Posts com a Tag : Lambeau Field

O primeiro dia após a neve

No interior do Wisconsin, assim como em qualquer canto dos EUA, dizem os mais antigos que o pior dia é aquele após a neve. E se há algo que não devemos nunca desconsiderar é a sabedoria popular. No trajeto entre Milwaukee e Madison, no sábado, a previsão do tempo indicava neve no caminho – e, claro, ela estava ali.

Como um bom lugar para guardar na memória o Camp Randall merece estar lá; são 100 anos de história completados há poucos dias, guardados pela proximidade com a catedral da Universidade de Wisconsin. Os Badgers aproveitam essa atmosfera, e preenchem cada detalhe de sua casa com seus feitos, dos títulos da Big Ten às conquistas no Rose Bowl.

A banda, claro, honra as tradições e, embora mais famosa por suas celebrações pós-jogo, mantendo o público no Camp Randall por uma hora ou mais após o apito final, faz, como quase todas as universidades americanas uma grande performance no intervalo. Mas é só em Wisconsin você poderá encontrar o “5th quarter”.

Há, também, outra tradição, mas essa não tão conhecida – ao menos se você tiver a sorte de passar por Madison em um sábado gelado de novembro: é ali que acontece o que os estudantes chamam de “On Wisconsin Finale”, um coro de 80 mil pessoas no intervalo da última partida em casa. A rotina permanece basicamente a mesma desde 1976: durante a canção, a banda passa de uma série de linhas laterais até fluir naturalmente para uma formação que revela a frase “On Wis”.

Já dentro de campo, o Badgers não deu chance para Michigan, e venceu por 24 a 10 sem maiores problemas. Ao final do dia, foi um bom sábado em Wisconsin – mas por favor, não esqueça da sabedoria popular.

Universitário é doido em qualquer lugar.

Brett Hundley e a profanação de um tempo sagrado

Em Green Bay o sol serve como uma espécie de alento para um inverno que parece durar o ano todo; mas aqueles que se encontram nos arredores do Lambeau Field pouco ou nada parecem se importar. com a temperatura Já na entrada do estádio há um átrio enorme, que mais lembra a entrada de uma catedral: a fachada de vidro, com cinco ou seis andares, parece mais apropriada para uma igreja do que para um estádio de football – não que ambos não possam coexistir.

Logo na entrada, vemos flâmulas com os nomes daqueles que ajudaram a levar Green Bay para o mundo: Don Hutson, Tony Cadeo, Bart Starr, Ray Nitschke, Reggie White e Brett Favre. E, embora você talvez duvide, o carinho por White é maior do que o reservado para Favre. A explicação é lógica: “Brett foi trazido até nós, Reggie nos escolheu”, diz um senhor na fileira acima, explicando a história de seu time para turistas ingleses que, assim como nós, estavam no Lambeau pela primeira vez.

A esperança, ao menos para aqueles mais experientes, como o senhor daquela fileira logo acima, durou cerca de dois minutos e um drive, até Brett Hundley ser interceptado na endzone após dois bons passes – no jogo, o QB ainda seria interceptado outras duas vezes, e sofreria um fumble.

Em nome de Favre e White (e outros). Amém.

Quebrando uma clavícula (e a esperança)

No instante em que o LB Anthony Barr, do Minnesota Vikings, correu em direção a Aaron Rodgers durante a partida da week #6, ele não atingiu apenas a clavícula direita do QB. Ele também partiu todos os sonhos de Green Bay. Naquele domingo ainda havia um certo otimismo de que Aaron poderia retornar em meados de dezembro, mas agora o enredo já indica que não há motivo para vê-lo em campo nesta temporada: o Packers é uma equipe morta, e no fundo todos já sabíamos disso no instante da lesão, embora os atletas tentassem negar.

“Basta que todos façam seu trabalho da melhor maneira possível. E quando isso acontece, grandes coisas podem acontecer”, disse Mike Daniels antes da derrota diante do Lions, segundo jogo sem seu QB titular. “Temos um grupo confiante”, completou o S Morgan Burnett. Frases que nem o mais ingênuo cabeça-de-queijo cogitou acreditar.

Não há vida sem Aaron Rodgers

4th & 8, menos de um minuto no relógio. Rodgers encontra Randall Cobb livre em algum ponto do gramado. Dois anos atrás, milagres já não eram incomuns para Aaron. Ok, o lance famoso como “The Miracle in Motown” ou mesmo a Hail Mary que acabou em nada contra Arizona talvez estejam mais frescos na memória – e também talvez sejam mais impactantes -, mas ali, no Soldier Field, provavelmente foi a primeira vez que muitos pensaram: “Rodgers é o melhor quarterback que já vi”.

E entenda que não queremos dizer que ele é o maior QB de todos os tempos – esta é uma conversa diferente (e, ao nosso ver, entediante) que envolve variáveis subjetivas e que não temos controle algum, então a deixemos para mais tarde: apreciar o jogo de Aaron Rodgers agora não é algo sobre o número de conquistas ou influência dos talentos que o cercam; é algo sobre viver momentos individuais, quase de maneira isolada.

E leve em consideração que estamos escrevendo isso em Green Bay, onde os Packers são parte de tudo: cada estrada tem um outdoor, e seja na propaganda de um banco ou de clínicas de saúde, Aaron Rodgers e os Packers estão ali. Aliás, Cobb e Jordy Nelson nos receberam na cidade.

Aaron, por exemplo, é reverenciado em cada esquina, e é fácil entender os motivos: por mais de 15 anos, Green Bay teve um Hall of Fame QB, que quebrou recordes, “traiu” a cidade e foi “perdoado” – como toda boa história de amor precisa terminar. Mas de alguma forma, seu substituto é ainda melhor.

A lesão de Rodgers, porém, escancarou a realidade: o Packers tem, há anos, um time medíocre, que tem suas muitas falhas escondidas pelo talento do quarterback. E para ser uma ameaça, o Packers precisa de Aaron Rodgers – e isso não tem relação alguma com números ou com a falta de coordenação motora de Brett Hundley: está em jogadas como aquela em que Aaron encontrou Davante Adams contra o Jaguars no jogo de abertura da temporada passada ou na calma com que fez a bola chegar em Jared Cook nos playoffs da mesma temporada.

A coisa mais triste que alguém já viu em um campo de football veste a camisa 7 e estava prestes a ser interceptada novamente.

E hoje, embora por uma questão cultural, por mera formalidade, a torcida apoie, o Lambeau sabe que não há vida sem Aaron Rodgers. “Desculpem, visitantes: está é a coisa mais triste que já vi em um campo de football”, diz o mesmo senhor da fileira acima, que ao menos dessa vez, consegue arrancar alguns risos. Como diz a sabedoria popular, o dia depois da neve é mesmo o pior.