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“Gente como a gente”: Kaepernick e o dilema do desemprego

Pelo segundo ano consecutivo, Colin Kaepernick é tema importante da offseason da nossa amada NFL; dessa vez, até mais cedo do que foi em 2016. Isso porque, após uma temporada atribulada em que Chip Kelly o fez iniciar segurando prancheta para o lendário Blaine Gabbert, no dia 3 de março de 2017 ele resolveu ativar uma cláusula e anular seu contrato – que ele tinha reestruturado na semana 6 da temporada anterior justamente para ter essa opção. Desde então, estamos esperando.

Esperando e assistindo, uns mais revoltados do que outros, como Kaepernick está sendo ignorado por toda a liga. Obviamente, sempre devemos considerar que ele ainda não foi contratado porque, como veterano que não está entre os mais cobiçados da liga (deveria, mas com todas os problemas que discutiremos a frente, é compreensível que nenhum time esteja achando que ele é o novo Peyton Manning na free agency), Kaep está esperando o draft e as primeiras lesões da pré-temporada acontecerem para escolher bem o lugar onde terá as devidas oportunidades. Entretanto: algum time ligou para ele falar sobre? Seu nome foi seriamente considerado em alguma reunião entre HC e GM desde fevereiro? As especulações indicam que, até o momento, não.

Mas, observe o time listado a seguir: T.J. Yates, Brock Osweiler, Case Keenum e Brian Hoyer. Para ater-se somente aos que tiveram passagem e fracassaram no Houston Texans, não só tiveram seus nomes considerados, foram chamados para uma conversa e estão empregados. Osweiler e Brian Hoyer, ao menos pelo o que se diz à imprensa, terão até mesmo chances de começar a temporada como titulares. E ninguém está aqui para discutir se estas ínguas são melhores do que Colin Kaepernick – atem os cintos, iremos mais longe que isso.

“Ai, mas o Kaepernick é polêmico”

Ele foi. E certamente incomodou muita gente (incluso o presidente Trump, que vibra em seu Twitter com o fato de que Kaep ainda esteja sem ser contratado por ninguém). Já exploramos suas motivações em outro texto e por isso não gastaremos tempo nela. Além disso, Colin mesmo já disse que voltará a ficar de pé durante o hino americano porque ele quer ser conhecido como um bom jogador, e não somente como “aquele cara que fica de joelhos durante o hino”. Obviamente, ele acabou novamente criticado com argumentos imbecis como “AI AGORA QUE NÃO TEM MAIS CONTRATO ELE LARGA A IDEOLOGIA”.

Mas esqueçamos isso e vamos nos ater ao football, sabendo que Kaepernick é, sim, bom o suficiente para não ser apenas um jogador facilmente substituível porque a polêmica ao redor do seu nome se tornou maior do que ele próprio (a exemplo do que aconteceu com Chris Kluwe, ex-punter dos Vikings ou nosso amado Tim Tebow, hoje outfielder do Columbia Fireflies).

Melhor do que você pensa.

Dinheiro não deve ser problema

Chase Daniel recebeu, no ano passado, um contrato de 3 anos e 21 milhões de dólares para ser absolutamente backup, considerando que os Eagles já tinham Sam Bradford e pouco tempo depois trocaram um caminhão de escolhas por Carson Wentz (ele já seguiu em frente e voltou para New Orleans, mas porque ele pediu para ser dispensado. Curiosidade: ficou apenas 15 dias desempregado).

Já Mike Glennon, Tyrod Taylor e Alex Smith, que devem ter sua titularidade questionada durante 2017, receberão por volta dos 16 milhões esse ano. O contrato de Kaepernick valeu, em média, 13 milhões anuais nos três anos desde sua renovação com os 49ers – o que o coloca exatamente no meio desse grupo.

Considerando que a época de grandes contratos já passou, é improvável imaginar que Kaepernick venha a pedir mais que algo em torno de 10 milhões, naquele tipo de contrato para “provar o seu valor” e ter a chance de um mega-contrato em 2018. Parece um montante bastante razoável para um QB que deve acabar a temporada como titular e, caso estejamos errados e ele falhe, não será algo que acabará com uma franquia.

OBS: Riley Reiff, Russell Okung, Andrew Witworth e Matt Kalil são todos jogadores de OL com asteriscos ao lado de seus nomes por várias razões e irão ganhar mais dinheiro do que isso.

Kaepernick é melhor do que qualquer reserva que você pode encontrar

Chegaremos bem mais longe do que isso, mas seria mais fácil empregar Kaepernick se ele aceitasse segurar a prancheta e ser uma excelente opção caso o pior aconteça. O primeiro argumento, fácil, é que ele não se “encaixaria em qualquer sistema”, afinal, ele sabe correr.

Entretanto, Matt Cassel e Derek Anderson (e sua interceptação premiada) são considerados “opções seguras” a Mariota e Newton, respectivamente. Além disso, Trevone Boykin, Brett Hundley, Cardale Jones e Scott Tolzien, também em sistemas “com mobilidade” (FICA O DESAFIO: TENTE LEMBRAR EM QUAIS TIMES ELES ESTÃO1), provavelmente não são confiáveis sequer para dar aquela ajoelhada e fechar o jogo.

Se a questão é o desemprego, já são 32 vagas que Kaepernick poderia ocupar – mesmo que fosse para substituir o estilo de jogo de Sam Bradford ou Carson Palmer, há a impressão que ele ainda seria bem mais produtivo que Case Keenum e Drew Stanton, ainda que com uma redução mais drástica no salário.

Kaepernick é melhor que uma dúzia de QBs empregados

Façamos o desafio inverso ao do tópico anterior (sem roubar!), quais times têm os seguintes QBs com chances de serem titulares em 2017: Josh McCown, Paxton Lynch, Brian Hoyer, Bryce Petty, Brandon Weeden e Matt Barkley?2 A resposta está no final deste texto, mas espere chegar lá. De qualquer forma, não é com esse fim de feira ainda que devemos comparar Kaepernick.

Pouco tempo antes de iniciar a temporada de 2016, fizemos um ranking de QBs e, como Chip Kelly é um lunático, Colin não aparece nele. Hoje, observando-o passados os “indubitáveis” 7 primeiros e os 4 veteranos seguintes (dois dos quais, Palmer e Romo, estão em vias de ou aposentados), existe algum QB que se possa afirmar inegavelmente superior a Kaepernick?

Mariota e Winston são excelentes jovens que provavelmente chegarão ao nível do top7, serão melhores que Kaep, sem dúvidas, mas ainda precisam dar o salto. Dalton, Taylor e Stafford parecem destinados a esse mesmo nível intermediário ao lado de Kaepernick – e os resultados que estes QBs conseguem são os que devemos esperar dele.

Não obstante, o ex-QB do San Francisco 49ers tem um currículo que estes anteriores não têm. O Super Bowl perdido (por um holding não marcado, importante frisar) lhe iguala a Ryan (e, curiosidade: dos QBs que chegaram ao SB deste século, somente Jake Delhomme e Rex Grossman acabaram as carreiras como meros backups). Já as duas presenças em NFC Championship Games não são igualadas por nenhum dos citados.

