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Um QB e um futuro para chamar de seu

Noite de segunda-feira, 30 de outubro de 2017. Enquanto você se preparava para acompanhar o Monday Night Football entre Broncos e Chiefs, veio a notícia: o New England Patriots trocava o QB Jimmy Garoppolo para o 49ers em troca de uma escolha de segunda rodada, ou um rodízio de churrasco na cotação brasileira.

O contrato de Jimmy acabaria no final do ano e, sem perspectiva de renovação, os Patriots optaram por capitalizar em cima de uma inevitável movimentação do jogador. Os Browns, que pareciam o provável destino, estavam muito ocupados comemorando a troca por AJ McCarron – que nunca aconteceu.

San Francisco, onde Garoppolo aterrissou, vivia um drama: o experimento com Bryan Hoyer havia falhado e o ataque era até então comandado por CJ “cara e nome de caipira” Beathard. A princípio Jimmy não jogou, mas…

O atípico

Ao final do já perdido jogo contra os rivais de divisão Seahawks, os 49ers decidiram finalmente experimentar seu novo QB lançando passes. Era garbage time, não valia nada, mas o torcedor pôde sorrir pela primeira vez na temporada.

Foi somente um drive, mas apenas isso já foi o suficiente pra iniciar o hype em torno de Garoppolo. O próximo jogo, contra um fraco Chicago Bears, mostrou que talvez não fosse sorte de principiante. As vitórias contra Houston, Tennessee e Jacksonville terminaram de fazer o serviço. Estava instaurada a febre não apenas na California, mas em toda a NFL. Jimmy havia levado um time 1-10 a 4 vitórias consecutivas. Pouco importava a posição no draft: em San Francisco, a certeza de que a posição-mais-importante-do-jogo tinha dono era mais importante.

Moreno sensual.

A calmaria antes da tempestade

Você deve se lembrar do air que pairava sobre o estádio da calça jeans antes da temporada. A offseason que trouxe Kyle Shanahan e John Lynch era muito bem vista dentro e fora da franquia, e os anos de Chipp Kelly e Jim Tomsula pareciam ter ficado pra trás.

Porém, antes da chegada de Jimmy G, os 49ers eram um time fraquíssimo, que não havia transformado suas movimentações em bom desempenho. Faltava, principalmente, um quarterback.

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Nem mesmo o melhor dos QBs (Peyton Manning, no caso), é capaz de vencer jogos completamente sozinho. Quando chegou, além de suas atuações, Garoppolo foi capaz de melhorar as performances de seus companheiros de equipe. Pense bem: você vai acreditar mais que seu time pode continuar dentro na pelada se o Cristiano Ronaldo está do seu lado pra decidir, certo?

Recarregando

À bordo do hype train (o trem do entusiasmo, em tradução livre), ambos, 49ers e Jimmy, chegaram a um acordo para manter o jogador na cidade por mais tempo. Naquele velho esquema de QB-mais-bem-pago-da-NFL-porque-foi-o-último-QB-a-assinar-um-contrato, Garoppolo vai desembolsar mais de 135 milhões de dólares pra continuar vestindo vermelho pelos próximos 5 anos.

Além de assegurar a permanência de Jimmy, a franquia também foi atrás de Richard Sherman no mercado. O jogador chega como reforço em duas frentes: ajudar o próprio 49ers e parar de atrapalhar o próprio 49ers (ver: CHAMPIONSHIP GAME, NFC 2014). Além de Sherman também foram contratados o C Weston Richburg e RB Jerick McKinnon.

No draft, a escolha de primeiro round foi utilizada no OT Mike McGlinchey (nome massa, precisamos reconhecer) e a de segundo no WR Dante Pettis. O plano é bem claro: proteger e dar mais armas para o franchise QB semi-novo. As escolhas seguintes foram usadas para reforçar a defesa, mas você não sabe quem são os jogadores e nós não vamos fingir que sabemos.

O que mudou?

San Francisco não foi loucamente atrás de reforços como já vimos alguns times fazendo. A equipe preferiu acreditar na progressão dos talentos da casa, como Solomon Thomas, Arik Armstead e DeForest Buckner. Os contratados vieram em uma mistura de oportunidade/necessidade.

Porém, o que talvez seja impossível de mensurar é o peso que Garoppolo tem na franquia. Claro, é o jogador mais bem pago do time e na posição mais importante, mas não é só isso. Pense no Indianapolis Colts como exemplo. Apesar de nunca ter tido um time do calibre de Steelers e Patriots com Andrew Luck, o time esteve nas cabeças da AFC durante o tempo em que seu QB se manteve saudável. O sucesso não era atribuído a uma boa equipe, mas a diferença que Andrew fazia. Um quarterback decisivo pode dar ao time o luxo de vencer alguns jogos em que a equipe conseguiu apenas uma atuação excepcional ao final do último quarto.

Talvez não seja uma base-sólida para escorar as esperanças, mas o 49ers parece não precisar apenas das peripécias de Jimmy para ter sucesso. O alto investimento recente na defesa já rendeu alguns frutos, e o setor só tende a melhorar.

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Kyle Shanahan estará em seu segundo ano no comando do ataque. Novamente, vale pensar em outro exemplo: o impacto que ele teve em Atlanta, naquela temporada que viu Matt Ryan como MVP tanto da liga quanto dos três primeiros quartos do Super Bowl. É tudo ao redor de Jimmy, mas não é só ele.

A squad

Se Garoppolo manter o alto nível de atuação (o que convenhamos ser difícil, porém não impossível), o ataque deve ser ainda melhor que aquele que fechou 2017. Pierre Garçon volta de lesão, Dante Pettis pode ser uma arma versátil tanto no jogo aéreo quanto nos retornos, George Kittle parece pronto para despontar como um grande jogador, o inconstante Carlos Hyde foi embora para dar lugar a um corpo de RBs rejuvenescido e a linha ofensiva comandada por Joe Staley está melhor. E, claro, o ataque comandado por Shanahan que já citamos estar em seu segundo ano.

A defesa também tem tudo para progredir. Solomon Thomas não foi um fator no ano passado, então qualquer produção vinda dele já poderá ser considerada um ganho. Além dele, Reuben Foster e Akhello Whiterspoon devem continuar progredindo após temporadas promissoras como calouros. Jaquiski Tartt também vem de atuações interessantes. Por fim, apenas a saída de Eric Reid pode, de fato, ser considerada uma perda.

Palpite:

O 49ers tem tudo para ser uma potência dentro da NFC pelos próximos anos. John Lynch e Kyle Shanahan parecem trabalhar em sintonia e já plantaram a semente de um bom trabalho. A amostra de Jimmy Garoppolo que temos é de um nível tão alto que é difícil acreditar que é verdade, então mesmo uma regressão ainda o deixa como um QB acima da média. 2018 pode ser o ano que esse grupo comece a aspirar vôos mais altos, mas a conferência está muito forte para querer sonhar muito alto. Em uma divisão com o Los Angeles Rams, uma temporada do nível 10-6 pode ser considerada boa, mas talvez não seja o suficiente para chegar aos playoffs. Caso chegue lá, o 49ers enfrentará outros cachorros grandes e possivelmente não esteja no mais alto nível. Ainda.

Jimmy, San Francisco e a procura pelo QB ideal

Existe uma questão que praticamente todo time da NFL que passa por uma reconstrução precisa cedo ou tarde responder. E a resposta para essa pergunta, muitas vezes, pode determinar o sucesso ou fracasso de um período inteiro de reconstrução, e definir o futuro da franquia.

Como conseguir o seu quarterback para o futuro?

