Posts com a Tag : Jeremy Maclin

Análise Tática #11 – Semana #1: O ataque dos Chiefs salvou a nossa vida

O jogo de abertura da temporada 2017 da NFL não poderia ter sido mais surpreendente. Alex Smith e Kareem Hunt comandaram a vitória da zebra Kansas City Chiefs sobre o atual campeão do Super Bowl New England Patriots por 42×27.

A vitória do Chiefs por si só já seria algo bem longe do esperado, mas as estatísticas produzidas por Smith e Hunt adicionam um elemento a mais à derrocada do Patriots. Smith, QB conhecido pela mediocridade de seus números,  lançou para 368 jardas e 4 TDs, completando 80% de seus passes, no provável melhor jogo de sua carreira. O rookie RB Kareem Hunt sofreu um fumble em sua primeira corrida como profissional, mas se recuperou com louvor: além de anotar 3 TDs, suas 239 jardas totais foram suficientes para bater o recorde de mais jardas conquistadas por um calouro em seu primeiro jogo.

A jogada a seguir mostra como Alex Smith e Kareem Hunt destruíram o todo poderoso Patriots. No shotgun, Smith tinha Hunt ao seu lado e três recebedores em marcação individual. O Patriots trouxe sete jogadores próximos à linha de scrimmage e deixou apenas um safety em profundidade.

Tyreek Hill, que estava posicionado no slot, na parte de baixo da tela, se deslocou para o outro lado do campo, alterando a marcação do Patriots.

Logo após o snap, o TE Travis Kelce, em uma rota cruzando o campo, atraiu dois marcadores, enquanto Hunt iniciava sua rota em profundidade.

Com Kelce recebendo a atenção de dois marcadores e com os WRs em marcação individual nas extremidades do campo, Hunt acabou marcado por dois LBs, naturalmente mais lentos que ele.

Smith soube aproveitar a vantagem do confronto contra os LBs e, com um passe perfeito, colocou Hunt em posição de anotar um lindo TD de 78 jardas.

O TD de Kareem Hunt foi muito bonito, mas a primeira semana da NFL também trouxe muitas performances horrorosas. Carson Palmer implodiu no jogo contra o Detroit Lions, lançando três INTs sofríveis. Em uma delas, Palmer tinha à disposição três recebedores em rotas em profundidade e o RB David Johnson em um rota curta, em direção à lateral do campo.

O problema é que o QB do Cardinals decidiu lançar exatamente onde havia apenas um defensor do Lions, que sem dificuldades fez a interceptação. Talvez algum dos recebedores tenha errado a rota, mas mesmo assim é um erro inaceitável, já que pelo menos três jogadores estavam em condições de receber o passe.

Outro time que fez nossos olhos sangrarem na semana 1 foi o Cincinnati Bengals. Além das quatro interceptações lançadas por Andy Dalton, a defesa também não fez grandes favores ao time, que acabou derrotado por 20×0 para o Baltimore Ravens. Na jogada a seguir, Jeremy Maclin talvez tenha anotado o TD mais fácil do ano. O Bengals colocou todos os jogadores na linha de scrimmage, sem nenhum safety em profundidade.

Maclin, na posição de slot, tinha uma rota slant, em diagonal em direção ao meio do campo. Seu marcador tentou acompanhá-lo, mas outro recebedor do Ravens, indo na direção contrária, o atrapalhou.

Com o congestionamento prendendo seu marcador, Maclin só teve o trabalho de receber o passe e anotar um TD completamente ridículo de fácil.

Elite é só uma questão de ser

O que você pensa quando pensa no Baltimore Ravens? Talvez venha a memória a vitória no Super Bowl XLVII, talvez você se lembre que o time tem sido deveras medíocre desde então, ou talvez você simplesmente dê uma risadinha ao pensar nas piadas “Is Joe Flacco Elite?

A verdade é que ninguém sabe o que esperar dos Ravens. Se em 2014/2015 eles quase derrotaram os Patriots em New England, no ano seguinte a campanha foi de 5-11. Já no ano passado, um meio-termo: 8-8, e a não-ida aos playoffs foi decidida por um touchdown de Antonio Brown no apagar das luzes.

Antes desse intervalo, temos uma temporada de 8-8 e, um ano antes, o título do Super Bowl em 2012, que já citamos. Voltando ainda mais no tempo, entre 2008 e 2012 Baltimore venceu pelo menos um jogo de pós-temporada em todas as temporadas, perdendo duas finais da AFC no meio do caminho.

Mas o que mudou? Por que a franquia perdeu a consistência de outrora para se tornar, hoje, um time medíocre (na plena acepção da palavra)? Afinal, não sabemos se o time escolherá no Top 10 do draft ou brigará de igual para igual contra Pittsburgh ou New England nos playoffs.

