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A vida é feita de ciclos

O Colts sempre teve sua história associada a um grande jogador. Nos primórdios da franquia, ainda em Baltimore, esse cara era Johnny Unitas. Em Indianapolis, vieram Erick Dickerson e depois Marshall Faulk. E, por fim, você deve se lembrar de um moço alto chamado Peyton Manning. Parece que lançava a bola, o rapaz.

Essa sucessão não parou com a saída de Peyton. Aliás, essa saída se deu muito por conta disso: a ideia de continuar o sucesso que a franquia havia conquistado. Em 2012, menos de um ano depois de ostentar o pior record da NFL, Indianapolis escolheu o QB Andrew Luck, de Stanford.

E tudo parecia seguir de acordo com os planos: Andrew levou a franquia aos playoffs em seus primeiros anos na liga, chegando até a final da AFC em 2014/15, em campanha que contou inclusive com vitória sobre Manning (aquele, não o outro) nos playoffs. Se quiser saber um pouco mais dessa história, falamos sobre isso aqui.

Em 30 segundos, tudo pode mudar

A trajetória vencedora de Luck foi interrompida em 2015. Em meio a um início ruim, o jogador sofreu múltiplas lesões e acabou a temporada na lista de contundidos. Em 2016, o trabalho para recuperar o ombro, lesionado no ano anterior, exigiu muito do jogador e a melhora esperada não veio. Para 2017, o time e o QB optaram por uma cirurgia no ombro – a ideia era deixar quaisquer resquícios da lesão para trás, agora de uma vez por todas.

O resultado você já conhece. O tempo de recuperação foi se estendendo, até chegar no ponto em que a participação de Andrew na temporada fosse descartada. O ombro não mostrava sinais de recuperação, e o ano já parecia perdido mesmo.

Após reavaliar o ombro e alterar um pouco os trabalhos de reabilitação, Luck vai jogar a temporada normalmente. A dúvida fica por conta de como serão suas atuações, já que seu último jogo foi há mais de 500 dias.

Pagano vs Grigson: a origem da ruína

A saga de Andrew Luck foi apenas a cereja no bolo de um processo inevitável, mas que, ironicamente, era mascarado pela própria capacidade de Luck dentro de campo. O time, apesar dos bons resultados, não era bom. Após receber o prêmio de “executivo do ano” (sim) em 2012, Ryan Grigson, o então GM da equipe, não conseguiu realizar bons drafts ou reforçar o time à altura no mercado. Chuck Pagano, o head coach, não mostrava competência para dirigir sequer um bom time, quem dirá um questionável.

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Por conta dessa incompetência, tudo que Andrew não controlava fedia: a linha ofensiva, o jogo corrido e a defesa como um todo. Viradas milagrosas e uma AFC South que beirava o amadorismo ocultavam a verdade: Indianapolis não tinha um bom time.

Sem Andrew Luck, as deficiências da equipe e a ruindade de Grigson e Pagano ficaram escancaradas. Em um intervalo de menos de um ano, ambos foram chutados da franquia.

Reconstruindo (do inglês rebuild)

Para consertar o “elenco” deixado por Ryan Grigson, os Colts foram atrás de Chris Ballard, que é muito bem visto dentro da liga e tido por muitos como um dos melhores avaliadores de talento da NFL.

Daddy.

Em seu primeiro ano como GM, porém, ele não foi bem. O time não contou com Andrew Luck, claro, mas Chris não se mostrou muito ativo ao lidar com a situação. Se os Patriots não tivessem proposto uma troca, Indianapolis teria jogado 2017 com Scott “are you serious?” Tolzien como seu QB. Além disso, a equipe montada não se mostrou competitiva como se deseja, mesmo o trabalhando apenas se iniciando.

Finalmente e, sim, estávamos evitando, chegamos em 2018

Como tudo na vida é um ciclo, o dos Colts está se fechando agora. O ciclo que se inicia lembra muito aquele de 2012: um ou outro nome reconhecível e a esperança que Luck seja o diferencial da equipe. Se antes o ataque tinha Reggie Wayne, hoje ele tem TY Hilton. Se antes a defesa tinha Robert Mathis, hoje ela tem Jabaal Sheard. Não é um cenário animador.

Todos sabemos que um time que tem apenas três jogadores de nível de Pro Bowl (estamos ignorando Jack Doyle e Adam Vinatieri da lista, você não é o único que percebeu) não vai chegar muito longe, mas Indianapolis tem uma carta na manga: a juventude.

O elenco é hoje formado por alguns medalhões (os que já citamos, Eric Ebron, Anthony Castonzo, Al Woods, John Simon…) e muitos jovens. As três escolhas na segundo rodada, um grupo de RBs liderado pelo apenas segundo-anista Marlon Mack, além dos 1st rounders Quenton Nelson e Malik Hooker, e mais um bando de meninos que você não conhece, tornam os Colts um dos 5 times mais jovens da NFL.

Isso torna a temporada de Indy extremamente imprevisível. Se alguns desses jogadores jogarem em alto nível, daqui a um ano provavelmente estaremos falando de uma equipe pronta para disputar a AFC por anos. Por outro lado, se o desempenho for de medíocre pra baixo, a situação pode ser crítica a ponto de vermos a franquia de novo com uma escolha no top 5 do draft.

Um passo de cada vez

Se antes a ruindade do time apareceu quando Andrew Luck se machucou, agora os Colts estão fazendo de tudo para evitar que isso aconteça. A linha ofensiva foi ponto focal da offseason, menos de um ano depois de jogadores como Jeremy Vujnovich atuarem em todos jogos da temporada.

“Como é que eu vim parar aqui?”

A unidade agora conta com Anthony Castonzo, que, no geral, não compromete; Quenton Nelson, talvez o único prospecto universalmente aceito como BOM; Ryan Kelly, que quando jogou foi bem (porém tem sofrido com lesões); Matt Slauson, veterano que já joga na liga há alguns bons nove anos; e Austin Howard, também veterano. Além deles, o calouro Braden Smith, escolha de segunda rodada esse ano, fica na reserva para suprir uma inevitável lesão. Não é o melhor grupo da liga, claro, mas não é a calamidade que vimos nos últimos anos.

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Se antes a linha ofensiva, o jogo corrido e a defesa eram ruins, agora podemos riscar pelo menos a linha ofensiva dessa lista. E isso apenas sete anos depois que Andrew Luck entrou na liga.

Tudo isso, não mais comandado por Chuck Pagano

É importante ressaltar que, também pela primeira vez em sua carreira, Luck terá o que achamos ser um Head Coach de verdade, não apenas um gerador de clichés motivacionais.

Reich chega depois que Josh McDaniels recusou o cargo, e só citamos isso aqui pra deixar bem claro que isso não influenciará em nada na temporada de Indy. Frank chega aos Colts com a credencial de ser uma das mentes envolvidas no processo que culminou com Nick Foles sendo o MVP do Super Bowl.

Tal qual um rookie, tudo que podemos dizer sobre Frank Reich é: esperamos que faça um bom trabalho e, pior que do que estava, dificilmente fica.

Palpite: “É muito difícil saber o que esperar desse time em 2018. Muitos jogadores pouco ou nada jogaram na liga, tornando o nível da equipe extremamente imprevisível. No melhor dos cenários, pode brigar por playoffs e, no pior, pode acabar com uma pick alta no ano que vem. Como o meio-termo talvez seja a opinião mais sensata, um record entre 6 e 10 e 7 e 9 é onde esse time deve terminar o ano.”

Tentando permanecer relevante

“This one is for Pat!”. Quando John Elway ergueu o Lombardi após a vitória no Super Bowl 50, ele estava (talvez) no ponto mais alto de sua carreira. Depois de vencer a NFL duas vezes como jogador, ele finalmente conseguiu repetir o feito, agora como General Manager.

Não restavam dúvidas: John havia montado em 2013 um dos melhores ataques da história da liga, apenas para ver esse mesmo ataque sendo destroçado pela Legion of Boom. Elway, então, entendeu que “se não pode com eles, junte-se a eles”, e assim montou uma defesa quase tão poderosa quanto aquela unidade comandada por Peyton Manning.

Dois anos depois, Manning já não era mais o mesmo, e quem ficou marcado na conquista do Super Bowl foi o sistema defensivo montado por John. Três anos, dois Super Bowls e duas grandes equipes, bem diferentes entre si. Elway, que já estava no Hall da Fama como jogador, mostrava que poderia repetir o feito como dirigente.

Rostinho que passa credibilidade.

Você é bom, até que não é mais

Duas temporadas se passaram, e essa percepção foi praticamente apagada da cabeça dos torcedores. Se antes John era aplaudido por recrutar Peyton Manning, hoje a questão paira como uma dúvida: é tanto mérito assim contratar aquele que é pra muitos o melhor QB da história?

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Os questionamentos vêm em função dos substitutos escolhidos para O Testa. Brock Osweiler (HAHAHA) se tornou um dos piores exemplos possíveis na história da liga, Paxton Lynch só sabe jogar futebol americano se for no Madden e Trevor Siemian foi apenas um devaneio de algumas noites de setembro.