Querendo ou não, a posição de QB é de longe a mais importante do futebol americano, e muitas vezes o diferencial entre o sucesso e o fracasso. Existe um motivo pra que 90% dos vencedores do prêmio de MVP sejam quarterbacks. Então se você é um time ruim que quer ser bom, a melhor forma de atingir essa virada – e, talvez mais importante, de garantir que essa virada seja sustentável no médio e longo prazo – é conseguir acertar em cheio no jogador que você escolhe para comandar o ataque da sua franquia. Times como Jets e Texans tentaram se reconstruir muitas vezes nos últimos anos, mas sem achar uma solução para a posição, sempre dependeram de um sucesso pontual em meio a diversos anos decepcionantes (o Texans, claro, parece enfim ter encontrado seu QB). O Browns nunca conseguiu uma reconstrução em parte por nunca ter achado o seu quarterback. Times como o Jaguars – que deve finalmente voltar aos playoffs esse ano e está 9-4 – podem conseguir um bom ano atrás de uma dominante defesa apesar de ter Blake Bortles como titular. Mas pense em quantos anos de boas defesas não foram desperdiçados em Jacksonville, Chicago, Saint Louis (descanse em paz) e Minnesota devido à incerteza na principal posição do jogo.

Por isso times que estão em reconstrução precisam, em algum momento, encarar essa mesma questão e decidir de onde vão tirar um quarterback para chamar de seu. E, como todo jogador, existem três formas de se adquirir um: por troca, pelo Draft, ou contratando um agente livre. E o pior, ou talvez mais interessante, é que não existe uma resposta certa. Todos os três meios têm seus prós e contras, e não existe uma maneira segura de garantir que seu time vai encontrar uma solução para os próximos 10 anos. GMs inteligentes em reconstruções são os que mantém as três vias abertas e manipulam seus ativos de forma a maximizar suas chances, e se colocam assim em uma boa situação para aproveitar as oportunidades que aparecem.

O Draft costuma ser a via mais utilizada por tais times em busca de um franchise QB, o que faz bastante sentido. Times em reconstrução costumam ser ruins e ganhar poucos jogos, o que significa que escolhem perto do topo do Draft com frequência – o lugar onde costumam se encontrar os melhores QBs. Dos 32 QBs titulares “ideais” nesse ano na NFL, 20 deles foram selecionados na primeira rodada, e 5 outros na segunda rodada. Uma escolha alta no Draft é, em tese, a melhor maneira de garantir que esses jogadores estejam no seu time.

Outro benefício de encontrar esse jogador no Draft é que isso garante a você 5 anos baratos (no caso da primeira rodada, ou 4, no caso de outras rodadas e, por fim, se você for um mago do scouting, 3 anos no caso de jogadores Undrafted) para a posição mais cara do time, economizando assim um valioso dinheiro que pode ser usado em outras posições importantes (Russell Wilson, escolha de 3ª rodada, é o melhor exemplo disso: durante 4 anos o Seahawks teve seu Franchise QB ganhando 1 milhão por ano, e pôde gastar esse dinheiro para ir na free agency contratar estrelas e renovar com seus melhores jogadores, montando assim a espinha dorsal do time campeão em 2013).

Mas o Draft também é de certa forma uma loteria. O índice de acertos não é grande o suficiente para essa ser uma opção de baixo risco, e escolher o QB errado no topo do Draft é uma coisa que pode atrasar sua reconstrução em anos enquanto a franquia fica comprometida com um jogador ruim. O Rams escolheu Sam Bradford, não deu certo, e demorou 8 anos até voltar a ser um time competitivo (embora Jeff Fisher tenha lá sua parcela de culpa). Titans, Jaguars e Vikings escolheram, respectivamente, Jake Locker, Blaine Gabbert e Christian Ponder no mesmo Draft, e demoraram anos para se recuperar da decisão. O Broncos parece ter errado feio com Paxton Lynch, e agora tem talvez a pior situação de QBs da NFL segurando o que deveria ser um ótimo time. E, para para piorar o problema, muito do sucesso no Draft envolve a forma como os times desenvolvem os jovens talentos que adquiriram, e um time em reconstrução normalmente não tem grandes peças para colocar em volta de um jovem QB e auxiliar seu desenvolvimento (pense em Alex Smith, escolha #1 de 2005, com os 49ers), o que pode diminuir as chances de sucesso de uma escolha desse tipo. É uma opção de alto risco.

Buscar esse QB na free agency não tem o mesmo risco, mas também é uma oportunidade infinitamente mais limitada por um simples motivo: franchise QBs simplesmente não chegam no mercado. A estrutura de salários da NFL – em especial a Franchise Tag – gera incentivos muito maiores para os times manterem suas grandes estrelas, e como QB é a posição mais importante do time, esses são os jogadores que as equipes concentram esforços para manter. Situações como as de Drew Brees e Peyton Manning são enormes outliers – contextos muito únicos com questões complicadas de lesões para adicionar – que times em reconstrução dificilmente podem prever ou se apoiar como uma estratégia confiável. Os QBs que normalmente se encontram no mercado são os medianos , os Tyrod Taylors e Jay Cutlers da vida, que podem até servir em um situação favorável, mas estão longe de serem uma garantia – caso contrário não estariam disponíveis. Certo, Brock Osweiler?

O que o desespero não faz com as pessoas.

Geralmente os melhores resultados na free agency vêm para times que fazem compras baratas e apostam em um jogador que floresce em um contexto favorável e específico, com o Vikings encontrou esse ano com Case Keenum ou o Cardinals com Carson Palmer. Mas esses casos são minoria, e ambos tiveram sucesso em parte porque encontraram uma situação muito favorável e um time extremamente completo e bem montado ao seu redor, situação que um time ruim em reconstrução dificilmente pode proporcionar. Além disso, não é como se fossem apostas feitas com convicção: Keenum foi contratado para ser a terceira opção atrás de Bradford e um Teddy Bridgewater em recuperação, e se o Vikings tivesse a menor ideia de que Keenum iria explodir em Minnesota, com certeza teria oferecido a ele um contrato mais longo que mantivesse-o sob controle da franquia por mais tempo (e a um baixo custo).

Por fim, as trocas são as situações mais imprevisíveis das três. Franchise QBs raramente ficam disponíveis para troca, e os jogadores que ficam muitas vezes são os que enfrentam muitas dúvidas ou que dependiam muito de um esquema tático específico. A melhor situação é algo como o que  aconteceu com Alex Smith – um bom QB “forçado” ao banco por uma opção melhor – e ainda assim são situações que costumam envolver um alto preço, muitas vezes em escolhas de Draft, que um time em reconstrução pode hesitar em pagar, a menos que o interesse seja muito grande – ou a janela esteja fechando. É talvez a opção mais interessante por oferecer maior variedade de situações, e a que os GMs mais precisam estar alertas para aproveitar quando aparece, mas também é uma via bastante escassa.

Então considerando a imprevisibilidade e alto custo da primeira opção, e a baixa oferta das últimas duas, não é de se espantar que tantos times esbarrem na dificuldade de achar um bom quarterback para seu time, especialmente um que faça sentido com a timeline do resto do seu elenco. Cometa um erro com a opção errada, e seu time pode se atrasar em anos até voltar a ser competitivo. Deixe passar uma boa opção, e seu emprego estará em xeque com sua cabeça sendo pedida por boa parte da mídia e dos torcedores (como aconteceu com o Browns, por exemplo). É uma situação delicada, uma fina linha entre explorar o máximo de vias possíveis enquanto não compromete os recursos de forma apressada, e saber exatamente a hora (e o custo) certo para se fazer uma aposta. Paciência, pensamento de longo prazo e – sejamos sinceros – uma boa dose de sorte costumam fazer a diferença nessas horas.

A reconstrução do 49ers

O 49ers era um dos times que estava nessa situação no ano passado. Com Jed York finalmente admitindo o erro passado e aceitando que a franquia precisava recomeçar quase do zero, San Francisco dispensou os resquícios da antiga gestão (incluindo seu QB titular, Colin Kaepernick), trouxe um novo técnico e um novo GM, e anunciou sua intenção em enfim focar no longo prazo (a decisão correta, com dois anos de atraso). E, claro, parte importante desse processo (especialmente tendo dispensado um QB que te levou ao Super Bowl quatro anos antes) era descobrir quem seria o novo quarterback de uma franquia com uma longa tradição na posição.

