Posts com a Tag : James White

O fim está próximo (mas não será agora)

A dinâmica entre Tom Brady e Bill Belichick provavelmente nunca mais será vista na história do esporte. Primeiramente, porque o futebol americano é o único esporte coletivo que tem uma posição tão desnivelada em relação às outras: um quarterback tem muito mais impacto no jogo que qualquer camisa 10 ou pitcher.

São raríssimos os casos em que um jogador consegue carregar um time como um QB pode fazê-lo. O único exemplo contemporâneo que vem a mente (além de Yago Pikachu no Vasco) é LeBron James em Cleveland e, mesmo assim, ele só conseguiu vencer a NBA porque tinha uma estrela jogando do seu lado. Em segundo lugar, porque são igualmente raros os técnicos que transcendem o jogo. No futebol, o exemplo mais notável é Alex Ferguson, que você provavelmente já sabe quem é. Porém, em terceiro lugar, e mais improvável ainda, é o alinhamento entre esse jogador e esse técnico: nenhuma parceria entre nomes tão grandes durou tanto tempo quanto a de Brady e Belichick.

LEIA TAMBÉM: Uma dinastia sem fim

Você já deve ter ouvido que chegar ao topo é fácil, o difícil é se manter lá. Não cabe entrar no mérito da primeira máxima, provavelmente uma grande bobagem. Mas se manter no topo é com certeza mais difícil que chegar, porque, para isso, você precisa de tudo aquilo que foi necessário para atingir aquele posto, e por um período de tempo maior. Este ciclo de alternância é muito bem exemplificado pela NFL: muitas vezes o melhor time de uma temporada não consegue nem chegar aos playoffs no ano seguinte. As dinastias, se é que elas existem em outro lugar, não duram muito tempo.

O Patriots é a exceção que confirma essa regra. Nenhuma outra dupla QB HC teve um intervalo de 15 anos entre aparições no Super Bowl, muito menos de vitórias no Super Bowl. Se Brady venceu o Super Bowl em 2001 e 2016, Joe Montana venceu em 1981 e 1989. Se Belichick venceu o Super Bowl em 2001 e 2016, Vince Lombardi venceu a NFL em 1956 e 1967. Nem mesmo outros grandes nomes da história conseguiram tamanha consistência por tanto tempo.

Tudo tem seu fim

Por mais estranho que pareça para o fã brasileiro da NFL, que em sua maioria aprendeu a gostar do esporte no meio da dinastia de New England, um dia nós assistiremos uma liga em que a dinâmica em torno do Patriots – e de toda NFL, por consequência – não será a mesma.

É irreal para alguém como eu pensar nesse cenário. Desde o meu primeiro contato com o futebol americano, em uma noite de finais de Conferência onde um jogador desmaiado chamou minha atenção (na época era um grande fã do UFC – RIP), todas finais da AFC foram jogadas em Foxborough. Porém, essa realidade parece estar finalmente próxima do fim e, se Deus quiser, é o que 2018 nos reserva.

No início deste ano, logo após a temporada regular e antes dos playoffs, a ESPN americana publicou uma extensa matéria mostrando como a relação entre Tom, Bill e Robert Kraft, dono da franquia estava abalada.

Belichick tinha o desejo de deixar o esporte com um legado ainda maior que o que vemos hoje. Além de seus títulos e reconhecimentos, ele queria que os Patriots tivessem o sucesso encaminhado para os anos seguintes – isso incluía, principalmente, estabilidade na posição de quarterback. Para isso, ao longo dos anos, Bill sempre procurava um plano de sucessão para Brady: desde 2008, foram 4 QBs escolhidos nas três primeiras rodadas do draft. Na medida que o tempo se passava, esse “plano B” se mostrava mais importante, afinal não se sabia/sabe até quando Tom continuará jogando em alto nível. Por isso, em 2014, a escolha de Jimmy Garoppolo parecia ser aquela que implantaria a segunda etapa do legado de Bill. Depois de alguns anos aprendendo, Garoppolo poderia ser o  enfim sucessor de Brady.

