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Métodos para evitar a ressaca

Philadelphia Eagles campeão do Super Bowl. Há uns dez anos isso seria uma piada tão engraçada quanto a Libertadores do Corinthians, mas, infelizmente, nos últimos anos tivemos um movimento extintor de piadas esportivas (nos resta o Cleveland Browns).

Após anos ameaçando ser alguma coisa, o Eagles teve experimentos interessantes, como o DREAM TEAM™ de 2011 e a projeto Chip Kelly. Esse legado trouxe Doug Pederson, técnico da árvore de Andy Reid, que passou 14 temporadas nos Eagles, caso o leitor tenha esquecido.

Um QB para o futuro (e outro para usar agora)

A chegada de Carson Wentz deu um fio de esperança a uma torcida acostumada a torcer para o que antes era conhecido como “só o Philadelphia Eagles”. Os primeiros jogos da carreira foram animadores, mas havia a ressalva da queda brusca no final do ano de calouro. Em 2017, houve um salto de qualidade. Wentz transformou o status de melhor prospecto desde Andrew Luck (todo draft tem um) em um jogo de alto nível, impressionando ao ponto de ser o principal favorito à corrida de MVP em certo ponto da temporada.

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Porém, um scramble ao fim do jogo contra os Rams em Los Angeles (semana 14) parecia colocar a temporada dos Eagles em cheque. Carson Wentz rompeu o ligamento cruzado anterior (vulgo ACL), o que, pelo timing da lesão, coloca inclusive em dúvida seu status para a abertura da temporada. Sabemos que o torcedor da Philadelphia ficou com o cu na mão, temeu que as atuações de Nick Foles criassem um cenário em que tudo iria por água abaixo, como o jogo do dia de Natal contra os Raiders.

Sem seu Quarterback titular, era inevitável que o destino reservasse mais um ano de Philadephia Eagles é isso aí mesmo, errado é quem espera diferente, evidenciado pelo fato de Vegas colocar o time como underdog para a primeira partida dos playoffs, mesmo jogando em casa. O jogo foi feio, mas o time venceu, com parte da glória sendo dividida com a implosão mental de Steve Sarkisian nos instantes finais. Contra os Vikings no NFC Championship Game, novamente o Eagles era considerado zebra nas casas de apostas, mas acabou humilhando o adversário, para desespero de 20% do site.

Porque sim.

O Super Bowl LII é história e vimos que Nick Foles não apenas evitou a esparramada de farofa, mas foi fator determinante para a vitória contra os Patriots, algo previsto por absolutamente zero pessoas (quem falar que previu tá mentindo, mesmo que mostre provas).

Em condições normais de temperatura e pressão, seria fácil os Eagles enganarem alguém, conseguindo até mesmo uma escolha de primeira rodada pelo jogador, mas a situação de indefinição do retorno de Wentz fez necessária a permanência de Foles. 

Panorama Tático do Ataque

Se nos playoffs os Eagles revolucionaram a NFL fazendo as pessoas esquecerem da existência do play action fake, em 2018 o uso da Run/Pass Option pode ser mais cauteloso. A “desvantagem” de ser campeão é a dificuldade de o manter desempenho no ano seguinte. Assim, é necessária a reformulação do sistema para evitar que as tendências mostradas no ano anterior não sejam facilmente combatidas na temporada seguinte.

A vantagem é que, ao contrário de outros sistemas que invadiram a NFL nos anos anteriores, como a wildcat formation e a read-option, o RPO ainda não foi exaurido, ainda podendo apresentar uma infinidade de variações de jogada sem esgotar o sistema.

Em contrapartida, o bom e velho pro-style offense ainda será necessário sobretudo para alavancar o jogo de Carson Wentz, que ainda tem muito a evoluir na carreira, apesar do que já foi mostrado ser surpreendente para um jogador vindo da segunda divisão universitária.

Como é comum em times vencedores, os Eagles tiveram muitas perdas de jogadores na offseason, sobretudo no ataque. Saíram os RB LeGarrette Blount e Kenjon Barner; os TE Trey Burton e Brent Celek e o WR Torrey Smith. Outro ponto de interrogação é o retorno do LT Jason Peters, que vem de uma ruptura de ligamentos cruzado anterior e medial colateral. Seu substituto Halapoulivaati Vaitai (tente escrever sem jogar no google), está com dificuldades na pré-temporada, apesar de ter sido consistente na metade final de 2017. Apesar dessa dúvida, o restante do grupo de protetores de Wentz é bem sólido, contando com Stefen Wisniewski, Jason Kelce, Brandon Brooks e Lane Johnson.

