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Tenha US$2 no bolso e lembre que LeBron James não joga Football

Para o Cleveland Browns toda offseason pode ser traduzida em um sentimento: esperança. Esta, provavelmente, ainda mais intensa que as anteriores, afinal graças a LeBron James a maldição acabou. Então é hora de pensar que será diferente, pensar que a maré finalmente irá virar.

Mas o roteiro normal nos leva a acreditar que, bem, nem mal chegaremos ao fim de outubro e o Browns já estará em algum lugar entre o nada e o limbo da AFC North. Difícil é explicar isto para uma cidade que, embora já calejada, agora deposita suas esperanças sob o braço direito de Robert Griffin III.

RGIII que também procura sua própria redenção, busca dar novo fôlego a uma outrora promissora carreira. O grande “porém” é que estamos falando do Browns e quando falamos do Browns há diversos fatores que nos impedem de acreditar que qualquer recomeço será, efetivamente, um recomeço.

Mar de incertezas

A pré-temporada já bate a porta e, apesar da confirmação de que Griffin será o quarterback titular na semana 1 da temporada regular, há um mar de incertezas: Josh McCown sofreu com lesões no ano passado, perdeu oito partidas, mas quando esteve lá, na medida do possível, não decepcionou (rating de 93,3). Mesmo assim, o Browns selecionou Cody Kessler, QB de USC, na terceira rodada do último draft. Apesar de ter demonstrado inteligência e precisão em passes curtos ao longo de sua carreira no college football, Kessler tem o braço tão consistente quanto manteiga derretida – e QBs com braços de manteiga nunca são um bom começo.

Mas vamos ser honestos: aceitar que McCown, ou mesmo em um delírio coletivo, Cody Kessler será o quarterback de Cleveland equivale a assumir um compromisso com a mediocridade. É estar certo que o Browns chegará a lugar nenhum enquanto faz nossos olhos sangrarem de desgosto.

Já com Robert Griffin III a história é outra; há pouco tempo ele levou o Redskins aos playoffs e faturou o NFL Offensive Rookie of the Year. O script, porém, não foi seguido e após uma temporada de estreia encantadora, Robert terminou com um ligamento cruzado rompido e nunca mais foi o mesmo. Aliás ainda é impossível compreender como permitiram que RGIII permanecesse em campo naquele confronto contra Seattle, mas esta é outra história.

De qualquer forma, a lesão fez com que sua mobilidade fosse reduzida drasticamente, restringindo seu jogo no pocket o que invariavelmente expôs (e talvez também tenha potencializado) seus pontos fracos. Houve tempo ainda para Griffin entrar em rota de colisão com Jay Gruden, perder a vaga para Kirk Cousins e, quando percebemos, ele estava com os dias contados em Washington.

Agora, além da concorrência com McCown, resta saber qual Griffin entrará em campo pelo Browns. 50% do RGIII de 2012? Bom, já seria animador, ao menos para quem passou os últimos anos confiando em Jhonny Manziel.

Confiança é tudo

Para a temporada 2016-17, o Browns não mudou apenas seu quarterback, mas também seu treinador: Hue Jackson era um dos nomes mais concorridos desta offseason.

Tido como um dos melhores coordenadores ofensivos da NFL, podemos afirmar sem riscos que se trata de uma dos grandes responsáveis pelo recente sucesso do ataque dos Bengals – na temporada passada, o sétimo melhor da liga, com média superior a 26 pontos por partida. Mas talvez o grande feito de Hue seja também um dos maiores milagres já realizados em um gramado: ele é um dos responsáveis por Andy Dalton ter atuado em alto nível e de maneira constante por cinco ou seis meses.

Provavelmente este seja o maior trunfo de Hue; ele acredita em si mesmo, em sua capacidade, naquilo que pode realizar com quarterbacks oscilantes e crê que pode fazer com RGIII o mesmo que fez com Dalton. Para Jackson aquela temporada de 2012 ainda está ali: ele tem consciência do conjunto de habilidades de RGIII e acredita que a mobilidade, essencial para um jogador com suas características, pode ser recuperada, que no fundo é tudo uma questão de confiar novamente em seu joelho. Quando esta confiança retornar, ele terá novamente aquele QB que pode sair do pocket e fazer grandes jogadas acontecerem, mas também pode permanecer nele, ler a defesa e tomar a decisão correta – afinal, dizem por aí, esta habilidade não está relacionada com um ligamento cruzado.

Precisamos dar algum crédito a Jackson, e também a Griffin. Estamos diante de um roteiro perfeito: uma equipe desesperada por um quarterback talentoso; um quarterback buscando reencontrar seu rumo. O que poderia sair fora do planejado? Tudo! Nunca esqueçam: estamos falando de Cleveland.

