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O homem de ferro cercado por homens de vidro

É o terceiro ano de prévias da temporada no PickSix e pelo terceiro ano sou responsável por San Diego (ou Los Angeles, se você consegue lidar com essa bizarrice) Chargers. Pelo terceiro ano seguido, a lógica de que esse time é fadado ao fracasso e às lesões diz uma coisa, mas a análise fria diz outra – obviamente, em julho, todo time é destinado ao Super Bowl, mas os Chargers contam, de fato, com boas peças (mais sobre isso a frente).

Como é um time sobre o qual falamos apenas uma vez por ano, é preciso comentar certos pontos da temporada de 2017: a depressão da chegada em Los Angeles já parece clara, como mostra a incapacidade de lotar um estádio de futebol-futebol com capacidade para 30 mil pessoas apenas com torcedores do próprio time (que, só nos resta concluir, não existem).

Há também a comparação com os Rams, talvez a equipe mais empolgante de 2017 mesmo sendo o terceiro melhor time da conferência, o que já coloca os Chargers com menos de 365 dias de nova casa na condição de Clippers, Mets, Atlético de Madrid ou, pior, algo como um Botafogo.

Outro tema agridoce que viverá a torcida (inexistente) dos Chargers versa sobre a posição de Tight End. Pela primeira vez em 15 anos, Antonio Gates não será o sexto homem complementando a linha ofensiva, nem o gigantesco ex-jogador de basquete pulando mais alto que linebackers e fazendo Safeties questionarem se é o que querem para sua vida é mesmo jogar football.

LEIA TAMBÉM: Antonio Gates era San Diego. Mas já é tempo de Hunter Henry

Teoricamente, para a sorte da equipe de Los Angeles, eles pareciam já ter encontrado o substituto ideal para Gates em Hunter Henry que, quando saudável, produziu muito como alvo seguro de Philip Rivers.

Infelizmente, seu joelho não aguentou o peso do uniforme azul bebê e explodiu ainda em maio. E isso pode ser um prenúncio de um ano como todos os outros, porque poucos times parecem apostar tanto que “lesões passadas não são indicativos de lesões futuras”.

*Muito bom, se estiver saudável

Se apenas a lesão de Hunter Henry já parece ruim, a lista de candidatos a substitutos de Gates sofre com a maldição: o jovem Austin Roberts, ainda que apenas mais um undrafted free agent (assim como o velho Antonio) buscando seu lugar ao sol, também teve seu joelho saindo fora do lugar. Virgil Green, que teve 71 recepções em sete anos com os Broncos, é o nome mais conhecido do grupo e não é nada mais que um sexto bloqueador razoavelmente útil – o que pode, inclusive, até motivar um último retorno de Gates* ao time (mera especulação, mas se rolar vocês viram primeiro aqui).

Para a sorte do velho Philip, por outro lado, o seu grupo de WR está em melhor estado. Ao menos por enquanto. Keenan Allen*, vencedor do prêmio de Comeback Player Of the Year (que por si só já mostra o histórico de problemas de saúde) em 2017, jogou pela primeira vez, em cinco anos de carreira, os 16 jogos da temporada e, até surpreendendo os que já haviam desistido, chegou próximo das 1400 jardas recebidas, atrás apenas dos irreais Julio Jones e Antonio Brown. Com múltiplos jogos de mais de 10 recepções e de 100 jardas – inclusive contra a forte secundária dos Bills -, não há razão para não repetir números do tipo.

Outro que conseguiu excelentes números combinados com participação em todos os jogos pela primeira vez na carreira foi o RB Melvin Gordon* – nada espetacular no jogo corrido, mas sólido, e especialmente importante como alvo seguro no jogo aéreo, sendo suas 54 recepções um número maior do que qualquer outro WR além de Keenan Allen.

Para suprir esse vazio como segunda opção de recebedor, especialmente agora sem TE, o nome ideal seria Mike Williams* (e não só porque esse é um nome extremamente comum para WR na NFL). Uma curiosidade interessante sobre o início da temporada de 2018 é que a equipe comandada por Anthony Lynn e gerenciada por Tom Telesco não escolheu nos quatro primeiros rounds um jogador ofensivo sequer; o que, além de confiança no que tem, pode indicar que o time acredita que poderá aproveitar suas duas primeiras escolhas de 2017 finalmente.

