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O complexo paradoxo “Aaron Rodgers-Mike McCarthy”

O que lhe vem a mente quando você pensa em Aaron Rodgers? Passes rápidos sob pressão? Boas decisões tanto no pocket como fora dele? Jogadas eficientes em 3rd downs? De qualquer forma, seriam estes alguns dos fatores que viriam a tona se você deixasse os últimos 12 meses de lado: a realidade é que hoje Rodgers nem de longe lembra o quarterback vencedor do MVP em 2014.

A temporada de 2016, aliás, tem se assemelhado a uma montanha russa. Voltemos, por exemplo, a semana 2, quando contra o Vikings Aaron completou apenas 56% dos passes para apenas 213 jardas e dois turnovers. E, sim, ele foi superado por Sam Bradford: ali, ele já não era Aaron Rodgers, duas vezes MVP; era apenas a memória de um grande quarterback.

R-E-L-A-X

Em meados de 2014, Rodgers tranquilizou todo o Wisconsin com uma palavra de duas sílabas. Mas o que aconteceu até aqui pouco se assemelha com aquele início cambaleante de dois anos atrás; já não se trata apenas de uma queda de produção que poderia ser relativizada ou de se acostumar a um novo sistema. Para um jogador como Aaron Rodgers se trata de uma batalha prolongada para reencontrar o bom football e a consistência que, hoje, faz todo este processo soar estranho e desconfortável.

E se em 2014 Green Bay se recuperou rapidamente após iniciar o ano com uma vitória e duas derrotas, vencendo 11 das 13 últimas partidas – Rodgers terminou aquela temporada com 38 touchdowns e cinco interceptações –, para compreender o momento atual dos Packers é preciso ir além das 10 primeiras semanas de 2016: após a derrota para o Seahawks na decisão da NFC, Green Bay iniciou 2015 com seis vitórias e nenhuma derrota e naquele período, Aaron completou 68% dos passes, com mais de 8 oito jardas por tentativa, para 15 TDs e apenas duas interceptações, além de um rating médio de 115,9.

Veio, porém, a derrota para Denver por 29 a 10 e com ela o início de uma mediocridade ofensiva preocupante: os últimos 10 jogos de Rodgers em 2015 trouxeram um percentual de passes completos de apenas 57%, aproximadamente seis jardas por tentativa e um rating inferior a 82; nesse período foram 16 touchdowns e seis interceptações. Green Bay foi derrotado em seis dessas dez partidas, chegando a pós-temporada como wild card após perder para o Vikings em pleno Lambeau Field na semana 17, em partida que valia o título da NFC North

Por mais estranho que poderia parecer na época, os playoffs reservaram algumas surpresas: a vitória contra o Redskins, em Washington, pode ser classificada como tranquila, enquanto a derrota para Arizona veio apenas no overtime em uma situação atípica, incapaz de ser prevista ou controlada.

Mas aqui também é preciso ressaltar que, apesar de uma última jogada milagrosa, Aaron Rodgers completou apenas 56,3% dos passes para apenas 5,9 jardas por tentativa naquela pós-temporada.

As origens do problema

Quando alguém com tanto talento como Aaron Rodgers oscila por um período de tempo tão extenso é tentamos encontrar uma explicação lógica. Podemos imaginar que a origem desta queda acentuada talvez esteja no início de 2015, quando Mike McCarthy passou a responsabilidade das jogadas ofensivas para Tom Clements; em meados de dezembro, porém, o próprio Mike retomou a função e não houve nenhuma melhora significativa. Outro motivo poderia ser a ausência de Jordy Nelson, seu principal alvo, lesionado na semana 2 da pré-temporada de 2015 e ausente durante toda a última temporada. Tese que perde um pouco de força pelo simples fato de que o sistema ofensivo ainda não teve evolução evidente desde seu retorno.

O dia em que tudo começou a foder.

O dia em que tudo começou a foder.

De qualquer forma, o que todos esses fatores nos mostram, quando aliados a um esquema ofensivo inflexível e engessado, a falta de um recebedor para rotas longas durante a ausência de Nelson, é a potencialização das piores características de alguém com talento inegável: Aaron Rodgers passou a tentar resolver tudo sozinho.

Ao mesmo tempo que possui, indiscutivelmente, o braço mais potente de toda a NFL (nota do Digo: clubismo. Joe Flacco Mr Elite é o braço mais potente) e é capaz de fazer jogadas que aparentemente nenhum outro quarterback no planeta conseguiria, ele se tornou extremamente dependente de seu talento e, ao longo do caminho, foi deixando de lado alguns fundamentos básicos – sobretudo devido a um estilo de jogo que passou a ser unidimensional. E foi assim que Rodgers perdeu sua capacidade de encontrar soluções por conta própria.

