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Senso de urgência

Muito era esperado do Detroit Lions e de quebra de Matthew Stafford quando o quarterback assinou um contrato de 6 anos e US$135 milhões em agosto passado. O resultado foi decepcionante: o Lions ficou fora da pós-temporada e Stafford não repetiu as boas atuações de um passado não tão distante. A campanha resultou na demissão de Jim Caldwell e na contratação de Matt Patricia como HC.

Indiretamente é um reencontro em que todos estão apostando: o GM Bob Quinn, responsável pela contratação, passou mais de uma década com Patricia em New England – nas últimas seis temporadas, Matt foi o DC dos Patriots – e o objetivo é implantar o tão alardeado “modelo Patriots” (não sabemos o que isso quer dizer) em uma franquia onde as palavras “sucesso” e “playoffs” teimar em não se encontrar.

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Mas mesmo com contratos até 2022, tanto Quinn como Patricia sabem que há um senso de urgência para vencer agora, com Stafford ainda próximo de seu auge e uma estrutura de apoio que Bob lutou para construir nas últimas três temporadas.

Onde pouco (ou nada) deve mudar

Em meio a todas estas mudanças em SETORES BUROCRÁTICOS, algo permanece imutável em Detroit: Stafford retorna para sua 10ª temporada, com uma sequência de 112 jogos ininterruptos – a terceira mais longa entre os quarterbacks ativos na liga (obrigado, Ben McAdoo).

E mesmo com a chegada de Patricia, o sistema ofensivo não deve sofrer grandes alterações, visto que o OC Jim Bob Cooter, com quem o QB tem ótima relação, foi mantido – Matthew tem médias de 66.3% de passes completados e 270 jardas desde que Cooter assumiu o cargo durante a temporada de 2015.

É inegável que lesões, sobretudo na OL, destruíram o final de temporada do Lions. A ausência de Taylor Decker, que só retornou em novembro (e, claro, sem ritmo), foi fundamental para o declínio do setor; além dele, Rick Wagner, TJ Lang e Travis Swanson perderam um par de jogos por contusões. Para 2018, se o setor permanecer saudável (e espera-se que permaneça), Detroit já terá um ótimo ponto de partida – em 2017 foram 12 combinações diferentes em 16 partidas.

O ataque terrestre também deve evoluir – e, bem, aqui não é como se regredir fosse uma opção. LeGarrette Blount e a escolha de segundo round Kerryon Johnson devem dividir o trabalho pesado enquanto Theo Riddick pode continuar como uma excelente opção em 3rd downs – Ameer Abdullah, se Deus for justo, em breve estará longe de Detroit e também da NFL.

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Já o ataque aéreo é praticamente o mesmo e não é como se ele precisasse mudar: Golden Tate, Marvin Jones e Kenny Golladay são as principais armas. Jones vem de uma temporada de 1.101 jardas, e não há razão para crer que ele não repetirá os números. Golden Tate também ultrapassou a marca das mil jardas (com 92 recepções), enquanto Golladay é jovem e já mostrou potencial e espaço para evoluir.

O reforço, porém, não está em uma contratação, mas sim em uma AUSÊNCIA: Eric Ebron, pela graça de Martha Firestone Ford, está longe de Detroit e foi iludir pobres almas em Indianapolis. Seu substituto será Luke Wilson (ex-Seattle Seahawks), agora com mais de espaço para tentar adquirir um pouco que seja de protagonismo, além de Levine Toilolo, que pouco (ou nada) fez em Atlanta, mas ao menos tem um nome legal.

Onde muito (ou pouco) pode mudar

Ao contrário do ataque, a defesa do Lions deve mudar; o setor foi patético na última temporada, ocupando a 27ª colocação em jardas cedidas – e tudo começou a ruir com a lesão de Haloti Ngata na semana 5. E se não deve mudar muito em nomes, ao menos deverá ter alterações em estilo de jogo, já que espera-se que Patricia implante conceitos trazidos de New England.

Devon Kennard chegou na free agency para ajudar o corpo de linebackers – da FA também vieram Christian Jones e Jonathan Freeny. Ezekiel Ansah, agora um dos atletas mais bem pagos de sua posição, retorna com a franchise tag para provar seu valor; na última temporada foram 12 sacks e nos últimos dois anos constantes brigas com lesões.

Já para reforçar a secundária, o Lions tentou trazer Malcolm Butler – mas o perdeu para o Titants. O ótimo Darius Slay (oito interceptações em 2017) precisará de mais ajuda, já que Nevin Lawson tem sido oscilante – DeShawn Shead chegou de Seattle como uma tentativa, mas tampouco conseguiu esquentar os pads e já rumou para a fila do desemprego. Já Quandre Diggs funcionou muito bem como Safety durante o final do ano passado e, ao lado de Glover Quinn, poderá repetir as boas atuações.

