noites até eu conseguir fazê-lo sozinho. Eles sempre encorajaram a mim e a meus irmãos a ler“, explicou Luck sobre o seu fascínio pelos livros. “Sempre senti algo relaxante e agradável em relação à leitura, em parte porque sempre via meus pais lendo. Lembro das viagens de carro de 18 horas que fazíamos todo verão, indo de Houston ao Colorado nas férias da família. Sempre tinha a minha cara enfiada em um livro e ficava em silêncio por pelo menos 10 horas. Isso fazia o tempo passar muito mais rápido e eu sentia que podia “escapar” mais em um livro do que em um filme ou qualquer outra coisa. E ainda sinto isso hoje: ler é a melhor forma de esvaziar a cabeça e dar uma desacelerada“, completa.

Luck também trouxe a paixão pela leitura para dentro do vestiário: desde o início de sua carreira em Stanford, ele trocava livros e sugestões com seus colegas de equipe e técnicos. E essa tradição se manteve na NFL, onde  encontrou mais jogadores que compartilhavam o hábito, como Vick Ballard, Matt Hasselbeck e Joe Reitz.

Na verdade, nunca fiz parte de um clube do livro antes. Queria ter certeza de que, de qualquer forma, fosse simples e divertido e que incentivasse as pessoas a pegar um livro, sentar e ler.” O clube do livro também encoraja os leitores a interagir nas redes sociais e, em algumas oportunidades, o próprio Luck participa, seja por meio de perguntas e respostas ou por vídeos, até mesmo ao vivo.

Andrew conta que a organização já recebeu retorno de bibliotecas, livrarias, autores, professores, pais e até mesmo de editoras pedindo para promover a iniciativa. Algumas escolas também começaram programas de leitura baseados na ideia. Durante essa inter-temporada, enquanto se recupera de cirurgia no ombro, Luck tem cultivado também o hábito de ler para crianças, em escolas ou hospitais infantis.

Lendo livros e defesas.

É fato que a leitura desempenha um papel importante na formação do ser humano, seja na infância ou na fase adulta. Ler quando pequeno é ainda mais importante, porque assim a pessoa desenvolve esse hábito para a vida toda. Ter um ídolo como Luck, que estimula crianças a ler e vai até elas para isso, cria uma nova geração de leitores. 

Tom Brady: sabendo ser ídolo.

Brady sabe do seu tamanho como jogador; e quando o assunto é ajudar a comunidade, ele fica ainda maior. Logan Schoenhardt, um jovem de 10 anos com um grave câncer no cérebro, ao realizar uma cirurgia, pediu para o médico gravar o número 12 em seu crânio. Quando ficou sabendo da notícia, Tom gravou uma mensagem de apoio ao seu fã.

Infelizmente o câncer retornou, dessa vez com pouca chance de cura. Logan fez uma lista de desejos, e um deles era conhecer seu ídolo. Brady se prontificou a conhecer o menino que, infelizmente, não conseguiu vencer sua doença. Apesar de ser uma história triste, que não teve um final feliz, o quarterback dos Patriots se mostrou muito solidário, realizando o último desejo de um dos seus maiores fãs.

Outra história que envolve o quarterback, é a Calvin Riley – um jovem de 20 anos e tinha um futuro promissor no baseball quando foi baleado enquanto brincava de Pokemon Go. Calvin, que havia estudado na mesma escola que Tom, infelizmente não sobreviveu. Não havia nada que Brady pudesse fazer nessa situação, mas ele enviou uma carta de duas páginas, escrita à mão, para a família. A família se recusou a revelar o conteúdo do texto, mas disse que foi uma forma de conforto em meio a uma situação tão triste.

Larry Fitzgerald e Anquan Boldin: saindo da zona de conforto.

Em 2012 os WRs Anquan Boldin e Larry Fitzgerald fizeram uma visita a Etiopia. Boldin, quando conheceu um pouco mais sobre a realidade do país, resolveu ir pra lá ajudar e, para isso, chamou o amigo e ex-companheiro de time nos Cardinals. Larry e Anquan trabalharam carregando pedras, sob a restrição de não dar dinheiro para os habitantes locais: um simples “presente” de 30 dólares para alguém poderia desequilibrar toda a ordem social ali existente. Ao final da viagem, inconformados com a pouca ajuda que puderam oferecer, os jogadores compraram, cada um, uma vaca para a região.