Porém,  no ano passado, o último do contrato de Jimmy em New England, Tom vinha da maior vitória de sua carreira (um oferecimento Atlanta Falcons). Suas atuações de MVP ainda não ajudavam no plano de sucessão, afinal o Patriots não poderia simplesmente se desfazer de seu maior ídolo  enquanto este ainda jogava em alto nível.

Apesar disso, Belichick ainda queria contar com Jimmy, mesmo que isso significasse carregar dois QBs – e seus altos salários – no roster.  A ideia não agradava Brady, que não escondia de ninguém seus planos de continuar atuando até os seus 40 e tantos anos. Assim, em uma suposta queda de braço interna, o camisa 12 saiu vitorioso, e Garoppolo foi trocado para os 49ers, mesmo contra a vontade de Bill.

Se Tom tinha suas discordâncias com o plano de Belichick, a recíproca era verdadeira. Nos últimos anos, Brady tem se alinhado com Alex Guerrero, uma espécie de personal trainer. Juntos eles têm vendido o “método TB12”, baseado nas crenças de ambos sobre como tratar seu corpo e trabalhar para melhorar o rendimento. Até então esse método tem mostrado sucesso, afinal Tom não apenas ainda apresenta um bom nível de atleticismo, como podemos até mesmo discutir se ele não está melhorando.

O “método TB12” foi, então, levado para dentro da organização Patriots. Porém ocorreram discordâncias quando os processos de Alex Guerrero entraram em colisão com os de Bill. Assim, Guerrero foi proibido de trabalhar dentro da franquia, e sua “consultoria” acabou limitada. Acabou-se criando dois grupos de jogadores: os adeptos de “TB12” e aqueles que seguiam as orientações passadas pelo time. Tudo isso só serviu para inflamar o conflito entre Brady e Belichick.

Tom Brady & Amigos

O Patriots chega em 2018 em meio a esse turbilhão. Com seus dois principais nomes em rota de colisão (mesmo que neguem), a franquia vem enfraquecida para essa que pode ser a última temporada da dupla Tom e Bill.

O ataque terá Rob Gronkowski como principal recebedor, mas, depois dele, o único nome que inspira confiança é Chris Hogan. Julian Edelman, além de suspenso para o início da temporada, vem de lesão grave e pode estar se aproximando do final da carreira. Seu status como jogador é uma incógnita.

A linha ofensiva perdeu Nate Solder para o Giants e a escolha de primeira rodada desse ano Isaiah Wynn por lesão, mas ainda conta com jogadores interessantes. A unidade não deve ser um problema, já que Dante Scarnecchia, o OL Coach, é um verdadeiro mago capaz de tirar leite de pedra.

Por fim, a saída de Dion Lewis não deve gerar um impacto muito grande, já que a estratégia do time gira em torno de revezamento de jogadores na posição. E, mesmo assim, o Patriots já mostrou no passado que não vê problemas em abandonar o jogo corrido e depositar as fichas em Tom Brady.

Bill Belichick & Amigos

A defesa foi o ponto fraco da equipe em 2017, e isso ficou bem claro no Super Bowl. Nick Foles não sofreu pressão nenhuma enquanto deflorava secundária de New England. Para ajudar a resolver as deficiências, Belichick foi atrás de Adrian Clayborn no mercado e ainda realizou trocas por Danny Shelton e Jason McCourty. A linha defensiva reforçada pode ir bem, já que Malcom Brown é bom jogador e Trey Flowers é (discutivelmente) um dos 10 melhores defensores da NFL.

A secundária conta com nomes interessantes, como os irmãos McCourty, Eric Rowe e Stephon Gilmore. Se esses dois forem mais consistentes esse ano, vai ser difícil passar a bola contra o Patriots. Por fim, a maior fragilidade do grupo está no corpo de LBs. Kyle Van Noy e Elandon Roberts são quebra-galhos de grife, e a responsabilidade fica toda nos ombros de Dont’a Hightower. Quando ele se machucar, a tendência é o buraco ser tão grande que sugará toda a defesa junto.

