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JJ Watt e Houston: football é maior fora de campo

Houston vem passando por uma série de catástrofes naturais: as chuvas e os eventos decorrentes do furacão Harvey deixaram a cidade destruída e debaixo d’água. Para colocar em perspectiva, na última semana, as chuvas no local foram o equivalente aos últimos 13 meses de precipitação em Manhattan.

Como você pode imaginar, muitas pessoas perderam tudo que tinham e, alguns lugares – casas, inclusive -, acabaram destruídos. O Astrodome, um dos estádios da cidade, tem servido de abrigo para muitos desabrigados.

É uma situação tensa, que tampouco conseguimos mensurar em palavras – a maioria de nós tem a sorte de nunca perder nada em situações como estas, e não conseguimos imaginar o tamanho da dor e dificuldades que quem sofre as consequências está passando. Mas, em momentos como esse, vemos alguns motivos para, com o perdão do clichê, não perder a fé na humanidade.

Robert Kraft, dono dos Patriots; Amy Adams, dona dos Titans; Christopher Johnson, dono dos Jets e Bob McNair, dono dos Texans doaram, cada um, um milhão de dólares para ajudar na reconstrução de Houston e da vida de seus habitantes.  

Mas quem tem mesmo se destacado é JJ Watt. O DE do Texans começou uma campanha no Twitter para arrecadar 250 mil dólares em doações. A visibilidade de Watt permitiu que a meta fosse, cada vez mais, aumentando. 500 mil dólares foram arrecadados em um um dia. Ao tempo da publicação desse texto, o número já era de 6 milhões e a meta de 10 – esperamos que continue crescendo.

Jogadores como Ezekiel Elliott, Dez Bryant e Chris Paul, da NBA, ajudaram na campanha que começou com uma doação de 100 mil dólares do próprio JJ. O DE tem atualizado seu perfil no Twitter a medida que as metas são batidas, incentivando as pessoas a doar.

O exemplo que ele vem dando mostra a importância dos atletas profissionais para a sua comunidade. Além de proporcionar alegrias dentro de campo, muitos jogadores se comprometem a ajudar os habitantes de suas cidades de outras maneiras. O esporte é uma forma de escapar dos problemas e o impacto no cotidiano das pessoas é ainda maior que aquele causado por uma jogada importante.

Home Sweet Dome

Talvez a história que melhor exemplifica a importância do esporte para uma cidade seja o punt bloqueado pelos Saints contra os Falcons. Em decorrência do furacão Katrina, que devastou New Orleans, os Saints não jogaram sequer um jogo da temporada de 2005 em seu estádio, que serviu de abrigo para os moradores da cidade. Assim, a equipe mandou suas partidas em diferentes locais: no Giants Stadium (em um jogo contra os Giants, teoricamente em casa); no Alamodome, em San Antonio, Texas; e no Tiger Stadium, em Baton Rouge, Louisiana.

No retorno do time ao Superdome, a jogada, logo no ínicio do jogo, mostrou uma torcida em êxtase por ter seu time de volta após tempos difíceis, tanto para a equipe, quanto para a cidade. O fato de o jogo ter sido no horário nobre (Monday Night Football) apenas elevou a emoção do momento.

Renascimento.

Esses são exemplos do legado mais importante que um atleta – ou uma equipe – profissional pode deixar. Dentro de campo, times e jogadores podem fazer a alegria (ou a tristeza) de milhões de pessoas e servir de inspiração para muitas delas.

Por isso, inspirados em momentos como esses, separamos alguns casos em que jogadores mostram que o esporte é ainda maior fora de campo. Afinal, a NFL está repleta de exemplos como o de JJ Watt. Jogadores que, por afinidade com uma causa, um ideal a seguir, ou até mesmo pura bondade no coração, fazem muito fora de campo. Mais do que a sua diversão nas tardes de domingo, eles proporcionam a outras pessoas oportunidades de construir uma vida melhor.

Andrew Luck: um clube do livro.

Você já conhece o Andrew Luck dos passes para touchdown e das grandes jogadas. O que você talvez não conhece sobre o quarterback dos Colts é a sua paixão pela leitura. E que ele tem um clube do livro.

A ideia surgiu a partir de brincadeiras de membros da imprensa que, ao descobrirem a paixão de Luck, sugeriram a criação de um clube do livro; em abril de 2016, Andrew lançou o Andrew Luck Book Club. É um espaço onde ele, quatro vezes por ano, durante a offseason, dá sugestões de livros. Um para crianças, incluindo aqueles que ele lia quando era mais novo, e um para adultos, que ele leu recentemente ou está lendo no momento.