Um ano depois, eles estavam de novo no continente africano, dessa vez no Senegal e com mais um companheiro: o WR Roddy White. Os três visitaram um vilarejo que mal tinha água, e participaram do dia a dia da comunidade, procurando encontrar diferentes formas de ajudar. Boldin destacou a importância de levar a história desses lugares para cada vez mais pessoas.

Dois caras fodas.

Os jogadores ainda desenvolvem trabalhos na África. Fitzgerald, inclusive, participa de organizações que ajudam pessoas com AIDS no continente. Boldin ganhou, em 2015, o Walter Payton Man of the Year Award, prêmio que a NFL dá aos jogadores que mais se envolvem em trabalhos voluntários e de caridade.

Brandon Marshall: defendendo a conscientização.

A bipolaridade é uma doença real, mas que tem como principal adversária a forma como é vista na sociedade: muitas vezes romantizada, muita gente não sabe que existem pessoas que sofrem com a doença. O WR Brandon Marshall é uma delas. Desde que foi diagnosticado com o transtorno, Brandon luta pela causa, criando uma fundação com seu nome para alertar sobre os problemas da doença. O jogador já foi até mesmo multado pela NFL por usar chuteiras verdes – a cor escolhida para a conscientização sobre o assunto.

Pierre Garçon e Ricky Jean François: ajuda humanitária.

Quando o furacão Matthew passou pelo Haiti, Pierre Garçon e Ricky Jean François, então companheiros de equipe em Washington, de descendência haitiana, viajaram em um avião do dono da franquia para levar mantimentos ao país. Pierre e Ricky se mobilizaram também nas redes sociais, para ajudar a conseguir recursos. No país, eles ajudaram a entregar as doações.

Chris Long: o “cara da água”.

O DE Chris Long viajou para a Tanzânia pela primeira vez em 2013, para escalar o monte Kilimanjaro. O jogador se apaixonou pelo lugar, mas, em outras visitas, ficou assustado com a qualidade da água que as pessoas bebiam: a água é marrom com algumas coisas verdes nela. Para ajudar na situação, Chris criou a ONG Waterboys, que tem por objetivo melhorar a qualidade do recurso em países africanos. A iniciativa tem apoio de muitos jogadores da liga, e da própria NFL Network.

Você diria não a esse homem?

Andre Johnson, Steve Smith e Pat McAfee: presentes de Natal.

Todo natal o WR Andre Johnson leva crianças em lojas de brinquedo e gasta mais de 15 mil dólares em presentes. Mesmo depois de se aposentar, ele manteve o costume. O WR Steve Smith também tomou parte na ação, que é uma tradição no Baltimore Ravens. No último natal, o P Pat McAfee pagou a conta de luz de 115 famílias em Indianapolis, evitando inclusive que pessoas tivessem a sua eletricidade cortada.

JJ Watt, te amamos

Já falamos de JJ Watt no caso das enchentes de Houston, mas não é de agora que ele mostra seu talento fora de campo. JJ é o criador da JJ Watt Foundation, ONG que procura levar recursos a escolas para que elas possam desenvolver seus programas esportivos. Watt também é um apoiador dos militares, fazendo até mesmo campanhas em parceria com seu patrocinador, a Rebook, para auxiliar veteranos.

O jogador dos Texans também reconhece seus fãs: recentemente, um jovem foi atropelado em Houston e teve sua jersey, do próprio JJ, destruída. Quando ficou sabendo, Watt respondeu que iria ao hospital entregar pessoalmente uma nova camisa. E ele não só cumpriu a promessa, como deu uma de cada modelo para o menino.

Colin Kaepernick: um ativista.

É impossível fazer uma lista como essa sem citar Colin Kaepernick. Deixando toda polêmica de lado, o antigo quarterback dos 49ers já mostrou que não tem medo de manifestar suas ideologias. Ajoelhar durante o hino incomoda muita gente e, devido ao patriotismo de muitos americanos, dá pra entender (com um baita esforço) a rejeição ao jogador.

