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Enfrentando os mesmos velhos problemas

Após uma nova implosão e a perda do NFC Championship Game para o Atlanta Falcons por 44 a 21 – aliás, a segunda vez que Green Bay bateu na porta do Super Bowl em três anos –, Aaron Rodgers foi a público, com ar não tão sutil como o habitual.

“Não creio que precisamos nos reconstruir. Precisamos, na verdade, nos recarregar”, disse naquela noite após a derrota. “Temos apenas que ter certeza que temos todo o necessário para vencer a cada ano”, completou.

O fato é que as expectativas sempre estarão altas quando nos referirmos a um ataque comandado por Aaron Rodgers; as esperanças dos cheeseheads de retornar ao Super Bowl estão seguras enquanto Rodgers liderá-los. O outro lado da linha, porém, é onde está o caminho para o sucesso: mais uma vez, os sonhos de Green Bay, passam pela defesa.

Reconstruindo sem implodir

Green Bay viu nesta offseason um Ted Thompson mais arrojado (para os padrões de Ted Thompson, claro), com alguns movimentos na free agency e uma dúzia de escolhas no draft focadas em preencher buracos específicos no roster: a cobertura contra o passe, por exemplo, beirou a tragédia na última temporada, então o GM trouxe Davon House de volta para Wisconsin e selecionou o CB Kevin King no topo da segunda rodada também para reforçar o setor.

Já para o corpo de linebackers, Thompson trouxe o veterano Ahmad Brooks, cortado pelo 49ers – você pode não se empolgar com esta contratação, e será compreensível, mas lembre-se do novo gás que o Packers proporcionou para a carreira do também veterano Julius Peppers quando o contratou. Já para o ataque, a adição do TE Martellus Bennett fez com que a equipe nada se importasse com a perda de Jared Cook.

Pelo chão

Um sucesso ofensivo de Green Bay ainda maior que o esperado passa por seu jogo corrido: Ty Montgomery agora é o motor de arranque deste sistema ofensivo – e uma ameaça constante; obviamente, seu passado recente como WR mostra que ele pode alternar posições e se tornar um recebedor confiável, tornando-se uma possibilidade a mais que defesas adversárias terão que encontrar forma de neutralizar.

Mas apesar do sucesso na metade final do ano passado, Ty ainda precisará provar que pode lidar com a carga de uma temporada completa – e, para isso, ele contará com a ajuda de três rookies: Jammal Wiliams, Aaron Jones e Devante Mays, selecionados na quarta, quinta e sétima rodadas do último draft.

Durante a pré-temporada, William se mostrou um ótimo bloqueador, enquanto Aaron Jones teve algumas boas jogadas explosivas – já Mays tende a alternar entre o nada e o Practice Squad. De qualquer forma, já é um cenário melhor para o jogo terrestre do que aquele que o Packers viveu nos últimos anos – Lacy nos deixou pela gastronomia de Seattle e James Starks (obrigado por tudo) já deve estar curtindo a aposentadoria.

Pode confiar.

Uma incógnita em forma de linha

Green Bay teve uma das melhores OLs da NFL na temporada passada – mas perdeu TJ Lang e JC Tretter nesta offseason. O adeus de Tretter não seria tão sentido se Corey Linsley não estivesse retornando de (mais uma) cirurgia no tornozelo; Corey é um ótimo C, mas perdeu 10 partidas nas duas últimas temporadas, então sua saúde se torna uma questão central, já que não há um substituto viável para ele.

Já a deserção de Lang para Detroit (Deus encarregou de puni-lo o despachando para aquela desgraça de time), é muito mais preocupante: apesar da tristeza por vê-lo vestindo azul, é inegável que TJ se consolidou com um dos melhores G da NFL em Green Bay – além de um dos melhores atores que Hollywood já viu.

TJ será substituído por Jahri Evans e só de pensar nisso meus olhos já sangram. Como se isso não bastasse, há ainda Lane Taylor, outra desgraça em forma de guard. O lado bom é que os tackles David Bakhtiari e Bryan Bulaga retornam e, considerando o estado atual do interior da OL de Green Bay, isso já deve bastar para deixar Aaron Rodgers minimamente feliz.

Pelo ar

O arsenal ofensivo de Rodgers permanece praticamente o mesmo, exceto pela partida de Jared Cook – Cook sempre foi um alvo cobiçado por qualquer franquia, especialmente devido ao seu potencial atlético, mas também é verdade que ele nunca respondeu a altura das expectativas.

Para seu lugar foi contratado Martellus Bennett, e nenhum torcedor do Packers em sã consciência sentirá saudades de Cook. Martellus, aliás, vem de uma temporada em que recebeu 55 passes para 701 jardas e 7 TDs com os Patriots; ele será um alvo intermediário para Aaron muito mais confiável do que foram Cook e Richard Rodgers nos últimos anos.