Palpite:

Mesmo não chegando aos playoffs pelo segundo ano consecutivo, não se pode dizer que uma campanha 9-7, em uma das divisões mais difíceis da NFL, é motivo para uma implosão completa. Para 2018, com um novo HC e novos métodos, sem no entanto trocar boa parte do roster, é possível imaginar que, em um cenário dos sonhos, o Lions consiga beliscar uma vaga na pós-temporada. A hipótese mais realista, porém, nos lembra que a NFC North é uma verdadeira selva, a tabela é cruel e aposta mais segura é de uma nova frustração em dezembro – bom, não é como se o sofrido torcedor do Lions não estivesse acostumado com decepções.

Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Em busca da direção certa

O desempenho do QB Carson Wentz em sua temporada de rookie está longe de ser um primor. Foram 3782 jardas aéreas conquistadas, apenas 16 TDs e 14 INTs, números que são suficientes para colocá-lo, no máximo, próximo da linha da mediocridade. A NFL, felizmente, não é feita apenas de estatísticas. Assistir um QB em ação muitas vezes nos diz muito mais do que analisar friamente os números que ele produziu.

Desde que pisou no gramado para enfrentar o Cleveland Browns, na primeira semana da temporada de 2016, Wentz aparenta ser o que uma franquia espera de um Quarterback. Os erros, é claro, estão lá, como estão para todos os rookie QBs, mas aparentam ter origem mais na inexperiência do que em uma eventual deficiência o que, claro, seria mais difícil de ser corrigido.

Wentz errou bastante em 2016, mas também acertou. O controle e a liderança que ele tinha no ataque do Philadelphia Eagles são raros para um calouro. Sua capacidade de leitura das defesas, antes mesmo do snap, também chama a atenção. O que mostrou em campo comprova o que muitos especialistas diziam antes mesmo do draft: Wentz é um grande amante e estudioso do football, algo semelhante a Peyton Manning, guardadas as devidas proporções.

Matou no peito.

As armas

Não é à toa que o Eagles decidiu que Carson Wentz é o franchise QB que o time aguardava desde a saída de Donavan McNabb e decidiu construir o futuro ao redor dele. O primeiro passo foi reformular o grupo de recebedores, que em 2016 foi um grande problema para o ataque. O time mandou o inconstante Jordan Matthews para o Buffalo Bills em uma troca e contratou os veteranos Alshon Jeffery e Torrey Smith.

Jeffery tem o talento necessário para ser um dos melhores WRs da liga, sem dúvidas, mas precisa permanecer saudável, o que não era rotina em seus tempos de Chicago Bears. Em cinco anos em Chicago, foram apenas duas temporadas sem perder jogos por contusão. Nos dois anos em que ficou saudável, Jeffery recebeu mais de 1000 jardas aéreas e, em 2013, anotou 10 TDs. Seu talento nunca foi questionado e, se conseguir ficar longe das contusões, Alshon deve ser o principal jogador do ataque do Eagles em 2017.

Torrey Smith, outro contratado na free agency, ficou escondido por dois anos no horroroso San Francisco 49ers, mas em seus três anos de Baltimore Ravens mostrou que pode ser um jogador bastante útil e que adiciona o elemento do passe em profundidade ao ataque. Jeffery e Smith são uma versão um pouco mais pobre do que o Tampa Bay Buccaneers tem em Mike Evans e DeSean Jackson, por exemplo, mas têm a capacidade de complementar um ao outro e oferecer opções que Carson Wentz simplesmente não tinha em 2016.

Além de Jeffery e Simith, Wentz terá à disposição o bom TE Zack Ertz, que merece ser mais acionado, e o WR Nelson Agholor que, segundo os repórteres que acompanham o time, é um dos jogadores que mais evoluiu nessa offseason depois de um turbulento 2016.

Com esse grupo de recebedores e com uma linha ofensiva que tem Jason Peters, Jason Kelce e Lane Johnson, considerada a melhor da NFL pelo site Pro Football Focus, o Philadelphia Eagles pode ter um ataque bem interessante em 2017.

O ponto de interrogação

A dúvida fica para o grupo de RBs: Ryan Mathews, principal corredor do time em 2016, foi dispensado. Para o seu lugar, o Eagles contratou LeGarrette Blount, que deve ser responsável pelo trabalho sujo entre os tackles. As informações sobre Blount, porém, não têm sido boas durante o training camp e chegou, inclusive, a surgir a especulação de que ele poderia ser dispensado.

