Posts com a Tag : Ken Wisenhunt

O quarterback certo no lugar errado (e sem um estádio que preste)

Philip Rivers é um grande azarado. Tão durão quanto Roethlisberger (sempre legal lembrar: ele jogou com os ligamentos estourados a final da AFC de 2007) e tão bom quanto Eli Manning, será eternamente lembrado como o terceiro melhor da incrível classe de QBs de 2004. E tudo isso por causa da porcaria de time em que está, que desde 2013 não vai aos playoffs e que não parece que vai mudar essa condição tão cedo – pelo menos não antes de ir para Los Angeles para viver de favor no novo estádio de Stan Kroenke e ser o segundo time da cidade.

E pode ser teoria da conspiração, mas uma grande razão para não acreditar nesse time é a iminente mudança de cidade, já que times vitoriosos não largam suas casas. Não que seja injusta, já que as pessoas de San Diego estão mais interessadas em praia do que em football (com certa razão) e o Qualcomm Stadium é realmente um dos piores estádios da NFL. Em uma liga em que todas as equipes têm estádios de ponta, a falta de apoio de San Diego (prioridades sociais, por favor) é realmente um motivo forte para abandonar a cidade se você é um dono tentando maximizar seus lucros – não nos deixemos enganar, no dia em que jogar em Londres ou na Rússia for lucrativo, lá estarão Goodell & amigos.

O caso Joey Bosa

Deixemos de lado os donos, sigamos com coisas inexplicáveis: a primeira escolha do draft de 2016. Mais do que Titans e Browns que coletaram vários picks, ou ainda que Eagles e Rams que (tecnicamente) encontraram seus quarterbacks do futuro, os Chargers deveriam ser os grandes vitoriosos do draft de 2016, especialmente porque poderiam escolher, na prática, o melhor jogador da sua board (já que, com alguns bons anos restantes a Philip Rivers, não é hora de escolher um QB). E as opções estavam ali: Jalen Ramsey para substituir Eric Weddle, um LT finalmente indiscutível para proteger Rivers (Ronnie Stanley ou o maconheiro Laremy Tunsil) ou ainda a opção que parece mais óbvia, DeForest Buckner (um gigante 5-technique legítimo, explicado a seguir).

Mais óbvia porque, aparentemente, os Chargers julgaram DE como a maior necessidade do time. Entretanto, Joey Bosa jogou como DE em uma defesa 4-3 em Ohio St (e foi parte importante do título de 2014), diferente da defesa 3-4 que o irmão de Chuck Pagano, John, tem nos Chargers desde 2012. Explicando rapidamente, Bosa fez sua carreira universitária acostumado a enfrentar tackles mano a mano, talvez com algum apoio do guard cobrindo o corredor por dentro (exemplo: Jared Allen).

Em um 3-4, ele terá duas posições possíveis, nenhuma das duas totalmente adequadas para ele ou em que tenha atuado: como 5-technique, enfrentando um guard na força e um tackle cobrindo o corredor por fora (exemplo: JJ Watt) ou então como linebacker, em que necessitará de muita velocidade no pass rush e também terá atribuições como cobertura ou spy do QB (exemplo: Clay Matthews), que ele também não teve o costume de fazer.

Para ajudar, o sem posição tem problemas com a assinatura do seu contrato (o último rookie de 2016 sem assinar ainda, mesmo já passada metade da pré-temporada) e anunciou que não participaria do training camp do time, um período essencial para todos os jogadores, mas especialmente para ele que estará se adaptando a uma nova opção. De qualquer maneira essa escolha tem bust escrito desde o momento em que foi anunciada, e os Chargers terão sorte se conseguirem uma escolha de quinta rodada em 2018 para permitir que Bosa siga sua carreira em uma defesa adequada para ele.

1JoeyBosa

“Você achou mesmo que eu ia jogar no San Diego/Los Angeles/Las Vegas/San Antonio/Oklahoma Chargers?”

O retorno de Ken Wisenhunt

Mas apesar da mediocridade anunciada, nem tudo é sofrimento (ou erros) para os chefões de San Diego. Uma das razões para otimismo na equipe da fronteira mexicana é a volta do coordenador ofensivo, que foi demitido dos Titans, mas que estava presente na última vez em que o time foi aos playoffs e na melhor temporada de Philip Rivers (rating de 105.5, igual ao de 2008 com maior número de passes), em 2013.