RG3esperançoso

A cara de quem está ansioso para começar um novo trabalho.

Do inferno ao inferno

Comecemos com a OL. Griffin precisa de proteção e, bem, os homens a sua frente não inspiram confiança. Pese ainda o fato de que o right tackle Mitchel Schwartz, um dos melhores da posição na liga, deixou a equipe. O center Alex Mack rumou para o Atlanta Falcons e também não está mais lá. A boa notícia é que Joe Thomas, possivelmente o melhor offensive tackle da NFL, permanece e não demonstra nenhum sinal de declínio. De qualquer forma, na temporada passada, o Browns foi a 26ª equipe em pass protection e a 29ª em run blocking.

E vamos supor que, mesmo com pouco tempo para ler a defesa adversária, Griffin encontre uma solução. Ainda assim ele terá a disposição um corpo de recebedores capaz de deixar qualquer QB desesperado. Resta apenas confiar no TE Gary Barnidge e não há nada que garanta que Gary irá repetir os números da última temporada (79 recepções, 1043 jardas e 9 touchdowns). Aliás, antes de 2015-2016, Barnidge nunca sequer tivera mais do que 13 recepções.

Ok, neste ponto podemos ser um pouco condescendentes: antes do draft, os wide receivers dos Browns eram Brian Hartline, Andrew Hawkins, Taylor Gabriel, Marlon Moore, Terrelle Pryor, Rannell Hall e Saalim Hakim. Algo tão animador quanto atravessar um deserto com meio litro de água e um donut no bolso.

Do draft veio Corey Coleman que em sua carreira universitária se caracterizou pela velocidade. É a principal aposta dos Browns, mas as impressões iniciais de Coleman deixam os torcedores receosos: especialistas dizem que embora seja veloz, sua explosão não será boa o suficiente para a NFL. Outro grande problema apontado em Corey é sua versatilidade (e falta de evolução): em Baylor, Coleman funcionou em uma variedade pequena de rotas e sabemos que um repertório restrito será fatal entre os profissionais.

Além disso, dizem as más línguas, que a grande especialidade de Corey Coleman são os drops. Tudo leva a crer que estamos diante de um WR de baixa estatura, com repertório limitado e com explosão insuficiente. Já os demais WRs selecionados pelos Browns (Ricardo Louis, Rashard Higgins e Jordan Payton) são aqueles clássicos nomes que tendem a nada produzir por bastante tempo.

Pelo menos teremos Josh Gordon de volta. Como culpar alguém que prefere curtir a vida a ser um atleta profissional? Na verdade, se ele refletir, talvez perceba que é melhor desistir e voltar a curtir sua erva em paz do que esperar lançamentos de RGIII. Ao menos é o que eu faria.

Enfim, o cenário é tão triste que nem o jogo corrido surge como opção: Isaiah Crowell e Duke Johnson combinaram para, atenção, um total de zero temporadas de pelo menos mil jardas em suas carreiras – na temporada anterior, Cleveland teve média inferior a 96 jardas por partida, ocupando uma não tão honrosa 22ª colocação neste quesito. E não esqueçamos que nesta temporada eles estarão sem Schwartz e Mack. Se você não torce para o Cleveland Browns, já tem motivos suficientes para agradecer aos céus.

O outro lado da bola

Se as projeções ofensivas são tristes para Cleveland, podemos dizer o mesmo para a defesa. Alguns jogadores fundamentais deixaram a equipe na última free agency – entendemos, afinal, ninguém quer ficar em Ohio.

O free safety Tashaun Gipson acertou com os Jaguars, que certamente saberá aproveitar suas qualidades. Já o SS Donte Whitner também partiu. Não que Donte fosse uma perda significativa para 31 outras equipes da liga, mas acreditem: o Browns sentirá sua falta. O ponto positivo é que Joe Haden e Tramon Williams seguem sendo cornerbacks confiáveis – mesmo que Joe tenham sofrido com lesões no ano que passou. Outra perda que será sentida é o ILB Karlos Dansby, que acertou com o Bengals. Mesmo aos 35 anos, estamos falando do Cleveland Browns, então qualquer atleta com o mínimo de coordenação motora que deixe a equipe será uma baixa considerável.

Povo mais sofrido da América. Não importa o que digam os livros de história.

A dura realidade

Dói, queremos acreditar, mas esta é a dura realidade: Griffin é uma incógnita. Não negamos se tratar de um cenário melhor do que ter um time comandado por Manziel. Mas mesmo assim é uma nuvem de incertezas já que, desde sua temporada de estreia, não vemos o mesmo RGIII. E este Robert estará atrás de uma linha instável, apoiado por um jogo corrido pronto para não ir a lugar algum e com os melhores alvos aéreos ainda precisando ser lapidados.