Além de Blount, o Eagles tem o segundo anista Wendell Smallwood, que teve oportunidades no ano passado e não mostrou muito serviço, e o especialista em receber passes e já idoso Darren Sproles. Em teoria, é um grupo que traz habilidades diversas e que pode se complementar bem, mas algo parece que vai dar errado.

As contratações ofensivas feitas pelo Eagles criaram um ataque com mais talento e mais alternativas, portanto é justo esperar uma performance melhor de Wentz e seus alvos em 2017.

O dono da bola.

O copo meio cheio

A defesa do Philadelphia Eagles em 2016 não teve uma performance horrível. A unidade terminou a temporada em 12º em pontos cedidos e 13º em jardas permitidas, por exemplo. Mas as deficiências de defesa são óbvias e talvez a principal delas seja na posição de cornerback.

Na temporada passada, os defensores do Eagles permitiram que os QBs adversários completassem 60% dos passes. Nolan Carroll e Leodis McKelvin deixaram o time, para a felicidade dos torcedores de Philly. O problema é que quem ficou não inspira confiança e talvez isso tenha motivado a troca com o Buffalo Bills, em que o Eagles enviou Jordan Matthews e recebeu o CB Ronald Darby, que chega e automaticamente entra no time titular. O grupo de linebackers também é uma preocupação. Além do dinâmico Jordan Hicks, não há muita certeza.

A força da defesa talvez esteja na linha defensiva. Fletcher Cox é um dos melhores DTs da NFL e vence constantemente as coberturas duplas que recebe. Além de Cox, o Eagles conta com jogadores de pedigree que ainda não conseguiram atingir todo o potencial que têm, como Brandon Graham, escolha de primeiro round do draft de 2010, e Vinny Curry, que assinou uma extensão contratual de 47,5 milhões de dólares que alguns classificam como o pior contrato de um DL da NFL.

Já Chris Long e Timmy Jernigan chegam via free agency com a expectativa de adicionar elementos a mais no pass rush, que será fundamental para o sucesso da defesa.

Palpite: A evolução, principalmente ofensiva, acontecerá, mas é difícil enxergar esse time ganhando mais do que oito jogos. Um recorde de 8-8 não seria surpreendente. Um 9-7 seria um sucesso absoluto. Mas, como mencionado no início do texto, a NFL não é feita apenas de números. O que o Philadelphia Eagles precisa em 2017-2018 é ter a certeza que encontrou seu QB e que a franquia está no caminho certo.

Do desapego a um ciclo sem fim: o método Belichick

A NFL está repleta de jogadores com que ninguém se importa – o terceiro CB que só os torcedores conhecem, o backup OL que nunca entrou em campo, ou até mesmo uma escolha do draft do tempo que você não entendia bulhufas sobre futebol americano (também conhecido como “semana passada”).

E, a cada ano, esse ciclo de desconhecidos se renova, com centenas de atletas entrando e saindo da liga: não se engane, aquelas listas intermináveis de cortes no início da temporada são compostas por seres humanos reais, como eu e você.

Mas e se seu time conseguisse encontrar, nesses jogadores desconhecidos, indesejados ou supostamente irrelevantes, peças importantes para montar o elenco? A verdade é que na maioria esmagadora das vezes esses atletas realmente não são grandes talentos – afinal, se fossem, não estariam escondidos no meio do roster do Detroit Lions.

Mesmo assim, eles podem ter um conjunto único de características e habilidades que, se aproveitados corretamente, irão produzir um jogador eficiente na rotação ou até mesmo um titular de qualidade.

Tomemos como exemplo as mais recentes aquisições (via troca) do New England Patriots: o CB Eric Rowe, do Philadelphia Eagles, o TE Martellus Bennett, do Chicago Bears e o LB Kyle Van Noy, do Detroit Lions. Rowe era uma escolha de 2ª rodada que não se firmou em Philly, tanto que Howie Roseman não exitou em despachá-lo para o norte por uma escolha de 4ª rodada em 2018 (!!!).

Já Bennett é figurinha conhecida na liga, já tendo mostrado o seu valor em diversas oportunidades. Mesmo assim, Chicago achou interessante se livrar do jogador e de uma escolha de 6ª rodada por uma de 4ª. Sabe quando você tem uma figurinha que seu amigo precisa e, mesmo ela sendo rara, você troca ela pau a pau? Foi isso que Ryan Pace fez.

Só bala boa.

