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Alex Smith como você nunca viu

Um dos maiores erros cometidos quando falamos de draft – e dos jogadores nele selecionados – é acreditar que se trata de uma ciência linear. Nós achamos que os resultados são sempre constantes em função do jogador selecionado, e tudo que muda é o time que escolheu uma pessoa ao invés da outra.

O melhor exemplo recente disso é Dak Prescott, selecionado pelo Cowboys na quarta rodada e que se tornou um dos melhores jovens QBs da NFL. Muitos analistas começaram a apontar o grande erro de estratégia dos outros times da NFL em não selecionar um jovem franchise QB em Prescott quando tiveram a chance, esquecendo que o próprio Cowboys passou Dak três vezes e só selecionou o camisa 4 depois de não conseguir DUAS opções que preferiam a ele, Paxton Lynch e Connor Cook (cuzão).

Mas o mais importante as pessoas estão esquecendo: caso Dak Prescott não fosse para Dallas, existe uma chance bastante considerável de que ele nunca teria tido o 2017 que teve, e não teria se tornado o QB que aparenta ser hoje. Ambiente, complementos e desenvolvimento contam muito para a evolução de qualquer jogador, e Dak pode passar seu ano de calouro jogando atrás da melhor linha ofensiva da NFL, complementado por um devastador ataque terrestre que tirava a atenção da defesa de suas costas.

Pense nisso: se Prescott tivesse acabado em um time como o Browns, passado o ano todo tendo que se preocupar em fugir da pressão atrás de uma linha ofensiva ruim, precisando lançar bolas demais por jogar atrás no placar, e sem um jogo terrestre dominante, podem ter certeza que Prescott não teria se desenvolvido tão bem e hoje não seria visto como metade do jogador que é em Dallas. Contexto importa, desenvolvimento importa ainda mais, e esquecemos disso com uma frequência impressionante.

Comparação

Na história recente da NFL talvez não exista um melhor exemplo disso do que Alex Smith. Primeira escolha no draft de 2005 – 23 escolhas antes de Aaron Rodgers – Smith durante muito tempo foi considerado um dos grandes busts da história da NFL.

As estatísticas ajudavam a ratificar essa impressão; entre 2005 e 2010, Alex Smith jogou 54 jogos e completou apenas 57.1% dos seus passes, com 51 TDs, 53 INT, 6.2 Y/A, 5,3 AY/A e um rating de 72.1. Com Aaron Rodgers assumindo a titularidade e se tornando uma superestrela em Green Bay, a narrativa cada vez mais forte era de que o 49ers tinha feito a escolha errada.

Mas embora seja muito provável que San Francisco realmente tenha feito a escolha errada, assumir que o resultado teria sido o mesmo (mas trocado) para os jogadores e times envolvidos é ignorar os trajetos totalmente opostos que Smith e Rodgers enfrentaram na NFL. Smith, quando chegou a San Francisco como escolha #1, enfrentou a pior situação possível para o desenvolvimento de um jovem QB: colocado logo de cara no fogo, atrás de uma horrível linha ofensiva e sem alvos para ajudá-lo, Alex passou seus primeiros anos correndo pela vida, incapaz de desenvolver as habilidades certas por estar sempre precisando jogar atrás no placar e fugir da defesa adversária.

Além disso, em seus primeiros sete anos de NFL, Alex Smith teve seis técnicos e sete coordenadores ofensivos diferentes, um constante fluxo de mudanças que impediam que o jovem QB aprendesse e desenvolvesse um playbook consistente, e cada troca vinha com novas adaptações, novas mudanças, e novas jogadas. Adicione a isso lesões no ombro – geradas e agravadas pelas repetidas pancadas sofridas atrás dessa fraca linha ofensiva – e a verdade é que Alex Smith nunca recebeu em seus anos formadores a condição de se desenvolver e ter sucesso como QB titular de NFL.

Do outro lado, Rodgers teve a melhor situação possível. Ficou três anos aprendendo com a tutela de um QB Hall of Famer (Brett Favre), sem nenhuma pressão ou desespero. Seu técnico, seu playbook, seu estilo de jogo – tudo permaneceu constante desde que chegou à NFL, o que ajudou demais seu desenvolvimento. Quando Rodgers enfim se tornou titular em 2008, estava muito mais maduro e pronto, conhecedor de um playbook estável, em um bom time. A chance de alguém se desenvolver assim era muito maior.

Então sim, é possível que Rodgers desde o começo simplesmente fosse melhor que Smith e merecedor da escolha #1. Mas a verdade é que, se você trocasse Smith e Rodgers na noite do draft, a carreira de ambos teria sido totalmente diferente. Smith nunca teria lidado com tantos problemas e teria se desenvolvido melhor, e Rodgers nunca – repetindo: NUNCA – teria se tornado o QB que é hoje se tivesse começado sua carreira na horrível situação que lhe seria proporcionada pelo 49ers, desenvolvendo maus hábitos e com aprendizado interrompido por constantes mudanças e uma péssima infraestrutura.

A sorte bate a porta

A sorte – e a narrativa sobre a carreira – de Smith mudou em 2011, com a chegada de Jim Harbaugh. Pela primeira vez Smith tinha não apenas um bom técnico e ótimo mentor de QBs para guiá-lo, como também não precisava ser ou se desenvolver em alguém que não era. Harbaugh desenhou todo o playbook do 49ers não em torno de algo que Smith deveria ser, mas do que ele tinha de melhor: a inteligência, paciência, precisão nos passes e boa leitura de jogo.

Agora, atrás de uma boa linha ofensiva e um poderoso jogo terrestre, e complementado pela melhor defesa da NFL, Smith não precisava fazer passes difíceis ou soltar grandes bombas para vencer. O 49ers precisava que ele tomasse conta da bola, trabalhasse o play action, tomasse boas decisões e fosse um complemento, uma peça a mais em um time completo e muito bem montado.

Em 2011, Smith teve seu melhor ano na carreira até então, completando 61.7% dos passe para 17 TDs e 5 INTs, 7.1 jardas por passe (Y/A) e 7.3 jardas ajustadas por passe (AY/A). Com Smith no comando, o 49ers chegou até as Finais da NFC e só não foi ao Super Bowl por conta de dois fumbles em retornos de punt (a atuação de Smith contra o Saints nos playoffs ainda é uma das mais impressionantes da história recente da NFL).

No ano seguinte, porém, Smith acabou indo para o banco depois de uma lesão em favor do maior potencial de Colin Kaepernick, mas novamente vinha tendo um grande ano: 70.2%, 13 TDs, 5 INTs, 8,0 Y/A, 8.1 AY/A. Ao todo, Alex Smith jogou 26 jogos completos sob Jim Harbaugh, e o 49ers venceu 20 deles.

