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Semana #5: os melhores piores momentos

O protocolo pede para que sempre haja um textinho de introdução antes de ir direto ao que interessa. Como sabemos que você vai pular essa parte da coluna, vamos direto ao que interessa.

1 – Começando com o pé torto: o Thursday Night Football

O Tampa Bay Buccaneers sofre com uma maldição que não acomete times grandes, apenas Buffalo Bills e Minnesota Vikings da vida: a franquia não consegue achar um kicker. Roberto Aguayo foi escolhido na segunda rodada do draft em 2016 para, um ano depois, ser chutado pelos restos de perna que habitavam o corpo de Nick Folk.

Aguayo está sem time e Nick Folk perdeu gloriosos três (!!!) Field Goals na derrota dos Bucs para os Patriots. Mas, vamos dar um desconto para o rapaz. O último chute era de trinta e uma jardas.

Errou.

2 – Prêmio Dez Bryant da Semana. 

Gostamos de deixar para dar o Troféu Dez Bryant – o único que premia o jogador de nome que você não pôde confiar durante a rodada – no final da coluna, mas abrimos uma exceção para Ben “Big Ben” Roethlisberger. Afinal, todos já sabiam. Cinco interceptações, duas pick sixes. Não temos mais o que dizer. Parabéns!

Procurando o fundo do poço.

3 – Interceptações medonhas: quem tem QB, tem medo.

Os que não tem choram.

3.1 – Jay Cutler

Estamos negociando os últimos detalhes para que Cutler se torne o patrocinador da coluna no lugar deixado por Andy Dalton.

3.2 – Jared Goff 

Até ontem ele era chamado de bust. Entenda aqui o porque.

3.3 – Jared Goff 2: O Inimigo Agora é Outro

Interceptado em um screen, bicho.

4 – Drops medonhos: na dúvida, vire jogador de soccer.

4.1 – Cooper Kupp

Porque ninguém atrapalha o comeback do nosso Jared Goff e sai impune.

4.2 – O guerreiro #34 de Minnesota

Todos sabemos que receivers que não sabem agarrar a bola viram defensive backs. Nem sempre isso é bom.

5 – Apenas mais uma cagada dos Special Teams do Indianapolis Colts

A unidade que já nos brindou com momentos inesquecíveis ataca novamente. Vamos deixar algo bem claro: se uma jogada nunca foi feita anteriormente na NFL, é bem provável que isso se dê porque ela é uma merda. E não é Chuck Pagano que vai descobrir algum conceito revolucionário. Apenas pare com isso, Colts.

6 – Imagens que trazem PAZ.

6.1 – Os 49ers ainda são péssimos

Porque você não vê muitos sacks em 2 men rush. Aliás, você não vê nem muitos 2 men rush. 

6.2 – Matt Cassel

A culpa não é dele, a culpa é de quem o coloca para jogar. Aqui vemos ele parindo uma futebola em um fumble deveras bizarro.

6.3 – “A bola tá vindo, o que é que eu faço?” ou “O não-retorno de Tavon Austin”

Era um fair catch. O único obstáculo dele era ele mesmo. Não foi suficiente.

7 – A segunda melhor coisa que o Chicago Bears fez no ano.

A primeira, claro, foi selecionar Mitch Trubisky. Um fake punt, um touchdown, defensores passando vergonha. São momentos como esse que alimentam o servidor do Pick Six Brasil.

Você pode nos ajudar a fazer essa coluna semanalmente! Viu algo de horrível que acha que deve ser destacado? Mande para o nosso Twitter que com certeza vamos considerar!

Tempo perdido: Jay Christopher Cutler, você não sabe jogar!

2009 já parece um tanto distante, mas a lista de qualidades que apontavam Jay Cutler como o salvador do Chicago Bears era relativamente palpável: Chicago era uma franquia historicamente sedenta por quarterbacks e Jay era um jovem de 25 anos que vinha de uma temporada de 4500 jardas e 25 touchdowns – poderia não ser perfeito, mas era, ao menos, uma esperança concreta, mesmo que fosse preciso relevar a petulância de seus últimos dias em Denver.

Agora já se vão oito anos desde aquela noite de abril. E do instante em que Cutler posou com Lovie Smith e Jerry Angelo no Hallas Hall, já passaram por Chicago outros dois head coaches e dois GMs, além de meia dúzia de coordenadores ofensivos. E com Cutler, Chicago foi aos playoffs apenas uma vez, o mesmo número de presenças na pós-temporada entregue por quarterbacks como Rex Grossman e Kyle Orton.

