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A terceira (e última) chance

Tirando alguns poucos idosos que insistem em, vez ou outra, aparecer no Twitter para dar palpite e relembrar que acompanham os Titans desde 1992, quando eles ainda sequer existiam (acho), alguns de nós somos parte da primeira geração a acompanhar NFL – pelo menos, a primeira a ver insistentemente (mesmo perdendo com uma constância absurda) e consumir informação diária sobre a liga americana. Aceitemos, tudo isso começou há, no máximo, 9 ou 10 anos.

E talvez uma das intrigas mais impressionantes, um daqueles círculos fechados do qual lembraremos em 2036 esteja se formando em 2018: um dia diremos com saudades, “ah, que grande besteira eles fizeram, como a NFL era legal e a XFL hoje é sem graça”. Bom, os Redskins, que não são relevantes para muita coisa desde aquela troca épica com os Rams, são parte dessa história.

A melhor parte é que não falaremos de RG3 aqui porque é hora de SEGUIR EM FRENTE. Tudo começa, na verdade, na falta de fé em Kirk Cousins, que lucrou 300 trilhões com três franchise tag (que poderiam ter aparecido como garantia em um contrato de 5 anos), para ser substituído por Alex Smith, que também ganhará uns bons milhões em fim de carreira – às vezes, é fácil esquecer que Smith tem o mesmo tempo de liga que Aaron Rodgers.

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Mas Smith só estava disponível no mercado, mesmo após uma temporada de quase-MVP – mais sobre isso à frente – porque o seu time, os Chiefs, investiram muito no draft para pegar Pat Mahomes, um “braçudo lá” que a franquia acredita que trará mais verticalidade ao ataque, enquanto Smith foi o cara com mais jardas em passes longos em 2017 (muito bom se livrar de Todd Haley).

Esse texto havia prometido um círculo, certo? Pois não paramos por aí. Os Chiefs gastaram muito na troca no draft de 2017 porque precisavam estar na frente dos Saints, que teoricamente via em Mahomes o QB do seu futuro, substituto de Brees.

E na última quarta-feira, como não conseguiu selecionar Mahomes, os Saints arrumaram outro que pode ser o substituto de Brees quando ele seguir rumo à aposentadoria: Teddy Bridgewater, ex-QB dos Vikings, cujo joelho assustou Rick Spielman, que resolveu buscar uma alternativa mais segura e teoricamente confiável em Kirk Cousins, saído dos Redskins – que acredita que Alex Smith é realmente quem pode levá-los ao Super Bowl.

Alex Smith

A história de vida de Smith já conhecemos (mesmo que pareça bizarro imaginar que o jogador já tenha 14 temporadas na liga) – e já é a segunda vez na sua carreira que, quando parece que ele chegará ao topo e se tornará um QB sólido e inquestionável, a vida lhe puxa o tapete. Em seu tempo de Chiefs, somente Wilson e Brady ganharam mais jogos, mas o tombo veio até antes da temporada com Pat Mahomes, duvidando da possibilidade de Alex chegar lá como os grandes – mesmo que o QB claramente tenha sido um dos melhores da temporada passada, especialmente no início, lançando apenas 1 INT e 18 TDs antes da bye.

Obviamente, é válido lembrar que poderes sobrenaturais de ganhar títulos são mera especulação – apesar de todos sabermos que também são a mais pura realidade; ou, como melhor dizem os espanhóis: “eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem”.

Como sempre, entretanto, tem alguém (normalmente algum bobo) que compra o resto dos outros: Washington investiu Kendall Fuller (um bom CB), uma escolha de 3ª rodada e 94M ao longo de 5 anos (barato, para os padrões atuais), com 71 milhões que basicamente garantem que Smith se aposentará na capital.

A esperança é de que essa aposentadoria seja acompanhada de resultados históricos, mantendo a consistência que o pintou como um jogador até conservador, mas conquistando o grande número de TDs que conseguiu em 2017 (26, máximo na carreira) e o grande desempenho nas bolas longas; inclusive 30% das suas jardas (4.042, também máximo na carreira) vieram através de lançamentos longos para Tyreek Hill e cia.

