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Quem quer ter um quarterback?

É difícil dizer o que será mais difícil: a temporada dos Jets, ou escrever este texto, que deve conter pelo menos mil palavras. Se você leu algum dos outros previews (Colts, Chiefs, Rams, Seahawks, Dolphins – sim, estou citando-os para preencher espaço) deste autor, já percebeu que esse começou de uma forma diferente. Além de ser escrito na primeira pessoa do singular (um abraço para o editor, que pede o contrário), ele começa justamente falando de si mesmo, e não do time em questão. Essa escrita diferente é um reflexo da temporada do time verde de Nova York: diferente. Afinal, ninguém entra em uma temporada com o objetivo de perder.

Para começar, sempre que vou escrever um preview penso na visão que gostaria de passar: nos Colts, as mudanças; nos Chiefs, a probabilidade do plano não dar certo; nos Rams, o legado de Jeff Fisher; nos Seahawks, os problemas decorrentes da interceptação de Malcom Butler; nos Dolphins, o futuro promissor, mas com alguns obstáculos. No caso dos Jets, a ideia será a seguinte: por que o time está tão desesperado para conseguir seu franchise QB?

SAU-DA-DES.

A resposta é muito simples e pode ser encontrada na lista de QBs titulares do New York Jets. Não é preciso nem analisá-la com calma para perceber que os nomes mudam bastante. Existem alguns intervalos de quatro ou cinco anos em que alguém assume a posição, mas, como Mark Sanchez demonstra, isso não significa nada. Nenhum dos jogadores conseguiu estabelecer um legado em Nova York – a exceção sendo, claro, Joe Namath, que levou o time ao seu único Super Bowl.

Cavando o buraco

Para deixar ainda mais claro o que a ausência de um QB confiável pode fazer com uma franquia, vamos voltar para o ano de 2015, mais especificamente o final dele. Ryan Fitzpatrick teve uma temporada razoável, e os Jets quase chegaram aos playoffs com um time que era bom. Não chegaria muito longe (talvez até em função de seu quarterback), mas era bom.

Avancemos então para 2016. Após uma entediante disputa na offseason, Fitzpatrick teve o seu contrato renovado. O resultado nós já conhecemos: ele voltou a ser quem ele é – medíocre -, o time ao redor parou de produzir e o record final foi um dos piores da liga. Para piorar, nenhuma perspectiva interessante para o futuro na posição que Ryan ocupou apenas por dois anos.

Alguém pode argumentar que os Jets até tentaram se preparar para o amanhã, escolhendo Bryce Petty em 2015 e Christian Hackenberg em 2016. Isso é ser benevolente demais com a franquia, já que Petty foi escolhido na quarta rodada; e Hackenberg pareceu mais uma escolha de pânico do que qualquer outra coisa.

De saída.

Plano é o que os Chiefs estão fazendo com Patrick Mahomes; ou o que os Patriots tem feito já algum tempo: mesmo tendo Tom Brady, New England gastou picks de segunda (Jimmy Garoppolo) e terceira (Jacoby Brissett) rodadas em QBs nos últimos anos. Além de serem escolhas pensadas, são também jogadores que foram draftados com um plano para eles. Hackenberg e Petty, por sua vez, foram tiros no escuro, que os Jets esperavam que dessem certo – como se um franchise QB caísse do céu quando você precisasse de um.

Já estamos no buraco. Por que não tentar subir? (ou cavar mais)

Aparentemente essa falta de perspectiva na posição mais importante do jogo incomodou alguém em Nova York. Os tempos de confiar em Mark Sanchez para levar um elenco com potencial de Super Bowl para o Super Bowl acabaram. É preciso mudar. É preciso Sam Darnold – ou Josh Allen, ou Josh Rosen, ou alguém com coordenação motora acima da média.

Os Jets decidiram que a melhor forma de acabar com o problema, intrínseco à franquia, era escolhendo um QB na suposta recheada classe de 2018. Mas, para isso, o time deve primeiro vencer (ou derrotar) a si mesmo. Não dá mais para ter uma campanha medíocre (6-10; 7-9), que te coloca no início, mas não no topo do draft.