Uma montanha russa particular

Rodgers tem em si elementos raros de serem combinados em outros jogadores da posição: atletismo, visão de campo e uma velocidade de raciocínio que o ajuda a liberar a bola das mãos em um piscar de olhos. Tudo isto faz com que ele seja capaz de criar soluções fora do playbook em uma fração de segundos e exemplos disso ainda surgem semana após semana. Para compreender isso, lembremos da partida contra Jacksonville na abertura da temporada atual, quando, improvisando, Rodgers garantiu a vitória para Green Bay.

Em um de seus passes para touchdown, Aaron transitou em um pocket prestes a entrar em colapso, se deslocou para a área mais congestionada da jogada e encontrou Nelson na parte posterior da endzone, enquanto o WR mergulhava em direção ao passe. Como ele enxergou Jordy em meio ao caos? Coisas que só o bom e velho Aaron Rodgers conseguiria fazer. Já o passe para Davante Adams foi ainda mais impressionante. Novamente, ele escapou da pressão enquanto o pocket ruía e, ao mesmo tempo em que postava os pés no chão e era puxado pela camisa, encontrou um passe no único local em que Davante poderia alcançá-lo.

Já o que aconteceu no último confronto contra o Colts foi completamente diferente. O Packers teve diversas oportunidades para dominar a partida e reverter o placar. Talvez por já estar atrás do marcador com 15 segundos de jogo, a “escolha” foi ir desde o início para big plays, sem necessidade alguma. Outra decisão inexplicável foi o retorno da formação com 3 WRs, 1 TE e 1 RB, que há dois anos não funciona em Green Bay, abdicando de uma spread offense que funcionou efetivamente nos dois jogos anteriores à derrota diante de Indianapolis.

O que vimos foi um ataque prepotente, que acreditou que venceria a partida quando bem entendesse, com o fraco TE Richard Rodgers totalmente envolvido no plano de jogo, que em diversos drives se resumiu ao ridículo “duas corridas e um passe”. Nesse cenário, Rodgers se restringiu a ir para o home run e abdicou do básico, esqueceu passes curtos e, bem, inventou demais.

Essa confiança excessiva em suas habilidades talvez explique a queda de produção de Aaron Rodgers nos últimos anos: segundo o Pro Football Focus, Aaron completou 80,6% dos passes em 2011. Em 2012 esse número caiu para 80,2%, para em 2013 chegar a 79,3% e em 2014 na casa dos 75%. Já na temporada passada, foram apenas 73,1%. Em passes para mais de 20 jardas, por exemplo, entre 2011 e 2014, ele nunca esteve abaixo de 51,8%, enquanto em 2015 esse indicador chegou a 39,1%.

Quando o buraco é mais profundo do que pensamos

A pouca versatilidade de seus WRs isenta um pouco Rodgers e torna mais difícil para ele confiar nas opções que dispõe, o que limita significativamente o playbook de McCarthy, excessivamente dependente de atletas que superem coberturas por conta própria. Assim Aaron precisa confiar que seus recebedores estarão onde deveriam estar, combinando velocidade, profundidade e sincronia exatas que a rota pré-estabelecida exige. O que, claro, é diretamente influenciado por situações que muitas vezes fogem do controle dos próprios WRs: um passo mais lento que o previsto já é suficiente para tudo ruir; é quando Rodgers precisa esperar e o desenho da jogada implode, o que o deixa se movimentando dentro do pocket enquanto tenta encontrar alguma solução mágica. 

Um ponto nítido do ataque de Mike McCarthy é que com ele não há meio termo: é quase impossível de defender quando Aaron Rodgers e seus WRs estão sincronizados, como vimos no Super Bowl XLV contra os Steelers ou, mais recentemente, durante toda a temporada regular de 2014. Mas, como citamos anteriormente, a margem de erro é mínima e quando o Packers não tem o tipo de talento necessário para fazê-lo funcionar, tudo falha.

Agora Green Bay precisa encontrar soluções e acrescentar possibilidades que não dependam exclusivamente de fatores como profundidade e separação em sincronia, precisa encontrar opções que não estejam restritas a slants padrões e rotas go. Em poucas palavras, é preciso facilitar o ataque.

Saudades.

