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Análise Tática #30 – A linha ofensiva do Indianapolis Colts

Dominação nas trincheiras. Faz parte dos jargões do futebol americano que o jogo de playoff é vencido a partir das linhas. Em janeiro, com tempo ruim e times melhores, o confronto físico decide os vencedores.

Também não é novidade para ninguém que durante o início de carreira, Andrew Luck foi o quarterback mais sackado da NFL. Cercado por um coaching staff e front office incompetentes, Andrew foi capaz de mascarar as deficiências do Indianapolis Colts e competir até a pós-temporada, até que apenas sua capacidade técnica não foi mais suficiente.

A quantidade de pressões sofridas por dropback chegou a níveis tão absurdos que Luck sofreu 100 sacks nas 3 primeiras temporadas. Como sabemos, em 2015 o quarterback teve lesões no ombro e costelas, agravadas por um acidente de snowboard em 2016, e uma laceração nos rins.

Andrew Luck merecia adicional por insalubridade.

Em 2016, temporada em que jogou lesionado, estando semanalmente nos injury reports, Luck sofreu 41 sacks, maior marca da sua carreira em uma temporada. Em 2017, a saga do ombro atingiu níveis jamais vistos e Andrew perdeu toda a temporada. Como desgraça pouca é bobagem, a linha ofensiva dos Colts contou com lesões do Center Ryan Kelly ao longo da temporada (não havia perdido um único snap na carreira até então desde os tempos de futebol universitário em Alabama), além de deficiências em outras posições, que resultaram em um total de 56 sacks, pior marca da temporada e recorde histórico da franquia.

Solucionando o que não tinha solução

O leitor deve saber que o general manager Chris Ballard (D@ddy) escolheu no draft o Guard Quenton Nelson (Notre Dame), com a sexta escolha geral. Outra adição de linha ofensiva via draft foi o então Guard, agora Right Tackle Braden Smith, de Auburn, escolhido na segunda rodada. Pelo período de Free Agency, as adições foram: Austin Howard (ruim), Matt Slauson (na injury reserve, mas ajuda no treinamento dos colegas) e Mark Glowinski, contratado no meio da temporada e despontando como titular absoluto na posição de Right Guard.

O mês de setembro foi de instabilidade, considerando as ausências do veterano Anthony Castonzo e a indefinição nas demais posições, com a linha cedendo 9 sacks, metade da quantidade total da temporada. Até o sexto jogo, derrota para os Jets que marcou a campanha de 1-5 da qual começou a virada da equipe, foram ao todo 12 sacks. Além disso, a instabilidade no jogo corrido era notória, com o comitê de Running Backs ainda não estabilizado pela ausência de Marlon Mack. Os calouros Nyheim Hines e Jordan Wilkins dividiam snaps com o veterano Christine Michael (sim, ele ainda existe, e esteve nos Colts essa temporada).

Tal cenário forçava Andrew Luck a lançar a bola muitas vezes por partida, tal como em seus tempos de Chuck Pagano. Entre as semanas 4 e 5, em que os Colts perderam para os Texans na prorrogação e em seguida perderam para os Patriots no Thursday Night Football, Luck lançou a bola um total de 121 vezes em um intervalo de quatro dias corridos, nada ideal para um Quarterback vindo de uma cirurgia no ombro direito. Apesar de naquele momento não estar se resultando em vitórias, já era possível ver sendo implantada a receita para tirar Luck desse cenário desfavorável.

Esse manja.

Antes de ver o game tape do que deu certo, vamos observar exemplos de jogadas do início da temporada em que a linha ofensiva ainda estava instável (ainda era um cocô em chamas).

Quenton Nelson testado contra os Bengals

Em sua estreia na NFL, o calouro Quenton Nelson sofreu contra o pass rush dos Bengals, principalmente na figura dos jogadores Geno Atkins e Carlos Dunlap.

