Posts com a Tag : Nick Foles

Podcast #9 – Uma coleção de asneiras IX

Estamos de volta!

Repercutimos, claro, o Super Bowl: como foi a vitória dos Eagles, os personagens envolvidos e mais algumas bobagens.

Discutimos os assuntos do momento, como a renovação de Jimmy Garoppolo e o pé na bunda que Josh McDaniels deu nos Colts.

Por fim, falamos da offseason e o que podemos esperar desse período maravilhoso.

Participação especial: João Paulo, do @EaglesBR.


Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos eternos amadores em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor (dessa vez acreditamos que foi bom, é um milagre).

  • Como baixar o arquivo MP3? Tem um botão no player acima!
  • Como ouvir no meu player de Podcasts? Use nosso feed de RSS para assinar.
  • Já tem no iTunes? SIM! E só procurar por ‘Pick Six’ ou clicar no link! Não se esqueça de nos dar 5 estrelas (sabemos que você gosta), e se inscrever. Nos ajuda bastante!

Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Análise Tática #25 – Parte 2: o ataque dos Eagles

A temporada de 2017 foi o ponto de virada do ataque do Philadelphia Eagles. Após o ano de calouro de Carson Wentz, em que houve uma clara regressão na metade final da temporada, os Eagles se tornaram o time mais quente da liga. O balanço com a defesa permitiu com que por semanas o mesmo fosse o melhor time da liga.

Semana 14 da temporada regular, lesão de Carson Wentz e todo o desdobramento que você já leu aqui, então vamos pular essa parte da história. Mas além de contar com o ótimo desempenho de um quarterback reserva, o trabalho de Doug Pederson (HC), Frank Reich (OC) e John DeFilippo (QB coach) foi de extrema importância para atenuar a queda de nível do ataque com Nick Foles.

A Run/Pass Option

Mas como esses três homens encontraram a solução mágica? Bem, imagino que o leitor tenha ouvido repetidamente na temporada regular o chamado termo RPO martelado a exaustão pelos comentaristas da televisão ou no twitter. A Run/Pass Option (ou Ridiculous Protection Offense) é uma forma de simplificar a leitura do quarterback.

Esse sistema foi uma alternativa que os treinadores, principalmente no High School ou no futebol americano universitário encontraram para produzir maiores ganhos de jarda por jogada e não massacrar jogadores novatos com leituras complexas de campo inteiro ou progressões. Os técnicos de NFL adotaram esses esquemas modernos com o mesmo objetivo, encontrar novas formas de vencer.

Na temporada de 2012, vimos a utilização da zone read option a partir de formações pistol, em que o QB lia o comportamento de um defensor específico (geralmente um edge rusher) e optava pelo handoff ao running-back ou corria ele mesmo.

Programas universitários como Army, Navy e Georgia Tech utilizam a triple-option flexbone offense, outro derivado desse conceito, baseado quase que exclusivamente em conceitos de jogo terrestre. A maioria da NCAA costuma adotar a RPO dentro de sistemas de spread offense

O processo da RPO consiste em fazer uma leitura pré-snap ou pós-snap e decidir pelo passe ou pela corrida. Uma jogada é construída adotando um sistema de bloqueios para corrida como base e um conceito de passe com recebedores espalhados pelo campo. A linha bloqueará como se fosse uma corrida e o quarterback observará a reação de um jogador específico que terá tarefa dupla na jogada. Tal atleta é chamado de conflict defender.

As leituras pré-snap em RPO

Um quarterback realiza duas leituras básicas quando trabalha em RPO: contar a relação de jogadores no box (box count read) e quantos defensores cercam a área onde estará seu recebedor primário (ratio read). Se há pelo menos um bloqueador para cada atleta no box, a situação está favorável para a corrida, portanto o QB realizará o hand off.

Caso contrário, deverá olhar para a região do campo designada e realizar contagem semelhante. Aqui, o trabalho do coordenador ofensivo na preparação pré-jogo é essencial, pois se identifica a região do passe e marca-se a hard deck line como limite, geralmente localizada a 7 jardas da linha de scrimmage. Jogadores de defesa além dessa linha não serão considerados, pois estão muito distantes para reagir a tempo e atacar a bola. Esse tipo de procedimento funciona muito bem quando a RPO é construída com conceitos de passe em screen.

As leituras pós-snap em RPO

Em jogadas de passe mais profundo, geralmente o quarterback precisará adotar uma leitura pós-snap. Nesse caso, ele deverá identificar o defensor que terá tarefas de passe e corrida na mesma jogada, outro ponto em que o coordenador ofensivo deverá ser importante.