Desde que me entendo por gente, eu amo ler. Devo isso aos meus pais, que liam para mim todas as noites até eu conseguir fazê-lo sozinho. Eles sempre encorajaram a mim e a meus irmãos a ler“, explicou Luck sobre o seu fascínio pelos livros. “Sempre senti algo relaxante e agradável em relação à leitura, em parte porque sempre via meus pais lendo. Lembro das viagens de carro de 18 horas que fazíamos todo verão, indo de Houston ao Colorado nas férias da família. Sempre tinha a minha cara enfiada em um livro e ficava em silêncio por pelo menos 10 horas. Isso fazia o tempo passar muito mais rápido e eu sentia que podia “escapar” mais em um livro do que em um filme ou qualquer outra coisa. E ainda sinto isso hoje: ler é a melhor forma de esvaziar a cabeça e dar uma desacelerada“, completa.

Luck também trouxe a paixão pela leitura para dentro do vestiário: desde o início de sua carreira em Stanford, ele trocava livros e sugestões com seus colegas de equipe e técnicos. E essa tradição se manteve na NFL, onde  encontrou mais jogadores que compartilhavam o hábito, como Vick Ballard, Matt Hasselbeck e Joe Reitz.

Na verdade, nunca fiz parte de um clube do livro antes. Queria ter certeza de que, de qualquer forma, fosse simples e divertido e que incentivasse as pessoas a pegar um livro, sentar e ler.” O clube do livro também encoraja os leitores a interagir nas redes sociais e, em algumas oportunidades, o próprio Luck participa, seja por meio de perguntas e respostas ou por vídeos, até mesmo ao vivo.

Andrew conta que a organização já recebeu retorno de bibliotecas, livrarias, autores, professores, pais e até mesmo de editoras pedindo para promover a iniciativa. Algumas escolas também começaram programas de leitura baseados na ideia. Durante essa inter-temporada, enquanto se recupera de cirurgia no ombro, Luck tem cultivado também o hábito de ler para crianças, em escolas ou hospitais infantis.

Lendo livros e defesas.

É fato que a leitura desempenha um papel importante na formação do ser humano, seja na infância ou na fase adulta. Ler quando pequeno é ainda mais importante, porque assim a pessoa desenvolve esse hábito para a vida toda. Ter um ídolo como Luck, que estimula crianças a ler e vai até elas para isso, cria uma nova geração de leitores. 

Tom Brady: sabendo ser ídolo.

Brady sabe do seu tamanho como jogador; e quando o assunto é ajudar a comunidade, ele fica ainda maior. Logan Schoenhardt, um jovem de 10 anos com um grave câncer no cérebro, ao realizar uma cirurgia, pediu para o médico gravar o número 12 em seu crânio. Quando ficou sabendo da notícia, Tom gravou uma mensagem de apoio ao seu fã.

Infelizmente o câncer retornou, dessa vez com pouca chance de cura. Logan fez uma lista de desejos, e um deles era conhecer seu ídolo. Brady se prontificou a conhecer o menino que, infelizmente, não conseguiu vencer sua doença. Apesar de ser uma história triste, que não teve um final feliz, o quarterback dos Patriots se mostrou muito solidário, realizando o último desejo de um dos seus maiores fãs.

Outra história que envolve o quarterback, é a Calvin Riley – um jovem de 20 anos e tinha um futuro promissor no baseball quando foi baleado enquanto brincava de Pokemon Go. Calvin, que havia estudado na mesma escola que Tom, infelizmente não sobreviveu. Não havia nada que Brady pudesse fazer nessa situação, mas ele enviou uma carta de duas páginas, escrita à mão, para a família. A família se recusou a revelar o conteúdo do texto, mas disse que foi uma forma de conforto em meio a uma situação tão triste.

Larry Fitzgerald e Anquan Boldin: saindo da zona de conforto.

Em 2012 os WRs Anquan Boldin e Larry Fitzgerald fizeram uma visita a Etiopia. Boldin, quando conheceu um pouco mais sobre a realidade do país, resolveu ir pra lá ajudar e, para isso, chamou o amigo e ex-companheiro de time nos Cardinals. Larry e Anquan trabalharam carregando pedras, sob a restrição de não dar dinheiro para os habitantes locais: um simples “presente” de 30 dólares para alguém poderia desequilibrar toda a ordem social ali existente. Ao final da viagem, inconformados com a pouca ajuda que puderam oferecer, os jogadores compraram, cada um, uma vaca para a região.

Um ano depois, eles estavam de novo no continente africano, dessa vez no Senegal e com mais um companheiro: o WR Roddy White. Os três visitaram um vilarejo que mal tinha água, e participaram do dia a dia da comunidade, procurando encontrar diferentes formas de ajudar. Boldin destacou a importância de levar a história desses lugares para cada vez mais pessoas.