Acontece que seu gesto, conseguiu o que ele queria: chamar a atenção para a causa do racismo. Não só politicamente, Colin também é engajado na caridade. Recentemente, ele conseguiu um avião para levar água e suprimentos para os necessitados na Somália, doando cerca de 100 mil dólares. Goste ou não de Kaepernick, ele certamente tem um impacto fora de campo, maior até do que aquele que produziria dentro de um estádio.

Cam Newton: amigo da garotada.

Cam Newton é um exemplo um pouco diferente: o jogador, à sua maneira, age dentro e fora de campo. Cam tem o hábito de entregar as bolas dos touchdowns que marca para crianças e, apesar de ser um gesto simples, pode melhorar o dia de quem recebe o souvenir. Newton também tem uma fundação, que tem como missão “garantir que as necessidades sócio-econômicas, educacionais, físicas e emocionais das crianças sejam atendidas.

Já é tradição.

Ndamukong Suh: gigante fora de campo.

A revista Forbes é conhecida por suas listas e, dentre elas, está a de celebridades que mais fazem doações. Na lista de 2012, Ndamukong Suh foi o jogador da NFL que apareceu mais alto: Suh doou 2.6 milhões de dólares para a Universidade de Nebraska, sendo 2 milhões para o departamento atlético e 600 mil para a faculdade de Engenharia poder dar bolsas de estudo. Era, ali, a maior doação única de um jogador de futebol americano.

Esses são alguns exemplos de jogadores que tomam um pouco do seu tempo e dinheiro para ajudar outras pessoas. Ciente que essa é uma prática comum na liga, a NFL (que é extremamente rigorosa com os códigos de uniforme) estabeleceu, desde a última temporada, que os jogadores teriam uma semana para usar chuteiras personalizadas com as causas que quiserem divulgar.

A ação foi amplamente divulgada, e, durante as transmissões, alguns jogadores inclusive falavam da sua chuteira e o que ela estava representando. O resultado foi muito interessante. Você também pode fazer sua parte. Pesquise sobre seu jogador preferido, provavelmente ele tem algum projeto que você pode ajudar de alguma forma!

Quatro meses esperando janeiro

Já estamos cansados de repetir que Tom Brady ganhará pela 14ª vez a AFC East. Quando inevitavelmente chegar a hora dos playoffs, também comentaremos com desgosto sobre como, mesmo tendo sofrido com duas ou três lesões importantes (sério, pode ser literalmente qualquer um), New England ainda deu um jeito de não jogar a primeira rodada da fase final. Assim, os Pats chegarão descansados e bem preparados na semifinal para enfrentar um Steelers ou Titans meio-baleados. Porque, bom, essa é a vida na NFL.

Para nos deixar ainda mais desgraçados da cabeça, craque, desses transcendentais que realmente se destacarão na multidão daqui a 30 anos, o time só tem um: Rob Gronkowski. Tom Brady, o maior QB de todos os tempos, é um grande executor das tarefas que lhe são designadas (o que, obviamente, cria vitórias) – mas basta colocá-lo lado a lado das peripécias de Aaron Rodgers ou até Ben Roethlisberger e veremos que ele não é tudo isso. Lembre-se: de acordo com o próprio sr. Bünchen, o MVP do último Super Bowl foi James White.

Um homem do povo.

De certa forma (e sabemos que vocês curtem essas comparações), olhar o depth chart dos Patriots é bem parecido com estudar a escalação do Corinthians e não entender que caralhos esse time está fazendo onde está. Cássio e Rodriguinho, por exemplo, só não saíram do time para sempre porque seus substitutos eram piores ainda (aguarde a coleção de dispensados nesse elenco patriota). Jô pode ser funcional, mas duvido que seja a primeira opção de qualquer pessoa para a posição (e aqui ficam comparados Jô com Brady ou Edelman, o que for menos ofensivo). E, sério, Romero? Ainda?