Em seu primeiro snap na liga, Quenton alinha contra Geno Atkins e comete um holding após ser batido em um rush para dentro. Nelson tenta se recuperar na jogada, mas seu equilíbrio está comprometido e a única opção é fazer a falta.

Por vezes em sua partida de abertura, a linha ofensiva teve que lidar stunts. Nelson é particularmente bom para reconhecer esse tipo de movimentação dos defensores, mas é necessária uma coordenação precisa com os companheiros para que a contenção ocorra. Na jogada específica, Atkins consegue confundir Nelson e o Center Ryan Kelly, permitindo que o Defensive Tackle Ryan Glasgow (#98) atinja Luck, resultando em passe incompleto.

Os sacks contra os Texans

Quatro sacks cedidos contra o Houston Texans na semana 4 em Indianapolis foi a maior quantidade que a linha ofensiva dos Colts permitiu durante toda a temporada. Vamos observar o que aconteceu em cada uma dessas jogadas.

Colocando em contexto, 4 sacks em 65 jogadas de passe é ruim, mas o estrago poderia ser maior considerando o matchup nas pontas. Na primeira partida entre Colts e Texans na temporada, J.J. Watt e Jadeveon Clowney alinharam contra os tackles Le’Raven Clark e Denzelle Good (he’s not). Bem, eu não espero que o leitor neutro conheça esses nomes.

Jadeveon Clowney bate Le’Raven Clark com um speed rush enquanto J.J. Watt contém a possibilidade de scramble de Andrew Luck cortando para o ombro interno de Denzelle Good. O sack ocorre antes mesmo de Luck atingir o ponto de proteção ideal.

O sack seguinte foi creditado contra Denzelle Good, também com um speed rush, dessa vez de J.J. Watt. Antes de analisar a jogada, vale falar que o Indianapolis Colts tem que ser PROIBIDO de abrir o teto do Lucas Oil Stadium para sempre. Denzelle Good tenta compensar o rush de Justin James jogando o peso do corpo para trás, mas o camisa #99 se aproveita disso e usa as mãos para cortar para dentro e atingir Luck. Sack que colocou Indianapolis em situação perigosa de campo.

Agora um strip sack provocado por J.J. Watt e recuperado por Duke Ejiofor (#53) já dentro da linha de 10 jardas. Também com um speed rush, Watt vence Denzelle Good pelo ombro externo e atinge a bola.

Já na prorrogação quando os Colts tentavam marchar em campo para vencer a partida, o quarto sack dos Texans acabou por prejudicar o andamento do drive, que iria terminar na decisão de tentar converter a 4th & 4. Nesse caso, o sack é creditado contra Quenton Nelson, que perde equilíbrio ao sofrer um stunt de Jadeveon Clowney, resultando em perda de 10 jardas.

A evolução através do jogo corrido

A volta de Marlon Mack contra os Jets (semana 6), e a volta de Anthony Castonzo contra os Bills (semana 7) foram as peças que faltavam para o ataque dos Colts engrenar nos dois níveis. A considerar os adversários, Bills e Raiders, o jogo terrestre teve um salto de qualidade com o retorno de seus titulares, gerando estatísticas que não aconteciam a tempos. Pela primeira vez desde 2007 (Joseph Addai) os Colts tiveram um corredor ultrapassando a marca de 100 jardas terrestres em duas partidas consecutivas – Marlon Mack.

A destacar a alternância entre Marlon Mack e Nyheim Hines como os Running Backs responsáveis por esse salto de qualidade no backfield (127 jardas contra os Jets, 220 jardas contra os Bills e 222 jardas contra os Raiders). A escalação titular fixou-se com Anthony Castonzo (LT), Quenton Nelson (LG), Ryan Kelly (C), Mark Glowinski (RG) e Braden Smith (RT), e produziu o desempenho de elite que chamou a atenção de toda a liga.