Além disso, ao contrário de Mark Sanchez (que também chegou a duas finais da AFC), não é possível dizer que Kaepernick foi totalmente carregado por uma grande defesa ou pelo jogo corrido. Lógico que a defesa estava ali e em grande fase, mas os seus melhores recebedores eram Vernon Davis e Michael Crabtree e, se aquele jogo contra os Packers nos playoffs, por exemplo, é indicação de algo, ele era metade do jogo corrido – não à toa produziu uma média aproximada de 3700 jardas (e 23 TDs para 13 turnovers) nas temporadas em que esteve saudável.

Isso, obviamente, nos tempos felizes com Jim Harbaugh, que no mês passado afirmou que “[Kaepernick] terá uma boa carreira e será um grande quarterback, ganhará títulos” e ainda, de quebra, disse que o jogador “é uma pessoa especial e um herói”.

Por mais que Harbaugh e Kelly tenham esquemas que dão liberdade para o estilo único de Kaepernick, os grandes treinadores sempre adaptaram o seu esquema de jogo para que seus melhores jogadores produzam o seu melhor.

Kyle Shanahan, que atualmente prefere contar com Brian Hoyer e Matt Barkley (que, ainda assim, são realmente melhores do que Kaepernick no “estilo tradicional”? Provavelmente não) em San Francisco, começou sua carreira com a ideia justamente diferente disso, ainda que refletida em toda a NFL: “[…] porque ainda que você esteja buscando o seu melhor jogador, tentando ser justo com estes quarterbacks [como Kaepernick], você também está sendo injusto com o time” – ou seja, ele pode até ser melhor, mas Kyle prefere ver Hoyer e Barkley porque eles podem competir na mesma mediocridade. Divirta-se, então.

Perdendo empregos por causa do visual.

Falemos de números

Com um grupo ridículo ao seu redor – Torrey Smith deve ter sido o seu melhor alvo, enquanto Carlos Hyde segue tendo dificuldades em manter-se saudável, o que deu passagem a jogadores como DuJuan Harris e Chris Harper (imagino que ele seja o terceiro irmão de Two and a Half Men), e depois de ter perdido a oportunidade de treinar como titular durante toda a preseason, já que a opção do treinador era Gabbert, Colin ainda assim conseguiu produzir um rating de 90.7, com 18 TDs e 9 turnovers em 11 jogos – o que ao longo de uma temporada completa lhe colocariam ali ao lado dos eternos Alex Smith e Andy Dalton.

Um antigo crítico do jogador, Cian Fahey, um irlandês que escreve um livro chamado “QB Catalogue” após assistir todos os snaps de todos os QBs da liga, aponta sua evolução como jogador dentro do pocket (atacando diretamente a história de que ele só assusta porque pode correr), também considerando a a debilidade da sua linha ofensiva, além de aportar outros dados interessantes: EM uma estatística chamada “sacks que o QB poderia evitar”, Colin tem 12,5%, enquanto Andy Dalton e Alex Smith poderiam ter evitado mais de 30%; ele ainda é segundo colocado na liga em “ratio de passes interceptáveis lançados”; e a precisão ajustada dos seus passes, também um ponto sempre muito criticado, foi de quase 75% (14º na liga).

Observando, os números indicam fortemente que Kaepernick está, ao menos, na média dos titulares. Ainda que, é de se imaginar, com um grupo um pouco melhor ao seu redor, suas estatísticas só podem crescer. A última razão restante para não contratar o jogador é que ele seria uma distração no vestiário; fechemos com declarações de seus companheiros, que lhe deram o “The Len Eshmont Award”, um prêmio para o jogador que melhor mostra o espírito de coragem e inspirador do ex-DL dos 49ers:

“Eu vi alguns QBs contratados e Kap é muito melhor que eles. Mas eu não sou GM. Eu não sou head coach. Então isso não compete a mim”, Carlos Hyde.

“Ele fez uma escolha e está sentindo as consequências disso. Mas acho que ele vai acabar bem. Alguém lhe vai dar um emprego”, Navorro Bowman.

“Já é hora de Kaepernick assinar com alguém. Ele é melhor que todos os QBs contratados até agora”, Brandon Marshall.

Ao contrário do que estamos assistindo com Adrian Peterson, Kaepernick não é uma questão de “se” e sim de “quando”. O cenário mais bonito seria ele contratado por Cleveland após o time deixar passar os principais QBs do draft (já que eles provavelmente não prestam mesmo), para jogar com o homem-que-fez-Andy-Dalton, Hue Jackson.

Jackson, aliás, deu a seguinte declaração sobre Colin Kaepernick por quem ele e o mítico Al Davis estavam apaixonados na época do draft: “estudando ele, me apaixonei pelo garoto. […] forte, todas as ferramentas para vencer na NFL. Não tinha a menor dúvida de que ele seria bom”.

O resto, bem, o resto seria história.

1Se você disse Seattle, Green Bay, Buffalo e Indianapolis, parabéns, você acertou!

2Jets, Broncos, 49ers, Jets de novo, Texans e 49ers de novo.

De York a Shanahan: o que o futuro reserva para o 49ers

“A coisa mais engraçada sobre ser um torcedor do San Francisco 49ers em 2017 é a reação das pessoas quando você conta esse fato”.

A reação inicial (e natural) é uma risada – afinal de contas você acaba de admitir que sua vida de torcedor é baseada em uma franquia que se tornou a piada da NFL nos últimos anos. Mas logo depois, a reação muda: a hilaridade inicial acaba sendo substituída por um sentimento de pena, como se você tivesse acabado de admitir ter alguma doença grave. Quase dá para ver a pessoa pensando “coitado, ele já sofre o suficiente com essa desgraça de time, é maldade tripudiar ainda mais”.

Existe quase uma solidariedade com o torcedor do Niners nesse sentido, que faz você acabar levando um tapinha nas costas e ouvindo um “as coisas vão melhorar”. Com o Browns mudando sua diretoria e tomando decisões inteligentes, parece questão de tempo até San Francisco herdar o posto de pior franquia da NFL na atualidade. Ser ruim acontece, faz parte do ciclo, mas para chegar nesse nível você precisa de uma incompetência realmente especial.

Mas o pior é que, muito embora os últimos dois anos de San Francisco tenham de fato sido uma piada e justificado todos esses sentimentos, isso não é uma novidade para a franquia. É fácil esquecer isso, mas ser uma piada em meio a péssimas direções e maus cuidados dos seus donos foi a identidade do 49ers durante a maior parte do século XXI.

Depois de sua aparição nos playoffs em 2002 (derrota para os eventuais campeões Buccaneers na segunda rodada), San Francisco teve problemas em 2003 em meio a lesões de seu quarterback Jeff Garcia, e acabou o ano 7-9. E foi aí que tudo explodiu: Garcia foi para Cleveland, o combo de Tim Rattay e Ken Dorsey assumiu a posição, e o time terminou com a pior campanha da NFL com 2-14. Essa campanha rendeu a escolha #1 do draft naquele ano… Alex Smith, que apesar de talentoso teve que lidar com SEIS técnicos diferentes (e seis coordenadores ofensivos) em seis anos e só foi se encontrar em 2011.

