Posts com a Tag : Patrick Mahomes

Análise Tática #28: Semana 2, 2018 – Patrick Mahomes e a nova dimensão do ataque dos Chiefs

Mais uma semana de temporada regular nos livros (traduções literais) e a análise tática deste maravilhoso sítio vem novamente destrinchar a posição mais chamativa do jogo: quarterback. Dessa vez falaremos sobre o início avassalador de Patrick Mahomes no Kansas City Chiefs.

Patrick Lavon Mahomes II, vindo de Texas Tech, talvez seja o principal personagem gunslinger do início da temporada. Após passar seu ano de calouro na NFL como redshirt (jogou apenas pré-temporada e na semana 17), o segundanista começou o ano com um desempenho inacreditável, colocando-o ao lado de nomes como Peyton Manning, Tom Brady e Ryan Fitzmagic™ (por que não).

Após os 10 touchdowns em dois jogos (quatro na semana 1 contra os Chargers e 6 na semana 2 contra os Steelers) é impossível não se impressionar com o desempenho do jogador. Mahomes tem como estatísticas totais (atentando ao baixo espaço amostral) 38/55 passes (69.1%), 582 jardas aéreas, 10.6 jardas por passe, 10 TDs e nenhum turnover.

Traduzindo esses números para termos de estatísticas avançadas, Mahomes tem incríveis 13.65 ANY/A (qualquer número acima de 7 é considerado bom). Segundo o Pro Football Focus, Pat teve 235 pass-DYAR (Defense-Adjusted Yards Above Replacement). Suas atuações contribuem para que os Chiefs sejam o segundo time em DVOA na temporada, com 59.4%.

LEIA TAMBÉM: As particularidades de um jogo na neve

Dada tamanha produção tão cedo, é natural esperar que de certa forma haja uma queda ao longo do ano. Mahomes na prática é um calouro, então será normal ver o quarterback lançar algum passe duvidoso que gere alguma interceptação que não deveria acontecer.

Além disso, é evidente que as boas atuações dos Chiefs se deram por outros fatores que a atuação do jovem QB, mas como a posição era o principal ponto de interrogação de Kansas City na temporada, é impossível não se impressionar. Antes que a regressão à média inevitavelmente ataque o jogador, vamos curtir o desempenho de Mahomes analisando o tape das melhores jogadas de pontuação dos Chiefs nas duas primeiras semanas.

KC 7-3 SD. Q1 7:12. 2nd & 4 em KC42

Na primeira jogada da análise, vemos um exemplo de como Mahomes tomou uma decisão rápida com o pocket colapsando à sua frente.

Kansas City alinha-se em uma formação com indicação pesada para uma possível corrida para o lado esquerdo da defesa, enquanto Tyrek Hill sai em motion. Dada essa situação, os jogadores indicados em vermelho serão as iscas, enquanto Hill tem a sua frente um defensor marcando em zona, que o passará para o Safety caso Hill vá em profundidade. Como o pocket colapsa pelo A-Gap, toda essa leitura precisa ser de forma rápida, e Mahomes solta a bola com uma mecânica meio questionável (repare na postura torta dos braços).

O fator força no braço é determinante na jogada, e Mahomes consegue conectar o passe no triângulo entre os jogadores circulados em vermelho. A partir de então, a responsabilidade toda é de Tyrek Hill em vencer os adversários em velocidade e disparar à endzone.

KC 24-12 SD. Q3 1:20. 1st & 10 em LAC36

A segunda etapa é outro exemplo de como os Chiefs partiram de uma formação com desenho pesado de corrida para rotas espalhadas pelo campo. Essa foi uma forma de Andy Reid fazer com que a velocidade de seus skill players se sobressaísse a partir do momento em que todos eles cruzassem a linha de scrimmage.

Os Chiefs partem para um four verts, enquanto os Chargers respondem com um Cover 4 na secundária. A chave aqui é a formação pesada, fazendo com que os defensores precisem compensar alinhando um pouco mais para a região das hashmarks.