Pela primeira vez na carreira ajudado por um jogo terrestre minimamente capaz de controlar jogos, Andrew Luck começou a aumentar gradativamente a média de jardas aéreas por tentativa de passe, à medida em que Frank Reich passou a ter confiança a deixar o QB recém-recuperado de lesão a “soltar o braço”. Luck começou a soltar a bola cada vez mais rápido também, ajudando a linha ofensiva a manter os bloqueios.

Análise dos esquemas de bloqueio

O pilar do ataque montado por Frank Reich é a variação de jogadas em formações diferentes. Os Colts costumam chamar jogadas de corridas a partir de diversas formações, seja com sets pesados ou de recebedores espalhados em campo, com TE bloqueador (Ryan Hewitt) por vezes alinhando como FB na I-formation ou tomando uma instância de bloqueio vindo de motion de uma posição slot. A partir do momento em que o jogo terrestre começou a dar sinais de evolução, Marlon Mack (segundanista) e Nyheim Hines (calouro) começaram a concentrar a maior parte dos snaps, ainda com a contribuição adicional do também calouro Jordan Wilkins.

Uma das principais estratégias de bloqueio utilizadas pelos Colts, que vem rendendo boas jogadas é a movimentação de jogadores em bloqueios pull. Essa técnica acontece quando um bloqueador sai de sua posição inicial para bloquear em outra região do campo, geralmente oposta a que ele estava. Esse tipo de movimentação geralmente ocasiona uma demora na defesa em reagir ao movimento da linha e ajustar o preenchimento dos gaps, e funciona muito bem contra fronts com jogadores em 2-gap-technique.

Fronts 2-gap são geralmente construídos com jogadores que precisam ter o domínio físico sobre o bloqueador, e a movimentação de pull tem o objetivo de anular tal comportamento, fazendo com que o defensive lineman tenha que agir como um tackleador de campo aberto.

Um dos conceitos usados pelo Colts  na temporada 2018 para combater fronts 2-gap é o Trap-Wham-Block. Nesse tipo de jogada, um jogador externo ataca o centro da linha de scrimmage para bloquear o jogador de linha defensiva alvo da jogada lateralmente.

Indianapolis por diversas vezes utiliza o Wham Block com os TEs, principalmente Jack Doyle e Ryan Hewitt a partir de formações big. Depois da lesão, Mo-Alie Cox assumiu o papel de Doyle nessas jogadas. Esse tipo de movimentação geralmente é feito com a intenção de liberar Quenton Nelson e Ryan Kelly rapidamente das designações iniciais para atacar o segundo nível da defesa, ambos jogadores com grande eficiência em realizar bloqueios em campo aberto.

Nessa jogada da partida contra os Raiders (semana 8) vemos o Trap-Wham-Block sendo aplicado para permitir que Ryan Kelly ataque os LBs.

Por reconhecimento dos assignments, Mark Glowinski, o Right Guard também ataca o segundo nível, ajudando Ryan Kelly. A corrida de Marlon Mack não é exatamente explosiva, mas ganhou as jardas necessárias para um novo set de descidas.

Outro exemplo de Wham Block por parte de Jack Doyle. Dessa vez, o RB2 Nyheim Hines ganha 15 jardas.

Dessa vez, o lineman que sai em pull é o left tackle Anthony Castonzo. Nessa jogada, destaca-se também o trabalho do rookie Quenton Nelson executando bloqueio em dois jogadores ao mesmo tempo na jogada.

Na jogada subsequente, os Colts mostram mais um exemplo de sua variedade de jogadas novamente partindo do shotgun, agora correndo uma outside zone com dois jogadores executando pull. Esse conceito é conhecido como Toss Sweep. Nesse caso, Ryan Kelly e Mark Glowinski partem em sweep limpando o caminho para Nyheim Hines no strongside.

Como explicamos nesse texto do ano passado, a filosofia de bloqueios em zona dá uma leitura específica para os jogadores de linha. Kelly e Glowinski estão no campo aberto, então a inteligência desses jogadores em identificar corretamente os adversários a serem bloqueados é essencial para que a jogada funcione.