Foi o começo de uma das piores sequências da história da NFL: entre 2003 e 2010, por oito longos e intermináveis anos, o time não teve UMA única temporada acima de 50%: campanha combinada de 46-82 (36%) e, bem, demissões quase anuais de HCs. Então acreditem: ser ruim não é uma novidade para o fã do Niners.

Uma nova (e breve) esperança

O problema é que nos ofereceram, no meio do caminho, a esperança. Nos foi mostrado um mundo onde o Niners não precisava ser uma piada, onde eles poderiam ser um time competente, admirado ao redor da NFL, uma referência de sucesso que disputava títulos. E uma vez que você chega nesse nível, ter que voltar atrás é muito mais difícil. Especialmente pela forma como foi feito.

Em 2011, no lugar do então recém-demitido Mike Singletary (talvez o pior técnico de NFL do século XXI), o 49ers anunciou a contratação de Jim Harbaugh, então técnico de Stanford. A chegada de Harbaugh – junto a um elenco promissor e bem montado por Scott McCloughan (que também foi mandado embora naquele verão e substituído por Trent Balkee) – foi o sinal da mudança para a franquia: logo no seu primeiro ano, San Francisco ganhou 13 jogos e a NFC West, Harbaugh foi eleito técnico do ano, o antigo bust Alex Smith se desenvolveu em um jogador competente e a defesa se tornou a melhor da NFL.

Saudades desse homem!

Assim, o time iniciou uma sequência de três anos em que foi um perene candidato ao título, chegando a três finais de conferência consecutivas (e muito perto de chegar também a três Super Bowls), ficando a cinco jardas de um título em 2012. Mesmo em 2014, quando o time foi apenas 8-8 em meio a múltiplas lesões e ficou de fora dos playoffs, a temporada foi melhor do que qualquer uma que o time teve nos anos anteriores à chegada de Harbaugh.

Para alguém que não pegou o auge de Montana e Young, essa foi sem dúvida a melhor época da franquia: o time era bom, a cobertura na mídia era abundante e ser torcedor do San Francisco 49ers era fonte de orgulho. Estávamos felizes por simplesmente ter um time funcional novamente.

Mas, como todo mundo sabe, não durou. O presidente do time (sobrinho da atual dona) Jed York, alguém que já admitiu publicamente não entender quase nada sobre futebol americano, mas que gosta de estar no centro das atenções, e seu GM de estimação Trent Baalke, não estavam satisfeitos com a atenção e os créditos que Jim Harbaugh recebia como salvador do 49ers. Repetiram publicamente que não era o técnico, mas sim o time que eles tinham montado.

Por fim, Harbaugh perdeu a briga de força nos bastidores e, com a (ridícula, se você acompanhou os fatos) desculpa de que o HC tinha perdido o vestiário, colocaram o técnico para correr e promoveram alguém que simplesmente obedecesse às ordens vindo de cima, Jim Tomsula. Sem nenhum currículo que justificasse o cargo, a lógica era simples: se o time tivesse sucesso com Tomsula, ficaria claro que era o time, e não Harbaugh, a causa do sucesso.

O começo do fim

Desnecessário entrar em detalhes do que aconteceu, mas em resumo, tudo deu errado. As peças fundamentais dos bons times de 2011-2013 foram deixando San Francisco, e os movimentos de Baalke para repô-las terminaram em fracasso atrás de fracasso. Na tentativa de continuar vencendo, o time focou demais em contratações de curto prazo e não soube construir um plano duradouro que fizesse sentido, deixando assim de buscar peças que poderiam compor algo maior. Em dois anos, San Francisco venceu 5 e 2 jogos, e demitiu dois outros técnicos (beijos, Chip Kelly!) no mesmo período.

E isso se torna evidente quando você ignora a narrativa que tentaram te empurrar goela abaixo sobre a demissão de Jim Harbaugh, optando por focar nas reações ao redor da NFL: as pessoas estavam chocadas sobre como alguém poderia ser tão burro e demitir um dos melhores técnicos da NFL, que não só tinha trazido sucesso a uma franquia há muito decadente, mas também se tornado a cara dela – o que, claro, foi o motivo da sua demissão.

Até mesmo os jogadores do Seattle Seahawks, então maior rival do Niners, abertamente defenderam Harbaugh e mostraram bastante incredulidade frente ao movimento. Não tinha ninguém que achasse uma boa ideia. Exceto, claro, Balkee e York. A franquia tinha algo bom, tinha algo em que se sustentar, e jogou tudo pelo ralo.

Duas antas.

Reconhecendo o erro?

Mas dois dos mais fracassados anos da franquia pelo menos acenderam na cabeça de algumas pessoas a necessidade de mudança. York e Baalke apostaram e perderam. Para o segundo, isso custou o emprego. Para o primeiro não, porque isso não acontece com o sobrinho milionário e herdeiro da família que claramente não liga para o patrimônio que tem. Esse, aliás, é o principal fator de ceticismo quanto ao futuro do 49ers: poucas coisas são mais prejudiciais para uma franquia do que um dono ruim. E San Francisco talvez tenha o pior de toda a NFL contemporânea.

Ainda assim, pelo menos York e o 49ers admitiram seu erro. Baalke está fora da cidade e a franquia enfim anunciou o que todo mundo com três neurônios funcionais já sabia: que ela precisa se reinventar e recomeçar um planejamento longo para voltar a ser competitiva não ano que vem, mas daqui três ou quatro anos. Você pode questionar que diabos um time está fazendo se coloca esse processo nas mãos de um GM que é um ex-safety que jamais teve uma posição executiva na NFL e, ao invés disso passou esse tempo todo como comentarista de TV? É um questionamento válido, mas pelo menos já mostra uma mudança de postura muito necessária.

Por outro lado, a contratação de Kyle Shanahan para técnico, ainda que seja uma aposta, foi um ponto de otimismo no meio deste processo. Uma das mentes jovens mais brilhantes da NFL, Kyle foi o responsável por montar o ataque do Atlanta Falcons de 2016 que tomou a liga de assalto e fez de Matt Ryan MVP. Shanahan tem apenas 37 anos e nunca esteve na função de técnico, que é bem mais complexa e exigente do que a de coordenador, mas é exatamente o tipo de aposta que um time na condição de San Francisco deve fazer: confiar no seu enorme potencial e aceitar o risco da adaptação como parte do preço a se pagar.

Talvez ele nos salve.

E o mais importante de tudo é que, por mais arriscado que seja começar sua reconstrução com um GM sem experiência na parte executiva do esporte e um HC tão jovem e inexperiente, ambos terão bastante liberdade e margem para trabalhar: a dupla recebeu contratos de seis anos, com muitas garantias.

A mensagem é clara: esse não é um trabalho para pouco tempo e eles terão bastante estabilidade no cargo para poderem pensar a longo prazo e não apenas na segurança de seus empregos. Significa que ambos poderão errar e aprender com os próprios erros no cargo. É uma aposta de alto risco, alto potencial que pode dar uma cara nova a uma franquia que desesperadamente precisa de um novo rosto.