Uma das causas do declínio de Baltimore pode ser o salário de Joe Flacco. Desde que teve seu vínculo renovado, Flacco passou a ocupar uma parte considerável do Salary Cap, o que impediu o time de trazer reforços, ou manter quem era da casa – veja Kelechi Osemele, um dos melhores Guards da liga, hoje em Oakland, como um bom exemplo deste paradoxo. Ao mesmo tempo que expulsava outros talentos do time, Joe se mostrou incapaz de ser o carregador de piano que se espera de um QB Elite (sim, é uma piadinha infame).

Outra provável causa é a perda de jogadores que foram peças importantes durante a boa fase da equipe. Ray Lewis e Ed Reed se aposentaram depois do Super Bowl XLVII, e talvez nunca serão substituídos a altura – tratam-se de dois Hall of Famers. Além deles, os Ravens também não contam mais com Haloti Ngata, peça importante da linha defensiva campeã da liga. Já Terrell Suggs, a última âncora daquela defesa que continua na cidade, tem envelhecido e sua produção não é mais a mesma.

Squad goals.

Do outro lado da bola, Baltimore também viu algumas peças que davam identidade ao ataque deixarem a equipe. Desde a saída de Ray Rice, o time só teve um bom ano correndo com a bola – em 2014, justamente aquele que voltou aos playoffs. Além dele, Anquan Boldin também foi embora e, com as lesões de Denis Pitta, Joe Flacco não teve mais a mesma consistência de seus recebedores (sabemos que Steve Smith Sr jogou bem, mas sofreu com algumas lesões e, quando estava em campo, era praticamente a única peça confiável recebendo a bola).

Concluindo: a perda de peças importantes e a confiança em um quarterback razoável fizeram com que os Ravens se tornassem uma franquia extremamente irregular. Será a missão de John Harbaugh evitar que seu time continue navegando rumo a ilha da insignificância, onde habita o Cincinnati Bengals.

O único lugar do mundo em que Joe Flacco é rei

O ataque dos Ravens não foi bem em 2016 (vigésima quarta posição em DVOA). E em 2017, para piorar, contará com um Joe Flacco baleado e que corre o risco de não começar a temporada jogando, apesar do que diz a comissão técnica. Logo, a expectativa não é a maior do mundo.

Considerando que Joe esteja saudável, não acreditamos que isso fará muita diferença. Se você o assistiu jogando recentemente, sabe que ele não é o cara que vai inspirar um ataque. Flacco fará o suficiente para que seu time vença algo em torno de 6 jogos – qualquer record acima disso será fruto do time ao redor dele.

Nunca mais.

No corpo de recebedores, a aposentadoria de Steve Smith deixou um buraco. Sem ele, Baltimore ficou sem um autêntico WR 1. Mike Wallace já provou que não é capaz de cumprir a função; e Breshad Perriman, escolha de primeira rodada em 2015, tem lutado contra lesões e é uma incógnita. Jeremy Maclin foi contratado e poderá assumir o posto, considerando que já fez esse papel em Kansas City e na Philadelphia com algum sucesso. Vindo de um ano de lesão, porém, não sabemos se ele conseguirá. Por fim, Griff Whalen, talvez o gênio mais incompreendido de toda a NFL, fecha o grupo.

Nota do Editor: Houve uma briga muito grande sobre citar ou não Griff Whalen no texto, já que ele está enterrado no fundo do Dept Chart. Após ameaças de demissão, decidimos ceder.

Os RBs serão Terrance West e Danny Woodhead. Woodhead talvez seja o que inspire mais confiança, mas, além de ter dificuldades em se manter saudável, ele é mais eficiente recebendo passes do que carregando a bola. Já West teve no ano passado o seu melhor ano carregando a bola, com 4 jardas por tentativa. Conclusão: ele também não é a solução para o jogo corrido, mas é o que o time tem.

Dentre os TEs, podemos citar dois fatos: o primeiro é que você provavelmente nem conhece os caras. O segundo é que está todo mundo machucado. Maxx Williams e Benjamin Watson, que devem ser os titulares, são incertezas, já que voltam de lesões.

Por fim, a linha ofensiva, que não é um dos problemas da equipe, mas não conta com jogadores muito conhecidos – somos fiéis ao ideal de não encher linguiça com nomes que o amigo leitor nunca ouviu falar. Ronnie Stanley, escolha de primeira rodada em 2016, e Marshal Yanda, um dos melhores Guards da NFL devem ser os destaques do grupo. Além deles, os Ravens escolheram Nico Saragusa (quarta rodada) e Jermaine Eluemunor (quinta rodada) no último draft.

Os verdadeiros responsáveis por levar Joe Flacco longe

Baltimore resolveu reforçar a defesa durante a offseason. Tanto na free agency quanto no draft. Talvez Ozzie Newsome tenha finalmente percebido que não dá pra esperar que Joe Flacco seja o responsável por levar o time às vitórias.