O jogador circulado em vermelho será a isca, enquanto todos os demais, defendendo rotas go, terão jogadores para observar. Por causa disso, nenhum dos jogadores em zona no fundo do campo é capaz de dobrar a marcação em cima de Tyrek Hill, que ao já sair em velocidade da linha de scrimmage, vence com facilidade seu marcador.

No momento do passe, Hill ainda está atrás do marcador, mas Mahomes vê por antecipação e cálculo de velocidade a vantagem no duelo, e lança um passe no ponto futuro da rota, quase próximo à linha lateral. Tyrek mantém o equilíbrio e continua dentro de campo, indo para o segundo TD de deep ball dos Chiefs na partida da primeira rodada.

KC 0-0 PIT. Q1 13:26 2nd & 15 em PIT15

Agora vamos para a segunda partida da temporada, mostrando como John Keith Butler e Mike Tomlin “ajudaram” Andy Reid no trabalho de fazer o talento de Mahomes se sobressair. Em todas as jogadas da partida da segunda semana, temos o ponto em comum: o uso da seam.

Ao contrário dos exemplos anteriores, essa jogada tem apenas uma rota em profundidade, que atacará o espaço vazio. Reparem que o safety single-high está um pouco deslocado para o lado superior da imagem. Esse offset no posicionamento gera o espaço vazio marcado com o polígono, que será atacado pela rota seam.

As demais rotas da jogada são usadas para prender marcadores à linha de scrimmage. Os recebedores externos adotam posições de screen-pass, enquanto o slot receiver faz o melhor método de quebra de marcação possível: ELE SIMPLESMENTE CATA UM CAVACO BONITO NA JOGADA, EXECUÇÃO 10/10.

Boa parte das leituras de quarterback a nível profissional baseiam-se na identificação de triângulos na defesa. A partir do snap, é exatamente essa leitura que Mahomes deve identificar. Geralmente, essa “progressão” ocorre a partir do Safety no fundo do campo (primeira identificação pré-snap), pelo marcador mais próximo ao recebedor, e ao marcador defensor mais próximo dos dois.

Essas leituras vão sendo alternadas ao longo do campo à medida que o QB avança em sua progressão. Alguns fatores como reação do jogador de defesa em relação ao movimento da jogada influenciam na leitura. O leitor deve estar pensando que é uma quantidade absurda de informação que o quarterback tem que realizar em até 2 segundos, o que justifica que os bons jogadores da posição recebem contratos milionários e por que esse tipo de atleta é o que mais faz diferença em um time em relação a todos os esportes coletivos.

Após essa explicação rudimentar da leitura triângulo do QB (detalhes mais avançados ficam para futuros textos, não vamos queimar tudo agora), observamos a marcação feita na figura, com os três defensores envolvidos na jogada. Um dos jogadores-vértices já passou o recebedor para seu companheiro no fundo do campo, mesmo sendo quase que impossível para o Safety reagir e defender o passe, dado espaço entre os marcadores. Recepção fácil no fundo da endzone.

KC 7-0 PIT. Q1 9:41 2nd & 8 em PIT19

O exemplo a seguir é semelhante ao segundo deste texto, em que os Chiefs utilizam uma formação com desenho pesado para corrida e rotas verticais para maximizar a velocidade dos recebedores contra a defesa. Aqui, Andy Reid incrementa o uso de motion para dar algumas pistas a Mahomes quanto ao tipo de marcação e identificação dos jogadores-chave.

Quanto à leitura-triângulo, Mahomes identifica o single-high mas precisa alterar um dos vértices do triângulo para o box-safety, já que o primeiro irá para o lado oposto da progressão. O recebedor principal é o TE Travis Kelce.

Ao contrário do exemplo anterior, a janela aqui é um pouco mais estreita, sendo necessário um passe mais alto para que Kelce leve vantagem na habilidade atlética.

 

Mudando para (tentar) vencer

É impossível falar de sucesso no mundo esportivo sem pensar em títulos e troféus. Um time que não consegue atingir a glória máxima – ou, ao menos, chegar perto dela – dificilmente é considerado bem sucedido, mesmo que apresente resultados muito acima da média. É, de certa forma, injusto, porém é natural que o verdadeiro reconhecimento seja um privilégio apenas dos campeões.