Perspectivas

Sempre irá doer para o torcedor do San Francisco 49ers ir dormir todas as noites sabendo que tinha um dos melhores técnicos e uma das melhores situações da NFL, só para jogar tudo isso fora em uma batalha de egos (e, nessa batalha, o time claramente escolheu o lado errado).

Mas pelo menos agora, pela primeira vez, o time se colocou em uma situação de nos dar esperanças. Bem ou mal, significa um avanço. É o ideal? Talvez não. York ainda é o presidente do time e a situação dos donos ainda é muito desfavorável. Um GM com mais experiência e menor risco seria mais desejável. Mas quando se está no fundo do poço, a única direção possível é para cima e hoje, San Francisco, na pior das hipóteses, já tem uma perspectiva muito melhor do que aquela que estava no horizonte seis meses atrás.

*Vitor é responsável pelo @tmwarning e torcedor do San Francisco 49ers desde 1849.

Tony Romo e a eterna busca pelo quarterback ideal

A situação de desespero completo enfrentada por alguns times evidencia uma das verdades mais inconvenientes da NFL: encontrar um franchise QB é uma tarefa muito complicada. Pode parecer difícil de acreditar, mas aparentemente não existem 32 seres humanos capazes de comandar um ataque com a mínima competência e se tornar a base ao redor da qual uma franquia de sucesso é construída.

Em 2017, a ausência de oferta em um mercado com alta demanda para preencher vagas disponíveis na posição mais importante parece ainda mais acentuada. Se você acha que é exagero, reflita: dos 32 times da NFL, pelo menos oito (25% da liga) vivem situações que vão do desespero completo a dúvidas significativas quanto à capacidade de seus QBs.

Se existisse um ranking do desespero na busca por um quarterback, certamente San Francisco 49ers, New York Jets, Cleveland Browns e Chicago Bears estariam brigando acirradamente pelo topo, já que não têm absolutamente nenhuma opção viável na posição.

O 49ers, depois de dispensar Blaine Gabbert e de Colin Kaepernick ter optado por deixar o time, chega ao cúmulo de não ter nenhum QB em seu roster atual e é a escolha óbvia para time mais desesperado. O Jets não fica muito atrás, contando apenas com os inexperientes e fracos Bryce Petty e Christian Hackenberg no elenco. Em 2016, Browns e Bears até conseguiram extrair de Robert Griffin III, Cody Kessler e Matt Barkley algumas apresentações que se aproximaram um pouco da linha da mediocridade, mas é difícil acreditar que estejam cogitando iniciar a temporada 2017 apenas com essas opções.

Já o Houston Texans vaipagar em 2017 por erros cometidos em momentos de desespero: na busca por um QB, fez um investimento alto em Brock Osweiler e viram a coisa desandar de maneira retumbante. Mas justamente por ter investido tanto, talvez seja necessário mais um ano de sofrimento para que então a ficha caia definitivamente.

Outras duas incógnitas são Buffalo Bills e Jacksonville Jaguars, que estão em uma espécie de purgatório, já que Tyrod Taylor e Blake Bortles já deram sinais de que podem ser o futuro das franquias, mas também deram indícios de que podem colocar tudo a perder. A situação de Bortles em Jacksonville parece ser mais confortável, já que o time vai esperar que sua escolha de primeiro round volte a ter o desempenho apresentado em 2015. Tyrod tem um futuro mais incerto em Buffalo: o time está visivelmente incomodado em se comprometer com os altos salários do contrato atual do QB. Mas diante das opções disponíveis e de um bom potencial de crescimento do jogador, o Bills não deveria pensar duas vezes em ficar com Taylor e evitar entrar no grupo dos times verdadeiramente sem nada a se apegar.

O número de desesperados não é ainda maior porque não consideramos situações potencialmente complicadas, como a do Miami Dolphins, com a contusão e com as performances medianas de Ryan Tannehill, a do Denver Broncos, com um jogador mediano em Trevor Siemian e um projeto a longo prazo em Paxton Lynch, e a do Minnesota Vikings, que não sabe quando ou mesmo se Teddy Bridgewater voltará a jogar e, enquanto isso, terá que depender do modorrento Sam Bradford. Se esses três times entrassem na estatística dos desesperados, um terço da liga não teria um QB decente. É assustador.

Flw, vlw.

Procurando soluções

Para suprir a demanda pela posição mais importante do football, nada como gastar um bom dinheiro na Free Agency, não é mesmo? Infelizmente, a coisa não é tão simples assim. Colin Kaepernick, Jay Cutler e Ryan Fitzpatrick encabeçam uma lista de Quarterbacks Free Agents nada inspiradora, que ainda conta com nomes obscuros como Brian Hoyer, Josh McCown, Blaine Gabbert, Case Keenum e Mark Sanchez. Nenhum desses jogadores, seja pela qualidade técnica ou por habilidade de liderança, é a solução para times fracos que precisam de performances consistentes.

Se a Free Agency não vai trazer soluções, o otimista pode pensar que do draft podem surgir algumas surpresas, como Dak Prescott. Pode acontecer, é claro, mas se apegar a isso é como dar um tiro no escuro. A chance de acertar é muito pequena, especialmente porque o calouro, por mais talentoso que seja, teria que carregar um New York Jets ou um San Francisco 49ers nas costas.

Além disso, não existem unanimidades na classe de calouros de 2017: não há nenhum Andrew Luck e nenhum Cam Newton, por mais que os agentes tentem nos fazer acreditar no contrário. Escolher um QB no draft desse ano será a prova de fogo para os scouts e dificilmente um milagre acontecerá. Nunca se esqueçam: para cada Russell Wilson descoberto no terceiro round, aproximadamente 37 Christian Ponders são draftados no primeiro.

A melhor opção

No meio dessa bagunça toda está um dos melhores QBs da NFL quando saudável e, provavelmente, o principal nome entre os disponíveis no mercado: Tony Romo.

Sem espaço no Dallas Cowboys após a inesperada ascensão de Dak Prescott, é bem provável que Romo seja trocado ou dispensado pelo Cowboys. Apesar de carregar a fama de “amarelão”, principalmente por situações que aconteceram no início de sua carreira, Tony tem sido um dos quarterbacks mais produtivos e regulares dos últimos anos na NFL.

E não seria exagero nenhum dizer que Romo é melhor que Prescott, se desconsiderados os fatores idade e tendências a contusões. Dallas tem a sorte de ter dois jogadores que poderiam tranquilamente ser a solução para qualquer time da liga, mas pensando no futuro, terá que dispensar ou trocar o melhor deles: é difícil imaginar um cenário em que Tony Romo esteja vestindo a camisa do Cowboys em 2017 e, certamente, todos os 11 times já mencionados até aqui estão salivando para tê-lo.

O problema é que a escolha será, principalmente, do próprio Romo. Em caso de dispensa, o jogador se tornaria Free Agent e poderia negociar com qualquer time da liga. Se Dallas resolver trocá-lo, em respeito pelo que tudo que Tony já fez pela franquia, é provável que o jogador seja consultado antes que negócio seja concretizado. De qualquer forma, Romo é o senhor do seu próprio destino e, nesse ponto de sua carreira, já com muito dinheiro no bolso, é provável que escolha um time que lhe dê uma possibilidade mais palpável de título, o que colocaria um ponto final em uma carreira consistente.