Palpite: Apesar das desavenças em New England, ainda tem bambu para uma última flecha. A AFC East ainda é fraca e permitirá que o time chegue aos playoffs com um bye. Talvez não sobreviva dentro da AFC, mas, se chegar de novo no Super Bowl, Tom Brady terá que fazer mágica pra enfrentar um time certamente mais forte que o dele. Temos que aproveitar: talvez esse seja o último ano da dinastia.

Quatro meses esperando janeiro

Já estamos cansados de repetir que Tom Brady ganhará pela 14ª vez a AFC East. Quando inevitavelmente chegar a hora dos playoffs, também comentaremos com desgosto sobre como, mesmo tendo sofrido com duas ou três lesões importantes (sério, pode ser literalmente qualquer um), New England ainda deu um jeito de não jogar a primeira rodada da fase final. Assim, os Pats chegarão descansados e bem preparados na semifinal para enfrentar um Steelers ou Titans meio-baleados. Porque, bom, essa é a vida na NFL.

Para nos deixar ainda mais desgraçados da cabeça, craque, desses transcendentais que realmente se destacarão na multidão daqui a 30 anos, o time só tem um: Rob Gronkowski. Tom Brady, o maior QB de todos os tempos, é um grande executor das tarefas que lhe são designadas (o que, obviamente, cria vitórias) – mas basta colocá-lo lado a lado das peripécias de Aaron Rodgers ou até Ben Roethlisberger e veremos que ele não é tudo isso. Lembre-se: de acordo com o próprio sr. Bünchen, o MVP do último Super Bowl foi James White.

Um homem do povo.

De certa forma (e sabemos que vocês curtem essas comparações), olhar o depth chart dos Patriots é bem parecido com estudar a escalação do Corinthians e não entender que caralhos esse time está fazendo onde está. Cássio e Rodriguinho, por exemplo, só não saíram do time para sempre porque seus substitutos eram piores ainda (aguarde a coleção de dispensados nesse elenco patriota). Jô pode ser funcional, mas duvido que seja a primeira opção de qualquer pessoa para a posição (e aqui ficam comparados Jô com Brady ou Edelman, o que for menos ofensivo). E, sério, Romero? Ainda?

Um ataque reforçado

Falando em inúteis, já que o craque Gronkowski tem problemas sérios em manter-se saudável (última vez em que ele esteve em campo os 16 jogos foi em 2011), os Patriots se reforçaram com Dwayne Allen que, draftado no mesmo ano, sempre esteve em uma disputa constante com Coby Fleener sobre quem conseguiria ser o mais inútil na posição de tight end em Indianapolis. Porém, ele recebeu seis TDs em 2016 e oito em 2014, então podemos esperá-lo como uma presença interessante na redzone.

E sobre reforços de verdade, enquanto a torcida dos Patriots acreditava que Julian Edelman era um dos melhores WRs da liga (repetimos: não é. E não venham com aquela catch do Super Bowl), Belichick se mexeu e foi atrás da melhor opção para Tom Brady desde Randy Moss: por uma escolha de primeiro round, o time contratou Brandin Cooks.

Apesar das nossas ressalvas pessoais (não gostamos dele, basicamente e não precisamos explicar os motivos), e de provavelmente ser o terceiro melhor WR em New Orleans, Cooks produziu mais de 1100 jardas nas duas últimas temporadas. Melhor ainda: ele representa uma ameaça as defesas adversárias em passes longos, o que abrirá espaço para as jogadas intermediárias com o próprio Edelman, Chris Hogan e um dos 300 mil RBs da equipe.

Sim, porque empenhado em encontrar a combinação ideal, o time tem 10 jogadores para a posição no elenco. A opção mais interessante ainda deverá ser Dion Lewis, ao menos durante os seis ou oito jogos em que ele participará antes (ou depois) de se machucar. As novas contratações Rex Burkhead e Mike Gillislee (respire fundo e repita comigo: QUEM? 1116 jardas, os dois somados em 2016) deverão brigar por espaço com James White (139 jardas, 3 TDs em 20 toques no Super Bowl, incluindo 14 recepções) – o primeiro mais como receiver, o segundo como trombador. Entretanto, pensando no fantasy, lembre: lá pela 9ª rodada, o RB titular dos Patriots será alguém que hoje provavelmente é o quarto reserva em Dallas ou Minnesota.

