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Tempo de recomeçar

Uma das franquias mais estáveis da NFL inegavelmente atravessa um período turbulento: Ozzie Newsone, único GM desde que os Ravens desembarcaram em Baltimore há pouco mais de 20 anos, deixará o cargo após esta temporada.

Steve Bisciotti, também conhecido como O HOMEM QUE PAGA A CONTA, admitiu recentemente que John Harbaugh, inquestionável até então, balançou no cargo após não chegar aos playoffs pelo terceiro ano consecutivo – eliminação confirmada em um jogo patético diante de um Cincinnati Bengals que não tinha mais nada a perder, exceto a dignidade – seja lá o que isto signifique.

Todo o cenário desenhado aponta que, em 2018, o Ravens joga pela vida de Harbaugh e, claro, de Joe Flacco – que está sob os holofotes (e não do ponto de vista positivo) como nunca esteve em nenhum momento de seus 10 anos de NFL até aqui.

Reconstruindo sem implodir

O Baltimore Ravens protagonizou algum BAFAFÁ no último draft, com um trade up ao final o primeiro round para selecionar Lamar Jackson, quarterback de Lousville vencedor do Heisman Trophy; uma decisão até certo ponto lógica, considerando que Joe Flacco assinou um novo contrato de seis anos pela bagatela de US$125 milhões há duas temporadas e, como habitual, muitas questões pairam sobre o QB que liderou o Ravens na conquista do seu mais recente Super Bowl.

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É honesto se perguntar se Joe conseguirá, em algum momento, aproximar-se do nível de atuação que o consagrou em 2012; tanto a idade (33), como inúmeras lesões reduziram a eficiência do quarterback com o passar do tempo. É bem verdade, claro, que o elenco de apoio não contribuiu, mas é o preço a se pagar quando se investe toneladas de cap space (também conhecido como DÓLARES) em um QB de qualidade (no mínimo) questionável.

Neste contexto, também é justo pensar se os Ravens não deveriam emular um movimento similar ao que o Texans fez há pouco tempo, ao sacrificar um ano (e um draft) para se livrar do contrato de Brock Osweiler. Recomeçar com Lamar, claro, um jovem ainda extremamente cru, mas com imenso potencial físico, não seria uma atitude digna de repreensão – obviamente Jackson não está pronto para assumir o controle da franquia (talvez nem da própria vida), então assistir a última chance de RGIII enquanto o garoto de Louisville realiza a transição para o football profissional, faria algum sentido; neste cenário, os Ravens não iriam para os playoffs em 2018, mas bem, também parece improvável que eles cheguem lá se considerarmos os últimos três anos de Joe Flacco.

As novas (velhas) armas

Podemos considerar que Baltimore teve uma significativa melhora no seu corpo de recebedores  – mas as mesmas palavras foram ditas quando eles contrataram Jeremy Maclin em 2016, e todos sabemos o final desta história (errado é quem espera diferente). De qualquer forma, Michael Crabtree é uma ameaça real na endzone (são 25 TDs nas últimas três temporada), mas ele já ultrapassou a casa dos 30 anos, então é possível (e provável) que seus melhores dias sejam apenas uma lembrança.

Além disso, da FA também vieram John Brown (ex-Cardinals) e Willie Snead (ex-Saints) – é improvável acreditar que Snead contribua de fato (como sabemos, Joe Flacco não é Drew Brees), mas Brown, apesar de sofrer com diversos problemas médicos nos últimos anos, tem algum potencial.

Os TEs também são novos: tanto Hayden Hurst quanto Mark Andrews vieram do draft, dando a perspectiva de que os Ravens conseguirão ameaçar o seam, algo que não acontecia desde aquela época em que Dennis Pitta estava vivo.

De qualquer forma, embora não pareça um cenário completamente animador, as perspectivas são melhores do que as oferecidas por Mike Wallace, Jeremy Maclin e Breshad Perriman (in memorian) em 2017 – e também não é como se piorar fosse uma opção.

Pelo chão, Baltimore redescobriu o jogo corrido após dois anos fedendo. Alex Collins, que chegou no início de setembro após ser chutado de Seattle, correu para 973 jardas e seis TDs, deve continuar sendo a primeira opção, afinal os Ravens parecem acreditar que o desempenho de Alex não se trata de um ponto fora da curva, mas sim que este pode inclusive crescer se ele permanecer saudável. Kenneth Dixon também está voltando de lesão, mas resta saber se John Harbaugh confiará no menino (spoiler: não).