Seguindo essa lógica e pensando também nas necessidades dos times, vamos especular sobre os melhores destinos para Tony Romo. E também sobre situações em que, bem, seria melhor considerar aposentadoria – ou o suicídio.

I’ve been waiting all day for Sunday Night.

O paraíso: Denver Broncos

Denver parece ser um time que está a um QB de distância de voltar para o Super Bowl. A defesa segue dominante e o ataque conta com jogadores talentosos, como Demaryus Thomas e Emmanuel Sanders. Nesse contexto, Tony Romo não chegaria como o salvador da pátria, mas sim como a peça que faltava para completar um time que já é muito bom.

Como Denver não toma muitos pontos e prefere correr com a bola, a escolha seria a ideal para Romo inclusive se forem considerados os riscos de contusão, já que no esquema do Broncos, o QB não é tão exigido. Para Denver, além de aumentar bastante as chances de um retorno ao SB, ter Romo como uma ponte para o início da era Paxton Lynch também não é uma má ideia.

Um relacionamento quase perfeito: Houston Texans

O Texans é um time muito parecido com o Broncos: tem sua principal força na defesa, adora correr com a bola e tem bons jogadores no ataque. A diferença é que o conjunto do Texans, apesar de DeAndre Hopkins e JJ Watt, não é tão talentoso quanto o de Denver e Romo estaria um pouco mais distante de um título. As vantagens estão em permanecer no Texas e não estar submetido ao clima de Denver. Além do fato de que (hoje) vencer a AFC South também é bem mais fácil que vencer a AFC West.

Nem o céu, nem o inferno: Chicago Bears

Pode parecer estranho citar o Chicago Bears, que terminou 3-13 na última temporada, como uma boa opção para Tony Romo, mas o time parece ter o tipo de talento ofensivo do qual ele conseguiria tirar proveito. É claro que essa afirmação depende muito da nada certa renovação de contrato do WR Alshon Jeffery.

Se renovar, além de Jeffery, Romo teria à disposição Kevin White, que apesar de ainda não ter mostrado todo seu potencial desde que chegou à NFL, era considerado um dos WRs mais talentosos da classe de 2015. O Bears também tem um jogo corrido muito forte com o surpreendente Jordan Howard. Em Chicago, Romo ainda estaria bem distante de um título, mas é uma opção melhor que as demais – exceto se o Minnesota Vikings decida se livrar de Sam Bradford.

O fundo do poço: San Francisco 49ers

O 49ers é muito ruim e ainda está em uma das divisões mais difíceis da NFL em termos de defesas adversárias. A não ser que queira apanhar constantemente de Arizona Cardinals, Los Angeles Rams e Seattle Seahawks, é melhor para Romo ficar bem longe da lixeira que é San Francisco hoje.

Martírio sem fim: New York Jets

O Jets acaba de perder o WR Brandon Marshall e o C Nick Mangold, um dos melhores da liga. Sobraram apenas os já não tão novinhos Erick Decker e Matt Forte em um ataque bem fraco. Não existe motivo algum para Tony Romo ir para New York passar frio, enfrentar uma imprensa insuportável e não ter chance nenhuma nem de ganhar a divisão, que já tem dono há anos. Não faça isso, Tony!

É preciso estar louco: Buffalo Bills

O Bills não vai aos playoffs há 17 anos. E não é apenas um Tony Romo que vai mudar essa situação. O time tem muitos pontos de interrogação, tanto no ataque quanto na defesa. Não se sabe com certeza o real estado de saúde do WR Sammy Watkins e o RB LeSean McCoy já tem dado declarações desmotivadas. Junte isso a uma comissão técnica nova, ao frio de Buffalo e terá a receita perfeita para o desastre.

Sobre estar de joelhos, Ruby Bridges, Beyoncé e racismo

Há mais de cinco décadas, uma criança de seis anos de idade chamada Ruby Bridges desfilou em meio a uma multidão enfurecida, composta em sua maioria por segregacionistas, para se tornar a primeira criança negra na William Frantz Elementary School, em New Orleans. E o que deveria ser apenas uma cena rotineira, extrapola toda e qualquer noção de poder imagético: Ruby, com toda sua imponência física, é escoltada por policiais no caminho até a sala de aula.

Para além da história, mais de cinquenta anos depois, permanece uma das pinturas mais significativas na luta contra o racismo, que hoje está no lado externo do escritório do presidente Barack Obama, além de diversos estudos sobre moralidade, liderados pelo psiquiatra Robert Coles.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

O contexto histórico, porém, nos ajuda a compreender um pouco o absurdo: em 1954, ano em que Ruby nasceu, a Suprema Corte dos EUA ordenou o fim da separação racial nas escolas – instituições do sul do país, no entanto, ignoraram a decisão.

O estado da Lousiana, por exemplo, teve até o final de setembro de 1960 para colocar em prática a nova política educacional e o objetivo era integrar gradativamente: ano a ano, o processo começaria pelo que aqui conhecemos como jardim de infância e seguiria pelas séries seguintes.

Ruby foi uma das cinco crianças afrodescendentes que passaram no teste que determinava quais crianças seriam enviadas às escolas “brancas”. O teste, claro, já havia sido concebido de uma maneira que, digamos, tornasse mais difícil o ingresso de afro-americanos. Mesmo assim, os pais de Ruby decidiram lutar pela inclusão e, em seu primeiro dia de aula, a garota chegou à escola escoltada pelos já citados quatro agentes federais.

Durante todo o período letivo, a turma de Ruby teve apenas cinco alunos: ela e quatro colegas brancos. Pais optaram por manter filhos em casa, afinal, para eles era algo melhor do que partilhar a escola com uma criança negra. Dessa forma, ela passou boa parte do ano ali, sentada, sozinha, aprendendo matemática com um professor que visualizava como seu melhor amigo.

Moralidade e o ser humano

Robert Coles, um dos psiquiatras infantis mais renomados da atualidade, queria compreender o que aquela menina, imersa em fúria e intolerância, pensava e sentia. Por vários meses, ele e a pequena Ruby conversaram, até o dia em que Coles foi surpreendido: Ruby disse a ele que sentia pena daquelas pessoas. E o rebateu, questionando-o se não achava que aquelas pessoas eram passíveis do mesmo sentimento.

Coles então foi desarmado por uma menina de apenas seis anos enquanto tentava aplicar psicologia padrão, tentava ajudá-la a perceber que, por algum motivo obscuro, ela havia irritado a ordem social vigente e que seria completamente normal ela estar amargurada ou ansiosa. Mas Ruby, ao seis anos de idade, respondeu que orava por eles; no fundo ela era inteligente o suficiente para compreender o que ocorre com o ser humano.

Mas quando Coles fala sobre aquilo que ocorre com o ser humano, ele se refere ao que ocorre com seu senso de moralidade. Para ele a moralidade não está apenas nas sutilezas, não é algo teórico: é, sim, uma questão de lado, de escolha, e também o ponto central da existência humana, o fator que norteia nossas vidas.

