Posts com a Tag : Green Bay Packers

O primeiro jogo do ano – e do resto de nossas vidas

Parecia que a temporada do Green Bay Packers duraria pouco mais de 20 minutos. Rodgers poderia ter sofrido uma séria lesão no joelho mesmo antes da metade do segundo quarto do primeiro SNF e, de repente, talvez estivéssemos vendo um dos maiores QBs de sua geração desperdiçar mais um ano de seu auge: quando Aaron Rodgers se dirigiu aos vestiários, qualquer apaixonado por football prendeu o ar e pensou “de novo”? E, bem, a expressão do quarterback convergia com aquilo estávamos pensando.

Os próximos atos do roteiro indicavam o pior cenário possível para os torcedores do Packers: Green Bay seria triturado logo na semana #1, contra seu maior maior rival. Khalil Mack fazia o backup, DeShone Kizer, parecer uma criança indefesa assistindo a um filme de terror e, bem, ali mesmo já era claro que seria um longo ano se Kizer fosse o titular nas próximas semanas.

LEIA TAMBÉM: O primeiro dia após a neve

Mack, ao respirar, MOVIMENTAVA O AR e transformava Kizer em um atleta amador (talvez ele seja isso aí mesmo e errado é quem espera algo diferente). Khalil logo conseguiu um sack, uma interceptação, forçou um fumble e anotou um touchdown em poucos minutos ou tudo no mesmo lance (se você estivesse dopado pelo medo, seria incapaz de distinguir): em pouco tempo, Chicago abria 17 pontos de vantagem no Lambeau Field pela primeira vez desde 1948.

Restava a nós, meros mortais, amaldiçoar o front office de Green Bay eternamente por ser incapaz de cercar Aaron por algum talento capaz de lhe auxiliar, e culpar Mike McCarthy (essa é fácil) por todos os seus crimes inafiançáveis contra o esporte (em breve uma lista própria sobre o tema).

Você já viu o que McCarthy é “capaz” de fazer com um time quando não tem um HoF QB ao seu dispor, e ninguém em sã consciência teria prazer em assistir uma continuação deste filme.

Um quase (não) retorno

Quando Aaron retornou no terceiro quarto, os Bears logo abriram 20 pontos de frente – e o quarterback claramente não estava saudável: ele se protegia, tentava permanecer dentro do pocket (o equivalente a uma tentativa de suicídio quando consideramos a OL de Green Bay) e alterava seu posicionamento para evitar sobrecarregar a perna esquerda.

Mas como o próprio Aaron Rodgers afirmaria na entrevista pós-jogo, para retornar a uma partida, basta “fazer algumas boas jogadas” – facilita, claro, quando se é Aaron Rodgers, e não DeShone Kizer. Não estamos falando de ciência aeroespacial aqui, afinal. 

Algumas jogadas depois, Aaron completou cinco passes em um drive, que terminaria com um FG de Mason Crosby; a vantagem do Bears voltava para 17 pontos, mas agora restavam apenas 15 minutos no relógio. Não era uma cenário necessariamente tranquilo. 

Mas quando o Packers recebeu a bola novamente, já no último período, Rodgers precisou de apenas seis jogadas – em quatro delas, ele encontrou Geronimo Allison para, na última delas, conseguir um touchdown de 39 jardas em que a bola FLUTOU EM UMA PARÁBOLA CELESTIAL, reduzindo o déficit para apenas 10 pontos. Convenhamos: ali, você já sabia o que estava por vir.

Um novo three-and-out de Chicago deu mais uma injeção de ADRENALINA ao Packers que, aproveitou a chance com uma conexão de 51 jardas para Davante Adams – que, três jogadas depois, anotaria o TD. Naquela altura, era evidente o colapso mental que rondava o Bears. Mesmo após marchar quase um campo inteiro, o time conseguiu apenas um FG, insuficiente para selar a vitória – a vantagem no placar era de apenas 6 pontos. 

Segundas chances

Pouco menos de três minutos e uma jogada que poderiam ter selado a partida. Logo na primeira tentativa, Kyle Fuller poderia ter interceptado Rodgers, mas dropou a pelota, em um lance aparentemente fácil para um atleta de seu nível.

Contra Aaron Rodgers, tudo que você pode pedir aos céus é uma chance para terminar a partida. Contra Aaron Rodgers, tudo que você não pode ceder, é uma segunda chance: duas jogadas depois, ele encontrou Randall Cobb no meio do campo – e Randall correu 75 jardas para a glória.

Cobb é inegavelmente quem tem mais méritos no sucesso dessa jogada específica – e também inegavelmente o sistema defensivo do Bears teve uma crise de caibrã mental naqueles segundos. Mas, mesmo que tentemos negar, desde o passe para Geronimo Alisson, um lançamento que nenhum outro ser humano poderia fazer, sabíamos o que os próximos minutos reservavam: após um início com apenas três passes completados em sete tentativas e uma lesão, Rodgers terminou a partida com 20 passes (em 30 tentados), para 286 jardas e três TDs – todos no último período.

Algo possível apenas para alguém capaz de fazer uma torcida inteira acreditar graças ao simples fato de estar em campo.

O outro lado

A então improvável vitória de Green Bay também é fruto de uma série de decisões no mínimo questionáveis de um HC em sua primeira temporada e um QB de 24 anos e apenas 13 partidas como profissional (além de uma dúzia delas em sua carreira universitária).

Durante a primeira etapa (e aqui se inclui o período com Rodgers em campo), o Bears expôs todas as fraquezas do sistema defensivo de Green Bay, tripudiando daquilo que parecia algo formado por torcedores sorteados antes da partida para trajar uniformes e entrar em campo: os RBs Tarik Cohen e Jordan Howard alinhavam no backfield, o OT Charles Leno abria espaços como se estivesse DANÇANDO BALÉ e Clay Matthews tinha como estatística a incrível média de “uma vergonha” por snap. 

Após anos sofrendo nas mãos de John Fox, Chicago enfim tinha um sistema ofensivo criativo e moderno. No fundo, o Packers só chegou com alguma chance ao terceiro período, porque o LB Blake Martinez era um pequeno sopro de dignidade dentre os “defensores”. Sim, Blake Martinez era o melhor jogador de Green Bay em campo. Leia novamente até acreditar.

VEJA TAMBÉM: Chicago Bears: o respeito voltou

Mas com a mesma velocidade que essa sensação de que um novo ataque havia desembarcado em Illinois chegou, ela desapareceu. Durante todo o segundo tempo, Trubisky se limitou a procurar Cohen e Howard (Allen Robinson e Taylor Gabriel eram meros figurantes), sua confiança diminuiu e algumas oportunidades com recebedores livres foram desperdiçadas.

Claro, não se pode colocar toda a conta da derrota no jovem QB, e sua atuação nos dois últimos períodos tornam a decisão de Matt Nagy em uma jogada crucial, capaz de cravar um punhal em Green Bay, ainda mais questionável: em uma 3&1, com pouco menos de três minutos restantes, na linha de 14 jardas do campo de ataque, Chicago tentou um passe para Anthony Miller que acabou incompleto e resultou em um FG – naquela altura, o jogo estava 23 a 17 e, bem, já falamos sobre como essa história termina.

Nesse instante, a defesa do Bears já não era a mesma: Mack foi incrível nos dois primeiros quartos, mas esperar que ele mantivesse o mesmo nível por 60 minutos com apenas uma semana de treinos seria irreal – tanto que nos últimos períodos ele passou uma quantidade significativa de snaps na linha lateral e, quando esteve em campo, encontrou dificuldades para vencer o RT Byan Bulaga (que havia tido uma atuação trágica antes do intervalo).

Mesmo assim é evidente que melhores dias para a defesa do Bears, com Mack e Roquan Smith cada vez mais entrosados, são mera questão de tempo: tudo que aconteceu em Wisconsin são ótimos sinais a se apegar, sobretudo para uma franquia que precisava desesperadamente de novas perspectivas.

LEIA MAIS: Jay Cutler, você não sabe jogar!

E não há nada de errado em se agarrar ao “se”: “se” Fuller não tivesse dropado uma interceptação fácil, “se” Howard tivesse corrido aquela maldita jarda ou “se” Mitch enxergasse WRs livres, o Bears teria saído com a vitória.

Claro, não se vive de “se” (já diria o ditado: “se estivesse um rio aqui, eu estaria pescando, e não escrevendo merda“), mas há diversas novas possibilidades que valem a pena ter em conta quando olharmos os próximos passos do Chicago Bears em 2018.

Na primeira partida, porém, uma festa que parecia certa foi estragada. Mas foi estragada por uma dos melhores jogadores da história. Não há motivos para desespero: os dias de Chicago na NFC North podem (e devem) chegar em breve. Desde que, claro, Aaron Rodgers não consiga se apoiar em pé no Lambeau Field.

A dicotomia em forma de time

As franquias da NFL podem ser explicadas pela seguinte relação antagônica: há aqueles times que só precisam de um QB para se tornarem competitivos e outros que possuem seu signal-caller, mas pecam em todo o resto. O Green Bay Packers é um exemplo da segunda parte desse fenômeno. Após anos com Brett Favre no comando, sucedidos por anos de Aaron Rodgers, a franquia é daquelas raras situações de estabilidade longeva na posição de quarterback que só conseguimos ver se repetir com o Indianapolis Colts (nesse caso mais na cagada mesmo). 

Ao contrário do coirmão da AFC, os Packers já estão na etapa final de seu segundo first ballot hall of famer QB seguido, e Rodgers possui só um anel de campeão nos dedos para mostrar aos coleguinhas. Após o título do Super Bowl XLV, Green Bay bateu na trave do Grande Jogo duas vezes nas últimas quatro temporadas, e é urgente que o time consiga chegar lá novamente, já que dificilmente conseguirá dar sequência ao alto nível de seus quarterbacks quando chegar a hora de Aaron curtir a aposentadoria.

Brinquedos novos no ataque

É perceptível que é impossível desassociar as pretensões dos Packers à disponibilidade de Aaron Rodgers em campo. O QB mostrou por vezes e vezes que se tiver a última bola do jogo, o torcedor de Wisconsin já pode ir comemorando por que a vitória é certa (pergunte para um amigo torcedor dos Cowboys. Só por diversão mesmo). Ao mesmo tempo que, em caso de lesão, a temporada do time está acabada – o que surpreendeu a diretoria do site, que pagou para ver Rodgers e levou uma atuação de gala de Brett Hundley.