O dinamismo entre os running backs deve ser a tônica para o ataque, com Jay Ajayi sendo o peão de carga, enquanto Corey Clement e Darren Sproles (retornando de lesão) devem aumentar a dimensão do jogo aéreo. Complementando o jogo de passes curtos e as terceiras descidas, o TE Zach Ertz deve aumentar sua importância como arma do ataque. Alshon Jeffery é o cara responsável por esticar o campo, e Nelson Agholor finalmente contribui em campo após a cirurgia para remoção das raquetes que tinha no lugar das mãos. O nome novo na WR room deve ser Mike Wallace, que é uma espécie de seleção inglesa dos jogadores de NFL: após anos decepcionando quando se esperava protagonismo, finalmente deve produzir alguma coisa no papel de coadjuvante.

Uma defesa consistente

A profundidade de talento nos Eagles é tão grande que atinge o outro lado da bola. E dessa vez é de verdade, não como no lendário Dream Team de 2011. Se no Super Bowl não teve defesa, a unidade contribuiu bastante durante a jornada até lá, garantindo resultados que encaminharam a campanha de 13 vitórias.

Apesar das perdas do DE Vinny Curry, DT Beau Allen e do OLB Mychael Kendricks, o front office de Philly buscou uma estratégia utilizada por nomes como Al Davis e Bill Polian (na época em que sabiam o que estavam fazendo): fortalecer ainda mais a principal virtude da unidade, nesse caso o front seven. Os Eagles trouxeram o NT Haloti Ngata e o DE Michael Bennett, nomes veteranos mas que ainda contribuíram bastante nas últimas temporadas por Lions e Seahawks, respectivamente.

Um pass rush tão forte deve ajudar sobretudo a secundária, que deve ter problemas para encontrar soluções para a posição de nickel após a saída de Patrick Robinson. O segundanista Sidney Jones deve assumir a posição, enquanto Jalen Mills e Ronald Darby devem ser os outside corners. Os safeties Rodney McLeod e Malcolm Jenkins completam a secundária, com papel importante de ajudar sobretudo Jones, que na prática é calouro, já que perdeu quase toda a sua primeira temporada por lesão.

Palpite

No papel, os Eagles tem o melhor elenco da NFL, e ainda pode evoluir. Para um time tão dominante no ano anterior, sempre há a possibilidade de regressão, enquanto as saídas de Frank Reich e John DeFilippo podem ou não ter um impacto na capacidade criativa de Doug Pederson. Na defesa, Jim Schwartz vai para sua terceira temporada como coordenador, reconquistando o prestígio que perdeu quando esteve em Detroit. Schwartz é bom o suficiente para manter o nível da defesa e até mesmo melhorá-la, mesmo se ocorrerem algumas lesões. Mediante esse cenário de continuidade do trabalho vencedor da última temporada, é praticamente impossível não colocar os Eagles como os favoritos a vencerem o título da NFC East, e até mesmo postulantes à homefield advantage. Uma campanha de 12 ou 13 vitórias deve ser suficiente para manter o time como uma das seeds mais altas da conferência. 

De favorito a underdog: a história do Philadelphia Eagles

O Philadelphia Eagles de 2017 é o time dos extremos: depois de conquistar a primeira posição na NFC durante a temporada regular e ser um dos favoritos a chegar ao Super Bowl, o time passou a ser um verdadeiro azarão. A contusão de Carson Wentz, que vinha sendo o melhor QB da liga e principal candidato ao prêmio de MVP, teve um impacto muito grande para o Eagles, e não apenas dentro de campo.

O melhor time da Conferência, pelo menos na tabela de classificação, chegou ao Divisional Round dos playoffs como posição número um mais menosprezada dos últimos tempos. Foi a primeira vez na história em que as casas de apostas americanas consideraram que o time com a sexta melhor campanha, o Atlanta Falcons, jogando fora de casa, era o favorito no confronto contra a seed #1 e mandante da partida.

Apesar do descrédito, o primeiro round foi bem sucedido. A vitória contra o Falcons não foi bonita, é claro. O placar de 15×10 não acaba com as dúvidas dos que não acreditam no Eagles sem Carson Wentz. Em um jogo apertado, de pouca inspiração ofensiva, o time mais eficiente venceu, mas não empolgou. Se Atlanta tivesse tido um pouco mais de inspiração nas chamadas ofensivas em seus últimos quatro downs (isso é sim um ataque direto a Steve Sarkisian), quando esteve a duas jardas de vencer o jogo, esse texto não estaria nem sendo escrito.