O fato é que mesmo se Griffin, em algum momento, lembrar sua temporada de estreia e Jackson fizer algo minimamente semelhante ao que conseguiu em Cincinnati, é mais provável que tudo dê errado. Para o Browns resta aceitar que, infelizmente, LeBron James não joga football: o melhor é economizar energias para torcer pelo bicampeonato do Cavaliers e saber que, na pior das hipóteses, se você ao menos tiver dois dólares no bolso, ainda conseguirá uma camisa de Johnny Manziel.

Palpite: quatro ou cinco vitórias na temporada e, na semana 9, McCown ou Kessler ou outro qualquer assumirá o lugar de RGIII. Jackson sentirá saudades de Andy Dalton e, após uma derrota trágica no MNF, ligará para Jeremy Hill dizendo que o perdoa por aquele fumble nos minutos finais contra o Steelers.

Pode acontecer.

Pode acontecer.

Robert Griffin III: do céu ao inferno, com escala em Cleveland

No dia 5 de Fevereiro de 2013, logo após uma das mais eletrizantes temporadas de um quarterback estreante na história da NFL, que inclusive lhe rendeu o prêmio de Offensive Rookie Of The Year, Robert Lee Griffin III convocou os técnicos do Washington Redskins para uma reunião.

Griffin disse que era importante, mas se recusou a revelar o assunto. Compareceram à reunião o então head coach do Redskins, Mike Shanaham, seu filho e coordenador ofensivo, Kyle Shanahan, e o técnico de quarterbacks, Matt LaFleur. Com os técnicos na sala de reuniões do ataque, na sede do time, em Ashburn, Virginia, RGIII se dirigiu a um quadro negro e pediu que não fosse interrompido enquanto falava. No quadro, escreveu quatro tópicos:

“1 – Mudanças

2 – Mudanças na proteção (da linha ofensiva)

3 – Inaceitável

4 – Conclusão”

Griffin então passou a fazer diversas reclamações, apontando mudanças que considerava necessárias desde no esquema de proteção da linha ofensiva a jogadas que, de acordo com ele, deveriam ser excluídas do playbook, tudo com o apoio de vídeos que ilustravam seu ponto de vista. Quando chegou ao último tópico do quadro negro, RGIII disse que a conclusão era que ele era um pocket passer e não um quarterback corredor.

You like that, Robert?

You like that, Robert?

A cena, que foi relatada por Mike Shanahan e publicada em um artigo de Jason Reid, para o site The Undefeated, é tão surreal que é difícil acreditar que realmente aconteceu, principalmente por se tratar de um QB que tinha acabado de terminar sua primeira temporada.

Shanahan acreditava que a petulância de Griffin tinha apoio do dono do Washington Redskins, Dan Snyder, já que palavras usadas por Griffin na reunião, como “inaceitável”, eram usadas frequentemente por Snyder, que investiu muito alto em Griffin e pode ter se rendido aos seus caprichos.

O possível apoio do dono não limita a incapacidade de Griffin de lidar com hierarquia e, muito menos, diminui a petulância do episódio. É importante lembrar que se trata da versão contada por Shanahan, que saiu de Washington depois do fracasso da segunda temporada de Griffin e pode ter manipulado os fatos para aliviar para o seu lado. De qualquer forma, aumentada ou não, a história revela o princípio do fim de um conto de fadas que durou pouco ou quase nada.

O início

Selecionado na segunda posição geral do draft de 2012, através de escolha adquirida do Saint Louis Rams, Robert Griffin III teve números maravilhosos logo em sua primeira temporada na NFL; da mesma classe de Andrew Luck e Russel Wilson, Griffin foi o melhor dos três. Passou para 3200 jardas, 20 TDs e apenas 5 INTs, estatísticas de passe apenas medianas e que lhe renderam apenas a posição número 22 da liga em jardas passadas. Se os passes não saltavam aos olhos, as corridas traziam outra dimensão ao ataque do Redskins e à NFL. Em 2012, RGIII correu para 815 jardas e anotou 7 TDs, números que foram suficientes para colocá-lo na posição 20 em jardas corridas, apenas 25 jardas atrás do RB LeSean McCoy, por exemplo. Tudo deu tão certo que o Washington Redskins conseguiu um recorde de 10-6, venceu a NFC East e foi aos playoffs, quando foi derrotado em casa, logo partida de Wild Card, para o Seattle Seahawks, do também rookie QB Russel Wilson.