Esse jogador em conflito tomará um movimento e com base nisso o quarterback tomará sua decisão. Se tal jogador for um linebacker ou um edge rusher, a linha ofensiva sequer precisará bloqueá-lo, tendo em vista que a dúvida sobre o que virá na jogada será o suficiente para tirá-lo de ação.

A Run/Pass Option aplicada pelos Eagles

O Eagles aproveitou a primeira jogada da partida contra os Vikings para testar a Run/Pass Option. Primeira jogada do primeiro drive e evidentemente, a defesa de Minnesota quer conter a ameaça de Jay Ajayi (DjeiAdjai) no jogo terrestre.

Essa condição é propícia para vender a ameaça da RPO, dando à defesa mais uma dimensão a se preocupar, e aumentar a complexidade dos ajustes que deverão ser feitos. Além de passe e corrida, a defesa tem a ameaça intermediária a se preocupar.

Observando a disposição dos atletas em campo, observamos Philadelphia alinhada em 11 personnel, partindo do shotgun e com um set de recebedores em 2×1. O Tight End está do lado direito e terá funções de bloqueio. Jay Ajayi está no strongside (mesmo lado que o TE) e executará uma inside zone junto com a linha.

Nick Foles fará as leituras tradicionais: observar a quantidade de safeties em campo, o posicionamento dos demais defensive backs. Dentro da Run/Pass Option, Foles realiza a box count e percebe que há mais defensores no box que bloqueadores, e a ratio read indica a situação favorável para o passe.

Antes do snap, ele precisa identificar o defensor em conflito, e aqui estamos facilitando e marcamos o mesmo com o quadrado azul. O traço laranja indica a direção que o mesmo tomará quando snap acontecer, em direção a corrida.

O snap ocorre, o defensor em conflito toma o passo em falso e Foles sabe que precisa executar o roll-out para a direita, permitindo que Nelson Agholor executa a rota shallow-cross marcada em laranja, cruzar o campo até o lado direito, em que haverá a vantagem numérica.

Terrance Newman não consegue antecipar a rota (observe os passinhos para trás) e Agholor terá a vantagem física na recepção. First down.

O contraponto: leitura tradicional

Para mostrar a diferença de análise durante uma jogada entre a Run/Pass Option e o Pro-Style, vamos observar uma jogada “normal”, em que Nick Foles executou os procedimentos que todo pocket passer deve fazer na NFL.

Observemos a disposição em campo dos atletas no touchdown longo de Philadelphia logo antes do intervalo. Os Eagles armaram um set de 3×1 recebedores partindo de um 11 personnel no shotgun. O TE Zach Ertz está alinhado em spread, como se fosse um wide receiver, ainda que no slot. Isso indica para a defesa que o mesmo provavelmente correrá uma rota.

Nesse screenshot logo antes do snap, podemos identificar os safeties em campo. Um mais próximo ao box e outro mais distante. Pela situação de relógio e descida-distância, podemos determinar mesmo sem ver as rotas desenhadas, que a jogada será um passe. Outro ponto que ajuda a confirmar isso, basta observar o posicionamento dos jogadores de linha ofensiva, em dois apoios, postura adotada geralmente para recuar e proteger o quarterback.

Quando a jogada se desenvolve, observamos que as rotas dos três recebedores alinhados na parte superior têm o objetivo de inundar o lado esquerdo do campo, atraindo a defesa para lá (conceito flood). Duas rotas out que se quebram em profundidades diferentes e uma rota go.

Do lado direito, vemos Alshon Jeffery vendendo ao seu marcador uma rota post que termina na linha de 35 do campo de ataque. Como o defensor reagiu a esse hook up, Jeffery aproveita-se para criar a separação em direção ao fundo do campo.

Agora concentremos as nossas atenções em como Nick Foles observa o front dos Vikings. É essencial ao trabalho de todo quarterback identificar as techniques dos jogadores de linha defensiva, o que o ajudará a determinar de onde virá a pressão.

Antes do snap, Foles ajusta a pressão, indicando ao left tackle para atentar-se ao speed rush de Everson Griffen. Minnesota tem dois rushers alinhados abertos, formando a wide-9 tech, estância típica de quando o front tem certeza de que vai defender o passe. Danielle Hunter ainda se desloca em stunt para o A-gap, buscando confundir os bloqueios, mas é contido pelo center Jason Kelce, que estava flutuando entre os assignments.