Um ataque reforçado

Falando em inúteis, já que o craque Gronkowski tem problemas sérios em manter-se saudável (última vez em que ele esteve em campo os 16 jogos foi em 2011), os Patriots se reforçaram com Dwayne Allen que, draftado no mesmo ano, sempre esteve em uma disputa constante com Coby Fleener sobre quem conseguiria ser o mais inútil na posição de tight end em Indianapolis. Porém, ele recebeu seis TDs em 2016 e oito em 2014, então podemos esperá-lo como uma presença interessante na redzone.

E sobre reforços de verdade, enquanto a torcida dos Patriots acreditava que Julian Edelman era um dos melhores WRs da liga (repetimos: não é. E não venham com aquela catch do Super Bowl), Belichick se mexeu e foi atrás da melhor opção para Tom Brady desde Randy Moss: por uma escolha de primeiro round, o time contratou Brandin Cooks.

Apesar das nossas ressalvas pessoais (não gostamos dele, basicamente e não precisamos explicar os motivos), e de provavelmente ser o terceiro melhor WR em New Orleans, Cooks produziu mais de 1100 jardas nas duas últimas temporadas. Melhor ainda: ele representa uma ameaça as defesas adversárias em passes longos, o que abrirá espaço para as jogadas intermediárias com o próprio Edelman, Chris Hogan e um dos 300 mil RBs da equipe.

Sim, porque empenhado em encontrar a combinação ideal, o time tem 10 jogadores para a posição no elenco. A opção mais interessante ainda deverá ser Dion Lewis, ao menos durante os seis ou oito jogos em que ele participará antes (ou depois) de se machucar. As novas contratações Rex Burkhead e Mike Gillislee (respire fundo e repita comigo: QUEM? 1116 jardas, os dois somados em 2016) deverão brigar por espaço com James White (139 jardas, 3 TDs em 20 toques no Super Bowl, incluindo 14 recepções) – o primeiro mais como receiver, o segundo como trombador. Entretanto, pensando no fantasy, lembre: lá pela 9ª rodada, o RB titular dos Patriots será alguém que hoje provavelmente é o quarto reserva em Dallas ou Minnesota.

Esse dia foi louco.

Quanto a linha ofensiva, sério, torcedor dos Patriots, não tem com o que se preocupar. Os inexperientes, porém seguros, do interior da linha de 2016 estão um ano mais maduros, e enquanto Nate Solder e Marcus Cannon se mantiverem saudáveis, os corredores terão espaço e Brady terá tempo.

Não é delicioso esquecer que Jimmy Garoppolo existe?

É sim, bastante. Se deus quiser ele ficará no banco sem dar as caras esse ano (porque ninguém aguenta mais historinhas Jimmy x Brady sem sentido). Em 2018, Garoppolo será problema do texto sobre algum outro time, que pagará 400 bilhões de dólares para descobrir que ele nem é tudo isso (oi, Jaguars, estamos olhando para vocês).

A magia do tio Bill

Talvez o leitor se deixe enganar por esse ataque, seria compreensível. Mas as coisas que acontecem nessa defesa só dão certo porque, bom, têm que dar. A magia negra obriga que funcionem.

O S Patrick Chung, por exemplo, é a cara do que estamos falando: absolutamente inútil quando saiu de Boston, bastou voltar para formar uma bela dupla com Devin McCourty. O undrafted Malcolm Butler, que surgiu para o mundo no Super Bowl XLIX com a interceptação mais inesperada da história, se tornou um CB mais do que sólido – mas não o suficiente para receber um grande contrato do tio Bill.

Aproveitando-se do espaço no cap, New England roubou Stephon Gilmore do rival Buffalo com um mega-contrato de 5 anos e 65 milhões (mesmo que, pra gente, ele não está nem entre os 15 melhores Corners da NFL); para completar a secundária, NE conta também com o retorno de Eric Rowe, que deve trabalhar principalmente no slot.

No front seven, ano passado o time deixou ir (na verdade, trocou) seus até então dois melhores jogadores: Chandler Jones (pass rusher) e Jamie Collins (linebacker puro). Somente Dont’a Hightower (aparente crush de Belichick) teve seu contrato renovado: 35,5 milhões em 4 anos. Como LB típico para marcar a corrida, o time trouxe o veterano David Harris (dispensado pelo Jets!), que mesmo aos 33 anos se sentirá renovado saindo de um time medíocre para sonhar com um Super Bowl no maior rival.