Então por que algo que estava dando tão certo afundou de maneira catastrófica a partir da fatídica reunião, em 2013? Um dos aspectos que deve ser considerado foi a contusão que Griffin sofreu no jogo contra o próprio Seahawks — rompimento dos ligamentos do joelho, ao que muitos creditam a dificuldade que RGIII teve para correr desde então. Seu sucesso dependia muito de sua mobilidade, mesmo que ele não quisesse acreditar nisso e quisesse se tornar um pocket passer. Não se sabe, até hoje, se o sucesso do Washington Redskins de 2012 aconteceu pelas qualidades de Griffin ou por um sistema de jogo inovador para os padrões da NFL. Baseado na read option (em que o QB faz a leitura do movimento do linebacker e decide se mantém a bola ou se a entrega para o RB), o sistema ofensivo limitava os defeitos de RGIII como pocket passer, potencializava suas qualidades de corredor e era muito difícil de ser defendido. O que antes era uma novidade complexa para os adversários lidarem se tornou obsoleta com a falta de mobilidade do RGIII pós-contusão e com a natural adaptação das defesas.

Fu-deu.

Fu-deu.

Na temporada 2013, RGIII disputou apenas 13 partidas, dois jogos a menos que na sua temporada de estreia. Mesmo assim, seus números como passador se mantiveram constantes: 3203 jardas, 16 TDs e 12 INTs. O que despencou profundamente foram seus números como corredor: foram apenas 489 jardas corridas e nenhum TD.

Duas explicações podem ser encontradas para os números: Shanahan, pressionado por sua jovem estrela, permitiu que Griffin passasse mais e corresse menos; ao mesmo tempo, Griffin, com a mobilidade reduzida, não conseguia correr mais. De qualquer forma, o Washington Redskins terminou a temporada com apenas três vitórias e Shanahan foi demitido.

Recomeço?

O que poderia ser um recomeço para Griffin, pelo menos na relação com seu head coach, acabou sendo um pesadelo. Jay Gruden assumiu o comando no início de 2014. Logo percebeu que RGIII tinha muitas falhas e parecia acreditar ainda menos na sua capacidade de ser um QB na NFL. Foram apenas nove jogos disputados e números ridículos: 1694 jardas, 4 TDs , 6 INTs. Robert Griffin acabaria a temporada esquentando o banco para Kirk Cousins e nunca mais pisaria no campo com a camisa do Washington Redskins. Resignado, assistiu Cousins levar o time aos playoffs na temporada 2015 sem sequer vestir os pads.  

RGIII talvez apenas não seja um bom QB. Citado no artigo de Reid, um jogador da defesa do Washington Redskins, que preferiu permanecer anônimo, disse que Griffin tinha dificuldades inclusive nos treinos. “Ele não é muito bom no pocket. Quando você pede que ele leia defesas, dá para perceber que é difícil para ele. Nos treinos, quando ele era o quarterback contra a defesa titular, dava para perceber que as jogadas ainda pareciam rápidas demais para ele. Ele não sabia de onde o pass rush vinha, ele não tinha certeza onde estavam os safeties”, afirmou o defensor.

Reid também menciona que, dentro do vestiário, a preferência dos jogadores era por Kirk Cousins, QB surpreendentemente escolhido no mesmo ano que Griffin. Os jogadores acreditavam que Cousins era, simplesmente, melhor.

O comportamento de RGIII fora dos campos também parecia não ajudar. Além de não conseguir estabelecer um bom relacionamento com os técnicos, recusava a ajuda de qualquer um que tentasse se aproximar. Donavan McNabb e Doug Williams, vencedor do Super Bowl pelo Redskins, foram alguns dos que tentaram aconselhar RGIII, que nem sequer se deu ao trabalho de ouvi-los.

Vou voar é só eu querer

Vou voar é só eu querer.

Griffin parecia refém do próprio ego e preocupava-se mais em fazer publicidade para diversas marcas. Nas entrevistas coletivas, sempre falava demais. Era comum, nas derrotas, que não assumisse seus erros, colocando a culpa em seus colegas de time. Juntando todos os aspectos, Griffin era uma tragédia anunciada que foi mascarada por um primeiro ano maravilhoso. Nós só não conseguíamos enxergar.

Em 2016, Robert Griffin será o 25º QB do Cleveland Browns desde 1999. Cleveland é um ambiente tóxico para o desenvolvimento de QBs e é um time que está em estado de reconstrução permanente. Se Griffin aceitar que também está em estado de reconstrução, talvez consiga dar a volta por cima em sua carreira. Para isso, terá que ter a humildade de ouvir seus técnicos, melhorar como QB e perceber que o mundo não gira ao seu redor.

Em sua primeira coletiva como um Brown, Griffin disse: “Você ama muito fazer uma coisa. E quando ela é tirada de você, duas coisas podem acontecer: você pode afundar e permitir que te destrua ou pode deixar que te construa”. Veremos, Robert.