No pass-block tradicional, geralmente os jogadores de linha ofensiva bloqueiam regiões que formam um semicírculo em volta do quarterback. Se algum jogador de defesa estiver pressionando o QB dentro desse determinado ângulo, o jogador de OL responsável pelo tal deverá efetuar o bloqueio. Os stunts são exatamente criados para confundir os bloqueadores quanto a suas tarefas, mas aqui não foi o caso, pela excelente linha ofensiva dos Eagles, mesmo com o desfalque do LT titular Jason Peters.

Voltando ao comportamento de Nick Foles na jogada, observe como ele mantém a cabeça virada para sua esquerda enquanto navega pelo pocket. Enfrentando uma cover 3, ele tenta atrair o safety do meio àquela direção. Foles quase sofre o sack por Griffen, mas ele consegue escalar o pocket até o ponto amarelo e se livrar dos rushers. Nesse momento, ele vira o rosto para a direita e conecta a big play com Alshon Jeffery.

Observando o desenvolvimento da jogada em campo aberto, conseguimos compreender que é nesse momento em que Jeffery consegue a separação em direção à endzone. TD e os Eagles viravam a partida antes do intervalo.

Run/Pass Option versus Pro-Style

Apesar de RPO ser o termo da moda e diferentes técnicos na liga estarem utilizando conceitos em seus playbooks, a leitura em estilo profissional ainda será por muito tempo a mais adequada a se vencer na liga. Dificilmente, veremos um time executar as jogadas de opção como base de seus ataques, mas é claro que essa nova dimensão dada ao jogo merece ser explorada, criando novas formas de vencer os oponentes.

Contra os Patriots, será essencial que o ataque comandado por Doug Pederson saiba executar bem as jogadas de opção e dosá-las na quantidade correta quanto aos conceitos profissionais. A defesa de Bill Belichick é a que melhor se prepara contra o adversário na liga, ainda mais quando o técnico tem duas semanas para explorar jogos anteriores e detectar tendências.

Nenhum time é capaz de vencer os Patriots jogando bem apenas de um lado da bola. A relação de interdependência entre ataque e defesa dos Eagles será importantíssima para que o time consiga manter Brady fora de campo e construir vantagem no placar. Para isso, o time precisará executar suas jogadas, no sistema que for, em um nível próximo a perfeição.

De favorito a underdog: a história do Philadelphia Eagles

O Philadelphia Eagles de 2017 é o time dos extremos: depois de conquistar a primeira posição na NFC durante a temporada regular e ser um dos favoritos a chegar ao Super Bowl, o time passou a ser um verdadeiro azarão. A contusão de Carson Wentz, que vinha sendo o melhor QB da liga e principal candidato ao prêmio de MVP, teve um impacto muito grande para o Eagles, e não apenas dentro de campo.

O melhor time da Conferência, pelo menos na tabela de classificação, chegou ao Divisional Round dos playoffs como posição número um mais menosprezada dos últimos tempos. Foi a primeira vez na história em que as casas de apostas americanas consideraram que o time com a sexta melhor campanha, o Atlanta Falcons, jogando fora de casa, era o favorito no confronto contra a seed #1 e mandante da partida.

Apesar do descrédito, o primeiro round foi bem sucedido. A vitória contra o Falcons não foi bonita, é claro. O placar de 15×10 não acaba com as dúvidas dos que não acreditam no Eagles sem Carson Wentz. Em um jogo apertado, de pouca inspiração ofensiva, o time mais eficiente venceu, mas não empolgou. Se Atlanta tivesse tido um pouco mais de inspiração nas chamadas ofensivas em seus últimos quatro downs (isso é sim um ataque direto a Steve Sarkisian), quando esteve a duas jardas de vencer o jogo, esse texto não estaria nem sendo escrito.

Saudades Carsinho.

Mas o Eagles contrariou os prognósticos desfavoráveis e venceu, provando que o título de underdog era um pouco exagerado. Agora, na final da Conferência, o adversário é o forte Minnesota Vikings, que vem carregado de energias positivas após uma das jogadas mais épicas de todos os tempos. Assim como no jogo contra o Falcons, o Eagles é novamente considerado zebra: Las Vegas considera que o Vikings tem vantagem de 3,5 pontos no confronto.

O menosprezo externo parece não afetar o time, que usa a narrativa de ser um underdog como motivação. “Prefiro que as pessoas duvidem de nós, ao invés de nos dar tapinhas nas costas”, disse o Right Tackle Lane Johnson, que após o jogo contra o Falcons não hesitou em colocar uma máscara de cachorro e esfregar a vitória na cara dos que consideravam o Eagles como “dogs”.