Quase como uma maldição que assombra os QBs de elite (pense em Joe Flacco, por exemplo) da NFL, Rodgers é quase que obrigado a transformar jogadores medianos em peças funcionais de seu ataque. Basicamente, tirar leite de pedra. E assim será mais uma vez na temporada de 2018. Os Packers dispensaram Jordy Nelson e estão colocando Randall Cobb no trade block (mesmo que aleguem não ser verdade). Jeff Janis e Richard Rodgers também saíram, apesar de serem nomes de final de rotação.

Como reposição, chegaram os TEs Jimmy Graham e Marcedes Lewis, sendo que essas foram as únicas adições relevantes para o ataque. Calouros de ataque, entretanto, apenas os recebedores J’Mon Moore (133ª escolha) e Equanimeous St. Brown, que pode até não vingar, mas já é um dos melhores nomes da liga. No jogo corrido, os Packers precisam lidar com o comitê composto por Jamaal Williams, Aaron Jones e Ty Montgomery, nenhum deles excepcional de fato.

A linha ofensiva tem bons nomes em David Bakhtiari e Bryan Bulaga, mas após as saídas de Josh Sitton e TJ Lang vem tendo problemas com a parte interior. O center Corey Linsley parece estar completamente recuperado, enquanto Lane Taylor e Justin McCray completam o grupo titular.

Taticamente, é inegável que o ataque é dependente da capacidade de Rodgers, mas até aí o leitor deve estar pensando “até eu” (e todos os outros 31 times seriam). O trabalho de Mike McCarthy e Joe Philbin (coordenador ofensivo) aqui visivelmente é integrar melhor o jogo corrido, e encontrar um RB principal de facto, mesmo com a possível deficiência no interior da linha ofensiva.

Em relação aos recebedores, por mais que queiramos divagar sobre a contribuição de cada peça, a verdade é que Aaron Rodgers os fará produzir mais que o normal, a menos que o jogador seja incrivelmente ruim. Nesse caso, destaque para Jimmy Graham, cuja principal característica é jogar em times que tenham bons QBs, e será fator preponderante para o ataque dentro da redzone

Defesa em reformulação

Os Packers tiveram Don Capers por anos como coordenador defensivo. Como mostramos nessa análise tática do ano passado, o trabalho do coordenador por anos funcionou, mas caiu obsoleto nas últimas temporadas. A conta chegou e Capers acabou demitido, e para seu lugar foi trazido Mike Pettine. O treinador estava sem trabalho na liga desde a passagem como HC dos Browns, terminada em 2015.

Pettine foi formado sob a árvore do lendário Brian Billick, técnico dos Ravens no início da década de 2000, e teve seus últimos dois trabalhos como coordenador defensivo muito bons, nos Jets (2009 a 2012) e nos Bills (2013). Seu esquema é baseado em um front com jogadores com biótipo de 3-4 baseado em leituras de esquemas 4-3, uma defesa versátil, como disse o próprio a ser anunciado.

A defesa de Mike Pettine é focada no pass rush, e apresenta como principais formações os fronts do tipo sink, odd e over. Teorias de defesa típicas do 4-3, mas que Pettine aplica com atletas de biótipo de 3-4. Essas formações facilitam a aplicação do pacote nickel, mantendo a responsabilidade dos jogadores aos gaps. Os atletas da linha com “mão na terra” alinham-se em techs amplas, enquanto os linebackers cobrem os espaços internos. No front over, o pass rusher vai alinhar em frente ao tight end adversário, e essa responsabilidade será dividida entre Clay Matthews e Nick Perry de acordo com a situação jarda/descida.

Como dito anteriormente, no esquema de Pettine os DEs e DT alinham-se em techs amplas. Nesse caso, o objetivo é dobrar o rush nos OTs, aproveitando-se da capacidade física de bend dos atletas da defesa. Para isso, Mike Daniels e a nova contratação Muhammad Wilkerson serão essenciais para gerar esse cenário de double team, forçando os adversários a tirar TEs e RBs de execução de rotas.

Nota do editor: Eu também pulei essa parte.

Em questão de curva de aprendizado, o leitor deve estar se perguntando se um sistema assim não é complexo o suficiente a ponto de gerar o mesmo contragolpe do fire zone blitz de Don Capers. A resposta é sim, de certa forma. Porém, com a diferença de que, à princípio, o objetivo de Pettine é gerar interceptações de pressão, enquanto Capers tentava criar confusão na leitura do QB a reconhecer a secundária pré e pós-snap. De qualquer forma, a princípio, a chegada do coordenador defensivo é excelente para facilitar a vida da secundária, que por vezes nos últimos anos esteve entre as piores da liga, mas agora terá vida mais fácil em função do novo modelo de jogo.

Palpite

Por mais que haja a promessa de melhora defensiva, a temporada dos Packers ainda inevitavelmente depende da saúde de Aaron Rodgers. Se o QB permanecer saudável, os Packers são favoritos a vencer a NFC North, pendendo o desempenho contra a defesa dos Vikings. Devido a esse confronto, a campanha do time deve variar entre as 10 e 12 vitórias. Depois disso, seja o que Deus quiser.

Análise Tática #19 – Semana #13: Coberturas Falhas

A análise tática volta essa semana trazendo aquele olhar diferenciado sobre o que de melhor aconteceu na rodada. E como nosso dever é SEMPRE trazer algo diferente para o público, essa semana vamos falar sobre secundárias, mais precisamente quando estas unidades não fazem corretamente seus trabalhos.

Existem dois tipos básicos de cobertura utilizados no futebol americano: a cobertura individual e em zona. Você provavelmente já sabe o papel dos jogadores, mas o que talvez não saiba é que em cada uma delas, a comunicação entre os quatro ou cinco defensive backs tem aspectos diferentes. A marcação individual requer que o jogador acompanhe o adversário e tente reconhecer o momento em que chega a bola ao observar a posição de seu corpo em relação à origem da jogada. A comunicação entre os atletas da defesa é basicamente identificar seus assignments no início da jogada e tentar manter a marcação com base no atleticismo.

A cobertura em zona é mais complexa. Partes do campo são divididas entre os jogadores, que observam o lance voltados ao quarterback, com o objetivo básico de evitar que a recepção aconteça através do contato físico no momento em que o recebedor tenta guardar a bola. Cover 0, Cover 1, Cover 2, Cover 2 Man, Cover 3, Cover 4, Quarters. Você leitor, já deve ter lido essesv nomes ou aqui na coluna ou em seus playbooks do Madden (paga nóis, EA).

A grande dificuldade da marcação em zona é a necessidade dos defensive backs serem capazes de reconhecer o padrão de rotas do adversário e terem a reação necessária de atacar o ponto do passe. Essa exigência de inteligência tática mais avançada, geralmente tende a problemas de comunicação entre os atletas. O principal problema em uma marcação em zona é que não é possível cobrir todos os pontos do campo e as janelas de passe geralmente se abrem no momento em que a rota do recebedor transita entre as responsabilidades dos defensores. Bons quarterbacks geralmente se aproveitam dessa fragilidade para conectar os passes (Tom Brady no segundo tempo Super Bowl LI abusou disso).

Leva-se algum tempo para construir a sintonia necessária para que secundárias tenham um entrosamento completo de forma a executar um sistema em zona com perfeição. A Legion of Boom em seus tempos áureos era uma unidade respeitável principalmente pelo fato de possuir bons atletas que se completavam. Defesas montadas por Bill Belichick também tiveram como característica a capacidade de execução das jogadas através de comunicação entre defensores. Como na NFL há mais times ruins (ou mal treinados) que bons, geralmente observamos atletas que não conseguem reconhecer suas responsabilidades em sistemas em zona e permitem separações suficientes para recebedores.

Como facilitar nunca é a solução para nada, é mais comum hoje em dia vermos defesas armadas em nickel combinando zona e marcação individual na mesma jogada. O defensive back a mais em campo geralmente aumenta a complexidade, e por consequência, a taxa de probabilidade de sucesso. Apesar disso, como o futebol americano a nível de NFL é um jogo de passes, tornar a formação nickel como defesa-base é uma necessidade para as franquias, mesmo desafiando os fundamentos de Processamento e Estatística.

Aproveitando o esquema de Cover 2 do Inside the Pylon, vamos desenhar em cima dele como exemplo uma combinação de rotas que explore o espaço entre os dois safeties. Se você costuma ler a coluna tática, viu que exploramos jogadas em semanas anteriores contra essa cobertura. Utilizando uma variação do conceito smash, aproveitamos para fazer com que o recebedor Y esteja livre no meio do campo, um clássico Cover 2 beater.

Como esse é um conceito voltado para vencer a Cover 2, repare que ele explorar os flats com o running back e o recebedor X, enquanto o H e o Z executam rotas corner, afastando os safeties. Se o TE for capaz de vencer o Middle Linebacker na velocidade, receberá a bola no meio do campo. Isso geralmente ocorrerá por que as zonas desenhadas em azul não têm responsabilidades com o fundo do campo, e ao ultrapassar essa faixa, a tarefa é dos safeties. Observe agora, o cover 2 dos Packers sendo destruído exatamente por um TE no meio do campo.

A zone blitz deveria confundir os adversários, não os jogadores do próprio time.

Se você leu o texto sobre a defesa de Don Capers, viu que a secundária rotaciona de forma a compensar a blitz. Aqui, provavelmente Jameis Winston estudou o tape (o mínimo que se espera de um QB de NFL), além da sua absurda confiança em Cameron Brate. A defesa dos Packers no lance rotaciona de cover 2 para cover 1 e retornando ao ponto inicial antes do snap, de forma a confundir o QB.

Fixando no momento em que o passe acontece, podemos visualizar o Cover 2 perfeitamente desenhado, bem como a janela de recepção de Cameron Brate sendo construída. A jogada terminou em Touchdown, para desespero da torcida cabeça-de-queijo. Zone blitz é um sistema complexo, e o que podemos observar aqui é o guerreiro #35 completamente perdido quanto a sua tarefa no lance, e de repente apareceu um jogador melhor atleticamente para ele dar conta.