Na NFL, o Kansas City Chiefs é o mais claro exemplo da subjetividade da palavra “sucesso”. Desde que Andy Reid assumiu o cargo de Head Coach, em 2013, o time tem tido “sucesso” – a subjetividade, aqui, precisa ser ressaltada. Foram 53 vitórias e 27 derrotas em jogos de temporada regular: um respeitável e invejável aproveitamento de 66%. Nas cinco temporadas de Reid como técnico, o Chiefs só ficou de fora dos playoffs em 2014, apesar de ter sido também um ano vitorioso, com o recorde de 9-7.

O problema é que a franquia parece incapaz de dar o próximo passo e se tornar realmente bem sucedida. Nas quatro aparições em pós-temporada, o Chiefs conseguiu apenas uma vitória: um sonoro 30×0 no Wild Card Round da temporada de 2015 contra o Houston Texans, time que compartilha a mesma dificuldade de vencer jogos eliminatórios. Foram cinco jogos, com um aproveitamento de 20%, um contraste enorme com o desempenho na temporada regular.

Com exceção da derrota para o Indianapolis Colts nos playoffs da temporada 2013, um jogo que terminou 45×44 e se tornou instantaneamente um clássico, o Chiefs nunca jogou bem nos playoffs. Apesar de ter perdido por placares não muito elásticos para o New England Patriots em 2015 e para o Pittsburgh Steelers em 2016, a impressão que ficava era de que faltava algo.

A certeza de que mudanças eram necessárias veio na temporada passada. A derrota em casa para o modorrento Tennessee Titans, em uma partida em que era o franco favorito, parece ter sido a gota d’água para um time que parece bom demais para a temporada regular e ruim demais para os playoffs. Algo precisava ser feito.

Confiem no menino.

Mudanças

Também contratado em 2013, o QB Alex Smith era o retrato da bipolaridade do Kansas City Chiefs. Ao mesmo tempo em que fazia jogos bons (alguns muito bons) na temporada regular, que inclusive o colocaram na disputa pelo prêmio de MVP em 2017, decepcionava na pós-temporada. Os números em seus cinco jogos de playoffs pelo Chiefs, com exceção dos quatro TDs no jogo contra o Colts, são bastante medíocres. É claro que a culpa não é apenas dele, mas, assim como o resto do time, parecia que faltava algo.

LEIA TAMBÉM: Alex Smith como você nunca viu

Com o QB Patrick Mahomes, primeira escolha da equipe em 2017, sentado no banco havia uma decisão a tomar: manter a segurança do experiente veterano, que parecia já ter mostrado tudo que podia dar, ou acreditar no potencial do talentoso sophomore, no qual investiu alto.

A idade e o alto salário de Alex Smith, porém, parecem ter facilitado uma decisão que já não parecia difícil, especialmente quando o Washington Redskins ofereceu uma escolha de terceiro round do draft de 2018 e o CB Kendall Fuller em troca do QB. O Kansas City Chiefs de 2018 se tornava, oficialmente, o time de Patrick Mahomes.

Não é exagero dizer que Mahomes é a antítese de Smith. O QB veterano, com seus passes curtos e sua hesitação em explorar jogadas longas, talvez seja o que mais se aproxime da clássica definição de game manager. O Chiefs precisa e quer exatamente o oposto disso: um QB com o braço forte que não tenha medo de explorar as virtudes de seu ataque explosivo. Esse é Patrick Mahomes.

Em sua única partida como titular em 2017, contra o Denver Broncos na semana 17, Mahomes causou uma boa impressão e confirmou as expectativas quanto as suas habilidades. Apesar de não ter lançado nenhum TD e ter sido interceptado em um claro overthrow, o então rookie QB foi responsável por liderar o time reserva do Chiefs para a vitória com belos lançamentos.

Analisando uma das jogadas espetaculares de Mahomes no jogo, o analista Brian Baldinger disse que “há muitos QBs nessa liga que jogaram muito tempo que nunca lançaram um passe como esse em suas vidas”. Baldinger não hesitou em colocar Mahomes no mesmo patamar de talento que Carson Wentz, Jimmy Garopollo e DeShaun Watson.