Apesar de novamente ser subestimado, o Eagles tem todas as condições de bater o Vikings e avançar ao Super Bowl pela primeira vez desde 2005, quando perdeu para o New England Patriots. Como isso acontecerá? As razões são várias.

Torcida e clima

A atmosfera na Philadelphia será extremamente favorável ao Eagles. Na arquibancada, serão 69 mil torcedores sedentos por um Super Bowl. Famosos pelo fanatismo e pelo descontrole (e pelas vaias), são capazes de ser presos por socar o cavalo da polícia, vaiar o Papai Noel e promover brigas épicas no metrô. São esses mesmos torcedores alucinados que tornarão a vida do Minnesota Vikings um inferno durante todo o jogo.

A vantagem de jogar em casa não pode ser menosprezada, especialmente no frio de Philly em Janeiro e contra um time que já se acostumou a jogar no calor de seu novo e confortável estádio coberto.

Essa turminha vai arrumar altas confusões em janeiro!

Eliminar erros

Em um jogo que promete ser disputado até o fim, como foi contra o Falcons, quem errar menos, obviamente, vence. Por isso, é fundamental eliminar alguns deslizes inaceitáveis como os que poderiam ter custado a vitória no Divisional Round. Turnovers, como o fumble de Jay  Ajayi logo no início da partida, e falhas em jogadas de special teams, como o ponto extra perdido por Jake Elliot e o muffed punt que deu a bola para o Falcons já na redzone, simplesmente não podem acontecer. O Minnesota Vikings é um time mais forte que o Atlanta Falcons e certamente conseguirá tirar mais proveito desse tipo de falha em um jogo cujo placar deve ser baixo.

Ter sucesso no jogo corrido

De acordo com o site Number Fire, desde que Jay Ajayi chegou a Philadelphia, na semana 9 da temporada regular, apenas Alvin Kamara tem média de jardas por tentativa superior a do RB do Eagles. Porém, a missão de Ajayi contra o Vikings não será nada fácil. Minnesota tem uma das melhores defesas da NFL contra o jogo terrestre. Além de uma linha defensiva dominante, os linebackers são muito rápidos e versáteis. Correr contra o Vikings é, sim, difícil. Mas mais difícil ainda é travar um duelo aéreo contra a secundária de Minnesota, especialmente quando Nick Foles é seu QB.

Claramente, o ponto forte do ataque do Eagles sem Carson Wentz é pelo chão. Para ter chances reais de vitória, é fundamental estabelecer o jogo terrestre desde o início do jogo, controlar o relógio e manter o placar sob controle.

Esconder Nick Foles

No duelo dos backup QBs, o time que conseguir mascarar as falhas do comandante do seu ataque terá mais chances de sucesso. Isso parece ser mais importante para o Philadelphia Eagles do que para o Minnesota Vikings, que tem Case Keenum jogando bem desde o início da temporada e sendo um QB claramente melhor que Nick Foles.

Contra uma defesa rápida e agressiva, o Eagles precisa tornar o trabalho de Foles o mais simples possível. Leituras rápidas, passes curtos, screens e run-pass options (o novo termo da moda pra quem quer fingir que entende de tática) são maneiras efetivas de minimizar os riscos de turnovers e ganhar jardas, mesmo que poucas, de forma contínua. A experiência que Foles teve no ataque de Chip Kelly, em 2013, quando lançou 27 TDs e apenas 2 INTs, mesmo tendo sido um desvio de percurso, pode e deve ser aproveitada nessa situação.

Pressionar Case Keenum

Brandon Graham, Fletcher Cox, Tim Jernigan e Vinny Curry formam uma das melhores linhas defensivas da NFL, tanto contra o jogo terrestre quanto contra o jogo aéreo. De acordo com o site Pro Football Focus, o Eagles conseguiu pressionar o QB adversário em 41,5% dos dropbacks, enquanto a média da liga é 34,7%. O que mais impressiona é que a linha defensiva consegue colocar pressão no QB em 38,3% dos snaps em que manda apenas quatro pass rushers. Ou seja, em grande parte dos snaps, o Eagles consegue chegar ao cenário ideal para uma defesa: conseguir chegar ao QB sem mandar Blitzes.