Em um texto que de certa forma traz um aparato geral da rodada, eu não poderia deixar passar o fato de que a defesa dos Colts cedeu 309 jardas e 2 TDs a Blake Bortles em 26 passes completos de 35 tentativas, o que forma um rating de 119,8. Aliás, fazer QBs medíocres jogarem que nem Joe Montana é uma especialidade da unidade treinada por Chuck Pagano e Ted Monachino. Caso leitor não saiba, a defesa de Indianapolis é a 28ª da temporada segundo a ESPN, totalizando 4560 jardas cedidas ao adversário em 2017. Evidentemente, esse número fora de contexto não é o suficiente para descrever a RUINDADE desse bando de incapazes comandado por Chuck Pagano, o incapaz-maior, então observemos um dos lances da partida do último domingo em Jacksonville.

Uma jogada que mistura os conceitos smash e levels, entretanto, a leitura de Bortles será Dede Westbrook alinhado como Split End no lado superior da tela. O WR do Jaguars (franquia GIGANTE E ENORME, por sinal) executa uma rota que combina o post e corner, aproveitando o espaço entre corner e safety visto na imagem do início desse texto. Os Colts mostram um Cover 2 Man, utilizando de Press Coverage com os corners, para tentar tirar o tempo das rotas. Como o Colts é o Colts, plano de jogo mal treinado, montado e executado, isso não dá certo, permitindo a recepção de Westbrook. Para aumentar os requintes de crueldade da jogada, Bortles ainda demonstra toda a sua PRESENÇA DE POCKET para andar para frente, plantar os pés e executar um passe gracioso.

Agora indo ao OUTRO LADO DA MOEDA, observemos a defesa dos Jaguars permitir um grande espaço para TY Hilton no único TD dos Colts na mesma partida. 4th & 2 e os Jaguars cedem um passe de 40 jardas para touchdown. Acompanhe no gif o desenvolvimento da rota de TY Hilton.

“Deixa que eu deixo.”

Observe que em um determinado ponto, dois jogadores dos Jaguars entram em indecisão sobre quem é o responsável de continuar com o camisa 13 dos Colts no lance. Como Eugene é um dos WRs mais ágeis da liga, esse intervalo é o suficiente para que ele se desprenda e faça a recepção. Como apenas esse erro não é o suficiente para os Jaguars a cereja do bolo no lance é a pior reação de safety no lance, que tinha um excelente ângulo para o tackle e simplesmente decidiu NÃO IR na jogada.

O primeiro dia após a neve

No interior do Wisconsin, assim como em qualquer canto dos EUA, dizem os mais antigos que o pior dia é aquele após a neve. E se há algo que não devemos nunca desconsiderar é a sabedoria popular. No trajeto entre Milwaukee e Madison, no sábado, a previsão do tempo indicava neve no caminho – e, claro, ela estava ali.

Como um bom lugar para guardar na memória o Camp Randall merece estar lá; são 100 anos de história completados há poucos dias, guardados pela proximidade com a catedral da Universidade de Wisconsin. Os Badgers aproveitam essa atmosfera, e preenchem cada detalhe de sua casa com seus feitos, dos títulos da Big Ten às conquistas no Rose Bowl.

A banda, claro, honra as tradições e, embora mais famosa por suas celebrações pós-jogo, mantendo o público no Camp Randall por uma hora ou mais após o apito final, faz, como quase todas as universidades americanas uma grande performance no intervalo. Mas é só em Wisconsin você poderá encontrar o “5th quarter”.

Há, também, outra tradição, mas essa não tão conhecida – ao menos se você tiver a sorte de passar por Madison em um sábado gelado de novembro: é ali que acontece o que os estudantes chamam de “On Wisconsin Finale”, um coro de 80 mil pessoas no intervalo da última partida em casa. A rotina permanece basicamente a mesma desde 1976: durante a canção, a banda passa de uma série de linhas laterais até fluir naturalmente para uma formação que revela a frase “On Wis”.

Já dentro de campo, o Badgers não deu chance para Michigan, e venceu por 24 a 10 sem maiores problemas. Ao final do dia, foi um bom sábado em Wisconsin – mas por favor, não esqueça da sabedoria popular.

Universitário é doido em qualquer lugar.

Brett Hundley e a profanação de um tempo sagrado

Em Green Bay o sol serve como uma espécie de alento para um inverno que parece durar o ano todo; mas aqueles que se encontram nos arredores do Lambeau Field pouco ou nada parecem se importar. com a temperatura Já na entrada do estádio há um átrio enorme, que mais lembra a entrada de uma catedral: a fachada de vidro, com cinco ou seis andares, parece mais apropriada para uma igreja do que para um estádio de football – não que ambos não possam coexistir.

Logo na entrada, vemos flâmulas com os nomes daqueles que ajudaram a levar Green Bay para o mundo: Don Hutson, Tony Cadeo, Bart Starr, Ray Nitschke, Reggie White e Brett Favre. E, embora você talvez duvide, o carinho por White é maior do que o reservado para Favre. A explicação é lógica: “Brett foi trazido até nós, Reggie nos escolheu”, diz um senhor na fileira acima, explicando a história de seu time para turistas ingleses que, assim como nós, estavam no Lambeau pela primeira vez.

A esperança, ao menos para aqueles mais experientes, como o senhor daquela fileira logo acima, durou cerca de dois minutos e um drive, até Brett Hundley ser interceptado na endzone após dois bons passes – no jogo, o QB ainda seria interceptado outras duas vezes, e sofreria um fumble.

Em nome de Favre e White (e outros). Amém.

Quebrando uma clavícula (e a esperança)

No instante em que o LB Anthony Barr, do Minnesota Vikings, correu em direção a Aaron Rodgers durante a partida da week #6, ele não atingiu apenas a clavícula direita do QB. Ele também partiu todos os sonhos de Green Bay. Naquele domingo ainda havia um certo otimismo de que Aaron poderia retornar em meados de dezembro, mas agora o enredo já indica que não há motivo para vê-lo em campo nesta temporada: o Packers é uma equipe morta, e no fundo todos já sabíamos disso no instante da lesão, embora os atletas tentassem negar.

“Basta que todos façam seu trabalho da melhor maneira possível. E quando isso acontece, grandes coisas podem acontecer”, disse Mike Daniels antes da derrota diante do Lions, segundo jogo sem seu QB titular. “Temos um grupo confiante”, completou o S Morgan Burnett. Frases que nem o mais ingênuo cabeça-de-queijo cogitou acreditar.

Não há vida sem Aaron Rodgers

4th & 8, menos de um minuto no relógio. Rodgers encontra Randall Cobb livre em algum ponto do gramado. Dois anos atrás, milagres já não eram incomuns para Aaron. Ok, o lance famoso como “The Miracle in Motown” ou mesmo a Hail Mary que acabou em nada contra Arizona talvez estejam mais frescos na memória – e também talvez sejam mais impactantes -, mas ali, no Soldier Field, provavelmente foi a primeira vez que muitos pensaram: “Rodgers é o melhor quarterback que já vi”.

E entenda que não queremos dizer que ele é o maior QB de todos os tempos – esta é uma conversa diferente (e, ao nosso ver, entediante) que envolve variáveis subjetivas e que não temos controle algum, então a deixemos para mais tarde: apreciar o jogo de Aaron Rodgers agora não é algo sobre o número de conquistas ou influência dos talentos que o cercam; é algo sobre viver momentos individuais, quase de maneira isolada.

E leve em consideração que estamos escrevendo isso em Green Bay, onde os Packers são parte de tudo: cada estrada tem um outdoor, e seja na propaganda de um banco ou de clínicas de saúde, Aaron Rodgers e os Packers estão ali. Aliás, Cobb e Jordy Nelson nos receberam na cidade.

Aaron, por exemplo, é reverenciado em cada esquina, e é fácil entender os motivos: por mais de 15 anos, Green Bay teve um Hall of Fame QB, que quebrou recordes, “traiu” a cidade e foi “perdoado” – como toda boa história de amor precisa terminar. Mas de alguma forma, seu substituto é ainda melhor.

A lesão de Rodgers, porém, escancarou a realidade: o Packers tem, há anos, um time medíocre, que tem suas muitas falhas escondidas pelo talento do quarterback. E para ser uma ameaça, o Packers precisa de Aaron Rodgers – e isso não tem relação alguma com números ou com a falta de coordenação motora de Brett Hundley: está em jogadas como aquela em que Aaron encontrou Davante Adams contra o Jaguars no jogo de abertura da temporada passada ou na calma com que fez a bola chegar em Jared Cook nos playoffs da mesma temporada.

A coisa mais triste que alguém já viu em um campo de football veste a camisa 7 e estava prestes a ser interceptada novamente.

E hoje, embora por uma questão cultural, por mera formalidade, a torcida apoie, o Lambeau sabe que não há vida sem Aaron Rodgers. “Desculpem, visitantes: está é a coisa mais triste que já vi em um campo de football”, diz o mesmo senhor da fileira acima, que ao menos dessa vez, consegue arrancar alguns risos. Como diz a sabedoria popular, o dia depois da neve é mesmo o pior.

Análise Tática #17 – A “defesa” de Dom Capers

O conceito de novidade é definido, pelo dicionário, como algo novo. Também pode significar inovação. Em termos técnicos, de direitos autorais, novidade é requisito para a existência de um invento e, como consequência, direito de propriedade.

Mesmo as melhores invenções sucumbem ao Pai Tempo, e as pessoas precisam se atualizar para continuarem desempenhando de forma excelente seus trabalhos (eu mesmo leio semanalmente uma porção de textos do Inside The Pylon para produzir essas análises). Isso não é diferente para os técnicos da NFL, ainda mais em um ambiente que trata o esporte como ciência e produz horas de vídeos para descobrir as tendências dos adversários.

Ernest Dominic “Dom” Capers é um técnico da NFL desde 1984, e com uma carreira toda voltada para defesas, assumiu a função de coordenador defensivo do Green Bay Packers em 2009. Vindo da coaching tree de Marty Schottenheimer, também passou pelo staff de Bill Cowher e Dick Lebeau nos Steelers. Esse último, o leitor provavelmente deve conhecer como o criador do conceito defensivo de zone blitz. Ao assumir a posição de DC, Capers passou a implantar o que aprendeu desse esquema. Tal sistema foi desenvolvido para ser eficiente contra ataques de rotas curtas e que dependiam muito do timing entre recebedor e QB, como a West Coast Offense.

