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Análise Tática #16 – Semana #9: Jared Goff, o ex-bust

Bust é o termo utilizado para denominar jogadores que não justificam em campo a crença neles depositada. Todo o processo do Draft da NFL é baseado em julgar atletas em fundamentos que podem ou não se traduzir no futebol americano profissional (baseado em porra nenhuma).

Jared Goff é um desses casos. Primeira escolha geral em 2016, com direito a uma troca que penhorou o futuro do Los Angeles Rams. O primeiro ano de Goff na NFL foi sofrível. Apesar de Jeff Fisher, o signal caller dos Rams sobreviveu.

A chegada de Sean McVay trouxe um novo fôlego a uma carreira que parecia destinada ao fracasso antes mesmo ter começado direito. Um ataque mais criativo e com leituras mais simples, foi o suficiente para renascer as carreiras de Goff e Todd Gurley, peças principais do time. As chegadas de Robert Woods, Sammy Watkins e o recém-draftado Cooper Kupp (caro leitor, pesquise tweets da época do Draft e você verá críticas ferrenhas a esta escolha) acrescentaram armas para um QB que tem a missão de não estragar tudo. Como dissemos semana passada, técnicos são pagos para maximizar o rendimento de seus atletas, e é exatamente isso que Sean McVay vem fazendo em LA.

Com objetivo de trazer sempre uma perspectiva nova do football ao leitor da coluna, e também para não desgastar o formato, essa semana focaremos no papel de Jared Goff para o esquema dos Rams, utilizando a partida contra os Giants como exemplo. Ao se analisar o desempenho de um quarterback dentro de campo, costumo observar os seguintes traits: mecânica de passe, trabalho de pés, velocidade das leituras e progressão ao longo do campo e o uso dos olhos e corpo para deslocar defensores. Evidentemente, não somos a palavra final e nem pretendemos ser, portanto, o debate é sempre bem-vindo.

Quanto aos atributos físicos, a mecânica do movimento de passe tem por objetivo fazer com que a bola oval entre em espiral e atinja uma velocidade favorável para chegar ao recebedor. Existem vários tipos e técnicas de passe no nível profissional que se adequam à árvore de rotas e a situação descida-distância em campo, mas no contexto geral, o movimento perfeito deve ser curto e encerrando na altura da orelha do QB. O trabalho de pés é importante para que o jogador possua o equilíbrio necessário para executar qualquer um dos passes na jogada, bem como gerar a força que é transferida ao longo do corpo até chegar na ponta dos dedos e ser direcionada à bola.

Quanto aos apectos mentais, o QB deve conhecer a jogada a ser realizada, possibilitando a leitura  do posicionamento da defesa em campo. Novamente fazendo um jabá do livro Take Your Eye off the Ball (ainda estamos esperando o contato, Amazonde Pat Kirwan, em seu capítulo destinado a quarterbacks, o autor menciona a quantidade assustadora de elementos que um jogador profissional precisa processar ao longo da jogada. Primeiramente, deve-se reconhecer o posicionamento e a quantidade de safeties em campo, seguindo aos cornerbacks. Isso permite ao atleta reconhecer o tipo de cobertura e ajustar as rotas, se o mesmo tiver essa liberdade. De forma resumida, em seguida, deverá reconhecer a existência ou não de blitz e de onde a mesma vem, comunicando o ajuste de proteção à linha ofensiva.

É comum observar QBs gritando pré-snap, “54 (ou outro número) is the Mike!”. Isso sinaliza à OL o inside linebacker, ponto de referência dos bloqueios da jogada, corrida ou passe. A partir do momento em que ocorre o snap, o QB precisa processar tudo o que reconheceu na fase anterior da jogada e perceber se o mesmo está realmente acontecendo. É nesse ponto que entra a velocidade das leituras: 2,5 segundos já são suficientes para gerar um sack na jogada, e antes desse tempo, o QB precisa reconhecer padrões de defesa e soltar a bola no ponto certo, um trabalho quase impossível.

Contra marcações em zona, bons QBs movem os jogadores de secundária para longe de onde se desenvolve o melhor matchup em campo com o uso dos olhos. Marcadores em zona observarão para onde o QB está movendo a cabeça, e isso pode ser usado como isca.

Agora depois de todo essa longa e resumida (e ao mesmo tempo, ainda insuficiente) explanação do trabalho de um quarterback da NFL em campo (não é à toa tem tanto cidadão ruim jogando no seu time, caro leitor, o trabalho é difícil mesmo), vamos ao tape. Lembrando que hoje o objetivo não é dizer por que os Rams ganharam dos Giants, e sim observar como Sean McVay está ajudando Jared Goff, e esse por sua vez, o ataque como um todo.