Será, no mínimo, interessante ver o que um QB com a força de Mahomes fará por Tyreek Hill, um dos jogadores mais rápidos e versáteis da liga. Se Hill já causou estragos jogando com Alex Smith, é assustador o que pode acontecer quando são misturados o braço de Mahomes e a criatividade ofensiva de Andy Reid.

O grupo de WRs ainda foi reforçado com Sammy Watkins, que tinha o pedigree para ser um dos melhores recebedores da liga, mas nunca teve seu potencial totalmente atingido devido a seguidas contusões. Se conseguir permanecer saudável, Watkins ocupará a negligenciada posição de WR2 do time, que nos últimos anos não teve nenhum nome de importância.

A adição de Watkins tem o potencial de tornar o Chiefs um dos times com mais talento ofensivo na liga. Resta saber se ele finalmente conseguirá jogar o que sempre se esperou dele e nunca se concretizou. Pode ser sua última chance.

O RB Kareem Hunt poderia – e deveria – ter sido escolhido como o Offensive Rookie Of The Year em 2017. Hunt foi o RB com mais jardas terrestres na liga (1327) e apresentou um dinamismo e uma capacidade de participação também no jogo aéreo que o coloca automaticamente entre os melhores RBs da liga.  Não fosse o surgimento de Alvin Kamara no final do ano, Hunt certamente teria vencido o prêmio. Sua presença, além de exigir o respeito das defesas adversárias com o jogo corrido, representa um excelente porto seguro para Mahomes.

Com um jogo corrido a ser respeitado e recebedores como Hill e Watkins, que exigem que os safeties fiquem um passo atrás para evitar passes longos, é inimaginável o que Travis Kelce pode fazer nesse ataque se for bem aproveitado. Kelce é o melhor TE da liga entre os mortais (Gronk não é mortal) e ainda poderá ser beneficiado por um sistema ofensivo que não focará apenas nele.

VEJA TAMBÉM: Jimmy G., San Francisco e a busca pelo QB ideal

Em teoria, o ataque de Kansas City tem tudo para funcionar e ser um dos melhores da liga, mas não há como fugir do clichê “como será a transição de Patrick Mahomes para a NFL?”. Será que ele estará pronto para, além de aproveitar seus atributos físicos, conseguir fazer a leitura das defesas e limitar os turnovers? Será que ele teria a capacidade de liderança exigida de um franchise QB?

O primeiro entre os mortais.

Defesa

As questões sobre a capacidade de Patrick Mahomes liderar o ataque de Kansas City são legítimas, mas o verdadeiro ponto de interrogação do time em 2018 é a defesa, com uma menção especial à secundária.

Marcus Peters, o principal nome da defesa nas últimas três temporadas e um dos CBs mais talentosos da liga, foi trocado para o Los Angeles Rams por uma lata de cerveja e um pacote de bala de goma. A analogia parece exagerada, e talvez seja, já que o Chiefs recebeu uma escolha de segundo round do draft de 2018 e uma de quarto round em 2019. O problema é que Peters e seus 24 turnovers forçados em três temporadas valem mais do que isso. Questões sobre o temperamento forte do jogador parecem ter pesado para não dar um contrato de longo prazo para o jogador e aceitasse perder seu principal defensor.

Além de Peters, o Chiefs perdeu os CBs Phillip Gaines e Terrence Mitchell, que se tornaram unrestricted free agents, e o S Ron Parker, que foi dispensado. Os nomes não são exatamente de peso e foram responsáveis por uma performance bem medíocre em 2017, mas, contando com Peters, são quatro dos seis principais jogadores que formaram a secundária em 2017.

Para suprir as partidas, chegaram os CBs Kendall Fuller, via troca que mandou Alex Smith para Washington, e David Amerson, que perdeu mais da metade da temporada passada machucado. Fuller teve uma boa temporada em 2017 e é um dos melhores cornerbacks defendendo o slot – o Pro Football Focus o considerou o segundo melhor slot CB da liga na temporada passada.

O S Eric Berry, que retorna ao time após se recuperar de um rompimento do tendão de Aquiles que encerrou precocemente sua temporada de 2017, é um retorno considerável, mas não se sabe exatamente em que forma estará. É provável que o time tenha que depender do S Armani Watts, rookie selecionado no quarto round. É uma secundária mediana que, sem dúvidas, está longe de inspirar confiança, com potencial de apresentar resultados desastrosos.