O primeiro foi Williams, que perdeu a pré-temporada e os seis primeiros jogos com problemas nas costas, simplesmente fatal para seu desenvolvimento e limitando-o a 11 recepções. Certamente Rivers visualiza tirar mais dele, devido ao seu pedigree que gerou 1361 jardas na última temporada, como alvo de Deshaun Watson. Já os WR Tyrell Williams e Travis Benjamin não são maus jogadores, e tê-los como opções complementares apenas pode tornar esse ataque em um dos (ainda) melhores da liga.

O segundo jogador ofensivo que é praticamente um rookie é o G Forrest Lamp*, que (adivinhem) também se machucou na pré-temporada e nunca voltou. É fácil assumir que ele deverá ser muito bom para além do hype do draft: o próprio Chargers selecionou o G Dan Feeney uma rodada depois e ele acabou eleito um dos melhores rookies do ano.

Completam a linha ofensiva o LT Russell Okung*, que justificou a aposta em si mesmo após assinar um contrato cheio de incentivos, sem orientação de empresário, e chegou ao segundo Pro Bowl da vida; o Center Mike Pouncey*, que vem de Miami e acumula três Pro Bowls da época em que esteve saudável; e Joe Barksdale*, que perdeu cinco jogos na última temporada, mas mantém o alto nível quando está presente.

*para entender tantos asteriscos, basta olhar o título. Sério, vai ser muito incrível se todos aguentarem toda a temporada – e muito bom para os Chargers também.

Sobre Iron Man e Geno Smith

Philip Rivers dispensa muitas apresentações e comentários. Suas 4500 jardas e 28 TDs são números dos sonhos para equipes sem QB e, com a riqueza de talento ao seu redor, não há razão para esperar que ele vá decair com apenas (para os padrões Tom Brady de ser) 37 anos a serem comemorados com seus 15 filhos (ou algo assim) em dezembro – especialmente como detentor do título de Iron Man da liga, com 192 jogos de temporada regular seguidos, conquistando a simbólica medalha após o episódio estranho com Eli em Nova York.

Entretanto, para aqueles que duvidam de coincidências, é válido relembrar: para a descrença de todos, um Manning que parecia destinado a uma última oportunidade foi substituído pelo eternamente desacreditado Geno Smith. E adivinha quem foi contratado para ser o QB reserva em Los Angeles em 2018? Pelo bem de Rivers, vamos torcer que Cardale Jones ganhe a disputa de posição.

É saudades que chama.[/caption]

A defesa de Joey Bosa

Não vamos aqui fingir que entendemos tanto da defesa dos Chargers quanto seria possível. De qualquer forma, é interessante notar que a equipe foi número 3 da liga em 2017 em pontos cedidos e não perdeu nenhum jogador notável: pelo contrário, o draft soma ao grupo que tem como coluna vertebral os craques Bosa, Ingram e Hayward.

Joey Bosa é uma máquina e concorrente perene a DPOY, especialmente enquanto ajudar a equipe dominando a linha ofensiva tanto no passe quanto no jogo corrido e a abrir espaços para Melvin Ingram, outro terror de QBs, que finalmente chegou ao seu primeiro Pro Bowl após anos como único ponto bom da defesa em San Diego.

Brandon Mebane e Corey Liuget vêm de um 2017 ruim e, caso consigam produzir pressão interior aproveitando os espaços de Bosa e Ingram, poderão se aproximar da pressão do irmão rico de Los Angeles.

No back-seven, a estrela óbvia é Case Hayward, que dispensa mais comentários, qualificando-se como um dos Cornerbacks mais underrated da NFL (ainda que tenha ido ao Pro Bowl nos últimos dois anos), enfrentando WR1 adversários do alto de seus 1,80m é produzindo 11 interceptações nos últimos dois anos. Seu complemente ideal seria Jason Verrett, mas o que não era incomum em San Diego segue usual em Los Angeles: ele já está lesionado e fora da temporada de novo.

Nunca duvidamos.

Para a sorte dos Chargers, jovens devem continuar colaborando na defesa. Trevor Williams, undrafted em 2016 e sem parentesco com Tyrell, assumiu a posição com outra lesão de Verrett em 2017 e foi apontado como 10º melhor CB da liga no ano passado. Outro jovem que tem o objetivo de dificultar a vida dos ataques aéreos é o rookie Derwin James, Safety escolhido na metade da primeira rodada para já chegar jogando.