Hoje, a história entre Cutler e sua equipe, está naquele ponto em que uma decisão precisa ser tomada. E sabemos que desistir é, no fundo, uma grande merda. Desde o início de nossas vidas, somos ensinados a nunca desistir. É o que também esperamos daqueles que estão dentro de um campo de football, afinal, ele é um reflexo bem próximo da vida. Mas em alguns casos você irá perceber que na verdade não está desistindo de nada: você só está preso a um jogador horrível e precisa admitir que após anos e anos de tentativas frustradas, é hora de seguir em frente.

O caminho até a NFL

Criticar o destino final conhecendo o caminho percorrido é extramente confortável, então vamos olhar em retrospecto. A classe de 2006 do draft não foi lá muito prolífica em QBs, mas mesmo assim nomes como Mike Mayock e Steve Young saíram em defesa de Cutler – deixando atrás Matt Leinart, vencedor do Heisman em 2004 (15 TDs e 21 INT em sua carreira na NFL) e Vince Young, este com 45 TDs e 51 INT em seis anos de liga.

Paradoxalmente, enquanto Leinart e Young protagonizaram um dos maiores jogos da história do college football, a carreira universitária de Cutler em Vanderbilt terminava com uma derrota para Kentucky – e tanto Leinart quanto Young venceram mais jogos em 2005 do que Cutler em todo seu período na universidade. Mas conforme o draft se aproximava, a narrativa sobre Jay tomava um novo rumo: tudo que ele havia conquistado em Vanderbilt (basicamente um First Team All-SEC em 2005), ele fizera sem muito auxílio; Cutler não tinha os holofotes que Leinart e Young tinham, mas contava com um braço assustadoramente forte e, sobretudo, vontade de usá-lo. “Creio que ele tem um release mais rápido que qualquer um dos dois. É um cara duro e acho que ele jogou atrás de uma linha ofensiva muito pobre”, era o que diziam analistas na época.

Na semana do draft, especulava-se que ao menos seis equipes estariam interessadas em Jay Cutler: Floyd Reese, GM do Titans, o encontrou várias vezes. O New York Jets também estava bem posicionado para selecioná-lo, mas foi Denver quem agiu, subiu posições e o escolheu na 11ª posição.

Primeiras impressões

Já nos cinco jogos finais de sua primeira temporada, Cutler colocou Jake Plummer no banco; Jake ostentava 39 vitórias e 15 derrotas em temporada regular com os Broncos, mas vinha de sua pior fase e, enfim, as perspectivas futuras com Cutler pareciam muito mais promissoras do que manter Plummer.

E assim foram os dois anos seguintes de Jay Cutler na NFL; um misto entre indícios de um futuro possível e um presente irrelevante. Em 2008, porém, forçado por um defesa ridícula, Jay precisou lançar 616 passes, que resultaram em 4526 jardas, 25 touchdowns e 18 INT. Ao final daquela temporada, Mike Shanahan perdeu o emprego e os Broncos buscaram o OC Josh McDaniels em New England. E foi quando tudo começou a ruir.

Aquela carinha de “foda-se”.

O Jay Cutler que conhecemos e a oportunidade única

Bus Cook, agente de Cutler, disse à AP que Denver, junto com McDaniels, iria trazer Matt Cassel, que acabara de substituir Tom Brady por um ano e tivera 10 vitórias. O que sabemos nunca aconteceu. E Cutler reagiu da maneira que Jay Cutler reagiria: recusou-se a falar tanto com McDaniels como com Pat Bowlen, proprietário do Broncos.

E apesar de mais tarde Cutler ter negado que teria pedido uma troca, suas declarações iam na direção contrária das de seu agente. “Não me importa se você fala em trocá-lo por Matt Cassel, Matt Ryan ou Tom Brady, você não está dando um voto de confiança para ele. É assim que Jay vê, e eu faria da mesma forma”, afirmou Bus. Já McDaniels declarava que não queria trocar Cutler, que ele era o quarterback do Broncos. Então, 40 dias depois, Cutler desembarcava no Soldier Field.