E o interessante é que o novo GM John Lynch tinha à sua frente múltiplas opções para tomar na busca pelo novo QB do futuro da franquia, e sendo seu primeiro cargo executivo na NFL, muitas pessoas especulavam se essa falta de experiência levaria Lynch a querer ir para o Home Run logo de cara com alguma grande movimentação nesse sentido. No entanto, Lynch fez aquilo que, a meu ver, foi a decisão mais correta no momento: ele não fez nada.

Com a escolha #2 do Draft, San Francisco estava em boas condições de ir atrás de um QB como Mitch Trubsky ou Deshaun Watson, consideradas as duas melhores opções do ano na posição. No entanto, a avaliação de Lynch era de que nenhum dos dois valeria essa escolha – uma avaliação partilhada por mim e grande parte dos analistas – então Lynch inteligentemente foi na direção oposta, trocando suas escolhas para descer no Draft e acumular seleções extras (como times em reconstrução deveriam fazer). Ajudou também o fato que o Chicago Bears aparentemente não tem a menor ideia do que está fazendo. 

O que o desespero não faz com as pessoas.

Enxergando (novamente de forma correta) que não teria à sua disposição como adereçar a questão do QB de forma satisfatória e ao preço certo no momento (e, talvez, que não fosse a hora para isso), o GM do Niners se preocupou em manter as opções em aberto para o ano seguinte. A classe de QBs de 2018 prometia ser bastante intrigante com Josh Rosen e Sam Darnold. As escolhas de Draft extras que Lynch acumulou no seu primeiro recrutamento como GM deram ao 49ers um rico baú de ativos que poderia usar caso quisesse entrar em alguma negociação de troca, ou até para subir no próximo Draft. E, no horizonte, Kirk Cousins estava ameaçando virar free agent depois de dois anos jogando sob a Franchise Tag e múltiplos dissabores com a diretoria de Washington. O Chicago Bears é, novamente, o exemplo de quem não sabia o que estava fazendo. Mike Glennon, gente. Mike Glennon. 

Ao invés de tentar resolver tudo de uma vez só, Lynch enxergou no horizonte possibilidades muito melhores se desenhando para ano que vem, e posicionou o time de forma a explorar todas elas conforme fossem aparecendo. Enquanto isso, manteve a pólvora seca: trouxe Brian Hoyer na free agency, um QB veterano que já tinha trabalhado com Kyle Shanahan e iria ajudar a implementar seu esquema tático, e usou uma escolha de terceira rodada (luxo que poderia se dar com tantas escolhas adicionais) em CJ Beathard. Nenhuma das duas era um movimento que fosse provável resolver a posição para o futuro, mas foram dois movimentos de baixo custo que poderiam dar resultados modestos no médio prazo, apostas inteligentes de baixa probabilidade, mas baixo custo – e, afinal, ALGUÉM precisava jogar de QB para esse time.

Lynch faz o seu movimento

Agora todos já sabemos como essa história terminou. Depois de passar boa parte do ano esperando o mercado se desenhar enquanto Beathard e Hoyer não funcionaram como titulares (quem poderia imaginar, QUEM?), o 49ers eventualmente acabou enviando sua escolha de segunda rodada de 2018 (um preço bastante em conta considerando que San Francisco tem escolhas extras de segunda e terceira rodada em 2018, rodada graças às trocas do Draft passado) para New England em troca de Jimmy Garoppolo, o promissor QB que não encontrou espaço para jogar graças a um tal de Tom Brady.

O preço de uma escolha de segunda rodada por Jimmy G é bastante modesto comparado ao que New England supostamente estava pedindo ano passado e até no Draft desse ano, que variava entre múltiplas escolhas de primeira rodada ou uma escolha alta de primeira rodada. E isso é um testamento ao quão bem o 49ers jogou o jogo da paciência. A impressão que dá, entre tudo que é era reportado vindo de Foxborough, é que a vontade de Bill Belichick sempre foi manter Brady E Garoppolo (o que, de certa forma, já é um elogio imenso à capacidade do camisa 10) no time. Belichick tentou caminhar a linha de manter os dois jogadores até que concluiu que não seria possível, e acabou aceitando a proposta do 49ers.

Tente não se apaixonar.

Lynch lidou com a situação de forma perfeita. Se essa troca fosse feita no começo do ano, teria custado bem mais ao 49ers, pois o Patriots ainda estava com a força das negociações e tentando manter os dois QBs. Ao invés disso, Lynch esperou até o momento que o Patriots enfraqueceu sua posição e chegou a um bom acordo com um dos GMs mais difíceis de negociar da NFL.

Claro que o Niners poderia ter simplesmente esperado acabar o ano e tentar pegar Garoppolo então, mas isso também envolveria muitos riscos. New England ainda poderia usar a Franchise Tag (e nesse caso dificilmente o preço cairia mais), e mesmo se ele chegasse ao mercado, isso significaria que o 49ers teria que entrar em uma provável batalha financeira com outros times interessados, o que aumentaria consideravelmente o preço financeiro do negócio, e aumentaria também as chances do Niners NÃO conseguir o jogador. E, se conseguisse, provavelmente seria em um contrato longo e muito custoso, para um jogador que o 49ers teria  tido apenas DOIS jogos como titular em New England (ambos ano passado, em um esquema tático diferente e conhecido por “proteger” seu QBs e fazer jogadores medianos parecerem muito melhores) para avaliar. É o tipo de jogada all-in de altíssimo risco que o 49ers deveria evitar (e vem evitando), e trocando por Garoppolo agora não só San Francisco se colocou com todas as cartas para manter o jogador no time no longo prazo por um contrato menor do que daria no mercado, como também ganhou meia temporada para avaliá-lo, seja jogando como titular, seja nos treinos e como se relaciona com a comissão técnica, antes de tomar a decisão se quer apostar seu futuro no jogador.

E o mais interessante é o seguinte: com o contrato expirante de Jimmy, essa troca em nenhum momento compromete as outras possibilidades para o 49ers de conseguir um QB. Se Garoppolo não fosse/for bem ou o time avaliasse/avaliar que não valeria a pena seguir investindo no jogador, San Francisco poderia simplesmente deixá-lo ir embora, aceitar a escolha compensatória pelo jogador (inferior à que o time pagou por ele, sem dúvida, mas um preço que o time pode se dar o luxo de pagar), e voltar sua atenção para as opções no topo do Draft ou para Kirk Cousins. Isso teria um custo, mas a informação e a posição de força nas negociações adquirida teriam valido a pena, e a franquia poderia não se comprometer com uma opção sub-ótima, mantendo ainda as opções muito abertas.

Mas, claro, até aqui parece muito improvável que vá chegar a isso.

Jimmy Garoppolo em campo

Dois jogos não fazem uma carreira, sem dúvida. É impossível avaliar um jogador com tão pouco, e mesmo em cinco jogos (a quantidade de jogos que Garoppolo pode ter de titular antes de virar free agent) muita coisa ainda será um mistério. Quase qualquer QB ruim (menos Paxton Lynch) da NFL pode pegar dois jogos da carreira e apontar para eles como sendo uma amostra de que é um bom jogador. Então sempre temos que tomar cuidado para não ler demais em informações de menos.

Mas é humanamente impossível não se empolgar com o que Jimmy Garoppolo está mostrando em suas duas primeiras partidas como titular. Não é a questão da sua produção, embora essa também esteja sendo ótima: 66,7%, 9.0 Y/A, 8,3 AY/A, 645 jardas, 2 TDs, 2 INTs. Seu QBR seria 6º na NFL inteira, e seu DVOA seria #2, logo na frente de Tom Brady. Mas vocês não vão me ver referenciando esses números de novo nessa coluna, simplesmente porque eles não importam. 2 jogos é uma amostra pequena demais, e nenhuma estatística tem valor com uma amostra insignificante dessas. Não são os números que estão enchendo os olhos. É como Jimmy está jogando.