Some isso ao fato de que a defesa não conseguiu repetir as atuações dos playoffs de 2015/16 e você tem um time que, se antes era um dos destaques da liga, passou a ser uma daquelas equipes que você rola os olhos quando descobre que está no Primetime e/ou vai ser a transmissão do segundo horário da ESPN (essas equipes são um oferecimento do Dallas Cowboys™).

Virando a página?

Ciente das pataquadas que fez nos últimos drafts, Elway resolveu mudar a fórmula. Desistiu de apostar em prospectos na posição de QB e foi atrás de nomes de experiência e já consolidados na posição. Bem, Case Keenum não é necessariamente o nome que vem à mente quando falamos dessas características, mas era o que o mercado tinha a oferecer depois que Kirk Cousins resolveu agitar a economia de Minnesota. A escolha é extremamente questionável, ainda mais se considerarmos que a essa altura do ano passado Keenum não era nem nota de rodapé nas matérias que antecipavam a temporada.

Tem tudo pra dar errado.

A defesa também já não é aquela que fez Tom Brady sentir o gostinho dos gramados do Colorado por 60 minutos. Após o título do Super Bowl 50 a saída de Malik Jackson deixou um buraco no meio da linha defensiva. Ano passado o time se livrou de TJ Ward, que por sua vez foi encher o saco em Tampa Bay. E, em 2018, Aqib Talib foi trocado pra Los Angeles por quatro potes de Whey Protein. Além deles, DeMarcus Ware está curtindo a vida de aposentado já há algum tempo. E, claro, repetir o alto nível de jogo com essas ausências foi ainda mais difícil quando o ataque tinha dificuldades até mesmo de entrar em campo (acredite nos seus sonhos).

Por fim, a aposentadoria precoce de Gary Kubiak deixou a franquia sem o técnico que levou o time ao ponto mais alto do pódio (que na NFL não existe). O escolhido, Vance Joseph, fez um trabalho tão ruim em 2017 que haviam rumores de que ele poderia ser demitido após a temporada, colocando-o no hall de técnicos que passaram pelo one-and-done ao lado de lendas do esporte como Jim “cara de rato” Tomsula.

Ano novo, vida nova (mas nem tanto)

Para sair do limbo que é a mediocridade das últimas temporadas, o Broncos e John Elway apostam em um espécie de híbrido daquele time que venceu o Super Bowl com um bando de novas faces.

Case Keenum, como já falamos, vem pra ser a decepção na posição de Quarterback da vez. Paxton Lych é palavra proibida dentro da franquia, a não ser que o assunto seja “troca”. Chad Kelly (sim, aquele), pode acabar levando o posto de backup.

Pode apostar que vai dar merda.

O corpo de Wide Receivers é basicamente aquele que você se acostumou a ver: Emmanuel Sanders e Demaryius Thomas revezando boas e más atuações, com algumas lesões no meio. Chegaram para ajudar, pelo Draft, Courtland Sutton e DaeSean Hamilton. Se considerarmos o histórico de Elway draftando jogadores da posição, podemos esperar, dentre outras coisas, vários nada.

Já nas posições de Running Back e Tight End, temos o que podemos descrever como um bando de incógnitas. Se Devontae Booker ainda não mostrou muito serviço, podemos falar o mesmo de Jake Butt. E, tal qual Royce Freeman, Troy Fumagalli (sim!) é um calouro que, ao contrário da indústria do draft, não vamos fingir saber o que esperar deles. Se você está sentindo falta de alguém, CJ Anderson está nos Panthers (nós também esquecemos).

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Por fim, a linha ofensiva, que já vinha melhorando desde as chegadas de Ronald Leary e Garett Bolles, conta agora com o reforço (?) de Jared Veldheer. Pode não ser a melhor unidade da liga, mas já é muita coisa se considerarmos que a NFL é lar de times como o Seattle Seahawks.

A defesa ainda é um esboço daquilo que nos habituamos a ver. Derek Wolfe e Von Miller comandam a linha defensiva, que agora pode contar com a monstruosa adição de Bradley Chubb. Basicamente, a ideia dos Broncos é reeditar a parceria de sucesso que Miller teve com DeMarcus Ware.

Os LBs ainda são comandados por Brandon Marshall e Todd Davis, enquanto a secundária ainda conta com Chris Harris e Darian Stewart. Além deles, a equipe parece esperar boas contribuições de Bradley Roby e Justin Simmons. Por fim, a adição do problemático Xavier Su’a Cravens traz uma opção versátil para a unidade. Se tudo sair como o planejado, Denver pode voltar a ter uma das melhores defesas da NFL.

Palpite

A ideia de mesclar os veteranos do time com novas caras parece boa, mas a vida útil do jogador da NFL é muito curta. Acreditar que alguns atletas vão retomar as grandes atuações e que os novatos vão emplacar requer muito boa vontade. Case Keenum está longe de empolgar como QB. Por tudo isso, e por jogar em uma das divisões mais complicadas da liga, dificilmente o Broncos volta aos playoffs. Uma temporada entre 7-9 e 9-7 pode ser o limite para esse time.

Ainda odiados, cada vez melhores: nada muda em New England

Não somos fãs de discussões definitivas sobre aqueles que são, eventualmente, os melhores da história dentro de campo – invariavelmente, não se chega a lugar algum: Manning pode ter sido melhor que Brady e, na verdade, isso pouco importa. Hoje, e talvez até mesmo quando o sol engolir o planeta terra e todos derretermos, pode ser possível que Rodgers seja enfim considerado um atleta melhor e mais completo que Brady. Ou tudo isso é um misto de delírio e negação e, bem, Brady é melhor que Montana, Elway e Marino somados.

O fato é que se dentro das quatro linhas sempre haverá margem para discussões, fora delas, Bill Belichick construiu um império particular capaz de suplantar qualquer dúvida: em 17 anos, o New England Patriots têm 15 títulos de divisão, chegou no AFC Championship Game 12 vezes e ao Super Bowl outras sete – o número de anéis, claro, você já sabe de cor.

Falando em números, quando isolamos as conquistas do Patriots – e as quantificamos – em um recorte de tempo histórico, eles soam ainda mais irritantes. E ainda assim, não são capazes de contar a história em sua totalidade.

O domínio na AFC é produto direto da máquina que Bill construiu e aperfeiçoou a cada temporada – ele é o Head Coach, o GM e, por um momento, também foi coordenador defensivo; hoje ele talvez mande mais que Robert Kraft e ninguém saiba.

E enquanto é possível comparar jogadores, é quase impossível colocar Bill ao lado de outras treinadores e traçar comparações sólidas: não há HC na NFL contemporânea que sequer se aproxime de seus êxitos e, caso voltemos muito no tempo, pesará a seu favor a longevidade; enquanto grandes nomes como Vince Lombardi e Bill Walsh estiveram na NFL por uma década, nada indica que Belichick não chegará aos 20 anos comandando o Patriots – e, nas próximas semanas, ao seu oitavo Super Bowl, com o sexto título conquistado.

Sim, se existe uma sabedoria popular que deveria ser incorporada ao imaginário coletivo é esta: quando antes você aceitar seu triste destino, menor será frustração. Pode soar duro, mas é a mais pura verdade: estamos todos prestes a entrar em uma realidade em que Brady e Belichick venceram o Super Bowl seis vezes.

Bem louco.

Por que pode dar errado?

A sabedoria popular também nos ensina que quando tudo parece que dará errado é preciso se apegar ao passado. Mesmo dominantes, as derrotas de New England contaram com, claro, o destino: David Tyree recebeu um passe com o capacete, Asante Samuel caiu em desesperança, Randy Moss não alcançou bolas que normalmente alcançaria. Tudo ao mesmo tempo.

Enfim, mesmo para as equipes que costumeiramente estão no topo, algumas vezes, vencer ou perder pode ser determinado por um capacete.

Por que o Patriots vencerá?

Porque, afinal, está é a ordem natural das coisas: nada parece estar acontecendo e, mesmo assim, o New England Patriots está no topo da NFL. Eles podem não ter Tom Brady por quatro jogos, mas Brissett ou Jimmy G (também conhecido como o homem mais lindo que já pisou na terra) darão conta do recado.

Você também pode não ter escolhas de primeira rodada no draft e, mesmo assim, o planeta continuará girando normalmente: tudo está sempre sob controle e nada fará com que a franquia faça uma movimentação desesperada. Com o Patriots aprendemos sempre a esquecer o presente, afinal, eles estão sempre um passo a frente.

É tudo resultado de um longo processo, que pode parecer complexo, mas na verdade é essencialmente simples: faça as coisas certas, repetidamente. Em algum momento elas já funcionaram e você sabe o resultado final. Repita o processo ao longo dos anos e, invariavelmente, os resultados aparecerão.

Lógico, é impossível vencer sempre: times comuns implodem ao não saber lidar com suas frustrações, além de não ser possível controlar todos os fatores, como o capacete de Tyree ou as mãos de Wes Welker.