Como WRs, as três principais opções se mantém: Jordy Nelson, um dos melhores WRs da NFL (aceitem logo e parem de negar a verdade), recém completou 32 anos, então um pequeno declínio pode ser sentido, mas com Nelson se mantendo saudável, não há nada que possa preocupar. Randall Cobb, porém, precisa se recuperar após duas temporadas medianas e com algumas lesões, enquanto para Davante Adams basta repetir 70% do que fez em 2016 e o torcedor do Packers já estará feliz.

A grande interrogação

A principal razão para Green Bay ter iniciado a última temporada com 4 vitórias e 6 derrotas foi a desgraça que se tornou sua secundária: nenhum CB foi minimamente confiável. Então utilizar sua primeira escolha no draft em um atleta da posição foi natural.

Kevin King veio de Washington para preencher esta lacuna, mas apesar de talentoso e com ótimo potencial físico, trata-se de um jogador ainda cru, que talvez precise de algumas semanas para assumir a titularidade. Enquanto isso não ocorre, também para o setor, há o retorno de Davon House, que lutou contra um Jaguars horrível no último ano, mas mesmo assim teve bons jogos individuais.

Já com os S não há tanto com o que se preocupar: Morgan Burnett e HaHa Clinton-Dix são ótimos talentos, e não existe razão para acreditar que eles irão regredir, já que estão com 28 e 24 anos respectivamente – aliás, Burnett entra em seu ano final de contrato com os Packers, que também podem significar seus últimos dias em Green Bay antes de garantir a aposentadoria dos seus bisnetos.

Já Julius Peppers retornou a Carolina, deixando com o recém chegado Ahmad Brooks a função de preencher os espaços deixados por Clay Matthews, já que há muito tempo, lutando contra lesões, Clay não é mais o mesmo. O ponto positivo é que Nick Perry (11 sacks em 2016) retorna cada vez melhor e tanto Kyler Fackrell e Vince Biegel (este quando conseguir estrear), podem trazer um pouco mais de profundidade ao setor.

Para a DL, Green Bay trouxe Ricky Jean-Francois na FA e Montravius Adams na terceira rodada do draft; ambos devem alternar com Kenny Clark, que deve retornar melhor após uma temporada de estreia apenas razoável. O melhor jogador, porém, seguirá sendo Mike Daniels – subestimado, afinal, os números não refletem seu real valor.

Palpite: enquanto existir Aaron Rodgers e uma defesa minimamente capaz de permanecer em pé, Green Bay levará a NFC North. Para trazer o Lombardi Trophy de volta para o Wisconsin, porém, é preciso de muito mais que um sistema defensivo com coordenação motora e hoje Green Bay não possui uma grande defesa. É preciso então que essa infinidade de rookies se encaixem sem maiores problemas, quase que com uma sinergia cósmica. A boa notícia é que estamos em um ano em que os planetas estarão perfeitamente alinhados, então resta apenas esperar, gelar a cerveja e se decepcionar novamente em janeiro.

Do desapego a um ciclo sem fim: o método Belichick

A NFL está repleta de jogadores com que ninguém se importa – o terceiro CB que só os torcedores conhecem, o backup OL que nunca entrou em campo, ou até mesmo uma escolha do draft do tempo que você não entendia bulhufas sobre futebol americano (também conhecido como “semana passada”).

E, a cada ano, esse ciclo de desconhecidos se renova, com centenas de atletas entrando e saindo da liga: não se engane, aquelas listas intermináveis de cortes no início da temporada são compostas por seres humanos reais, como eu e você.

Mas e se seu time conseguisse encontrar, nesses jogadores desconhecidos, indesejados ou supostamente irrelevantes, peças importantes para montar o elenco? A verdade é que na maioria esmagadora das vezes esses atletas realmente não são grandes talentos – afinal, se fossem, não estariam escondidos no meio do roster do Detroit Lions.

Mesmo assim, eles podem ter um conjunto único de características e habilidades que, se aproveitados corretamente, irão produzir um jogador eficiente na rotação ou até mesmo um titular de qualidade.

Tomemos como exemplo as mais recentes aquisições (via troca) do New England Patriots: o CB Eric Rowe, do Philadelphia Eagles, o TE Martellus Bennett, do Chicago Bears e o LB Kyle Van Noy, do Detroit Lions. Rowe era uma escolha de 2ª rodada que não se firmou em Philly, tanto que Howie Roseman não exitou em despachá-lo para o norte por uma escolha de 4ª rodada em 2018 (!!!).

Já Bennett é figurinha conhecida na liga, já tendo mostrado o seu valor em diversas oportunidades. Mesmo assim, Chicago achou interessante se livrar do jogador e de uma escolha de 6ª rodada por uma de 4ª. Sabe quando você tem uma figurinha que seu amigo precisa e, mesmo ela sendo rara, você troca ela pau a pau? Foi isso que Ryan Pace fez.