Saudades Carsinho.

Mas o Eagles contrariou os prognósticos desfavoráveis e venceu, provando que o título de underdog era um pouco exagerado. Agora, na final da Conferência, o adversário é o forte Minnesota Vikings, que vem carregado de energias positivas após uma das jogadas mais épicas de todos os tempos. Assim como no jogo contra o Falcons, o Eagles é novamente considerado zebra: Las Vegas considera que o Vikings tem vantagem de 3,5 pontos no confronto.

O menosprezo externo parece não afetar o time, que usa a narrativa de ser um underdog como motivação. “Prefiro que as pessoas duvidem de nós, ao invés de nos dar tapinhas nas costas”, disse o Right Tackle Lane Johnson, que após o jogo contra o Falcons não hesitou em colocar uma máscara de cachorro e esfregar a vitória na cara dos que consideravam o Eagles como “dogs”.

Apesar de novamente ser subestimado, o Eagles tem todas as condições de bater o Vikings e avançar ao Super Bowl pela primeira vez desde 2005, quando perdeu para o New England Patriots. Como isso acontecerá? As razões são várias.

Torcida e clima

A atmosfera na Philadelphia será extremamente favorável ao Eagles. Na arquibancada, serão 69 mil torcedores sedentos por um Super Bowl. Famosos pelo fanatismo e pelo descontrole (e pelas vaias), são capazes de ser presos por socar o cavalo da polícia, vaiar o Papai Noel e promover brigas épicas no metrô. São esses mesmos torcedores alucinados que tornarão a vida do Minnesota Vikings um inferno durante todo o jogo.

A vantagem de jogar em casa não pode ser menosprezada, especialmente no frio de Philly em Janeiro e contra um time que já se acostumou a jogar no calor de seu novo e confortável estádio coberto.

Essa turminha vai arrumar altas confusões em janeiro!

Eliminar erros

Em um jogo que promete ser disputado até o fim, como foi contra o Falcons, quem errar menos, obviamente, vence. Por isso, é fundamental eliminar alguns deslizes inaceitáveis como os que poderiam ter custado a vitória no Divisional Round. Turnovers, como o fumble de Jay  Ajayi logo no início da partida, e falhas em jogadas de special teams, como o ponto extra perdido por Jake Elliot e o muffed punt que deu a bola para o Falcons já na redzone, simplesmente não podem acontecer. O Minnesota Vikings é um time mais forte que o Atlanta Falcons e certamente conseguirá tirar mais proveito desse tipo de falha em um jogo cujo placar deve ser baixo.

Ter sucesso no jogo corrido

De acordo com o site Number Fire, desde que Jay Ajayi chegou a Philadelphia, na semana 9 da temporada regular, apenas Alvin Kamara tem média de jardas por tentativa superior a do RB do Eagles. Porém, a missão de Ajayi contra o Vikings não será nada fácil. Minnesota tem uma das melhores defesas da NFL contra o jogo terrestre. Além de uma linha defensiva dominante, os linebackers são muito rápidos e versáteis. Correr contra o Vikings é, sim, difícil. Mas mais difícil ainda é travar um duelo aéreo contra a secundária de Minnesota, especialmente quando Nick Foles é seu QB.

Claramente, o ponto forte do ataque do Eagles sem Carson Wentz é pelo chão. Para ter chances reais de vitória, é fundamental estabelecer o jogo terrestre desde o início do jogo, controlar o relógio e manter o placar sob controle.

Esconder Nick Foles

No duelo dos backup QBs, o time que conseguir mascarar as falhas do comandante do seu ataque terá mais chances de sucesso. Isso parece ser mais importante para o Philadelphia Eagles do que para o Minnesota Vikings, que tem Case Keenum jogando bem desde o início da temporada e sendo um QB claramente melhor que Nick Foles.

Contra uma defesa rápida e agressiva, o Eagles precisa tornar o trabalho de Foles o mais simples possível. Leituras rápidas, passes curtos, screens e run-pass options (o novo termo da moda pra quem quer fingir que entende de tática) são maneiras efetivas de minimizar os riscos de turnovers e ganhar jardas, mesmo que poucas, de forma contínua. A experiência que Foles teve no ataque de Chip Kelly, em 2013, quando lançou 27 TDs e apenas 2 INTs, mesmo tendo sido um desvio de percurso, pode e deve ser aproveitada nessa situação.