Dois caras fodas.

Os jogadores ainda desenvolvem trabalhos na África. Fitzgerald, inclusive, participa de organizações que ajudam pessoas com AIDS no continente. Boldin ganhou, em 2015, o Walter Payton Man of the Year Award, prêmio que a NFL dá aos jogadores que mais se envolvem em trabalhos voluntários e de caridade.

Brandon Marshall: defendendo a conscientização.

A bipolaridade é uma doença real, mas que tem como principal adversária a forma como é vista na sociedade: muitas vezes romantizada, muita gente não sabe que existem pessoas que sofrem com a doença. O WR Brandon Marshall é uma delas. Desde que foi diagnosticado com o transtorno, Brandon luta pela causa, criando uma fundação com seu nome para alertar sobre os problemas da doença. O jogador já foi até mesmo multado pela NFL por usar chuteiras verdes – a cor escolhida para a conscientização sobre o assunto.

Pierre Garçon e Ricky Jean François: ajuda humanitária.

Quando o furacão Matthew passou pelo Haiti, Pierre Garçon e Ricky Jean François, então companheiros de equipe em Washington, de descendência haitiana, viajaram em um avião do dono da franquia para levar mantimentos ao país. Pierre e Ricky se mobilizaram também nas redes sociais, para ajudar a conseguir recursos. No país, eles ajudaram a entregar as doações.

Chris Long: o “cara da água”.

O DE Chris Long viajou para a Tanzânia pela primeira vez em 2013, para escalar o monte Kilimanjaro. O jogador se apaixonou pelo lugar, mas, em outras visitas, ficou assustado com a qualidade da água que as pessoas bebiam: a água é marrom com algumas coisas verdes nela. Para ajudar na situação, Chris criou a ONG Waterboys, que tem por objetivo melhorar a qualidade do recurso em países africanos. A iniciativa tem apoio de muitos jogadores da liga, e da própria NFL Network.

Você diria não a esse homem?

Andre Johnson, Steve Smith e Pat McAfee: presentes de Natal.

Todo natal o WR Andre Johnson leva crianças em lojas de brinquedo e gasta mais de 15 mil dólares em presentes. Mesmo depois de se aposentar, ele manteve o costume. O WR Steve Smith também tomou parte na ação, que é uma tradição no Baltimore Ravens. No último natal, o P Pat McAfee pagou a conta de luz de 115 famílias em Indianapolis, evitando inclusive que pessoas tivessem a sua eletricidade cortada.

JJ Watt, te amamos

Já falamos de JJ Watt no caso das enchentes de Houston, mas não é de agora que ele mostra seu talento fora de campo. JJ é o criador da JJ Watt Foundation, ONG que procura levar recursos a escolas para que elas possam desenvolver seus programas esportivos. Watt também é um apoiador dos militares, fazendo até mesmo campanhas em parceria com seu patrocinador, a Rebook, para auxiliar veteranos.

O jogador dos Texans também reconhece seus fãs: recentemente, um jovem foi atropelado em Houston e teve sua jersey, do próprio JJ, destruída. Quando ficou sabendo, Watt respondeu que iria ao hospital entregar pessoalmente uma nova camisa. E ele não só cumpriu a promessa, como deu uma de cada modelo para o menino.

Colin Kaepernick: um ativista.

É impossível fazer uma lista como essa sem citar Colin Kaepernick. Deixando toda polêmica de lado, o antigo quarterback dos 49ers já mostrou que não tem medo de manifestar suas ideologias. Ajoelhar durante o hino incomoda muita gente e, devido ao patriotismo de muitos americanos, dá pra entender (com um baita esforço) a rejeição ao jogador.

Acontece que seu gesto, conseguiu o que ele queria: chamar a atenção para a causa do racismo. Não só politicamente, Colin também é engajado na caridade. Recentemente, ele conseguiu um avião para levar água e suprimentos para os necessitados na Somália, doando cerca de 100 mil dólares. Goste ou não de Kaepernick, ele certamente tem um impacto fora de campo, maior até do que aquele que produziria dentro de um estádio.

Cam Newton: amigo da garotada.

Cam Newton é um exemplo um pouco diferente: o jogador, à sua maneira, age dentro e fora de campo. Cam tem o hábito de entregar as bolas dos touchdowns que marca para crianças e, apesar de ser um gesto simples, pode melhorar o dia de quem recebe o souvenir. Newton também tem uma fundação, que tem como missão “garantir que as necessidades sócio-econômicas, educacionais, físicas e emocionais das crianças sejam atendidas.