Ao olhar o sucesso do Patriots, entendemos porque nos desesperamos com os altos e baixos das demais franquias: é inacreditável o que o Vikings vem fazendo, mas parece que, para eles, é a última oportunidade de alcançar a glória – e, caso ela não venha, tudo será implodido. Lembramos que, por muito tempo, Indianapolis rodeou Peyton Manning por idiotas sem a mínima coordenação motora e esperou que seus milagres se repetissem até fevereiro. Ou ainda ficamos pasmos ao sermos confrontados com a ideia de que o Packers está desperdiçando os melhores anos de Aaron Rodgers com uma defesa, ano após ano, composta exclusivamente por débeis mentais.

Enquanto isso, em New England, absolutamente nada sai de controle.

Esperança.

O que nos resta?

O esporte é usado como válvula de escape para nossas frustrações, então é difícil, mas compreensível, aceitarmos o sucesso alheio repetido exaustivamente diante de nossos olhos. Queremos esforço coletivo e jornadas heroicas; queremos que David derrube Golias com uma frequência quase diária – para que assim possamos nos sentir vingados, seja de um boleto atrasado, de um chefe babaca ou do aumento da gasolina.

Por que alguns têm tanto enquanto nós temos tão pouco? De certa forma, a inveja é essencial para a evolução humana. Schadenfreude, palavra alemã que emprestamos para um segmento de nosso podcast (e o resto da civilização também emprestou para usar como julgar melhor), refere-se basicamente à felicidade que sentimos com a desgraça alheia.

Algo, ao mesmo tempo, humano e desprezível, mas que, de alguma forma, tentamos transparecer ainda mais no esporte, ainda mais em nossa relação com o New England Patriots: assim como o resto da liga, queremos ver seu reinado em chamas – mas ao mesmo tempo, podemos deixar esse egoísmo de lado e apreciar um momento tão raro como este, aproveitando o que resta disso: nenhuma dinastia dura para sempre.

A do Patriots, por exemplo, deve durar só mais uma década ou duas décadas. Começando no próximo dia 4.

OBS: se Blake Bortles e os Jaguars vencerem domingo, por favor, esqueçam esse monte de merda.

As dores e alegrias de Denver

Mais uma temporada que se inicia em Denver, e mais uma vez Von Miller será a verdadeira face do Broncos – uma máquina de demolir quarterbacks adversários em um sistema defensivo capaz de aterrorizá-los por terra ou pelo ar. Mas infelizmente, nada disso parece adiantar, já que Denver não aparenta ter um quarterback mentalmente capaz de vencer jogos – na verdade, se Trevor Siemian ou Paxton Lynch forem algo próximo a um ser humano com coordenação motora, já será uma vitória.

O novo HC Vance Joseph herdou um time recém campeão do Super Bowl – parece distante, mas há apenas dois anos Peyton Manning e companhia levantavam o Lombardi Trophy. E se o ano que seguiu a conquista foi quase trágico, John Elway tratou de reformular o corpo técnico da equipe: Mike McCoy, ex-HC do Chargers, é o novo OC.

Além dele, desembarcaram no Colorado nomes como Bill Musgrave, Jeff Davidson e Geep Chryst, todos com responsabilidade de reconstruir um sistema ofensivo que agrediu nossos olhos ao longo da última temporada. Elway argumenta que, para retornar aos playoffs pela sexta vez nos últimos sete anos, é necessário trabalhar com pessoas com “atitude, que odeiam perder” – para ele, o caminho para a pós-temporada começa nas trincheiras.

Quase decolando

Em 2016, o ataque do Broncos sempre parecia prestes a decolar – embora isso nunca tenha acontecido de fato. Mesmo assim, Trevor Siemian terminou seu primeiro ano com 8 vitórias (e 6 derrotas), 18 TDs e 10 INT – Siemian, porém, passou por uma cirurgia em seu ombro esquerdo e perdeu boa parte dos treinos de pré-temporada. Mesmo assim, estamos falando de uma franquia que entregou o comando de seu ataque para alguém como Trevor Siemian após alguns anos com Peyton Manning, certo?

E, bem, se perguntássemos se aquele ataque, liderado por um dos maiores QBs de todos os tempos, vencedor do Super Bowl em 2016, era significativamente melhor que o comandado por Trevor no ano seguinte, o que você responderia? Possivelmente ouviríamos um “sim” tão certo quanto o próximo fiasco do Jacksonville Jaguars, mas isso não pode ser considerado uma verdade absoluta: em 2015-2016, o ataque do Broncos teve média de pouco mais de 22 pontos por partida; na temporada seguinte, o número ficou um pouco acima de 20.

Logicamente não estamos sequer cogitando que Siemian é tão bom quanto Manning, mesmo em sua versão figurante de The Walking Dead; os números apenas ajudam a entender que nem Trevor ou mesmo Paxton Lynch podem ser apontados como o principal motivo da derrocada do Broncos; o maior culpado é a linha ofensiva, que passou a figurar entre as piores unidades de bloqueio da NFL.

Se juntar os dois, não dá um.

Tapando buracos

Pensando nisso, todos os esforços da offseason foram focados em fortalecer a OL, seja via draft com a escolha do OT Garet Bolles na primeira rodada ou na free agency, com as contrações do LG Ron Leary e do RT Menelik Watson (grandes bost*) – além disso, Vance Joseph já demonstrou que o novo esquema ofensivo exigirá que o QB libere a bola mais rapidamente o que, invariavelmente, deverá trazer consigo uma redução no número de sacks.

Outro fator já apontado pelo corpo técnico é que, com o reforço da OL, Denver tentará também se impor através do jogo terrestre: CJ Anderson entra em uma temporada decisiva para sua carreira; Devontae Booker pode ganhar mais oportunidades e há, ainda, o restos mortais de Jamaal Charles – que com cinco temporadas com mais de 1000 jardas, se conseguir parar em pé, dará ao Broncos oportunidades para diversificar ainda mais seu sistema ofensivo.

Voa, cavalinho!

A melhora da linha ofensiva é uma necessidade fundamental para que Paxton Lynch assuma o posto de QB titular – convenhamos, ninguém espera que uma escolha de primeira rodada, mesmo que ainda em estado bruto e precisando de desenvolvimento, vá esquentar o banco de Trevor Siemian por muito tempo, certo?

Quando isto acontecer, naquele período obscuro que compreende o limbo entre a última semana da pré-temporada e a week 6, Lynch precisará que Demaryus Thomas consiga agarrar passes; não se nega o talento de Demaryius, mas também não podemos fazer vistas grossas aos inúmeros drops de 2016 – Joseph, aliás, já desafiou Thomas a voltar “a ser uma estrela”.

O fato é que Sanders tem sido uma arma mais confiável para Denver do que Demaryius e, para que eles consigam atingir todo seu potencial, precisarão de ajuda, sobretudo na redzone – é aqui que a seleção do TE Jake Butt, que deve entrar em campo apenas em meados de outubro, pode auxiliar a dupla de WRs.

A esperança

O principal motivo pelo qual os Broncos conseguiram vencer o Super Bowl 50, apesar do desempenho horrível de Manning, foi a solidez de seu sistema defensivo; Denver bloqueou o ataque mais explosivo da liga na época sem maiores problemas.

Se juntar os dois, dá quatro.

Mesmo que seja nítido alguns passos para trás, a narrativa de que a defesa dos Broncos não consegue mais fazer jus às expectativas não passa de uma grande bobagem – desmentida por qualquer estatística. E a verdade é que ela foi a principal razão para a franquia terminar a temporada passada com um recorde positivo e quase beliscar uma vaga nos playoffs.

Para 2017, Denver trouxe os NTs Domata Peko, que procura reverter a queda que mostrou ano passado em Cincinnati, e Zach Kerr, que deve se adaptar ao esquema sem maiores problemas. Mesmo assim, o Broncos precisa que o LB Brandon Marshall se recupere efetivamente de uma lesão no tendão que o acompanhou na temporada que passou.

Já Von Miller é uma entidade sobrenatural, uma força da natureza, e deve perseguir o prêmio de melhor jogador defensivo, que perdeu em 2016 por um voto para Khalil Mack. Shane Ray substituirá o aposentado DeMarcus Ware e a secundária, comandada por Chris Harris e Aqib Talib, que aparenta não envelhecer, tentará liderar a NFL na defesa contra o passe pela terceira temporada consecutiva.

Palpite: Os Broncos acreditam que os problemas da OL começaram a ser solucionados. Mesmo assim, ainda há a questão do quarterback: essa defesa foi capaz de carregar um decrépito Peyton Manning até a glória, mas conseguirá fazer o mesmo com Lynch ou Siemian? Não é sábio duvidar – mas também seria pouco inteligente apostar nisso. Mesmo assim, seria burrice acreditar um time comandado por Alex Smith, além do fato de que o Chargers é pouco ou nada confiável. Em uma divisão em que apenas o Oakland Raiders parece a frente, algo entre sete ou nove vitórias é uma realidade palpável – mas talvez, ainda assim, insuficiente para retornar aos playoffs.

De Peyton Manning a Andrew Luck: mesmos erros, mesmas histórias

Com a primeira escolha geral do draft de 1998, o Indianapolis Colts selecionou o quarterback Peyton Manning, de Tennessee. Com a primeira escolha geral do draft de 2012, o Indianapolis Colts selecionou o quarterback Andrew Luck, de Stanford.