Palpite

Dá para acreditar? Se a medicina continuar evoluindo e segurar tantos jogadores duvidosos de pé, com certeza. Em 2017, a equipe perdeu apenas para dois times que não foram para os playoffs: para os Broncos na altitude e para os Dolphins graças ao FG desperdiçado pelo jovem Koo (citação obrigatória, especialmente agora que ele já não está na liga). Após um desastroso início 0-4, Anthony Lynn conduziu a equipe a nove vitórias e apenas três derrotas, com a mesma campanha de Titans e Bills, que foram aos playoffs.

Com Oakland e Denver em situação sempre duvidosa, além de Kansas City com um QB essencialmente rookie, os Chargers têm uma oportunidade de voltar a vencer a divisão, o que ajudaria a construir algo de torcida em Los Angeles. Um 10-6 e eliminação na segunda rodada dos playoffs para um time com mais camisa depois de tirar alguém da AFC South parece um bom 2017. Ou Geno Smith pode ser o starter lá pela semana 9, enquanto somos lembrados que San Diego dos tempos de Antonio Gates segue vivo, mesmo em uma cidade estranha.

Uma grande enfermaria em Los Angeles II

Vamos tirar duas coisas do caminho para poder falar normalmente do Chargers: primeiro, Joey Bosa, talvez você não saiba que eu exista, mas me perdoe pelas críticas. Você é muito melhor (10,5 sacks em apenas 12 jogos melhor) do que esperávamos e plenamente capaz de ser o que quiser nessa vida (se resolver largar o football para virar astronauta, vai na fé. Vai dar certo, não deixaremos ninguém duvidar de ti).

Segundo, provavelmente Chargers é o melhor time da divisão. Mas não se iluda, daqui para frente é só ladeira abaixo.

(Sério. O time tem bom grupo de LBs. Enquanto o texto era escrito, Denzel Perryman, inside linebacker líder do grupo, se machucou e está fora por pelo menos um mês. Time desgraçado.)

Outro problema que incomoda bastante ao analisar ex-time de San Diego é o seu estádio. Por pior que a equipe tenha sido nos últimos anos e mesmo com a constante ameaça de abandonar a cidade, a média de público sempre esteve (quase) acima dos 60 mil por partida (exceto em 2016: 57 mil), ainda que se possa afirmar que boa parte desses eram torcedores das equipes adversárias.

Ao mudar-se para LA para ser inquilino de Stan Kroenke (e assim, como fica claro para qualquer um que queira ver, ser o time simpático secundário da cidade), a equipe resolve alugar um estádio de futebol de 27 mil pessoas para jogar pelos próximos três anos, porque a construção do novo estádio foi adiada. Faz algum sentido para os senhores? Pois nem para a torcida deles, já que esta sequer lotou o StubHub Center na estreia da equipe na cidade (a efeitos de comparação, os Rams bateram o recorde de público em um jogo de preseason da NFL em sua estreia em 2016).

Mais deserto que a Arena Amazonas.

A última grande novidade fica por conta do HC Anthony Lynn, que fez seu nome estabelecendo um potente jogo corrido com LeSean McCoy e tornando Tyrod Taylor em um QB especialmente capaz. Veremos o que ele pode fazer com um QB candidato ao Hall da Fama.

Nem Philip Rivers quis ir para LA

Philip Rivers é um cara tão injustiçado quanto os defensores do Jacksonville Jaguars. Titular em todos os jogos do time desde 2006 (jogando inclusive com joelho e alma costurada), lançando para mais de 4000 jardas e 25 TDs desde 2008 (exceto em 2012).

Não obstante, é importante lembrar os absurdos 30 turnovers em 2016, que mostram que ele já não é mais o cara para carregar sozinho o time, já que a idade parece estar pesando sobre seu braço direito (aliás, sua porcentagem de acerto de passes diminuiu bastante entre a primeira e a segunda metade da temporada).

Além disso, o quarterback foi um dos principais críticos da mudança para Los Angeles, tanto que ele não abandonará sua residência no norte de San Diego em prol de seus oito filhos. O jogador optou por fazer diariamente o caminho de aproximadamente 120km entre sua casa e o novo CT dos Chargers – no famoso trânsito infernal da região.

A ajuda vem…

Quando Rivers está sob pressão, ele é perigoso. Obviamente, só nos resta imaginar o que ele seria capaz de fazer tendo tempo para jogar (spoiler: ele é um monstro).

Sabendo disso, o time não poupou esforços para melhorar a linha ofensiva: para substituir o aposentado King Dunlap, o time trouxe o bom LT Russell Okung (com um contrato teoricamente monstruoso, mas que é essencialmente de 2 anos) que teve sua primeira temporada saudável pelo rival Denver Broncos.