Se juntas já causa, imagina juntas.

A linha defensiva sim deveria ser motivo para preocupação – supondo que fosse um time normal. Alan Branch e Malcom Brown até deverão manter a solidez no interior, e a escolha de quarta rodada de 2015, Trey Flowers, produziu sete sacks em apenas oito partidas como titular em 2016.

Entretanto, a grande aposta para correr atrás dos QBs adversários fica por conta de Kony Ealy, que mesmo tendo muito hype no draft de 2014, acabou não conseguindo se estabelecer como titular em Carolina (com exceção do seu desempenho nos playoffs de 2015, na verdade, ele tem sido bem merd*) – fica a curiosidade pelo que, em seu último ano de contrato rookie, as mãos de Bill Belichick e Matt Patricia conseguirão tirar dele.

Previsão: 13-3, para ser humilde. Brady deverá começar voando, mas administrará o braço, estratégias e um tropeço em Tampa é bem possível. Com nove vitórias até a décima rodada, a divisão já estará garantida antes mesmo do time encontrar-se com Miami ou Buffalo. Jogar em Denver, no México (contra Oakland) ou em Pittsburgh não deverão ser tarefas fáceis, mas obter duas vitórias nesses três jogos é possível, o que até permitiria que Jimmy Garoppolo jogasse bem as duas últimas semanas (em casa contra Bills e Jets) para deixar Brady fresquinho. Polêmica para os playoffs!

Do desapego a um ciclo sem fim: o método Belichick

A NFL está repleta de jogadores com que ninguém se importa – o terceiro CB que só os torcedores conhecem, o backup OL que nunca entrou em campo, ou até mesmo uma escolha do draft do tempo que você não entendia bulhufas sobre futebol americano (também conhecido como “semana passada”).

E, a cada ano, esse ciclo de desconhecidos se renova, com centenas de atletas entrando e saindo da liga: não se engane, aquelas listas intermináveis de cortes no início da temporada são compostas por seres humanos reais, como eu e você.

Mas e se seu time conseguisse encontrar, nesses jogadores desconhecidos, indesejados ou supostamente irrelevantes, peças importantes para montar o elenco? A verdade é que na maioria esmagadora das vezes esses atletas realmente não são grandes talentos – afinal, se fossem, não estariam escondidos no meio do roster do Detroit Lions.

Mesmo assim, eles podem ter um conjunto único de características e habilidades que, se aproveitados corretamente, irão produzir um jogador eficiente na rotação ou até mesmo um titular de qualidade.

Tomemos como exemplo as mais recentes aquisições (via troca) do New England Patriots: o CB Eric Rowe, do Philadelphia Eagles, o TE Martellus Bennett, do Chicago Bears e o LB Kyle Van Noy, do Detroit Lions. Rowe era uma escolha de 2ª rodada que não se firmou em Philly, tanto que Howie Roseman não exitou em despachá-lo para o norte por uma escolha de 4ª rodada em 2018 (!!!).

Já Bennett é figurinha conhecida na liga, já tendo mostrado o seu valor em diversas oportunidades. Mesmo assim, Chicago achou interessante se livrar do jogador e de uma escolha de 6ª rodada por uma de 4ª. Sabe quando você tem uma figurinha que seu amigo precisa e, mesmo ela sendo rara, você troca ela pau a pau? Foi isso que Ryan Pace fez.

Só bala boa.

Enfim, sobre Van Noy, em respeito a sua inteligência, caro leitor, não vou sequer fingir saber quem era, mas Bill Belichick viu valor suficiente no jogador e enviou uma escolha de 6ª rodada para Detroit em troca.

Rowe e Van Noy foram jogadores valiosos na defesa no último ano, tendo coroado temporadas sólidas jogando aproximadamente ⅓ dos snaps da unidade no Super Bowl. Já Bennett substituiu Rob Gronkowski a altura e suas cinco recepções para 62 jardas na final ajudaram os Patriots na maior vitória de sua história.

