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New England Patriots e um passado sempre presente

Confesse: quando o New England Patriots venceu o coin toss na final da AFC contra o Chiefs, você sabia o que iria acontecer. Era tudo familiar demais para negarmos: mais um grande duelo, e ali estava Tom Brady, pronto para encerrar uma nova grande história em um dos jogos mais empolgantes da temporada – praticamente um novo clássico instantâneo na história de New England.

Novamente estávamos vivendo o final do Super Bowl LI; era, afinal, o mesmo roteiro. Tom e seus companheiros caminharam tranquilamente pelo campo (confesse: você sabia que qualquer 3&10 seria convertida com requintes de crueldade) e que tudo seria encerrado com um running back qualquer, falso-herói improvável, entrando na endzone. Com o New England Patriots o passado é sempre presente.

Eterno retorno

20 anos após início da era Brady-Bellichick, o Patriots segue destruindo sonhos. Mas claro, seria divertido ver Patrick Mahomes, inegável MVP desta temporada e provavelmente o jovem mais empolgante da última década a pisar em um gramado da NFL, enfrentar o Rams em busca de vingança após a derrota por 55 a 51 na semana 11.

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Mas para quem gosta de football, é preciso confessar: New England está longe de ser chato. Nós já o conhecemos – como citamos no início deste mesmo texto, eles insistem em repetir o mesmo roteiro – e, bem, odiá-los é, no fundo, um pouco divertido.

Veja: após vencer Kansas, Brady e Gronk atravessam os túneis do Arrowhead Stadium ao som de “Bad Boy For Life” enquanto avisam: “ainda aqui”. Odeio-os, mas mesmo que saibamos que o dia de Mahomes está próximo, são eles quem irão ao Super Bowl novamente.

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Inevitabilidade

Não era como se, de fato, acreditássemos que isso não aconteceria novamente – mas tantas vezes nesta temporada o Patriots parecia estar em dúvida, o que agora, como sabemos, não passou de mera estratégia para iludir os incautos: New England foi enxotado por Lions e Titans, marcou apenas 10 pontos em um Steelers em colapso, foi derrotado pelos restos mortais do Jacksonville Jaguars e, bem, você ainda não esqueceu o que houve em Miami.

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Foram cinco derrotas para times que não foram aos playoffs – e alguns deles passaram longe de sequer terem alguma chance de se aventurar em janeiro. Vez ou outra, Brady e Gronk pareciam zumbis – Gronk, aliás, teve sua pior temporada na carreira; foram apenas 682 jardas e 3 TDs em 13 partidas.

No mesmo lado da moeda, Brady também teve suas piores médias em jardas por jogo e rating desde 2014. Foi também seu menor número de TDs desde 2013 e o maior número de INTs desde o já distante 2011.

Mas por mais que você confie no “tempo” ele insiste em ser relativo. Tanto Brady quanto Gronk não precisaram ser “úteis” contra o Chargers (tem que acabar o Chargers!). Porém, quando o relógio parecia encerrar o ciclo diante do Chiefs, mais uma vez eles o controlaram: com menos de um minuto para o final do tempo normal, Brady lançou mais uma bomba de 25 jardas para colocar New England a poucos metros da endzone.

Já na prorrogação, uma nova conexão em uma 3&10 que colocou o Patriots à beira do paraíso. Três jogadas depois, eles carimbavam sua passagem para Atlanta. Aos 41 anos de Tom Brady, você achou que o tempo poderia nos salvar. Mas mais uma vez o tempo insistiu em não passar.

Quanto antes você aceitar, menor será a dor

Observar o Patriots na pós-temporada, ano após ano, é divertido porque nos ensina sobre o estado atual da própria NFL: dos quatro times que chegaram às finais de conferência, eles têm a pior defesa – em uma era em que se insiste  afirmar que sistemas defensivos vencem campeonatos. Pode significar tudo, mas normalmente, com New England, eles vão nos mostrar que isso não significa nada.

New England insiste em nos amedrontar em janeiro porque, diferente da maioria das equipes da NFL, eles não vivem o momento: enquanto todos tentam maximizar suas janelas, seja quando seu QB ainda está no contrato de rookie, ou mesmo construir algo ao redor de um astro defensivo, como o Bears pode se propor a fazer com Khalil Mack, ou ainda atirando para todos os lados em um claro “all-in”, como Saints e o próprio Rams fazem, o Patriots é a prova de qualquer janela de tempo.

De novo, e mais uma vez, eles derrotam o tempo: eles abrem mão de peças talentosas para não se comprometerem no longo prazo, trocam escolhas para acumular ainda mais escolhas quando sabem que, talvez, um atalho para o sucesso esteja no draft do ano seguinte – e não no “agora”.

E é assim que tudo funciona há 20 anos, desde que New England derrotou o finado St. Louis Rams no Super Bowl XXXVI, e é por isso que o Patriots vencerá o Rams: se há duas décadas Bill Belichick se aproveitou da inflexibilidade de um treinador menos experiente e parou Marshall Faulk, nada nos mostra que ele não fará o mesmo com Todd Gurley e companhia.