O front seven também teve suas baixas. Os LBs titulares em 2017 Derrick Johnson e Ramik Wilson trocaram de time na free agency. A linha defensiva perdeu Bennie Logan e não conta mais com o veterano, e um dos símbolos do time, Tamba Hali.

Nenhuma dessas perdas é profundamente lamentada em Kansas City, talvez exceto pela liderança que jogadores como Johnson e Hali exerciam, mas o Chiefs dependerá novamente do ótimo pass rusher Justin Houston e do retorno de Dee Ford, que volta ao time após jogar apenas seis partidas em 2017 devido a uma contusão nas costas. Apesar de Houston ser muito bom, é preciso que jogadores secundários, como Ford, tenham sucesso nas investidas contra os QBs, evitando que marcações duplas das linhas ofensivas adversárias simplesmente anulem o All-Star DE.

Palpite

Em uma divisão razoavelmente acima da média e tendo que enfrentar todos os times da também forte NFC West, além de Pittsburgh Steelers, Jacksonville Jaguars e New England Patriots, é difícil imaginar um cenário em que o Kansas City Chiefs vença mais do que oito jogos. Se a previsão se concretizar, será apenas o segundo ano que o time não estará nos playoffs desde que Andy Reid assumiu o comando. Talvez não faça tanta diferença assim, pois se é difícil imaginar uma temporada regular com mais vitórias do que derrotas, é mais difícil ainda considerar realista uma aparição bem sucedida na pós-temporada.

Quem pode mudar esse cenário? Patrick Mahomes, que terá que justificar o investimento feito pelo time e mostrar que pode ser um franchise QB, carregando o time nas costas e sabendo aproveitar todo o potencial ofensivo que tem a sua disposição.

Em uma liga em que os ataques têm se sobressaído consideravelmente sobre as defesas (alguém assistiu o último Super Bowl?), não seria nenhuma surpresa se o ataque do Chiefs superasse as deficiências defensivas e surpreendesse com uma campanha muito melhor do que a esperada. Entretanto, é claro que ninguém vai colocar a mão no fogo por isso. Espere um 8-8, a certeza de que Patrick Mahomes é o QB do futuro e uma lista de compras para a defesa.

Refazendo o Draft 2017

Todos amamos o draft: mesmo sem assistir boa parte dos jogadores achamos que entendemos alguma coisa, afinal durante abril qualquer beco da internet tem seu próprio mock.

Mas a verdade é que nem aqueles que são pagos pra avaliar jogadores não têm a menor ideia do que estão fazendo: mesmo os melhores “talent evaluators” fazem algumas escolhas – e draft completos – extremamente questionáveis.

Só existe um exercício que permite acertar em cheio as escolhas: refazê-las. E é por isso que faremos esse divertido ensaio por aqui, porque estar certo só não é melhor que ver o New England Patriots perdendo.

Algumas regras simples: como o board está diferente, retiramos as trocas que foram feitas durante o evento. Não faria sentido para Chiefs e Texans trocar pra cima com uma oferta diferente do que aconteceu em 2017. Além disso, o cenário é basicamente aquele de maio/2017: as escolhas de Bengals e 49ers mostrarão isso.

1 – Cleveland Browns: Deshaun Watson (Texans) 

O mais curioso é que os Browns poderiam ter escolhido o melhor QB da classe na #14, porém… Browns. Os fãs de Sashi Brown não querem que você perceba isso, mas Watson vale mais do que a escolha #4 que o time conseguiu por ele.

Já ficava lindão de laranja.

2 – San Francisco 49ers: Marshon Lattimore (Saints) 

Richard Sherman só chegou um ano depois e nem solução sabemos se é. O 49ers pega o melhor CB da classe e que tem potencial pra ser All Pro. O time vai atrás de Kirk Cousins na janela do ano que vem, só não vê quem não quer.

3 – Chicago Bears: Patrick Mahomes (Chiefs)

Mitch Trubisky mostrou vários nada em 2017. O time ainda tem fé nele, mas tudo indica que Patrick Mahomes será um QB melhor.