O 49ers teve uma abordagem cautelosa com seu novo QB. Ao invés de jogar Garoppolo no fogo de cara, mantiveram o camisa 10 no banco enquanto ele aprendia o playbook e o Niners esperava sua boa dupla de tackles (Trent Brown e Joe Staley) voltarem do departamento médico. Ainda assim, Jimmy entrou em uma situação bastante complicada após a lesão de Beathard, conhecendo apenas uma parte pequena do playbook, e com um elenco de apoio bem abaixo da média em termos de alvos e linha ofensiva.

E apesar disso, nesses dois jogos Garoppolo mostrou que estava mais do que pronto para o desafio. Apesar do conhecimento limitado do playbook e o pouco entrosamento com o resto do ataque, a simples presença de um QB capaz de ler e executar as jogadas já abriu muito esse ataque. Kyle Shanahan está conseguindo chamar mais jogadas e explorar mais jogadores e movimentações do que jamais conseguiu com Beathard e Hoyer, e o comando do ataque que Garoppolo já tem é surreal para alguém com tão pouco tempo de casa. Seu entendimento do jogo e da posição permitiu que isso fosse possível, e sua entrada já destravou mais o ataque do que poderíamos imaginar. 

Mas o que mais chama a atenção em Garoppolo é sua capacidade de lidar com a pressão. Na semana 14, desfalcado de seu RT e sofrendo pressão em incríveis 47% das jogadas de passe (maior marca da rodada), ele mostrou todo seu repertório depois de alguns passes ruins no começo do jogo. Em parte por sua força no braço, Jimmy tem no seu currículo o lançamento patenteado de Aaron Rodgers em movimento, que consegue lançar a bola com velocidade e precisão impressionantes só com o movimento do pulso, e o QB sabe usar isso muito bem. Ele espera até o último segundo para soltar a bola (e seu lançamento é incrivelmente rápido) e tem a combinação de conseguir sentir e lidar com o jogador de defesa no seu cangote enquanto mantém os olhos na secundária para continuar achando as jogadas, fazendo com que repetidamente vença a blitz em conversões cruciais e transforme situações negativas em ganhos. Nos seus dois jogos como titular (contra duas defesas acima da média) Garoppolo continuou mantendo campanhas vivas com conversões longas em terceiras descidas apesar de jogar com um defensor pendurado nele o tempo todo. Essa é uma das habilidades mais importantes de um QB no nível profissional, e Garoppolo está mostrando ser um dos melhores no negócio.

A verdade é que nesses dois jogos Jimmy mostrou todas as habilidades que você procura em um franchise QB. Sua inteligência em campo e sua leitura de jogo são excelentes. Ele consegue jogar em alto nível tanto dentro do pocket como saindo dele. Tem uma excelente precisão e ótima força no braço, e está se mostrando capaz de executar praticamente todos os passes que o ataque de Shanahan exige. Sua capacidade de lidar com a pressão é ainda mais impressionante. E se você acredita que para ser QB na NFL você precisa de uma certa qualidade quase “mística” de incentivar e motivar os companheiros, você não precisa ir muito longe para tropeçar em algum jogador do 49ers derramando elogios sobre seu novo signal caller. Até agora, Jimmy G parece ser o pacote completo. The real deal. 

Clowney who?

Novamente, é importante frisar o quanto dois jogos não servem para fazer uma avaliação exaustiva e completa de nenhum jogador. Nós só podemos avaliar o que nós vimos nesses dois jogos, mas não necessariamente Garoppolo será sempre o que foi neles. Nossa avaliação é limitada a esse respeito, graças a uma amostra pequena.

Mas também é importante lembrar que a avaliação do 49ers sobre Garoppolo não se limita apenas aos jogos. Além do que vemos em campo, o Niners tem Garoppolo nos treinos, aprendendo o playbook, lidando com jogadores e comissão técnica. Essa também é uma valiosa fonte de informações e muito maior e mais rica em qualidade do que nós, observadores externos, podemos captar. E é esse conhecimento agregado que só o Niners possui é o que vai fazer a diferença na hora do time decidir o que fazer com a situação do seu QB para 2018. Lembre-se: Belichick queria mantê-lo no elenco, e isso se deve muito ao fato de tê-lo observado nos treinos por anos.

Por enquanto, o que podemos dizer é que tudo indica que o 49ers achou o seu QB do futuro, e que ele é realmente muito bom – o tipo do jogador em torno do qual você constrói algo maior. O 49ers até aqui jogou todas as suas cartas com perfeição, maximizando suas avenidas para achar esse jogador, e os primeiros retornos indicam que o time conseguiu cumprir essa complicadíssima tarefa com bastante sucesso.

Ainda temos que ver como o 49ers vai dar os próximos passos nessa situação, e qual vai ser sua abordagem em 2018. Mas é difícil não se animar com o que estamos vendo do casamento entre Garoppolo e Kyle Shanahan, e com uma offseason inteira para se reforçar pela frente (na qual San Francisco deve ter mais salary cap do que qualquer organização da NFL tirando o Browns, ou seja, o time da NFL com mais espaço), esse ataque pode começar a fazer barulho muito antes do que o esperado. Dedos cruzados.

Eu escolhi esperar

No mundo dos esportes, existe uma velha citação sobre como você nunca quer ser o cara que substitui “O cara”. Você quer ser o cara que substitui o cara que substitui “O cara”.

Para o 49ers, “O cara” era Jim Harbaugh, o grande treinador que chegou em 2011 de Stanford para salvar a equipe da mediocridade. Antes da chegada de Harbaugh, San Francisco vinha de uma humilhante sequência de oitos anos sem chegar na pós-temporada, tempo esse no qual a franquia teve campanha média de 5-11 e não teve UM ano com mais vitórias do que derrotas; Harbaugh trouxe mudanças, e uma nova cara para a franquia: em seus três primeiros anos, San Francisco foi a três finais de NFC consecutivas e um Super Bowl, ficando a cinco jardas (nota da edição: ou um holding não marcado) de conquistar o sexto anel da franquia. Foram três anos gloriosos, e graças àquele que logo se tornou um dos melhores técnicos da liga.

Saudades.

Mas vocês sabem como a história acaba. Uma diretoria egocêntrica quis os créditos pelo sucesso do time, o que levou a uma queda de braço e à saída de Harbaugh de San Francisco, enquanto Balkee e York buscavam provar que o time não dependia do técnico para continuar ganhando jogos, e que a dupla era a verdadeira origem do sucesso da franquia.

De certa forma, tanto Jim Tomsula (2014) como Chip Kelly (2015) – os dois técnicos seguintes – foram “o cara que substituiu O cara”: sim, eram pessoas diferentes, mas ambos foram um subproduto da mesma mentalidade distorcida, do desejo da diretoria de ganhar no curto prazo para comprovar sua crença no próprio sucesso. Por mais problemas que tivessem, Tomsula e Kelly estavam fadados ao fracasso mesmo antes de começarem seu trabalho.

Felizmente isso agora ficou no passado, e agora o time tem seu cara para substituir os caras que substituíram “O cara”. Kyle Shanahan chega não para tentar arrumar um time já existe em uma tentativa desesperada de conseguir vitórias, e sim como uma peça para iniciar um processo de reconstrução com foco no longo prazo. E isso é uma ótima notícia para um time que voltou a ser uma piada nos últimos dois anos da sua gloriosa existência.