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Aos 34 anos, Smith parece ter descoberto como jogar o seu melhor football e, no seu terceiro time, tem novamente a oportunidade de se mostrar a solução e um grande QB da liga. Resta assistir e acompanhar se, ao contrário do que acreditaram as grandes mentes ofensivas dos últimos anos da NFL em Jim Harbaugh e Andy Reid, Alex terá capacidade de elevar a capacidade dos seus companheiros de ataque e apoiar o trabalho de uma defesa que ainda passa um sentimento que não alcança ainda o nível das top da NFC.

O WR de 40 milhões de dólares

Paul Richardson. Esse é o homem que é pago para ser o principal alvo de Alex Smith pelos Redskins – levando em consideração que não sabemos direito de onde ele saiu, afinal o seu despertar das luzes para o resto da NFL (703 jardas, 6 TDs pelos Seahawks) não foi grande coisa, parece muita responsabilidade e pressão no jogador, mesmo que os 40M de dólares sejam distribuídos ao longo de 5 anos.

Para dividir as atenções, Jamison Crowder, queridinho de Kirk Cousins, tem produção parecida com a de Richardson. Talento de verdade temos nos frequentadores do DM da equipe: Jordan Reed, TE que ainda não jogou na pré-temporada, e Josh Doctson, que mesmo tendo passado 2017 saudável, não justificou a sua posição de titular, recebendo apenas 35 passes (e precisa fazer mais do que isso para parar de ser xingado por nós – não que ele esteja preocupado, claro).

Ao lado de Smith, ainda não está bem definido quem carregará a bola pelo gramado: Samaja Perine liderou o time em jardas corridas em 2017, mas com uma média de 3.4 jardas por corrida; Chris Thompson é uma opção mais sólida para o jogo aéreo; e Darrius Guice, escolhido no segundo round, estourou o joelho ainda no training camp. De quebra, até o fim da escrita desse texto, o time ainda tinha Adrian Peterson no roster, o que só adiciona mais drama – caso ele fique, muito mais do que potencial.

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De alto nível mesmo, é válido apontar a linha ofensiva: Trent Williams e Scherff são eternos pro bowlers; Morgan Moses e Shawn Lauvao são titulares sólidos há anos, inclusive com contratos longos para garanti-los ali; e Chase Roullier, da sexta rodada do draft de 2017, já se garantiu como Center titular e não deve ser tirado do posto.

A defesa sem Kendall Fuller

Kendall Fuller, empatado com o Safety D.J. Swearinger, foi o que mais produziu interceptações na defesa, com 4 cada – e, especialmente enfrentando recebedores no slot, deverá fazer falta, já que era um excelente complemento para Josh Norman, eterno marcador em zona. Além disso, uma secundária que teve um bom 2017 também viu Bashaud Breeland, o CB que complementava a marcação em nickel, partir. Os substitutos deverão ser Fabian Moreau e Quinton Dunbar, mas ainda fica a dúvida sobre quem jogará no slot, uma posição tradicionalmente difícil.

A estrela do front seven é Ryan Kerrigan, que produziu 13.5 sacks em 2017 e nunca menos de 7.5 na carreira. Preston Smith seguiu evoluindo em 2017 e é um bom complemento para Kerrigan; de quebra, a equipe ainda adicionou Pernell McPhee, chutado pelos Bears por não corresponder ao grande contrato que recebeu, mas ainda assim útil para uma rotação.

Direto do draft, a linha defensiva conta com a adição de Da’Ron Payne para abrir espaços, segunda vez seguida que Washington investe uma alta escolha em sua linha; em 2018, Jonathan Allen busca ficar saudável ano para usar todo seu potencial.