A linha defensiva terá a volta de Brandon Williams, que renovou seu contrato e é um sólido DT, e Terrell Suggs, que já citamos, e, mesmo com a idade, ainda é um bom jogador. Para ajudá-los , foram escolhidos o DT Chris Wormley e o OLB Tim Williams. O grupo tem tudo para ser uma força essa temporada.

Já dentre os LBs, o excelente CJ Mosley será o comandante da unidade, que contará também com o rookie Tyus Bowser e o segundo-anista Kamalei Correa, de quem se espera uma evolução em relação ao seu ano de calouro. 

Ainda dói.

Na secundária, Brandon Carr, recém-chegado de Dallas, e Marlon Humprey, escolha de primeira rodada, chegam para acabar com os problemas da posição de CB 2. O bom Jimmy Smith será o CB 1. Por fim, os safeties titulares serão Eric Weddle, que foi muito bem em seu primeiro ano em Baltimore, e Tony Jefferson, jogador bastante underrated e que chega de Arizona.

O melhor para o final.

Não nos esquecemos de Justin Tucker, o melhor kicker da NFL. É o que diz a máxima: “quem tem Tucker pode sonhar.” Com ele em campo, os Ravens não precisam chegar muito perto da endzone para garantir alguns pontinhos – basta chegar ao meio do campo.

Palpite: Baltimore focou nos problemas da defesa durante a offseason, mas deixou o ataque com muitos buracos. John Harbaugh é um excelente técnico (o editor deste site aparentemente o ama), mas o time não conseguirá chegar aos playoffs, já que existem times melhores na AFC. Um 6-10 da vida é o que podemos esperar em 2017.

A verdade é cruel: quem nasce Alex Smith nunca será Joe Flacco

Muito se fala do “índice Andy Dalton” para avaliar quarterbacks – ou seja, se um QB é melhor do que Andy Dalton, ele é uma boa escolha para a NFL; caso contrário, ele deveria ser descartado. Um dos jogadores mais difíceis de aplicar a essa escala é justamente Alex Smith, cuja história desde ser primeira escolha em 2005, a ficar no banco e ver Kaepernick jogar no Super Bowl, a ser trocado para os Chiefs é conhecida; mais do que isso, suas limitações também.

Enquanto, especialmente em 2015, Dalton foi eliminado (novamente) na primeira rodada dos playoffs por estupidezes externas a ele, Kansas City ganhou a primeira rodada de um Houston sem quarterback, antes de cair para Tom Brady e seus Patriots, num duelo em que o marido de Gisele Bündchen dominou e Alex Smith não conseguiu ter estrela suficiente para ganhar. Esse jogo deve servir como grande exemplo de que, independente dos 6 Pro Bowlers e 9 jogadores no Top 100 (votados pelos próprios jogadores e um recorde na NFL), nessa liga um QB decisivo (como foi o próprio “elite” Flacco para ganhar seu anel) ainda é essencial.

1ericao

Eric Berry após uma jogada que ajudará a manter Alex Smith no cargo mais um ano.

Justin Houston, Eric Berry e muito mais

Alex Smith e seus dilemas a parte, a defesa dos Chiefs foi excepcional em 2015, acabando em terceiro lugar em pontos sofridos/jogo, uma grande razão de muitos “bailes” aplicados pelo time. A começar pela linha defensiva, onde o time conta com o gigante nose tackle Dontari Poe, que se tornou o jogador mais pesado a marcar um touchdowns corrido na história, flanqueado por Allen Bailey e Jaye Howard, que são monstruosos contra a corrida, além de terem somado 10 sacks em 2015.

O grupo de linebackers é ainda melhor. Justin Houston, que quase bateu o recorde com 22 sacks em 2014, recebeu um contrato de 52.5 milhões de dólares garantidos na metade do ano passado e é o principal pass-rusher (do time e um dos melhores da liga), acompanhado do veterano Tamba Hali e de Dee Ford que, em seu terceiro ano, deve ganhar cada vez mais importância no time. O time também conta com Derrick Johnson por dentro, que voltou ano passado como que sem sofrer os efeitos da sua lesão no tendão de Aquiles, ainda que não tenha nenhuma clara companhia para completar o 3-4.

A secundária é um misto de grandes jogadores e dúvidas. Por exemplo, como safeties, Kansas City conta com o grande Eric Berry, que voltou a ser um dos melhores da NFL depois de lutar contra um câncer em 2014, e Stevie Brown, que teve uma boa época entre 2012-14 antes de machucar o joelho e não conseguir retornar ao mesmo nível até agora. Nos CBs, o time tem Marcus Peters, que realizou uma grande campanha já como rookie (raridade entre cornerbacks) e busca uma dupla entre Philip Gaines, que não mostrou muito em 2 anos já na NFL, e outros dois rookies: Eric Murray (4ª rodada, Minnesota) e KeiVarae Russel (3ª rodada, Notre Dame); quem sabe Kansas City volte a ter a mesma sorte.