Mas apesar do sucesso individual e coletivo sob Harbaugh, Smith ainda continuava preso aos rótulos. Se agora não era mais o rótulo de bust, o fracasso no draft, agora era um novo: “Game manager”. A ideia era de que Smith tinha sucesso por ser alguém que apenas “gerenciava” o jogo, alguém que só era capaz de evitar erros, dar a bola para o running back, e confiar na defesa – ele não perdia jogos, mas não ganhava, então só teria sucesso em um time que pudesse ganhar jogos por ele. E, apesar de performances como seu lendário jogo contra o Saints em 2011, por exemplo, começou a se espalhar a ideia de que ser um QB sólido, consistente, que fazia as coisas para ajudar seu time a ganhar, mas não lançava para 300 jardas e 3 TDs, não era uma coisa BOA – o que é bastante idiota.

Talvez fosse verdade de que Alex Smith não seria capaz de carregar nas costas rumo ao sucesso um elenco medíocre como, por exemplo, o do Colts, mas até quantos QBs na NFL seriam? Cinco? Ser um QB capaz de levar um bom time longe era bastante valioso por si só, mas a narrativa fez parecer uma coisa ruim, com se Alex fosse incapaz de fazer mais.

Nas seis temporadas desde a chegada de Harbaugh (duas em SF e quatro em Kansas City), Smith jogou 85 jogos na temporada regular como titular, seu time venceu 60 delas e foi cinco vezes aos playoffs (incluindo 2012). E, de alguma forma, a narrativa fazia crer que Smith ainda não era um QB bom o suficiente para ser um titular de um time que aspirasse a mais na NFL.

Trabalhando dentro do limites

As críticas a Smith se baseavam no seu estilo de jogo. Suas forças indiscutivelmente estavam nos passes curtos, na precisão, no controle de jogo e na inteligência, e muito de seus playbooks foram montados em torno dessas características, de forma a minimizar as jogadas de alto risco e focar em eficiência e ganhos curtos. Dadas as forças e fraquezas de Smith, era uma forma inteligente de montar seu ataque, mas não significava que o camisa 11 não era capaz de fazer nada mais.

E, no entanto, foi assim que a narrativa se desenvolveu, ao ponto de que seu próprio time – que foi aos playoffs três vezes na divisão mais competitiva da NFL com Smith – foi atrás de um substituto no draft, trocando múltiplas escolhas para selecionar Pat Mahomes, um quarterback bastante cru, mas com um braço extremamente forte. Ou seja, exatamente o oposto de Smith. O tempo de Alex Smith em Kansas City parecia contado, e os pedidos para que Mahomes fosse titular aumentavam a cada dia, dizendo que era a única chance do Chiefs de subir de patamar ofensivamente.

O verdadeiro MVP

Tudo que Smith fez desde então foi devorar planetas e chutar bundas. Em cinco semanas de NFL, Alex Smith tem sido talvez o melhor jogador da liga. Seus números parecem coisa de videogame: 76.6% de aproveitamento, 11 touchdowns, 0 interceptações, 8.8 jardas por passe, 10.2 jardas ajustadas por passe, 125.8 de rating, 68.1 QBR – tirando touchdowns (onde Smith era #3 depois da Semana 5) e QBR (#4), todas essas marcas lideram a NFL com MUITA folga.

Após cinco rodadas, Smith e o Chiefs tem a melhor campanha da NFL a 5-0, e tem o melhor time, melhor ataque, e o melhor ataque aéreo da NFL (em DVOA), tendo vencido no processo os times #2 (Washington), #5 (Eagles) e #6 (Houston) da NFL em DVOA (além de New England, atualmente #22). Sob qualquer medida possível, é um dos inícios individuais e coletivos mais dominantes da história da NFL, e embora seja precoce falar isso, Smith parece hoje um dos favoritos ao prêmio de MVP da liga, enquanto Kansas City vai se consolidando como o time a ser batido de 2017. Os pedidos por Pat Mahomes parecem a cada dia mais distantes.

Como diabos isso está acontecendo

Mas o mais interessante não é só que Smith tem jogado em nível MVP, mas sim como isso está acontecendo. Durante anos, a história contada sobre Alex Smith era de que seu braço era fraco demais para a NFL, um QB incapaz de fazer passes longos e que só conseguia ser eficiente, o que era de certa maneira um reflexo de seu estilo de jogo; de acordo com o site especializado Football Outsiders, até o começo da temporada 2016 Alex Smith era o quarterback cujos passes viajavam a menor distância em toda a NFL, com seus passes viajando 6.81, 5.97 e 6.87 jardas além da linha de scrimmage em média durante suas três primeiras temporadas no Chiefs (2013-2015). Em 2016, apenas 9,4% de seus passes (46) viajaram mais de 20 jardas no ar, segunda pior marca da NFL entre QBs qualificados, e completou apenas 32.6% deles para 521 jardas e 2 TDs contra 2 interceptações, um rating medíocre de 72.8.

Elite?

Em 2017, no entanto, a história tem sido outra. Nessas cinco rodadas, 12% (19) dos passes do camisa 11 tem sido de mais de 20 jardas, uma marca que teria sido #11 em 2016. Sua média de distância no ar por passe também subiu consideravelmente, para 7.7 em 2017, 18ª melhor marca da NFL (entre 33 QBs qualificados). Smith está lançando bolas longas e passes mais distantes com frequência maior do que em qualquer momento na carreira desde sua volta por cima em 2011, e seus resultados também tem sido melhores do que nunca: nesses passes Smith tem aproveitamento de 57.9% (#1 na NFL), com 440 jardas (#2 na NFL) e 3 TDs (#2 na NFL) contra 0 interceptações, que garantem um rating de 142.0 – a melhor marca de toda a liga.

Alguns desses passes foram jogadas fáceis, como o TD de Tyreek Hill contra o Patriots em uma falha de marcação, mas outros tem sido passes difíceis absolutamente perfeitos, como esse passe maravilhoso para Travis Kelce em rede nacional contra o Redskins, o TD de Hill contra o Chargers e a perfeita bomba para Hill na lateral contra o Texans – jogadas que mostram bastante habilidade e toque nos passes em profundidade.

Essa nova faceta do seu jogo tem um efeito bem maior do que somente as jogadas longas em si. Antes, era muito mais fácil para as defesas se aproximarem da linha de scrimmage – até como precaução contra o forte jogo terrestre do Chiefs – de forma a evitar os passes curtos, e desafiando Smith a vencer com passes longos que castigassem essa formação. Agora que as defesas precisam se preocupar com os passes longos, forçando os safeties a jogarem mais atrás e a defesa a respeitar a zona intermediária, abre-se demais o campo para o jogo terrestre e os passes curtos (ainda a especialidade de Smith), ainda mais em um time com muitas ameaças para conseguir jardas depois da recepção.