Além disso, o draft foi bom para a unidade e permitiu a adição dos guards Feeney e Lamp (começou com “my name is Forrest, Forrest Lamp” e, adivinha, também explodiu o joelho), que deveriam ter sido escolhidos antes do que realmente foram pelos Chargers.

Danny Woodhead (o Darren Sproles 2.0) deixa o time, mas deverá ser substituído por Branden Oliver (o Darren Sproles 3.0) sem muita perda de qualidade.

O RB principal da equipe, Melvin Gordon, finalmente marcou seu primeiro TD da carreira em 2016 – e adicionou mais 11 em apenas 13 jogos. Obviamente, esses “apenas 13 jogos” nos levam ao próximo tópico: a maldição que afeta o Los Angeles Chargers.

Ou seria Mike Tolbert 2.0?

… se ficar inteira

Por exemplo, a única temporada em que Okung disputou os 16 jogos foi em 2016. Melvin Gordon também ainda não aguentou chegar ao final do ano saudável. O grupo de WRs é ainda mais afetado: Keenan Allen, teoricamente o principal alvo de Rivers, perdeu todo 2016, tendo ficado de fora também por metade da temporada de 2015; para substituí-lo, o time escolheu Mike Williams na 7ª posição do draft. Acho que o leitor já pode adivinhar que, durante a pré-temporada, Williams também se machucou (uma hérnia de disco, que pode até mesmo tirar o jogador da temporada).

Ainda que tenha dificuldades em estabelecer um WR1 (o que melhoraria bastante a sua vida e o peso da idade no seu braço), Rivers não acabará carente de alvos: Tyrell Williams surgiu do nada e substituiu Keenan Allen superando as 1000 jardas em 2016; Dontrelle Inman e Travis Benjamin também tiveram um 2016 razoável, aproveitando as oportunidades que apareceram.

Além disso, é válido lembrar dos TEs Hunter Henry e Antonio Gates, que combinaram para 15 TDs em 2016. Resumindo: ajuda existirá para Philip Rivers produzir, resta saber se será suficiente.

Surpreenda-se: o outro lado é bom também

Ainda que Keenan Allen seja a lesão mais lembrada do ano amaldiçoado dos Chargers (sério, 23 jogadores acabaram na injured reserve; para comparar, os Patriots colocaram apenas cinco atletas lá), provavelmente a lesão mais dolorosa ocorreu do outro lado do passe: era esperado que o CB Jason Verrett se tornasse outro grande defensor da NFL, até que seu joelho resolveu explodir.

Em 2017, ele deverá voltar e formar dupla com o outro excelente cornerback, Casey Hayward, uma das melhores contratações de San Diego (e, provavelmente, da liga) nos últimos anos. Ainda que ambos sejam anões para os padrões com que o novo coordenador defensivo Gus Bradley (fracassado em números nos Jaguars, mas arquiteto original da Legion of Boom e de uma boa defesa em Jacksonville) está acostumado, não se vê a defesa aérea de Los Angeles devendo algo – especialmente com a aparente ascensão do undrafted Michael Davis (esse sim, com quase 1,9m) e da escolha de 5º round Desmond King, aparentemente um faz-tudo na secundária.

A chegada de Bradley trouxe mais mudanças à equipe: o time abandonará o 3-4 e passará a defender com um 4-3, servindo às habilidades do seu melhor pass-rusher, Joey Bosa (eu já pedi perdão, caras).

“Não ia ser um bostão?”

Do outro lado, Melvin Ingram, que passou quatro anos sonhando com algum complemento nessa defesa, agora deverá servir como um bom complemento para a jovem estrela.

O novo esquema também deverá ser benéfico para o meio da linha, composta por Corey Liuget e Brandon Mebane, o primeiro por ter mais liberdade para ir atrás do QB (conseguiu 17 sacks entre 2012-14) e o segundo tendo que tapar menos buracos como NT – fazendo um serviço mais parecido com o que tinha em Seattle.

Previsão: 9-11 vitorias, vencendo Jets e Oakland no final da temporada para chegar aos playoffs. Isso, obviamente, supondo que o time se cure da maldição que o afeta já há alguns anos e que a home field advantage de um estádio de 27 mil lugares seja conseguida com a pressão esperada pelo mão-de-vaca do Dean Spanos. Caso contrário, provavelmente o highlight da temporada será ver o kicker sul-coreano Younghoe Koo (!) em campo, com todos os trocadilhos que isso deverá trazer.