Segundo o Pro Football Reference, a defesa dos Packers sob o comando de Capers foi ranqueada no top-10 em jardas ou em pontos cedidos em apenas 2009 e 2010, nos primeiros dois anos de sua gestão, o que culminou com a conquista do Super Bowl XLV. Em 2011, temporada que os Packers tiveram a melhor campanha da NFL, a defesa foi a pior ranqueada em jardas cedidas. Em 2016, a unidade esteve em 21º em pontos e 22º em jardas. Evidentemente, existem estatísticas avançadas e métricas melhores para avaliar do que os parâmetros supracitados.

Utilizando a fonte do Football Outsiders, um dos melhores sites que cobrem a NFL em termos de estatísticas avançadas, o desempenho da defesa dos Packers teve uma clara queda. O sistema DVOA resumidamente analisa o desempenho de uma unidade em relação à média dos adversários da NFL. Para defesas, a porcentagem negativa é melhor pois significa menor pontuação cedida. A variância representa a consistência da defesa ao longo da temporada. Evidentemente, lesões de jogadores podem influir nessas estatísticas.

Temporada DVOA Variância Ranking
2009 -18% 11% 2
2010 -13,90% 3,70% 2
2011 8,60% 3% 25
2012 -7% 2,90% 8
2013 14,40% 4,00% 31
2014 -1% 7,40% 16
2015 -7,30% 5% 9
2016 3% 6,10% 20
Fonte: Football Outsiders

Após essa breve divagação sobre estatística do esporte, voltando aos aspectos táticos, a defesa dos Packers se baseia em um front de 3-4 com conceitos de zone blitz. Evidentemente, com a maior tendência dos ataques em prol do passe, a mesma começa a jogar em um 3-3-5 em formação nickel. O conceito de zone blitz tem por objetivo confundir a capacidade de detecção do quarterback em relação à pressão extra do pass-rush. Isso ocorre, por que nesse tipo de front, há rushers que jogam em posição de 3 apoios (mão na grama) ou dois apoios (em pé).

A blitz consiste em mandar mais que quatro homens em direção ao QB, entretanto, o esquema de Dom Capers realiza isso sem ficar totalmente desprotegido contra o passe (ou pelo menos no campo das ideias), tanto que esse sistema derivado do original de Dick LeBeau é costumeiramente chamado de Fire Zone Blitz na literatura especializada. Geralmente, um dos rushers que mostram a blitz recua em zona para cobrir o passe, o que combinado com o uso de stunts (jogadores de linha defensiva se cruzando para confundir os bloqueios), dificulta o diagnóstico de pressão pelo quarterback.

Com jogadores alinhados em posturas direrentes, uma fire zone blitz de 3-4 pode combinar os mais diversos tipos de pressão, desde o comum ataque dos OLBs, até o uso de CBs e safeties em situações de pressão com delay. Os jogadores do front precisam ser dedicados ao gap da jogada, e o jogador que recua precisa executar essa função no tempo correto. Normalmente, a divisão de tarefas da defesa é de 5 jogadores dedicados à pressão, 3 cobrindo as primeiras 10 jardas após a linha de scrimmage e 3 cobrindo o fundo do campo, esses últimos em zona.

A grande desvantagem desse esquema, é o constante uso de pick plays pelos ataques. Esse tipo de jogada é o uso legal de bloqueios dentro do limite de 5 jardas, evitando que jogadores de cobertura de passe se posicionem corretamente, geralmente aplicado em situações de poucas jardas, como na red zone, por exemplo. Como a zone blitz tem por objetivo mostrar uma hot-read para o quarterback inicialmente e rotacionar a defesa em torno dessa leitura, tirando o passe curto. Com isso, o QB pode induzir os adversários a cobrir uma rota de armadilha, carregando a defesa para um lado do campo com os olhos (lembre-se, a secundária está em zona), e então atacar outro ponto do campo livre com o passe rápido.

Na imagem acima, observa-se dois esquemas de pressão baseados em fire zone blitz. No esquema à esquerda, a zona rotaciona no sentido do strongside, enquanto o LOLB recua. Para a jogada à direita, a rotação é no sentido anti-horário, enquanto a blitz vem do FS. Agora, vamos observar isso no vídeo da jogada, o espaço amostral utilizado será o jogo da semana contra o Chicago Bears. Aqui, há dois agravantes: o ângulo lateral de All-22 do Soldier Field é uma piada de mal gosto. John Fox também é uma piada de mau gosto como técnico.

Isso aqui é uma SACANAGEM, caro leitor.

Observando as estatísticas do jogo, a defesa dos Packers cedeu 21 passes completos de 35 tentados, sendo 5 sacks para perda de 29 jardas. Foram 268 jardas aéreas, sendo 6.7 por tentativa de passe. No jogo corrido, foram 55 jardas de 17 corridas, explicado pelo fato de que os Bears sempre estiveram atrás do placar na partida, o que força situações de passe. Além disso a defesa dos Packers não cedeu nenhuma possibilidade de ataque dentro da redzone, e o único touchdown cedido na partida pelos Packers foi já no último quarto (passe de 46 jardas para Josh Bellamy – o famoso QUEM).

Nessa jogada, observa-se que o Packers apresenta um esquema de blitz a partir da formação nickel em que o guerreiro #27 ataca o right guard. Dentro do esquema de fire zone blitz, esse é o design mais simples pois não há o disfarce. Clay Matthews é o mais próximo de conseguir o sack pois vence seu bloqueio através de um stunt em direção ao B-gap (espaço entre o LT e o LG). Em contrapartida, um 3-step dropback de Mitchell Trubisky e um passe no flat para Tarik Cohen dá um ganho de 10 jardas para os Bears.

Observe nesta jogada de sack em terceira descida, que a secundária dos Packers mostra uma forma de cobertura single-high pré-snap. Observe que a secundária desliza no sentido-horário, formando uma cover-2-zone, já que os cornerbacks estão em zona (repare nos quadris voltados ao QB).

O ataque dos Bears tenta atacar essa cobertura com um conceito z-spot. Porém, em uma blitz de 6 homens, a linha ofensiva não é capaz de dar o tempo necessário a Mitch Trubisky executar o passe.

Um gif para analisar o desenvolvimento das rotas:

Agora analisando o front dos Packers, observe que de todos os sete jogadores que mostram a blitz, apenas Clay Matthews e Blake Martinez recuam em zona. Para aumentar o grau de confusão do QB e da OL em detectar os homens que irão para a pressão, Martinez sai em motion do edge para o box, enquanto Matthews se posiciona em frente ao right guard.

O nickel corner também vai para a blitz, executando stunts em conjunto com o ROLB. A linha ofensiva dos Bears não sabe quem bloquear, resultando em um sack na terceira descida.

 

  • Diego Vieira torce para o Vasco e para o Indianapolis Colts. É.

Podcast #5 – uma coleção de asneiras V

Voltamos com o tradicional #spoiler: equipes relevantes (e o Tennessee Titans) que não vão para os playoffs em 2017.

Depois discutimos qual equipe assistiríamos se só pudéssemos acompanhar um time até o final da temporada – graças a Deus não acontecerá.

Em seguida, trazemos algumas proposições que sequer acreditamos, mas nos obrigamos a explicar porque é verdade – não sabemos porque fizemos isso.

E, no final, como já é comum, damos dicas de jogos para o amigo ouvinte ficar de olho nas próximas duas semanas!

 

Power Ranking: semanas #3 e #4

Alguns times nos enganaram nas duas primeiras semanas, mas tomamos as devidas providências para que não mais aconteça. Não estamos nem aí se a posição do seu time te desagrada. Lamentamos, mas é a realidade como ela é.

32 – New York Jets (0 / 2-2)

O record 2-2 é uma mera obra do acaso e o Jets ainda é o pior time da NFL. Não seremos enganados.

31 – Cleveland Browns (-1 / 0-4)

Esperávamos que a reconstrução trouxesse resultados mais rápidos, mas o ritmo das obras está um pouco lento, o que não é uma grande surpresa em se tratando de Cleveland Browns. 

30 – Indianapolis Colts (+1 / 1-3)

Sai Scott Tolzien. Entra Jacoby Brissett. É o suficiente para subir uma posição no ranking.

29 – San Francisco 49ers (0 / 0-4)

O time pelo menos está jogando com dignidade e dando sufoco nos adversários. Pena que dignidade não ganha jogos.

28 – Chicago Bears (0 / 1-3)

Após Mike Glennon fazer nossos olhos sangrarem no último TNF, está começando a era Mitchell (ele não gosta que o chamem de Mitch) Trubiski em Chicago.  

27 – Miami Dolphins (-11 / 1-2)

Foi um início promissor com a vitória contra o Chargers na primeira semana, mas depois o Dolphins e Jay Cutler mostraram o que verdadeiramente são: um lixo.

26 – New York Giants (-3 / 0-4)

Eu não aguento mais assistir Eli Manning entregar a bola para Paul Perkins perder três jardas. Eu simplesmente não aguento mais. Salvem o meu Giants.

Do tempo que o torcedor dos Giants podia sorrir.

25 –  Los Angeles Chargers (-7 / 0-4)

O Chargers é o único time da NFL que não tem vantagem por jogar em casa, já que não tem torcedores. Não tem vitórias também.

24 – Cincinnati Bengals (+2 / 1-3)

Deu trabalho ao Packers e atropelou o Browns. Não há motivos para empolgação, mas pelo menos a humilhação acabou.

23 – Jacksonville Jaguars (+1 / 2-2)

Queria entender a lógica de ganhar do Ravens, mas perder pro Jets. Ou ganhar do Texans, mas perder pro Titans. É difícil saber qual é o verdadeiro Jaguars.

22 – New Orleans Saints (+3 / 2-2)

Nos últimos dois jogos, a até então tenebrosa defesa do Saints tomou apenas 13 pontos. É pra aplaudir de pé.

21 – Arizona Cardinals (+1 / 2-2)

As vitórias contra Colts e 49ers dão um alento ao time que perdeu seu principal jogador, mas queremos ver vitórias contra times que são de fato times.