Pressionar Case Keenum

Brandon Graham, Fletcher Cox, Tim Jernigan e Vinny Curry formam uma das melhores linhas defensivas da NFL, tanto contra o jogo terrestre quanto contra o jogo aéreo. De acordo com o site Pro Football Focus, o Eagles conseguiu pressionar o QB adversário em 41,5% dos dropbacks, enquanto a média da liga é 34,7%. O que mais impressiona é que a linha defensiva consegue colocar pressão no QB em 38,3% dos snaps em que manda apenas quatro pass rushers. Ou seja, em grande parte dos snaps, o Eagles consegue chegar ao cenário ideal para uma defesa: conseguir chegar ao QB sem mandar Blitzes.

Ao mesmo tempo em que a defesa tem um pass rush eficiente, Case Keenum é um dos QBs mais pressionados da NFL: 39,3% das jogadas, de acordo com o PFF. Naturalmente, como a maioria dos QBs, Keenum tem percentual de passes completos e rating consideravelmente inferiores quando está sob pressão. Contra o Saints, ele completou apenas 3 de 11 passes quando estava sob pressão e, inclusive, lançou uma interceptação de sangrar os olhos. A matemática, nesse caso, está ao lado de Philly e pode ser decisiva, afinal títulos já foram decididos por defesas com pass rush eficiente (alô, Denver Broncos!).

Spoiler.

Acreditar no destino

Por último, é preciso acreditar que, mesmo sem seu melhor e mais importante jogador, o Eagles não chegou até a final de Conferência por acaso. Com uma pequena força dos deuses do football, que têm vontades bastante peculiares, o time pode emular um New York Giants de 2007 ou um Baltimore Ravens de 2012, chegar ao Super Bowl e, inclusive, vencê-lo. Basta uma ajudinha do destino, por que não?

Semana #12: os melhores piores momentos

75% da temporada da NFL já foi jogada. Já estreamos novos segmentos, consagramos jogadores e vimos muita desgraça até aqui. Porém, a coluna só trouxe uma certeza até hoje: se ela for continuar em 2018, certamente não serei eu que a farei. Não aguento mais. O leitor não liga para os meus desabafos, então vamos lá:

1 – Fuck It I’m Going Deep Fan Club

Quando o Quarterback (semana passada vimos que nem sempre só o quarterback) resolve jogar a bola longe sem medo de ser feliz.

1.1 – Matt Moore 

Quando o DB disputa com outro DB quem vai agarrar a bola, certamente não foi uma boa decisão.

1.2 – Marcus Mariota

Baseado na jurisprudência do caso anterior, além de que o drop do Darius Butler e o receiver escorregando mereceram ser destacados.

1.3 – Tyrod Taylor (part. especial: Marcus Peters)

Nada como ter o defensor do seu lado.

1.4 – Joe Flacco

Claramente procurando Rahim Moore na secundária.

2 – O Fumble Bowl 

2.1 – Malcom Jenkins

Sempre muito triste sofrer um fumble depois de interceptar um passe.

2.2 – Mitch Trubisky

Quando draftado, sabia-se que Trubisky precisaria de um tempo para se adaptar. Mas, porra, no College tu não segurava snap também não?

2.3 – Jay Ajayi

Quando a vontade de se consagrar é maior que a vontade de segurar a bola.

3 – Imagens que trazem PAZ

3.1 – Brock Osweiler

3.2 – Broncos @ Raiders 

3.3 – Robbie Anderson (assista com áudio)

3.4 – A defesa do Oakland Raiders, Paxton Lynch e… isto.

A primeira interceptação do Raiders na temporada veio em grande estilo.

3.5 – Este idiota dos Redskins

Repare como ele desconhece a regra do touchback. Seu companheiro de equipe conhecia, e ficou pistola.

3.6 – O Center de New England

Tentou dar uma chance aos Dolphins. Não adiantou.

3.7 – Tyreek Hill e outro guerreiro de Kansas City 

A imagem que simboliza como o ataque dos Chiefs derreteu de algumas rodadas pra cá.

4 – Troféu Dez Bryant da Semana

Sabe quando seu time tem um jogo complicado e precisa que o jogador de nome apareça? O torcedor dos Cowboys sabe. O torcedor dos Cowboys também sabe que Dez Bryant não é o nome ideal para esses momentos.