São anos repetindo a mesma versão de um mesmo jogo enquanto mudam apenas treinadores e jogadores adversários. E enquanto isso, no fundo todos achamos que podemos derrotar o tempo – mas a verdade é que só o Patriots pode.

Los Angeles Rams: ao infinito e além

É um roteiro batido. Você já está cansado de ver em filmes, livros e séries narrativas que mostram uma nova mente brilhante enfrentando uma mente brilhante experiente – geralmente uma quer tomar o lugar da outra.

É impossível não traçar o paralelo dessas narrativas com o que veremos no Super Bowl LIII. De um lado a mente ofensiva e inovadora de Sean McVay, do outro a experiência e a maestria de Bill Belichick. Esse último já enfrentou todo tipo de adversário, vencendo a maioria deles. Já o novato está apenas no início de sua jornada, e o desafio de agora provavelmente servirá como termômetro para o resto de sua carreira.

“Não conseguiu vencer um técnico mais experiente.” vs “Não conseguiu superar as inovações de quem é o futuro da liga.”

Independentemente do resultado, as narrativas e os desdobramentos são até mesmo previsíveis.

Chegando até aqui

Há dois anos, quando o New England Patriots enfrentava o Atlanta Falcons, Sean McVay não era conhecido como é hoje. Recém contratado pelos Rams, McVay tinha como destaque o simples fato de ser novo. Dois anos depois, Sean é discutivelmente o técnico ativo com maior influência na liga e no pensamento coletivo do futebol americano. Treinadores que trabalharam com ele viraram HCs, e a tendência na NFL é de contratar jovens mentes capazes de trabalhar com o franchise QB – nenhum deles necessariamente provado. Se Sean McVay foi uma aposta, outros times tentam usar mercados diferentes para obter o mesmo resultado.

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2017 foi a temporada de apresentação das capacidades de McVay. Após assumir um time marcado pela mediocridade dos anos de Jeff Fisher, Sean levou a franquia a uma temporada com record 11-5 e o primeiro título de divisão desde que você assiste a NFL (com exceção de meia dúzia de malucos).

O trabalho mostrou resultado em números e no “teste do olho”. O Rams deixou a areia movediça da apatia para se tornar uma das equipes mais legais de se assistir. Jared Goff, que até então parecia destinado a estampar listas em que é citado junto com JaMarcus Russell e insira aqui também um QB escolhido na primeira escolha do draft que você desgosta. Em uma tacada só Los Angeles percebeu que tinha o seu quarterback e o HC do futuro. Resultado difícil de ter acontecido se o contratado tivesse sido Vance Joseph (in memorian), por exemplo.

Tirando as rodinhas

Como todo super-herói (e o Venom) em sua história de origem, a franquia da Califórnia precisou de um período para descobrir do que era capaz. Terminado o laboratório em 2017, a diretoria decidiu dar o próximo passo. Ou, se preferir, o famoso all in. Ndamukong Suh, Aqib Talib, Marcus Peters e Dante Fowler Jr foram adquiridos na defesa, e Brandin Cooks foi a peça escolhida para completar o ataque.

O resultado não foi diferente do esperado. Durante toda temporada o Rams era apontado como, se não a melhor, uma das melhores equipes da NFL. Podemos até mesmo discutir se, mesmo nesse patamar, o time já havia atingido todo seu potencial – dependendo de como encaramos a situação, pode ser uma falha ou sucesso, afinal você deve estar preparado para vencer seus desafios mesmo quando não está 100%.

E, tal qual em um filme de super-herói, a primeira batalha pareceu apenas o prelúdio do terceiro e último ato. A derrota em New Orleans na temporada regular custou a LA a oportunidade de ter mando de campo nos playoffs. Mas, tal qual os roteiros de Hollywood já nos ensinaram, o que importa é o final da história. É como as histórias acontecem o que nos faz nos apaixonarmos pelos personagens, mas sempre lembramos do final.

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Assim, o Rams mostrou que poderia aumentar ainda mais seus poderes para vencer os Saints no Superdome – a primeira derrota de Drew Brees em casa na pós-temporada. Pouco importa se pareceu truque de roteiro, a história só se lembra dos vencedores.

O mundo está assistindo

O Super Bowl é um evento atípico. É quando muitas pessoas param para assistir a um jogo que às vezes nem entendem. A NFL é composta por 32 times, e apenas dois podem ter os olhos do mundo no início de fevereiro. Estar lá já é uma pequena grande vitória.

Porém, como a história nos mostra, os vencedores estão em outro patamar. Jogadores são alçados ao status de lendas simplesmente porque centímetros jogaram a seu favor. O mérito é estar lá para ter os detalhes jogando ao seu lado. Com apenas duas temporadas, alguém duvida que essa será a única chance do Los Angeles Rams de chegar nessa posição novamente? O resultado final vale tudo e não vale nada.