Não é só a posição em que foram escolhidos que aproxima a carreira dos dois melhores QBs que a cidade de Indianapolis já viu. Peyton Manning enfrentou dificuldades nos seus primeiros anos na liga e Andrew Luck também o fez. Peyton teve um head coach questionado no início de sua carreira, Andrew ainda o tem. Manning comandava um ataque explosivo quando jovem e Luck ainda o faz.

Esses aspectos em comum trazem a tona a seguinte questão: por que o Colts não consegue aproveitar seus jovens quarterbacks ao máximo? Por que um time que contou com Peyton Manning e conta com Andrew Luck tem um Super Bowl a menos que a franquia que venceu a liga duas vezes com Joe Flacco (aquele!) e Trent Dilfer (quem?) no mesmo período?

Direto do túnel do tempo

Peyton Manning chegou em Indianapolis em 1998, após o time ter uma temporada 3-13. Em seu primeiro ano na liga ele lançou 29 interceptações e os Colts terminaram com o mesmo recorde anterior. Ruim, óbvio, mas aceitável para um rookie, afinal, desde que abandonara Baltimore na calada da noite, a franquia nunca teve uma mentalidade vencedora. A exigência não era a maior do mundo.

Na temporada seguinte o time de Jim Mora terminou o ano 13-3, vencendo 11 dos últimos 12 jogos. Manning foi escolhido para o Pro BowlSecond Team All Pro. Além disso, o RB Edgerrin James despontou na liga e foi escolhido como rookie ofensivo do ano. Mas tal rendimento na temporada regular não garantiu uma boa estreia nos playoffs: derrota por 19-16 para os Titans, jogo em que Peyton completou 19/42 passes, não lançou nenhum touchdown e, mais assustador, correu pra um. Apesar da eliminação, o futuro se mostrava promissor no RCA Dome.

2000 foi marcado pela irregularidade dos Colts e o resultado final de 10-6 evidenciou isso. Mais uma vez, Manning foi Second Team All-Pro e escolhido para o Pro Bowl juntamente com o WR Marvin Harrison e o RB Edgerrin James. Nos playoffs, porém, nova decepção: mais um jogo ruim de seu quarterback (197 jardas e 1 touchdown) e os Colts deixaram uma vantagem de 14 pontos no intervalo escapar para o Dolphins do glorioso Jay Fiedler – uma espécie de Dan Marino ao contrário. Além disso, o kicker Mike Vanderjagt perdeu o que seria o FG da vitória; para se ter uma noção do feito, essa é a vitória mais recente do time de Miami nos playoffs. Sim, há quase 20 primaveras.

Ainda estamos vários parágrafos distantes dessa cena.

Depois de duas derrotas nos playoffs, o técnico Jim Mora – na época o mais velho da NFL – era questionado por não conseguir fazer a equipe dar o “próximo passo”. Nada mudou e a temporada de 2001 foi péssima. A defesa dos Colts permitiu uma média de 30 pontos por jogo, Peyton lançou 23 interceptações e foi sackado 29 vezes, maior marca de sua longa carreira. Após terminar a temporada 6-10, Mora acabou demitido, deixando como legado um dos maiores vídeos da história do futebol americano.

Mudanças (mas nem tanto)

Em 2002, Indianapolis foi buscar o técnico Tony Dungy com o objetivo de consertar aquilo que alguns tinham a audácia de chamar de defesa. Foi também o primeiro ano da equipe na AFC South, depois de 32 temporadas na AFC East. Após 10 vitórias e 6 derrotas na temporada regular, o Colts foi humilhados pelos Jets nos playoffs, perdendo por 41-0. Manning lançou pra 137 jardas e 2 INTs na oportunidade, mesmo tendo novamente sido escolhido para o Pro Bowl naquele ano.

Para curar a ressaca, 2003 foi um grande ano para o time e para Peyton: o time chegou a final da AFC após um recorde de 12-4 na temporada regular. Na vitória por 41-10 no wild card contra os Broncos, Manning teve um rating perfeito (158.3) pela segunda vez na temporada. No Divisional, vitória por 38-31 sobre os Chiefs, em mais um sólido jogo: 304 jardas e 3 TDs. Na final da AFC, uma derrota amarga para os Patriots por 24-14: Peyton foi interceptado e sackado quatro vezes e teve terceiro pior rating da carreira (35,5). Como prêmios individuais, ele foi escolhido 1st Team All Pro, Pro Bowl além de dividir o prêmio de MVP com o também QB Steve McNair.

A temporada de 2004 dos Colts foi marcada por um ataque colossal: 522 pontos totais – os 277 no primeiro tempo dos jogos foi maior que a marca total de 7 equipes naquele ano (para se ter uma ideia, o ataque dos Rams em 2016 marcou 224, ou seja, precisaria de 2,33 temporadas pra alcançar o mesmo que o sistema ofensivo de Indianapolis consegui só em 2004).

Manning lançou ainda 49 TDs, batendo o recorde que na época pertencia a Dan Marino (48), foi novamente MVP, jogador ofensivo do ano, 1st Team All Pro e Pro Bowler. A equipe terminaria a temporada 12-4 e tornaria a vencer os Broncos no Wild Card em mais um grande jogo de seu quarterback: 27/33, 4 TDs 1 INT, uma corrida de 4 jardas pra TD e 145,7 de rating. Já no Divisional, derrota por 20-3 em New England, em partida que a defesa permitiu mais de 200 jardas terrestres e o ataque foi neutralizado.

Mesmo roteiro ou filme repetido? 2005 foi mais um grande ano dos Colts e, como já se tornara habitual, de Manning. O time venceu 14 jogos na temporada regular, incluindo um convincente 40-21 sobre o New England Patriots em Foxborough. Em uma das poucas oportunidades em que lançou para menos de 4000 jardas, ainda assim Peyton teve o melhor rating da liga (104.1). Não foi o suficiente para ser novamente MVP: o camisa 18 ficou atrás de Shaun Alexander na votação. As escolhas para o Pro Bowl e 1st Team All Pro, porém, se mantiveram, além do Walter Payton Man of The Year, conquistado pela primeira vez.

Mas a derrota nos playoffs foi de partir o coração. Enfrentando o último classificado, Pittsburgh, Indianapolis poderia ter passado de fase se não fosse por um jogador esfaqueado que não conseguiu escapar do tackle do ultra-atlético-só-que-não Ben Roethlisberger e um kicker idiota que desperdiçou um chute para empatar a partida com 17s restantes no relógio.

Como o tempo é capaz de curar tudo, 2006 finalmente foi o nosso ano caralho chegou e, com ele, mais recordes foram quebrados: os Colts se tornaram o primeiro time da história a vencer seus nove primeiros jogos em duas temporadas consecutivas. Nos playoffs, Indianapolis derrotou Kansas City por 23-8, em jogo tranquilo. Já no Divisional, em Baltimore, não houve tanta facilidade. Nenhum dos times conseguiu marcar touchdowns e Adam Vinatieri, kicker então recém-contratado, exorcizou todos os demônios imagináveis e marcou 5 FGs na vitória por 15-6.

Era tudo tão mágico que o AFC Championship Game foi um dos jogos mais memoráveis da história. Sério: se você nunca assistiu, assista. Após estar atrás por 21-3 em determinado ponto do jogo, os Colts conseguiram uma dramática vitória por 38-34, em um jogo que contou inclusive com 2 TDs marcados por jogadores de linha ofensiva.

Estávamos diante dos portões do paraíso: o Super Bowl XLI, disputado em Miami contra o Chicago Bears, aconteceu sob forte chuva, que a cada gota que tocava o sagrado uniforme de Indy, lavava anos e mais anos de desgraças intermináveis. No campo, ambas as equipes foram prejudicadas pela bola molhada, mas, no final, o estilo de jogo conservador dos Colts, distribuindo passes curtos, prevaleceu. A franquia e Peyton Manning, finalmente alcançaram o objetivo maior e, enfim, no fundo todos sabíamos que os deuses do football não cometeriam a heresia de permitir que Rex Grossman levantasse o Vince Lombardi.

Ano após ano, nosso time sempre caía. E isso era decepcionante“, disse um emocionado Manning, escolhido MVP da partida. “De alguma forma achamos um jeito de aprender com essas derrotas. E nos tornamos um time melhor por causa disso“, completou.

Aconteceu? É real?

De volta à realidade

Os Colts entraram em 2007 como favoritos para vencer o Super Bowl e o time mostrou sua força no início da temporada. As sete vitórias nos sete primeiros jogos por três anos seguidos foi mais um recorde batido pela equipe. O S Bob Sanders foi escolhido Defensive Player of The Year. Terminando a temporada 13-3, Manning recebeu Phillip Rivers (que mesmo com o ligamento rompido terminou o jogo: abraços, Jay Cutler) e os Chargers naquele que foi o último jogo do RCA Dome. Ele lançou 402 jardas e 3 TDs, mas as 2 interceptações foram custosas na derrota por 28-24, em um duelo de muitas alternâncias de liderança.

