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Sobre arte, Bauman, football, MMA e Meryl Streep

Enquanto recebia o Cecil B. DeMille, prêmio pelo trabalho desenvolvido ao longo de sua carreira, durante o Globo de Ouro no último domingo (8), Meryl Streep sorria. Seu discurso, logo em seguida, foi direcionado quase em sua totalidade ao presidente eleito dos EUA, Donald Trump.

Vocês e todos nós nessa sala pertencemos aos segmentos mais vilanizados na sociedade americana atual. Pensem nisso: Hollywood, estrangeiros e imprensa. Mas quem somos nós? E o que é Hollywood?”, questionou. “Só um bando de pessoas de outros lugares. Eu nasci, fui criada e educada nas escolas públicas de Nova Jersey; Viola nasceu em uma cabana em uma plantação na Carolina do Sul; Sarah Paulson nasceu na Flórida e foi criada por uma mãe solteira no Brooklyn“, lembrou ela antes de citar outros artistas que vieram de partes diferentes do mundo, como Natalie Portman, de Israel, e Ryan Gosling, do vizinho Canadá.

Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros e, se expulsarmos todos eles, vocês não vão ter nada para assistir além de football e MMA, que, aliás, não são arte“, completou. Como temos aqui a premissa de não entrar em discussões políticas e pretendemos mantê-la, nossa conversa começa exatamente neste ponto.

Critico, mas faço igual.

Universalidade

O esporte, assim como o cinema, é um fenômeno social universal, capaz de superar barreiras de gêneros, crenças religiosas, linguagem e, até mesmo, etnias. É tão dinâmico que é criado, recriado, transmitido e transformado pelo homem ao longo da história; hoje é impossível compreendê-lo de maneira uniforme ou linear. Há tantas significações intrínsecas que seu caráter polissêmico é inegável.

A própria definição de “arte” traz consigo discursos distintos, que organizam campos do conhecimento também diferentes entre si. Zygmunt Bauman, sociólogo polonês que faleceu no início deste ano e uma das maiores referências em estudos culturais, em “Ensaios Sobre o Conceito de Cultura”, define “Cultura” como algo ambíguo, sobretudo pela incompatibilidade entre as inúmeras linhas de pensamento que buscam compreendê-la.

Claro, Bauman não se refere à cultura como “arte”, é algo infinitamente mais complexo, mas com um pouco de esforço podemos transpor seus conceitos para ela: é impossível mensurar a evolução da humanidade, sobretudo sua evolução cultural, desde que o homem começou a produzi-la.

Por tudo isso deveria soar óbvio que o próprio conceito de “arte” já se viu esgotado em sua própria definição. E hoje tanto o cinema quanto o esporte influenciam nossa compreensão do mundo: ambos são propriedades adquiridas, que podem ser transformadas e moldadas e fazem parte de um conjunto de práticas que dão forma a padrões culturais; para qualquer sociedade, esporte não é apenas “esporte”, assim como cinema está longe de ser apenas “cinema”. Restringi-los é reduzir a discussão exatamente como Streep fez ao afirmar football e MMA não são formas de arte.

A arte está em constante evolução devido ao encontro de diversas culturas; ela é feita pelo homem ao mesmo tempo em que faz parte do processo de construção da sua identidade. Arte, ou seja, esporte e cinema e o que mais coloquemos nesta categoria, não se trata exclusivamente de elementos tangíveis; ela não pode estar restrita a elementos totalmente conscientes – sempre existirá nela mais do que temos consciência.

Arte, cinema e esporte estão ali, diretamente relacionados à capacidade humana de pensar, produzir e reproduzir símbolos. É perfeitamente possível relacioná-los a partir do momento em que os entendemos de maneira ampla e diversificada: são meios que encontramos para expressar sentimentos e emoções, meios que representam medos, angústias e anseios. Esporte e cinema são, em sua essência, cultura humana estruturada em uma forma de linguagem que permite representar o homem simbolicamente. E isso é arte: não apenas carga emocional, mas também intertextualidade, crítica social e, sobretudo, identidade.

Ignorância gera ignorância

No mesmo discurso, em determinado momento, Meryl afirmou que “desrespeito convida ao desrespeito, a violência incita a violência”. Partindo deste princípio, também parece claro que, para ela, ignorância gera ignorância. Meryl, claro, não ficou sem resposta – e não me refiro à metralhadora verborrágica de Donald Trump direcionada à atriz, o que aqui pouco ou nada nos importa, mas sim às duas comunidades indiretamente atingidas por ela.

Scott Coker, presidente do Bellator, logo escreveu uma carta a convidando para assistir uma luta. Já Kerry Howley, professora da Universidade de Iowa e autora de “Throw”, obra baseada em sua experiência de três anos convivendo com lutadores de MMA disse o óbvio em seu Twitter: o MMA é mais internacional que Hollywood. Além da internacionalidade, é também mais, digamos, ‘democrático’, quando comparado a uma indústria cinematográfica predominantemente branca.

Os lutadores que conheço se identificam como artistas. São pessoas que procuram um estilo de vida que provavelmente não irá torná-los ricos, que é muito difícil e que são estigmatizados, como acabamos de ver”, afirmou Kerry em entrevista à The Atlantic.