Como é sabido, entretanto, o problema dos Chargers não é a qualidade de Rivers e sim tudo o que está ao redor dele. Os principais jogadores do ataque não parecem conseguir se manter saudáveis: Keenan Allen começou destruindo defesas (67 recepções, 725 jardas em apenas 8 jogos), mas se machucou, e de brinde ganhou um contrato de 45 milhões em 4 anos – após admitir que estava gordo e confortável demais na campanha decepcionante de 2014, parece importante ter uma atenção maior nele; e o eterno Antonio Gates chega aos 36 anos tendo jogado apenas duas temporadas completas das últimas seis.

Pelo menos parece haver novas boas opções para adicionar profundidade real aos alvos, como o WR Travis Benjamin, que conseguiu receber quase 1000 jardas jogando em Cleveland, e Hunter Henry, provavelmente o melhor TE do draft de 2016, que terá a responsabilidade de substituir Ladarius Green como segunda opção e “futuro Gates”. Danny Woodhead deve seguir sendo uma opção de segurança e recebendo seus 150+ toques na bola (178 em 2015) e Melvin Gordon deve evoluir em sua segunda temporada, mesmo após não ter conseguido marcar nenhum touchdown como rookie.

A situação da linha ofensiva é mais dramática. Não que Dunlap-Franklin-Slauson-Fluker-Barksdale seja uma linha ruim, muito pelo contrário, mas em uma liga em que quase ninguém tem 5 jogadores bons para a compor, não surpreende que os reservas de San Diego não estejam à altura. E, apesar do desastre de 2015 ser impensável (os únicos a jogarem em todos os jogos foram Slauson e Barksdale), também esperar que toda a proteção do QB se mantenha intacta os 16 jogos parece bem improvável dadas as tendências de seus jogadores.

San Diego Chargers v Miami Dolphins

A nossa cara quando pensamo no futuro dos Chargers.

Mais buracos do outro lado

Sobre a mais nova e importante adição à defesa, Joey Bosa, já falamos muito. A previsão (e os anúncios), é de que ele jogue como 5-technique, completando a linha defensiva com Corey Liuget, que também sofreu com lesões em 2015, e o NT Brandon Mebane, que chega dos Seahawks (onde, a exemplo de Bosa, jogou a vida toda em um 4-3, ou seja, com um outro DT para abrir espaços por dentro ao seu lado).

Os principais responsáveis pelo pass rush deverão ser os LBs Melvin Ingram (que, em meio a tanta zica em San Diego, conseguiu sua primeira temporada completa desde 2012) e Jeremiah Attaochu, que deve tentar continuar a produzir após os seis sacks de 2015 (PERCEBA, LEITOR, QUE NÃO HÁ ESPAÇO PARA BOSA ONDE ELE É BOM). Por dentro, o grande furo da defesa: uma disputa entre os inside linebackers Te’o (o da “namorada”), Perryman e o rookie Joshua Perry (também de Ohio St) para tentar melhorar uma defesa contra o jogo corrido que cedeu quase 5 jardas/corrida em 2015.

A proteção contra o jogo aéreo promete ser melhor, pelo menos. Os Chargers têm um belo trio de cornerbacks em Jason Verrett (Pro Bowl em 2015), Brandon Flowers (que jogou 2015 gordo após ter recebido um novo contrato) e Casey Heyward, trazido de Green Bay. Restará apenas saber como a secundária reagirá à perda do veterano 5 vezes All-Pro safety Eric Weddle, que decidiu sair de San Diego após ter se sentido desrespeitado em um episódio em que acabou multado pela NFL por ter ficado em campo durante o intervalo para ver sua filha em uma apresentação e não ter sido defendido pela equipe.

Palpite: Cinco ou seis vitórias. Esse time parece destinado à mediocridade e torceremos contra eles por alguns anos até que alguém admita que fez cagada em relação a Joey Bosa (torcedor dos Chargers, assista Buckner nos 49ers e chore). Se tudo desse certo, o título da divisão não seria algo exatamente impossível (especialmente porque sempre um último colocado tem que ganhar uma divisão no ano seguinte), mas eles não merecem. Burros.

