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Análise Tática #25 – Parte 4: O ataque do New England Patriots

Metamorfose. A unidade comandada por Tom Brady e coordenada por Josh McDaniels mostra, além de tudo, ser a prova do tempo e imprevisível. O time é capaz, mais do que qualquer outro na liga já foi, a ajustar adequadamente a cada adversário e explorar suas fraquezas.

O Patriots já foi um time de spread offense no início da década, aplicou bastante 12 personnel quando Rob Gronkowski e Aaron Hernández jogavam juntos, utilizou de run-heavy para vencer os Colts na final de conferência em 2014. Nos playoffs, New England utilizou bastante formações com dois running-backs contra os Titans e contra os Jaguars valeu-se bastante dos passes em rotas cruzadas.

E esse filme se repete há 18 anos. Domingo será a oitava aparição em Super Bowl da dupla Bill Belichick e Tom Brady, e na maioria delas o time manteve o grau alto de desempenho. Se nos três títulos entre 2001 e 2004 a fortaleza do time era a defesa, no Super Bowl XLIX e LII, o ataque fez seu trabalho. Esse cenário se repetirá no US Bank Stadium no domingo, com Tom Brady sendo responsável por comandar o melhor setor do time.

Estatísticas

Os Patriots conseguiram 8 touchdowns na pós-temporada, sendo 5 passados por Tom Brady e 3 corridos. Brady não foi interceptado e o único giveaway dos Patriots foi um fumble cometido Dion Lewis contra os Jaguars.

Passes para Running Backs

Utilizar os jogadores de backfield no jogo aéreo é uma arma utilizada por vários times da liga. Masterizado pela West Coast Offense de Bill Walsh, o passe para RBs é uma forma de criar uma dimensão extra para a defesa ler, aumentando as possibilidades de sucesso das jogadas.

O Patriots extrapola a dimensão do passe para RBs com o conceito jet-sweep. Trick plays são sempre pontos utilizados como inversores de fase no jogo, uma forma de “tapa na cara” do adversário.

A Jet-Sweep consiste em uma forma de passe parecido com o levantamento do vôlei. Um jogador sai em motion em direção ao quarterback, e no momento em que ele se encontra, sai o snap. O QB toca a bola com a ponta dos dedos e o ballcarrier a pega no ar. Com a bola na mão, o RB corre uma rota wheel na direção oposta do campo, como se fosse um end around.

Nesse outro exemplo, o Patriots ataca o flat a partir do playaction em uma jogada que deveria ser de passe longo mas as opções estão marcadas. Os Titans estão sem safeties por estarem preocupados com o jogo corrido nesse ponto da partida, aspecto básico do futebol americano.

Tom Brady se livra da pressão e encontra Dion Lewis para um ganho de 8 jardas.

Rob Gronkowski como eixo motor

Falar sobre como Gronkowski é bom é chover no molhado. O TE é uma aberração física, criando um matchup desfavorável em 90% das defesas da NFL, mesmo após tantas lesões.

Bill Belichick investiu no TE após a derrota contra os Jets no divisional round de 2011. A partir daquele momento, o Patriots fez a transição do spread offense para um ataque de rotas mais curtas. Como diz Chris B. Brown em “The Essential Smart Football”, Belichick usa os TEs para tornar o ataque flexível mesmo com um set pesado, sendo capaz de receber passes e bloquear com a mesma excelência.

Isso nos ajuda a entender como Belichick trata seus RBs como assets descartáveis, ao mesmo tempo em que tem apreço por seu QB e seu TE. Mesmo se não fossem talentos geracionais dentro de suas posições, as tarefas que esses dois desempenham no ataque são primordiais para a execução do mesmo. Belichick pensa primeiro nas tarefas, ter dois talentos absurdos executando as mesmas é quase como um bônus que ninguém é tolo de recusar.

Simplesmente marcar Rob Gronkowski seja individualmente ou em zona é uma tarefa quase impossível. Além disso, Belichick e Josh McDaniels ainda potencializa ao máximo as chances de seu TE na jogada chamando um slant-flats.

Aqui, basta Tom Brady mandar um backshoulder fade e esperar que seu jogador ganhe a bola na força física. Basicamente, se um jogador tentar defender esse passe, fará uma falta de interferência, colocando os Patriots na linha de gol. Exemplo de como o Patriots é tão dominante por tanto tempo, um time que além de ter bons jogadores, ainda utiliza o sistema para maximizar suas habilidades.