Jerry Angelo, GM de Chicago por mais de uma década, definiu a chegada de Cutler como “uma oportunidade única”. Para ele, franchise quarterbacks de 26 anos não se tornavam disponíveis e era preciso agarrá-los, mesmo que o preço fosse salgado – e Jay (mais uma escolha de quinto round) custou para os Bears duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira, além de Kyle Orton. Mas, como Angelo insistia em frisar, era uma oportunidade única, um mergulho na loucura para que os Bears deixassem uma mediocridade já latente.

Início de um longo pesadelo

A primeira temporada de Cutler em Chicago foi uma grande tragédia. Logo em sua estreia, ele lançou quatro interceptações – em uma partida que o Bears perdeu por apenas seis pontos. Naquele mesmo dia, o LB Brian Urlacher, que passaria seus 13 anos de carreira em Chicago, fraturou o pulso e ficou fora do restante da temporada. Foi a gota d’água para o sistema defensivo do Bears, então um dos mais confiáveis da NFL, implodir.

Lançando passes freneticamente, Cutler terminaria o ano com 26 INT, sendo que em sete das 16 partidas ele foi interceptado mais de uma vez. Ao final daquela temporada também teríamos o início de um filme reprisado intensamente na era Cutler em Chicago: o OC Ron Turner, incapaz de extrair o melhor de seu novo QB, jovem e brilhante, foi demitido; começava a relação cíclica dos Bears com seus OCs, tão estável quanto relacionamentos adolescentes.

Já o segundo ano de Jay em Chicago, 2010, traz um paradoxo: o Bears venceu muito naquela temporada; foram 11 vitórias e o título da NFC North. Mas isso pouco tem a ver com seu ataque; na offseason Chicago assinou com um Julius Peppers em sua melhor forma o que, junto ao retorno de Urlacher, reacendeu o sistema defensivo – que saltaria da 21ª em 2009 para a 4ª posição em 2010, claramente entre as melhores da NFL. Já o ataque, bem, Cutler foi sackado incríveis 52 vezes naquela temporada, que resultaram em mais de 350 jardas perdidas; foram ainda 23 TDs e 16 INT, para um rating de 86.3.

Tudo isso culminou no NFC Championship, que deve assombrar os torcedores de Chicago e Jay Cutler até hoje: logo no início da partida, Cutler torceu o joelho e os Bears precisaram contar com um inútil Todd Collins (que durou menos que Cutler em campo) e, logo depois, Caleb Haine, que praticamente estreava na NFL em um Championship Game. Mesmo com a defesa segurando Aaron Rodgers e o Packers em 21 pontos, era um ataque inexistente e tudo foi em vão.

Com o ataque paralisado e Cutler na sideline, as críticas eram inevitáveis. Darnell Dockett, DE do Cardinals, esculachou. Mike Ditka, um dos técnicos mais vitoriosos da história do Bears, também não deixou barato. Cutler era, pela primeira vez, o alvo real da ira de toda comunidade de Chicago.

“Neva até soterrar esse demente”, teria pedido um torcedor do Bears.

Recomeço?

Com um novo ano, há sempre novos planos e após perder a chance de chegar ao Super Bowl, Chicago começou a temporada com uma campanha 7-3, com Cutler com os melhores números de sua carreira, e a defesa novamente no topo da NFL. Próximos da sétima vitória, porém, Jay Cutler lançou uma interceptação, recebeu um bloqueio e aquela que provavelmente foi sua última real chance de redenção se despedaçou com seu polegar direito – o Bears foi forçado a seguir com Caleb Haine, que teve uma vitória nas seis partidas seguintes.

Ao final daquela temporada, muito mudou em Chicago. Jerry Angelo foi o primeiro a deixar Illinois. Phil Emery assumiu o cargo de GM e passaria os próximos quase dois anos tentando construir um ambiente favorável para Jay; todos os movimentos foram pensados para ajudá-lo a prosperar: Emery conseguiu uma troca que trouxe o WR Brandon Marshall, com quem Cutler tivera relativo êxito no Broncos, além de buscar Alshon Jeffery no draft. Mesmo vencendo 10 partidas em 2012, o Bears não chegou aos playoffs, então Emery julgou o momento como certo par demitir o HC Lovie Smith, que foi substituído por Marc Trestman, reconhecido em toda NFL por seu trabalho com quarterbacks. Já da free agency chegaram o TE Martellus Bennet e o LT Jermon Bushrod, enquanto o G Kyle Long foi selecionado na primeira rodada do draft para tornar o OL ainda mais consistente: em 18 meses Emery tinha mudado toda a estrutura do Bears, moldando o ataque do time às características de seu QB.