E me chamem de cínico, mas pessoalmente não acredito que um QB de 33 anos que até 8 meses atrás não tinha capacidade de lançar bolas longas de repente aprendeu a fazer isso da noite para o dia. Ainda que seja nítido que Smith melhorou o seu jogo em 2017, não é o tipo da coisa que você simplesmente absorve nessa altura da vida. O mais provável é algo que muitos defendiam faz algum tempo: ainda que não seja sua especialidade, Smith tem total capacidade de executar lançamentos mais longos e difíceis, e que se a falta dessa dinâmica no jogo do Chiefs estava limitando a franquia, a solução não era buscar um substituto, e sim dar mais condições e liberdade para Smith explorar essa parte do seu jogo.

E foi o que aconteceu em 2017: em parte porque o elenco de apoio (em especial o veloz Tyreek Hill e a ascensão contínua de Travis Kelce) agora está mais capacitado para esse tipo de jogada, talvez até mesmo pelo esquema tático já ter sido um pouco modificado pensando em Mahomes, mas o Chiefs finalmente começou a colocar Smith em situações favoráveis para esses passes, e com o sucesso e aumento de confiança do seu QB, começou até a usá-lo em situações não tão óbvias ou favoráveis, e em geral com bons resultados.

Até onde se pode chegar

Smith não se tornou Brett Favre da noite para o dia – sua principal força ainda é a inteligência e os passes curtos, e seus números de uso de bolas longas ainda é apenas médio da NFL. Nunca será sua maior força ou o foco do ataque de Kansas City. Mas Smith finalmente ganhou a oportunidade de explorar a totalidade das suas habilidades, e os resultados tem sido melhores do que até o mais otimista defensor de Smith (que devo ser o autor deste texto) se atrevia a sonhar, para ele e para o time.

A pergunta que fica então é o quanto esse nível de performance é sustentável. Smith não passará o ano todo sem interceptações – mesmo em seu melhor ano no quesito (2011) o camisa 11 ainda foi interceptado em 1.1% de seus passes, e isso fazendo passes muito menos complexos e arriscados do que os desse ano.

Me engulam.

Também é difícil acreditar que Smith manterá seus números em aproveitamento, jardas por passe e jardas por passe ajustadas, que atualmente se encontram em níveis que superam os que Tom Brady jamais conseguiu em qualquer ano da carreira. Times agora terão mais vídeos para estudar desse novo Alex Smith, e a novidade que são seus passes longos tende a perder alguma da efetividade com o tempo. Algumas big plays não conseguirão ser repetidas com tanta frequência, e seus números mais absurdos tendem a regredir para a média com o tempo.

Mas a questão mais importante é que sua performance não precisa se manter nesse nível. Claro, seria ótimo para o Chiefs que seu QB repentinamente se tornasse uma mistura de Tom Brady e John Elway, mas ninguém espera que isso aconteça. Mas se Smith já era um QB bom o bastante para levar o Chiefs aos playoffs ano após ano e seu maior problema era a falta de potencial do ataque devido ao seu estilo conservador, a verdade é que esse problema provavelmente não existe mais.

Smith não vai ser tão eficiente assim o ano todo nos passes longos, mas só dessa dimensão existir e estar sendo explorada – e Alex e o Chiefs estarem confortáveis com ela – já muda totalmente o quão bom Alex Smith é, e o quão bom ele e o ataque de Kansas City podem ser com ele no comando.

As estatísticas avançadas dizem que o Chiefs é com folga o melhor time da NFL (em DVOA, o time #2 da NFL – Washington – está mais perto do #10 – Bills – do que do #1 Chiefs), as estatísticas mais básicas (inclusive número de vitórias) concordam, e o teste visual corrobora essa informação. O teto desse time está mais alto do que jamais foi: ninguém está jogando melhor, e o Chiefs parece ter se estabelecido como um dos grandes favoritos ao título da temporada. Tudo graças a Alex Smith, uma frase que pareceria impossível sete anos atrás, mas que pode ser a consagração de uma das histórias de superação mais divertidas que a NFL viu em anos.

Eu escolhi esperar

No mundo dos esportes, existe uma velha citação sobre como você nunca quer ser o cara que substitui “O cara”. Você quer ser o cara que substitui o cara que substitui “O cara”.

Para o 49ers, “O cara” era Jim Harbaugh, o grande treinador que chegou em 2011 de Stanford para salvar a equipe da mediocridade. Antes da chegada de Harbaugh, San Francisco vinha de uma humilhante sequência de oitos anos sem chegar na pós-temporada, tempo esse no qual a franquia teve campanha média de 5-11 e não teve UM ano com mais vitórias do que derrotas; Harbaugh trouxe mudanças, e uma nova cara para a franquia: em seus três primeiros anos, San Francisco foi a três finais de NFC consecutivas e um Super Bowl, ficando a cinco jardas (nota da edição: ou um holding não marcado) de conquistar o sexto anel da franquia. Foram três anos gloriosos, e graças àquele que logo se tornou um dos melhores técnicos da liga.

Saudades.

Mas vocês sabem como a história acaba. Uma diretoria egocêntrica quis os créditos pelo sucesso do time, o que levou a uma queda de braço e à saída de Harbaugh de San Francisco, enquanto Balkee e York buscavam provar que o time não dependia do técnico para continuar ganhando jogos, e que a dupla era a verdadeira origem do sucesso da franquia.

De certa forma, tanto Jim Tomsula (2014) como Chip Kelly (2015) – os dois técnicos seguintes – foram “o cara que substituiu O cara”: sim, eram pessoas diferentes, mas ambos foram um subproduto da mesma mentalidade distorcida, do desejo da diretoria de ganhar no curto prazo para comprovar sua crença no próprio sucesso. Por mais problemas que tivessem, Tomsula e Kelly estavam fadados ao fracasso mesmo antes de começarem seu trabalho.

Felizmente isso agora ficou no passado, e agora o time tem seu cara para substituir os caras que substituíram “O cara”. Kyle Shanahan chega não para tentar arrumar um time já existe em uma tentativa desesperada de conseguir vitórias, e sim como uma peça para iniciar um processo de reconstrução com foco no longo prazo. E isso é uma ótima notícia para um time que voltou a ser uma piada nos últimos dois anos da sua gloriosa existência.

