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Métodos para evitar a ressaca

Philadelphia Eagles campeão do Super Bowl. Há uns dez anos isso seria uma piada tão engraçada quanto a Libertadores do Corinthians, mas, infelizmente, nos últimos anos tivemos um movimento extintor de piadas esportivas (nos resta o Cleveland Browns).

Após anos ameaçando ser alguma coisa, o Eagles teve experimentos interessantes, como o DREAM TEAM™ de 2011 e a projeto Chip Kelly. Esse legado trouxe Doug Pederson, técnico da árvore de Andy Reid, que passou 14 temporadas nos Eagles, caso o leitor tenha esquecido.

Um QB para o futuro (e outro para usar agora)

A chegada de Carson Wentz deu um fio de esperança a uma torcida acostumada a torcer para o que antes era conhecido como “só o Philadelphia Eagles”. Os primeiros jogos da carreira foram animadores, mas havia a ressalva da queda brusca no final do ano de calouro. Em 2017, houve um salto de qualidade. Wentz transformou o status de melhor prospecto desde Andrew Luck (todo Draft tem um) em um jogo de alto nível, impressionando ao ponto de ser o principal favorito à corrida de MVP em certo ponto da temporada.

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Porém, um scramble ao fim do jogo contra os Rams em Los Angeles (semana 14) parecia colocar a temporada dos Eagles em cheque. Carson Wentz rompeu o ligamento cruzado anterior (vulgo ACL), o que, pelo timing da lesão, coloca inclusive em dúvida seu status para a abertura da temporada. Sabemos que o torcedor da Philadelphia ficou com o cu na mão, temeu que as atuações de Nick Foles criassem um cenário em que tudo iria por água abaixo, como o jogo do dia de Natal contra os Raiders.

Sem seu quarterback titular, era inevitável que o destino reservasse mais um ano de Philadephia Eagles é isso aí mesmo, errado é quem espera diferente, evidenciado pelo fato de Vegas colocar o time como underdog para a primeira partida dos playoffs, mesmo jogando em casa. O jogo foi feio, mas o time venceu, com parte da glória sendo dividida com a implosão mental de Steve Sarkisian nos instantes finais. Contra os Vikings no NFC Championship Game, novamente o Eagles era considerado zebra nas casas de apostas, mas acabou humilhando o adversário, para desespero de 20% do site.

Porque sim.

O Super Bowl LII é história e vimos que Nick Foles não apenas evitou a esparramada de farofa, mas foi fator determinante para a vitória contra os Patriots, algo previsto por absolutamente zero pessoas (quem falar que previu tá mentindo, mesmo que mostre provas). Em condições normais de temperatura e pressão, seria fácil os Eagles enganarem alguém, conseguindo até mesmo uma escolha de primeira rodada pelo jogador, mas a situação de indefinição do retorno de Wentz fez necessária a permanência de Foles. Até o momento em que fechamos esse texto, Carson foi liberado pelos médicos para os treinos de time, mas não se pode garantir a presença do produto de North Dakota State na abertura da temporada regular.

Panorama Tático do Ataque

Se nos playoffs os Eagles revolucionaram a NFL fazendo as pessoas esquecerem da existência do play action fake, em 2018 o uso da Run/Pass Option pode ser mais cauteloso. A “desvantagem” de ser campeão é a dificuldade de o manter desempenho no ano seguinte. Assim, é necessária a reformulação do sistema a fim de evitar que as tendências mostradas no ano anterior não sejam facilmente combatidas na temporada seguinte. A vantagem é que, ao contrário de outros sistemas que invadiram a NFL nos anos anteriores, como a wildcat formation e a read-option, o RPO ainda não foi exaurido, ainda podendo apresentar uma infinidade de variações de jogada sem esgotar o sistema.

Em contrapartida, o bom e velho pro-style offense ainda será necessário sobretudo para alavancar o jogo de Carson Wentz, que ainda tem muito a evoluir na carreira, apesar do que já foi mostrado ser surpreendente para um jogador vindo da segunda divisão universitária.

Como é comum em times vencedores, os Eagles tiveram muitas perdas de jogadores na offseason, sobretudo no ataque. Saíram os RB LeGarrette Blount e Kenjon Barner; os TE Trey Burton e Brent Celek e o WR Torrey Smith. Outro ponto de interrogação é o retorno do LT Jason Peters, que vem de uma ruptura de ligamentos cruzado anterior e medial colateral. Seu substituto Halapoulivaati Vaitai (tente escrever sem jogar no google), está com dificuldades na pré-temporada, apesar de ter sido consistente na metade final de 2017. Apesar dessa dúvida, o restante do grupo de protetores de Wentz é bem sólido, contando com Stefen Wisniewski, Jason Kelce, Brandon Brooks e Lane Johnson.

