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O primeiro jogo do ano – e do resto de nossas vidas

Parecia que a temporada do Green Bay Packers duraria pouco mais de 20 minutos. Rodgers poderia ter sofrido uma séria lesão no joelho mesmo antes da metade do segundo quarto do primeiro SNF e, de repente, talvez estivéssemos vendo um dos maiores QBs de sua geração desperdiçar mais um ano de seu auge: quando Aaron Rodgers se dirigiu aos vestiários, qualquer apaixonado por football prendeu o ar e pensou “de novo”? E, bem, a expressão do quarterback convergia com aquilo estávamos pensando.

Os próximos atos do roteiro indicavam o pior cenário possível para os torcedores do Packers: Green Bay seria triturado logo na semana #1, contra seu maior maior rival. Khalil Mack fazia o backup, DeShone Kizer, parecer uma criança indefesa assistindo a um filme de terror e, bem, ali mesmo já era claro que seria um longo ano se Kizer fosse o titular nas próximas semanas.

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Mack, ao respirar, MOVIMENTAVA O AR e transformava Kizer em um atleta amador (talvez ele seja isso aí mesmo e errado é quem espera algo diferente). Khalil logo conseguiu um sack, uma interceptação, forçou um fumble e anotou um touchdown em poucos minutos ou tudo no mesmo lance (se você estivesse dopado pelo medo, seria incapaz de distinguir): em pouco tempo, Chicago abria 17 pontos de vantagem no Lambeau Field pela primeira vez desde 1948.

Restava a nós, meros mortais, amaldiçoar o front office de Green Bay eternamente por ser incapaz de cercar Aaron por algum talento capaz de lhe auxiliar, e culpar Mike McCarthy (essa é fácil) por todos os seus crimes inafiançáveis contra o esporte (em breve uma lista própria sobre o tema).

Você já viu o que McCarthy é “capaz” de fazer com um time quando não tem um HoF QB ao seu dispor, e ninguém em sã consciência teria prazer em assistir uma continuação deste filme.

Um quase (não) retorno

Quando Aaron retornou no terceiro quarto, os Bears logo abriram 20 pontos de frente – e o quarterback claramente não estava saudável: ele se protegia, tentava permanecer dentro do pocket (o equivalente a uma tentativa de suicídio quando consideramos a OL de Green Bay) e alterava seu posicionamento para evitar sobrecarregar a perna esquerda.

Mas como o próprio Aaron Rodgers afirmaria na entrevista pós-jogo, para retornar a uma partida, basta “fazer algumas boas jogadas” – facilita, claro, quando se é Aaron Rodgers, e não DeShone Kizer. Não estamos falando de ciência aeroespacial aqui, afinal. 

Algumas jogadas depois, Aaron completou cinco passes em um drive, que terminaria com um FG de Mason Crosby; a vantagem do Bears voltava para 17 pontos, mas agora restavam apenas 15 minutos no relógio. Não era uma cenário necessariamente tranquilo. 

Mas quando o Packers recebeu a bola novamente, já no último período, Rodgers precisou de apenas seis jogadas – em quatro delas, ele encontrou Geronimo Allison para, na última delas, conseguir um touchdown de 39 jardas em que a bola FLUTOU EM UMA PARÁBOLA CELESTIAL, reduzindo o déficit para apenas 10 pontos. Convenhamos: ali, você já sabia o que estava por vir.

Um novo three-and-out de Chicago deu mais uma injeção de ADRENALINA ao Packers que, aproveitou a chance com uma conexão de 51 jardas para Davante Adams – que, três jogadas depois, anotaria o TD. Naquela altura, era evidente o colapso mental que rondava o Bears. Mesmo após marchar quase um campo inteiro, o time conseguiu apenas um FG, insuficiente para selar a vitória – a vantagem no placar era de apenas 6 pontos. 

Segundas chances

Pouco menos de três minutos e uma jogada que poderiam ter selado a partida. Logo na primeira tentativa, Kyle Fuller poderia ter interceptado Rodgers, mas dropou a pelota, em um lance aparentemente fácil para um atleta de seu nível.

Contra Aaron Rodgers, tudo que você pode pedir aos céus é uma chance para terminar a partida. Contra Aaron Rodgers, tudo que você não pode ceder, é uma segunda chance: duas jogadas depois, ele encontrou Randall Cobb no meio do campo – e Randall correu 75 jardas para a glória.

Cobb é inegavelmente quem tem mais méritos no sucesso dessa jogada específica – e também inegavelmente o sistema defensivo do Bears teve uma crise de caibrã mental naqueles segundos. Mas, mesmo que tentemos negar, desde o passe para Geronimo Alisson, um lançamento que nenhum outro ser humano poderia fazer, sabíamos o que os próximos minutos reservavam: após um início com apenas três passes completados em sete tentativas e uma lesão, Rodgers terminou a partida com 20 passes (em 30 tentados), para 286 jardas e três TDs – todos no último período.