Já a OL, que permitiu menos de 30 sacks no último ano, traz Marshal Yanda e Alex Lewis de volta dos mortos – parece, porém, não ser suficiente, já que gente como Matt Skura e James Hurst tendem a ser incapazes de bloquear um pato manco.

Se nada der certo, já sabemos o que esperar: basta chegar ao meio do campo e esperar Justin Tucker fazer alguma mágica.

Ponto de equilíbrio

Os Ravens seriam um fracasso se sua defesa fossa abaixo da média – o que está longe de ser o caso; o sistema defensivo, que retorna praticamente intacto, permite que a equipe se mantenha competitiva: Baltimore cedeu o sexto menor número de pontos em 2017 (18.9) e liderou a liga em takeaways (34). Mas quando a pressão aumentou, a corda estourou; como nos momentos finais do duelo contra o Steelers em dezembro, ou o já citado CREPÚSCULO DE ANDY DALTON, quando um TD de 49 jardas deixou a equipe fora da pós-temporada.

De qualquer forma, a secundária é a força motriz do sistema: Jimmy Smith é um ótimo CB e Marlon Humphrey, que já impressionou em sua temporada de estreia, deve evoluir ainda mais. Tavon Young também retorna de lesão e dá ainda mais profundidade para o setor. Já o grupo Safeties tem talento de sobra em Eric Weddle e Tony Jefferson.

A DL ainda é capaz de pressionar os QBs adversários, graças a Terrell Suggs – que mesmo já cruzando a barreira dos 35 anos, vem de uma temporada com mais de 10 sacks. Além disso, Baltimore cercou Suggs com diversos jogadores jovens e talentosos, para aprender com um dos melhores atletas da posição: Matt Judon, Za’Darius Smith, Tim Williams e Tyus Bowser podem aproveitar muito a presença de Terrell – Judon, aliás, teve 8 sacks em 2017.

O corpo de LBs, porém, levanta algumas dúvidas: CJ Mosley é um monstro, mas não esteve em sua melhor forma no último ano – sobretudo graças a uma cirurgia no ombro. Ele deve retornar melhor, claro, mas outros nomes do setor, como Patrick Onwuasor (fede), tem sido uma decepção até aqui.

Palpite:

Os Ravens, por muito tempo, recusaram-se a partir para mudanças drásticas, sempre afirmando que estavam a um ou dois jogos dos playoffs (o que, enfim, não deixou de ser verdade). Mesmo assim, desde que venceu o SB XLVII, Baltimore está 40-40 na temporada regular – ser medíocre é uma boa opção na vida de uma pessoa comum, mas parece não ser uma estratégia inteligente em esportes profissionais. De qualquer forma, tudo passa por Joe Flacco: se ele redescobrir sua capacidade de conectar grandes jogadas (agora sem a importante ajuda de Rahim Moore), é possível brigar por playoffs. Se ele não o fizer, bem, pode ser a hora de começar a olhar para Lamar Jackson com mais carinho – talvez seja o que acontecerá após um 8-8.

Análise Tática #14 – Semana #7: O drive da vitória do Oakland Raiders

Poucas coisas no football são mais bonitas que um two-minute drill bem gerenciado. O momento em que a onça bebe água, a hora que separa os homens dos meninos. É exatamente aí em que as lendas nascem, não à toa que um dos maiores gerenciadores de two-minute offenses (sdds Peyton) é o responsável por eu estar escrevendo isso neste momento.

Derek Dallas Carr, 26 anos, irmão de David Carr (primeira escolha da história do nosso glorioso e tradicional Houston Texans), teve sua vida destinada a brilhar nesse esporte. Responsável por devolver o Oakland (por enquanto) Raiders aos seus momentos de glória, o QB recebeu um salário de 25 milhões de dólares anuais na última offseason.

Em sua quarta temporada na NFL, a escolha de segunda rodada vinda de Fresno State ainda tem alguns problemas: imprecisão nos passes, pressa no pocket, ineficiência em terceiras descidas, leituras arriscadas e baixa média de jardas por tentativa.

Em 2014, sua primeira vitória na NFL veio exatamente contra os Chiefs após uma jogada digna de piores momentos da semana (a coluna da família brasileira)Agora que você já sabe quem é Derek Carr (achamos importante apresentá-lo a nossa maneira), já pode ler, abaixo, um dos momentos mais divertidos de sua carreira.