Ao mesmo tempo em que a defesa tem um pass rush eficiente, Case Keenum é um dos QBs mais pressionados da NFL: 39,3% das jogadas, de acordo com o PFF. Naturalmente, como a maioria dos QBs, Keenum tem percentual de passes completos e rating consideravelmente inferiores quando está sob pressão. Contra o Saints, ele completou apenas 3 de 11 passes quando estava sob pressão e, inclusive, lançou uma interceptação de sangrar os olhos. A matemática, nesse caso, está ao lado de Philly e pode ser decisiva, afinal títulos já foram decididos por defesas com pass rush eficiente (alô, Denver Broncos!).

Spoiler.

Acreditar no destino

Por último, é preciso acreditar que, mesmo sem seu melhor e mais importante jogador, o Eagles não chegou até a final de Conferência por acaso. Com uma pequena força dos deuses do football, que têm vontades bastante peculiares, o time pode emular um New York Giants de 2007 ou um Baltimore Ravens de 2012, chegar ao Super Bowl e, inclusive, vencê-lo. Basta uma ajudinha do destino, por que não?

O sacrifício de Carson Wentz em nome do terceiro homem de Fisher

De atuações no mínimo duvidosas em 2016 (inclusive acumulando mais turnovers, 21, que touchdowns, 18), para principal candidato a MVP em 2017 – dependendo apenas de duas derrotas de Nick Foles nas próximas semanas para demonstrar sua vital importância -, Carson Wentz derrubou haters a cada semana. Jogos como os contra San Francisco e Kansas City, à la Kaepernick com menos de 60% de passes completos, deixavam os críticos preparados, apenas para acabarem respondidos por atuações como a contra Denver, com 4 TDs dominando a defesa dos Broncos mesmo sem Jason Peters protegendo seu lado cego.

O jogador favorito de LeBron James, teoricamente daqueles torcedores duplos, de Cowboys e Browns, virou muitas cabeças em 2017. Melhor de tudo, frio como os invernos em Fargo, Wentz não está nem aí para tanto hype.

Origens

Carson Wentz nasceu na Carolina do Norte, mas se mudou cedo para Bismarck; é a carinha do midwest rural e sempre lhe veremos como um menino da Dakota do Norte que está se aventurando muito longe – mesmo que na pré-temporada ele chame seus colegas para treinar em Fargo, onde, como definiu Jordan Matthews, “não tem nem uma estação de rádio que toque hip-hop”.

Fargo é onde está a sede de North Dakota State, a universidade onde vimos Carson surgir (por puro esquecimento das grandes universidades dessa parte do país). Esta, inclusive, uma universidade dominante da FCS, ou como preferimos chamar, a segunda divisão do futebol americano universitário (como prova o Fargodome comporta apenas 19 mil espectadores). Ele inclusive demorou para ter sua oportunidade como titular, já que o time era campeão todo ano e Brock Jensen, o então QB titular, era razoável – como definiu Tim Polasek: “estava claro quão talentoso Wentz era, mas estávamos de mãos amarradas. Estávamos satisfeitos com Brock, ele tinha o time nas mãos e o liderava.”

Com a saída de Brock Jensen e dois anos de experiência acumulados (e, não surpreendentemente, mais dois títulos somados), Wentz entrou para o draft. Somente Steve McNair (que teve uma boa carreira nos Titans, saído de Alcorn State) e Joe Flacco (que passou por Pittsburgh, da NCAA, antes de ir para Delaware) foram draftados diretamente da FCS no primeiro round – e Carson entrou bem contato para ser o terceiro da lista.

Esquecido anteriormente, foi colocado lado a lado com Jared Goff no draft de 2016 – enquanto Goff tinha mais pedigree, saído de uma universidade da Pac-12, Wentz tinha mais tempo de campo (com boas atuações, mas contra competição duvidosa) e todos os atributos físicos. Em uma decisão que hoje soa incompreensível, mas na época a maioria de nós aplaudimos, os temidos Browns trocaram a oportunidade de escolhê-lo pelos apaixonados Eagles de Doug Pederson – que já tinham Sam Bradford recém-renovado e Chase Daniel recém-contratado brigando pela titularidade na época.

Com a troca de Sam, Carson imediatamente assumiu as rédeas da equipe. Como já dito, a primeira temporada foi cheia de altos e baixos, além das dores típicas de crescimento de um novato: a inconstância no acerto de passes ou de medir a força deles, que animavam os críticos que afirmavam que ele só parecia jogar bem porque enfrentava jogadores fracos na universidade. Os últimos quatro jogos com a temporada dos Eagles já acabada, entretanto, pareciam uma forte indicação de que a NFL estava ficando mais lenta para Carson.