O fator Ryan Kelly na proteção do passe

Selecionado na décima-oitava escolha do draft de 2018, o center vindo de Alabama jogou todos os snaps de sua carreira universitária como titular sem sofrer lesões, e foi escolhido à época por Jim Irsay com à certeza de ser uma cornerstone para uma linha ofensiva que precisava de investimentos. Apesar disso, como as coisas nunca são fáceis para o Indianapolis Colts e uma temporada de calouro sólida, apesar de abaixo do radar, o segundo ano de Ryan Kelly foi recheado por lesões.

Uma fratura na perna em uma atividade conjunta com o Detroit Lions no training camp o tirou de toda a pré-temporada de 2017, e quando retornou, o jogador não mostrava o mesmo desempenho da temporada anterior, uma vez que a linha ofensiva dos Colts como um todo era a pior da liga. Outras lesões acabaram por encerrar a temporada de Kelly, fazendo com que o jogador fosse para a injury reserve no mês de dezembro.

Em 2018, desde que a linha ofensiva dos Colts se estabeleceu na formação titular de Castonzo, Nelson, Kelly, Glowinski e Smith. Entre as semanas 6 e 11 (Jets, Bills, Raiders, Jaguars e Titans), Luck não sofreu nenhum sack. Uma sequência de quase 300 dropbacks sem ser derrubado, que impulsionou uma virada de uma campanha de 1-5 para 5-5 até então.

Contra os Titans, Ryan Kelly sofreu uma lesão na perna que o afastaria das próximas 3 partidas, sendo substituído pelo center reserva Evan Boehm. Nesse caso, não só a qualidade na proteção do passe caiu para níveis “humanos” (Luck sofreu 6 sacks no período, interrompendo a sequência recorde desde 1991), bem como o jogo terrestre dominante teve uma queda de desempenho – o ataque registrou 118 jardas corridas contra os Dolphins, 41 contra os Jaguars e 50 contra os Texans.

No retorno de Kelly contra os Cowboys, não somente Luck não voltou a ser derrubado como também o ataque terrestre registrou 178 jardas contra a defesa de Dallas, uma das melhores parando a corrida até então.

O time que venceu nove dos últimos dez jogos na temporada regular tem uma identidade claramente definida por dominação nas trincheiras, podendo controlar a posse de bola com jogo terrestre à vontade se estiver com sua linha ofensiva titular completa. Além disso, os Colts contam com um Quarterback que já se mostrou competente o bastante para ganhar jogos quando não tinha nenhum desses fatores para o ajudar. Na rodada de Wild Card dos playoffs essa receita se mostrou mais fatal que nunca para o Houston Texans, que não mostraram a menor resistência, mesmo tendo bastante talento na defesa.

A partida de Wild Card

Impulsionado por uma linha ofensiva no ápice de seu jogo na temporada e de um excelente plano de jogo por parte do técnico Frank Reich, Marlon Mack atingiu a melhor marca de sua carreira com 148 jardas terrestres contra o Houston Texans. Assim como na partida anterior contra os Titans, dois touchdowns nas duas primeiras campanhas da partida ajudaram a ditar o ritmo da partida e permitir com que os Colts controlassem o adversário com jogo terrestre.

Quenton Nelson, que dispensa apresentações, e fizemos questão de destacar o início complicado de carreira que teve, teve partida fenomenal. O calouro First Team All-Pro colecionou pancakes ao longo da partida (e da temporada, como indicado pelo ex-jogador de linha ofensiva Brian Baldinger, no twitter). Para observar tamanha dominação por parte da linha ofensiva dos Colts, vamos analisar algumas jogadas.

No início do jogo, as conversões de terceira descida foram importantes para ditar o ritmo de ataque. Os Colts converteram 7 de 7 tentativas antes de chutarem o primeiro punt. Na primeira tentativa, Luck tem um pocket limpo para completar um passe de 12 jardas para T.Y. Hilton e mover as correntes.