Para o 49ers voltar a ser bom, primeiro precisava admitir que não era mais. E foi o que o time fez. Shanahan e o novo GM John Lynch assinaram contratos muito longos (seis anos) justamente para terem a segurança e estabilidade no cargo que precisam para poder pensar no amanhã, sem se preocupar em ganhar no hoje. É um processo, e o time parece ter enfim construído sua base para se lançar nessa empreitada.

A realidade

Embora isso seja uma boa notícia para o torcedor de SF, uma guinada na direção certa, isso também significa que pelo menos por enquanto o time está conformado em ser um time ruim, que não vencerá muitos jogos. Tudo fica claro na montagem no elenco: jogadores mais talentosos saíram da equipe, e o time não investiu para estancar o sangramento. Ao invés disso, apostou no draft, trocou para acumular escolhas extras, e encheu o time de jovens promessa. Ainda assim, o mais provável é que ainda demore anos para termos uma noção clara de como e para onde está indo essa reconstrução. E, depois das últimas duas temporadas, isso não será um problema. Ser ruim o time já era, pelo menos agora ele pode oferecer ao torcedor uma coisa pela primeira vez em três anos: a perspectiva de um futuro melhor.

E onde esse futuro parece estar mais próximo é do lado defensivo da bola. Em parte pelos legados de drafts anteriores, em parte pela ótima atuação de San Francisco no seu primeiro draft sob o comando de John Lynch, a defesa do 49ers já possui um número maior de grandes prospectos para servirem de pilar para essa nova etapa.

Onde mora o futuro

Em particular, o que impressiona é o talento que o time acumulou na linha defensiva. Nos últimos três drafts o time usou sua primeira escolha em um jogador da posição: Arik Armstead (#17 em 2015), DeForest Buckner (#7 em 2016) e Solomon Thomas (#3 em 2017).

Armstead teve altos e baixos, mas em geral se destacou na curta carreira indo atrás dos QBs adversários, e Buckner teve um ótimo ano de calouro. Apesar da pouca idade, experiência e rodagem pela NFL, é um trio de enorme talento, altas expectativas e que devem constituir a espinha dorsal da identidade do Niners daqui para frente.

Solomon Thomas, que em português quer dizer “esperança”.

O sistema defensivo de San Francisco mudou para um alinhamento 4-3 nessa temporada, o que também deve ajudar a maximizar o impacto desse grupo, em especial a versatilidade de jogadores como Thomas e Armstead, capaz de se moverem ao longo da linha e jogarem em múltiplas funções e posições. Junte a esse trio o subestimado Aaron Lynch, que vem de um 2016 ruim, mas que já teve destaque no passado com seus sacks e pressão, e a profundidade de nomes como Earl Mitchell, Quinton Dial e Tank Carradine: essa linha de frente pode ser bastante assustadora muito em breve.

O resto da defesa não está com tantas promessas e tantos talentos de ponta, mas ainda tem alguns nomes interessantes. NaVorro Bowman, aos 29 anos e vindo de múltiplas lesões sérias, provavelmente não é uma peça que estará no próximo time vencedor do 49ers, mas é um líder querido e respeitado no vestiário que pode por pra jogar junto do jogador que deve ser o futuro do 49ers no miolo da defesa, o LB Reuben Foster, um talento Top 5 do último draft que caiu até o fim da primeira rodada por problemas no ombro. Se ficar saudável, será um grande achado e mais uma boa peça para essa defesa.

A secundária não tem esse tipo de talento ou de certezas, mas ainda tem jogadores jovens que podem contribuir, como os “herdados” Jaquiski Tartt e Eric Reid, dupla de safeties; o promissor Rashard Robinson (escolha de quarta rodada de 2016); os cornerbacks Jimmy Ward e Dontae Johnson e o calouro Ankhello Witherspoon.  É uma unidade com muito mais jogadores decentes e apostas – o tipo de situação onde você tenta descobrir exatamente o que tem, e ver se alguma das suas apostas se torna um acerto para carregar.

Ainda assim, a secundária deve depender muito mais de boas atuações da linha defensiva – e da pressão colocada nos QBs adversários – do que da sua própria qualidade durante a temporada. Idealmente, Robinson e Witherspoon atingiriam seu potencial e se tornariam uma boa dupla titular, e pelo menos um dos veteranos se mostraria um sólido complemento. É o que o coordenador defensivo Robert Saleh vai esperar encontrar para a temporada, enquanto tenta recuperar a identidade defensiva e física que marcou os anos de ouro do 49ers nessa década.

O lado oposto

O ataque, por sua vez, foi montado com uma abordagem muito diferente – tão diferente que dá para dizer que é quase oposta. Se a defesa está mais avançada na reconstrução, com vários talentos intrigantes de alto nível e altíssimo potencial, o ataque está praticamente sem nenhum talento jovem de alto potencial. Seu QB titular e seu WR #1 em 2017 terão 31 anos, seu melhor jogador de linha tem 32, e o time gastou apenas UMA escolha de draft nas três primeiras rodadas dos últimos três anos com o ataque – o G Joshua Garnett que, aliás, foi muito mal em 2016.

Então, com essa escassez de talento jovem, a diretoria de San Francisco inteligentemente decidiu seguir na direção contrária: ao invés de montar o ataque através de seus jogadores, o time decidiu começar a construí-lo montando e estabelecendo nele um sistema e um plano claro de jogo – o mesmo que Kyle Shanahan implementou com tanto sucesso em Atlanta. Com um esquema definido já implementado, fica muito mais fácil para saber que tipo de jogador buscar, incorporar novas peças, e achar talentos subvalorizados que têm muito mais valor dentro de um estilo de jogo específico – como o New England Patriots tem nos mostrado há 16 anos.

Então o Niners se preocupou em ir atrás dos jogadores que fizessem sentido para o plano de jogo de Shanahan, e trouxe as peças que poderiam ajudar nesse momento. Para jogar como QB veio o veterano Brian Hoyer, um jogador bastante subestimado que jogou com Shanahan no Browns em 2014 e que portanto já conhece seu playbook. Hoyer não é bom o bastante e nem tem a idade para ser o QB do futuro do time, mas como esse jogador não está hoje no elenco, até lá Hoyer é um ótimo nome para fazer a função que o time espera dele.

San Francisco também foi atrás e pagou bem caro por complementos a Hoyer, notavelmente Pierre Garçon, Marquise Goodwin e Kyle Juszczyk (eu olhei no Google). Os valores pagos levantaram questionamentos merecidos, pois foram bastante acima da média de mercado. Isso pode se dar por conta de um GM novo no cargo, e ser atribuído a John Lynch ainda não sabendo lidar bem com o mercado. Pode ser também o fato de que o Niners é um time ruim, com uma imagem pior ainda ao redor da NFL, e que sabia que não conseguiria os jogadores que queria se não pagasse mais por eles.