Já o início de 2008 não foi muito promissor, mas após 9 vitórias consecutivas, Manning levou os Colts para os playoffs e o seu terceiro prêmio de MVP para casa, além da seleção para mais um 1st Team All Pro. Nos playoffs, o time não conseguiu a revanche contra os Chargers: após empate no tempo normal, San Diego venceu o coin toss e anotou o touchdown na prorrogação.

Para a temporada seguinte, Tony Dungy, técnico hoje no Hall da Fama, se aposentou e em 2009 os Colts contavam com Jim Caldwell como seu novo head coach. Tal mudança no comando não atrapalhou o rendimento da equipe, que terminou o ano 14-2, incluindo uma vitória memorável contra os Patriots, em virada emocionante no último quarto. Peyton foi, pela quarta e última vez em Indianapolis, MVP e 1st Team All Pro, junto com Dallas Clark e Dwight Freeney. Na rodada Divisional dos playoffs, uma vitória tranquila sobre os Ravens em Indy levou os Colts a final da AFC contra os Jets de Mark Sanchez & Rex Ryan (sim!). Após começar atrás, Manning comandou a equipe lançando pra mais de 350 jardas e 3 TDs para chegar a seu segundo Super Bowl. Então no quarto SB da franquia, os Colts enfrentaram o New Orleans Saints: derrota por 31-17 na partida que ficou marcada por um onside kick de New Orleans voltando do intervalo e do “retorno pra história” de Tracy Porter.

2010 foi o último ano de Manning como quarterback titular dos Colts. Naquele ano, ele completou 450 passes (melhor marca da história até então, que o próprio Peyton empatou em 2013) para 4700 jardas (também melhor marca pessoal até então) para levar Indianapolis a um recorde de 10-6 e mais uma pós-temporada. Dessa vez, os Jets de Mark Sanchez & Rex Ryan (sim!) levaram a melhor no Lucas Oil Stadium, vencendo o jogo com o relógio expirado. E aquele foi o último jogo de Peyton Manning pelo Indianapolis Colts: após múltiplas cirurgias no pescoço, Peyton perdeu toda a temporada 2011 e os Colts acabaram o ano 2-14 (você ainda lembra de Curtis Painter?), assegurando a primeira escolha do draft seguinte.

Um novo começo

A primeira escolha geral do draft de 2012 e as incertezas em relação ao estado de saúde de Manning fizeram com que os Colts dispensassem seu quarterback para ir atrás de uma reposição mais jovem e que, para muitos, tinha potencial parecido com o de Peyton: Andrew Luck.

Recomeçando essa desgraça.

O primeiro ano de Luck na liga foi um ótimo cartão de visitas. O recorde final de 11-5 veio com muitas viradas emocionantes, incluindo uma partida sensacional contra o Detroit Lions e o provável melhor jogo de Reggie Wayne com a camisa dos Colts. Luck foi selecionado para o Pro Bowl e, para alguns, deveria também ter sido o calouro ofensivo do ano. Ele também quebrou o recorde de jardas lançadas por um rookie, com 4374. Além da escolha de Andrew, o Indianapolis selecionou outros jogadores para compor o ataque da equipe, como o WR TY Hilton e os TEs Coby Fleener e Dwayne Allen. Nos playoffs, os Colts não marcaram touchdowns e acabaram derrotados pelos Ravens, que seriam campeões naquele ano, por 24-9.

Como o ano anterior na verdade era visto como um período de reconstrução, as expectativas para 2013 eram ainda maiores. E, apesar de inconsistente, os Colts fizeram uma boa temporada: vitórias sobre os finalistas da NFC Seahawks e 49ers, além de um jogo inesquecível contra os Broncos no primeiro reencontro de Manning com a equipe. O resultado foi o mesmo do ano anterior: 11-5. Mas Luck teve o seu melhor ano protegendo a bola, lançando 9 INTs, sofrendo apenas um fumble e novamente sendo selecionado para o Pro Bowl.

Já na pós-temporada, o time conseguiu a segunda maior virada da história dos playoffs, revertendo uma desvantagem de 28 pontos em mais um jogo épico que você deveria assistir. No Divisional, a equipe viajou até New England e tomou uma sova: Luck lançou 4 INTs e a defesa permitiu mais de 200 jardas para os RBs adversários, além de seis (sim, SEIS!) touchdowns terrestres.

Está conseguindo encontrar um padrão? Então, lá vamos nós novamente! 2014 foi o melhor ano de Luck na NFL, quebrando recordes e se estabelecendo como um dos grandes nomes da liga: ele bateu o recorde de jardas lançadas da franquia, passando Peyton Manning (4761 x 4700), além de outras marcas importantes. Os bons números e boas atuações eram comemorados, mas faltava dar um passo adiante: contra adversários como New England e Pittsburgh, Indianapolis não conseguia jogar bem, só tomando lavadas. Devido a essa inconsistência, o recorde foi de 11-5 pelo terceiro ano consecutivo.

No Wild Card os Colts jogaram bem e passaram pelos Bengals sem maiores sustos por 26-10. No Divisional a equipe viajou até Denver para enfrentar, mais uma vez, Peyton Manning. Já sentindo a idade, o xerife não jogou bem e os Colts controlaram a partida para vencer por 24-13. O AFC Championship Game, felizmente para os Colts, ficou mais marcado por fatores extra-campo: no jogo que ficou conhecido pelo Deflategate, New England mais uma vez passou o carro sobre a fraca defesa de Indianapolis. Andrew Luck lançou apenas 126 jardas e 2 INTs na derrota por 45-7. E, convenhamos, se as bolas estivessem devidamente infladas não mudaria porra nenhuma.

Novos anos, novas expectativas

Mesmo assim, 2015 chegou com muitas expectativas. As contratações na free agency e a empolgação vinda do ano anterior criaram uma necessidade grande de vencer. Muitos torcedores e analistas usavam inclusive a expressão Super Bowl or Bust. Mas nada saiu como o esperado. Andrew Luck começou o ano de forma irregular, inclusive perdendo alguns jogos por lesão. Quando as coisas pareciam entrar nos trilhos, o QB dilacerou o rim em uma jogada contra os Broncos. Apesar dos esforços do backup Matt Hasselbeck (que também não sobreviveu a linha ofensiva do time até o final da temporada), o ano acabou com um 8-8 e as férias chegaram mais cedo.

Na Black Monday daquela temporada, a expectativa era que o HC Chuck Pagano, então com o contrato terminado, deixasse a franquia. A relação com o GM Ryan Grigson não era das melhores e haviam inclusive relatos de que eles não se falavam. Após uma longa reunião, já no final daquele dia, Pagano e Grigson tiveram seus contratos renovados – vale lembrar que Grigson ainda tinha um ano vigente, mas como uma espécie de “prêmio” pelos bons serviços prestados (HAHAHA), recebeu uma extensão.

Então chegou 2016 e com ele muitas interrogações. Já não se esperava muito daquele mesmo time, e a percepção geral indicava que os Colts só conseguiam bons resultados por jogar em uma divisão fraca. A ideia era consertar a linha ofensiva e reforçar a defesa, os principais problemas da equipe. No draft, quatro OLs foram selecionados, além de outros quatro defensores. Na temporada regular, os Colts perderam muitos jogos no final e/ou por margens pequenas porque, na maioria das vezes, a defesa não conseguiu segurar a vantagem que o ataque construiu.

Andrew Luck ainda perderia um jogo por causa de concussão, além de ser poupado em boa parte dos treinos, mas mesmo assim terminaria o ano com sua melhor taxa de acerto de passe (63,5%) e melhor média de jardas por tentativa completada (7.8); por outro lado igualou o pior número de sacks sofridos na carreira (41, como em 2012): assim, o Colts ficou fora dos playoffs pelo segundo ano consecutivo e pela primeira vez desde 2001 ficou fora da pós-temporada tendo seu QB titular jogando.

Havia a expectativa da demissão de Chuck Pagano, mas ela não aconteceu. Na verdade, quem rodou foi o idiota do Ryan Grigson. Toda esta história apenas nos mostra um padrão, apenas nos evidencia que apenas um Super Bowl nesse longo período está longe de ser o ideal.

Aquela carinha de quem não aguenta mais apanhar.

Mesmos erros, mesmas “desculpas”

Peyton Manning se estabeleceu como um dos maiores quarterbacks da história jogando em Indianapolis, mas diversos fatores que estavam fora de seu controle não permitiram que ele vencesse mais que um SB. Já em quatro anos com o Denver Broncos, o camisa 18 conseguiu os mesmos números do que em 13 temporadas (excluindo 2011) em Indy, quando o assunto é “anéis no dedo”. É, inclusive, emblemático que sua última conquista tenha vindo com ele atuando como coadjuvante, sendo a defesa a grande estrela do time.

Em alguns momentos faltou sorte para os Colts quando Peyton comandava a equipe e podemos dizer que, se não fosse um certo time de New England, Indianapolis poderia ter chegado a mais finais da NFL. Mas também é inegável que faltou competência: o padrão de um sistema defensivo aparentemente mentalmente incapaz de segurar vantagens de 10, 14 pontos nos últimos períodos, além de permitir toneladas de jardas terrestres nos momentos decisivos, é notório.