Enfim, sobre Van Noy, em respeito a sua inteligência, caro leitor, não vou sequer fingir saber quem era, mas Bill Belichick viu valor suficiente no jogador e enviou uma escolha de 6ª rodada para Detroit em troca.

Rowe e Van Noy foram jogadores valiosos na defesa no último ano, tendo coroado temporadas sólidas jogando aproximadamente ⅓ dos snaps da unidade no Super Bowl. Já Bennett substituiu Rob Gronkowski a altura e suas cinco recepções para 62 jardas na final ajudaram os Patriots na maior vitória de sua história.

Apenas para efeito de comparação: as duas trocas de escolhas de fim de draft que o Indianapolis Colts fez para a última temporada, sequer terminaram o ano com a franquia: o LB Sio Moore, que já está na sua 3ª ou 4ª equipe depois que foi chutado, e o DE Billy Winn, que você não deve conhecer, mas jogou em Denver em 2016. Temos certeza que seu time também coleciona alguns fracassos com aquisições do tipo.

Para mostrar que não se trata de um fato isolado, voltemos para 2014, ano em que os Patriots também venceram o Super Bowl e também fizeram algumas aquisições under the radar. Naquela temporada, New England adquiriu o LB Akeem Ayers, dos Titans, e uma escolha de 7ª rodada, por uma de 6ª. Ayers jogou 23% dos snaps na final.

E não são só trocas que ajudam a construir o elenco de New England. As aquisições de jogadores não-muito-gabaritados ao redor da liga permitem ao time manter o Salary Cap sob controle e, ainda assim, reforçar o roster no mercado:

    •  O WR Chris Hogan, o menino destinado a correr eternamente na secundária de Pittsburgh, assinou contrato de 3 anos e 12 milhões de dólares.
    • O RB Dion Lewis, que rodou por metade da liga e achou seu lugar em Foxborough, receberá 1.2 milhões de dólares esse ano.
    • O DT Alan Branch, escolhido em 2007, só foi se firmar na defesa dos Patriots, em 2014. Branch já está no seu terceiro contrato com a franquia.

E a lista continua com nomes como Rob Ninkovich, Jabaal Sheard, Chris Long e Brandon LaFell. Jogadores que não chegaram para resolver problemas, mas ajudar a compôr o elenco e cumpriram/cumprem muito bem esse papel.

Além disso, existe uma categoria especial para aqueles que só renderam em New England, como o RB LeGarette Blount e o S Patrick Chung que, após saírem, só duraram um ano ou menos longe do Gillete Stadium.

E onde está a mágica por trás disso tudo? A resposta é simples. Bill Belichick não busca os jogadores mais talentosos ou com maior hype. O treinador procura jogadores com habilidades que se encaixam no esquema dos Patriots. Você não vê New England com um bando de talentos em determinada posição sem saber utilizá-los, como é o caso de outras equipes – os Rams, por exemplo, estão até hoje tentando entender como usar o WR Tavon Austin.

Uma prova disso é a forma como os Patriots não se apegam a nenhum jogador não chamado Brady: Chandler Jones e Jamie Collins eram dois dos melhores nomes da defesa, mas Belichick preferiu trocá-los nessa temporada. Ambos receberam uma bolada de grana de suas equipes e, enquanto isso, Bill colecionava o quinto anel, chegando ao Super Bowl como uma das melhores defesas da NFL.

Para essa temporada, a fórmula segue a mesma e New England trocou todas as suas escolhas do draft por jogadores que Belichick queria:

    • primeira rodada pelo WR Brandin Cooks;
    • segunda rodada  pelo DE Kony Ealy (e uma escolha do alto da terceira rodada);
    • quarta rodada pelo TE Dwayne Allen (e uma escolha de sexta rodada).
    • as outras escolhas também foram trocas por jogadores: o já citado Kyle Van Noy, o LB Barkevious Mingo e o TE Michael Williams.

Além disso, mais jogadores da categoria você-não-conhecia-mas-em-New-England-serão-astros foram contratados: RBs Mike Gillislee e Rex Burkhead, além do DT Lawrence Guy.

E, por fim, claro, jogadores caros, sendo Dont’a Hightower a exceção, foram chutados: Logan Ryan assinou com os Titans, Jabaal Sheard assinou com os Colts e Martellus Bennett assinou com os Packers. Com isso Belichick ainda pode receber algumas escolhas compensatórias. E então reiniciar todo esse maldito ciclo com que já estamos acostumados: a cada final de temporada, uma nova velha tristeza.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBR e acredita piamente que Chuck Pagano é o próximo Bill Belichick.