4 – Jacksonville Jaguars: Kareem Hunt (Chiefs) 

Leonard Fournette foi bem, mas Kareem Hunt foi melhor. Um time que tem Blake Bortles tem que tirar a bola das mãos dele mesmo.

5 – Tennessee Titans: Juju Smith-Schuster (Steelers)

Se é pra fazer um reach por um Wide Receiver, que pelo menos seja pelo melhor da classe, ao menos pelo que vimos em 2017.

6 – New York Jets: Jamal Adams (Jets) 

Nada como ter uma boa peça para começar a reconstruir a secundária, o que se mostrou claramente um dos planos da equipe nos últimos dois anos.

7 – Los Angeles Chargers: Pat Elflein (Vikings)

O time focou em reforçar o interior da linha em 2017, e escolher um dos melhores rookies do ano que pode jogar como Guard ou Center ajudaria a manter Phillip Rivers vivo pelos próximos anos.

8 – Carolina Panthers: Alvin Kamara (Saints)

Alvin Kamara foi o que se esperava de Christian McCaffrey. Não precisamos falar mais nada.

9 – Cincinnati Bengals: Cam Robinson (Jaguars) 

A linha ofensiva foi deprimente em 2017. Muito melhor escolher um LT que um WR que você está pensando em transformar em CB. 

10 – Buffalo Bills: Mitch Trubisky (Bears)

Esperando um ano atrás de Tyrod Taylor, Mitch dá aos Bills a oportunidade de não se desesperar por um QB de 2018 em diante.

11 – New Orleans Saints: Tre’Davious White (Bills)

Não tendo mais Marshon Lattimore, os Saints conseguem um CB de nível de Pro Bowl do mesmo jeito.

Não preciso nem pegar o avião pra se mudar.

12 – Cleveland Browns: Myles Garrett (Browns) 

O mundo dá voltas. Talvez se tivesse jogado todos jogos da temporada, Garrett estaria mais valorizado aqui.

13 – Arizona Cardinals: Evan Engram (Giants) 

Não dá pra lançar bolas só pra Larry Fitzgerald e querer ser feliz ao mesmo tempo.

14 – Philadelphia Eagles: Leonard Fournette (Jaguars)

O time, à essa altura, não tinha RB. E Fournette jogando nesse ataque ao lado de Carson Wentz seria divertido demais.

15 – Indianapolis Colts: TJ Watt (Steelers) 

O time tem uma quantidade enorme de buracos, e pass rusher é uma delas. Bem, não é como se o Colts fosse ser bom mesmo, então o ideal é ir adicionando talento.

16 – Baltimore Ravens: Corey Davis (Titans) 

O jogo contra os Patriots mostrou que Davis pode ser um bom jogador. Como é WR e foi para o Ravens nesse cenário, provavelmente não será.

17 – Washington Redskins: Jonathan Allen (Redskins) 

Allen foi bem até se machucar. Não tem porque o Redskins fazer diferente aqui.

18 – Tennessee Titans: Derek Barnett (Eagles)

Barnett fazia parte da rotação dos Eagles, e se fosse titular absoluto provavelmente teria um impacto ainda maior. Faz sentido para o Titans.

19 – Tampa Bay Buccaneers: Dalvin Cook (Vikings)

Os Bucs queriam Cook, e dessa vez não inventaram moda.

Dias de um futuro esquecido.

20 – Denver Broncos: Ryan Ramczyk (Saints)

Bolles não foi tão mal, mas Ramczyk foi um OT melhor.

21 – Detroit Lions: Adoree’ Jackson (Titans)

Nada como um CB para jogar oposto a Darius Slay. O torcedor dos Lions (o único que conheço) não gostava de Nevin Lawson.

22 – Miami Dolphins: Solomon Thomas (49ers)

Thomas não empolgou em 2017, mas ainda podemos esperar algo dele daqui pra frente. De qualquer forma, Charles Harris também não empolgou mesmo.

23 – New York Giants: Garett Bolles (Broncos)

Porque Eli Manning precisa de mais de um segundo para lançar a bola.