Esse dia foi louco.

Quanto a linha ofensiva, sério, torcedor dos Patriots, não tem com o que se preocupar. Os inexperientes, porém seguros, do interior da linha de 2016 estão um ano mais maduros, e enquanto Nate Solder e Marcus Cannon se mantiverem saudáveis, os corredores terão espaço e Brady terá tempo.

Não é delicioso esquecer que Jimmy Garoppolo existe?

É sim, bastante. Se deus quiser ele ficará no banco sem dar as caras esse ano (porque ninguém aguenta mais historinhas Jimmy x Brady sem sentido). Em 2018, Garoppolo será problema do texto sobre algum outro time, que pagará 400 bilhões de dólares para descobrir que ele nem é tudo isso (oi, Jaguars, estamos olhando para vocês).

A magia do tio Bill

Talvez o leitor se deixe enganar por esse ataque, seria compreensível. Mas as coisas que acontecem nessa defesa só dão certo porque, bom, têm que dar. A magia negra obriga que funcionem.

O S Patrick Chung, por exemplo, é a cara do que estamos falando: absolutamente inútil quando saiu de Boston, bastou voltar para formar uma bela dupla com Devin McCourty. O undrafted Malcolm Butler, que surgiu para o mundo no Super Bowl XLIX com a interceptação mais inesperada da história, se tornou um CB mais do que sólido – mas não o suficiente para receber um grande contrato do tio Bill.

Aproveitando-se do espaço no cap, New England roubou Stephon Gilmore do rival Buffalo com um mega-contrato de 5 anos e 65 milhões (mesmo que, pra gente, ele não está nem entre os 15 melhores Corners da NFL); para completar a secundária, NE conta também com o retorno de Eric Rowe, que deve trabalhar principalmente no slot.

No front seven, ano passado o time deixou ir (na verdade, trocou) seus até então dois melhores jogadores: Chandler Jones (pass rusher) e Jamie Collins (linebacker puro). Somente Dont’a Hightower (aparente crush de Belichick) teve seu contrato renovado: 35,5 milhões em 4 anos. Como LB típico para marcar a corrida, o time trouxe o veterano David Harris (dispensado pelo Jets!), que mesmo aos 33 anos se sentirá renovado saindo de um time medíocre para sonhar com um Super Bowl no maior rival.

Se juntas já causa, imagina juntas.

A linha defensiva sim deveria ser motivo para preocupação – supondo que fosse um time normal. Alan Branch e Malcom Brown até deverão manter a solidez no interior, e a escolha de quarta rodada de 2015, Trey Flowers, produziu sete sacks em apenas oito partidas como titular em 2016.

Entretanto, a grande aposta para correr atrás dos QBs adversários fica por conta de Kony Ealy, que mesmo tendo muito hype no draft de 2014, acabou não conseguindo se estabelecer como titular em Carolina (com exceção do seu desempenho nos playoffs de 2015, na verdade, ele tem sido bem merd*) – fica a curiosidade pelo que, em seu último ano de contrato rookie, as mãos de Bill Belichick e Matt Patricia conseguirão tirar dele.

Previsão: 13-3, para ser humilde. Brady deverá começar voando, mas administrará o braço, estratégias e um tropeço em Tampa é bem possível. Com nove vitórias até a décima rodada, a divisão já estará garantida antes mesmo do time encontrar-se com Miami ou Buffalo. Jogar em Denver, no México (contra Oakland) ou em Pittsburgh não deverão ser tarefas fáceis, mas obter duas vitórias nesses três jogos é possível, o que até permitiria que Jimmy Garoppolo jogasse bem as duas últimas semanas (em casa contra Bills e Jets) para deixar Brady fresquinho. Polêmica para os playoffs!