Mas todas essas caras aquisições foram feitas por um motivo. Pierre Garçon é um sólido WR que também conhece bem o playbook que o time quer implementar, tendo jogado dois anos com Kyle Shanahan em Washington, quando inclusive liderou a NFL inteira em recepções (2013, com 113). Já Marquise Goodwin nunca jogou com Shanahan, mas é um jogador que trás uma habilidade importante: é um WR de grande velocidade e muito dinâmico com a bola nas mãos, um papel importante para o esquema de Shanahan e que deve fazer a função que foi de Taylor Gabriel em Atlanta em 2016. E por fim Juszczky é um fullback bastante versátil, e Shanahan é um dos técnicos mais criativos usando FBs na NFL de hoje e que gosta de ter um em sua formação.

Eu quero acreditar.

Desnecessário dizer que trazer esses jogadores não é nem de longe para igualar o que Matt Ryan, Julio Jones e companhia fizeram em 2016 por Atlanta. Os jogadores que levarão esse ataque – espera-se – ao próximo nível ainda não estão na equipe, e devem ser um dos focos para os próximos anos.

A arte da paciência

Somando tudo isso, é difícil para o torcedor do 49ers realmente esperar um grande ano da sua equipe em termos de vitórias e performances. É o primeiro passo de um projeto de longo prazo, e paciência será parte importante dele. Mas isso não quer dizer que não possa ser um ano divertido. Do fundo do poço só se pode ir para cima, e o Niners TEM pontos de interesse para se acompanhar. Em particular, a linha defensiva tem chance de ser especial, e o ataque é um sistema de sucesso que já produziu momentos muito divertidos.

Com um pouco de sorte, San Francisco talvez tenha mais talento do que parece à primeira vista. Hoyer é um QB competente, e tem algumas armas de valor ao seu redor. Ninguém vai confundir esse ataque com o do Steelers, claro, mas tanto Hoyer como Garçon já produziram temporadas muito boas sob o comando de Shanahan.

Carlos Hyde é secretamente um dos RBs mais subvalorizados da NFL (quando saudável), e se a linha defensiva conseguir pressão suficiente para encobrir a secundária, esse time pode pelo menos almejar ser respeitável . E esse é um aspecto mais importante do que parece: a percepção do 49ers ao redor da NFL hoje, depois de chutar um dos melhores técnicos da NFL em uma batalha de egos e afundar por dois anos, é péssima. Técnicos, coordenadores e executivos recusaram entrevistas para assumir cargos na franquia, e jogadores não queriam jogar lá. Reconstruir esse tipo de coisa leva tempo, mas um bom ano, com performances respeitáveis, poucas brigas e algumas vitórias empolgantes pode fazer muito por reparar a reputação de um time.

A nova era do San Francisco 49ers começa agora. Onde ela vai dar, nós não sabemos. Mas aproveite a jornada, porque essa é uma franquia que sabe muito bem o que é estar sem direção, nadando no fundo do poço e achando que está acima de todos os demais.

Palpite: 6-10. San Francisco não deve ser tão ruim quanto o esperado em 2017 se alguns fatores funcionarem. A linha defensiva tem totais condições de estar em boa forma, e Brian Hoyer é um veterano que pode trazer estabilidade para o ataque – ambas as unidades devem caminhar mais para a média da NFL esse ano. O calendário não é dos melhores, com quatro jogos contra os sempre fortes Cardinals e Seahawks, e mais quatro jogos contra a forte NFC East, mas também tem dois jogos contra Rams, um contra Chicago e quatro contra a AFC South para buscar algumas vitórias. Com a possibilidade de alguns jovens talentos explodirem esse ano, San Francisco conseguirá uma mais que respeitável campanha de 6 ou 7 vitórias, a melhor desde a saída de Jim Harbaugh (saudades).

De York a Shanahan: o que o futuro reserva para o 49ers

“A coisa mais engraçada sobre ser um torcedor do San Francisco 49ers em 2017 é a reação das pessoas quando você conta esse fato”.

A reação inicial (e natural) é uma risada – afinal de contas você acaba de admitir que sua vida de torcedor é baseada em uma franquia que se tornou a piada da NFL nos últimos anos. Mas logo depois, a reação muda: a hilaridade inicial acaba sendo substituída por um sentimento de pena, como se você tivesse acabado de admitir ter alguma doença grave. Quase dá para ver a pessoa pensando “coitado, ele já sofre o suficiente com essa desgraça de time, é maldade tripudiar ainda mais”. Existe quase uma solidariedade com o torcedor do Niners nesse sentido, que faz você acabar levando um tapinha nas costas e ouvindo um “as coisas vão melhorar”. Com o Browns mudando sua diretoria e tomando decisões inteligentes, parece questão de tempo até San Francisco herdar o posto de pior franquia da NFL na atualidade. Ser ruim acontece, faz parte do ciclo, mas para chegar nesse nível você precisa de uma incompetência realmente especial.

Mas o pior é que, muito embora os últimos dois anos de San Francisco tenham de fato sido uma piada e justificado todos esses sentimentos, isso não é uma novidade para a franquia. É fácil esquecer isso, mas ser uma piada em meio a péssimas direções e maus cuidados dos seus donos foi a identidade do 49ers durante a maior parte do século XXI.

Depois de sua aparição nos playoffs em 2002 (derrota para os eventuais campeões Buccaneers na segunda rodada), San Francisco teve problemas em 2003 em meio a lesões de seu quarterback Jeff Garcia, e acabou o ano 7-9. E foi aí que tudo explodiu: Garcia foi para Cleveland, o combo de Tim Rattay e Ken Dorsey assumiu a posição, e o time terminou com a pior campanha da NFL com 2-14. Essa campanha rendeu a escolha #1 do Draft naquele ano… Alex Smith, que apesar de talentoso teve que lidar com SEIS técnicos diferentes (e seis coordenadores ofensivos) em seis anos e só foi se encontrar em 2011. Foi o começo de uma das piores sequências da história da NFL: entre 2003 e 2010, por oito longos e intermináveis anos, o time não teve UMA única temporada acima de 50%: campanha combinada de 46-82 (36%) e, bem, demissões quase anuais de HCs. Então acreditem quando digo que ser ruim não é uma novidade para o fã do Niners.

Uma nova (e breve) esperança

O problema é que nos ofereceram, no meio do caminho, a esperança. Nos foi mostrado um mundo onde o Niners não precisava ser uma piada, onde eles poderiam ser um time competente, admirado ao redor da NFL, uma referência de sucesso que disputava títulos. E uma vez que você chega nesse nível, ter que voltar atrás é muito mais difícil. Especialmente pela forma como foi feito.