Ajuste às necessidades

Em boa parte do AFC Championship Game os Patriots estiveram sem Rob Gronkowski, que saiu do jogo por concussão. Em parágrafos anteriores, eu disse que Gronk é o ponto central do ataque (à exceção do quarterback), então como o Patriots conseguiu a virada sem seu principal recebedor?

Bem, é de conhecimento geral que os Patriots são o time que melhor ajusta o plano de jogo de acordo com a situação. É talvez a capacidade que mais importa pelo fato de essa dinastia durar tanto tempo. Quando Gronkowski saiu do jogo, Josh McDaniels passou a colocar em campo sets mais variados de recebedores, bem como a habilidade dos mesmos em rotas curtas. Forma semelhante à que utilizou para combater a Legion of Boom no Super Bowl XLIX.

A jogada acima mostra as rotas utilizadas no primeiro touchdown de Danny Amendola no jogo contra os Jaguars. Sem Edelman, Amendola foi o responsável por usar as rotas de opção com cortes curtos ao longo da temporada. Aqui, ele corre uma shallow cross contra uma marcação em zona, e reagindo ao posicionamento em zona dos linebackers, cruza o campo inteiro. As demais rotas têm o objetivo de atrair os jogadores dos Jaguars para o fundo da endzone.

Observe que Brady poderia ter tentado o backshoulder fade em Brandin Cooks alinhado de Split-end, mas esse é um passe de baixa taxa de conversão. Ele espera a segunda leitura e conta com Amendola ganhando jardas após a recepção para o touchdown.

O TD da virada contra os Jaguars é mais um exemplo de como Brady tem a paciência de esperar a melhor opção para o passe aparecer livre, bem como o excelente trabalho de Dante Scarnecchia com a linha ofensiva ao permitir que isso aconteça. Duas rotas dig ao fundo da endzone enquanto Cooks corre uma slant/out.

Brady espera Amendola aparecer em cima do “P de Patriots” na endzone e manda o passe perfeito, o tipo de conexão que só é possível graças à capacidade do QB de antecipar esse momento. Vitória por 24 a 20 e os Patriots vão para o oitavo Super Bowl comandados por Bill Belichick.

Pontos-chave para o Super Bowl

É tolice não considerar os Patriots como favoritos no Super Bowl LII, ao mesmo tempo que também não se deve descartar o trabalho dos Eagles. Conter o poderoso front seven dos Eagles é uma necessidade. David Andrews terá um trabalho primordial contra Fletcher Cox no A-Gap.

Ano passado em Houston vimos um Patriots que parecia despreparado (uma novidade) contra os Falcons e que conseguiu fazer história graças aos ajustes de intervalo. Esse tipo de previsão não é possível de ser feita, já que seria pretensão afirmar que os técnicos não se preparariam adequadamente para um jogo da grandeza do Super Bowl.

Com Gronkowski fora do protocolo de concussão, o TE terá sua segunda atuação na grande final totalmente saudável fisicamente, já que esteve fora ano passado e jogou machucado no Super Bowl XLVI, em Indianapolis. O terror dos matchups será mais uma vez o eixo motor dos recebedores do New England Patriots.

 

Tempo perdido: Jay Christopher Cutler, você não sabe jogar!

2009 já parece um tanto distante, mas a lista de qualidades que apontavam Jay Cutler como o salvador do Chicago Bears era relativamente palpável: Chicago era uma franquia historicamente sedenta por quarterbacks e Jay era um jovem de 25 anos que vinha de uma temporada de 4500 jardas e 25 touchdowns – poderia não ser perfeito, mas era, ao menos, uma esperança concreta, mesmo que fosse preciso relevar a petulância de seus últimos dias em Denver.

Agora já se vão oito anos desde aquela noite de abril. E do instante em que Cutler posou com Lovie Smith e Jerry Angelo no Hallas Hall, já passaram por Chicago outros dois head coaches e dois GMs, além de meia dúzia de coordenadores ofensivos. E com Cutler, Chicago foi aos playoffs apenas uma vez, o mesmo número de presenças na pós-temporada entregue por quarterbacks como Rex Grossman e Kyle Orton.