Para evitar que a equipe vença mais jogos que o necessário, foi feita uma limpa no elenco. Veteranos não tiverem seus contratos renovados ou foram simplesmente dispensados. Aqui vai a lista de jogadores relevantes que não estão mais no elenco, por ordem de quando deixaram o time (sim, já disse que estou tentado preencher espaço):

QB Ryan Fitzpatrick; OT Breno Giacomini; K Nick Folk; C Nick Mangold; CB Darrelle Revis; WR Brandon Marshall; S Marcus Gilchrist; LB David Harris; WR Eric Decker.

Se em outros momentos alguns desses nomes foram pilares do elenco, hoje eles são veteranos com pouco combustível no tanque, capazes apenas de avacalhar o plano da franquia. 

Além das dispensas, a pouca movimentação contratando na free agency indica que Nova York não tem grandes planos para a temporada. A principal contratação foi feita justamente para alcançar o objetivo principal de obter a primeira escolha do draft: Josh McCown. McCown era o QB de duas das três últimas franquias a conseguir a pick mais alta, e chega para ajudar aos Jets a alcançar o feito.

O time – se é que ele existe

A falta de talento é tamanha que nem vou dividir o elenco em subtópicos, ataque e defesa, como tem sido feito. Além disso, não vale nem a pena esmiuçar cada grupo de cada lado da bola.

No ataque, Robbie Anderson deve ser o principal recebedor (eu só sei esse nome porque escuto podcasts em excesso sobre a NFL – isso não é saudável e não recomendo para ninguém) e Bilal Powell o principal corredor. Deixarei os nomes falarem por si só.

A única parte do time que não dá vontade de morrer.

Já na defesa, existem jogadores de alto-calibre. Principalmente na linha defensiva, que conta com o excelente Leonard Williams; e com Muhhamad Wilkerson e Sheldon Richardson, que já estão de saco cheio de jogar nos Jets.

A secundária terá dois Safeties calouros, Marcus Maye e Jamal Adams, que poderão jogar com tranquilidade em seu primeiro ano na liga, já que a pressão por vencer é mínima.

Palpite: Os Jets vão dar um jeito de estragar tudo. Eles não desmontaram a defesa o suficiente, e ela vai acabar dando quatro vitórias para o time. A oportunidade de escolher um QB em 2018 virá, mas talvez não seja o nome que a diretoria estava imaginando.

Nota: é importante ressaltar que a ciência do draft é inexata, ainda mais com um ano de antecedência. Exemplo: ano passado, antes da temporada começar, Brad Kaaya era apontado como melhor QB da classe. Hoje ele é o terceiro reserva dos Lions. Então é melhor ter calma ao apontar a próxima classe como “algo de outro mundo”. Além disso, mesmo que o plano de Nova York dê certo, o jogador que o time escolher pode ser um bust. Então será melhor fechar a franquia mesmo.

Na hora e lugar certos: Lady Gaga, a NFL e o Super Bowl LI

Um dos maiores desafios daqueles que se aventuram na cultura pop talvez não seja atingir o topo, mas sim se manter nele: no caso da música, em linhas gerais, uma carreira é construída ao redor de sucessos e, conforme eles param de nascer, seu público também irá parar de crescer. Já um esporte, no instante em que se torna global, precisa acompanhar a evolução social, ou rapidamente se tornará obsoleto. É neste momento que você procura alternativas ou invariavelmente acabará se restringindo a nichos cada vez mais específicos.

Primeiro falando especificamente sobre a música, Lady Gaga, que se apresenta no Halftime Show do Super Bowl LI, é um desses casos que conseguiu transcender os limites da cultura pop justamente após se tornar extremamente popular. O curioso é que ela não foi moldada para um evento das proporções do SB, longe disso: Lady Gaga estar lá era algo impensável quando “The Fame” foi lançado em agosto de 2008.