Vocês perceberam na semana passada, que, apesar do título, apenas quatro ou cinco jogadas não são o suficiente para entender o que de fato ocorreu em um jogo. Por isso, nessa semana, o foco será o drive final do Oakland Raiders em sua totalida (também não ajudará no contexto macro da partida, vejam o tape completo, é divertidíssimo). O mesmo resultou na vitória por 31-30 no último Thursday Night Football (que em 2017 tem sido assustadoramente divertido).

Após sack dividido entre Khalil Mack e Denico Aultry, os Raiders receberam a bola restando 2:25 no relógio na linha de 25 jardas do campo de defesa, com um tempo por pedir. Foram 16 snaps, sendo 11 jogadas de ataque, 4 faltas e 1 extra point. 85 jardas até a vitória.

Durante esse drive, Derek Carr saiu do shotgun em todos os snaps. Na primeira jogada, o alvo é o WR Amari Cooper, alinhado como o recebedor X. Os Raiders se alinham em formação shotgun ace, com 3 recebedores do lado direito e Cooper isolado. Os Chiefs demonstram uma formação de Cover 2, com Marcus Peters alinhado para marcar em zona (repare que ele volta seu quadril em direção ao QB) e Terrance Mitchell marcando Cooper individualmente.

Após o snap, as rotas se desenvolvem de forma a deixar Amari Cooper, executando uma rota comeback, com marcação individual. Cabe ao mesmo vencer a press coverage de Mitchell na linha de scrimmage e se posicionar para receber o passe.

Ao receber a bola, Cooper se livra de dois marcadores girando o corpo para dentro, até ser tackleado no meio do campo. O two-minute warning parou o relógio ao fim dessa jogada. Os próximos dois lances foram malsucedidos para Oakland após Derek Carr colocar uma bola muito baixa para Amari Cooper no meio do campo e em seguida Johnny Holton cometer um offensive pass interference flagrante.

Em uma situação de 2nd & 20, com 01:47 restantes no relógio, Oakland volta a se alinhar em shotgun, dessa vez com um TE para ajudar nos bloqueios. Os Chiefs mostram blitz e dois safeties na cobertura antes do snap, porém apenas quatro homens iriam perseguir o signal caller.

Novamente Amari Cooper é o alvo da jogada e se encontra alinhado sozinho no lado esquerdo do campo como X. Ele executará primariamente uma rota post em direção ao símbolo dos Raiders no meio do campo. Derek Carr identifica o posicionamento dos safeties (primeira leitura pré-snap que todo QB deve fazer), e aliado à situação relógio-placar, sabe que enfrentará coberturas em zona.

Após um 3-step dropback um pouco atrapalhado, Carr tem o pocket limpo, e com os olhos, consegue atrair um dos safeties para a esquerda (você não o vê acima, mas o verá abaixo) da imagem. Enquanto isso, Cooper vende aos seus marcadores uma rota corner. Logo após, o recebedor executa um double move em direção ao meio do campo, o que configura a post mostrada na imagem antes do snap. Em vermelho, mostra-se a janela que Derek tem no momento do passe, facilmente completado pela excelente coordenação e conhecimento de playbook entre o QB e seu recebedor.

Na minha terra isso tem nome. “Livre pra caralho”, o nome.

Como dito anteriormente, Derek Carr ainda tem alguns problemas a corrigir. O principal deles é se livrar rápido demais da bola, mesmo com pockets limpos (medo de lesões, talvez?). Aqui, observa-se no lado direito um conceito semelhante ao levels (sdds Peyton), em que duas rotas se quebram para o meio ou para a linha lateral em amplitudes diferentes do campo. O objetivo dessa jogada é causar estresse na cobertura em zona, principalmente na comunicação entre CB/S, aproveitando os espaços.

Pode-se contestar que nessa jogada, a linha ofensiva não segurou os bloqueios por tempo suficiente para deixar a rota em azul se desenvolver. Entretanto, parte da proteção contra o passe também é responsabilidade do QB, que deve se posicionar no ponto ideal. Jogadores de OL geralmente treinam a coordenação de pass-protection com dummies posicionados no ponto de proteção, e o QB deverá permanecer no pocket, conforme mostra Pat Kirwan em seu livro Take Your Eye off the Ball (paga nois, Amazon).

Na imagem acima, Derek se desespera com o pass rush e ativa a rota de checkdown, enquanto havia um espaço considerável para escalar no pocket. Observe que o QB mantém corretamente seus olhos vagando pelo lado direito do campo, forçando os safeties a abrirem um espaço no seam. Caso tivesse mantido a calma e andado para frente, Carr poderia conseguir um ganho de aproximadamente 25 jardas para os Raiders. Aqui, houve uma perda de 1 jarda, além do relógio continuar rodando após o tackle dentro de campo.