Para o 49ers voltar a ser bom, primeiro precisava admitir que não era mais. E foi o que o time fez. Shanahan e o novo GM John Lynch assinaram contratos muito longos (seis anos) justamente para terem a segurança e estabilidade no cargo que precisam para poder pensar no amanhã, sem se preocupar em ganhar no hoje. É um processo, e o time parece ter enfim construído sua base para se lançar nessa empreitada.

A realidade

Embora isso seja uma boa notícia para o torcedor de SF, uma guinada na direção certa, isso também significa que pelo menos por enquanto o time está conformado em ser um time ruim, que não vencerá muitos jogos. Tudo fica claro na montagem no elenco: jogadores mais talentosos saíram da equipe, e o time não investiu para estancar o sangramento. Ao invés disso, apostou no draft, trocou para acumular escolhas extras, e encheu o time de jovens promessa. Ainda assim, o mais provável é que ainda demore anos para termos uma noção clara de como e para onde está indo essa reconstrução. E, depois das últimas duas temporadas, isso não será um problema. Ser ruim o time já era, pelo menos agora ele pode oferecer ao torcedor uma coisa pela primeira vez em três anos: a perspectiva de um futuro melhor.

E onde esse futuro parece estar mais próximo é do lado defensivo da bola. Em parte pelos legados de drafts anteriores, em parte pela ótima atuação de San Francisco no seu primeiro draft sob o comando de John Lynch, a defesa do 49ers já possui um número maior de grandes prospectos para servirem de pilar para essa nova etapa.

Onde mora o futuro

Em particular, o que impressiona é o talento que o time acumulou na linha defensiva. Nos últimos três drafts o time usou sua primeira escolha em um jogador da posição: Arik Armstead (#17 em 2015), DeForest Buckner (#7 em 2016) e Solomon Thomas (#3 em 2017).

Armstead teve altos e baixos, mas em geral se destacou na curta carreira indo atrás dos QBs adversários, e Buckner teve um ótimo ano de calouro. Apesar da pouca idade, experiência e rodagem pela NFL, é um trio de enorme talento, altas expectativas e que devem constituir a espinha dorsal da identidade do Niners daqui para frente.

Solomon Thomas, que em português quer dizer “esperança”.

O sistema defensivo de San Francisco mudou para um alinhamento 4-3 nessa temporada, o que também deve ajudar a maximizar o impacto desse grupo, em especial a versatilidade de jogadores como Thomas e Armstead, capaz de se moverem ao longo da linha e jogarem em múltiplas funções e posições. Junte a esse trio o subestimado Aaron Lynch, que vem de um 2016 ruim, mas que já teve destaque no passado com seus sacks e pressão, e a profundidade de nomes como Earl Mitchell, Quinton Dial e Tank Carradine: essa linha de frente pode ser bastante assustadora muito em breve.

O resto da defesa não está com tantas promessas e tantos talentos de ponta, mas ainda tem alguns nomes interessantes. NaVorro Bowman, aos 29 anos e vindo de múltiplas lesões sérias, provavelmente não é uma peça que estará no próximo time vencedor do 49ers, mas é um líder querido e respeitado no vestiário que pode por pra jogar junto do jogador que deve ser o futuro do 49ers no miolo da defesa, o LB Reuben Foster, um talento Top 5 do último draft que caiu até o fim da primeira rodada por problemas no ombro. Se ficar saudável, será um grande achado e mais uma boa peça para essa defesa.

A secundária não tem esse tipo de talento ou de certezas, mas ainda tem jogadores jovens que podem contribuir, como os “herdados” Jaquiski Tartt e Eric Reid, dupla de safeties; o promissor Rashard Robinson (escolha de quarta rodada de 2016); os cornerbacks Jimmy Ward e Dontae Johnson e o calouro Ankhello Witherspoon.  É uma unidade com muito mais jogadores decentes e apostas – o tipo de situação onde você tenta descobrir exatamente o que tem, e ver se alguma das suas apostas se torna um acerto para carregar.

Ainda assim, a secundária deve depender muito mais de boas atuações da linha defensiva – e da pressão colocada nos QBs adversários – do que da sua própria qualidade durante a temporada. Idealmente, Robinson e Witherspoon atingiriam seu potencial e se tornariam uma boa dupla titular, e pelo menos um dos veteranos se mostraria um sólido complemento. É o que o coordenador defensivo Robert Saleh vai esperar encontrar para a temporada, enquanto tenta recuperar a identidade defensiva e física que marcou os anos de ouro do 49ers nessa década.

O lado oposto

O ataque, por sua vez, foi montado com uma abordagem muito diferente – tão diferente que dá para dizer que é quase oposta. Se a defesa está mais avançada na reconstrução, com vários talentos intrigantes de alto nível e altíssimo potencial, o ataque está praticamente sem nenhum talento jovem de alto potencial. Seu QB titular e seu WR #1 em 2017 terão 31 anos, seu melhor jogador de linha tem 32, e o time gastou apenas UMA escolha de draft nas três primeiras rodadas dos últimos três anos com o ataque – o G Joshua Garnett que, aliás, foi muito mal em 2016.

Então, com essa escassez de talento jovem, a diretoria de San Francisco inteligentemente decidiu seguir na direção contrária: ao invés de montar o ataque através de seus jogadores, o time decidiu começar a construí-lo montando e estabelecendo nele um sistema e um plano claro de jogo – o mesmo que Kyle Shanahan implementou com tanto sucesso em Atlanta. Com um esquema definido já implementado, fica muito mais fácil para saber que tipo de jogador buscar, incorporar novas peças, e achar talentos subvalorizados que têm muito mais valor dentro de um estilo de jogo específico – como o New England Patriots tem nos mostrado há 16 anos.

Então o Niners se preocupou em ir atrás dos jogadores que fizessem sentido para o plano de jogo de Shanahan, e trouxe as peças que poderiam ajudar nesse momento. Para jogar como QB veio o veterano Brian Hoyer, um jogador bastante subestimado que jogou com Shanahan no Browns em 2014 e que portanto já conhece seu playbook. Hoyer não é bom o bastante e nem tem a idade para ser o QB do futuro do time, mas como esse jogador não está hoje no elenco, até lá Hoyer é um ótimo nome para fazer a função que o time espera dele.

San Francisco também foi atrás e pagou bem caro por complementos a Hoyer, notavelmente Pierre Garçon, Marquise Goodwin e Kyle Juszczyk (eu olhei no Google). Os valores pagos levantaram questionamentos merecidos, pois foram bastante acima da média de mercado. Isso pode se dar por conta de um GM novo no cargo, e ser atribuído a John Lynch ainda não sabendo lidar bem com o mercado. Pode ser também o fato de que o Niners é um time ruim, com uma imagem pior ainda ao redor da NFL, e que sabia que não conseguiria os jogadores que queria se não pagasse mais por eles.

Mas todas essas caras aquisições foram feitas por um motivo. Pierre Garçon é um sólido WR que também conhece bem o playbook que o time quer implementar, tendo jogado dois anos com Kyle Shanahan em Washington, quando inclusive liderou a NFL inteira em recepções (2013, com 113). Já Marquise Goodwin nunca jogou com Shanahan, mas é um jogador que trás uma habilidade importante: é um WR de grande velocidade e muito dinâmico com a bola nas mãos, um papel importante para o esquema de Shanahan e que deve fazer a função que foi de Taylor Gabriel em Atlanta em 2016. E por fim Juszczky é um fullback bastante versátil, e Shanahan é um dos técnicos mais criativos usando FBs na NFL de hoje e que gosta de ter um em sua formação.

Eu quero acreditar.

Desnecessário dizer que trazer esses jogadores não é nem de longe para igualar o que Matt Ryan, Julio Jones e companhia fizeram em 2016 por Atlanta. Os jogadores que levarão esse ataque – espera-se – ao próximo nível ainda não estão na equipe, e devem ser um dos focos para os próximos anos.