20 – Washington Redskins (0 / 2-2)

Kirk Cousins está jogando muito bem enquanto arruma as malas para ser o QB do San Francisco 49ers em 2018.

19 –  Tennessee Titans (-2 / 2-2)

Duas boas vitórias contra Jaguars e Seahawks pareciam o início da caminhada para a glória, mas aí o Titans tomou 57 pontos do Texans e ainda pode perder Marcus Mariota por alguns jogos.

18 – Baltimore Ravens (-10 / 2-2)

No primeiro Power Ranking foi dito que o Ravens tinha uma “defesa dominante e um ataque competente”. Fomos enganados.

17 – Houston Texans (+4 / 2-2)

Deshaun Watson talvez seja o jogador mais divertido de assistir até o momento. Resta saber se as atuações de gala vão durar.

16 – Minnesota Vikings (-7 / 2-2)

A contusão de Dalvin Cook trará consequências muito mais relevantes do que se pode imaginar. Além disso, o único QB com joelhos saudáveis no time é o terceiro reserva.

15 – Buffalo Bills (+12 / 3-1)

Desafio você, leitor, a encontrar alguém que tenha previsto um início de temporada 3-1 para o Bills, incluindo uma vitória em Atlanta. O time é bom, especialmente a defesa, mas talvez já tenha atingido seu auge.

O comandante da porra toda.

14 – Seattle Seahawks (+1 / 2-2)

Aos poucos, o time vai engrenando, mas é visível que não é mais o mesmo, tanto defensiva quanto ofensivamente.

13 – Dallas Cowboys (-3 / 2-2)

A derrota para o Rams em casa escancarou vários defeitos de um time que sempre pareceu ser um pouco overrated.

12 – Philadelphia Eagles (+2 / 3-1)

Um time regular que já venceu dois confrontos de divisão. Tem tudo para estar nos playoffs.

11 – Tampa Bay Buccaneers (0 / 2-1)

Com apenas três jogos na conta, o Bucs nem decepcionou nem surpreendeu. O verdadeiro teste será contra o New England Patriots.

10 – Los Angeles Rams (+9 / 3-1)

É hora de começar a levar esse time a sério, por mais surrealista que isso seja.

9 – Oakland Raiders (-6 / 2-2)

A derrota para o Washington Redskins foi bastante feia, mas o time ainda é bom quando todos estão saudáveis. Precisa começar a vencer jogos para sonhar com uma vaga de Wild Card, já que a divisão está parecendo cada vez mais inatingível.

8 – Carolina Panthers (+5 / 3-1)

A vitória em New England foi bastante convincente para um time que parecia estar vencendo aos trancos e barrancos. O problema é que Cam Newton não parece mais ser o mesmo.

7 – Detroit Lions (+5 / 3-1)

O record é 3-1, mas poderia facilmente ser 4-0, se Golden Tate não tivesse sido parado na linha de meia jarda contra o Falcons. A questão é se esse time é capaz de manter o nível até a semana 17.

6 – New England Patriots (-1 / 2-2)

A defesa do New England Patriots é a pior da NFL. A DEFESA DO NEW ENGLAND PATRIOTS É A PIOR DA NFL. Mas isso será corrigido, não se preocupem.

Confie no homem.

5 – Atlanta Falcons (-1 / 3-1)

O declínio em relação à temporada passada já era esperado. Uma derrota em casa para o Buffalo Bills não era esperada. O Falcons ainda é bom, mas não é mais o mesmo.

4 – Pittsburgh Steelers (+2 / 3-1)

Inexplicavelmente, o Steelers perdeu para o Bears de Mike Glennon, mas a recuperação veio com uma vitória tranquila em Baltimore. Não parece ter adversários na divisão e ainda não atingiu nem metade de seu potencial.

3 – Denver Broncos (-1 / 3-1)

O Broncos não teria perdido a posição 2 se não tivesse perdido para o Bills e quase tomado o empate do Raiders de EJ Manuel. De qualquer forma, o time parece ter se consolidado como a segunda força da divisão (e da conferência).

2 – Green Bay Packers (+4 / 3-1)

A defesa melhorou muito em relação à temporada passada e Aaron Rodgers continua sendo o melhor jogador da NFL (aceitem). Candidato sério a Super Bowl.

1- Kansas City Chiefs (0 / 4-0)

É o time mais completo e equilibrado da liga. Tem um ataque dinâmico e o melhor RB da liga no momento. A defesa parece que vai sobreviver sem Eric Berry. Além disso, tem um técnico que merece ganhar pelo menos um Super Bowl antes da aposentadoria. Esse é o ano de Andy Reid?

Kareem Hunt ainda trará a paz mundial.

O que foi, o que poderia ter sido e o que certamente não será

I feel, after what I’ve done in my career, I deserve to be paid $18M next year

Ah, isso é um site sobre NFL em português, traduz

Melhor ainda: vamos à história. Do porquê Peterson é um hall of famer e, ao mesmo tempo, uma das figuras que você não desejaria ter no seu time no próximo ano. Em 2004, como calouro em Oklahoma, ele já se tornou, na época, o novato melhor posicionado em um Heisman Trophy (perdeu para o saudoso QB Matt Leinart, de USC). Em 2006, ele resolveu se jogar de cabeça na endzone e quebrou uma clavícula (história que já contamos aqui), sendo que nos anos anteriores a “saúde do seu ombro” já tinha levantado dúvidas.

Mesmo sendo considerado um dos melhores jogadores daquele draft (ali, ao lado de Joe Thomas e Calvin Johnson), tendo participado do Combine um dia após ter o meio-irmão assassinado, seis times decidiram que Adrian não valia o risco. Até que o Minnesota Vikings, mesmo contando com o útil Chester Taylor (1504 jardas em 2006), se apaixonou por ele e não deixou a oportunidade passar. Lembrancinha para o draft, também, crianças: só é necessário que um time se apaixone por você.

Como rookie, All-Day fez chover, inclusive batendo o recorde de maior número de jardas corridas em um só jogo contra os pobres Chargers, com 296 jardas em 30 tentativas (SIM ISSO É UMA MÉDIA DE 10 POR CORRIDA). Em 2008, ele já chegava à temporada prometendo que, mais cedo ou mais tarde, correria para 2000 jardas e seria MVP da NFL; conseguiu 1760 em seu primeiro ano como titular absoluto do time, liderando a liga, carregando o time de Tarvaris Jackson aos playoffs (e morrendo na praia rapidinho em duas ou três big plays de Donovan McNabb).

Após dois anos carregando o time nas costas e tendo que receber bolas do medíocre Tarvaris (que futuramente seria campeão do Super Bowl 48 com os Seahawks, rs), em 2009, os Vikings finalmente trouxeram um QB de verdade para liderar o ataque: a lenda do maior rival, Brett Favre. E talvez nada pudesse ser mais mágico.

Mas, obviamente, morrer na praia é, ironicamente, a cara dos Vikings.Contra o New Orleans Bountygaters, todos nos lembramos daquela jogada crucial em que Brett Favre não quis (ou não pôde?) correr: alerta a qualquer pessoa que tem coração: dói.

O sorriso de 18 milhões de dólares.

A criação da lenda

2010 foi um ano merda porque os Vikings não souberam aceitar a aposentadoria de Favre. 2011 foi ainda pior com toda a greve da liga, seguida da mediocridade de McNabb e logo a do rookie Christian Ponder. Se já parecia ruim, 2011 acabou pior ainda: contra Washington, em um tackle normal, daqueles baixos nas pernas (única maneira de derrubar Adrian), ele sentiu o joelho. Rompeu os ligamentos, o tipo de lesão que, se já é difícil para um jogador normal voltar, para um que vive de encarar pancadas parecia praticamente impossível.

Mas 2012 não era um ano qualquer para a história. Lembro tão claramente quanto lembro dos dias seguintes à lesão no joelho, em que ainda tínhamos esperança de que não fosse tão grave quanto um rompimento. O gênio do começo daquele ano se chamava Percy Harvin, não Adrian. Toda vez em que ele recebia a bola do eficiente Ponder, bonitas coisas aconteciam. All-Day, para fechar o trio, era trazido de volta ao seu jogo com um snap count bem administrado.

Entretanto, na metade da temporada, Harvin voltou ao seu antigo problema com lesões (agora com uma lesão no tornozelo e, conta a história, sem a vontade necessária para retornar ao time, o que o fez ser trocado no ano seguinte para o fim da sua carreira). Foi aí SAIU DA JAULA O MONSTRO™. Com uma média superior a 6 jardas por corrida e mesmo sendo o ponto focal do ataque, Adrian carregou Ponder e o time inteiro, novamente, nas costas à última rodada. All-Day tinha 1897 jardas corridas em 15 jogos.

Ali, precisando de uma vitória contra o time de Aaron Rodgers, claramente superior, a mágica que é esperada daquele que foi conhecido como MVP e jogador ofensivo do ano de 2012, aconteceu: 199 jardas, 2 TDs e o recorde de Eric Dickerson mantido por apenas 8 jardas; a vitória que levou o time aos playoffs veio e com ela toda a consagração necessária. Desnecessário lembrar que, no final das contas, o então sólido Ponder machucou o braço e Joe Webb acabou insuficiente para aprontar alguma coisa em Green Bay. E que Peterson só perdeu o “comeback player of the year” porque, bom, Peyton Manning tinha que ganhar algo.

A culpa é sempre dos Vikings?

Não vamos negar: o time roxo do centro-norte dos Estados Unidos tem uma forte tendência ao fracasso. Não tenho nem 10 anos como torcedor deles e já tive decepções para uma vida. E Adrian faz parte delas.

Que ele é um monstro com a bola nas mãos, tem uma visão de jogo invejável e uma combinação de velocidade-força inigualável, ninguém poderá negar. Mas isso não o torna um jogador capaz de ser útil em todas as fases do jogo. Mesmo após prometer ano após ano, em cada training camp, que aprendeu a bloquear e receber passes, são necessárias apenas duas ou três rodadas para saber que, mais um ano, ele falhará nisso. Provavelmente com um fumble crucial aqui e ali.

Além disso, ele não será feliz sendo apenas um auxiliar em algum ataque – hey, pode parecer que já não dá mais, mas Adrian provavelmente ainda acredita que alcançará o recorde de Emmitt Smith (18355 jardas na carreira, em comparação às atuais 11747 de Peterson) e vai querer receber as oportunidades para isso. Mais do que isso, como diz a primeira frase desse texto, ele vai querer ser pago como tal.