Já é tradição.

Ndamukong Suh: gigante fora de campo.

A revista Forbes é conhecida por suas listas e, dentre elas, está a de celebridades que mais fazem doações. Na lista de 2012, Ndamukong Suh foi o jogador da NFL que apareceu mais alto: Suh doou 2.6 milhões de dólares para a Universidade de Nebraska, sendo 2 milhões para o departamento atlético e 600 mil para a faculdade de Engenharia poder dar bolsas de estudo. Era, ali, a maior doação única de um jogador de futebol americano.

Esses são alguns exemplos de jogadores que tomam um pouco do seu tempo e dinheiro para ajudar outras pessoas. Ciente que essa é uma prática comum na liga, a NFL (que é extremamente rigorosa com os códigos de uniforme) estabeleceu, desde a última temporada, que os jogadores teriam uma semana para usar chuteiras personalizadas com as causas que quiserem divulgar.

A ação foi amplamente divulgada, e, durante as transmissões, alguns jogadores inclusive falavam da sua chuteira e o que ela estava representando. O resultado foi muito interessante. Você também pode fazer sua parte. Pesquise sobre seu jogador preferido, provavelmente ele tem algum projeto que você pode ajudar de alguma forma!

Análise tática #9 – Saints e 49ers convidam: vem correr com a gente!

San Francisco 49ers e New Orleans Saints têm duas das três piores defesas da NFL. Enquanto o Saints é o número 30 da liga em pontos (29,8) e jardas (408,5) cedidas por jogo, o 49ers é o pior, cedendo 32,5 pontos e 428 jardas por jogo. Os dois só não ocupam as duas últimas posições nas estatísticas de defesa porque o Cleveland Browns “existe” e ocupa a posição 31.

Com números tão horrorosos, quando os dois times se enfrentam existe apenas uma certeza: muitos pontos serão anotados e big plays acontecerão. Nesse tipo de confronto, é natural pensar que, como não há grande resistência defensiva, o melhor ataque deve vencer o jogo. E foi isso que aconteceu: o New Orleans Saints anotou cinco TDs e venceu por 41×23.

Os sete TDs anotados nesse confronto épico já comprovam que os números totais das defesas são ruins. Mas quando analisamos as estatísticas específicas de defesa contra o passe e contra o jogo corrido conseguimos explicar por que dois TDs longos aconteceram. A defesa do Saints é a pior da liga defendendo o passe e cede 300 jardas por jogo aos QBs adversários. Enquanto isso, o 49ers é absolutamente incapaz de parar o jogo corrido adversário e cede 193 jardas por jogo, quase 50 jardas a mais que a segunda pior defesa contra RBs (Browns). Não é à toa que os RBs DuJuan Harris e Mark Ingram anotaram TDs de 47 e 75 jardas. Confira como aconteceu:

DuJuan Harris 47 yds TD:

Posicionado ao lado do QB Colin Kaepernick, o RB DuJuan Harris tem rota lateral, em direção a parte de baixo da tela. Na linha ofensiva, o San Francisco 49ers colocou dois TEs do lado direito da linha, que têm a função de bloquear na secundária do Saints.

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Kaepernick identificou rapidamente a blitz do defensor do Saints e fez um passe rápido para Harris, que nesse momento contava com os dois TEs bloqueando e enfrentava quatro defensores.

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Os TEs fizeram bons bloqueios, mas mesmo assim Harris ainda teria que bater dois defensores que tinham boa vantagem.

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Porém, a defesa do Saints, especialmente o Safety, é tão ruim que, mesmo com 20 jardas de vantagem, não conseguiu evitar o longo TD.

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Mark Ingram 75 yds TD:

Na jogada mais espetacular da partida, o RB Mark Ingram anotou um TD de 75 jardas. A linha ofensiva do Saints tinha confrontos individuais pelo lado direito e ainda contou com o deslocamento do Left Guard, que congestionou ainda mais o lado para onde Ingram correria.

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Os bloqueadores, em maioria numérica, não tiveram dificuldade em abrir um corredor para o RB.

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Depois foi só bater o Safety e anotar o longo TD.

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Sobre estar de joelhos, Ruby Bridges, Beyoncé e racismo

Há mais de cinco décadas, uma criança de seis anos de idade chamada Ruby Bridges desfilou em meio a uma multidão enfurecida, composta por segregacionistas, para se tornar a primeira criança negra na William Frantz Elementary School, em New Orleans. E o que deveria ser apenas uma cena rotineira, extrapola toda e qualquer noção de poder imagético: Ruby, com toda sua imponência física, é escoltada por policiais no caminho até a sala de aula.