A arte da paciência

Somando tudo isso, é difícil para o torcedor do 49ers realmente esperar um grande ano da sua equipe em termos de vitórias e performances. É o primeiro passo de um projeto de longo prazo, e paciência será parte importante dele. Mas isso não quer dizer que não possa ser um ano divertido. Do fundo do poço só se pode ir para cima, e o Niners TEM pontos de interesse para se acompanhar. Em particular, a linha defensiva tem chance de ser especial, e o ataque é um sistema de sucesso que já produziu momentos muito divertidos.

Com um pouco de sorte, San Francisco talvez tenha mais talento do que parece à primeira vista. Hoyer é um QB competente, e tem algumas armas de valor ao seu redor. Ninguém vai confundir esse ataque com o do Steelers, claro, mas tanto Hoyer como Garçon já produziram temporadas muito boas sob o comando de Shanahan.

Carlos Hyde é secretamente um dos RBs mais subvalorizados da NFL (quando saudável), e se a linha defensiva conseguir pressão suficiente para encobrir a secundária, esse time pode pelo menos almejar ser respeitável . E esse é um aspecto mais importante do que parece: a percepção do 49ers ao redor da NFL hoje, depois de chutar um dos melhores técnicos da NFL em uma batalha de egos e afundar por dois anos, é péssima. Técnicos, coordenadores e executivos recusaram entrevistas para assumir cargos na franquia, e jogadores não queriam jogar lá. Reconstruir esse tipo de coisa leva tempo, mas um bom ano, com performances respeitáveis, poucas brigas e algumas vitórias empolgantes pode fazer muito por reparar a reputação de um time.

A nova era do San Francisco 49ers começa agora. Onde ela vai dar, nós não sabemos. Mas aproveite a jornada, porque essa é uma franquia que sabe muito bem o que é estar sem direção, nadando no fundo do poço e achando que está acima de todos os demais.

Palpite: 6-10. San Francisco não deve ser tão ruim quanto o esperado em 2017 se alguns fatores funcionarem. A linha defensiva tem totais condições de estar em boa forma, e Brian Hoyer é um veterano que pode trazer estabilidade para o ataque – ambas as unidades devem caminhar mais para a média da NFL esse ano. O calendário não é dos melhores, com quatro jogos contra os sempre fortes Cardinals e Seahawks, e mais quatro jogos contra a forte NFC East, mas também tem dois jogos contra Rams, um contra Chicago e quatro contra a AFC South para buscar algumas vitórias. Com a possibilidade de alguns jovens talentos explodirem esse ano, San Francisco conseguirá uma mais que respeitável campanha de 6 ou 7 vitórias, a melhor desde a saída de Jim Harbaugh (saudades).

Balanço do draft: erros, alguns acertos e várias bobagens

Passados os três dias de Draft, podemos fingir que entendemos alguma coisa sobre o que aconteceu e avaliar a escolha de jogadores que agora são profissionais, mas nunca enfrentaram o nível de competitividade da NFL.

Como ninguém liga para as asneiras que dizemos (e se liga, precisa refletir sobre o que diabos está fazendo com sua vida), não será um grande problema. Dessa forma listamos alguns erros, acertos e bobagens do último processo seletivo.

Cagadas (ou porque alguns times não se contentaram em deixar seus torcedores putos durante a temporada e decidiram fazer o mesmo até na offseason)

1) Chicago Bears:

Poderíamos apenas listar alguns tweets dos torcedores de Chicago para mostrar o quão satisfeita a torcida ficou com as escolhas da equipe:

“Um puta desastre!!! Nossa diretoria é horrível!!!”

“Ótimo draft Bears… Vocês perderam a torcida. McCaskey, venda a franquia”

“O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO???”

“Que merda foi essa?”

Bem, estes são alguns dos nossos favoritos. Poderíamos também dizer que a equipe foi a única a tirar menos que “B-” nas notas que o site da NFL dá a cada franquia, mas escolhemos explicar porque os Bears fizeram o que fizeram (bosta).

Mitchell Trubisky, o “futuro” da franquia, é um quarterback que jogou apenas 13 jogos em sua carreira no college. Você pode argumentar que ele não teve oportunidades e, de fato, não teve. Por incompetência própria. O titular da época quando Mitch (ele não quer ser chamado de “Mitch”, mas quem se importa?) era reserva nós não nos demos nem ao trabalho de pesquisar quem seria o meliante e, se algo ainda pode piorar, a comparação de Trubisky com um jogador da NFL atual é com… Jay Cutler.

Já nas escolhas seguintes o Bears selecionou um TE que pode até ser promissor, mas jogava em divisões inferiores do futebol americano universitário, enquanto a escolha de round 3 seria excelente se ela conseguisse se manter em campo – não foi o caso em 2016.

As outras picks são um RB (que eles não precisam) e um jogador de linha ofensiva que duvidamos que você já tenha ouvido falar. Parabéns, Chicago Bears: vocês são oficialmente o novo Cleveland Browns.

2) New York Giants:

Quando dissemos em nosso Mock que os Giants iriam atrás de um TE na primeira rodada nós, pelo menos, acreditávamos que o time escolheria alguém que soubesse bloquear. Evan Engram, porém, é classificado por alguns analistas como WR. Para proteger Eli Manning – o que deveria ser uma prioridade, a medida em que ele ruma para a fila da Previdência Social – a equipe gastou uma escolha daquelas rodadas em que, se alguém diz que entende algo, está mentindo. Nas outras seleções, um jogador de linha defensiva para substituir os que eles não conseguiram segurar na Free Agency; um RB que era reserva em seu time, mas com potencial; um jogador de linha defensiva, que também não era o principal do seu time; e um QB pra aprender com Eli Manning e se tornar seu substituto – seja lá o que diabos isso signifique, temos medo.

3) Los Angeles Rams:

Ninguém liga pros Rams e não somos a exceção que confirma a regra. Não vamos tomar muito do seu, nem do nosso tempo, falando sobre eles. O time, que luta cada vez mais para se tornar irrelevante, esqueceu que precisava montar uma linha ofensiva e, ao invés disso, escolheram dois jogadores de linha defensiva e um fullback, mas ninguém para proteger o futuro da franquia, Todd Gurley. Talvez, no fundo, a mediocridade seja um legado de Jeff Fisher.

Surpresas (ou não, não vamos falar daquele jogador que ninguém conhece e que acabou não sendo draftado)

1) Chicago Bears trocando com o San Francisco 49ers

O Chicago Bears fez o novo GM dos 49ers, John Lynch, parecer Sonny Weaver Jr (GM dos Browns no filme Draft Day, em que toda a história é desenvolvida para que Sonny saia como herói).

Os Bears deram escolhas de terceira e quarta rodada desse ano e mais uma escolha de terceira rodada do ano que vem para subir uma posição no board e escolher um jogador que San Francisco não queria. Experimente digitar no Google “Bears 49ers trade“: você verá manchetes como “49ers roubaram os Bears“, “Como os 49ers conseguiram três escolhas dos Bears?” e “49ers vencem primeira rodada do draft após troca com os Bears“.

Se você acha que os Bears fizeram isso para evitar que outra equipe o fizesse, saiba que até agora ninguém que cobre a NFL conseguiu encontrar alguma franquia disposta a trocar com os 49ers para selecionar Mitch-esquecemos-a-grafia-correta-do-sobrenome-e-não-vamos-pesquisar. A verdade é que nem os 49ers acreditavam que os Bears selecionariam Trubisky.

2) Três WRs sendo escolhidos nas 9 primeiras posições

Não há muito o que dizer sobre isso apenas que foi, de fato, uma surpresa. Poucos mocks apontavam esse cenário. Corey Davis era apontado como provável escolha no TOP 10, mas a seleção de Mike Williams por parte dos Chargers e de John Ross III por parte dos Bengals acabou pegando muita gente desprevenida.

Um amigo para Mariota.