Os próximos snaps resultaram em passes incompletos após bolas mal colocadas por Derek Carr, o que colocou os Raiders em uma situação de 4th & 11 com 00:41 restantes no relógio.

Formação de empty backfield com 5 recebedores espalhados pelo campo, enquanto os Chiefs colocam três defensive backs no fundo. As rotas são todas verticais e Jared Cook é o alvo da jogada. Ele precisa vencer o marcador fisicamente e receber a bola na marca do first down, enquanto os demais recebedores afastam a marcação em zona para o fundo do campo.

Contra um jogador mais baixo e mais fraco fisicamente, Jared Cook consegue se desvencilhar da marcação, recebe um passe alto e alcança a linha de first down na força física. Conversão que manteve os Raiders vivos na partida.

Nas duas jogadas seguintes, Derek Carr arriscou bolas em cobertura dupla no melhor estilo Brett Favre, duas interceptações dropadas pela defesa dos Chiefs.

Jogou de peruada.

A partir de então, o jogo virou a esquina da loucura. Raiders em 3rd & 10 na linha de 29 do campo de ataque, alinhados em shotgun ace com três recebedores na parte esquerda e apenas um na parte direita. Conceito four verticals (aquela jogada que você usa no Madden até ficar chato) e Jared Cook alinhado de Split-end, receberá uma jump ball na direção do pylon à beira da endzone. Cook recebe a bola e se joga em direção à endzone. Touchdown! Porém, após a revisão da jogada, observou-se pela pylon cam que houve um down by contact a um fio de cabelo da endzone. Após a reversão do lance, a arbitragem retirou 10 segundos do relógio (alguns torcedores do Lions infelizmente morreram) e o Raiders teve 1st & goal na linha de 1 jarda. Os Raiders não correram com Marshawn Lynch pois esse já havia saído na mão com um árbitro e fora devidamente expulso da partida.

Tal qual o nosso Titans (quem é sabe), foi quase.

Houve faltas nos próximos 3 snaps, uma para os Raiders, após Michael Crabtree empurrar demais o coleguinha em uma jogada de fade, e duas seguradas defensivas dos Chiefs, uma delas com o cronômetro zerado. Segundo a regra, se houver uma falta defensiva no momento em que o cronômetro atinge zero, a falta é aplicada e o ataque recebe mais uma jogada. Isso aconteceu duas vezes seguidas nessa partida, salva de palmas para a defesa de Kansas City – ser burro dessa forma é um feito e tanto.

Sem tempo no relógio, Raiders na linha de 2, com shotgun ace e 11 personnel. Nas duas jogadas anteriores, Carr havia tentado 2 passes no meio da endzone, e aqui os Chiefs protegem a linha de gol pelo meio. Após várias chamadas contestáveis ao longo da partida, o coordenador ofensivo, Todd Downing faz Derek Carr executar um roll-out para esquerda, enquanto Michael Crabtree se direciona ao pylon.

Um passe contra o movimento natural do corpo, Derek Carr mostra a força de seu braço. Michael Crabtree protegeu de forma inteligente com o corpo o ponto de recepção, não permitindo que Terrance Mitchell defendesse o passe. O interessante é que a jogada havia sido treinada para o lado contrário, mas Oakland decidiu invertê-la para evitar a cobertura de Marcus Peters.

Vitória dos Raiders em um dos melhores jogos de quinta-feira dos últimos tempos, em que sabemos que os times chegam despreparados ou cansados pela semana curta. A NFL está em um nível de loucura tão absurdo que os melhores jogos de primetime dessa temporada foram exatamente na quinta-feira.

Os torcedores de Chiefs e Raiders ainda não tinham experimentado emoção suficiente, então coube ao kicker Giorgio Tavecchio selar a vitória dos Raiders em um extra point. O mesmo já havia perdido dois field goals ao longo da partida.

Com a vitória, os Raiders dão sobrevida à sua temporada, record de 3-4, sendo 1-2 dentro da AFC West. Do outro lado, será que estamos vendo nos Chiefs (5-2) mais um time começar bem e implodir após cinco jogos? (vide Falcons em 2015 e Vikings em 2016).

Diego Vieira, o estagiário prodígio, mora em Manaus e não é atingido pelo horário dos jogos. Maldito.