“A moral caracteriza nossa própria natureza. Ela tem a ver com conexão humana, com o tipo de conexão que responde a terceiros. Se somos privados de nossa moralidade, estamos privados de uma parte essencial de nós mesmos”, afirma.

É fato que o racismo é um problema histórico e enraizado na cultura norte-americana. Você pode argumentar que cinco décadas se passaram desde o caso de Ruby, mas a verdade é que, mesmo assim, ele ainda está ali, latente, em uma sociedade que não soube exorcizar seus fantasmas.

E aqui não cabe a nós criticar como lidamos com um passado que insistimos em negar, afinal qual sociedade está em paz com os períodos mais sombrios de sua história? Difícil encontrar aquelas que superaram seus erros sem cicatrizes. E, enfim, por que esta história está em um site sobre NFL? Chegaremos lá, mas para isso voltemos ao último Super Bowl.

Racismo enraizado

Um dia antes de se apresentar no Halftime Show, ao lado de Coldplay e Bruno Mars, Beyoncé lançou o clipe de “Formation”. Potencializado pela genialidade da sacada de marketing (timing é tudo, amigos), o vídeo revoltou diversos setores sociais dos EUA. Já na apresentação, Beyoncé trouxe ainda um figurino que homenageava os Panteras Negras: era um mix iconográfico de referências à cultura afro-americana que, claro, mobilizou tanto simpatizantes quanto detratores.

“Formation”, aliás, é gravado na mesma New Orleans que há 60 anos proibiu Ruby Bridges de frequentar a mesma escola que colegas brancos. A mesma cidade, símbolo da força criativa afro-americana e, na mesma medida, palco de históricas repressões policiais. A mesma cidade, berço da Ku Klux Klan. E ali Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina, como milhares de negros submergiram após a tragédia em 2005 – e provavelmente por isso policiais foram orientados a desligar seus televisores no intervalo do SB.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

A primeira frase dita no videoclipe é “What happened after New Orleans?” (“O que houve depois de New Orleans”, em tradução livre). A voz é de Messya Maye, famoso vlogger da mesma cidade, morto em 2010 quando saía de um evento com sua namorada. Já em outra parte do vídeo vemos um cordão de policiais com as mãos para o alto, seguido por um muro em que está pichada a frase “parem de atirar em nós”, semelhante aos gritos ecoados pela população negra durante as manifestações de 2014.

Beyoncé, porém, não está atacando apenas a polícia norte-americana, como sugeririam conservadores na época. Não foi ela quem recolocou a questão racial no centro do debate alguns meses atrás, assim como não foi Colin Kaepernick quem a recolocou na pauta atual. Quem trouxe novamente a questão à tona foi, na verdade, Maryland e Ferguson. Foram Alton Sterling em Baton Rouge e Philando Castile nas ruas de Falcon Heights. Foi Messya Maye, em 2010. Foram tantos outros que não sabemos o nome.

Sentindo na (cor da) pele

Não tenho propriedade alguma para falar sobre o racismo cotidiano nos EUA (na verdade, tampouco sobre racismo no Brasil; sou daqueles que acredita que só quem já sentiu na pele estas situações pode dar a real dimensão do problema), mas é sabido que até hoje uma das estrofes não cantadas no hino norte-americano “supostamente” enaltece a caçada de escravos.

Por outro lado, dados tornam impossível negar a realidade: de acordo levantamento do Mapping Police Violence, em 2015 um negro tinha três vezes mais chances de ser morto por um policial que um branco. Segundo o mesmo mapa, apenas 30% dos 346 negros mortos por policiais estavam armados (contra 19% de vítimas brancas). Já pesquisas recentes conduzidas pelo Black Youth Project da Universidade de Chicago e pelo Centro Associated Press-NORC de Pesquisa de Questões Públicas, indicam que mais de 60% dos jovens negros (e 40% dos jovens hispânicos) dos Estados Unidos afirmam que eles ou alguém que conhecem já sofreram alguma forma de violência policial. Paradoxalmente, eles também pedem uma presença maior da polícia em suas comunidades.

De joelhos

Era 26 de agosto quando Colin Kaepernick se ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino norte-americano. Um ato que por si só pode não significar tanto para nós, brasileiros – estamos longe de ser um país patriota, mal sabemos cantar o hino –, quanto para norte-americanos, mas de qualquer forma, o cerne aqui é a motivação de Colin.

"“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor", declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que football e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, disse o quarterback em entrevista à NFL após o primeiro ato.

É inegável que há uma falsa impressão de que o esporte é capaz de superar preconceitos, que é um elemento capaz de quebrar barreiras e promover o encontro entre o diferente. Bem, no fundo, é apenas mais uma balela que, após repetida a exaustão, sobretudo sob a chancela do famoso “espírito olímpico”, se tornou uma falsa verdade.

A prova disso é que atletas, brancos e negros, se dividiram após a o gesto de Colin – isto em um ambiente 67% negro, segundo levantamento do Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte, o que só nos mostra que, mesmo em um cenário composto em sua maioria por afrodescendentes, a aceitação está longe de ser garantida.

E se uma semana depois do gesto de Colin, Marcus Peters, cornerback do Chiefs, foi além e cerrou o punho, Justin Pugh, branco e tackle do New York Giants, postou em seu Twitter: “Ficarei de pé durante a execução do hino nacional nesta noite. Obrigado a todos (gênero, raça, religião) por colocarem suas vidas em risco pela bandeira”.

Já Jim Harbaugh (branco), um dos grandes treinadores do esporte e que comandou o mesmo Colin Kaepernick em sua melhor fase afirmou não “respeitar a motivação, tampouco o ato” – para em seguida se desculpar, dizendo que apenas o ato o incomodava.

Tudo bem, aceitamos o fato de que é algo a se pensar quando atletas negros se opõem ao gesto. Jerry Rice, por exemplo, criticou Kaep. E depois mudou de ideia. Victor Cruz, wide receiver do Giants, também se opôs: “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, declarou. 

Já na NBA, Russel Westbrook, armador do Oklahoma City Thunder, postou em seu Instagram um desabafo na última terça-feira (20) contra a violênciaMas tudo isto ganha outro significado quando diferentes atletas e técnicos brancos se posicionam como árbitros para a injustiça racial. É o momento em que temos situações absurdas, como a de Alex Boone, branco, 29 anos, e guard do Minnesota Vikings, mesmo estado em que o já citado Philando Castile perdeu a vida; Alex classifica o ato como “vergonhoso” e exige que Colin mostre “algum respeito”.

Você ainda tem Sean Payton, branco e treinador do New Orleans Saints, que fica na mesma New Orleans de Ruby Bridges, na mesma New Orleans onde Beyoncé deu vida a “Formation”, declarando que há coisas mais importantes para serem trabalhadas.

Não importa se não há consenso de que sentar durante o hino é um ato extremamente desrespeitoso. Pouco importa se não sabemos ao certo o quanto cerrar os punhos é ofensivo à bandeira. Tampouco importa se na pior das hipóteses Colin Kaepernick esteja ao menos trazendo novamente à tona uma importante discussão.