A temporada atual

Previmos na intertemporada que os Eagles estavam caminhando na direção correta, buscando a evolução de Wentz e Pederson, adicionando peças interessantes de apoio para quem sabe conseguir sonhar com uma pós-temporada agarrada pelos cabelos – doce ilusão. Depois de um início parecido com a temporada de 2016, os Eagles pegaram fogo e emendaram nove vitórias seguidas entre outubro e novembro.

Como nos sentimos obrigados a adicionar asteriscos (que, como veremos no próximo ponto, é o que poderá trazer esperança para Philadelphia), é importante relembrar que a defesa dos Eagles é uma das mais dominantes da liga atualmente, especialmente contra o jogo corrido.

Além disso, Wentz tem sido mais clutch que dominante all-around, conseguindo vitórias como o 37-9 contra Dallas ou 51-23 contra Denver com apenas 168 e 199 jardas, respectivamente, além de contar com mais de 100 jardas de seus running backs em quase todos (menos dois) jogos na temporada.

De qualquer forma, um QB ideal é aquele que aproveita as oportunidades que a vida (defesa adversária) oferece (vide Brady, Tom). Não importa como, 33 touchdowns (inclusive superando o recorde de Donovan McNabb com 3,5 jogos a menos) são o tipo de coisa que um jogador mais valioso do time conquista – garantindo o melhor aproveitamento na redzone da liga e o segundo melhor em conversão de terceiras descidas. Se ajudar a equipe a fabricar vitórias é em que Carson é bom, aposto que ninguém na Wentzylvania vai reclamar.

Vai ficar tudo bem.

Lesão

2017, porém, não pode deixar ninguém em paz. Em uma jogada corajosa, Wentz mergulhou para a endzone (o que seria seu primeiro TD corrido da temporada), sendo esmagado por dois defensores: um batendo na sua cintura, outro na sua canela. É assustador, já que suas pernas parecem moles, não de ossos; naturalmente, o seu joelho não aguentou o impacto, rompendo o ligamento anterior e, notícias mais recentes indicam, mais algum ligamento que pode prejudicar a sua volta. Para adicionar o “toque 2017” ao lance, o TD marcado pelo menino Carson Wentz não foi válido, já que foi marcado holding de Lane Johnson.

Nick Foles e o que janeiro traz

Se algo de bom podemos tirar, é o retorno do lendário Nick Foles, que produziu em sua segunda temporada (tal qual a atual de Wentz) um ratio de 27 TDs para apenas quatro turnovers (duas interceptações), e só não recebeu consideração real para um título de MVP naquele ano de 2013 porque Peyton Manning bateu o recorde de touchdowns lançados em uma só temporada. E porque, bem, era Nick Foles.

Obviamente, pouco tempo depois ele acabou voltando ao esperado, com duas temporadas medíocres na Philadelphia e posteriormente em St Louis, ao ser trocado por Sam Bradford em 2015. Acabou em Kansas City em 2016 antes de voltar para onde tudo começou.

Desde sua grande temporada, as oportunidades foram bem menores devido a lesões e, também, a pura mediocridade, não podemos negar. Ainda assim, substituindo Alex Smith em dois jogos ano passado, Foles lançou 35 passes, com três TDs e nenhum turnover. Contra os Giants no domingo, lançou quatro TDs novamente (sem turnovers) e sem muita ajuda da defesa ou do jogo corrido, em uma apresentação em que só faltou dar o golpe final para não passar tanto aperto.

Seja o que Deus quiser.

Talvez Nick não seja exatamente o homem dos sonhos para o Super Bowl, mas na NFL atual não se pode escolher muito – e dentre os backups possíveis, ele vem mostrando estar entre os melhores (já que profundidade é crucial para um time que está na sua “quarta lesão pesada”, depois de Darren Sproles, Jordan Hicks e Jason Peters).

Considerando que Foles entra na lista de “ex-reféns de Jeff Fisher”, como Keenum e Goff, o ano parece propício para que Nick tenha suas chances. Inclusive, talvez os homens realmente ideais para Seahawks e Chargers chegarem à pós-temporada sejam os também lendários Austin Davis e Kellen Clemens. Você ouviu primeiro aqui.

Jared Goff não pode ser pior do que Case Keenum, certo?

Em meio ao crescimento de Dak Prescott, as oscilações normais para um novato que Carson Wentz vem sofrendo até aqui, ao menos um dos QBs selecionados no último draft tem tido uma temporada tranquila: Jared Goff.