24 – Oakland Raiders: Marcus Williams (Saints) 

Alguém precisa interceptar bolas nessa defesa, e Marcus Williams é esse cara. Não deixe a jogada que marcou sua carreira até aqui te enganar: Williams é um baita jogador.

25 – Houston Texans: Christian McCaffrey (Panthers)

Se o time ainda não tem um QB, que pelo menos consiga um jogador versátil pra tirar a bola das mãos de seja lá quem estiver lançando a bola.

26 – Seattle Seahawks: Dion Dawkins (Bills)

A linha ofensiva é medonha. Dion Dawkins deixou o Bills confortável para trocar Cordy Glenn e com certeza é melhor que seja lá quem o Seahawks escala na ponta da OL.

27 – Kansas City Chiefs: DeShone Kizer (Browns)

Kizer foi colocado numa situação impraticável em Cleveland. Em Kansas City ele teria a oportunidade de não ser fritado. Andy Reid confia no próprio taco a ponto de fazer essa escolha.

28 – Dallas Cowboys: David Njoku (Browns) 

Jason Witten é imortal, mas nem tanto.

29 – Green Bay Packers: Carl Lawson (Bengals) 

Clay Matthews não é confiante como pass rusher há muito tempo. E Carl Lawson jogou mais que muito jogador escolhido na primeira rodada.

30 – Pittsburgh Steelers: John Johnson III (Rams)

Porque o time precisa de ajuda na posição de Safety. Alguém precisa derrubar Chris Hogan correndo livre por aquela secundária.

31 – Atlanta Falcons: OJ Howard (Buccaneers) 

OJ não correspondeu as expectativas em 2017, mas não é todo TE que joga bem como calouro.

32 – New England Patriots: Takkarist McKinley (Falcons)

Porque esse time não tinha pass rusher nem quando terminaria a temporada invicto.

A alegria de vazar da NFC.

É mais difícil do que parece, amigos.

Entre o presente e o futuro

Ao contrário da visão que muitos veículos da mídia especializada brasileira passam, o Kansas City Chiefs é muito mais que apenas o seu kicker tupiniquim Cairo Santos. Claro, Cairo tem um importante papel como embaixador do esporte no país e é uma atração à parte para nós brasileiros. Mas os Chiefs não são só Santos, muito pelo contrário: o time tem sido um dos mais interessantes de se assistir na NFL – ao menos durante a temporada regular. E a própria NFL concorda: KC jogará seis jogos de horário nobre em 2017 – mais que qualquer outro time da liga.

O hype em torno dos Chiefs pode ser atribuído ao desempenho nas últimas duas temporadas: em 2015 a equipe emplacou uma sequência de 10 vitórias consecutivas nos últimos 10 jogos, saindo de uma campanha 1-5 para 11-5 e chegando até o Divisional Round dos playoffs, onde foi derrotada pelo New England Patriots. Já em 2016, a segunda posição na classificação da AFC garantiu acesso direto à mesma rodada do Divisional, dessa vez em casa. A vantagem de jogar diante da torcida mais barulhenta do mundo não se fez valer, e os Chiefs acabaram apanhando do Pittsburgh Steelers, em derrota muito doída pela torcida.

Confie seu futuro nas mãos deste ser.

Recomeço

E é dessa derrota que partimos para explicar o ano de 2017 em Kansas City. Após mais uma eliminação nos playoffs, a percepção ao redor da liga – e dentro da franquia – era de que o time comandado por Alex Smith dava conta da temporada regular, mas não tinha forças para vencer em janeiro. Pensando nisso, os Chiefs subiram no último Draft para escolher o QB Patrick Mahomes.

Mahomes é um prospecto notadamente cru, que ainda não tem todos os conhecimentos para jogar na NFL devido ao sistema de jogo em que estava inserido na faculdade. Porém, o talento, o braço e a promessa estão lá, e acredita-se que em pelo menos um ano ele estará pronto para ser titular; de qualquer forma Alex Smith ainda está lá para segurar a posição enquanto Patrick não está pronto.