Hoje, a história entre Cutler e sua equipe, está naquele ponto em que uma decisão precisa ser tomada. E sabemos que desistir é, no fundo, uma grande merda. Desde o início de nossas vidas, somos ensinados a nunca desistir. É o que também esperamos daqueles que estão dentro de um campo de football, afinal, ele é um reflexo bem próximo da vida. Mas em alguns casos você irá perceber que na verdade não está desistindo de nada: você só está preso a um jogador horrível e precisa admitir que após anos e anos de tentativas frustradas, é hora de seguir em frente.

O caminho até a NFL

Criticar o destino final conhecendo o caminho percorrido é extramente confortável, então vamos olhar em retrospecto. A classe de 2006 do draft não foi lá muito prolífica em QBs, mas mesmo assim nomes como Mike Mayock e Steve Young saíram em defesa de Cutler – deixando atrás Matt Leinart, vencedor do Heisman em 2004 (15 TDs e 21 INT em sua carreira na NFL) e Vince Young, este com 45 TDs e 51 INT em seis anos de liga.

Paradoxalmente, enquanto Leinart e Young protagonizaram um dos maiores jogos da história do college football, a carreira universitária de Cutler em Vanderbilt terminava com uma derrota para Kentucky – e tanto Leinart quanto Young venceram mais jogos em 2005 do que Cutler em todo seu período na universidade. Mas conforme o draft se aproximava, a narrativa sobre Jay tomava um novo rumo: tudo que ele havia conquistado em Vanderbilt (basicamente um First Team All-SEC em 2005), ele fizera sem muito auxílio; Cutler não tinha os holofotes que Leinart e Young tinham, mas contava com um braço assustadoramente forte e, sobretudo, vontade de usá-lo. “Creio que ele tem um release mais rápido que qualquer um dos dois. É um cara duro e acho que ele jogou atrás de uma linha ofensiva muito pobre”, era o que diziam analistas na época.

Na semana do draft, especulava-se que ao menos seis equipes estariam interessadas em Jay Cutler: Floyd Reese, GM do Titans, o encontrou várias vezes. O New York Jets também estava bem posicionado para selecioná-lo, mas foi Denver quem agiu, subiu posições e o escolheu na 11ª posição.

Primeiras impressões

Já nos cinco jogos finais de sua primeira temporada, Cutler colocou Jake Plummer no banco; Jake ostentava 39 vitórias e 15 derrotas em temporada regular com os Broncos, mas vinha de sua pior fase e, enfim, as perspectivas futuras com Cutler pareciam muito mais promissoras do que manter Plummer.

E assim foram os dois anos seguintes de Jay Cutler na NFL; um misto entre indícios de um futuro possível e um presente irrelevante. Em 2008, porém, forçado por um defesa ridícula, Jay precisou lançar 616 passes, que resultaram em 4526 jardas, 25 touchdowns e 18 INT. Ao final daquela temporada, Mike Shanahan perdeu o emprego e os Broncos buscaram o OC Josh McDaniels em New England. E foi quando tudo começou a ruir.

Aquela carinha de “foda-se”.

O Jay Cutler que conhecemos e a oportunidade única

Bus Cook, agente de Cutler, disse à AP que Denver, junto com McDaniels, iria trazer Matt Cassel, que acabara de substituir Tom Brady por um ano e tivera 10 vitórias. O que sabemos nunca aconteceu. E Cutler reagiu da maneira que Jay Cutler reagiria: recusou-se a falar tanto com McDaniels como com Pat Bowlen, proprietário do Broncos.

E apesar de mais tarde Cutler ter negado que teria pedido uma troca, suas declarações iam na direção contrária das de seu agente. “Não me importa se você fala em trocá-lo por Matt Cassel, Matt Ryan ou Tom Brady, você não está dando um voto de confiança para ele. É assim que Jay vê, e eu faria da mesma forma”, afirmou Bus. Já McDaniels declarava que não queria trocar Cutler, que ele era o quarterback do Broncos. Então, 40 dias depois, Cutler desembarcava no Soldier Field.

Jerry Angelo, GM de Chicago por mais de uma década, definiu a chegada de Cutler como “uma oportunidade única”. Para ele, franchise quarterbacks de 26 anos não se tornavam disponíveis e era preciso agarrá-los, mesmo que o preço fosse salgado – e Jay (mais uma escolha de quinto round) custou para os Bears duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira, além de Kyle Orton. Mas, como Angelo insistia em frisar, era uma oportunidade única, um mergulho na loucura para que os Bears deixassem uma mediocridade já latente.