O dinamismo entre os running backs deve ser a tônica para o ataque, com Jay Ajayi sendo o peão de carga, enquanto Corey Clement e Darren Sproles (retornando de lesão) devem aumentar a dimensão do jogo aéreo. Complementando o jogo de passes curtos e as terceiras descidas, o TE Zach Ertz deve aumentar sua importância como arma do ataque. Alshon Jeffery é o cara responsável por esticar o campo, e Nelson Agholor finalmente contribui em campo após a cirurgia para remoção das raquetes que tinha no lugar das mãos. O nome novo na WR room deve ser Mike Wallace, que é uma espécie de seleção inglesa dos jogadores de NFL: após anos decepcionando quando se esperava protagonismo, finalmente deve produzir alguma coisa no papel de coadjuvante.

Uma defesa consistente

A profundidade de talento nos Eagles é tão grande que atinge o outro lado da bola. E dessa vez é de verdade, não como no lendário Dream Team de 2011. Se no Super Bowl não teve defesa, a unidade contribuiu bastante durante a jornada até lá, garantindo resultados que encaminharam a campanha de 13 vitórias.

Apesar das perdas do DE Vinny Curry, DT Beau Allen e do OLB Mychael Kendricks, o front office de Philly buscou uma estratégia utilizada por nomes como Al Davis e Bill Polian (na época em que sabiam o que estavam fazendo): fortalecer ainda mais a principal virtude da unidade, nesse caso o front seven. Os Eagles trouxeram o NT Haloti Ngata e o DE Michael Bennett, nomes veteranos mas que ainda contribuíram bastante nas últimas temporadas por Lions e Seahawks, respectivamente.

Um pass rush tão forte deve ajudar sobretudo a secundária, que deve ter problemas para encontrar soluções para a posição de nickel após a saída de Patrick Robinson. O segundanista Sidney Jones deve assumir a posição, enquanto Jalen Mills e Ronald Darby devem ser os outside corners. Os safeties Rodney McLeod e Malcolm Jenkins completam a secundária, com papel importante de ajudar sobretudo Jones, que na prática é calouro, já que perdeu quase toda a sua primeira temporada por lesão.

Palpite

No papel, os Eagles tem o melhor elenco da NFL, e ainda pode evoluir. Para um time tão dominante no ano anterior, sempre há a possibilidade de regressão, enquanto as saídas de Frank Reich e John DeFilippo podem ou não ter um impacto na capacidade criativa de Doug Pederson. Na defesa, Jim Schwartz vai para sua terceira temporada como coordenador, reconquistando o prestígio que perdeu quando esteve em Detroit. Schwartz é bom o suficiente para manter o nível da defesa e até mesmo melhorá-la, mesmo se ocorrerem algumas lesões. Mediante esse cenário de continuidade do trabalho vencedor da última temporada, é praticamente impossível não colocar os Eagles como os favoritos a vencerem o título da NFC East, e até mesmo postulantes à homefield advantage. Uma campanha de 12 ou 13 vitórias deve ser suficiente para manter o time como uma das seeds mais altas da conferência. 

Em busca da direção certa

O desempenho do QB Carson Wentz em sua temporada de rookie está longe de ser um primor. Foram 3782 jardas aéreas conquistadas, apenas 16 TDs e 14 INTs, números que são suficientes para colocá-lo, no máximo, próximo da linha da mediocridade. A NFL, felizmente, não é feita apenas de estatísticas. Assistir um QB em ação muitas vezes nos diz muito mais do que analisar friamente os números que ele produziu.

Desde que pisou no gramado para enfrentar o Cleveland Browns, na primeira semana da temporada de 2016, Wentz aparenta ser o que uma franquia espera de um QB. Os erros, é claro, estão lá, como estão para todos os rookie QBs, mas aparentam ter origem mais na inexperiência do que em uma eventual deficiência o que, claro, seria mais difícil de ser corrigido.

Wentz errou bastante em 2016, mas também acertou. O controle e a liderança que ele tinha no ataque do Philadelphia Eagles são raros para um calouro. Sua capacidade de leitura das defesas, antes mesmo do snap, também chama a atenção. O que mostrou em campo comprova o que muitos especialistas diziam antes mesmo do draft: Wentz é um grande amante e estudioso do football, algo semelhante a Peyton Manning, guardadas as devidas proporções.

Matou no peito.wentz

As armas

Não é à toa que o Eagles decidiu que Carson Wentz é o franchise QB que o time aguardava desde a saída de Donavan McNabb e decidiu construir o futuro ao redor dele. O primeiro passo foi reformular o grupo de recebedores, que em 2016 foi um grande problema para o ataque. O time mandou o inconstante Jordan Matthews para o Buffalo Bills em uma troca e contratou os veteranos Alshon Jeffery e Torrey Smith.