Em 2011, no lugar do então recém-demitido Mike Singletary (talvez o pior técnico de NFL do século XXI), o 49ers anunciou a contratação de Jim Harbaugh, então técnico de Stanford. A chegada de Harbaugh – junto a um elenco promissor e bem montado por Scott McCloughan (que também foi mandado embora naquele verão e substituído por Trent Balkee) – foi o sinal da mudança para a franquia: logo no seu primeiro ano, San Francisco ganhou 13 jogos e a NFC West, Harbaugh foi eleito técnico do ano, o antigo bust Alex Smith se desenvolveu em um jogador competente e a defesa se tornou a melhor da NFL.

Saudades desse homem!

Assim, o time iniciou uma sequência de três anos em que foi um perene candidato ao título, chegando a três finais de conferência consecutivas (e muito perto de chegar também a três Super Bowls), ficando a cinco jardas de um título em 2012. Mesmo em 2014, quando o time foi apenas 8-8 em meio a múltiplas lesões e ficou de fora dos playoffs, a temporada foi melhor do que qualquer uma que o time teve nos anos anteriores à chegada de Harbaugh.

Para alguém que não pegou o auge de Montana e Young, essa foi sem dúvida a melhor época da franquia: o time era bom, a cobertura na mídia era abundante e ser torcedor do San Francisco 49ers era fonte de orgulho. Estávamos felizes por simplesmente ter um time funcional novamente.

Mas, como todo mundo sabe, não durou. O presidente do time (sobrinho da atual dona) Jed York, alguém que já admitiu publicamente não entender quase nada sobre futebol americano, mas que gosta de estar no centro das atenções, e seu GM de estimação Trent Baalke, não estavam satisfeitos com a atenção e os créditos que Jim Harbaugh recebia como salvador do 49ers. Repetiram publicamente que não era o técnico, mas sim o time que eles tinham montado. Por fim, Harbaugh perdeu a briga de força nos bastidores e, com a (ridícula, se você acompanhou os fatos) desculpa de que o HC tinha perdido o vestiário, colocaram o técnico para correr e promoveram alguém que simplesmente obedecesse às ordens vindo de cima, Jim Tomsula. Sem nenhum currículo que justificasse o cargo, a lógica era simples: se o time tivesse sucesso com Tomsula, ficaria claro que era o time, e não Harbaugh, a causa do sucesso.

O começo do fim

Desnecessário entrar em detalhes do que aconteceu, mas em resumo, tudo deu errado. As peças fundamentais dos bons times de 2011-2013 foram deixando San Francisco, e os movimentos de Baalke para repô-las terminaram em fracasso atrás de fracasso. Na tentativa de continuar vencendo, o time focou demais em contratações de curto prazo e não soube construir um plano duradouro que fizesse sentido, deixando assim de buscar peças que poderiam compor algo maior. Em dois anos, San Francisco venceu 5 e 2 jogos, e demitiu dois outros técnicos (beijos, Chip Kelly!) no mesmo período.

E isso se torna evidente quando você ignora a narrativa que tentaram te empurrar goela abaixo sobre a demissão de Jim Harbaugh, optando por focar nas reações ao redor da NFL: as pessoas estavam chocadas sobre como alguém poderia ser tão burro e demitir um dos melhores técnicos da NFL, que não só tinha trazido sucesso a uma franquia há muito decadente, mas também se tornado a cara dela – o que, claro, foi o motivo da sua demissão.

Até mesmo os jogadores do Seattle Seahawks, então maior rival do Niners, abertamente defenderam Harbaugh e mostraram bastante incredulidade frente ao movimento. Não tinha ninguém que achasse uma boa ideia. Exceto, claro, Balkee e York. A franquia tinha algo bom, tinha algo em que se sustentar, e jogou tudo pelo ralo.

Duas antas.

Reconhecendo o erro?

Mas dois dos mais fracassados anos da franquia pelo menos acenderam na cabeça de algumas pessoas a necessidade de mudança. York e Baalke apostaram e perderam. Para o segundo, isso custou o emprego. Para o primeiro não, porque isso não acontece com o sobrinho milionário e herdeiro da família que claramente não liga para o patrimônio que tem. Esse, aliás, é o principal fator de ceticismo quanto ao futuro do 49ers: poucas coisas são mais prejudiciais para uma franquia do que um dono ruim. E San Francisco talvez tenha o pior de toda a NFL contemporânea.

Ainda assim, pelo menos York e o 49ers admitiram seu erro. Baalke está fora da cidade e a franquia enfim anunciou o que todo mundo com três neurônios funcionais já sabia: que ela precisa se reinventar e recomeçar um planejamento longo para voltar a ser competitiva não ano que vem, mas daqui três ou quatro anos. Você pode questionar que diabos um time está fazendo se coloca esse processo nas mãos de um GM que é um ex-safety que jamais teve uma posição executiva na NFL e, ao invés disso passou esse tempo todo como comentarista de TV? É um questionamento válido, mas pelo menos já mostra uma mudança de postura muito necessária.

Por outro lado, a contratação de Kyle Shanahan para técnico, ainda que seja uma aposta, foi um ponto de otimismo no meio deste processo. Uma das mentes jovens mais brilhantes da NFL, Kyle foi o responsável por montar o ataque do Atlanta Falcons de 2016 que tomou a liga de assalto e fez de Matt Ryan MVP. Shanahan tem apenas 37 anos e nunca esteve na função de técnico, que é bem mais complexa e exigente do que a de coordenador, mas é exatamente o tipo de aposta que um time na condição de San Francisco deve fazer: confiar no seu enorme potencial e aceitar o risco da adaptação como parte do preço a se pagar.

Talvez ele nos salve.

E o mais importante de tudo é que, por mais arriscado que seja começar sua reconstrução com um GM sem experiência na parte executiva do esporte e um HC tão jovem e inexperiente, ambos terão bastante liberdade e margem para trabalhar: a dupla recebeu contratos de seis anos, com muitas garantias. A mensagem é clara: esse não é um trabalho para pouco tempo e eles terão bastante estabilidade no cargo para poderem pensar a longo prazo e não apenas na segurança de seus empregos. Significa que ambos poderão errar e aprender com os próprios erros no cargo. É uma aposta de alto risco, alto potencial que pode dar uma cara nova a uma franquia que desesperadamente precisa de um novo rosto.