Eterno retorno: entre o limbo, o nada e lugar nenhum

Quando a temporada de 2015 começou, Marcus Mariota parecia a reencarnação de Steve Young (não que ele já tenha morrido); quando ela chegou ao final, estava mais para um RGIII a partir do seu segundo ano. Em resumo, podemos afirmar que suas 2818 jardas, 21 TDs e 16 turnovers (Mariota sofreu tantos fumbles quanto Adrian Peterson, 6, para liderar a NFL) em 12 jogos como um rookie demonstram potencial em alguns momentos, mas também deixava claro que ele ainda estava passando por um processo de crescimento em diversos aspectos.

Uma pessoa que não deve ter ficado muito feliz com as growing pains de Mariota é o agora ex-head coach Ken Wisenhunt, que foi demitido após vencer apenas 3 de 23 jogos em um ano e meio no time. Importante notar o imediatismo quase brasileiro da diretoria dos Titans, já que o time era basicamente um deserto de talento na chegada de Wisenhunt (treinador dos Cardinals de Kurt Warner que chegaram ao Super Bowl XLIII) e era sabido que provavelmente Marcus Mariota precisaria de mais de um ano para desenvolver seu talento.

E os dois conversavam sobre como é tentar levar um time merda nas costas.

E os dois conversavam sobre como é tentar levar um time merda nas costas.

Agora, não é como se o novo treinador, antes técnico de tight ends do time, Mike Mularkey (somente uma campanha vitoriosa como head coach em quatro anos) fosse uma grande opção ou mudança, especialmente porque grande parte da comissão técnica foi mantida. Como coordenadores, Mularkey trouxe Terry Robiskie, antigo treinador de WRs nos Falcons (que tiveram os bons WRs Roddy White e Julio Jones nos últimos oito anos), e o eterno Dick LeBeau, que foi “aposentado” pelos Steelers porque suas ideias já foram um pouco ultrapassadas na NF – Pittsburgh acabou sentindo sua falta, mas isso é mais problema deles que vantagem para Tennessee.

A troca do século (o retorno)

Apesar de 2016 não ter o melhor dos prognósticos – o time de Music City empolga tão pouco que o único jogo de destaque que terá é o Thursday Night Football, em que obrigatoriamente jogam todas as equipes da NFL -, o draft desse ano parece que dará todas as oportunidades para que, caso os Titans trabalhem bem, o time seja uma força na NFL nos próximos anos. Após ter a pior campanha da NFL pelo segundo ano seguido, Tennessee recebeu a primeira escolha do draft. Após muita especulação, ela foi passada para os Rams, que a utilizaram para selecionar seu futuro QB Jared Goff. 

Em troca, o time acabou um caminhão de escolhas em altas posições no draft (especialmente porque o desempenho de Los Angeles não deverá ser muito bom nesse ano): duas de primeira rodada, duas de segunda e duas de terceiro, que somadas às suas próprias escolhas, deve servir para uma grande infusão de talento no time nos próximos anos. O que era desesperadamente necessário.

Temos o pass rush, mas nada muito além disso

Nos tempos de Peyton Manning, por muitos anos pareceu que tudo o que um time precisava para vencer a AFC South era ter um bom quarterback. Esses tempos acabaram – hoje, os quatro times da divisão têm (aparentemente) bons jogadores liderando seus ataques (incluindo Andrew Luck nos Colts) e, especialmente Texans e Jaguars, parecem ter todas as peças para boas defesas. Nessa batalha, os Titans parecem largar como claro último time.

No entanto, caso isso aconteça, não será por falta de pressão nos QBs adversários. O OLB Brian Orakpo conseguiu finalmente uma temporada saudável após sofrer para manter-se em campo nos seus últimos três anos em Washington, produzindo 7 sacks, mesmo número do DE Jurrell Casey, provavelmente o melhor jogador dessa defesa e único que presta na linha defensiva. Eles terão ainda a companhia do OLB Derrick Morgan, que muitos colocavam como futura estrela após o contrato de quatro anos e 30 milhões assinado no começo da temporada de 2015, mas que acabou muito limitado por uma lesão no ombro; e do rookie Kevin Dodd, enquanto este também se recupera de uma lesão no pé. Se todos se mantiverem saudáveis, muitos quarterbacks estarão correndo por suas vidas contra essa defesa.