Jeffery tem o talento necessário para ser um dos melhores WRs da liga, sem dúvidas, mas precisa permanecer saudável, o que não era rotina em seus tempos de Chicago Bears. Em cinco anos em Chicago, foram apenas duas temporadas sem perder jogos por contusão. Nos dois anos em que ficou saudável, Jeffery recebeu mais de 1000 jardas aéreas e, em 2013, anotou 10 TDs. Seu talento nunca foi questionado e, se conseguir ficar longe das contusões, Alshon deve ser o principal jogador do ataque do Eagles em 2017.

Torrey Smith, outro contratado na free agency, ficou escondido por dois anos no horroroso San Francisco 49ers, mas em seus três anos de Baltimore Ravens mostrou que pode ser um jogador bastante útil e que adiciona o elemento do passe em profundidade ao ataque. Jeffery e Smith são uma versão um pouco mais pobre do que o Tampa Bay Buccaneers tem em Mike Evans e DeSean Jackson, por exemplo, mas têm a capacidade de complementar um ao outro e oferecer opções que Carson Wentz simplesmente não tinha em 2016.

Além de Jeffery e Simith, Wentz terá à disposição o bom TE Zack Ertz, que merece ser mais acionado, e o WR Nelson Agholor que, segundo os repórteres que acompanham o time, é um dos jogadores que mais evoluiu nessa offseason depois de um turbulento 2016.

Com esse grupo de recebedores e com uma linha ofensiva que tem Jason Peters, Jason Kelce e Lane Johnson, considerada a melhor da NFL pelo site Pro Football Focus, o Philadelphia Eagles pode ter um ataque bem interessante em 2017.

O ponto de interrogação

A dúvida fica para o grupo de RBs: Ryan Mathews, principal corredor do time em 2016, foi dispensado. Para o seu lugar, o Eagles contratou LeGarrette Blount, que deve ser responsável pelo trabalho sujo entre os tackles. As informações sobre Blount, porém, não têm sido boas durante o training camp e chegou, inclusive, a surgir a especulação de que ele poderia ser dispensado.

Além de Blount, o Eagles tem o segundo anista Wendell Smallwood, que teve oportunidades no ano passado e não mostrou muito serviço, e o especialista em receber passes e já idoso Darren Sproles. Em teoria, é um grupo que traz habilidades diversas e que pode se complementar bem, mas algo parece que vai dar errado.

As contratações ofensivas feitas pelo Eagles criaram um ataque com mais talento e mais alternativas, portanto é justo esperar uma performance melhor de Wentz e seus alvos em 2017.

O dono da bola.

O copo meio cheio

A defesa do Philadelphia Eagles em 2016 não teve uma performance horrível. A unidade terminou a temporada em 12º em pontos cedidos e 13º em jardas permitidas, por exemplo. Mas as deficiências de defesa são óbvias e talvez a principal delas seja na posição de cornerback.

Na temporada passada, os defensores do Eagles permitiram que os QBs adversários completassem 60% dos passes. Nolan Carroll e Leodis McKelvin deixaram o time, para a felicidade dos torcedores de Philly. O problema é que quem ficou não inspira confiança e talvez isso tenha motivado a troca com o Buffalo Bills, em que o Eagles enviou Jordan Matthews e recebeu o CB Ronald Darby, que chega e automaticamente entra no time titular. O grupo de linebackers também é uma preocupação. Além do dinâmico Jordan Hicks, não há muita certeza.

A força da defesa talvez esteja na linha defensiva. Fletcher Cox é um dos melhores DTs da NFL e vence constantemente as coberturas duplas que recebe. Além de Cox, o Eagles conta com jogadores de pedigree que ainda não conseguiram atingir todo o potencial que têm, como Brandon Graham, escolha de primeiro round do draft de 2010, e Vinny Curry, que assinou uma extensão contratual de 47,5 milhões de dólares que alguns classificam como o pior contrato de um DL da NFL.  Chris Long e Timmy Jernigan chegam via free agency com a expectativa de adicionar elementos a mais no pass rush, que será fundamental para o sucesso da defesa.

Palpite: A evolução, principalmente ofensiva, acontecerá, mas é difícil enxergar esse time ganhando mais do que oito jogos. Um recorde de 8-8 não seria surpreendente. Um 9-7 seria um sucesso absoluto. Mas, como mencionado no início do texto, a NFL não é feita apenas de números. O que o Philadelphia Eagles precisa em 2017 é ter a certeza que encontrou seu QB e que a franquia está no caminho certo.