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A(s) última(s) chance(s) de Eli Manning

Em novembro de 2017, Eli Manning era o QB em atividade com o maior número de partidas consecutivas como titular de uma franquia da NFL. Sua sequência de 210 jogos ficava atrás apenas dos 297 que Brett Favre iniciou pelo Green Bay Packers. Eli era o único quarterback que a torcida do New York Giants tinha visto começar um jogo desde novembro de 2004, há exatos treze anos.

O problema é que treze foi, também, o número de derrotas da franquia em 2017. A pior temporada da história do time foi suficiente para que Eli Manning, um dos 12 QBs a vencer dois ou mais Super Bowls, fosse vítima de uma injustiça que jamais será esquecida.

Eli foi colocado no banco em uma temporada que já estava perdida e sua sequência histórica como starter foi interrompida. A justificativa, segundo o então Head Coach Ben McAdoo, era observar jogadores que não precisavam ser observados: Geno Smith, um QB horrível dentro e fora de campo, e Davis Webb, uma escolha de terceiro round do draft que não era nem de longe o futuro da franquia. Não demorou muito para que jogadores em atividade, ex-companheiros de time e até o ex-técnico Tom Coughlin manifestassem publicamente solidariedade a Eli.

Mesmo com pressão de todos os lados, inclusive da torcida, a decisão de McAdoo foi mantida. Jerry Reese, o então General Manager, apoiou o Head Coach com a justificativa de que “todas as posições precisavam ser avaliadas”. Geno Smith entrou para jogar no terrão de Oakland e ali se encerrava uma era. Injusta ou não, a substituição de Eli Manning representou o que parecia ser o início da reconstrução de um dos times mais vitoriosos da última década, começando pelo seu QB.

Reconstrução?

McAddo e Reese, é claro, não resistiram ao desastroso 2017 e já estão bem longe de New York. Para substituí-los, chegam o Head Coach Pat Shurmur, que até ano passado era coordenador ofensivo do Minnesota Vikings, e o General Manager Dave Gettleman, que trabalhou treze anos no próprio Giants antes de ir para o Carolina Panthers. Schurmur e Gettleman parecem discordar da necessidade de reconstrução do time a partir da posição mais importante do esporte. Ao invés de procurar o substituto de Eli Manning, escolheram construir ao redor dele.

A aposta é que Eli, aos 37 anos, ainda pode liderar a franquia a um terceiro Super Bowl. É algo, no mínimo, arriscado. Por mais que seja legítimo defender Eli no episódio de 2017, é necessário admitir que sua performance está muito distante do que um franchise QB deve proporcionar ao seu time; ele não tem mostrado ser capaz de elevar o talento ao seu redor. Na verdade, é extremamente dependente do que seus colegas de time podem fazer. A boa notícia é que falta de talento não será problema em 2018.

Odell Beckham Jr. está saudável e com a conta corrente recheada com o maior salário de um WR da história da NFL. Há infiéis que consideram os US$ 90 milhões em cinco anos de contrato um desperdício de dinheiro e cap space, mas Odell provou ainda mais o seu valor através da ausência. Sua contusão na semana 5 foi decisiva para o desastre que foi o desempenho ofensivo do time em 2017. Beckham parece mais maduro e motivado para assumir de vez o lugar de melhor WR da NFL. Não é exagero dizer que o renascimento da carreira de Eli Manning passa por Odell Beckham Jr.

Além de Odell, Manning conta com o que talvez seja o melhor grupo de jogadores que já teve à disposição em sua carreira. Sterling Shepard já se mostrou um recebedor confiável e eficiente. Evan Engram não vai bloquear ninguém, mas é um bom TE que precisa apenas de mais consistência e menos drops.

Mas a grande novidade e o provável diferencial do ataque para 2018 é o jogo corrido. A campanha horrorosa do ano passado rendeu a segunda escolha do draft e fez com que o New York Giants tivesse uma decisão a tomar: escolher um QB para o futuro ou o jogador mais talentoso disponível? O time ignorou Sam Darnold e escolheu o RB Saquon Barkley.

A importância da posição de QB e a desvalorização dos RBs fazem com que os críticos se encham de razão para dizer que o Giants errou. Mas a torcida, que não vê um jogo corrido minimamente eficiente desde que Ahmad Bradshaw foi embora, não consegue conter a empolgação. Barkley é um RB completo que trará uma dimensão nova ao ataque.