E quase que como uma resposta ao título de seu álbum de estreia, na primavera de 2009, ela já era um fenômeno cultural, falando sobre fama, fortuna e “loiras quentes em posições estranhas”: era alguém chegando com os dois pés na porta, marcando seu território. Mas também era bizarro e estranho, não era fácil compreender que, na verdade, tudo sempre se tratou dela provando que Lady Gaga é sua arte pura e não uma máscara. Que aquela Lady Gaga, ao mesmo tempo bizarra e cada vez mais popular, no fundo era a vida de Stefani Germanotta.

Se tornando Lady Gaga

Dizem que Lady Gaga surgiu quando ela e seu ex-produtor Rob Fusari inventaram o apelido inspirados pela canção “Radio Gaga”, do Queen. Mas obviamente tudo sempre tem alguma conexão com corações partidos: seja na relação conturbada com seu pai após Stefani abandonar a faculdade ou no rompimento com a gravadora Island / Def Jam logo após a assinatura de seu primeiro contrato. Ou ainda fruto de um relacionamento “complexo” pouco tempo antes de ficar famosa – o único namorado que ela afirma ter amado, para então prometer nunca mais se envolver emocionalmente com o mesmo nível de intensidade e, claro, fazer com que ele se arrependesse do dia em que duvidou dela; aqui provavelmente a data em que ela deixou de ser Stefani para se tornar Lady Gaga.

Hoje, um show de Lady Gaga, antes de um espetáculo pop, é uma performance densamente pessoal: um convite a deixar de lado pressões para se adaptar, um convite à fuga daqueles que tentam controlá-lo ou defini-lo. Ali você deve agir como ela e, ao menos durante a apresentação, o sucesso de Gaga é a melhor vingança para aqueles que um dia foram rejeitados.

Adaptação

Se a Lady Gaga de “The Fame” abalou a cultura pop, ao longo de sua carreira, ela precisou reconhecer que estava mais exposta à fama e assim encontrar novas perspectivas para seu trabalho. Um momento dessa nova Lady Gaga, já saturada pelos holofotes mesmo em com um curto período de carreira, logo provou sua capacidade de adaptação: em um versão de “Paparazzi” durante o VMA de 2009, ela entregou uma apresentação inspirada na morte da Princesa Diana e, repleta de sangue, abordou todos os aspectos negativos da fama – incluindo, talvez, o próprio medo que tinha da fama que conseguira.

Can’t read my poker face.

Evolução

Seja o Ano Novo, Ação de Graças ou mesmo o 4 de Julho, não há evento norte-americano mais midiático que o Super Bowl que, mesmo sem ser um feriado oficial, revisita tradições (bandeiras, reuniões familiares ou entre amigos e altas doses de bebidas e comidas gordurosas) e reivindica as maiores audiências televisivas.

Tornar-se um marco da cultura pop dos EUA, claro, não foi obra do acaso: aliar estratégias de marketing para ampliar o público, sobretudo o feminino, em uma relação que ainda engatinha enquanto a NFL tenta compreender a real dimensão da figura feminina para o esporte a medida em que erra diariamente na forma como gere  cada caso de violência contra a mulher que estoura na liga.

São esforços genéricos e ainda pequenos quando comparados, por exemplo, ao trabalho realizado ao longo das décadas para estabelecer uma ligação direta entre football e patriotismo (em uma das nações mais patrióticas do globo). De qualquer forma, todos estes fatores ajudaram a potencializar a expansão da NFL, algo impensável para um esporte que em seus primórdios não passava de um passatempo para indivíduos que não tinham nada para fazer após a faculdade em uma situação que permaneceu até início dos anos 70.

Richard Crepeau, professor de história na Universidade de Central Flórida, aponta em seu livro “NFL Football: A History of America’s New National Pastime (Sport and Society)”, alguns momentos definitivos para a NFL se tornar pop. Um deles foi a presença do quarteback Joe Namath no New York Jets – Namath venceria o Super Bowl III e seria também o MVP da partida.