Payton, Pugh, Harbaugh, Boone e tantos outros apenas escancaram aquilo que possivelmente foi a maior motivação de Kaepernick ao se ajoelhar pela primeira vez: lembrar toda a sociedade americana que o racismo ainda está ali, embora uma parcela dela insista em negá-lo e insista, sobretudo, em negar seu passado.

Ao se ajoelhar, Colin expôs a dificuldade que esta parte da sociedade tem em enxergar questões que estão a um palmo de distância, questões estão sob seus olhos. Tudo isto lançando mão de argumentos esdrúxulos como seu alto salário ou o fato de o presidente ser negro. Ou ainda questionar que ele está fazendo isso no momento mais conturbado de sua carreira. O próprio Colin, aliás, revelou em entrevista coletiva que recebeu diversas ameaças após sua atitude.

“Recebi algumas ameaças, mas não estou preocupado com isso. Para mim, se algo assim acontecer, você provou meu ponto e vai ser alto e claro para todos por que isso acontece. Há muito racismo disfarçado de patriotismo neste país e as pessoas não gostam de lidar com isso, eles não gostam de abordar qual é a origem deste protesto. Você tem jogadores em todo o país, não só na NFL, mas jogadores de futebol, da NBA e da universidade: eles não gostam de abordar esta questão de que as pessoas de cor são oprimidas e tratadas injustamente. Não sei por que é assim ou o que eles temer, mas isso precisa ser falado”, disse.

De joelhos perante um símbolo nacional, Colin Kaepernick mostrou que na verdade a sociedade norte-americana ainda é incapaz de ouvir. Mostrou que, infelizmente, quando se trata da existência do racismo, ela prefere se agarrar em seus próprios privilégios a lidar com o problema.

Despontando para o anonimato: ascensão e queda de Chip Kelly

Charles Edward “Chip” Kelly chegou à NFL com status de gênio revolucionário. Contratado em janeiro de 2013 para ser o 21º head coach do Philadelphia Eagles, exibia um currículo recheado de vitórias e recordes pela Universidade de Oregon. De 2010 a 2013, quando ocupou o mesmo cargo na Universidade, Kelly chegou a três BCS Bowls e a um BCS National Championship Game, a final do torneio universitário; ganhou dois Bowls e perdeu o BCS National Championship Game para a Universidade de Auburn, do então ganhador do prêmio Heisman, Cam Newton. Mais do que vitórias, títulos e estatísticas inflamadas, adquiriu a fama de guru ofensivo, comandando um dos ataques mais rápidos, explosivos e inovadores que a NCAA já viu.

Ao ser contratado pelo Philadelphia Eagles, Kelly trouxe as mesmas filosofias que usava na NCAA para a NFL. Como era algo que até então não havia sido tentado, pelo menos não com a mesma convicção, muitos dos analistas que acompanharam sua transição acreditavam que poderia haver uma revolução na forma como o football era jogado. Lá no fundo, todos os amantes de ataques alucinantes e pontuações altas esperavam a chegada do messias que revolucionaria o jogo. Havia uma torcida para que ele fosse bem sucedido. E, ao menos no início, ele foi.

Amigo é coisa pra se guardar...

Amigo é coisa pra se guardar…

Primeiros passos

Em seus dois primeiros anos no comando do Philadelphia Eagles, Chip Kelly parecia o mesmo guru ofensivo que fez o Oregon Ducks ter médias sempre superiores a 45 pontos por jogo. Na temporada 2013, o Eagles terminou com 10 vitórias e 6 derrotas e foi campeão da NFC East. Perdeu em casa para o New Orleans Saints no Wild Card Round, com um field goal nos últimos segundos. Mesmo com a derrota em sua primeira (e única) partida de playoffs, Chip conduziu o Eagles a uma clara evolução em relação à temporada de 2012, quando a equipe terminou com 4 vitórias e 12 derrotas e culminou na demissão do lendário técnico Andy Reid.

A evolução era percebida em campo e também nos números. Logo em seu primeiro jogo, o ataque de Kelly já deu sinais de que seria explosivo. Apenas no primeiro tempo da vitória por 33 a 27 contra o Washington Redskins, o Eagles conseguiu 322 jardas, contra apenas 75 de Washington. Na temporada 2013, o Eagles terminaria como segundo ataque mais prolífico da liga, com 6676 jardas totais, ficando atrás apenas da temporada histórica de Peyton Manning pelo Denver Broncos.

O running back LeSean McCoy liderou a NFL em jardas corridas, com 1607 e média de 100 por jogo. McCoy estabeleceu o novo recorde da franquia para jardas corridas em uma partida: 217, no meio de uma tempestade de neve, contra o Detroit Lions.

Nick Foles, quarterback muito abaixo da média que substituiu o contundido Michael Vick após a semana 5, completou a boa marca de 64% de acerto nos passes, lançando para 27 touchdowns e apenas 2 interceptações. Foles chegou a empatar o recorde da NFL de 7 passes para TDs no mesmo jogo, na vitória por 49 a 20 contra o Oakland Raiders.

Os números eram espetaculares, especialmente por se tratar da primeira temporada na NFL de um sistema inovador que rompia com muitas das crenças mais básicas sobre como operar um ataque na NFL. O sentimento em Philly era de crença, no sentido mais devoto da palavra, e de completo entusiasmo.

Um dia também escreveremos sobre ascensão e queda de Nick Foles.

Um dia também escreveremos sobre ascensão e queda de Nick Foles.

O início do fim

Antes do início da temporada 2014, o wide receiver DeSean Jackson, que havia terminado no top 10 da liga em jardas recebidas na temporada anterior, foi dispensado e assinou com o Washington Redskins. Foi a primeira das estrelas que construíram a excelente temporada de 2013 a deixar o Eagles.

Sua ausência não foi sentida, pelo menos no início. Jeremy Maclin, WR que havia ficado fora da temporada 2013 com os ligamentos do joelho rompidos, conseguiu números semelhantes aos de DJax, também terminando no top 10 da liga em jardas recebidas. O ataque continuava funcionando: o combo Nick Foles e Mark Sanchez foi responsável por 4356 jardas aéreas, 27 TDs e 21 INT. LeSean McCoy foi o terceiro RB da liga em jardas terrestres, com 1319. O bom desempenho ofensivo rendeu o mesmo número de vitórias da temporada de 2013, 10, porém o Eagles não conseguiu a classificação aos playoffs, já que ficou atrás do Dallas Cowboys na NFC East e não teve vitórias suficientes para conseguir uma vaga de Wild Card.

Se o resultado não podia ser comemorado, era difícil também que fosse lamentado. O desempenho em campo ainda era bom e acreditava-se que, com algumas contratações pontuais, especialmente de jogadores de defesa, somadas a um bom draft, o Eagles poderia ser um dos melhores times da NFL. O que aconteceu, porém, foi exatamente o oposto.

No início de 2015, Howie Roseman deixou o cargo de general manager do Eagles para assumir funções de menor importância na organização. Na reestruturação do time, Chip Kelly recebeu o pomposo título de “head of football operations”. Junto com o cargo, adquiriu o poder de ter a palavra final em todas as transações que envolviam jogadores. Poderia contratar, trocar e dispensar sem ter que responder a ninguém. E foi aí que tudo começou a dar errado.