E eles fazem isso porque há algo belo e estranho nesta experiência de se abrir a este tipo de violência. Claro, se você não está imerso neste mundo, você só vê Ronda Rousey e pode dizer: ‘oh, ela está atrás de fama e filmes B’. Mas a maioria dos lutadores nunca será Ronda e tem consciência disso. São pessoas que amam o que estão fazendo e buscam aperfeiçoar uma série de artes distintas que foram trazidas aqui a partir de outras culturas”, completou.

Miočić: vencedor do Oscar de melhor atuação inusitada de 2016.

Reflexo social

Passados alguns dias das declarações de Meryl Streep ainda é difícil encontrar um consenso sobre como football ou MMA se misturaram às suas palavras. A aversão de uma parcela da sociedade americana a eles talvez esteja no fato de que ambos são expressões que melhor retratam o que os EUA é hoje. Sim, e aqui não há margem para discussão: atualmente, tanto o MMA como o football são um retrato mais fiel da América contemporânea do que o cinema.

Eles são um microcosmo do que o mesmo EUA que elegeram Donald Trump, a quem Meryl tanto tem aversão, é atualmente. Football é 22 pessoas na mesma faixa de espaço, se debatendo e impulsionando seus pares em frente; nesta mesma faixa há um claro abismo econômico, entre posições “desimportantes” e aquele que rege a orquestra – ou você é capaz de mensurar o tempo necessário para um punter ter o mesmo sucesso financeiro que um quarterback?

Há ainda, naquela mesma faixa de campo, tensões étnicas, cada equipe trazendo consigo características únicas de sua comunidade e, apesar das adversidades, precisando se unir para chegar ao objetivo. MMA, bem, MMA é duas pessoas confinados em uma jaula, cada um por si, a essência do egoísmo humano, lutando por aquilo que acreditam. Quer algo mais norte-americano do que egoísmo e violência?

E se como dissemos no início, a cultura muda ao longo do tempo, algo que não mudou na cultura americana é o amor pelo football – Peter Morris, certa vez, chegou a afirmar: “Se o Beisebol é o passatempo dos EUA, o football é sua paixão”.

Não é só um jogo

Agora voltando ao discurso de Streep, em determinado momento ela afirma que “esse instinto de humilhar, quando é exibido por alguém em uma plataforma pública, por alguém poderoso, é filtrado na vida de todo mundo, porque meio que dá permissão para outras pessoas fazerem o mesmo.  Quando os poderosos usam sua posição para impor, todos perdemos”. Bem, ela tem empatia o suficiente para perceber o que significa alguém ali, com sua representatividade, rebaixar as preferências daqueles que não tem o mesmo poder? Reduzir aquelas pessoas que valorizam o esporte como expressão artística? Guardadas as devidas proporções, é usar o mesmo expediente em que se baseou para criticar Trump.

Já em outra parte de sua fala, ela afirma:O único trabalho do ator é entrar na vida de pessoas diferentes de nós e fazer você sentir como é. Houve muitas, muitas, muitas  atuações poderosas este ano que fizeram exatamente isso”. Ironicamente, Aaron Rodgers havia feito algo semelhante horas antes de Meryl subir ao palco – e no instante em que a bola chegou às mãos de Randal Cobb, alguém pulava no chão da sala enquanto um amigo torcedor do New York Giants socava o sofá. É a essência da construção de uma narrativa particular, não importa a dimensão de seu alcance.

Candidato ao Globo de Ouro de Melhor Milagre de 2017.

Paradoxalmente, um dos lances mais marcantes de Pelé, um dos maiores jogadores de futebol da história, é um gol perdido. E, claro, há inúmeros outros exemplos de instantes em que o esporte flerta diretamente com a arte. Mas ninguém respondeu Streep melhor que Deshaun Watson e Clemson, na final do college football, um dia depois. Com apenas dois minutos no relógio, o peso da derrota no ano anterior em suas costas, eles venceram uma partida carregada de emoção no último segundo. O que aconteceu naquele último segundo foi arte em seu mais puro estado.

Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos do football, MMA, basquete, beisebol ou qualquer outro esporte, críticas como a de alguém na posição de Meryl Streep fazem apenas com que determinados nichos se fechem e deixem de perceber semelhanças entre esportes e atividades como cinema, música ou teatro. Todos eles, à sua maneira, são extensões da vida cotidiana, recortes da sociedade e estão cheio de dramas particulares. Ou há algo mais dramático que aqueles segundos que separaram Deshaun Watson do maior momento de sua carreira? O mesmo jovem, que quatro anos antes, disse isto:

Football, MMA e cinema são o que são graças a seu talento para nos cativar, sua capacidade para fazer com que dediquemos tempo, dinheiro e, acima de tudo, nossas histórias para eles. É neles que montamos nossas narrativas, somos parte ou até mesmo autores de histórias. Não há nada mais humano que buscar extrair algum significado enquanto tentamos dar sentido às nossas emoções, seja na frente de uma tela enquanto comemos pipoca, observando as jardas que nos separam da endzone ou movendo aquele chute do atacante adversário em direção a trave no minuto final.

Um filme nunca foi e nunca será apenas um filme. E Meryl, goste ou não, esporte nunca foi e nunca será só um jogo.