As semelhanças entre Andrew Luck e Peyton Manning são grandes, mas também é importante ressaltar algumas diferenças. Apesar de não ter as defesas mais fortes da liga, Peyton via algumas estrelas do outro lado da bola em sua equipe: Dwight Freeney, Robert Mathis e Bob Sanders eram capazes de mudar jogos. A linha ofensiva também fazia sua parte e, na primeira metade da carreira, Edgerrin James ajudava muito o ataque. Não podemos esquecer ainda que Tony Dungy era uma grande mente defensiva e Bill Polian entrou para o Hall da Fama na NFL.

Já Andrew não conta com a mesma sorte: o melhor defensor da equipe era Mathis que, no final da sua carreira, já não tinha tanto gás. Vontae Davis teve um grande ano em 2014, mas não mostrou a mesma consistência em outros momentos. A defesa, inclusive, sofre muito para chegar ao QB adversário, o que não era um problema para Freeney. Bob Sanders jogou pouco tempo na liga, mas mesmo assim mostrou mais bola que todos os safetys que os Colts contam hoje no elenco somados. Há, ainda, a questão da linha ofensiva, que paradoxalmente parece tentar matar Luck a cada jogo, e não protegê-lo. Pese também o fato de que o jogo corrido dos Colts só parou de feder em 2016 (não vamos nem falar o que veio antes disso). Chuck Pagano deveria montar uma grande defesa, mas até aqui ele só falhou, e nunca cansaremos de repetir: Ryan Grigson é um imbecil.

A amostragem é menor, mas durante a “era Andrew Luck“, os Colts cometem erros que cometeram com Peyton no início de sua jornada e a insistência com um técnico questionado e a incapacidade de construir uma defesa consistente se destacam. Agora parece que, dessa vez, esses erros se somam a outros ainda maiores: Luck é o QB que mais apanha na NFL e faltam playmakers na defesa.

Tal pai, tal filho.

É claro que não podemos afirmar isto com exatidão, mas em um exercício de imaginação, dá para acreditar que Luck conseguiria levar times como Denver e Seattle ao Super Bowl, como as próprias franquias fizeram nos últimos anos. Ou até mesmo resolver os problemas de equipes que tinham sólidas defesas, mas precisavam de um quarterback, como Bills e Jets em determinados recortes específicos de tempo.

Jim Irsay sabe que tem que aproveitar mais um grande QB em sua franquia e espera que os Colts vençam ao menos dois Super Bowls nessa nova era. Para que isso aconteça, ele precisa tomar as decisões corretas e se livrar de Ryan Grigson foi o primeiro passo. De qualquer forma, é impossível prever o futuro, então resta esperar que Andrew Luck supere as limitações que seu próprio time lhe impõe ou que os Colts, em algum momento, consigam montar uma equipe vencedora ao seu redor. Luck não pode fazer tudo sozinho; na NFL, ninguém é capaz disso.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBR e está procurando um lugar no corpo para tatuar o rosto de Chris Ballard.

Não precisamos de Peyton Manning, afinal temos Von Miller

Quando entrar em campo em 2016, o Denver Broncos não verá a camisa 18 e a testa gigantesca de um dos maiores jogadores de todos os tempos. Peyton Manning está aposentado e nesse momento deve estar em algum lugar do sul dos EUA extremamente ocupado regando plantas, jogando dominó e gravando comerciais bizarros. Pode parecer estranho, mas a aposentadoria do QB detentor de grande parte dos recordes da NFL será o grande reforço do Denver Broncos para 2016. Essa afirmação soa ainda mais absurda quando lembramos que existe uma grande possibilidade de que Mark Sanchez seja o quarterback titular do time. Seria a transição do que muitos consideram o maior QB de todos os tempos para um dos jogadores mais risíveis que já pisaram em um gramado.

E como isso pode ser bom para o Broncos? Peyton Manning foi um dos piores QBs da NFL em 2015. Se hoje é considerado um gênio que revolucionou a posição, não foi pelo que fez na temporada passada. É conveniente esquecer estatísticas horrorosas quando o jogador está segurando o Lombardy Trophy em Fevereiro, mas o que Peyton fez em 2015 é tão ruim que merece (e deve) ser lembrado. Foram apenas 9 TDs, 17 INTs e um passer rating de 67,9, o pior da liga. Manning foi tão ruim que virtualmente qualquer QB que vista a camisa do Broncos em 2016 será um reforço, inclusive Mark Sanchez. Estamos falando de um time que venceu um Super Bowl desafiando a lógica da NFL atual, em que QBs são os principais responsáveis pelos sucessos e pelos fracassos. Até mesmo Brock Osweiller, que substituiu Manning em alguns jogos e que acabou recebendo um contrato absurdo no Houston Texans, foi apenas medíocre em 2015. O Broncos conseguiu vencer e se tornar à prova de QBs ruins.

Ok, mas o que isso tudo significa para a temporada 2016 do Denver Broncos? Não vai ser agradável, mas quer dizer que a torcida não precisa entrar em pânico caso Mark Sanchez receba o primeiro snap na revanche contra o Carolina Panthers. Também não precisa ter um colapso nervoso caso o escolhido seja o rookie Paxton Lynch. Até mesmo o desconhecido Trevor Siemian parece ter chance de ganhar a vaga de titular. A verdade é que o Broncos só precisa de um QB que não comprometa. O resto do time resolverá tudo.

Amemos John Elway sobre todas as coisas

John Elway não fez um grande esforço para renovar o contrato de Brock Osweiller, que estava em Denver há quatro anos e deveria ser o sucessor natural de Manning. Elway parece concordar com a tese de que qualquer um pode ter sucesso em Denver e não estava disposto a pagar nada próximo aos US$ 37 milhões garantidos em dois anos que Osweiller recebeu do Houston Texans. Sem opções viáveis no mercado, preferiu contratar um veterano barato para quebrar um galho durante a transição do rookie que escolheu no primeiro round do draft.

O veterano Mark Sanchez e o rookie Paxton Lynch parecem ser os favoritos a vencer a batalha pela titularidade, mas Trevor Siemian (quem?) vem ganhando hype e terá a chance de começar como titular o jogo contra o Los Angeles Rams pela semana 3 da pré-temporada. A não ser que consiga impressionar os técnicos com uma atuação muito acima da média, Siemian não deve passar de um jogador que se destaca nos treinos e que serve para deixar os outros QBs com a pulga atrás da orelha. De qualquer forma, são três jogadores em uma disputa franca pela titularidade.

Entre os cenários disponíveis, o mais provável é que Mark Sanchez vença a disputa e seja titular até um pouco antes da metade da temporada, quando começará a fazer muita bosta e será substituído por Lynch, já um pouco mais amadurecido. Nenhum deles terá números astronômicos, mas também não estarão entre os piores da liga: o sistema ofensivo do head coach Gary Kubiak costuma mascarar defeitos dos QBs. Com ênfase no jogo corrido e com muitas play actions, Kubiak conseguiu produzir números razoáveis com QBs abaixo da média em Houston, por exemplo.

Quem quer que vença a batalha terá à disposição uma das melhores duplas de recebedores da liga. Demaryius Thomas e Emmanuel Sanders talvez já tenham passado do auge, mas ainda são WRs acima da média. Times como o Los Angeles Rams e o Tennessee Titans, por exemplo, dariam tudo para ter uma dupla desse calibre. Devido à natureza do ataque e à qualidade da defesa, é difícil imaginar qualquer um dos dois tendo números monstruosos. Demaryius parece ser o que tem mais chance de produzir estatísticas respeitáveis. Se lembrarmos novamente de Gary Kubiak em Houston, lembraremos de Andre Johnson tendo bons números – e mais ninguém. Além disso, como a defesa é muito boa, o ataque não tem a obrigação de marcar muitos pontos, o que limita o teto dos recebedores.

1MARKAUM

“É, torcida, acreditar nessa defesa, né?”

Não temos QB, então vamos correr

O jogo corrido deve ser o pilar de sustentação do ataque. Kubiak deve correr bastante com a bola para limitar as prováveis inconsistências de seus QBs. C.J. Anderson será o principal RB do time e terá que provar que vale o contrato de quatro anos e US$ 18 milhões, com US$ 5 milhões de bônus, assinado em março, quando o Broncos decidiu cobrir o salário oferecido ao jogador pelo Miami Dolphins. Se permanecer saudável, com o volume que poderá receber, deve melhorar os números medíocres de 2015: dividindo as carregadas quase igualmente com Ronnie Hillman, Anderson conseguiu apenas 720 jardas e 5 TDs. Com menos disputa por oportunidades de correr com a bola, já que alguns acreditam até que Hillman deva ser cortado, C.J. deve ultrapassar a marca de 1000 jardas e se aproximar dos 8 TDs. Devontae Booker, rookie escolhido no quarto round, deve servir como complemento e pode receber oportunidades caso Anderson não jogue bem.

Quem quer que esteja correndo com a bola para o Broncos terá que se adaptar a uma linha ofensiva completamente desfigurada. Do quinteto que iniciou o Super Bowl, restou apenas o C Matt Paradis. Como é uma unidade que depende muito do entrosamento, a linha ofensiva deve ter problemas pelo menos nos primeiros jogos e ocupa apenas a posição 28 no ranking do site Pro Football Focus.