Por tudo isso, o vencedor do troféu Dez Bryant da Semana é Leonard Fournette. Parabéns!

Podcast #6 – uma coleção de asneiras VI

Trazemos as análises mais acertadas do mundo sobre o último dia de trocas na NFL. E, de brinde, apresentamos algumas trocas que não aconteceram, mas gostaríamos de ter visto.

Em seguida, voltamos com o #spoiler: dessa vez, quais jogadores vencerão os prêmios de MVPDefensive Player of the Year Offensive Rookie of the Year. Já pode fazer suas apostas que o dinheiro é garantido.

Depois abrimos espaço para cada um destacar uma pauta que chamou a atenção nessa temporada – inclusive uma tentativa medonha de defender o Cleveland Browns (!!!). Por fim, damos as tradicionais dicas de jogos para o amigo ouvinte ficar de olho nas próximas semanas. Só jogão.

Análise Tática #13 – Semana #6: Como o Atlanta Falcons foi Atlanta Falcons

A semana 6 mostra que a NFL segue desafiando analistas com suas previsões, afinal, fingimos que conhecemos algo, mas quando a bola sobe, coisas estranhas podem acontecer.

Seis semanas. Esse foi o tempo necessário para a esperança desaparecer completamente e o Cleveland Browns voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído.

E foi exatamente isso o que aconteceu no Mercedes-Benz Stadium (o estádio moderno com sistema de iluminação semelhante ao do pior inferninho que você conhece na sua cidade): o Atlanta Falcons desperdiçou 17 pontos de vantagem contra o possante Miami Dolphins comandado por Jay I don’t give a damn”  Cutler.

O primeiro tempo inteiro foi dominado pelos Falcons, que abriram 0-17 antes do intervalo. O novo coordenador ofensivo, Steve Sarkisian, ainda executa conceitos do ataque de 2016 comandado por Kyle Shanahan. Afinal, apenas tolos implodem um ano de sucesso por causa de uma derrota, por pior que ela seja.

Ainda no primeiro drive da partida, os Falcons mostraram um dos conceitos ofensivos mais interessantes. 3rd & 8, ainda no campo de defesa, o time se encontra em uma situação óbvia de passe. Ao contrário de tentar explorar rotas longas, o ataque comandado por Matt Ryan aproveita-se do fato de que a defesa dos Dolphins iria marcar em zona e alinha seus recebedores em formação trips-bunch do lado esquerdo.

O recebedor principal da jogada é Taylor Gabriel, camisa 18, indicado pela rota em laranja. Os demais recebedores em bunch (triângulo do lado inferior da imagem) têm por objetivo esticar o campo, reduzindo a quantidade de jogadores protegendo a marca do first down, na linha de 35. A linha ofensiva contém os pass rushers alinhados em 9-tech e Matt Ryan tem tempo de completar um passe fácil.

No momento em que a bola sai das mãos de Matt Ryan, não há nenhum defensor dos Dolphins próximo a Taylor Gabriel. Ótima jogada executada e O first down em um drive que resultaria em Field GoalAtlanta continuou seu domínio, e restando 2:00 no primeiro quarto, viria a marcar seu primeiro touchdown no jogo. Bola na linha de 40 do campo de ataque, os Falcons se alinham em 12 personnel, enquanto Miami mostra um desenho de cover 2 na secundária.

Ao prosseguir, observamos uma situação costumeiramente utilizada pelas defesas da NFL, mas igualmente perigosa. O disfarce de cobertura acontece para esconder do ataque as tendências ou plano de jogo, ao mesmo tempo em que jogadores defensivos fora de posição aumentam as chances da jogada ser mal executada.

Reparem no jogador circulado em azul, toda a jogada vai se desenvolver em cima dele. Em determinado momento da jogada, Austin Hooper, camisa 81 dos Falcons, executa uma rota out, quebrando na altura linha de 25 jardas. Nesse momento, Xavien Howard, camisa 25 dos Dolphins, hesita no lance, sem saber se receberá ou não apoio de um dos Safeties. Esse momento de indecisão é o suficiente para que Marvin Hall consiga a separação suficiente, e Matt Ryan coloque a bola perfeitamente em suas mãos. Touchdown Atlanta.