Perspectivas

Sempre irá doer para o torcedor do San Francisco 49ers ir dormir todas as noites sabendo que tinha um dos melhores técnicos e uma das melhores situações da NFL, só para jogar tudo isso fora em uma batalha de egos (e, nessa batalha, o time claramente escolheu o lado errado).

Mas pelo menos agora, pela primeira vez, o time se colocou em uma situação de nos dar esperanças. Bem ou mal, significa um avanço. É o ideal? Talvez não. York ainda é o presidente do time e a situação dos donos ainda muito desfavorável. Um GM com mais experiência e menor risco seria mais desejável. Mas quando se está no fundo do poço, a única direção possível é para cima e hoje, San Francisco, na pior das hipóteses, já tem uma perspectiva muito melhor do que aquela que estava no horizonte seis meses atrás.

*Vitor é responsável pelo @tmwarning e torcedor do San Francisco 49ers desde 1849.

Sobre estar de joelhos, Ruby Bridges, Beyoncé e racismo

Há mais de cinco décadas, uma criança de seis anos de idade chamada Ruby Bridges desfilou em meio a uma multidão enfurecida, composta por segregacionistas, para se tornar a primeira criança negra na William Frantz Elementary School, em New Orleans. E o que deveria ser apenas uma cena rotineira, extrapola toda e qualquer noção de poder imagético: Ruby, com toda sua imponência física, é escoltada por policiais no caminho até a sala de aula.

Para além da história, mais de cinquenta anos depois, permanece uma das pinturas mais significativas na luta contra o racismo, que hoje está no lado externo do escritório do presidente Barack Obama, além de diversos estudos sobre moralidade, liderados pelo psiquiatra Robert Coles.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

The Problem We All Live With, pintura de Norman Rockwell, hoje na parte externa do escritório do presidente Barack Obama.

O contexto histórico, porém, nos ajuda a compreender um pouco o absurdo: em 1954, ano em que Ruby nasceu, a Suprema Corte dos EUA ordenou o fim da separação racial nas escolas – instituições do sul do país, no entanto, ignoraram a decisão. O estado da Lousiana, por exemplo, teve até o final de setembro de 1960 para colocar em prática a nova política educacional e o objetivo era integrar gradativamente: ano a ano, o processo começaria pelo que aqui conhecemos como jardim de infância e seguiria pelas séries seguintes.

Ruby foi uma das cinco crianças afrodescendentes que passaram no teste que determinava quais crianças seriam enviadas às escolas “brancas”. O teste, claro, já havia sido concebido de uma maneira que, digamos, tornasse mais difícil o ingresso de afro-americanos. Mesmo assim, os pais de Ruby decidiram lutar pela inclusão e, em seu primeiro dia de aula, a garota chegou à escola escoltada pelos já citados quatro agentes federais.

Durante todo o período letivo, a turma de Ruby teve apenas cinco alunos: ela e quatro colegas brancos. Pais optaram por manter filhos em casa, afinal, para eles era algo melhor do que partilhar a escola com uma criança negra.  Dessa forma, ela passou boa parte do ano ali, sentada, sozinha, aprendendo matemática com um professor que visualizava como seu melhor amigo.

Moralidade e o ser humano

Robert Coles, um dos psiquiatras infantis mais renomados da atualidade, queria compreender o que aquela menina, imersa em fúria e intolerância, pensava e sentia. Por vários meses, ele e a pequena Ruby conversaram, até o dia em que Coles foi surpreendido: Ruby disse a ele que sentia pena daquelas pessoas. E o rebateu, questionando-o se não achava que aquelas pessoas eram passíveis do mesmo sentimento.

Coles então foi desarmado por uma menina de apenas seis anos enquanto tentava aplicar psicologia padrão, tentava ajudá-la a perceber que, por algum motivo obscuro, ela havia irritado a ordem social vigente e que seria completamente normal ela estar amargurada ou ansiosa. Mas Ruby, ao seis anos de idade, respondeu que orava por eles; no fundo ela era inteligente o suficiente para compreender o que ocorre com o ser humano.

Mas quando Coles fala sobre aquilo que ocorre com o ser humano, ele se refere ao que ocorre com seu senso de moralidade. Para ele a moralidade não está apenas nas sutilezas, não é algo teórico: é, sim, uma questão de lado e também o ponto central da existência humana, o fator que norteia nossas vidas.

“A moral caracteriza nossa própria natureza. Ela tem a ver com conexão humana, com o tipo de conexão que responde a terceiros. Se somos privados de nossa moralidade, estamos privados de uma parte essencial de nós mesmos”, afirma.

É fato que o racismo é um problema histórico e enraizado na cultura norte-americana. Você pode argumentar que cinco décadas se passaram desde o caso de Ruby, mas a verdade é que, mesmo assim, ele ainda está ali, latente, em uma sociedade que não soube exorcizar seus fantasmas.

E aqui não cabe a nós criticar como lidamos com um passado que insistimos em negar, afinal qual sociedade está em paz com os períodos mais sombrios de sua história? Difícil encontrar aquelas que superaram seus erros sem cicatrizes. E, enfim, por que esta história está em um site sobre NFL? Chegaremos lá, mas para isso voltemos ao último Super Bowl.

Racismo enraizado

Um dia antes de se apresentar no Halftime Show, ao lado de Coldplay e Bruno Mars, Beyoncé lançou o clipe de “Formation”. Potencializado pela genialidade da sacada de marketing (timing é tudo, amigos), o vídeo revoltou diversos setores sociais dos EUA. Já na apresentação, Beyoncé trouxe ainda um figurino que homenageava os Panteras Negras: era um mix iconográfico de referências à cultura afro-americana que, claro, mobilizou tanto simpatizantes quanto detratores.

“Formation”, aliás, é gravado na mesma New Orleans que há 60 anos proibiu Ruby Bridges de frequentar a mesma escola que colegas brancos. A mesma cidade, símbolo da força criativa afro-americana e, na mesma medida, palco de históricas repressões policiais. A mesma cidade, berço da Ku Klux Klan. E ali Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina, como milhares de negros submergiram após a tragédia em 2005 – e provavelmente por isso policiais foram orientados a desligar seus televisores no intervalo do SB.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

Beyoncé aparece sob uma viatura policial que, aos poucos, submerge nas águas do Katrina.

A primeira frase dita no videoclipe é “What happened after New Orleans?” (“O que houve com New Orleans”, em tradução livre). A voz é de Messya Maye, famoso vlogger da mesma cidade, morto em 2010 quando saía de um evento com sua namorada. Já em outra parte do vídeo vemos um cordão de policiais com as mãos para o alto, seguido por um muro em que está pichada a frase “parem de atirar em nós”, semelhante aos gritos ecoados pela população negra durante as manifestações de 2014.