Para além da história, mais de cinquenta anos depois, permanece uma das pinturas mais significativas na luta contra o racismo, que hoje está no lado externo do escritório do presidente Barack Obama, além de diversos estudos sobre moralidade, liderados pelo psiquiatra Robert Coles.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

O contexto histórico, porém, nos ajuda a compreender um pouco o absurdo: em 1954, ano em que Ruby nasceu, a Suprema Corte dos EUA ordenou o fim da separação racial nas escolas – instituições do sul do país, no entanto, ignoraram a decisão. O estado da Lousiana, por exemplo, teve até o final de setembro de 1960 para colocar em prática a nova política educacional e o objetivo era integrar gradativamente: ano a ano, o processo começaria pelo que aqui conhecemos como jardim de infância e seguiria pelas séries seguintes.

Ruby foi uma das cinco crianças afrodescendentes que passaram no teste que determinava quais crianças seriam enviadas às escolas “brancas”. O teste, claro, já havia sido concebido de uma maneira que, digamos, tornasse mais difícil o ingresso de afro-americanos. Mesmo assim, os pais de Ruby decidiram lutar pela inclusão e, em seu primeiro dia de aula, a garota chegou à escola escoltada pelos já citados quatro agentes federais.

Durante todo o período letivo, a turma de Ruby teve apenas cinco alunos: ela e quatro colegas brancos. Pais optaram por manter filhos em casa, afinal, para eles era algo melhor do que partilhar a escola com uma criança negra.  Dessa forma, ela passou boa parte do ano ali, sentada, sozinha, aprendendo matemática com um professor que visualizava como seu melhor amigo.

Moralidade e o ser humano

Robert Coles, um dos psiquiatras infantis mais renomados da atualidade, queria compreender o que aquela menina, imersa em fúria e intolerância, pensava e sentia. Por vários meses, ele e a pequena Ruby conversaram, até o dia em que Coles foi surpreendido: Ruby disse a ele que sentia pena daquelas pessoas. E o rebateu, questionando-o se não achava que aquelas pessoas eram passíveis do mesmo sentimento.

Coles então foi desarmado por uma menina de apenas seis anos enquanto tentava aplicar psicologia padrão, tentava ajudá-la a perceber que, por algum motivo obscuro, ela havia irritado a ordem social vigente e que seria completamente normal ela estar amargurada ou ansiosa. Mas Ruby, ao seis anos de idade, respondeu que orava por eles; no fundo ela era inteligente o suficiente para compreender o que ocorre com o ser humano.

Mas quando Coles fala sobre aquilo que ocorre com o ser humano, ele se refere ao que ocorre com seu senso de moralidade. Para ele a moralidade não está apenas nas sutilezas, não é algo teórico: é, sim, uma questão de lado e também o ponto central da existência humana, o fator que norteia nossas vidas.

“A moral caracteriza nossa própria natureza. Ela tem a ver com conexão humana, com o tipo de conexão que responde a terceiros. Se somos privados de nossa moralidade, estamos privados de uma parte essencial de nós mesmos”, afirma.

É fato que o racismo é um problema histórico e enraizado na cultura norte-americana. Você pode argumentar que cinco décadas se passaram desde o caso de Ruby, mas a verdade é que, mesmo assim, ele ainda está ali, latente, em uma sociedade que não soube exorcizar seus fantasmas.

E aqui não cabe a nós criticar como lidamos com um passado que insistimos em negar, afinal qual sociedade está em paz com os períodos mais sombrios de sua história? Difícil encontrar aquelas que superaram seus erros sem cicatrizes. E, enfim, por que esta história está em um site sobre NFL? Chegaremos lá, mas para isso voltemos ao último Super Bowl.

Racismo enraizado

Um dia antes de se apresentar no Halftime Show, ao lado de Coldplay e Bruno Mars, Beyoncé lançou o clipe de “Formation”. Potencializado pela genialidade da sacada de marketing (timing é tudo, amigos), o vídeo revoltou diversos setores sociais dos EUA. Já na apresentação, Beyoncé trouxe ainda um figurino que homenageava os Panteras Negras: era um mix iconográfico de referências à cultura afro-americana que, claro, mobilizou tanto simpatizantes quanto detratores.