No papel, a ideia é excelente – concordamos que Alex Smith não vai te levar muito longe nem que ele compre uma companhia aérea chinesa -, mas talvez o elenco dos Chiefs não consiga esperar o desenvolvimento de Mahomes para atuar com ele. Especialmente na defesa, alguns veteranos (óbvio) estão cada vez mais velhos, e não podemos cravar que manterão o desempenho de outros tempos.

O lado bom

Derrick Johnson e Tamba Hali já estão organizando os papéis da aposentadoria; e Justin Houston, que após anos estelares, não foi o mesmo depois da lesão que sofreu em 2015. Recuperado, Houston talvez retome o auge da sua forma, mas não seria surpresa se, após mais uma temporada decepcionante, ele sequer esteja no roster em 2018. A ascensão de Dee Ford pode ajudar nessas posições, mas, se você fez a matemática, ela não bate: são três jogadores em baixa contra um em alta.

Além disso, Dontari Poe, que era uma força no meio da linha defensiva, já não está mais na cidade. Para o seu lugar chega Bennie Logan, e podemos acreditar que não haverá uma perda de qualidade, pois Chris Jones, que se destacou como calouro, está mais experiente em seu segundo ano na liga. E, para piorar, caso o front 7 mostre uma notável regressão, é importante lembrar que KC não tem a escolha de primeira rodada do ano que vem, visto que ela foi utilizada em troca para selecionar Patrick Mahomes.

A secundária, por sua vez, será o ponto forte do grupo: Eric Berry é capaz de ganhar jogos que já estejam perdidos, e Marcus Peters já se consolidou como um dos principais Cornerbacks da NFL. Fecham o grupo o Safety Ron Parker e o CB Steven Nelson.

A verdadeira esperança.

Um grande tristeza

No ataque, pouca coisa muda. O esquema do bom técnico Andy Reid será mantido, assim como o péssimo trabalho controlando o relógio ao final das partidas. Já Alex Smith será aquele QB que não estraga tudo, mas é incapaz de lançar a bola por mais de 15 jardas – mesmo que ele tenha um recebedor livre na 3rd and 17.

A linha ofensiva, que em 2016 não comprometeu, mas também não encheu os olhos, será a mesma (lesões à parte, como sempre): os Chiefs não perderão nenhum jogo porque a OL não conseguiu jogar, e isso já pode ser considerada um vitória em uma liga onde jogam Indianapolis Colts, Minnesota Vikings e Seattle Seahawks.

Já na posição de RB, Jamaal Charles deixa o departamento médico da equipe, mas Charcandrick West e Spencer Ware, que já se mostraram confiáveis, seguem no elenco. Além deles, Kareem Hunt, que chegou no draft com expectativas em torno de seu nome, e CJ Spiller, completam o versátil grupo, que ainda deve contar com algumas jogadas de Tyreek Hill.

Hill, por sua vez, adquire a posição de WR1, que ficou vaga após a saída de Jeremy Maclin pela porta dos fundos. Os outros WRs dos Chiefs são desconhecidos pelo fã-médio do esporte, então não vale nem a pena citá-los. Travis Kelce, por outro lado, é bastante conhecido e, quando Rob Gronkowski não está em campo (aproximadamente 63% do tempo, de acordo com estatísticas oficiais), é considerado por muitos o melhor TE da NFL.

Normalmente não apontamos para os Special Teams das equipes ao fazer nossas previsões, mas em Kansas City a história é um pouco diferente. Tyreek Hill anotou dois TDs em retorno de Punts e um retornando Kickoffs. Cairo Santos, com exceção de um início de carreira errante, não decepciona quando é chamado. Logo, os ST dão aos Chiefs uma dimensão que muitas equipes da liga não sonham.

Palpite: Podemos ir junto com a corrente e falar que os Chiefs terão mais um bom ano, mas a verdade é que o cenário está desenhado para uma catástrofe. A torcida já não aguenta mais Alex Smith e, após uma atuação questionável em uma derrota no Primetime, sua cabeça estará em jogo. Ele sucumbirá a pressão e, eventualmente, perderá a posição para um Patrick Mahomes despreparado. Jogando em uma divisão complicada como a AFC West, o time ficará de fora dos playoffs e Alex Smith irá levar sua mediocridade para outra franquia em 2018. Vocês viram aqui primeiro.