Palpite

O time não parece ter qualquer chance de desafiar Philadelphia pelo título da divisão a menos que Alex Smith consiga fazer mais do que produziu em 2017, e durante a temporada completa – isso enquanto a defesa evolui um nível mesmo perdendo peças. Entretanto, como dessa liga tudo podemos esperar e sempre nos surpreendemos, Washington talvez seja um time que valha esperar um pouco para ver, mesmo que saibamos que, na maioria das vezes, o benefício da dúvida acaba em frustração ou fracasso.

Destinados à decepção: quanto maior a expectativa, maior o tombo

Era algo que não esperávamos, mas a verdade é que Kirk Cousins impressionou em seu primeiro ano como quarterback titular do Washington Redskins; com ele foram nove vitórias e sete derrotas, além do título da NFC East. O que mais chamou a atenção, porém, foi que tudo ocorreu de maneira despretensiosa, afinal, no início desta história, ninguém em sã consciência acreditaria que ele levaria o Redskins tão longe.

De qualquer forma, exceto por um ou outro motivo esquecível, como ajoelhar na bola a cinco jardas do touchdown ou ainda a explosão que viralizou (“You like that?”, amigos?), Kirk raramente esteve próximo das manchetes ou de declarações desagregadoras: seu jogo falou por si só e, ao menos parece, era o que ele buscava. E é o que ainda diz buscar.

Gostaria de ser o San Antonio Spurs da NFL”, disse Cousins recentemente em entrevista à NBC. “Seja entediante e talvez, ao final da temporada, as pessoas apenas pensem ‘eles tiveram um bom ano’. E em nenhum momento precisamos falar sobre isso”.

A busca por um modelo de gestão consagrado é justificada e o espelho para o Redskins não poderia ser melhor: ano após ano o Spurs é um dos melhores times da NBA e levou cinco títulos desde 1999, além de marcar presença na pós-temporada consecutivamente desde 1998.

Há, no entanto, alguns poréns: enquanto San Antonio se restringe as quadras, nos últimos anos, Washington tem vivido em ebulição constante, ocupando o noticiário mais por polêmicas extra campo do que pelos resultados conseguidos nele.

Não preciso me promover. Temos muitas pessoas aqui são boas o suficiente no que fazem. Só quero jogar football, não quero me preocupar com outra coisa: se você ganhar seus jogos, o resto é consequência. É uma receita simples”, pondera o mesmo Cousins.

O fato é que, em qualquer grande liga norte-americana, muitos usam San Antonio como modelo. E a mudança entre como o Spurs deixou de ser o “time que todo mundo odeia” para exemplo de “gestão e basquete bem jogado” deixa claro os motivos deles estarem no topo há tanto tempo: sempre elogiamos a escolha de um projeto a longo prazo e ideia de transpor o modelo pode soar tentadora, mas o Redskins tem alguém como Tim Duncan disponível para construir um projeto ao seu redor? Há um Manu Ginobili em início de carreira FedEx Field? A teoria parece simples, mas a verdade é que todo este sistema depende de algumas peças bem difíceis de se encontrar. E depende, sobretudo, de talento.

O lado bom

Os números de 2015 de Kirk Cousins são os melhores da franquia: 4166 jardas, 379 passes completos (69,8%). O mais importante é que tudo indica que Kirk aprendeu a proteger a bola – algo de que ele parecia muito longe em seus primeiros anos na NFL: foram apenas 11 interceptações e 4 fumbles. Ele também foi mais eficiente ao escapar de sacks que seu antecessor. Números estes que fizeram o Redskins a usar a frachise tag em Cousins.

Também é inegável que Kirk tem bons alvos a sua disposição: o TE Jordan Reed liderou Washington em recepções (87), jardas (952) e touchdowns (11) em sua terceira temporada. DeSean Jackson se destacou em rotas longas, com média superior a 17 jardas por recepção e Pierre Garçon, apesar da idade, ainda se mostra confiável.

A dúvida paira sobre o jogo corrido: Matt Jones, após um bom ano como rookie, assume a responsabilidade do jogo terrestre substituindo o veterano Alfred Morris – outro que deixou a equipe foi o fullback Darrel Young. Como Jones irá reagir dirá muito sobre as pretensões do Redskins na temporada.