E enquanto o Rams caminha para sua já tradicional campanha 8-8, Goff não cometeu os mesmos erros tão comuns a rookies que Prescott cometeu ou oscilou como Wentz oscilou após um início quase irretocável. O único “porém” para Jared é que, até a semana 10, ele não participou de um mísero snap: o Los Angeles Rams trocou duas escolhas de primeira rodada, outras duas picks de segundo round e mais duas escolhas de terceira rodada para conseguir Goff e, por longas semanas, ele se restringiu a esquentar o banco.

Após Sam Bradford não ter se tornado o messias que salvaria a franquia e Nick Foles ter se revelado um presente de grego, Jared Goff deveria ser a solução dos problemas para o Rams.

Parecia que a franquia que não vai aos playoffs desde 2004 estava pronta para um recomeço, para apostar seu futuro em um jovem talentoso, certo? Parecia, mas na verdade ele permaneceu sentado enquanto Case Keenum levava a equipe às piores médias da NFL em todos os quesitos ofensivos.

Ninguém entendeu essa merd*.

Ninguém entendeu essa merd*.

E ressalte-se que nunca louvamos Jeff Fisher como um guru ofensivo, muito pelo contrário. Mas mesmo assim os números atuais soam ofensivos até para alguém com tamanha atração pela mediocridade como Fisher.

Na contramão da liga

Hoje o Dallas Cowboys é a melhor equipe da NFL com Dak Prescott comandando as ações. Carson Wentz tem momentos de instabilidade, mas em geral tem jogado razoavelmente bem e conseguido manter o Eagles na disputa por uma vaga na pós-temporada em umas das divisões mais disputadas da liga.

Se formos além, teremos ainda outros bons exemplos: Jacoby Brissett suportou a pressão e conseguiu levar o Patriots à vitória quando exigido e, se ampliarmos o leque até o pior time da NFL, veremos que tanto Cody Kessler como Kevin Hogan tiveram a mesma eficiência que Josh McCown teve com o Cleveland Browns (infelizmente isso quer dizer nenhuma).

Considerando todo este cenário podemos afirmar, sem medo, que todos os atletas acima citados são melhores que Case Keenum – enquanto, aparentemente, ao menos para o Rams, Jared Goff não era.

As razões para a ausência de Goff soam inexplicáveis. O Los Angeles Rams conta com um bom sistema defensivo e, em uma temporada marcada pela igualdade, jogando em uma divisão com um Seattle Seahawks claramente um passo a frente, um San Francisco 49ers que sofreria no primeiro quarto contra algumas equipes do college football e um Arizona Cardinals que pouco lembra a equipe dos últimos dois anos, com um ataque minimamente decente Los Angeles poderia brigar por uma vaga nos playoffs; mas com Keenum este ataque esteve longe, muito longe, de poder ser considerado minimamente decente: foram apenas 139 pontos em 10 semanas, pior marca da liga.

#exausta

#exausta

Talvez Fisher tenha pensado que manter Goff esperando era o melhor para seu desenvolvimento a longo prazo? É uma tese até certo ponto coerente, mas podemos discordar, apesar de muitos especialistas afirmarem que expor Goff nesta situação poderia ser extremamente prejudicial porque erros poderiam abalá-lo, além de, por estar em um sistema ofensivo caótico, seria necessário adquirir hábitos que posteriormente seriam difíceis de serem corrigidos.

Tudo isso, porém, cai por terra quando assumimos que evolução só é possível através da experiência. E se o Rams viu algum talento em Jared durante a faculdade, eles desperdiçaram algumas semanas em que ele poderia estar em campo descobrindo como adequá-lo, como aperfeiçoar suas virtudes e, sobretudo, quais características precisaria deixar para trás na NFL.

Por outro lado, se a preocupação era preservá-lo psicologicamente, tentemos olhar tudo a partir da perspectiva de Jared. O Rams poderia ter selecionado Carson Wentz. O Rams poderia ter mantido suas escolhas de primeira e segunda rodadas e selecionado Dak Prescott, ao que tudo indica o quarterback mais “pronto” desta classe, no terceiro ou quarto round. O Rams poderia ainda ter decido continuar com Keenum, assumindo mais um ano medíocre e preparando o terreno para o draft de 2017. Mas o Rams trocou meia dúzia de escolhas para selecionar Goff e, semana após semana, o preteriu em favor de Keenum.

Goff pode simplesmente ter passado dez semanas entendo aquilo como um simples “Case é melhor que Jared”. É um cenário aterrorizante: o que faz um quarterback ser pior do que Case Keenum? Ele saberia segurar uma bola? Ele poderia pisar em um estádio de football? (Considerando a ficha criminal de alguns jogadores, o que faria alguém ser proibido de entrar num estádio?)