Apenas para efeito de comparação: as duas trocas de escolhas de fim de draft que o Indianapolis Colts fez para a última temporada, sequer terminaram o ano com a franquia: o LB Sio Moore, que já está na sua 3ª ou 4ª equipe depois que foi chutado, e o DE Billy Winn, que você não deve conhecer, mas jogou em Denver em 2016. Temos certeza que seu time também coleciona alguns fracassos com aquisições do tipo.

Para mostrar que não se trata de um fato isolado, voltemos para 2014, ano em que os Patriots também venceram o Super Bowl e também fizeram algumas aquisições under the radar. Naquela temporada, New England adquiriu o LB Akeem Ayers, dos Titans, e uma escolha de 7ª rodada, por uma de 6ª. Ayers jogou 23% dos snaps na final.

E não são só trocas que ajudam a construir o elenco de New England. As aquisições de jogadores não-muito-gabaritados ao redor da liga permitem ao time manter o Salary Cap sob controle e, ainda assim, reforçar o roster no mercado:

  •  O WR Chris Hogan, o menino destinado a correr eternamente na secundária de Pittsburgh, assinou contrato de 3 anos e 12 milhões de dólares.
  • O RB Dion Lewis, que rodou por metade da liga e achou seu lugar em Foxborough, receberá 1.2 milhões de dólares esse ano.
  • O DT Alan Branch, escolhido em 2007, só foi se firmar na defesa dos Patriots, em 2014. Branch já está no seu terceiro contrato com a franquia.

E a lista continua com nomes como Rob Ninkovich, Jabaal Sheard, Chris Long e Brandon LaFell. Jogadores que não chegaram para resolver problemas, mas ajudar a compôr o elenco e cumpriram/cumprem muito bem esse papel.

Além disso, existe uma categoria especial para aqueles que só renderam em New England, como o RB LeGarette Blount e o S Patrick Chung que, após saírem, só duraram um ano ou menos longe do Gillete Stadium.

E onde está a mágica por trás disso tudo? A resposta é simples. Bill Belichick não busca os jogadores mais talentosos ou com maior hype. O treinador procura jogadores com habilidades que se encaixam no esquema dos Patriots. Você não vê New England com um bando de talentos em determinada posição sem saber utilizá-los, como é o caso de outras equipes – os Rams, por exemplo, estão até hoje tentando entender como usar o WR Tavon Austin.

Uma prova disso é a forma como os Patriots não se apegam a nenhum jogador não chamado Brady: Chandler Jones e Jamie Collins eram dois dos melhores nomes da defesa, mas Belichick preferiu trocá-los nessa temporada. Ambos receberam uma bolada de grana de suas equipes e, enquanto isso, Bill colecionava o quinto anel, chegando ao Super Bowl como uma das melhores defesas da NFL.

Para essa temporada, a fórmula segue a mesma e New England trocou todas as suas escolhas do Draft por jogadores que Belichick queria:

  • primeira rodada pelo WR Brandin Cooks;
  • segunda rodada  pelo DE Kony Ealy (e uma escolha do alto da terceira rodada);
  • quarta rodada pelo TE Dwayne Allen (e uma escolha de sexta rodada).
  • as outras escolhas também foram trocas por jogadores: o já citado Kyle Van Noy, o LB Barkevious Mingo e o TE Michael Williams.

Além disso, mais jogadores da categoria você-não-conhecia-mas-em-New-England-serão-astros foram contratados: RBs Mike Gillislee e Rex Burkhead, além do DT Lawrence Guy.

E, por fim, claro, jogadores caros, sendo Dont’a Hightower a exceção, foram chutados: Logan Ryan assinou com os Titans, Jabaal Sheard assinou com os Colts e Martellus Bennett assinou com os Packers. Com isso Belichick ainda pode receber algumas escolhas compensatórias. E então reiniciar todo esse maldito ciclo com que já estamos acostumados: a cada final de temporada, uma nova velha tristeza.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBR e acredita piamente que Chuck Pagano é o próximo Bill Belichick.