Algo possível apenas para alguém capaz de fazer uma torcida inteira acreditar graças ao simples fato de estar em campo.

O outro lado

A então improvável vitória de Green Bay também é fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos e apenas 13 partidas como profissional (além de uma dúzia delas em sua carreira universitária).

Durante a primeira etapa (e aqui se inclui o período com Rodgers em campo), o Bears expôs todas as fraquezas do sistema defensivo de Green Bay, tripudiando daquilo que parecia algo formado por torcedores sorteados antes da partida para trajar uniformes e entrar em campo: os RBs Tarik Cohen e Jordan Howard alinhavam no backfield, o OT Charles Leno abria espaços como se estivesse DANÇANDO BALÉ e Clay Matthews tinha como estatística a incrível média de “uma vergonha” por snap. 

Após anos sofrendo nas mãos de John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. No fundo, o Packers só chegou com alguma chance ao terceiro período, porque o LB Blake Martinez era um pequeno sopro de dignidade dentre os “defensores”. Sim, Blake Martinez era o melhor jogador de Green Bay em campo. Leia novamente até acreditar.

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Mas com a mesma velocidade que essa sensação de que um novo ataque havia desembarcado em Illinois chegou, ela desapareceu. Durante todo o segundo tempo, Trubisky se limitou a procurar Cohen e Howard (Allen Robinson e Taylor Gabriel eram meros figurantes), sua confiança diminuiu e algumas oportunidades com recebedores livres foram desperdiçadas.

Claro, não se pode colocar toda a conta da derrota no jovem QB, e sua atuação nos dois últimos períodos tornam a decisão de Matt Nagy em uma jogada crucial, capaz de cravar um punhal em Green Bay, ainda mais questionável: em uma 3&1, com pouco menos de três minutos restantes, na linha de 14 jardas do campo de ataque, Chicago tentou um passe para Anthony Miller que acabou incompleto e resultou em um FG – naquela altura, o jogo estava 23 a 17 e, bem, já falamos sobre como essa história termina.

Nesse instante, a defesa do Bears já não era a mesma: Mack foi incrível nos dois primeiros quartos, mas esperar que ele mantivesse o mesmo nível por 60 minutos com apenas uma semana de treinos seria irreal – tanto que nos últimos períodos ele passou uma quantidade significativa de snaps na linha lateral e, quando esteve em campo, encontrou dificuldades para vencer o RT Byan Bulaga (que havia tido uma atuação trágica antes do intervalo).

Mesmo assim é evidente que melhores dias para a defesa do Bears, com Mack e Roquan Smith cada vez mais entrosados, são mera questão de tempo: tudo que aconteceu em Wisconsin são ótimos sinais a se apegar, sobretudo para uma franquia que precisava desesperadamente de novas perspectivas.

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E não há nada de errado em se agarrar ao “se”: “se” Fuller não tivesse dropado uma interceptação fácil, “se” Howard tivesse corrido aquela maldita jarda ou “se” Mitch enxergasse WRs livres, o Bears teria saído com a vitória.

Claro, não se vive de “se” (já diria o ditado: “se estivesse um rio aqui, eu estaria pescando, e não escrevendo merda“), mas há diversas novas possibilidades que valem a pena ter em conta quando olharmos os próximos passos do Chicago Bears em 2018.

Na primeira partida, porém, uma festa que parecia certa foi estragada. Mas foi estragada por uma dos melhores jogadores da história. Não há motivos para desespero: os dias de Chicago na NFC North podem (e devem) chegar em breve. Desde que, claro, Aaron Rodgers não consiga se apoiar em pé no Lambeau Field.

O respeito voltou

Quando foi a última vez que você respeitou o Chicago Bears pelo que a franquia é no presente? É difícil lembrar. O time não joga os playoffs desde o começo da década e, quando esteve próximo de quebrar a sequência negativa, acabou colapsando de maneira que só Aaron Rodgers é capaz de explicar. Antes de tudo isso, bem… Acreditamos que o amigo leitor não quer gastar seu tempo lendo sobre Rex Grossman.

Essa inércia que só se deslocava em direção a fracassos era representada, principalmente, por Jay Cutler. Você sabe quem ele é. A paciência da diretoria com a apatia de Jay eventualmente se esgotou e, ao final da temporada 2016/17, Cutler foi enfim chutado da franquia.

Para o seu lugar o time foi atrás de Mike Glennon, que nos reservamos o direito de ignorar, já que também foi defenestrado de Illionois. Além dele, o Bears selecionou Mitch Trubisky no draft, gastando – desnecessariamente – algumas escolhas para isso. Após anos vivendo a experiência Jay Cutler, Chicago percebeu que uma equipe reflete o seu quarterback. Se ele é um vencedor, a franquia tende a seguir o mesmo caminho. Se não é… Bem, existem outros esportes para acompanhar.

Por isso, a escolha de Mitch simboliza a virada nos rumos de um time que, além de tudo, carecia de uma personalidade. Agora, com seu novo QB – e seu contrato de calouro – o Bears espera montar uma equipe jovem, dinâmica e capaz de competir com a elite da liga.