A linha ofensiva, que tem sido um fracasso há muito tempo, recebeu investimentos consideráveis. Nate Solder chega do New England Patriots para que nunca mais Ereck Flowers tenha que proteger o blind side de Eli Manning.

O rookie LG Will Hernandez, que muitos consideram uma das melhores escolhas do draft, chega para consolidar o lado esquerdo da linha. Flowers deve continuar desapontando como RT (e talvez como ser humano), mas com consequências menos desastrosas. É provável que Solder e Hernandez não consigam fazer milagre, mas qualquer evolução, por menor que seja, é bem-vinda para um grupo que flerta com o desastre há anos.

O outro lado da bola

Depois de ter uma das melhores defesas da NFL na temporada 2016, o New York Giants entrou em colapso e foi para o fundo do poço em 2017. Além de seguidas contusões, o time ainda teve que lidar com três suspensões por razões disciplinares. No final da temporada, o caos estava instalado e o Giants tinha que colocar em campo literalmente um bando de desconhecidos.

O talento, porém, não desapareceu, só foi mascarado por um ano em que tudo deu errado. Os principais jogadores que fizeram a defesa brilhar em 2016 – Damon Harrison, Olivier Vernon, Janoris Jenkins e Landon Collins, todos jogadores de elite em suas respectivas posições – retornam para 2018. Apesar dos principais nomes serem os mesmos, a impressão é que a defesa do Giants está começando do zero.

A única perda considerável foi Jason Pierre-Paul, que foi trocado para o Tampa Bay Buccaneers. Além do alto salário e de não ser um encaixe ideal no novo esquema 3-4 do coordenador defensivo James Bettcher, Pierre-Paul parecia desinteressado e não desempenhou o papel de liderança desejado quando tudo começou a desmoronar (junto com seu dedo).

Para compensar a perda de Pierre-Paul, chega o edge rusher Kareem Martin, que trabalhou com Bettcher no Arizona Cardinals e parece ser o típico homem de confiança do treinador. O LB Alec Ogletree chega via troca com o Los Angeles Rams para reviver uma posição que tem sido sistematicamente negligenciada pelo time nos últimos anos. Junto com Damon Harrison e Olivier Vernon, Martin e Ogletree formam um front seven versátil e respeitável.

A secundária perdeu Dominique Rodgers-Cromartie, um dos jogadores suspensos por violar regras do time na temporada passada, e agora terá que depender do problemático Eli Apple, que parece ser tão detestável que foi chamado de câncer por Landon Collins no meio da confusão de 2017. Janoris Jenkins e Landon Collins são titulares acima da média, mas o grupo peca pela falta de profundidade. Caso contusões aconteçam, o resultado pode ser desastroso.

Palpite:

Em uma divisão em que a rotatividade de campeões é grande e que parece mais difícil do que realmente é, o Giants deve ser, ao menos, competitivo. Uma sequência brutal de jogos no início da temporada deve tornar a missão de chegar aos playoffs um pouco mais difícil. Um recorde de 8-8 trará a dignidade de volta à franquia e a certeza de que 2019 será a verdadeira última tentativa de Eli Manning. Mesmo que não dê certo, Eli continuará fazendo parte da história da NFL onde o merecido reconhecimento virá: Canton, Ohio – quer você goste ou não.

Análise Tática #16 – Semana #9: Jared Goff, o ex-bust

Bust é o termo utilizado para denominar jogadores que não justificam em campo a crença neles depositada. Todo o processo do draft da NFL é baseado em julgar atletas em fundamentos que podem ou não se traduzir no futebol americano profissional (baseado em porra nenhuma).

Jared Goff é um desses casos. Primeira escolha geral em 2016, com direito a uma troca que penhorou o futuro do Los Angeles Rams. O primeiro ano de Goff na NFL foi sofrível. Apesar de Jeff Fisher, signal caller dos Rams sobreviveu.

A chegada de Sean McVay trouxe um novo fôlego a uma carreira que parecia destinada ao fracasso antes mesmo ter começado direito. Um ataque mais criativo e com leituras mais simples, foi o suficiente para renascer as carreiras de Goff e Todd Gurley, peças principais do time.

As chegadas de Robert Woods, Sammy Watkins e o recém-draftado Cooper Kupp (caro leitor, pesquise tweets da época do draft e você verá críticas ferrenhas a esta escolha) acrescentaram armas para um QB que tem a missão de não estragar tudo. Como dissemos semana passada, técnicos são pagos para maximizar o rendimento de seus atletas, e é exatamente isso que Sean McVay vem fazendo em LA.