Crepeau explica que quase imediatamente as pessoas passaram a conhecê-lo como “Broadway Joe”. O motivo era claro: Namath era presença frequente na mídia e sempre esteve conectado a última moda. Ele também frequentava os mais importantes bares e casas noturnas de uma Nova York em ebulição cultural, se tornando a imagem perfeita para atrair um público jovem para a National Football League; foi Joe que disse à América que a NFL era cool.

Outro ponto desta curva crescente de popularidade foi mérito do então comissário Pete Rozelle. Em 1970 ele ofereceu o Monday Night Football à ABC e, com Howard Cosell e Don Meredith comandando as transmissões, quase que instantaneamente o MNF se consolidou como um acontecimento semanal vital para a sociedade norte-americana, se tornando maior que a própria partida em si.

Além disso, a década de 70, também remete a um dos períodos mais significativos da Guerra Fria: em sua essência, football é sobre proteger seu território do oponente, enquanto se espera a oportunidade certa para explodir uma bomba de 80 jardas em seu adversário e apreciar o dano causado. Era um exercício de “civilidade” e um espelho de um período social – e, claro, a liga aproveitou a oportunidade para vendê-lo.

Um cara massa.

Ponto de encontro

De maneira simplória, uma perspectiva sociológica de como algo se torna tão significativo para a cultura pop concebe a fama como fruto da interação entre aquilo a quem ela é atribuída e o público que participa desta atribuição; quase toda a sociedade é marcada por essa estrutura, é uma característica da modernidade essa integração.

E é aqui que as histórias da NFL e de Lady Gaga se cruzam e encontramos uma grande história por trás do próximo Halftime Show; quando notamos que para chegar ali, ela e a NFL trilharam o mesmo caminho. Guardadas as devidas proporções temporais, tanto Gaga como a NFL precisaram se adequar às constantes mudanças sociais a que estiveram expostos, para então atingir a real dimensão que cada um possui atualmente.

Durante anos a liga buscou mais fãs para participarem da contagem regressiva pelo Super Bowl. E ela encontrou isso, voluntaria ou involuntariamente, no público feminino. Agora, nos EUA, domingo não é mais o dia da mulher sair de casa enquanto uma figura masculina se senta em frente à televisão com um pack de cerveja, como mostra o crescimento de cerca de 25% na última década da audiência feminina na NFL. Mesmo no Brasil o crescente interesse do público feminino pelo esporte é notável.

Foi uma simples questão de enxergar a oportunidade e então se adaptar a um novo jogo e novas regras. O mesmo aconteceu com Gaga ao longo de sua carreira. Se no já citado “The Fame” e posteriormente em “Born This Way”, ambos extremamente populares, ainda havia resquícios de aversão ao seu trabalho por parte de alguns setores da sociedade, quando Gaga se juntou a Tony Bennett em “Cheek to Cheek”, não foi mais possível negar que nela havia muito mais do que “Poker Face” e “Bad Romance”.

Claro, foi um movimento estratégico, assim como foi a capacidade da NFL tornar o esporte mais palatável a um novo público e uma nova sociedade, seja através do Halftime Show ou das medidas para tornar o que acontece dentro de campo menos “violento”. Tudo isso considerando a real dificuldade que é fazer uma “reforma pública”, que requer um choque direto com uma base de fãs já consolidada que precisa desapegar do passado e aceitar esta nova roupagem.

Por tudo isso, estamos diante a junção ideal entre momento e personagens para o recorte de tempo e significado que ambos possuem atualmente: hoje Gaga é perfeita para o Halftime Show e o Halftime Show é perfeito para Lady Gaga, afinal, uma das histórias que a NFL oferece é o próprio EUA, repleto de nacionalismo, 22 homens em uma mesma faixa de campo, imersos em tensões étnicas, cada equipe trazendo consigo características únicas da comunidade em que está inserida que, somente se unidos, conseguirão chegar ao objetivo. Já uma das histórias que Gaga conta é que aqueles que são colocados de lado não precisam ceder às pressões e podem sim se adaptar e se reconstruir à sua maneira. Também como o próprio EUA.