Apesar disso, o resto da defesa se limita a mediano. Na secundária, o melhor jogador é o S Da’Norris Searcy – que se destaca mais pelo contexto que por sua própria habilidade. Ao seu lado, Searcy terá provavelmente Rashad Johnson, trazido dos Cardinals. Para completar a secundária, os Titans terão Jason McCourty, irmão gêmeo de Devin McCourty dos Patriots e o menos talentoso dos dois, além uma competição entre vários cornerbacks que não deveriam ser titulares do outro lado: Perrish Cox ou os recém contratados Brice McCain ou Antwon Blake, ambos pouco confiáveis em Dolphins e Steelers, respectivamente.

Marcus Mariota e (poucos) amigos

Ou ainda nenhum amigo. Outra razão pela produção duvidosa e quatro jogos perdidos de Mariota em 2015 foi o grupo ao seu redor. Pelo menos a impressão que ficou nessa offseason é de que o novo GM Jon Robinson fez muito para melhorá-lo, a começar pela linha ofensiva. Além do left tackle Taylor Lewan, que tem sido o ponto forte da proteção, o guard escolhido na primeira rodada de 2013 Chace Warmack deve receber mais uma (e provavelmente última) chance de provar que não é mais um bust – mas o time deve ter novos jogadores nas outras três posições.

Jack Conklin, de Michigan St, foi a primeira escolha do time no draft desse ano (antes dos provavelmente superiores Laremy Tunsil e Taylor Lewan) e já deverá tomar a posição de RT para si. O center Ben Jones, trazido dos Texans, e Jeremiah Pouatasi, rookie RT em 2015, deverá mover-se para right guard, que parece ser sua posição ideal.

Na questão “alvos” a situação não é tão boa. Primeiro, porque Mariota não parece ter no grupo atual um WR1 indiscutível. Kendall Wright é um bom alvo de segurança no estilo Wes Welker e deverá ser importante, mas não pode ser o foco do ataque. Rishard Matthews (662 jardas em 11 jogos) e Harry Douglas também não são maus jogadores, mas rendem melhor como complemento. Restará a esperança de que um dos grandalhões Dorial Green-Beckham ou Justin Hunter aprenda a segurar os passes lançados para eles, já que o potencial físico já têm – ou ainda o rookie Tajae Sharpe, que tem feito uma boa pré-temporada.

Os Titans ainda trouxeram o veterano WR Andre Johnson para o training camp, mas considerando a decepção que ele foi pelos Colts no ano passado (503 jardas, 4 TDs), não será nenhuma surpresa se ele acabe servindo mais como mentor durante a preparação e cortado quando o time tenha que decidir seus 53 jogadores para a temporada.

Não lembro como segura.

Não lembro como segura.

Também por essa mediocridade, Tennessee deve ser um time prioritariamente corredor em 2016. Mais do que isso, um time dedicado a atropelar defesas na força bruta. O time enviou uma escolha de quarta rodada para os Eagles em troca da decepção de 2015 DeMarco Murray, que não se adaptou bem ao estilo de jogo de Chip Kelly, e ainda investiu uma escolha de segunda rodada em Derrick Henry, que detém agora o maior número de jardas corridas da história de Alabama, uma universidade conhecida por produzir grande running backs (incluindo Forrest Gump). Com essa dupla Thunder & Thunder, qualquer defesa mais leve sofrerá para parar o ataque corrido dos Titans.

Palpite: O único elemento que pode empolgar nesse time é o jogo corrido (combinado com Mariota), mas para esse estilo funcionar seria preciso uma boa defesa, que não existe. Os Titans são um time em formação e disputando uma divisão difícil, o que lhes acabará garantindo um novo recorde entre 3-13 e 5-11. Mike Mularkey acabará demitido e Nashville poderá ter um time bom, mas terá de esperar até, mais ou menos, 2019.