Com objetivo de trazer sempre uma perspectiva nova do football ao leitor da coluna, e também para não desgastar o formato, essa semana focaremos no papel de Jared Goff para o esquema dos Rams, utilizando a partida contra os Giants como exemplo.

Ao se analisar o desempenho de um quarterback dentro de campo, costumo observar os seguintes traits: mecânica de passe, trabalho de pés, velocidade das leituras e progressão ao longo do campo e o uso dos olhos e corpo para deslocar defensores. Evidentemente, não somos a palavra final e nem pretendemos ser, portanto, o debate é sempre bem-vindo.

Quanto aos atributos físicos, a mecânica do movimento de passe tem por objetivo fazer com que a bola oval entre em espiral e atinja uma velocidade favorável para chegar ao recebedor. Existem vários tipos e técnicas de passe no nível profissional que se adequam à árvore de rotas e a situação descida-distância em campo, mas no contexto geral, o movimento perfeito deve ser curto e encerrando na altura da orelha do QB.

Já o trabalho de pés é importante para que o jogador possua o equilíbrio necessário para executar qualquer um dos passes na jogada, bem como gerar a força que é transferida ao longo do corpo até chegar na ponta dos dedos e ser direcionada à bola.

Quanto aos aspectos mentais, o QB deve conhecer a jogada a ser realizada, possibilitando a leitura  do posicionamento da defesa em campo. Novamente fazendo um jabá do livro Take Your Eye off the Ball (ainda estamos esperando o contato, Amazonde Pat Kirwan, em seu capítulo destinado a quarterbacks, o autor menciona a quantidade assustadora de elementos que um jogador profissional precisa processar ao longo da jogada.

Primeiramente, deve-se reconhecer o posicionamento e a quantidade de Safeties em campo, seguindo aos Cornerbacks. Isso permite ao atleta reconhecer o tipo de cobertura e ajustar as rotas, se o mesmo tiver essa liberdade. De forma resumida, em seguida, deverá reconhecer a existência ou não de blitz e de onde a mesma vem, comunicando o ajuste de proteção à linha ofensiva.

É comum observar QBs gritando pré-snap, “54 (ou outro número) is the Mike!”. Isso sinaliza à OL o inside linebacker, ponto de referência dos bloqueios da jogada, corrida ou passe. A partir do momento em que ocorre o snap, o QB precisa processar tudo o que reconheceu na fase anterior da jogada e perceber se o mesmo está realmente acontecendo. É nesse ponto que entra a velocidade das leituras: 2,5 segundos já são suficientes para gerar um sack na jogada, e antes desse tempo, o QB precisa reconhecer padrões de defesa e soltar a bola no ponto certo, um trabalho quase impossível.

Contra marcações em zona, bons QBs movem os jogadores de secundária para longe de onde se desenvolve o melhor matchup em campo com o uso dos olhos. Marcadores em zona observarão para onde o QB está movendo a cabeça, e isso pode ser usado como isca.

Agora depois de todo essa longa e resumida (e ao mesmo tempo, ainda insuficiente) explanação do trabalho de um quarterback da NFL em campo (não é à toa tem tanto cidadão ruim jogando no seu time, caro leitor, o trabalho é difícil mesmo), vamos ao tape. Lembrando que hoje o objetivo não é dizer por que os Rams ganharam dos Giants, e sim observar como Sean McVay está ajudando Jared Goff, e esse por sua vez, o ataque como um todo.

Jogada 1 – Rotas Cruzadas

Uma das formas de ajudar um QB a ESMERILHAR uma defesa é utilizar rotas que se cruzam. Isso faz com que a defesa precise se comunicar devidamente para que ninguém fique livre em uma cobertura em zona, ou que os defensores se atrapalhem entre si no tráfego de uma cobertura mano-a-mano. Aqui, os Rams estão em uma 3rd & 2 na linha de 8 do campo de ataque. Goff em shotgun, stack formation com 1-1 personnel.

Sean McVay abusa das crossing routes, desenhando um padrão que intercala praticamente todos recebedores da jogada, fazendo com que apenas Sammy Watkins execute uma fade route. A defesa dos Giants responde com a tentativa de mostrar uma blitz do nickel corner, que recua. Os demais jogadores de secundária protegem a linha de gol em um padrão semelhante a um cover 3.