Já o meio termo está na linha ofensiva: se a linha ofensiva não é extremamente confiável, ao menos deixou de feder. O LT Trent Williams, quatro vezes selecionados para o Pro Bowl, continua a ser sustentação do sistema, enquanto LG Brandon Scerff, quinto selecionado no draft de 2015, foi brilhante em sua temporada de estreia.

GLENDALE AZ, OCTOBER 12: Washington quarterback Kirk Cousins (8), left, sits with injured quarterback Robert Griffin III (10) on the bench very late in the 4th quarter as the Arizona Cardinals defeat the Washington Redskins 30 - 20 in Glendale AZ, October 12, 2014 (Photo by John McDonnell/The Washington Post via Getty Images)

Cousins também pode ter problemas essa temporada porque perdeu seu segurador de prancheta.

O lado não tão bom

A outra grande história que gerou muita expectativa na offseason em Washington foi a chegada de Josh Norman, dando-lhe rapidamente um mega-contrato de 5 anos que poderá valer até 75 milhões de dólares – um contrato que os Panthers, seu ex-time, não tinha intenção de oferecer, o que talvez fale um pouco sobre quão duvidosa é essa contratação.

De qualquer maneira, o cornerback Norman, que complicou a vida de quase todos os wide receivers que enfrentou no ano passado, deverá melhorar imediatamente a secundária ao lado de Bashaud Breeland, DeAngelo Hall (que trocou de posição e jogou razoavelmente como safety) e Duke Inehacho. Mais reforços também foram trazidos: Greg Toler, que era apenas mediano nos Colts, e Kendall Fuller, que era cotado para a primeira rodada do draft, mas caiu para a terceira por ter sofrido uma micro fratura no joelho – se estiver saudável, será com certeza um grande reforço, mesmo que CBs novatos demorem a se desenvolver.

A frente deles, o rookie Su’a Cravens foi trazido para tentar ajudar um corpo de linebackers que foi especialmente ruim em 2015 – ninguém parecia adequado para jogar como inside LB. Além disso, Cravens deverá executar uma função híbrida de LB/S, fazendo uma ligação entre os dois extremos da defesa e colaborando contra a corrida e o jogo aéreo.

Junto a ele estarão Preston Smith, agora mais maduro após um ano de estreia eficiente (foi inclusive apontado como um dos melhores jogadores com menos de 25 anos pela NFL.com) e Ryan Kerrigan, talvez finalmente jogando uma temporada inteira saudável (ele atuou em parte da passada com a mão quebrada) e com um novo contrato, buscando melhorar um pass rush que conseguiu apenas 38 sacks ano passado – sem conseguir pressão suficiente.

Por último, a linha defensiva perdeu provavelmente o seu melhor jogador em Terrance Knighton, que foi para New England – por pura falta de esforço da diretoria de Washington. Assim, sobraram Trent Murphy, que mudará de posição e começará a correr atrás dos QBs partindo com a mão no chão (depois de dois anos como OLB) e Chase Baker pelas laterais, enquanto Knighton será substituído por outro gigante no nose tackle Kendric Golston, mas bem menos habilidoso: não é um bom cenário.

Sep 27, 2015; Charlotte, NC, USA; Carolina Panthers cornerback Josh Norman (24) celebrates after intercepting a pass in the fourth quarter against the New Orleans Saints at Bank of America Stadium. Carolina defeated the Saints 27-22. Mandatory Credit: Jeremy Brevard-USA TODAY Sports

Ok, Odell, olhamos para essa carinha e também temos vontade de dar uma cabeçada.

Palpite: podemos acreditar que Cousins repetirá o feito incrível do ano passado? E Josh Norman é realmente um craque ou apenas mais um que é produto de um bom esquema de jogo? De qualquer forma, parece que os Giants fizeram bem mais para evoluir, enquanto os Redskins parecem destinados a repetirem o 9-7 do ano passado. Mas, dessa vez, sem playoffs.