E ele pode falar o quanto quiser de Super Bowl, mas não acredito que seja essa a sua grande prioridade. Futuros empregadores: cuidem com os detalhes.

O polêmico Adrian Peterson

O Deus estava criado, mas as conquistas coletivas não haviam chegado. 2013 veio e se foi e, em meio ao fracasso de Christian Ponder, Josh Freeman, Leslie Frazier, Bill Musgrave (sim, o atual mago dos Raiders) e alguns demitidos mais, a temporada passou rápido. Também em 2013, um filho que Peterson não conhecia, aproximadamente da mesma idade de Adrian Peterson Jr (o filho que ele tem com sua esposa), foi assassinado pelo padrasto.

A exemplo de 2011, lembro bem do drama de 2014. Os Vikings tinham novamente um QB novato, muita esperança e vontade de contar com seu HOFer para facilitar as coisas para Teddy Bridgewater. Depois de uma bela estreia do time de Mike Zimmer, surrando os então St Louis Rams, Peterson não apareceu no treino na semana seguinte; poucas horas depois, foi anunciado que Adrian estava sendo indiciado por maltrato de menor e não jogaria a segunda semana. No fim das contas, ele não voltaria mais em 2014.

Em uma comunidade já revoltada com as atitudes de Ray Rice e o seu vídeo no elevador, o mesmo TMZ conseguiu e postou fotos do que Adrian, conhecido por ter o aperto de mãos mais forte da NFL e fazer coisas como isso, fez com um de seus filhos quando este foi visitá-lo por alguns dias em Minnesota. Para tentar ser o mais breve possível, uma surra com vara por todo o corpo do garoto – de acordo com ele, o mesmo que ele sofria quando não se comportava de criança.

Como essa história acabou? Com um aumento. Depois de ficar um ano inteiro sem jogar, suspenso ao lado de figuras como Rice e Greg Hardy (na “lista de exceção do Comissário da NFL”), tudo o que Peterson tinha a dizer era que se sentiu traído porque os Vikings não ficaram ao seu lado naquele momento complicado.

Após declarações do nível “a NFL na verdade é um modo de escravidão moderno” em referência ao poder que os times têm em relação a contratos garantidos/não garantidos, como pedido de desculpas, Rick Spielman e Mike Zimmer foram buscar Adrian Peterson em sua casa, no Texas, pedir para que ele voltasse e “corrigindo” seu contrato, adicionando dois anos mais de salários garantidos (um total de 27.4 milhões de dólares), com os quais All-Day voltou feliz a ser um Viking – talvez sempre tivesse sido sempre sobre dinheiro?

Just another day.

Voltando ao “normal”?

2015 foi novamente um ano típico para Adrian (liderando o ataque de Minnesota e a liga em jardas e TDs), voltando aos playoffs ao lado de Bridgewater – e, não fosse por Blair Walsh (e, ADIVINHA, um fumble crucial de Peterson), talvez o Vikings tivesse ido mais longe.

Já 2016, não foi típico de uma maneira boa. Após o time perder Teddy para a temporada em uma lesão bizarra nos treinamentos, novamente se contava com todo o poder do running back para que o ataque pudesse ajudar um pouco a poderosa defesa, foco do time.

Contra Tennessee, na primeira rodada, algo não encaixou e Adrian correu para uma média de 1.6 jardas por corrida. Contra os Packers, na inauguração do seu novo estádio, essa média se repetiu até que ele machucasse o joelho. Tudo bem que talvez a de 2016 tenha sido a pior linha ofensiva da história de Minnesota, mas já lhe vi fazendo coisas incríveis com Ryan Cook, Anthony Herrera e Vlad Ducasse “abrindo” espaços. Mesmo sem o craque do time, os Vikings tiveram o incrível começo que vimos; em seguida a ainda mais surpreendente decadência.

Então, sem que o time tivesse chances de playoffs, Adrian mostrou toda a sua competitividade e comprometimento com os companheiros e deu o tradicional “migué”, mesmo recuperado da lesão: voltou contra os Colts, na rodada 16, correu para 22 jardas em 6 corridas e voltou a sentir o joelho. Naquele que provavelmente foi seu último jogo vestindo roxo.

É preciso especular

Com tudo isso resumido, como vai o desejo em ter Adrian no seu time? Ainda que a idade possa bater a qualquer momento (ou talvez já tenha batido, não temos certeza), o seu corpo biônico também pode simplesmente voltar e produzir mais algumas temporadas de 1000 e poucas jardas. Ele já não é mais o MVP ou o melhor RB da liga como foi outrora (especialmente em meio a jogadores completos como LeVeon Bell e David Johnson).

Seu desejo original seria voltar ao Texas, como repetiu e flertou tantas vezes com Jerry Jones. Entretanto, com Lamar Miller e Zeke Elliot com opções por ali, lhe faltaria o espaço necessário. Giants e Raiders são opções faladas, mas estas têm um problema grave: Peterson não sabe correr da formação shotgun (3 WRs; QB posicionado ao lado do RB), muito utilizada por estes dois times em que o passe é prioridade.

Entre os times em que a formação seria mais adequada a ele, estariam Patriots e Packers, acostumados aos trombadores Lacy e Blount. Entretanto, estes são times que certamente não abrirão os cofres da maneira que ele gostaria, o que dificulta as negociações.

É inegável que, mesmo que decadente, Peterson ainda seria um upgrade para metade da NFL; entretanto, o draft também tem uma quantidade absurda de opções muito mais baratas. E, apesar de que a sua prioridade seja inflar números e solidificar-se como a lenda que é, é difícil imaginá-lo jogando em Cleveland ou San Francisco.

Então talvez, no final da história, Adrian volte e encerre a carreira nos Vikings, por duas razões: no final das contas, Minnesota será o time que aceitará pagar uns 8,5 milhões de dólares anuais para ele e, como uma velha ex-namorada, o único a aguentar toda sua chatice. Com sorte, ele também volte grato e disposto a dividir oportunidades com McKinnon e algum outro jovem – obviamente há de se duvidar, mas um torcedor pode ter esperanças, certo?

Tempo perdido: Jay Christopher Cutler, você não sabe jogar!

2009 já parece um tanto distante, mas a lista de qualidades que apontavam Jay Cutler como o salvador do Chicago Bears era relativamente palpável: Chicago era uma franquia historicamente sedenta por quarterbacks e Jay era um jovem de 25 anos que vinha de uma temporada de 4500 jardas e 25 touchdowns – poderia não ser perfeito, mas era, ao menos, uma esperança concreta, mesmo que fosse preciso relevar a petulância de seus últimos dias em Denver.

Agora já se vão oito anos desde aquela noite de abril. E do instante em que Cutler posou com Lovie Smith e Jerry Angelo no Hallas Hall, já passaram por Chicago outros dois head coaches e dois GMs, além de meia dúzia de coordenadores ofensivos. E com Cutler, Chicago foi aos playoffs apenas uma vez, o mesmo número de presenças na pós-temporada entregue por quarterbacks como Rex Grossman e Kyle Orton.

Hoje, a história entre Cutler e sua equipe, está naquele ponto em que uma decisão precisa ser tomada. E sabemos que desistir é, no fundo, uma grande merda. Desde o início de nossas vidas, somos ensinados a nunca desistir. É o que também esperamos daqueles que estão dentro de um campo de football, afinal, ele é um reflexo bem próximo da vida. Mas em alguns casos você irá perceber que na verdade não está desistindo de nada: você só está preso a um jogador horrível e precisa admitir que após anos e anos de tentativas frustradas, é hora de seguir em frente.

O caminho até a NFL

Criticar o destino final conhecendo o caminho percorrido é extramente confortável, então vamos olhar em retrospecto. A classe de 2006 do draft não foi lá muito prolífica em QBs, mas mesmo assim nomes como Mike Mayock e Steve Young saíram em defesa de Cutler – deixando atrás Matt Leinart, vencedor do Heisman em 2004 (15 TDs e 21 INT em sua carreira na NFL) e Vince Young, este com 45 TDs e 51 INT em seis anos de liga.

Paradoxalmente, enquanto Leinart e Young protagonizaram um dos maiores jogos da história do college football, a carreira universitária de Cutler em Vanderbilt terminava com uma derrota para Kentucky – e tanto Leinart quanto Young venceram mais jogos em 2005 do que Cutler em todo seu período na universidade. Mas conforme o draft se aproximava, a narrativa sobre Jay tomava um novo rumo: tudo que ele havia conquistado em Vanderbilt (basicamente um First Team All-SEC em 2005), ele fizera sem muito auxílio; Cutler não tinha os holofotes que Leinart e Young tinham, mas contava com um braço assustadoramente forte e, sobretudo, vontade de usá-lo. “Creio que ele tem um release mais rápido que qualquer um dos dois. É um cara duro e acho que ele jogou atrás de uma linha ofensiva muito pobre”, era o que diziam analistas na época.

Na semana do draft, especulava-se que ao menos seis equipes estariam interessadas em Jay Cutler: Floyd Reese, GM do Titans, o encontrou várias vezes. O New York Jets também estava bem posicionado para selecioná-lo, mas foi Denver quem agiu, subiu posições e o escolheu na 11ª posição.

Primeiras impressões

Já nos cinco jogos finais de sua primeira temporada, Cutler colocou Jake Plummer no banco; Jake ostentava 39 vitórias e 15 derrotas em temporada regular com os Broncos, mas vinha de sua pior fase e, enfim, as perspectivas futuras com Cutler pareciam muito mais promissoras do que manter Plummer.

E assim foram os dois anos seguintes de Jay Cutler na NFL; um misto entre indícios de um futuro possível e um presente irrelevante. Em 2008, porém, forçado por um defesa ridícula, Jay precisou lançar 616 passes, que resultaram em 4526 jardas, 25 touchdowns e 18 INT. Ao final daquela temporada, Mike Shanahan perdeu o emprego e os Broncos buscaram o OC Josh McDaniels em New England. E foi quando tudo começou a ruir.

Aquela carinha de “foda-se”.