Observe que mesmo com alguns tropeções de recebedores, a defesa dos Giants fica confusa com o cruzamento, abrindo um espaço no meio da endzone. Jared Goff executa um 3-step droback. Seu footwork é bem deficitário, mas trabalhando em um ambiente favorável, Goff consegue vender a ameaça de Todd Gurley olhando em direção à sua wheel route. Ele observa que sua OL limpa o caminho em direção ao TE no meio da endzone, projeta seu corpo em direção a essa rota e lança um dagger para o touchdown.

Jogada 2 – A eficiência do No Huddle 

Vimos no texto sobre o drive da vitória dos Raiders contra os Chiefs, que campanhas no huddle, além de clock management, têm por objetivo explorar um pacote errado colocado pela defesa. Por exemplo, caso o adversário esteja esperando a corrida e coloca jogadores mais pesados em campo para contê-la, aproveitar-se do no huddle vale a pena para cansar esse personnel com jogadas de passe.

Além disso, o no huddle também pode ser usado fora de situações de pouco tempo no relógio, aumentando o fator surpresa. Com mesma formação vista no touchdown anterior, o Rams aproveita a tentativa dos Giants (alinhados com formação base de defesa 3-4) em conter a corrida para surpreender com uma big play.

Como é Jared Goff em campo, essa chamada foi feita por Sean McVay via ponto eletrônico no capacete do quarterback (jogadores mais experientes ou melhores teriam a liberdade de escolher a melhor jogada para a situação dentro de um pacote).

le usa Todd Gurley como isca para a defesa dos Giants, que pressiona com 5 rushers. Enquanto isso, Sammy Watkins executa uma rota vertical. Conceito semelhante ao dagger, porém com rotas saindo de pontos opostos do campo. A quebra de rota de Cooper Kupp deixa Watkins no mano-a-mano com Landon Collins.

O Safety dos Giants, fora de posição no início da jogada devido à ameaça de corrida, é batido em profundidade. Sean McVay aproveita-se dos tempos de Goff em Cal, em que executava um ataque da filosofia air-raid, resumidamente se trata de execução de rotas longas. A adição de um bom jogo terrestre permite ao QB explorar o play-action e pegar a defesa desguarnecida. Outro ponto importante dessa jogada é a noção de Goff de onde está a pressão, protegendo-se no ponto oposto ao qual a linha desliza.

Jogada 3 – Queimando a blitz 

Defesas que não encontram respostas em campo costumam mandar mais blitzes que o normal a fim de criar um fato novo. Já outras defesas, como o Titans de Dick LeBeau, o Jets de Todd Bowles e o Cardinals de Bruce Arians baseiam-se em métodos específicos de pressionar o QB com homens a mais que o normal. Para todos esses casos, existe a resposta: ou você tem um jogador da velocidade de raciocínio de Tom Brady ou você precisa ser criativo com as rotas.

Observe as rotas que se cruzam no meio. Elas formam o núcleo de um conceito popular em ataques West coast conhecido como mesh concept. Os Giants sinalizam a overload blitz pelo lado do right tackle, enquanto a secundária está com marcação individual.

Fonte: @ITPylon

No conceito mesh, a marcação individual indica que os recebedores X e Y executantes da shallow-cross devem seguir até o outro lado do campo. O tráfego no box fará com que o recebedor Y esteja livre do outro lado do campo. E é exatamente isso o que aconteceu no MetLife Stadium. Execução de manual de um conceito simples do futebol americano.

Quanto ao trabalho de Goff na jogada, trata-se de um 5-step dropback (conte os passos após o snap, leitor). Quanto ao trabalho de olhos, ele não precisa necessariamente atrair marcadores para determinado ponto do campo, nem conseguiria, já que em marcações individuais, os defensores preocupam-se apenas em acompanhar as rotas – nesse caso, Goff só precisa não ser estúpido o suficiente a ponto de telegrafar o passe.

Contra a blitz, o principal fator é a velocidade de processamento da jogada. Observe que o mesmo mantém o olho focado na região em que se desenvolverá o conceito mesh. Goff reconhece o camisa #17 livre após cruzar as hashmarks e manda o passe no mesmo momento em que é atingido pelo pass rusher. Touchdown.

  • Diego Vieira aparentemente capturou os GIFs com uma pedra e obrigou o editor a ir atrás do gametape.