O drama de Alex Smith

Vamos admitir: existem argumentos para os defensores de Alex Smith (não que existam muitos ao redor da NFL). O seu número de interceptações está constantemente entre os mais baixos da liga e, por mais que seja acusado de ser novamente conservador demais para consegui-lo, o seu valor de jardas por passe está na média da liga (11º em 2015, 20º em 2014), assim como seu rating.

Entretanto, em prol dos seus detratores, é conveniente lembrar que ele nunca lançou mais que 23 TDs (2013) e mais de 20 só nesse ano em 10 anos jogados. Além disso, também foi desbancado pelo que hoje é reserva de Blaine Gabbert. Também, em 2014, conseguiu a proeza de não lançar um TD sequer para seus WRs; em 2015, lançou apenas 11 para eles, sendo 8 para um recém-chegado Jeremy Maclin – bizarrices que não acontecem com QBs médios da NFL.

Também no banco, para adicionar pressão e possibilitar especulações para a imprensa, os Chiefs têm adicionado jovens com grandes carreiras na universidade em Tyler Bray, Aaron Murray e Kevin Hogan. Além desses, recentemente também Nick Foles foi trazido e apesar da decadência clara, é inevitável lembrar que ele foi capaz de uma campanha 27 TDs e 2 interceptações (em 2013 pelos Eagles de Chip Kelly) e se questionar: será que, nessa máquina tão bem montada, Foles não chegaria mais longe que Smith?

Kansas City Chiefs coach Andy Reid, left, talks with quarterback Alex Smith during the first half of an preseason NFL football game against the San Francisco 49ers at Arrowhead Stadium in Kansas City, Mo., Friday, Aug. 16, 2013. (AP Photo/Ed Zurga)

“Desculpa, seu Leôncio Reid, mas não vai ser dessa vez.”

A máquina bem montada

A linha ofensiva dos Chiefs é boa. Razoavelmente boa. Certamente não tão boa a ponto de que o LT Eric Fisher, primeira escolha do draft de 2013 e excepcional fisicamente, mas com deficiências técnicas, merecesse 40 milhões garantidos, mas coisas bizarras acontecem na NFL. Pelo menos o time contará com o melhor right tackle da NFL Mitchell Schwartz (vindo de Cleveland) e com o center Mitch Morse, que deverá seguir evoluindo após sua boa campanha de rookie.

Uma das grandes razões da “boa aparência” da linha ofensiva é o jogo corrido. Quando a estrela do time Jamaal Charles se machucou na quinta rodada, a temporada parecia ter acabado – e, ao contrário, o ataque ganhou nova vida com Spencer Ware e Chancandrick West, que somaram mais de 1200 jardas e 11 TDs nos 11 jogos em que substituíram Charles, dando a garantia ao time de que, ainda que a idade lhe pese e não se recupere da segunda lesão no joelho, o jogo corrido da equipe, também contando com o apoio de um dos melhores fullbacks da NFL em Anthony Sherman, seguirá funcionando e garantindo o importante apoio a Alex Smith.

Por fim, por mais que normalmente pareçam subaproveitados por Smith, os Chiefs têm alguns bons alvos no time. O já citado Jeremy Maclin tem feito jus ao seu contrato de 55 milhões de dólares e trabalhado como um legítimo WR1 para o time, sendo o alvo principal; o segundo alvo mais acionado, além de Charles (se estiver saudável), é Travis Kelce (principal alvo de Smith no bizarro 2014), que parece um Rob Gronkowski esperando para acontecer num improvável crescimento do seu quarterback.

Como outras opções de wide receivers, há toda uma mescla que depende mais da criatividade dos co-OCs Brad Childress e Matt Nagy que das próprias capacidades em produzir bons números (dica: não perca tempo pegando qualquer um deles no fantasy). Uma possibilidade curiosa fica por conta de Mike Williams, que tem tido dificuldade em manter a forma (e por consequência, lesões) e por maloqueiragens diversas ao longo de sua carreira, mas que recebeu quase 3000 jardas e 23 TDs em seus 3 primeiros anos (2010-12) na liga.

Palpite: Os Chiefs só perdem a AFC West nos próprios vacilos, que, obviamente, tendem a acontecer (ainda assim apostaria neles para ganhar). Infelizmente, é difícil de acreditar que Alex Smith possa vencer algum quarterback mais inteligente que Brian Hoyer nos playoffs – logo, assim que Smith se machucar e for substituído por Nick Foles ou (quem sabe!) Tim Tebow, realizarei aposta em algum site aleatório pelos Chiefs campeões do Super Bowl.