Dois meses após receber o poder absoluto, em um período de 10 dias, Kelly fez transações que selariam o seu destino. Pelo segundo ano seguido, permitiu que seu principal WR deixasse o time sem nenhuma dificuldade. Jeremy Maclin assinou com o Kansas City Chiefs de Andy Reid e deixou um vazio que não conseguiu ser ocupado por nenhum dos WRs que restaram no elenco. Em uma troca que chocou a NFL, enviou LeSean McCoy, um dos RBs mais talentosos de sua geração, para o Buffalo Bills em troca do linebacker Kiko Alonso, que teve momentos promissores em Buffalo, mas sempre foi propenso a contusões. Para suprir a ausência de McCoy, contratou os RBs DeMarco Murray e Ryan Matthews, que junto com Darren Sproles formavam um dos grupos de RBs mais completos da liga. Em outro movimento surpreendente, trocou o QB Nick Foles e uma escolha de segundo round do draft pelo também frequentemente contundido QB Sam Bradford, primeira escolha do Saint Louis Rams no draft de 2010. As escolhas eram duvidosas, mas Chip recebeu o benefício da dúvida, ainda aproveitando a aura de gênio adquirida em seus dois primeiros anos.

Assim como em sua chegada à NFL, o desejo geral era de que tudo desse certo, de que o espetáculo exibido nas primeiras temporadas permanecesse em pleno funcionamento.

Ensinando a fazer a escolha errada

O problema é que nada deu certo. Sam Bradford mostrou continuar sendo o QB inseguro e inconsistente que não fez sucesso no Saint Louis Rams. Os recebedores mostraram estar à altura da mediocridade do quarterback: enquanto Jordan Matthews dropava passes, Nelson Agholor, rookie selecionado por Chip no primeiro round do draft, mostrava que estava longe de estar pronto para vestir o uniforme de um time profissional.

Talvez o caso mais bizarro do Eagles de 2015 seja DeMarco Murray. Em 2014, ainda pelo Dallas Cowboys, Murray foi o melhor RB da liga e correu para quase 2000 jardas. Não se sabe, porém, se os números em Dallas aconteceram devido ao talento de Murray ou pela ajuda da excelente linha ofensiva do Cowboys. O que se sabe é que o RB estava longe de ser o protótipo de jogador que faria sucesso no sistema de Kelly: RBs velozes que aproveitam o espaço para conseguir ganhos expressivos de jardas. DeMarco Murray é um jogador de força, que corre pelo meio da linha ofensiva e que precisa de bons bloqueios para ter sucesso. Isso era provado jogo a jogo quando Chip continuava chamando o mesmo estilo de jogada: corridas para o lado do campo para as quais Murray mostrava seguidamente não possuir aptidão. Ryan Mathews, RB mais veloz e ágil, conseguiu muito mais sucesso que Murray, mesmo com uma quantidade muito menor de carregadas.

O ataque veloz, sem huddle, que estrangulava as defesas adversárias, não funcionava mais. O que antes era um trunfo se tornou uma desvantagem. Foram vários os reports de reclamação dos jogadores de defesa do Eagles, já que eles eram obrigados a retornar a campo apenas com o mínimo descanso proporcionado pelo rápido three and outconseguido” pelo ataque. O resultado dessa falta de balanço foram duas partidas consecutivas em que o Eagles tomou 45 pontos, contra Tampa Bay e Detroit.

Se antes o Philadelphia Eagles tinha números coletivos e individuais que ocupavam os primeiros lugares da liga, em 2015 tudo falhou. O time foi o ataque número 12 da liga, com muitos dos números conquistados quando a defesa já tinha tomado muitos pontos e o jogo já tinha se tornado irrelevante. Não houve nenhum destaque individual. Com o sistema defensivo sendo o trigésimo melhor da NFL, superior apenas as horrorosas defesas de New Orleans Saints e New York Giants, o Eagles terminou com sete vitórias e nove derrotas, em um retumbante fracasso que levaria à demissão de Chip Kelly antes mesmo do fim da temporada regular.

Além das decisões questionáveis envolvendo as contratações de jogadores e do fraco desempenho em campo, outros aspectos colaboraram diretamente para a demissão de Chip antes mesmo do fim da temporada 2015. De acordo com um artigo de Jason La Canfora, com o Eagles fora da briga pelos playoffs e com o ambiente cada vez mais pesado, o dono Jeffrey Lurie decidiu buscar informações com os funcionários do time sobre o modo de agir de Kelly. E o que descobriu foi, no mínimo, alarmante: além de um retorno negativo quase unânime, Lurie percebeu que Chip era incapaz de estabelecer o mais básico relacionamento humano com seus companheiros de trabalho. Tudo se limitava a football.

De acordo com La Canfora, o que parece ter sido um dos motivadores da demissão de Kelly foi um episódio envolvendo uma tradicional festa de fim de ano promovida pelo Eagles para seus funcionários. Motivo de muito orgulho para Jeffrey Lurie, a festa tradicionalmente acontecia em uma noite de segunda feira próxima ao Natal. Chip Kelly, que mantinha as rédeas da franquia em suas mãos, se recusou a participar, alegando que a preparação dos técnicos para o próximo jogo seria prejudicada. Era apenas uma festa, que acabou transferida para uma sexta feira, mas exemplifica a indiferença de Kelly com aspectos culturais da organização e o abismo que existia entre o que ele estava construindo e o que Lurie gostaria para seu time.

Fica claro é que a demissão de Chip Kelly não aconteceu porque ele falhou como head coach. Apenas uma temporada negativa, após vários recordes quebrados e estatísticas que lideraram a liga, não é suficiente para derrubar um técnico. Jeff Fisher, técnico do Los Angeles Rams, vem colecionando resultados medíocres e times totalmente sem inspiração desde os tempos de Tennessee Titans e ainda está empregado. Kelly falhou como líder. Falhou como gestor de pessoas. Falhou ao colocar seu ego acima da cultura da organização. Falhou em ser minimamente político. Falhou ao considerar que seu sistema poderia superar a completa ausência de talentos individuais.

Um dia antes de sua demissão, pressionado pelos repórteres de Philadelphia, Chip Kelly disse, ironicamente, que não era o general manager do time. Você não era mesmo, Chip.

Recomeço?

Se a filosofia é colocar seu sistema acima dos talentos individuais, Kelly não poderia ter escolhido time melhor para continuar sua carreira na NFL. É possível que ao fim da temporada que se aproxima o San Francisco 49ers possua a primeira escolha do draft de 2017. O tão aclamado sistema de Chip será posto à prova em um dos piores rosters da NFL no momento, já que jogadores como Torrey Smith, Carlos Hyde, Colin Kaepernick e Blaine Gabbert estão longe de serem unanimidades quando o assunto é talento individual.

Como gestor de pessoas, Kelly ainda terá que lidar com a vaidade de Kaepernick, que tem se mostrado sem vontade de continuar no 49ers. Se for bem sucedido, pode ser o recomeço da saga do gênio revolucionário. Já o contrário provavelmente decretará como único caminho restante um retorno ao college. Por aqui, apostaremos na segunda opção.