O objetivo, de certa forma, foi atingido: Brandon Marshall era um dos melhores WRs da NFL, Jeffery uma estrela em ascensão e Cutler atingia seu melhor rating desde que deixara Denver. Mas estamos falando de Jay Cutler e com ele não há um ano sem que haja uma turbulência: passada metade da temporada, Jay lesionou a virilha, dando lugar a Josh McCown, que postou um rating de 109, lançou 13 TDs e apenas 1 INT durante o período em que comandou o ataque do Bears. Quando Cutler foi liberado pelo departamento médico para retornar, claro, não houve unanimidade. Mas Trestman optou por Jay, e na semana 17 um tropeço contra Green Bay lhes custou a vaga nos playoffs.

Tudo isto culminou em… um novo e gigantesco contrato para Cutler. Tudo bem, era preciso considerar o ano anterior e o fato de que tanto Marshall como Jeffery tinham sinergia com Jay, então suas deficiências passadas pareciam contornadas. Além de Emery ter montado uma equipe para Cutler: ele finalmente seria o jogador que o Bears esperava, então Phil lhe entregou um contrato de sete anos no valor de US$ 126 milhões, sendo US$54 milhões garantidos.

Na época, o novo acordo foi considerado um preço a ser pago na NFL e moldou os contratos seguintes de quarterbacks. Mesmo assim, muitos o apontaram como o tipo de contrato que só é estabelecido com um QB que você tem plena certeza que o levará ao SB.

De qualquer forma, para Chicago, não era algo normal, mas talvez também estivesse longe de ser algo absurdo, afinal ainda havia um resquício de chance de Jay se tornar o franchise QB que o Bears buscara em abril de 2009. Era preciso acreditar nisso, era preciso ter fé. E foi o que Emery e Trestman fizeram; eles tiveram fé em Jay Cutler, apenas para  ela se provar errada e ambos terminarem o ano desempregados.

Presos no tempo

Tudo isto nos mostra que a relação entre Cutler e Chicago não é apenas um recorte interno da história do próprio Bears, não é apenas sobre Jay Cutler, ano após ano, se afogando em um mar de desculpas esfarrapadas. O que aconteceu com Chicago e Jay ao longo destes oito anos é um reflexo real da nossa forma de arrumar desculpas diariamente: quando caras como Lovie Smith, Marc Trestman ou mesmo Mike Shanahan se tornam bodes expiatórios, quando tantos outros são culpados por um problema, substituídos, mas o problema persiste, talvez você não esteja identificando o real problema.

“Foi culpa da defesa”, “No final das contas, foi uma boa temporada”, “Precisamos ser mais compreensivos”, “Há alguns jovens que precisam de mais tempo para se desenvolver”… Foram vários os discursos recorrentes que acabaram soando como as mesmas velhas desculpas. E enquanto elas eram repetidas, Cutler seguia ali: ele já não era mais tão jovem, mas a decepção continuava.

Talvez não exista em nenhum esporte coletivo uma posição com a carga de representatividade que um quarterback traz consigo. Nos atendo apenas a NFL, você pode ter o melhor RB disponível, dois WRs incríveis ou mesmo uma defesa espetacular: no fim do dia, é naquele cara que está logo atrás do center que você deposita suas esperanças; é ele quem precisa liderar, é ele quem deve fazer tudo funcionar.

Lógico, uma equipe pode vencer sem um bom QB, mas se ele não vai bem, sempre haverá essa preocupação recorrente; maus quarterbacks podem despedaçar qualquer sonho de um fã de football. E nos últimos oito anos não existiu alguém que destruísse sonhos com tanta eficiência como Jay Christopher Cutler. E Cutler sempre teve tudo o que precisou para ser um franchise quarterback, mas ele não é confiável, ele não pode liderar a equipe.

Em linhas gerais, Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter algum tipo de simpatia por quem a tortura. Se ela pode ser transposta à NFL, não há um exemplo melhor que a relação entre Cutler e o Bears: enquanto Chicago sempre procurou alguém para culpar, proprietários, treinadores, linha ofensiva ou qualquer outro elemento, talvez finalmente estejamos chegando no momento em que só reste admitir que Jay Cutler simplesmente não sabe jogar. Que Jay Cutler simplesmente não se importa.