“Formation”, aliás, é gravado na mesma New Orleans que há 60 anos proibiu Ruby Bridges de frequentar a mesma escola que colegas brancos. A mesma cidade, símbolo da força criativa afro-americana e, na mesma medida, palco de históricas repressões policiais. A mesma cidade, berço da Ku Klux Klan. E ali Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina, como milhares de negros submergiram após a tragédia em 2005 – e provavelmente por isso policiais foram orientados a desligar seus televisores no intervalo do SB.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

A primeira frase dita no videoclipe é “What happened after New Orleans?” (“O que houve com New Orleans”, em tradução livre). A voz é de Messya Maye, famoso vlogger da mesma cidade, morto em 2010 quando saía de um evento com sua namorada. Já em outra parte do vídeo vemos um cordão de policiais com as mãos para o alto, seguido por um muro em que está pichada a frase “parem de atirar em nós”, semelhante aos gritos ecoados pela população negra durante as manifestações de 2014.

Beyoncé, porém, não está atacando apenas a polícia norte-americana, como sugeririam conservadores na época. Não foi ela quem recolocou a questão racial no centro do debate alguns meses atrás, assim como não foi Colin Kaepernick quem a recolocou na pauta atual. Quem trouxe novamente a questão à tona foi, na verdade, Maryland e Ferguson. Foram Alton Sterling em Baton Rouge e Philando Castile nas ruas de Falcon Heights. Foi Messya Maye, em 2010. Foram tantos outros que não sabemos o nome.

Sentindo na (cor da) pele

Não tenho propriedade alguma para falar sobre o racismo cotidiano nos EUA (na verdade, tampouco sobre racismo no Brasil; sou daqueles que acredita que só quem já sentiu na pele estas situações pode dar a real dimensão do problema), mas é sabido que até hoje uma das estrofes não cantadas no hino norte-americano “supostamente” enaltece a caçada de escravos.

Por outro lado, dados tornam impossível negar a realidade: de acordo levantamento do Mapping Police Violence, em 2015 um negro tinha três vezes mais chances de ser morto por um policial que um branco. Segundo o mesmo mapa, apenas 30% dos 346 negros mortos por policiais estavam armados (contra 19% de vítimas brancas). Já pesquisas recentes conduzidas pelo Black Youth Project da Universidade de Chicago e pelo Centro Associated Press-NORC de Pesquisa de Questões Públicas, indicam que mais de 60% dos jovens negros (e 40% dos jovens hispânicos) dos Estados Unidos afirmam que eles ou alguém que conhecem já sofreram alguma forma de violência policial. Paradoxalmente, eles também pedem uma presença maior da polícia em suas comunidades.

De joelhos

Era 26 de agosto quando Colin Kaepernick se ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino norte-americano. Um ato que por si só pode não significar tanto para nós, brasileiros – estamos longe de ser um país patriota, mal sabemos cantar o hino – quanto para norte-americanos, mas de qualquer forma, o cerne aqui é a motivação de Colin.

"“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor", declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que football e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, disse o quarterback em entrevista à NFL após o primeiro ato.

É inegável que há uma falsa impressão de que o esporte é capaz de superar preconceitos, que é um elemento capaz de quebrar barreiras e promover o encontro entre o diferente. Bem, no fundo, é apenas mais uma balela que, após repetida a exaustão, sobretudo sob a chancela do famoso “espírito olímpico”, se tornou uma falsa verdade.

A prova disso é que atletas, brancos e negros, se dividiram após a o gesto de Colin – isto em um ambiente 67% negro, segundo levantamento do Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte, o que só nos mostra que, mesmo em um cenário composto em sua maioria por afrodescendentes, a aceitação está longe de ser garantida.

E se uma semana depois do gesto de Colin, Marcus Peters, cornerback do Chiefs, foi além e cerrou o punho, Justin Pugh, branco e tackle do New York Giants, postou em seu Twitter: “Ficarei de pé durante a execução do hino nacional nesta noite. Obrigado a todos (gênero, raça, religião) por colocarem suas vidas em risco pela bandeira.

Já Jim Harbaugh (branco), um dos grandes treinadores do esporte e que comandou o mesmo Colin Kaepernick em sua melhor fase afirmou não “respeitar a motivação, tampouco o ato” – para em seguida se desculpar, dizendo que apenas o ato o incomodava.

Tudo bem, aceitamos o fato de que é algo a se pensar quando atletas negros se opõem ao gesto. Jerry Rice, por exemplo, criticou Kaep. E depois mudou de ideia. Victor Cruz, wide receiver do Giants, também se opôs: “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, declarou. 

Já na NBA, Russel Westbrook, armador do Oklahoma City Thunder, postou em seu Instagram um desabafo na última terça-feira (20) contra a violênciaMas tudo isto ganha outro significado quando diferentes atletas e técnicos brancos se posicionam como árbitros para a injustiça racial. É o momento em que temos situações absurdas, como a de Alex Boone, branco, 29 anos, e guard do Minnesota Vikings, mesmo estado em que o já citado Philando Castile perdeu a vida; Alex classifica o ato como “vergonhoso” e exige que Colin mostre “algum respeito”.