Início de um longo pesadelo

A primeira temporada de Cutler em Chicago foi uma grande tragédia. Logo em sua estreia, ele lançou quatro interceptações – em uma partida que o Bears perdeu por apenas seis pontos. Naquele mesmo dia, o LB Brian Urlacher, que passaria seus 13 anos de carreira em Chicago, fraturou o pulso e ficou fora do restante da temporada. Foi a gota d’água para o sistema defensivo do Bears, então um dos mais confiáveis da NFL, implodir.

Lançando passes freneticamente, Cutler terminaria o ano com 26 INT, sendo que em sete das 16 partidas ele foi interceptado mais de uma vez. Ao final daquela temporada também teríamos o início de um filme reprisado intensamente na era Cutler em Chicago: o OC Ron Turner, incapaz de extrair o melhor de seu novo QB, jovem e brilhante, foi demitido; começava a relação cíclica dos Bears com seus OCs, tão estável quanto relacionamentos adolescentes.

Já o segundo ano de Jay em Chicago, 2010, traz um paradoxo: o Bears venceu muito naquela temporada; foram 11 vitórias e o título da NFC North. Mas isso pouco tem a ver com seu ataque; na offseason Chicago assinou com um Julius Peppers em sua melhor forma o que, junto ao retorno de Urlacher, reacendeu o sistema defensivo – que saltaria da 21ª em 2009 para a 4ª posição em 2010, claramente entre as melhores da NFL. Já o ataque, bem, Cutler foi sackado incríveis 52 vezes naquela temporada, que resultaram em mais de 350 jardas perdidas; foram ainda 23 TDs e 16 INT, para um rating de 86.3.

Tudo isso culminou no NFC Championship, que deve assombrar os torcedores de Chicago e Jay Cutler até hoje: logo no início da partida, Cutler torceu o joelho e os Bears precisaram contar com um inútil Todd Collins (que durou menos que Cutler em campo) e, logo depois, Caleb Haine, que praticamente estreava na NFL em um Championship Game. Mesmo com a defesa segurando Aaron Rodgers e o Packers em 21 pontos, era um ataque inexistente e tudo foi em vão.

Com o ataque paralisado e Cutler na sideline, as críticas eram inevitáveis. Darnell Dockett, DE do Cardinals, esculachou. Mike Ditka, um dos técnicos mais vitoriosos da história do Bears, também não deixou barato. Cutler era, pela primeira vez, o alvo real da ira de toda comunidade de Chicago.

“Neva até soterrar esse demente”, teria pedido um torcedor do Bears.

Recomeço?

Com um novo ano, há sempre novos planos e após perder a chance de chegar ao Super Bowl, Chicago começou a temporada com uma campanha 7-3, com Cutler com os melhores números de sua carreira, e a defesa novamente no topo da NFL. Próximos da sétima vitória, porém, Jay Cutler lançou uma interceptação, recebeu um bloqueio e aquela que provavelmente foi sua última real chance de redenção se despedaçou com seu polegar direito – o Bears foi forçado a seguir com Caleb Haine, que teve uma vitória nas seis partidas seguintes.

Ao final daquela temporada, muito mudou em Chicago. Jerry Angelo foi o primeiro a deixar Illinois. Phil Emery assumiu o cargo de GM e passaria os próximos quase dois anos tentando construir um ambiente favorável para Jay; todos os movimentos foram pensados para ajudá-lo a prosperar: Emery conseguiu uma troca que trouxe o WR Brandon Marshall, com quem Cutler tivera relativo êxito no Broncos, além de buscar Alshon Jeffery no draft. Mesmo vencendo 10 partidas em 2012, o Bears não chegou aos playoffs, então Emery julgou o momento como certo par demitir o HC Lovie Smith, que foi substituído por Marc Trestman, reconhecido em toda NFL por seu trabalho com quarterbacks. Já da free agency chegaram o TE Martellus Bennet e o LT Jermon Bushrod, enquanto o G Kyle Long foi selecionado na primeira rodada do draft para tornar o OL ainda mais consistente: em 18 meses Emery tinha mudado toda a estrutura do Bears, moldando o ataque do time às características de seu QB.