O Jay Cutler que conhecemos e a oportunidade única

Bus Cook, agente de Cutler, disse à AP que Denver, junto com McDaniels, iria trazer Matt Cassel, que acabara de substituir Tom Brady por um ano e tivera 10 vitórias. O que sabemos nunca aconteceu. E Cutler reagiu da maneira que Jay Cutler reagiria: recusou-se a falar tanto com McDaniels como com Pat Bowlen, proprietário do Broncos.

E apesar de mais tarde Cutler ter negado que teria pedido uma troca, suas declarações iam na direção contrária das de seu agente. “Não me importa se você fala em trocá-lo por Matt Cassel, Matt Ryan ou Tom Brady, você não está dando um voto de confiança para ele. É assim que Jay vê, e eu faria da mesma forma”, afirmou Bus. Já McDaniels declarava que não queria trocar Cutler, que ele era o quarterback do Broncos. Então, 40 dias depois, Cutler desembarcava no Soldier Field.

Jerry Angelo, GM de Chicago por mais de uma década, definiu a chegada de Cutler como “uma oportunidade única”. Para ele, franchise quarterbacks de 26 anos não se tornavam disponíveis e era preciso agarrá-los, mesmo que o preço fosse salgado – e Jay (mais uma escolha de quinto round) custou para os Bears duas escolhas de primeira rodada, uma de terceira, além de Kyle Orton. Mas, como Angelo insistia em frisar, era uma oportunidade única, um mergulho na loucura para que os Bears deixassem uma mediocridade já latente.

Início de um longo pesadelo

A primeira temporada de Cutler em Chicago foi uma grande tragédia. Logo em sua estreia, ele lançou quatro interceptações – em uma partida que o Bears perdeu por apenas seis pontos. Naquele mesmo dia, o LB Brian Urlacher, que passaria seus 13 anos de carreira em Chicago, fraturou o pulso e ficou fora do restante da temporada. Foi a gota d’água para o sistema defensivo do Bears, então um dos mais confiáveis da NFL, implodir.

Lançando passes freneticamente, Cutler terminaria o ano com 26 INT, sendo que em sete das 16 partidas ele foi interceptado mais de uma vez. Ao final daquela temporada também teríamos o início de um filme reprisado intensamente na era Cutler em Chicago: o OC Ron Turner, incapaz de extrair o melhor de seu novo QB, jovem e brilhante, foi demitido; começava a relação cíclica dos Bears com seus OCs, tão estável quanto relacionamentos adolescentes.

Já o segundo ano de Jay em Chicago, 2010, traz um paradoxo: o Bears venceu muito naquela temporada; foram 11 vitórias e o título da NFC North. Mas isso pouco tem a ver com seu ataque; na offseason Chicago assinou com um Julius Peppers em sua melhor forma o que, junto ao retorno de Urlacher, reacendeu o sistema defensivo – que saltaria da 21ª em 2009 para a 4ª posição em 2010, claramente entre as melhores da NFL. Já o ataque, bem, Cutler foi sackado incríveis 52 vezes naquela temporada, que resultaram em mais de 350 jardas perdidas; foram ainda 23 TDs e 16 INT, para um rating de 86.3.

Tudo isso culminou no NFC Championship, que deve assombrar os torcedores de Chicago e Jay Cutler até hoje: logo no início da partida, Cutler torceu o joelho e os Bears precisaram contar com um inútil Todd Collins (que durou menos que Cutler em campo) e, logo depois, Caleb Haine, que praticamente estreava na NFL em um Championship Game. Mesmo com a defesa segurando Aaron Rodgers e o Packers em 21 pontos, era um ataque inexistente e tudo foi em vão.

Com o ataque paralisado e Cutler na sideline, as críticas eram inevitáveis. Darnell Dockett, DE do Cardinals, esculachou. Mike Ditka, um dos técnicos mais vitoriosos da história do Bears, também não deixou barato. Cutler era, pela primeira vez, o alvo real da ira de toda comunidade de Chicago.

“Neva até soterrar esse demente”, teria pedido um torcedor do Bears.

Recomeço?

Com um novo ano, há sempre novos planos e após perder a chance de chegar ao Super Bowl, Chicago começou a temporada com uma campanha 7-3, com Cutler com os melhores números de sua carreira, e a defesa novamente no topo da NFL. Próximos da sétima vitória, porém, Jay Cutler lançou uma interceptação, recebeu um bloqueio e aquela que provavelmente foi sua última real chance de redenção se despedaçou com seu polegar direito – o Bears foi forçado a seguir com Caleb Haine, que teve uma vitória nas seis partidas seguintes.

Ao final daquela temporada, muito mudou em Chicago. Jerry Angelo foi o primeiro a deixar Illinois. Phil Emery assumiu o cargo de GM e passaria os próximos quase dois anos tentando construir um ambiente favorável para Jay; todos os movimentos foram pensados para ajudá-lo a prosperar: Emery conseguiu uma troca que trouxe o WR Brandon Marshall, com quem Cutler tivera relativo êxito no Broncos, além de buscar Alshon Jeffery no draft. Mesmo vencendo 10 partidas em 2012, o Bears não chegou aos playoffs, então Emery julgou o momento como certo par demitir o HC Lovie Smith, que foi substituído por Marc Trestman, reconhecido em toda NFL por seu trabalho com quarterbacks. Já da free agency chegaram o TE Martellus Bennet e o LT Jermon Bushrod, enquanto o G Kyle Long foi selecionado na primeira rodada do draft para tornar o OL ainda mais consistente: em 18 meses Emery tinha mudado toda a estrutura do Bears, moldando o ataque do time às características de seu QB.

O objetivo, de certa forma, foi atingido: Brandon Marshall era um dos melhores WRs da NFL, Jeffery uma estrela em ascensão e Cutler atingia seu melhor rating desde que deixara Denver. Mas estamos falando de Jay Cutler e com ele não há um ano sem que haja uma turbulência: passada metade da temporada, Jay lesionou a virilha, dando lugar a Josh McCown, que postou um rating de 109, lançou 13 TDs e apenas 1 INT durante o período em que comandou o ataque do Bears. Quando Cutler foi liberado pelo departamento médico para retornar, claro, não houve unanimidade. Mas Trestman optou por Jay, e na semana 17 um tropeço contra Green Bay lhes custou a vaga nos playoffs.

Tudo isto culminou em… um novo e gigantesco contrato para Cutler. Tudo bem, era preciso considerar o ano anterior e o fato de que tanto Marshall como Jeffery tinham sinergia com Jay, então suas deficiências passadas pareciam contornadas. Além de Emery ter montado uma equipe para Cutler: ele finalmente seria o jogador que o Bears esperava, então Phil lhe entregou um contrato de sete anos no valor de US$ 126 milhões, sendo US$54 milhões garantidos.

Na época, o novo acordo foi considerado um preço a ser pago na NFL e moldou os contratos seguintes de quarterbacks. Mesmo assim, muitos o apontaram como o tipo de contrato que só é estabelecido com um QB que você tem plena certeza que o levará ao SB.

De qualquer forma, para Chicago, não era algo normal, mas talvez também estivesse longe de ser algo absurdo, afinal ainda havia um resquício de chance de Jay se tornar o franchise QB que o Bears buscara em abril de 2009. Era preciso acreditar nisso, era preciso ter fé. E foi o que Emery e Trestman fizeram; eles tiveram fé em Jay Cutler, apenas para  ela se provar errada e ambos terminarem o ano desempregados.

Presos no tempo

Tudo isto nos mostra que a relação entre Cutler e Chicago não é apenas um recorte interno da história do próprio Bears, não é apenas sobre Jay Cutler, ano após ano, se afogando em um mar de desculpas esfarrapadas. O que aconteceu com Chicago e Jay ao longo destes oito anos é um reflexo real da nossa forma de arrumar desculpas diariamente: quando caras como Lovie Smith, Marc Trestman ou mesmo Mike Shanahan se tornam bodes expiatórios, quando tantos outros são culpados por um problema, substituídos, mas o problema persiste, talvez você não esteja identificando o real problema.

“Foi culpa da defesa”, “No final das contas, foi uma boa temporada”, “Precisamos ser mais compreensivos”, “Há alguns jovens que precisam de mais tempo para se desenvolver”… Foram vários os discursos recorrentes que acabaram soando como as mesmas velhas desculpas. E enquanto elas eram repetidas, Cutler seguia ali: ele já não era mais tão jovem, mas a decepção continuava.

Talvez não exista em nenhum esporte coletivo uma posição com a carga de representatividade que um quarterback traz consigo. Nos atendo apenas a NFL, você pode ter o melhor RB disponível, dois WRs incríveis ou mesmo uma defesa espetacular: no fim do dia, é naquele cara que está logo atrás do center que você deposita suas esperanças; é ele quem precisa liderar, é ele quem deve fazer tudo funcionar.

Lógico, uma equipe pode vencer sem um bom QB, mas se ele não vai bem, sempre haverá essa preocupação recorrente; maus quarterbacks podem despedaçar qualquer sonho de um fã de football. E nos últimos oito anos não existiu alguém que destruísse sonhos com tanta eficiência como Jay Christopher Cutler. E Cutler sempre teve tudo o que precisou para ser um franchise quarterback, mas ele não é confiável, ele não pode liderar a equipe.

Em linhas gerais, Síndrome de Estocolmo é o nome dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter algum tipo de simpatia por quem a tortura. Se ela pode ser transposta à NFL, não há um exemplo melhor que a relação entre Cutler e o Bears: enquanto Chicago sempre procurou alguém para culpar, proprietários, treinadores, linha ofensiva ou qualquer outro elemento, talvez finalmente estejamos chegando no momento em que só reste admitir que Jay Cutler simplesmente não sabe jogar. Que Jay Cutler simplesmente não se importa.

De Rodgers a Ty, passando por Cook: como o Packers voltou a ser Packers

Considerando a frieza dos números, podemos afirmar sem medo que, por mais de um ano, Aaron Rodgers não foi ele mesmo. Já abordamos os problemas de Green Bay há alguns meses, de qualquer forma, é fato que desde a semana 6 de 2015, um dos melhores quarterbacks da NFL lutava contra a mediocridade: partindo da derrota para Denver por 29 a 10 ainda na temporada passada, seus últimos 10 jogos naquele ano trouxeram um percentual de passes completos de apenas 57%, aproximadamente seis jardas por tentativa e um rating inferior a 82; nesse período foram 16 touchdowns e seis interceptações. Green Bay foi derrotado em seis dessas dez partidas, chegando a pós-temporada como wild card após perder para o Vikings em casa na semana 17, em partida que valia o título da NFC North.