"Sério mesmo que eu sou pior que esse cara?"

“Sério mesmo que eu sou pior que esse cara?”

Olhemos então um pouco mais para o passado: os últimos seis quarterbacks selecionados na primeira rodada que chegaram a novembro sem iniciar uma partida na NFL foram Johnny Manziel, Jake Locker, Tim Tebow, Josh Freeman, JaMarcus Russell e Brady Quinn. Tudo bem, não iremos supor que nenhum deles teve sucesso na NFL por não terem iniciado uma partida como profissional em seus primeiros meses na liga, sabemos que eles provavelmente estão desempregados hoje por simplesmente serem ruins.

Mas a verdade é que first picks normalmente são diretamente colocados na linha de fogo, prova disso são os cinco últimos QBs escolhidos na primeira posição do draft antes de Goff: Jameis Winston (bônus para Marcus Mariota, segundo selecionado no mesmo ano), Andrew Luck (também com o bônus de Robert Griffin III), Cam Newton, o já citado Sam Bradford e Matthew Stafford. Todos iniciaram como titulares logo no primeiro ano.

Mas agora isso pouco importa, já que com mais da metade da temporada perdida, enfim Jeff Fisher anunciou que Jared Goff será titular na semana #11. Se Fisher precisou de dez semanas para assumir que este ano não resultará em nada além da já habitual mediocridade, ao menos restam seis partidas para observar Goff em situações reais de jogo.

(Não) há luz no fim do túnel

Durante a derrota para o Panthers, há algumas semanas, os torcedores (?) do Rams perderam a paciência e gritaram “Queremos Goff” (e, dizem, “Queremos Tebow” também ecoou no estádio). Muitos, aliás, deixaram o Memorial Coliseum antes mesmo do final da partida.

Provavelmente a grande questão para eles é a mesma que persegue aqueles que acompanham a NFL: Jared Goff não pode ser pior do que Case Keenun, certo? A realidade, porém, é que Goff não impressionou na pré-temporada. Na verdade ele foi… horrível. Foram apenas 22 passes completos em 49 tentativas, para 232 jardas, dois touchdowns e duas interceptações.

Aliás, na última partida da pré-temporada, contra o Vikings, Jared protagonizou momentos constrangedores, completando apenas seis passes em 16 tentados para 67 jardas. Neste lance, em formação shotgun, ele dropa o snap e cai com a cara no chão tentando recuperar a bola que, claro, acabou com o Vikings. Pouco tempo depois, uma obra prima difícil de descrever.

Em linhas gerais, o saldo final da participação de Jared na pré-temporada foi um quarterback que parecia distante das condições físicas ideias (e não nos referimos a preparo) para suportar um jogo tão intenso como o football profissional e completamente inseguro de suas capacidades.

O fundo do poço

Agora tudo está jogando contra Jared Goff – assim como, no Rams, jogou contra Sam Bradford. O Los Angeles Rams é um time construído para ganhar com sua defesa, enquanto o quarterback coloca a bola nas mãos de Todd Gurley.

Até aqui, não saiu como o planejado e, claro, Case Keenum não é o único culpado: a linha ofensiva é digna de risos e não há nenhum WR confiável. E enquanto o Rams insiste em dar a bola para Gurley, basta a defesa adversária congestionar a linha de scrimmage e desafiar QB e WRs a jogarem. E aqui entra a parcela de culpa de Keenum: ele não é tão inocente quanto Fisher quer que você pense.

E além deste cenário caótico, Goff encontrará ainda um técnico que historicamente não soube trabalhar com quarterbacks novatos (McNair é a famosa exceção que confirma a regra) e lutando por sua reputação após quatro temporadas colecionando derrotas.

Jared Goff, claro, pode não estar pronto, mas ainda paira sobre ele o benefício da dúvida – algo que Case Keenum já perdeu. Ele pode não melhorar o Rams imediatamente, mas é inconcebível não imaginá-lo como QB da franquia nas duas próximas temporadas pelo menos. É preciso honrar a aposta, é necessário cobrir o alto valor pago para subir no draft e selecioná-lo.

Na última offseason, o Rams se apaixonou por Goff quando foi a Berkeley vê-lo treinar em sua universidade. Choveu muito e mesmo assim Los Angeles aguardou mais um dia, já que Goff queria jogar, queria mostrar seu valor. Naquela offseason, o mau tempo não os assustou. Agora, se os Rams possui alguma real pretensão de em breve deixar a mediocridade, ele também não pode assustá-los.