Beyoncé, porém, não está atacando apenas a polícia norte-americana, como sugeririam conservadores na época. Não foi ela quem recolocou a questão racial no centro do debate alguns meses atrás, assim como não foi Colin Kaepernick quem a recolocou na pauta atual. Quem trouxe novamente a questão à tona foi, na verdade, Maryland e Ferguson. Foram Alton Sterling em Baton Rouge e Philando Castile nas ruas de Falcon Heights. Foi Messya Maye, em 2010. Foram tantos outros que não sabemos o nome.

Sentindo na (cor da) pele

Não tenho propriedade alguma para falar sobre o racismo cotidiano nos EUA (na verdade, tampouco sobre racismo no Brasil; sou daqueles que acredita que só quem já sentiu na pele estas situações pode dar a real dimensão do problema), mas é sabido que até hoje uma das estrofes não cantadas no hino norte-americano “supostamente” enaltece a caçada de escravos.

Por outro lado, dados tornam impossível negar a realidade: de acordo levantamento do Mapping Police Violence, em 2015 um negro tinha três vezes mais chances de ser morto por um policial que um branco. Segundo o mesmo mapa, apenas 30% dos 346 negros mortos por policiais estavam armados (contra 19% de vítimas brancas). Já pesquisas recentes conduzidas pelo Black Youth Project da Universidade de Chicago e pelo Centro Associated Press-NORC de Pesquisa de Questões Públicas, indicam que mais de 60% dos jovens negros (e 40% dos jovens hispânicos) dos Estados Unidos afirmam que eles ou alguém que conhecem já sofreram alguma forma de violência policial. Paradoxalmente, eles também pedem uma presença maior da polícia em suas comunidades.

De joelhos

Era 26 de agosto quando Colin Kaepernick se ajoelhou pela primeira vez durante a execução do hino norte-americano. Um ato que por si só pode não significar tanto para nós, brasileiros – estamos longe de ser um país patriota, mal sabemos cantar o hino – quanto para norte-americanos, mas de qualquer forma, o cerne aqui é a motivação de Colin.

"“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor", declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor”, declarou Kaepernick.

“Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que football e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, disse o quarterback em entrevista à NFL após o primeiro ato.

É inegável que há uma falsa impressão de que o esporte é capaz de superar preconceitos, que é um elemento capaz de quebrar barreiras e promover o encontro entre o diferente. Bem, no fundo, é apenas mais uma balela que, após repetida a exaustão, sobretudo sob a chancela do famoso “espírito olímpico”, se tornou uma falsa verdade.

A prova disso é que atletas, brancos e negros, se dividiram após a o gesto de Colin – isto em um ambiente 67% negro, segundo levantamento do Instituto pela Diversidade e Ética no Esporte, o que só nos mostra que, mesmo em um cenário composto em sua maioria por afrodescendentes, a aceitação está longe de ser garantida.

E se uma semana depois do gesto de Colin, Marcus Peters, cornerback do Chiefs, foi além e cerrou o punho, Justin Pugh, branco e tackle do New York Giants, postou em seu Twitter: “Ficarei de pé durante a execução do hino nacional nesta noite. Obrigado a todos (gênero, raça, religião) por colocarem suas vidas em risco pela bandeira.

Já Jim Harbaugh (branco), um dos grandes treinadores do esporte e que comandou o mesmo Colin Kaepernick em sua melhor fase afirmou não “respeitar a motivação, tampouco o ato” – para em seguida se desculpar, dizendo que apenas o ato o incomodava.

Tudo bem, aceitamos o fato de que é algo a se pensar quando atletas negros se opõem ao gesto. Jerry Rice, por exemplo, criticou Kaep. E depois mudou de ideia. Victor Cruz, wide receiver do Giants, também se opôs: “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, declarou. 

Já na NBA, Russel Westbrook, armador do Oklahoma City Thunder, postou em seu Instagram um desabafo na última terça-feira (20) contra a violênciaMas tudo isto ganha outro significado quando diferentes atletas e técnicos brancos se posicionam como árbitros para a injustiça racial. É o momento em que temos situações absurdas, como a de Alex Boone, branco, 29 anos, e guard do Minnesota Vikings, mesmo estado em que o já citado Philando Castile perdeu a vida; Alex classifica o ato como “vergonhoso” e exige que Colin mostre “algum respeito”.

Você ainda tem Sean Payton, branco e treinador do New Orleans Saints, que fica na mesma New Orleans de Ruby Bridges, na mesma New Orleans onde Beyoncé deu vida a “Formation”, declarando que “há coisas mais importantes para serem trabalhadas”.

Não importa se não há consenso de que sentar durante o hino é um ato extremamente desrespeitoso. Pouco importa se não sabemos ao certo o quanto cerrar os punhos é ofensivo à bandeira. Tampouco importa se na pior das hipóteses Colin Kaepernick esteja ao menos trazendo novamente à tona uma importante discussão.

Payton, Pugh, Harbaugh, Boone e tantos outros apenas escancaram aquilo que possivelmente foi a maior motivação de Kaepernick ao se ajoelhar pela primeira vez: lembrar toda a sociedade americana que o racismo ainda está ali, embora uma parcela dela insista em negá-lo e insista, sobretudo, em negar seu passado.

Ao se ajoelhar, Colin expôs a dificuldade que esta parte da sociedade tem em enxergar questões que estão a um palmo de distância, questões estão sob seus olhos. Tudo isto lançando mão de argumentos esdrúxulos como seu alto salário ou o fato de o presidente ser negro. Ou ainda questionar que ele está fazendo isso no momento mais conturbado de sua carreira.

O próprio Colin, aliás, revelou em entrevista coletiva que recebeu diversas ameaças após sua atitude. “Recebi algumas ameaças, mas não estou preocupado com isso. Para mim, se algo assim acontecer, você provou meu ponto e vai ser alto e claro para todos por que isso acontece”, disse.

“Há muito racismo disfarçado de patriotismo neste país e as pessoas não gostam de lidar com isso, eles não gostam de abordar qual é a origem deste protesto. Você tem jogadores em todo o país, não só na NFL, mas jogadores de futebol, da NBA e da universidade: eles não gostam de abordar esta questão de que as pessoas de cor são oprimidas e tratadas injustamente. Não sei por que é assim ou o que eles temer, mas isso precisa ser falado”, completou.

De joelhos perante um símbolo nacional, Colin Kaepernick mostrou que na verdade a sociedade norte-americana ainda é incapaz de ouvir. Mostrou que, infelizmente, quando se trata da existência do racismo, ela prefere se agarrar em seus próprios privilégios a lidar com o problema.