Saudades.

Um TE no natal (ou saudades, Finley)

Outro fato significativo é que, atualmente, para parar o ataque do Packers basta ser físico com os recebedores na linha de scrimmage. Como tudo indica que McCarthy não irá alterar o plano de jogo (falaremos especificamente sobre o tamanho deste problema logo a seguir), uma parte dos problemas de Green Bay seria solucionada com um TE eficiente e veloz (Jermichael Finley, quem lembra?).

A ideia era que Jared Cook fosse esse jogador, porém aparentemente foram contratados apenas seus restos mortais. Já Richard Rodgers tem a velocidade de uma paca obesa pós-almoço. Atacar o meio do campo abriria novas possibilidades para Aaron Rodgers, mas para isso é preciso um TE atlético e veloz e hoje o TE de Green Bay é incapaz de vencer um linebacker com sono na velocidade.

A parcela de culpa do chefe

Poderíamos acrescentar nesta conversa toda aquela ladainha, hoje em voga, sobre a importância de evoluir, afinal é inegável que a NFL, assim como qualquer grande liga, evolui diariamente. E grande parte deste processo evolutivo vem desde o college football, passando pela formação inicial de atletas, expostos a técnicas e treinamentos cada vez mais complexos e sofisticados, até toda e qualquer pessoa direta ou indiretamente envolvida com o esporte.

Amigos para sempre é o que nós iremos ser, na primavera ou em qualquer das estações.

Amigos para sempre é o que nós iremos ser, na primavera ou em qualquer das estações.

Neste cenário de constantes mudanças quem mais precisa se adaptar são os head coaches. Há planos de jogos desenvolvidos há décadas que até hoje são confiáveis; há elementos que serão funcionais e úteis independente da época. Assim como, em alguns casos, é preciso abandonar o que não está mais dando certo. E aqui é inegável que o play calling de Green Bay há tempos é duramente criticado pelo simples fato de não funcionar. Ou por já ter se tornado óbvio.

Olhando em retrospecto, McCarthy assumiu o Packers em 2006 e desde então levou a equipe a 108 vitórias, 60 derrotas e um empate. A análise fria dos números indicaria um treinador inquestionável, já que em 11 anos esteve na pós-temporada em oito deles. É aí, porém, que os números começam a pesar contra Mike: nos 15 jogos de playoffs sob seu no comando foram apenas oito vitórias (quatro delas na campanha que trouxe o Super Bowl ao Lambeau Field) e sete derrotas.

O que torna tudo mais triste é que neste período McCarthy teve Brett Favre e Rodgers como quarterbacks. É pouco para uma franquia com tamanha grife e com dois dos melhores QBs da história em suas trincheiras. A realidade é que os melhores anos de Aaron Rodgers estão sendo desperdiçados. Mas ao mesmo tempo em que esta realidade pode soar como um “tapa na cara” para o Packers, é nela que reside a solução: hoje não há nada errado com Rodgers fisicamente e ele continua sendo um dos melhores QBs que a NFL já viu.

Mas, mesmo com um Rodgers oscilante, é preciso que McCarthy tenha consciência que precisa evoluir e abandonar a convicção que restringe Green Bay a um jogo baseado em tempo e precisão. Sem um Jordy Nelson totalmente funcional e saudável, ainda reencontrado o ritmo, é necessário incorporar combinações que não dependam exclusivamente de profundidade-separação e dar chance para jogadores com características distintas serem envolvidos. Do contrário, Aaron Rodgers seguirá pressionado por resultados enquanto tenta resolver tudo por conta própria.  

“Aaron Rodgers é um ótimo quarterback e isso não vai mudar. Ele teve fases em que não jogou tão bem? Claro. Mas aí você coloca pressão e quando se coloca pressão geralmente coisas ruins vão acontecer”, disse Brett Favre. “Ele precisa de um pouco de folga. Ele vai conseguir hoje? Ele vai conseguir semana que vem? Não sei, mas ele é um excelente QB e esse é o ponto principal”, completou o ex-quarterback de Green Bay em entrevista recente a Fox Sports.

É claro que o Packers pode ter sucesso com Rodgers tentando fazer tudo sozinho e é extremamente plausível que, enquanto ele estiver em Green Bay, a pós-temporada seja sempre uma realidade tangível. Porém, o tempo está passando e também é necessário reconhecer que ele dificilmente voltará a ser o quarterback imparável que vimos entre 2011 e 2014 sem um esquema tático que lhe dê algum suporte.