Deus no céu e Von Miller na terra

O grande trunfo do Denver Broncos para 2016 é o mesmo que o levou à vitória no Super Bowl: uma defesa agressiva que aterroriza os ataques adversários. Mesmo com as perdas de Danny Trevathan e de Malik Jackson, que só não foi MVP do Super Bowl porque Von Miller existe, o front seven do Broncos deve continuar sendo um dos melhores da NFL. A linha defensiva deve continuar eficiente contra o jogo corrido e ajudar a colocar pressão no pass rush. Os linebackers, liderados por Von Miller e Brandon Marshall, são os melhores da liga pressionando o quarterback e também são extremamente capazes fazendo a cobertura do passe.

A receita da defesa (quase) perfeita fica completa com a melhor secundária da liga, que permanece intocada. Talvez Chris Harris, Aqib Talib e Bradley Roby individualmente não sejam os melhores jogadores da NFL na posição, mas formam o grupo de cornerbacks mais completo. Já os safeties T.J. Ward e Darian Stewart não são tão brilhantes quanto os cornerbacks, mas não chegam a comprometer.

Se conseguir manter a absurda pressão que colocou nos QBs adversários em 2015 (Cam Newton não consegue esquecer), e não há motivos para acreditar que haverá uma queda drástica, o Broncos continuará sendo a melhor defesa da NFL em 2016. E só ela basta para ter grandes planos.

1MILLERMVP

Sempre legal lembrar de Miller infernizando a vida de Cam Newton.

Palpite: em uma divisão que tem vários times em ascensão, o Denver Broncos terá dificuldades, mas conseguirá uma suada classificação aos playoffs, com o recorde de 10-6. Von Miller continuará comandando a melhor defesa da NFL, enquanto o ataque será razoável e não chegará a prejudicar o time. Entretanto, o desempenho na pós-temporada não será bom o suficiente e Denver acabará eliminado para um time obscuro logo na rodada de Wild Card. Nunca erramos uma previsão, acreditem – mas também ainda não acertamos!

Uma carta para Deus (você também deveria sentir falta de Tim Tebow)

Caro Tebow, criador de emoção em jogos fáceis, padroeiro dos QBs medíocres, injustiçado por Rex Ryan e Chip Kelly e verdadeiro Messias nas horas vagas.

Lia esses dias uma reportagem em que você aparecia ressuscitando um homem em um voo comercial e fiquei grato de saber que continua operando milagres também fora dos gramados. Também me agradou ver você dando o bolo na convenção republicana de Donald Trump. Mas tudo isso me fez perceber a necessidade de dizer que sinto a sua falta. A minha saudade aumentou ainda mais hoje enquanto estudava a lista de quarterbacks previstos para serem titulares na semana 1 dessa temporada que se inicia em setembro de 2016.

Não é possível que todos estejam cegos e não vejam o mesmo que eu: que tipo de piada são Blaine Gabbert e Case Keenum (ainda que seja para que Jared Goff tenha tempo de se adaptar a liga – o que também não é o que se espera de uma primeira escolha de draft séria) comandando times que jogam na que era aparentemente a divisão mais forte da NFL? Geno “desbocado” Smith esteve lá por um bom tempo, aparentemente mantendo o assento de QB titular na sala de reuniões quente para Ryan Fitzpatrick, mas também pode ser que o general manager Mike Maccagnan tenha cansado de negociações e simplesmente decidido que Smith pode produzir como “fruto do sistema” do OC Chan Gailey.

Olhamos para essa imagem e só conseguimos lembrar dos dois dividindo o campo com Sanchez como WR...

Olhamos para essa imagem e só conseguimos lembrar dos dois dividindo o campo com Sanchez como WR…

Ou então Robert Griffin III e Sam Bradford (também só criando tempo para Carson Wentz, segunda escolha do draft), ali baseados em um suposto potencial que só apareceu em uma boa temporada para nunca mais voltar. Você também teve uma boa (incrível) temporada, antes de ser desprezado por um saco de batatas disfarçado de Peyton Manning, para quem a incrível defesa criada por Wade Phillips e liderada por Von Miller deu de presente o segundo Super Bowl da carreira – o segundo que ele ganhou (sempre válido lembrar: o primeiro, de 2006, pelos Colts, ele ganhou contra o incrível Rex “Sexy Rexy” Grossman). Com certeza o caminho teria sido bem mais divertido se John Elway e John Fox não tivessem lhe passado a perna.

Também me dói lembrar que no mesmo 2011 em que você botou Tim Tebow na história da NFL foram draftados no primeiro round o já citado Blaine Gabbert (pelos Jaguars), Jake Locker (Titans) e Christian Ponder (Vikings), que continuaram tendo chances de mostrar o seu valor pelo menos até 2014, oportunidade que não lhe foi dada. Hoje, as três equipes já voltaram a gastar novas escolhas de primeiro round em outros quarterbacks (Bortles, Mariota, Bridgewater respectivamente), que poderiam ter investido melhor (junto com os anos desperdiçados) se dessem a oportunidade a quem realmente merece.

Dizem por aí que você é um mau quarterback porque lhe faltam bons números. A esses, eu lembro que Andy Dalton (25 TDs para 7 interceptações apenas) e Kirk Cousins (4166 jardas, rating de 101.6) não conseguiram vencer nenhum jogo de playoff mesmo depois da melhor temporada de suas carreiras. Pior ainda, Ryan Tannehill, Philip Rivers e Matthew Stafford podem lançar para 4000 jardas aparentemente toda temporada e nunca nem pisar na pós-temporada. Quão melhor podem ser esses QBs quando um com 46.5% de passes completos e 1729 jardas em 11 jogos é quem realmente consegue levar seu time em frente?

Ou ainda, caro Tebow, podemos ser mais humildes e aceitar que você não seja adequado a todo tipo de sistema e por isso nem todos os times possam ter você como primeira opção. Mas eu tenho certeza que Bruce Arians poderia ser criativo e que você ganharia mais jogos do que Drew Stanton ou aquele desfile de QBs da CFL que os Cardinals têm guardado para quando Carson Palmer inevitavelmente se machucar.

Tebowing eterno.

Tebowing eterno.

A situação no Texas não é diferente. Brandon Weeden, do alto da sua velhice combinada com inexperiência, jogou tanto por Dallas (quando Tony Romo também inevitavelmente quebrou algo) quanto por Houston – que não satisfeitos, deram quase 20 milhões por ano para o pouco testado Brock Osweiller. E nada é mais deprimente que ter Brandon Weeden como titular no seu time, a não ser, talvez: ver seu salary cap todo preso a Drew Brees e Joe Flacco e o resto do time complementado com jogadores medíocres; sonhar que um dia Alex Smith chegará a mostrar-se capaz de fazer grandes jogadas e ganhar títulos; ou ainda ter que imaginar mais um ano com Jay Cutler e todo o seu espírito de liderança e motivação pela vitória.

Mas talvez não possa me indignar com times que nunca tiveram a oportunidade de te ter vencido em campo, e por isso lhe confesso que a real motivação dessa carta indignada foi ter percebido que o bizarro Mark Sanchez, o mesmo que Rex Ryan insistiu em manter na titularidade dos Jets a sua frente porque “você não era bom o suficiente nos treinamentos”, será responsável por comandar o seu mesmo Denver Broncos, da defesa magnífica atual campeã do Super Bowl, e saber que ele é capaz de ser levado a disputar o título da AFC como fez em 2009 e 2010 com uma outra grande defesa, do New York Jets. E que, novamente, falhará, porque lhe faltará a estrela que reserva Deus aos campeões.

E essa, qualquer um que tenha um mínimo de coração e memória, se arrepiará lembrando que você tem*. Porque parece que foi ontem que todos nos maravilhamos naquele final de jogo em Denver contra os Steelers de Big Ben Roethlisberger (um QB de verdade, 4000+ jardas 30 TDs blablabla), no ano de 2012, devido aquele passe de pura iluminação para o escolhido WR Demaryius Thomas, que o carregou para marcar um TD de 80 jardas encerrando uma das prorrogações mais rápidas, mas não menos emocionante, da história dos playoffs da NFL.

E aqui um fã registrou Tebow realizando seu milagre dentro de um avião.

E aqui um fã registrou Tebow realizando seu milagre dentro de um avião.

Por último, válido lembrar também todos os sinais deixados em seus stats daquele seu último grande jogo: 316 jardas passadas, 31.6 jardas por passe completo (um recorde da NFL) e os níveis de audiência máximos nos EUA de 31.6, remetendo diretamente à passagem bíblica João 3:16:

“Porque Deus amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas alcance a vida eterna. ”

Eu seguirei acreditando e esperando seu retorno.

Amém.

*a derrota por 45-7 para os Patriots que seguiu a esse jogo histórico pode ser muito bem atribuída a uma defesa inexperiente, em que Von Miller era apenas um rookie. Hoje, certamente, isso não se repetiria. Especialmente porque o próprio Tebow teria muito mais rodagem do que tinha em seu apenas segundo jogo de playoff.