Você ainda tem Sean Payton, branco e treinador do New Orleans Saints, que fica na mesma New Orleans de Ruby Bridges, na mesma New Orleans onde Beyoncé deu vida a “Formation”, declarando que “há coisas mais importantes para serem trabalhadas”.

Não importa se não há consenso de que sentar durante o hino é um ato extremamente desrespeitoso. Pouco importa se não sabemos ao certo o quanto cerrar os punhos é ofensivo à bandeira. Tampouco importa se na pior das hipóteses Colin Kaepernick esteja ao menos trazendo novamente à tona uma importante discussão.

Payton, Pugh, Harbaugh, Boone e tantos outros apenas escancaram aquilo que possivelmente foi a maior motivação de Kaepernick ao se ajoelhar pela primeira vez: lembrar toda a sociedade americana que o racismo ainda está ali, embora uma parcela dela insista em negá-lo e insista, sobretudo, em negar seu passado.

Ao se ajoelhar, Colin expôs a dificuldade que esta parte da sociedade tem em enxergar questões que estão a um palmo de distância, questões estão sob seus olhos. Tudo isto lançando mão de argumentos esdrúxulos como seu alto salário ou o fato de o presidente ser negro. Ou ainda questionar que ele está fazendo isso no momento mais conturbado de sua carreira.

O próprio Colin, aliás, revelou em entrevista coletiva que recebeu diversas ameaças após sua atitude. “Recebi algumas ameaças, mas não estou preocupado com isso. Para mim, se algo assim acontecer, você provou meu ponto e vai ser alto e claro para todos por que isso acontece”, disse.

“Há muito racismo disfarçado de patriotismo neste país e as pessoas não gostam de lidar com isso, eles não gostam de abordar qual é a origem deste protesto. Você tem jogadores em todo o país, não só na NFL, mas jogadores de futebol, da NBA e da universidade: eles não gostam de abordar esta questão de que as pessoas de cor são oprimidas e tratadas injustamente. Não sei por que é assim ou o que eles temer, mas isso precisa ser falado”, completou.

De joelhos perante um símbolo nacional, Colin Kaepernick mostrou que na verdade a sociedade norte-americana ainda é incapaz de ouvir. Mostrou que, infelizmente, quando se trata da existência do racismo, ela prefere se agarrar em seus próprios privilégios a lidar com o problema.

Torcemos para um milagre de Brees, mas no fundo só esperamos varrer o Falcons

Em três das últimas quatro temporadas, o New Orleans Saints terminou com recorde negativo: um não tão honroso 7-9. O mais estranho é que para New Orleans alcançar uma campanha positiva, a receita parece simples: melhore a defesa e possivelmente você irá aos playoffs.

Por que a receita é simples? Bem, Drew Brees segue sendo Drew Brees! Novamente, ele liderou a liga em jardas lançadas, com um rating de 101. Drew lançou ainda 32 touchdowns e apenas 11 interceptações, com mais de 68% dos passes completos. Porém os números indicam que, apesar do esforço de Brees, o Saints não consegue deixar a mediocridade. E nas três temporadas citadas, é possível culpar a defesa: em todas elas, eles sempre estiveram entre as últimas posições da NFL em rankings defensivos.

Podemos dizer que o New Orleans Saints conhece seu principal problema. Para eles, porém, resolvê-lo tende a ser mais difícil do que parece.

O começo do fim

Se um ataque comandado por Drew Brees sempre merecerá atenção, o único elogio possível para o sistema defensivo de New Orleans é a consistência: são seguidos anos entre os piores da NFL. Em 2015, aliás, a média de pontos sofridos foi superior a 29 pontos por jogo. E graças as limitações no salary cap, para o setor New Orleans buscou apenas um jogador notável: o DT Nick Fairley, que estava no Rams.

Outro reforço será o também DT Sheldon Rankins, originário de Louisville e 12º selecionado no último draft. Mesmo que possa ainda não estar pronto para a NFL, Rankins contribuirá imediatamente, já que poderá exercer alguma pressão no quarterback adversário. E, claro, ele terá o benefício de ter alguém como o DE Cameron Jordan ao seu lado, o que tende acelerar seu desenvolvimento. O fato é que a evolução de todo o sistema passa diretamente pela evolução de Sheldon.

De Jordan se espera que ele seja o motor desta defesa. Em 2015, porém, assim como todo o sistema, ele sucumbiu, mas não se nega seu talento. Agora com um companheiro consistente sua produtividade tende a crescer.