Jogada 1 – Rotas Cruzadas

Uma das formas de ajudar um QB a ESMERILHAR uma defesa é utilizar rotas que se cruzam. Isso faz com que a defesa precise se comunicar devidamente para que ninguém fique livre em uma cobertura em zona, ou que os defensores se atrapalhem entre si no tráfego de uma cobertura mano-a-mano. Aqui, os Rams estão em uma 3rd & 2 na linha de 8 do campo de ataque. Goff em shotgun, stack formation com 1-1 personnel.

Sean McVay abusa das crossing routes, desenhando um padrão que intercala praticamente todos recebedores da jogada, fazendo com que apenas Sammy Watkins execute uma fade route. A defesa dos Giants responde com a tentativa de mostrar uma blitz do nickel corner, que recua. Os demais jogadores de secundária protegem a linha de gol em um padrão semelhante a um cover 3.

Observe que mesmo com alguns tropeções de recebedores, a defesa dos Giants fica confusa com o cruzamento, abrindo um espaço no meio da endzone. Jared Goff executa um 3-step droback. Seu footwork é bem deficitário, mas trabalhando em um ambiente favorável, Goff consegue vender a ameaça de Todd Gurley olhando em direção à sua wheel route. Ele observa que sua OL limpa o caminho em direção ao TE no meio da endzone, projeta seu corpo em direção a essa rota e lança um dagger para o touchdown.

Jogada 2 – A eficiência do No Huddle 

Vimos no texto sobre o drive da vitória dos Raiders contra os Chiefs, que campanhas no huddle, além de clock management, têm por objetivo explorar um pacote errado colocado pela defesa. Por exemplo, caso o adversário esteja esperando a corrida e coloca jogadores mais pesados em campo para contê-la, aproveitar-se do no huddle vale a pena para cansar esse personnel com jogadas de passe.

Além disso, o no huddle também pode ser usado fora de situações de pouco tempo no relógio, aumentando o fator surpresa. Com mesma formação vista no touchdown anterior, o Rams aproveita a tentativa dos Giants (alinhados com formação base de defesa 3-4) em conter a corrida para surpreender com uma big play.

Como é Jared Goff em campo, essa chamada foi feita por Sean McVay via ponto eletrônico no capacete do quarterback (jogadores mais experientes ou melhores teriam a liberdade de escolher a melhor jogada para a situação dentro de um pacote). Ele usa Todd Gurley como isca para a defesa dos Giants, que pressiona com 5 rushers. Enquanto isso, Sammy Watkins executa uma rota vertical. Conceito semelhante ao dagger, porém com rotas saindo de pontos opostos do campo. A quebra de rota de Cooper Kupp deixa Watkins no mano-a-mano com Landon Collins.

O safety dos Giants, fora de posição no início da jogada devido à ameaça de corrida, é batido em profundidade. Sean McVay aproveita-se dos tempos de Goff em Cal, em que executava um ataque da filosofia air-raid, resumidamente se trata de execução de rotas longas. A adição de um bom jogo terrestre permite ao QB explorar o play-action e pegar a defesa desguarnecida. Outro ponto importante dessa jogada é a noção de Goff de onde está a pressão, protegendo-se no ponto oposto ao qual a linha desliza.

Jogada 3 – Queimando a blitz 

Defesas que não encontram respostas em campo costumam mandar mais blitzes que o normal a fim de criar um fato novo. Já outras defesas, como o Titans de Dick LeBeau, o Jets de Todd Bowles e o Cardinals de Bruce Arians baseiam-se em métodos específicos de pressionar o QB com homens a mais que o normal. Para todos esses casos, existe a resposta: ou você tem um jogador da velocidade de raciocínio de Tom Brady ou você precisa ser criativo com as rotas.

Observe as rotas que se cruzam no meio. Elas formam o núcleo de um conceito popular em ataques West coast conhecido como mesh concept. Os Giants sinalizam a overload blitz pelo lado do right tackle, enquanto a secundária está com marcação individual.

Fonte: @ITPylon

No conceito mesh, a marcação individual indica que os recebedores X e Y executantes da shallow-cross devem seguir até o outro lado do campo. O tráfego no box fará com que o recebedor Y esteja livre do outro lado do campo. E é exatamente isso o que aconteceu no MetLife Stadium. Execução de manual de um conceito simples do futebol americano.

Quanto ao trabalho de Goff na jogada, trata-se de um 5-step dropback (conte os passos após o snap, leitor). Quanto ao trabalho de olhos, ele não precisa necessariamente atrair marcadores para determinado ponto do campo, nem conseguiria, já que em marcações individuais, os defensores preocupam-se apenas em acompanhar as rotas – nesse caso, Goff só precisa não ser estúpido o suficiente a ponto de telegrafar o passe. Contra a blitz, o principal fator é a velocidade de processamento da jogada. Observe que o mesmo mantém o olho focado na região em que se desenvolverá o conceito mesh. Goff reconhece o camisa #17 livre após cruzar as hashmarks e manda o passe no mesmo momento em que é atingido pelo pass rusher. Touchdown.

  • Diego Vieira aparentemente capturou os GIFs com uma pedra e obrigou o editor a ir atrás do gametape.