Só bala boa.

Enfim, sobre Van Noy, em respeito a sua inteligência, caro leitor, não vou sequer fingir saber quem era, mas Bill Belichick viu valor suficiente no jogador e enviou uma escolha de 6ª rodada para Detroit em troca.

Rowe e Van Noy foram jogadores valiosos na defesa no último ano, tendo coroado temporadas sólidas jogando aproximadamente ⅓ dos snaps da unidade no Super Bowl. Já Bennett substituiu Rob Gronkowski a altura e suas cinco recepções para 62 jardas na final ajudaram os Patriots na maior vitória de sua história.

Apenas para efeito de comparação: as duas trocas de escolhas de fim de draft que o Indianapolis Colts fez para a última temporada, sequer terminaram o ano com a franquia: o LB Sio Moore, que já está na sua 3ª ou 4ª equipe depois que foi chutado, e o DE Billy Winn, que você não deve conhecer, mas jogou em Denver em 2016. Temos certeza que seu time também coleciona alguns fracassos com aquisições do tipo.

Para mostrar que não se trata de um fato isolado, voltemos para 2014, ano em que os Patriots também venceram o Super Bowl e também fizeram algumas aquisições under the radar. Naquela temporada, New England adquiriu o LB Akeem Ayers, dos Titans, e uma escolha de 7ª rodada, por uma de 6ª. Ayers jogou 23% dos snaps na final.

E não são só trocas que ajudam a construir o elenco de New England. As aquisições de jogadores não-muito-gabaritados ao redor da liga permitem ao time manter o Salary Cap sob controle e, ainda assim, reforçar o roster no mercado:

    •  O WR Chris Hogan, o menino destinado a correr eternamente na secundária de Pittsburgh, assinou contrato de 3 anos e 12 milhões de dólares.
    • O RB Dion Lewis, que rodou por metade da liga e achou seu lugar em Foxborough, receberá 1.2 milhões de dólares esse ano.
    • O DT Alan Branch, escolhido em 2007, só foi se firmar na defesa dos Patriots, em 2014. Branch já está no seu terceiro contrato com a franquia.

E a lista continua com nomes como Rob Ninkovich, Jabaal Sheard, Chris Long e Brandon LaFell. Jogadores que não chegaram para resolver problemas, mas ajudar a compôr o elenco e cumpriram/cumprem muito bem esse papel.

Além disso, existe uma categoria especial para aqueles que só renderam em New England, como o RB LeGarette Blount e o S Patrick Chung que, após saírem, só duraram um ano ou menos longe do Gillete Stadium.

E onde está a mágica por trás disso tudo? A resposta é simples. Bill Belichick não busca os jogadores mais talentosos ou com maior hype. O treinador procura jogadores com habilidades que se encaixam no esquema dos Patriots. Você não vê New England com um bando de talentos em determinada posição sem saber utilizá-los, como é o caso de outras equipes – os Rams, por exemplo, estão até hoje tentando entender como usar o WR Tavon Austin.

Uma prova disso é a forma como os Patriots não se apegam a nenhum jogador não chamado Brady: Chandler Jones e Jamie Collins eram dois dos melhores nomes da defesa, mas Belichick preferiu trocá-los nessa temporada. Ambos receberam uma bolada de grana de suas equipes e, enquanto isso, Bill colecionava o quinto anel, chegando ao Super Bowl como uma das melhores defesas da NFL.

Para essa temporada, a fórmula segue a mesma e New England trocou todas as suas escolhas do draft por jogadores que Belichick queria:

    • primeira rodada pelo WR Brandin Cooks;
    • segunda rodada  pelo DE Kony Ealy (e uma escolha do alto da terceira rodada);
    • quarta rodada pelo TE Dwayne Allen (e uma escolha de sexta rodada).
    • as outras escolhas também foram trocas por jogadores: o já citado Kyle Van Noy, o LB Barkevious Mingo e o TE Michael Williams.

Além disso, mais jogadores da categoria você-não-conhecia-mas-em-New-England-serão-astros foram contratados: RBs Mike Gillislee e Rex Burkhead, além do DT Lawrence Guy.

E, por fim, claro, jogadores caros, sendo Dont’a Hightower a exceção, foram chutados: Logan Ryan assinou com os Titans, Jabaal Sheard assinou com os Colts e Martellus Bennett assinou com os Packers. Com isso Belichick ainda pode receber algumas escolhas compensatórias. E então reiniciar todo esse maldito ciclo com que já estamos acostumados: a cada final de temporada, uma nova velha tristeza.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBR e acredita piamente que Chuck Pagano é o próximo Bill Belichick.