3) O que o desespero pode fazer com algumas franquias

Por alguns segundo, imagine-se na posição de Texans e Chiefs. Uma não tem um quarterback que lançou um touchdown na liga e não se chama Brandon Weeden, enquanto a outra tem Alex “short of the 1st down marker” Smith. Para sair da situação incômoda que estavam, as duas franquias tiveram que dar suas escolhas de primeira rodada em 2018 para escolher quarterbacks que ninguém tem coragem de colocar a mão no fogo.

4) Bônus: como uma música pode ser irritante

Se eu ouvir o “grito de guerra” Fly Eagles Fly mais uma vez, não respondo por meus atos.

Acertos (ou infelizmente não há muita diversão no sucesso alheio) 

1) Cleveland Browns:

Os Browns tem feito tudo certo para se tornarem uma franquia decente e nesse último draft não foi diferente. A equipe saiu da Philadelphia com três seleções na primeira rodada, sendo uma delas o melhor jogador disponível. Além disso, na segunda rodada, o time escolheu DeShone Kizer, que era cotado para sair na primeira. Para completar, os Browns tem ainda cinco escolhas nas duas primeiras rodadas do draft de 2018.

2) Miami Dolphins:

Os Dolphins conseguiram uma classe bem sólida: a franquia adicionou peças para o front seven, que não era exatamente uma necessidade, mas que poderiam ser colocadas como prioridade; secundária e ataque. Além disso, conseguiram um potencial guard titular na quinta rodada e um WR considerado por muitos um sleeper em sua última escolha. Devolvam os Dolphins que nós aprendemos a amar.

3) Los Angeles Chargers:
Parece que os Chargers finalmente perceberam que o tempo de Phillip Rivers está se esgotando. Em suas três primeiras escolhas, a equipe selecionou um WR para se tornar o melhor amigo de Rivers quando Keenan Allen não está em campo (sempre), além de dois guards para fortalecer o interior da linha ofensiva. Na segunda metade do draft, o foco foi reforçar a defesa. Se tudo der certo, Phillip Rivers vencerá dois Super Bowls e entrará no Hall da Fama no lugar de Eli Manning.

4) Bônus: New England Patriots
Se os Patriots escolherem uma tartaruga manca as pessoas vão, pelo menos, tentar entender o lado de Bill Belichick. Não precisamos nem olhar as escolhas para elogiá-las.

**MOMENTO CORNETA**

Perdedores (ou nem todo mundo saiu fortalecido da Philadelphia)

Chuck Pagano:

O cerco está se fechando. Depois de demitir Ryan Grigson e contratar um GM de verdade, os Colts parecem no caminho certo para montar uma equipe competitiva. Chris Ballard tem arrancado elogios de toda liga sobre a forma como tem montado o time durante essa offseason e agora Pagano não tem mais desculpas: com uma defesa mais razoável em mãos, ele tem que mostrar que é capaz de ser um técnico de qualidade. Spoiler: não vai rolar.

Revendo o Mock Draft

Todos sabemos que Mock Drafts não querem dizer nada, mas revê-los depois que tudo realmente acontece é uma ótima oportunidade de xingar quem se dispôs a tentar prever o imprevisível.

Com a exceção sendo a escolha dos Bears, que já mencionamos, acertamos 4 das 5 primeiras escolhas. A partir da sexta, porém, tudo desandou. O outro acerto só veio na posição que os Bills escolheram, mas só aconteceu na escolha 27, devido a troca com os Chiefs.

Já os Saints acabaram escolhendo o jogador que previmos na 10, que também era um CB. A escolha 12 também foi certeira, mas com os Texans escolhendo no lugar dos Browns. Outro acerto só veio na escolha 18, com os Titans escolhendo um CB, mas não quem apontamos. A última escolha que cravamos foi a do Broncos, na 20. Os Lions na 21 também foram de LB, como era esperado. Já na 23, os Giants foram de TE, e o que escrevemos na oportunidade serve perfeitamente para analisar a escolha, que não foi exatamente a mesma: é um recado para Eli Manning, algo como “a linha ofensiva continua uma droga, mas você tem que dar um jeito de vencer. Tem muito cara para pegar a bola. Ou vai ou racha”.

A escolha 25 foi um safety, não um QB, mas ao menos acertamos que os Texans iriam atrás de um signal caller, por motivos óbvios. Por outro lado, Seattle não só não escolheu na primeira rodada, como sua primeira escolha não foi um jogador de linha ofensiva: se eles querem que Russell Wilson morra em campo, o problema não é nosso.

Os Falcons, que escolheram na posição, optaram por um pass rusher, o que podemos considerar um acerto. Os Cowboys, não foram de CB, como era de se esperar: a equipe deixou para reforçar a secundária mais a frente no draft. Já os Browns trocaram com os Packers na 29, mas pelo menos acertamos a posição da primeira escolha de Green Bay: CB.

Já a escolha dos Steelers, de acerto, só o lado da bola: Pittsburgh escolheu um LB, e não um S. Por fim, os Saints, por alguns motivos que vão além da compreensão humana, resolveram escolher um jogador de linha ofensiva ao invés de um defensor.

Saldo:

– Quatro escolhas cravadas (1, 4, 5 e 20);

– Escolhas que passaram perto: a posição em que Deshaun Watson foi escolhido (12) e que os 49ers iriam de Solomon Thomas; mesmo que isso tenha acontecido na 3 e não na 2. Não me culpem, a mente humana é incapaz de compreender o que diabos acontece em Chicago;

– Posições acertadas: sete, excluindo as picks acima;

– Uma dúzia de novos inimigos.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBr e está cada vez mais apaixonado por Chris Ballard.

De York a Shanahan: o que o futuro reserva para o 49ers

“A coisa mais engraçada sobre ser um torcedor do San Francisco 49ers em 2017 é a reação das pessoas quando você conta esse fato”.

A reação inicial (e natural) é uma risada – afinal de contas você acaba de admitir que sua vida de torcedor é baseada em uma franquia que se tornou a piada da NFL nos últimos anos. Mas logo depois, a reação muda: a hilaridade inicial acaba sendo substituída por um sentimento de pena, como se você tivesse acabado de admitir ter alguma doença grave. Quase dá para ver a pessoa pensando “coitado, ele já sofre o suficiente com essa desgraça de time, é maldade tripudiar ainda mais”. Existe quase uma solidariedade com o torcedor do Niners nesse sentido, que faz você acabar levando um tapinha nas costas e ouvindo um “as coisas vão melhorar”. Com o Browns mudando sua diretoria e tomando decisões inteligentes, parece questão de tempo até San Francisco herdar o posto de pior franquia da NFL na atualidade. Ser ruim acontece, faz parte do ciclo, mas para chegar nesse nível você precisa de uma incompetência realmente especial.

Mas o pior é que, muito embora os últimos dois anos de San Francisco tenham de fato sido uma piada e justificado todos esses sentimentos, isso não é uma novidade para a franquia. É fácil esquecer isso, mas ser uma piada em meio a péssimas direções e maus cuidados dos seus donos foi a identidade do 49ers durante a maior parte do século XXI.

Depois de sua aparição nos playoffs em 2002 (derrota para os eventuais campeões Buccaneers na segunda rodada), San Francisco teve problemas em 2003 em meio a lesões de seu quarterback Jeff Garcia, e acabou o ano 7-9. E foi aí que tudo explodiu: Garcia foi para Cleveland, o combo de Tim Rattay e Ken Dorsey assumiu a posição, e o time terminou com a pior campanha da NFL com 2-14. Essa campanha rendeu a escolha #1 do Draft naquele ano… Alex Smith, que apesar de talentoso teve que lidar com SEIS técnicos diferentes (e seis coordenadores ofensivos) em seis anos e só foi se encontrar em 2011. Foi o começo de uma das piores sequências da história da NFL: entre 2003 e 2010, por oito longos e intermináveis anos, o time não teve UMA única temporada acima de 50%: campanha combinada de 46-82 (36%) e, bem, demissões quase anuais de HCs. Então acreditem quando digo que ser ruim não é uma novidade para o fã do Niners.