Iniciando o processo

O início de carreira de Trubisky não foi muito promissor. Após começar no banco de Glennon, o jovem finalmente recebeu a oportunidade para mostrar seu valor. As atuações não inspiraram muito confiança, mas podemos atribuir isso a dois fatores: em primeiro lugar, o sistema montado pelo técnico John Fox era voltado para uma época em que Jon Gruden ainda prestava como HC; em segundo lugar, não era segredo pra ninguém que Mitch não chegava à NFL “pronto”, seria necessário tempo para que ele pudesse moldar seu jogo ao nível profissional.

Em outros tempos, provavelmente não teríamos essa boa vontade com Trubisky. Acontece que, após protagonizar uma das piores temporadas de calouro da história, Jared Goff provou que é possível realizar um grande salto de qualidade e produtividade no segundo ano.

Percebendo as novas tendências ofensivas da liga e o sucesso de Goff em Los Angeles, Chicago decidiu copiar esse processo. Para isso, a franquia buscou Matt Nagy que, assim como Sean McVay, é uma mente ofensiva da nova geração. A expectativa é que Nagy consiga extrair de Mitch resultados semelhantes aos que McVay conseguiu de Goff.

Está saindo da jaula, o monstro (?)

Para dar continuidade ao processo “salvem a carreira de Trubisky e os nossos traseiros da demissão“, o Bears percebeu que precisava de Wide Receivers. Não de Wide Receivers novos ou promissores, de Wide Receivers mesmo. Afinal, uma pequena busca pelos “tops” do time na posição em 2017 tem Titus Davis (conhecido pelo pseudônimo QUEM?) como primeiro retorno. O resto do elenco você pode encontrar nas famosas listas “Que fim levou?”, de nosso concorrente mais rico.

Por isso, foram contratados Allen Robinson, que conseguiu se provar útil mesmo recebendo passes de Blake Bortles e Taylor Gabriel, que quando usado efetivamente pode ser uma espécie de curinga no ataque. No draft, a escolha de Anthony Miller dará a Kevin White a tranquilidade para não ser nem o WR3, o que pode ajudá-lo a, enfim, deslanchar. Além deles, para a posição de TE, Trey Burton poderá mostrar que é muito mais que uma jogadinha ensaiada – aliás, saudades.

Fechando o ataque, a linha ofensiva composta por Bobby Massie, Kyle Long, Cody Whitehair, Eric Kush e Charles Leno Jr não apenas não compromete, como não surpreenderia se fosse uma 6 ou 7 melhores da NFL no ano. Também underrated, o RB Jordan Howard forma uma dupla interessante com Tarik Cohen, ainda mais agora que estão sob a batuta da mente ofensiva de Matt Nagy.

A defesa, esta sim, uma besta enjaulada com ódio

É importante destacar que, se esse preview tivesse sido escrito com antecedência, os elogios a defesa dos Bears também estariam presentes. Porém, como você já deve saber, a unidade saltou de um bom grupo com grande potencial para uma das grandes forças da conferência, mesmo se tratando da forte NFC.

Khalil Mack, um dos jogadores mais consistentes do esporte e um dos três melhores defensores dos últimos anos, chega para ser o grande nome de um grupo que já era bom, mas ainda não tinha uma super-estrela como ele. Ao seu lado, estará uma linha defensiva composta por Akiem Hicks e Eddie Goldman, ambos bons jogadores, além do LB Leonard Floyd que, além de ótimo jogador, se beneficiará da atenção que será dada aos talentos de Mack. Fechando o grupo de linebackers, Roquan Smith, um dos calouros mais interessantes do ano – e que de fato conhecemos, afinal esteve nos playoffs do College – jogará junto de Danny Trevathan, outro, adivinhem, bom jogador.

Na secundária, Adrian Amos e Eddie Jackson formam uma dupla interessante e underrated que pode inclusive melhorar em relação ao ano anterior, já que tratam-se de jogadores novos. Por fim, Prince Amukamara e Kyle Fuller não formam a melhor tandem de CBs, mas, quando são eles o (talvez) elo mais fraco da defesa, é um sinal de que será difícil se preparar para enfrentar essa unidade em 2018.

Palpite

Por se tratar de um time novo, um QB ainda inexperiente e um Head Coach em seu primeiro ano, o Bears, mesmo sendo uma franquia de potencial, ainda é muito imprevisível. Um cenário em que as peças não se encaixem como o esperado é perfeitamente plausível, assim como uma situação parecida como a dos Rams em 2017, em que tudo vai bem, obrigado e a equipe surpreende a todos. Como a possibilidade mais razoável provavelmente é o meio-termo, podemos esperar uma evolução considerável em relação aos anos anteriores. Porém, levando em conta os times da NFC e da própria divisão, sonhar com playoffs já em 2018 pode ser demais. Mais que um bom record final, o que o torcedor mais espera é que a temporada mostre que a franquia está, enfim, de volta ao caminho das vitórias.