Não aprendemos com o passado: tudo nos braços de Luck

A verdade é que tínhamos certeza que Andrew Luck seguiria em Indianapolis – mesmo assim, para o torcedor, o conforto do papel assinado é insubstituível e sabemos que todo grande time começa obrigatoriamente por um grande quarterback. Não que em algum momento cogitou-se ele fora do Colts, mas com Andrew garantido pelos próximos anos podemos confiar que, bem, Luck voltará a ser Luck.

Sabemos que atualmente ser considerado um jogador “diferenciado” não é algo tão incomum; rotulamos na mesma velocidade com que retiramos tal afirmação, fruto dessa conjuntura pós-moderna onde tudo é tão duradouro quanto aquela remuneração que recebemos no quinto dia útil de cada mês. Mas antes de questionarmos a capacidade de Andrew Luck, olhemos alguns de seus números: na temporada regular de 14/15, foram mais de 4700 jardas aéreas, 200 jardas corridas e exatos 40 touchdowns (além de um rating de 96,5). De qualquer forma, o que valida Luck, além de seu desempenho em 2014, é o fato de que ele levou o Colts aos playoffs em cada uma de suas três primeiras temporadas na NFL.

Ryan Grigson negociando em busca de mais um WR.

Ryan Grigson negociando em busca de mais um WR.

Tudo bem, até podemos contra argumentar que não estamos diante de números inquestionáveis, mas não podemos negar que eles estão longe, bem longe, de serem descartáveis. E mesmo se olharmos para a temporada passada quando, prejudicado por lesões, Luck entrou em campo em apenas sete partidas, ainda sim é possível enxergar que não estamos falando de um quarterback comum.

Em paz com o passado?

Vamos ser sinceros, há 20 anos o Colts fede. Era um time medíocre com Peyton Manning, é um time medíocre com Andrew Luck. O fato é que a capacidade de seus quarterbacks amenizou essa situação e chega um momento em que é preciso perceber que há um limite naquilo que o talento bruto pode fazer; apenas um QB não é capaz de sustentar uma equipe mal treinada e pessimamente gerida.

E que fique claro que não se trata apenas de companheiros de time que na verdade deveriam estar vendendo apólices de seguro e não em uma partida de football. Trata-se, sobretudo, de um modelo de gestão que insiste ano após ano na escolha errada, atesta sua falta de capacidade e não é capaz de construir um elenco minimanete sólido para dar algum tipo de sustentação para seu principal jogador.

O fato é que olhar para as últimas duas décadas do Colts é ter a sensação de que a franquia espera e realmente crê que apenas um excelente quarterback conquistará o Super Bowl para Indianapolis.

Aprendendo a tomar a decisão errada

O histórico de erros da dupla Chuck Pagano e Ryan Grigson é assustador. Aliás, o simples fato de ambos terem sobrevivido a esta offseason é uma história ainda sem resposta. Ao menos vamos rir relembrando o desenrolar dos fatos e aproveitar para levantar a ficha suja de Pagano e Grigson.

No ano seguinte a seleção de Luck, o Colts contratou LaRon Landry por míseros US$ 14 milhões, montante que atleta provavelmente investiu no consumo de substâncias ilícitas. Tivemos ainda uma segunda chance para Darrius Heyward-Bey, que já havia fracassado em Oakland e, claro, fracassou novamente, já que ninguém fracassa no Raiders à toa.

Poderíamos também citar a troca que trouxe Trent Richardson para Indianapolis, mas vamos nos ater apenas a movimentos que envolvam jogadores de football: Trent, com boa vontade, pode ser considerado no máximo figurante de algum filme B de ficção científica exibido pelo SyFy em alguma madrugada aleatória. Nunca, em hipótese alguma, alguém que valeria uma escolha de primeira rodada. Aliás, a carreira de Trent na NFL se resume corridas de duas jardas seguidas por um tombo com a cara no chão. Mas vamos seguir em frente.

De qualquer forma, as decisões tomadas na temporada passada também foram bizarras: investir mais de US$ 20 milhões em Andre Johnson (que já seguiu para o Titans dando continuidade a sua turnê pela AFC South) ainda é uma questão estranha para ao torcedor. Ok, aqui ainda resta o benefício da dúvida e se pode argumentar que em seu último ano em Houston Johnson teve 85 recepções para mais de 900 jardas – isso sem um quarterback sem deficiências cognitivas.

Já tentar compreender a seleção do WR Phillip Dorsett na primeira rodada do draft, quando já havia no elenco TY Hilton e Donte Moincrief (e inúmeras outras necessidades mais urgentes) é ainda mais perturbador.

"Deu ruim"

“Deu ruim”.

Proteção é a chave

Se existia alguma dúvida que Luck era fundamental para o sucesso do Colts, a temporada que passou as sanou. Então um dos novos nomes do Colts que merece atenção é o center Ryan Kelly, originário de Alabama: o bom senso diz que não se investe US$ 140 milhões em um QB se não se é capaz de protegê-lo.

Luck certamente será capaz de se beneficiar da proteção extra que Kelly irá lhe proporcionar, de sua qualidade em ler defesas e aliviar a pressão antes do snap. Kelly é ainda um bloqueador inteligente, o que garantirá espaços para o QB e também oferecerá boa proteção para o passe.

Ryan ainda será fundamental para um dos pontos cruciais para o sucesso do Colts: para Luck reaprender a lidar com seu estilo de jogo, já que desde seus tempos em Stanford ele nunca fugiu do contato – algo um tanto inconsequente para alguém que vale centenas de milhões de dólares. Foi assim, lutando por jardas extras, que Luck arrebentou seu rim e encerrou precocemente sua temporada de 2015.

O inusitado é que o GM Grigson parece finalmente ter percebido essa necessidade; antes do draft de 2016 ele pouco (ou nada) procurou proteger Andrew Luck. Agora, outro atleta que certamente ajudará Ryan Kelly nesta missão é o OT Le’Raven Clark, que tem todas as condições de chegar em setembro com o carimbo de titular – méritos e deméritos à parte, estamos falando de umas piores linhas ofensivas da NFL.

Defesas ganham campeonatos

Se reconstruir sua linha ofensiva parece ter sido a primeira opção, o Colts também precisa urgentemente ajustar sua defesa, afinal ninguém leva 51 pontos do Jaguars e sai impune. Aliás, na temporada passada, a média foi superior a 25 pontos por jogo.

Para 2016-2017, o Colts ainda perdeu o excelente LB Jerrell Freeman que assinou com o Chicago Bears. Trent Cole (LB) costumava ser um grande jogador nos Eagles, mas não passou de medíocre em sua primeira temporada em Indianapolis e completa 34 anos em outubro. Agora Nate Irving e D’Qwell Jacskon devem compor o sistema defensivo e a verdade é que nenhum deles inspira confiança.

O safety Michael Adams é outro que já foi um grande jogador, mas aos 35 anos mostra sinais claros de decadência. Por outro lado, os pontos positivos são Erik Walden e Robert Mathis. E, claro, o cornerback Vontae Davis. Mesmo que Davis tenha enfrentado diversas lesões em 2015, ele ainda está bem acima de parte significativa dos jogadores da posição na NFL.

Corra, Colts! Corra!

O sucesso de Luck e, consequentemente, o sucesso do Colts, passará pelo jogo corrido. Correr de maneira eficiente significa aliviar a pressão sob os ombros do quarterback. Mas, claro, a teoria é sempre mais fácil: na temporada passada o Colts teve média inferior a 90 jardas corridas por partida (29ª colocação entre as 32 equipes da liga).

Ok, tentemos deixar de lado o retumbante fracasso que foi Trent Richardson, já que prometemos nos focar em jogadores de football, e falemos de Frank Gore: cinco vezes selecionado para o Pro Bowl, ele teve média de 3,7 jardas por tentativa em 15/16 e um total de 967 jardas na temporada.

Evidentemente ele não é o único culpado pela penúria terrestre que assola Indianapolis, mas serve como indicativo do quão urgente é para o Colts pesar suas opções para a posição, já que Frank está com 33 anos e sabemos que são raros os casos de RBs produtivos nesta faixa etária – no plantel atual restam ainda Robert Turbin e Jordan Todman, cobiçados por nenhum entre os demais 31 times da NFL.

Talvez escape.

Talvez escape.

Mesmo com um cenário pouco confiável para estabelecer seu jogo terrestre, a pior decisão que o Indianapolis Colts pode tomar é unidimensionalizar seu ataque: Luck precisa que o Colts corra! Em contrapartida o Colts precisa que Luck tome melhores decisões em campo, precisa que ele, às vezes, escolha a opção mais simples e saiba que um punt é melhor que um turnover.

Palpite: Apesar de amarmos o Jaguars, termos esperanças que Houston fará uma boa temporada, sabemos que qualquer QB razoável pode vencer AFC South sozinho. Poderia apostar minha casa que com Luck saudável esse deve ser o destino do Colts. Bom, na verdade, melhor esperar: Chuck Pagano e companhia podem estragar tudo – ainda não superamos aquele jogo contra o Patriots na última temporada.