O jogador vendendo a possibilidade de um end-around (corrida em que o WR sai de uma das laterais e recebe o handoff no backfield também ajuda a segurar os linebackers, construindo o mismatch entre Howard e Hall, dois jogadores que você, leitor, provavelmente nunca tinha ouvido falar antes). Nessa jogada, Atlanta utiliza uma rota atacando o espaço entre os dois Safeties mostrado na leitura pré-snap, mesmo que a defesa dos Dolphins tenha executado algo totalmente diferente de um cover 2.

Já no segundo quarto, Atlanta seguia dominando, aqui aproveitamos para variar um pouco de jogadas de passe e analisar um conceito de corrida. Restando 7:52 no relógio, os Falcons se encontravam na linha de 39 do campo de defesa. Pelas características dos atletas de sua OL e de seus running backs, Atlanta gosta muito de executar jogadas de zone-blocking. Esse conceito de bloqueios funciona de forma muito simples: o jogador deve bloquear o adversário à sua frente. E se não houver ninguém, então partirá para o atleta mais próximo na direção em que a corrida se estabelece. Ao mesmo tempo, o running back deve ser capaz de antever o local em que surgirá o espaço que deverá correr.

Nesse caso, com uma formação de twin-TEs desenvolve-se uma corrida toss para o lado esquerdo do ataque. O Center Alex Mack e o LT Jack Matthews são os únicos jogadores que possuem assignments no segundo nível da defesa, sendo o último, o lead blocker (jogador que Devonta Freeman deverá seguir).

A esse ponto, a corrida já é um sucesso de execução, mas a capacidade atlética de Devonta Freeman a transforma em uma big play. O jogador atinge o segundo nível da defesa em alta velocidade e busca um corte para a direita, resultando num ganho de 44 jardas. Snaps depois, Tevin Coleman completaria o drive com um TD que colocaria os Falcons 17 pontos em vantagem antes do intervalo.

Depois do halftime, todo esse domínio de Atlanta ruiu. Assim como em fevereiro, o time se esqueceu de que a partir daquele momento, precisava queimar cronômetro. Uma série de campanhas curtas colocou de volta o ataque de Miami no jogo. 17 pontos não era uma diferença tão absurda assim, e Adam Gase inteligentemente contou com Jay Ajayi para equilibrar a partida, em vez de tentar a sorte com Jay Cutler. Uma série de boas corridas é sempre suficiente para colocar dúvidas na defesa e fazer com que até mesmo QBs como Cutler rendam bem no play action.

Já no terceiro quarto, 6:25 no relógio e bola na linha de 11. Ataque de Miami alinhado em shotgun singleback com 3 recebedores do lado direito e o TE Julius “It’s so Easy” Thomas do lado esquerdo entre a marcação numérica de 10 jardas e as hashmarks.

Em se tratando de uma 3rd & 7, situação óbvia de passe dentro da red zone, a defesa dos Falcons recuou corretamente em zona. Enquanto isso, a jogada de Miami se desenvolveu entre os dois recebedores mais internos do lado direito da formação, sendo Kenny Stills o alvo principal da jogada.

Aqui, méritos para Jay Cutler. O QB percebe o espaço devido a pass rushers alinhados em 9-tech, escala o pocket, exatamente o tempo em que Kenny Stills precisa para conseguir separação em sua rota, e ainda coloca um passe preciso. Touchdown e os Dolphins iniciam sua reação na partida.

Restando 1:38 ainda no terceiro quarto, os Dolphins tinham a bola novamente na redzone dos Falcons, dessa vez na linha de 7 jardas, em situação de 2nd & 6.

Alinhando com stack receivers, twin TEs e singleback formation, os Dolphins realizam um screen pass em fake motion com Jarvis Landry, ao perceber a marcação individual indicada em marrom.

O snap ocorre no momento em que Landry atinge a hashmark, ao mesmo tempo, em que todos os bloqueios e a rota de Kenny Stills se desenvolvem para a direita, atraindo a defesa. Com isso, Landry aproveita o mismatch e marca mais um touchdown, que naquele momento da partida, deixaria o placar em 14-17.

A vantagem construída no primeiro tempo já não existia mais e o momentum da partida era todo dos Dolphins, que com dois Field Goals no último quarto, conseguiram uma vitória fora de casa por 20-17, agora com record de 3-2. Aos Falcons, fica o aprendizado, mais uma vez, de quando se possui uma grande vantagem no segundo tempo, é necessário controlar o relógio.

Diego Vieira, como todo torcedor dos Colts (aparentemente o site precisava de mais um), também odeia o Atlanta Falcons.