Já da free agency viram dois LBs: Nate Stupar (ex-Falcons) e Craig Robertson (ex-Browns). Nada que possa animar torcedores mais atentos. Aliás, o corpo de LBs causa calafrios: a situação é tão ruim que James Laurinaitis, ex-Rams, é tido como salvador. O Saints é praticamente um deserto de talento na posição que até sua chegada de um jogador como Laurinaitis comemorada.

Na secundária permanecem Delvin Breaux e Kenny Vaccaro que agora, ao menos, não serão atrapalhados por Brandon Browner, que rumou para o Seahawks. Qualquer pessoa com dois neurônios sabe que o simples fato de não contar mais com um jogador como Browner é o maior reforço que uma secundária pode ter.

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“Alguém quer colaborar comigo nessa porra?”

Oremos por Drew Brees

É difícil imaginar o Saints sem Drew Brees. Ele é o rosto da franquia e o melhor jogador de sua história. Mas em breve será preciso considerar que ele está com quase 40 anos e talvez seja a hora de dizer adeus. Não será fácil e, bem, de qualquer forma, podemos garantir que não será nesta temporada – e talvez nem na próxima.

Como afirmamos, Brees teve bons números em 2015. Mesmo assim, foram suas piores médias desde… 2010. Foi seu menor número de touchdowns desde 2007. E, pela primeira vez desde 2009, ele perdeu uma partida (sim, uma partida).

Mas estamos falando de Drew Brees e suas piores médias são melhores que as de 90% dos QBs da NFL: com 32 passes para TDs, ele ocupou o sétimo lugar na liga. Suas 4870 jardas lideraram a NFL e, bem, se ele não tivesse perdido um jogo (repito: um jogo em seis anos), com certeza ultrapassaria as 5 mil jardas lançadas. Está claro que estamos longe do final da estrada.

O que pesa, porém, é que não há talento ao seu redor. Cooks é seu principal alvo e podemos argumentar que seus números em 2015 foram excelentes: 84 recepções, para 1138 jardas e nove touchdowns. Ok, mas até Willie Snead chegou perto das 1000 jardas, o que apenas evidencia que estamos diante de bons números, mas todos produtos diretos da qualidade de Brees, e não do talento de seus recebedores; em times minimamente decentes, tanto Snead como Cooks, seriam no máximo a terceira opção.

O TE Benjamin Watson rumou para Baltimore e para substituí-lo o Saints achou uma ótima ideia dar US$36 milhões e um contrato de cinco anos para Coby Fleener – e vale lembrar que Fleener já não funcionara com Andrew Luck. Estamos falando que Fleener não teve êxito com alguém como Andrew Luck, não com alguém como, Ryan Tannehill ou Nick Foles. Por que ele funcionará com Drew Brees? Bom, apesar da imprensa local ter elogiado o desempenho de Coby em alguns treinamentos, é difícil apostar em seu sucesso.

Um pouco de esperança, talvez, venha do jogo corrido. Mark Ingram finalmente teve uma temporada eficiente, com quase 800 jardas e média de 4,6 jardas por tentativa (ele ainda teve 50 recepções). Mas perdeu diversos jogos por lesão, o que sobrecarregou CJ Spiller – Spiller, aliás, justificou seu desempenho abaixo das expectativas alegando enfrentar diversas pequenas lesões. Não duvidamos, mas Spiller lida com lesões a carreira inteira, o que o torna pouco confiável.

Já a linha ofensiva apresenta um pouco de solidez. O OT Terron Armstead é extremamente eficiente e joga ao lado de Zach Strief, um dos melhores atletas da posição; em alguns aspectos, o C Max Unger teve os melhores números de sua carreira desde 2009 e o também OT Andrus Peat tem tudo para evoluir em sua segunda temporada.

Mas a verdade é que para o Saints chegar a algum lugar novamente, Drew Brees terá que carregá-los. Ele é capaz de inflar números de receptores medianos e, no meio do caminho, até mesmo fabricar algum TE (beijos, Jimmy Graham), mas sem uma defesa com uma produção minimamente aceitável, não há como Brees vencer sozinho.

A maior conquista da temporada de Brees.

A maior conquista da temporada de Brees. (isso mesmo, dois peixes com uma isca. Incrível!)

Palpite: uma quarta temporada negativa, com um novo 7-9. A defesa irá implodir e mesmo assim Brees lançará poucas interceptações e fará mais do que 35 TDs. Mas novamente todos irão discutir que se está gastando muito com Drew e que seria melhor investir na reconstrução da equipe. Papo entediante. Graças ao QB, Cooks fará 15 TDs e no ano seguinte algum imbecil oferecerá muito por ele – afinal, para existir um mau negócio, tudo que precisa existir é um idiota. E sabemos que a NFL está cheia deles.