O início de 2016 também foi cambaleante, com apenas quatro vitórias nas dez primeiras partidas – que contou com uma sequência de quatro derrotas consecutivas, uma delas uma atuação embaraçosa diante do Titans em Tennessee capaz de justificar qualquer eventual demissão (ou prisão por falta de vergonha) e outra partida constrangedora contra o Redskins.

Hoje, olhando em retrospecto, não havia um sinal claro de que Rodgers ressurgiria antes da sequência de vitórias. Eram números razoáveis para os padrões de Aaron Rodgers, e derrotas como as que ocorreram contra o Falcons ou o Colts estiveram longe de ser vergonhosas. De qualquer forma, o que também precisamos enxergar naquela sequência, é que enquanto o Packers parecia implodir na NFC North, o que o manteve vivo foi o fato de Aaron ser a única peça minimamente funcional em uma equipe aparentemente quebrada.

R-E-L-A-X.

Voltando à velha forma

Se para analisar a queda de produção de Rodgers – e, por consequência, do Packers – era preciso olhar para diversos fatores, compreender o retorno de sua produtividade habitual é um pouco mais simples: o principal fator a ser considerado passa pela melhora na precisão do quarterback; durante a primeira metade da temporada atual, Aaron completou pouco mais de 60% das tentativas, enquanto nas últimas seis partidas, esse número saltou para mais de 70%.

Nesse cenário, o jogo do camisa 12 flui, principalmente, graças a seu talento único para realizar ajustes em janelas de tempo estreitas, fator fundamental para um sistema ofensivo como o de Green Bay, baseado em rotas longas que espera que Rodgers tenha tempo e confie em seus recebedores, exige que eles simplesmente estejam onde se supôs que iram estar para que então Rodgers lance a bola naquele local. Quando isto ocorre, estamos diante de um ataque imprevisível, quase impossível de ser marcado; já quando algo sai errado, mas é dado a Aaron um pouco de tempo, resta ainda um QB capaz de improvisar e encontrar alternativas.

Danny Kelly, em artigo publicado no The Ringer, relembra uma entrevista antiga de Rodgers, onde o quarterback reflete sobre seu estilo de jogo. “Não importa o quão próxima esteja a marcação. Se o defensor me deu as costas, se posso ler seu nome e não vejo a sua cara, considero o recebedor livre e vou lançar a bola sempre. Na hora em que ele vira e encontra a bola, já é tarde. Confio que o nosso cara vai vencê-lo e ficar com a bola”.

O autor então relembra uma gama infinita de lances com as características descritas acima por Rodgers. Na semana 14, contra o Seahawks, Davante Adams bateu DeShawn Shead para um TD de 66 jardas . Já na semana 15, diante do Bears, talvez o melhor exemplo do que Rodgers dissera: uma bomba de 60 jardas para Jordy Nelson, sem nenhuma chance para o CB Cre’von LeBlanc.

Foram esses passes, essas jogadas, que falharam por um longo ano, entre a já citada semana 6 de 2015 e as 11 primeiras semanas desta temporada: agora Rodgers voltou a atacar, sem medo, toda e qualquer cobertura. Outro ponto notável no crescimento do sistema ofensivo de Green Bay é que se seu QB pode castigar a defesa adversária quando está retido no pocket, ele também tem uma capacidade única para escapar da pressão e encontrar a melhor alternativa – fora do pocket, Rodgers terminou ao lado de Jameis Winston em passes para TD (13 de seus 40, mais de 30%).

Quarterbacks comuns normalmente se desesperam quando sob pressão; perdem de vistas seus recebedores, se debatem no pocket enquanto ele entra em colapso e, bem, apenas torcem para não terem uma costela quebrada. Para Aaron Rodgers, porém, trata-se de uma oportunidade para encontrar touchdowns. E mesmo que ele eventualmente não consiga encontrar um recebedor disponível, ele ainda é uma ameaça com os pés – na última partida da semana regular, diante do Lions, foram convertidos três 3rd downs para 8 jardas ou mais; um deles proporcionou um corrida de 25 jardas, a maior do Packers na partida.

Como um WR se tornou o melhor RB de Green Bay

Ty Montgomery alinhou como RB pela primeira vez na semana 3 e, bem, ali, parecia apenas mais um truque de Mike McCarthy, fadado ao fracasso, afinal, quantas vezes vimos, vez ou  outra, Randall Cobb no backfield nos últimos anos? Ele estava ali para correr contra uma defesa naturalmente preparada para conter apenas o passe, quase que como uma pequena piada interna, criada para criar alguns desajustes no adversário, claro, mas em nenhum momento sólida o suficiente para construir um sistema ofensivo ao seu redor.

Mas três semanas depois, Eddie Lacy (que Deus o tenha), com uma lesão no tornozelo, deu adeus à temporada. O joelho de James Starks também não resistiu e ele foi posto de molho na mesma semana e ali Ty começou a ser forçado a participar mais ativamente como um RB regular: foram 16 tentativas para 113 jardas nas semanas seguintes – uma média de mais de 7 por tentativa. Mas ainda assim soava mais como desespero do que qualquer outra coisa: Green Bay apenas lutava contra o tempo e lesões enquanto entregava a bola para um WR(!) correr, não é mesmo?

Um RB em forma.

Para o bem ou para o mal, Starks foi liberado momentaneamente na semana 10, mas algo havia acontecido nas três semanas em que ele esteve ausente: o Packers percebeu que aquela piada inicial, na verdade, se tornara uma das boas histórias desta temporada: Ty Montgomery era o melhor RB de seu elenco. E na semana 15, com 162 jardas em 16 tentativas para dois TDs, Ty sepultara qualquer dúvida: ali ele deixara de ser um tampão, uma alternativa emergencial, para provavelmente se tornar um RB em quem o Packers pode confiar seu futuro.

Para a maior parte dos jogadores, fazer esta transição de WR para RB leva anos. Mas Montgomery, além da adaptação, mostrou também uma capacidade de pensar um ou dois passos adiante. Agora ele não soa mais com um truque; ele corre em grande nível, é extremamente físico e protege a bola de uma maneira que, por exemplo, Starks, RB de ofício, já não protegia mais. Ty também é capaz de antecipar o contato e reagir de forma que o impacto não o derrube.

Como segundo corredor, há ainda Christine Michael, que parece ter se reencontrado em Green Bay após ser chutado de Seattle. Montgomery e Michael forneceram, contra o fraco Chicago na semana 15, uma dupla no backfield que o Packers não tinha desde quando Lacy não lutava contra a balança (nota de edição: tempo em que ele TEORICAMENTE não lutava, já que né) e James Starks não sentia ainda efetivamente o peso da idade. E estes elementos são influências diretas no crescimento de Aaron Rodgers: o quarterback agora tem consigo os benefícios apenas proporcionados pelo equilíbrio entre jogo corrido e jogo aéreo.

“Um TE para chamar de meu”

No início de novembro, quando tentamos diagnosticar os problemas de Green Bay, abordamos a inclusão efetiva de um TE no plano de jogo como uma das soluções para o Packers. Um tight end atlético, quando envolvido no ataque, pode avançar pelo meio do campo abrindo espaço e, consequentemente, diversas novas possibilidades. Já falamos sobre como Rodgers reencontrou sua melhor forma e você provavelmente sabe que Jordy Nelson levará o Comeback Player of the Year. O que talvez não seja tão simples de enxergar é a participação de Jared Cook nisto.

Mesmo quando não é concretamente acionado, ele confere uma nova dimensão ao playbook – o que no Packers, por exemplo, resultou nos já citados lances de Davante Adams contra Seattle e Jordy Nelson diante do Bears. Seu impacto pode ser mais nitidamente sentido na frieza dos números: Green Bay está 8-2 na temporada quando Cook esteve em campo, com média de mais de 28 pontos por jogo, 25 TDs e apenas uma interceptação e seu quarterback com um rating de 114. Já sem ele a campanha cai para 2-4, a média para 24,7 pontos, são 15 TDs e 6 interceptações, além de um rating de 92,3 para Aaron Rodgers.

Jared retornou de lesão na semana 11 e, desde então, em situações de 3rd downs, foram 13 passes em sua direção, com 10 recepções para 175 jardas (e um rating de 118,2). “Creio que o retorno de Cook tem sido importante. Obviamente, ele normalmente é marcado por um linebacker e, nessas situações, isso é uma vantagem, como vimos em vários jogos”, disse Rodgers em entrevista à ESPN.  “Tenho falado sobre isso desde que cheguei: o caminho mais rápido à endzone é pelo centro do campo. Então quanto maior o alvo que você tem recebendo passes, melhor para o QB. Quanto particularmente mais atlético, maior raio de recepção. E Jared Cook tem todas essas qualidades”, completou o head coach Mike McCarthy.

Ajudo e não atrapalho.

Diferenciando-se dos mortais

Hoje Green Bay é um time mais completo; com o braço ou com as pernas, Aaron Rodgers pode vencer qualquer adversário na NFL. É um repertório difícil de ser previsto quando usado em sua totalidade; dispondo de rotas curtas, lances de alta velocidade no meio do campo com Cook ou lançamentos de mais de 50 jardas para Nelson ou Adams. E se algo sair errado, ainda é possível escapar da pressão e avançar no campo com os pés.

Assim, tudo que o Packers fez nas últimas semanas prova que se você der a Rodgers uma equipe versátil, ele tornará jogadores comuns, como Davante Adams, bons jogadores. Tornará ótimos recebedores, como Nelson, ainda melhores. E desde a semana 12, quando Rodgers sugeriu que seria perfeitamente possível para o Packers “run the table”, ele beirou à perfeição: seis vitórias em sequência, o título da NFC North e hoje o Packers é o adversário que ninguém quer enfrentar na pós-temporada; seja o Giants ou qualquer outra equipe que cruze o caminho de Green Bay nos playoffs, ele irá entrar em campo temendo um ataque recheado de possibilidades, irá entrar em campo receoso, sobretudo, com o que Aaron Rodgers vem fazendo.