O objetivo, de certa forma, foi atingido: Brandon Marshall era um dos melhores WRs da NFL, Jeffery uma estrela em ascensão e Cutler atingia seu melhor rating desde que deixara Denver. Mas estamos falando de Jay Cutler e com ele não há um ano sem que haja uma turbulência: passada metade da temporada, Jay lesionou a virilha, dando lugar a Josh McCown, que postou um rating de 109, lançou 13 TDs e apenas 1 INT durante o período em que comandou o ataque do Bears. Quando Cutler foi liberado pelo departamento médico para retornar, claro, não houve unanimidade. Mas Trestman optou por Jay, e na semana 17 um tropeço contra Green Bay lhes custou a vaga nos playoffs.

Tudo isto culminou em… um novo e gigantesco contrato para Cutler. Tudo bem, era preciso considerar o ano anterior e o fato de que tanto Marshall como Jeffery tinham sinergia com Jay, então suas deficiências passadas pareciam contornadas. Além de Emery ter montado uma equipe para Cutler: ele finalmente seria o jogador que o Bears esperava, então Phil lhe entregou um contrato de sete anos no valor de US$ 126 milhões, sendo US$54 milhões garantidos.

Na época, o novo acordo foi considerado um preço a ser pago na NFL e moldou os contratos seguintes de quarterbacks. Mesmo assim, muitos o apontaram como o tipo de contrato que só é estabelecido com um QB que você tem plena certeza que o levará ao SB.

De qualquer forma, para Chicago, não era algo normal, mas talvez também estivesse longe de ser algo absurdo, afinal ainda havia um resquício de chance de Jay se tornar o franchise QB que o Bears buscara em abril de 2009. Era preciso acreditar nisso, era preciso ter fé. E foi o que Emery e Trestman fizeram; eles tiveram fé em Jay Cutler, apenas para  ela se provar errada e ambos terminarem o ano desempregados.

Presos no tempo

Tudo isto nos mostra que a relação entre Cutler e Chicago não é apenas um recorte interno da história do próprio Bears, não é apenas sobre Jay Cutler, ano após ano, se afogando em um mar de desculpas esfarrapadas. O que aconteceu com Chicago e Jay ao longo destes oito anos é um reflexo real da nossa forma de arrumar desculpas diariamente: quando caras como Lovie Smith, Marc Trestman ou mesmo Mike Shanahan se tornam bodes expiatórios, quando tantos outros são culpados por um problema, substituídos, mas o problema persiste, talvez você não esteja identificando o real problema.

“Foi culpa da defesa”, “No final das contas, foi uma boa temporada”, “Precisamos ser mais compreensivos”, “Há alguns jovens que precisam de mais tempo para se desenvolver”… Foram vários os discursos recorrentes que acabaram soando como as mesmas velhas desculpas. E enquanto elas eram repetidas, Cutler seguia ali: ele já não era mais tão jovem, mas a decepção continuava.

Talvez não exista em nenhum esporte coletivo uma posição com a carga de representatividade que um quarterback traz consigo. Nos atendo apenas a NFL, você pode ter o melhor RB disponível, dois WRs incríveis ou mesmo uma defesa espetacular: no fim do dia, é naquele cara que está logo atrás do center que você deposita suas esperanças; é ele quem precisa liderar, é ele quem deve fazer tudo funcionar.

Lógico, uma equipe pode vencer sem um bom QB, mas se ele não vai bem, sempre haverá essa preocupação recorrente; maus quarterbacks podem despedaçar qualquer sonho de um fã de football. E nos últimos oito anos não existiu alguém que destruísse sonhos com tanta eficiência como Jay Christopher Cutler. E Cutler sempre teve tudo o que precisou para ser um franchise quarterback, mas ele não é confiável, ele não pode liderar a equipe.

Em linhas gerais, Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter algum tipo de simpatia por quem a tortura. Se ela pode ser transposta à NFL, não há um exemplo melhor que a relação entre Cutler e o Bears: enquanto Chicago sempre procurou alguém para culpar, proprietários, treinadores, linha ofensiva ou qualquer outro elemento, talvez finalmente estejamos chegando no momento em que só reste admitir que Jay Cutler simplesmente não sabe jogar. Que Jay Cutler simplesmente não se importa.