Uma nova (e breve) esperança

O problema é que nos ofereceram, no meio do caminho, a esperança. Nos foi mostrado um mundo onde o Niners não precisava ser uma piada, onde eles poderiam ser um time competente, admirado ao redor da NFL, uma referência de sucesso que disputava títulos. E uma vez que você chega nesse nível, ter que voltar atrás é muito mais difícil. Especialmente pela forma como foi feito.

Em 2011, no lugar do então recém-demitido Mike Singletary (talvez o pior técnico de NFL do século XXI), o 49ers anunciou a contratação de Jim Harbaugh, então técnico de Stanford. A chegada de Harbaugh – junto a um elenco promissor e bem montado por Scott McCloughan (que também foi mandado embora naquele verão e substituído por Trent Balkee) – foi o sinal da mudança para a franquia: logo no seu primeiro ano, San Francisco ganhou 13 jogos e a NFC West, Harbaugh foi eleito técnico do ano, o antigo bust Alex Smith se desenvolveu em um jogador competente e a defesa se tornou a melhor da NFL.

Saudades desse homem!

Assim, o time iniciou uma sequência de três anos em que foi um perene candidato ao título, chegando a três finais de conferência consecutivas (e muito perto de chegar também a três Super Bowls), ficando a cinco jardas de um título em 2012. Mesmo em 2014, quando o time foi apenas 8-8 em meio a múltiplas lesões e ficou de fora dos playoffs, a temporada foi melhor do que qualquer uma que o time teve nos anos anteriores à chegada de Harbaugh.

Para alguém que não pegou o auge de Montana e Young, essa foi sem dúvida a melhor época da franquia: o time era bom, a cobertura na mídia era abundante e ser torcedor do San Francisco 49ers era fonte de orgulho. Estávamos felizes por simplesmente ter um time funcional novamente.

Mas, como todo mundo sabe, não durou. O presidente do time (sobrinho da atual dona) Jed York, alguém que já admitiu publicamente não entender quase nada sobre futebol americano, mas que gosta de estar no centro das atenções, e seu GM de estimação Trent Baalke, não estavam satisfeitos com a atenção e os créditos que Jim Harbaugh recebia como salvador do 49ers. Repetiram publicamente que não era o técnico, mas sim o time que eles tinham montado. Por fim, Harbaugh perdeu a briga de força nos bastidores e, com a (ridícula, se você acompanhou os fatos) desculpa de que o HC tinha perdido o vestiário, colocaram o técnico para correr e promoveram alguém que simplesmente obedecesse às ordens vindo de cima, Jim Tomsula. Sem nenhum currículo que justificasse o cargo, a lógica era simples: se o time tivesse sucesso com Tomsula, ficaria claro que era o time, e não Harbaugh, a causa do sucesso.

O começo do fim

Desnecessário entrar em detalhes do que aconteceu, mas em resumo, tudo deu errado. As peças fundamentais dos bons times de 2011-2013 foram deixando San Francisco, e os movimentos de Baalke para repô-las terminaram em fracasso atrás de fracasso. Na tentativa de continuar vencendo, o time focou demais em contratações de curto prazo e não soube construir um plano duradouro que fizesse sentido, deixando assim de buscar peças que poderiam compor algo maior. Em dois anos, San Francisco venceu 5 e 2 jogos, e demitiu dois outros técnicos (beijos, Chip Kelly!) no mesmo período.

E isso se torna evidente quando você ignora a narrativa que tentaram te empurrar goela abaixo sobre a demissão de Jim Harbaugh, optando por focar nas reações ao redor da NFL: as pessoas estavam chocadas sobre como alguém poderia ser tão burro e demitir um dos melhores técnicos da NFL, que não só tinha trazido sucesso a uma franquia há muito decadente, mas também se tornado a cara dela – o que, claro, foi o motivo da sua demissão.

Até mesmo os jogadores do Seattle Seahawks, então maior rival do Niners, abertamente defenderam Harbaugh e mostraram bastante incredulidade frente ao movimento. Não tinha ninguém que achasse uma boa ideia. Exceto, claro, Balkee e York. A franquia tinha algo bom, tinha algo em que se sustentar, e jogou tudo pelo ralo.

Duas antas.

Reconhecendo o erro?

Mas dois dos mais fracassados anos da franquia pelo menos acenderam na cabeça de algumas pessoas a necessidade de mudança. York e Baalke apostaram e perderam. Para o segundo, isso custou o emprego. Para o primeiro não, porque isso não acontece com o sobrinho milionário e herdeiro da família que claramente não liga para o patrimônio que tem. Esse, aliás, é o principal fator de ceticismo quanto ao futuro do 49ers: poucas coisas são mais prejudiciais para uma franquia do que um dono ruim. E San Francisco talvez tenha o pior de toda a NFL contemporânea.

Ainda assim, pelo menos York e o 49ers admitiram seu erro. Baalke está fora da cidade e a franquia enfim anunciou o que todo mundo com três neurônios funcionais já sabia: que ela precisa se reinventar e recomeçar um planejamento longo para voltar a ser competitiva não ano que vem, mas daqui três ou quatro anos. Você pode questionar que diabos um time está fazendo se coloca esse processo nas mãos de um GM que é um ex-safety que jamais teve uma posição executiva na NFL e, ao invés disso passou esse tempo todo como comentarista de TV? É um questionamento válido, mas pelo menos já mostra uma mudança de postura muito necessária.

Por outro lado, a contratação de Kyle Shanahan para técnico, ainda que seja uma aposta, foi um ponto de otimismo no meio deste processo. Uma das mentes jovens mais brilhantes da NFL, Kyle foi o responsável por montar o ataque do Atlanta Falcons de 2016 que tomou a liga de assalto e fez de Matt Ryan MVP. Shanahan tem apenas 37 anos e nunca esteve na função de técnico, que é bem mais complexa e exigente do que a de coordenador, mas é exatamente o tipo de aposta que um time na condição de San Francisco deve fazer: confiar no seu enorme potencial e aceitar o risco da adaptação como parte do preço a se pagar.

Talvez ele nos salve.

E o mais importante de tudo é que, por mais arriscado que seja começar sua reconstrução com um GM sem experiência na parte executiva do esporte e um HC tão jovem e inexperiente, ambos terão bastante liberdade e margem para trabalhar: a dupla recebeu contratos de seis anos, com muitas garantias. A mensagem é clara: esse não é um trabalho para pouco tempo e eles terão bastante estabilidade no cargo para poderem pensar a longo prazo e não apenas na segurança de seus empregos. Significa que ambos poderão errar e aprender com os próprios erros no cargo. É uma aposta de alto risco, alto potencial que pode dar uma cara nova a uma franquia que desesperadamente precisa de um novo rosto.

Perspectivas

Sempre irá doer para o torcedor do San Francisco 49ers ir dormir todas as noites sabendo que tinha um dos melhores técnicos e uma das melhores situações da NFL, só para jogar tudo isso fora em uma batalha de egos (e, nessa batalha, o time claramente escolheu o lado errado).

Mas pelo menos agora, pela primeira vez, o time se colocou em uma situação de nos dar esperanças. Bem ou mal, significa um avanço. É o ideal? Talvez não. York ainda é o presidente do time e a situação dos donos ainda muito desfavorável. Um GM com mais experiência e menor risco seria mais desejável. Mas quando se está no fundo do poço, a única direção possível é para cima e hoje, San Francisco, na pior das hipóteses, já tem uma perspectiva muito melhor do que aquela que estava no horizonte seis meses atrás.

*Vitor é responsável pelo @tmwarning e torcedor do San Francisco 49ers desde 1849.