A linha defensiva dos Texans tenta atacar com o mesmo stunt que os Colts teve problema para parar no início da temporada, mas dessa vez o resultado é totalmente diferente. De Glowinski (#64) para a esquerda, todos os jogadores fazem a técnica de slide protection para este lado da linha para compensar os stunts e manter o pocket limpo. Luck mantém-se no ponto de proteção até que Hilton vença o duelo contra o marcador.

A jogada acima, do segundo drive dos Colts na partida, é um exemplo de como Frank Reich usa misdirection para criar situações favoráveis para o ataque. Chester Rogers é visto em motion pré-snap carregando um Safety para longe da direção em que ocorrerá a jogada.

Corrida em pull, com Quenton Nelson e Ryan Kelly sendo os leading blockers abrem caminho para uma corrida de 25 jardas de Marlon Mack. Pela câmera lateral da All-22. Podemos perceber que a movimentação pré-snap é essencial para permitir tamanho ganho. O safety acompanha a movimentação de Chester Rogers e o snap sai no momento em que o camisa #80 passa pelas costas de Luck.

O camisa #20 dos Texans não acompanha a movimentação até o fim, mas é tarde demais para que o mesmo possa reagir na jogada e evitar a big play. Excelente chamada e play design por parte de Frank Reich, bem como a execução por parte dos jogadores.

Agora a jogada que colocou o placar em 14 a 0 para os Colts, praticamente selando um domínio absoluto do time na partida. Corrida sweep para a esquerda da tela. Dessa vez, o TE Eric Ebron (#85) sai em motion novamente tirando o Safety Justin Reid (#20) da direção da corrida.

Aqui cabe a explicação de que a corrida sweep é um tipo de jogada em que o corredor atravessa a linha executando o bloqueio em uma determinada direção, enquanto o lineman da ponta bloqueia o edge rusher com um movimento no sentido oposto à direção da corrida, servindo de “âncora”, permitindo com que o corredor “vire a esquina”.

Mo-Alie Cox (#81) é o âncora da linha, enquanto Ebron se movimenta em motion para que fiquem apenas 3 defensores do lado do campo em que a corrida vai se desenvolver. Observe no decorrer do gif que quatro jogadores da linha ofensiva dos Colts se deslocam para aquele lado.

Nesse caso, a jogada é tão bem executada que Marlon Mack além do caminho que tomou, poderia ter escolhido o gap aberto entre Quenton Nelson e Ryan Kelly, conquistando o TD sem ser tocado.

  • Diego Vieira acredita que está vivendo um sonho ao ver a OL dos Colts jogar nesse nível.

A vida é feita de ciclos

O Colts sempre teve sua história associada a um grande jogador. Nos primórdios da franquia, ainda em Baltimore, esse cara era Johnny Unitas. Em Indianapolis, vieram Erick Dickerson e depois Marshall Faulk. E, por fim, você deve se lembrar de um moço alto chamado Peyton Manning. Parece que lançava a bola, o rapaz.

Essa sucessão não parou com a saída de Peyton. Aliás, essa saída se deu muito por conta disso: a ideia de continuar o sucesso que a franquia havia conquistado. Em 2012, menos de um ano depois de ostentar o pior record da NFL, Indianapolis escolheu o QB Andrew Luck, de Stanford.

E tudo parecia seguir de acordo com os planos: Andrew levou a franquia aos playoffs em seus primeiros anos na liga, chegando até a final da AFC em 2014/15, em campanha que contou inclusive com vitória sobre Manning (aquele, não o outro) nos playoffs. Se quiser saber um pouco mais dessa história, falamos sobre isso aqui.

Em 30 segundos, tudo pode mudar

A trajetória vencedora de Luck foi interrompida em 2015. Em meio a um início ruim, o jogador sofreu múltiplas lesões e acabou a temporada na lista de contundidos. Em 2016, o trabalho para recuperar o ombro, lesionado no ano anterior, exigiu muito do jogador e a melhora esperada não veio. Para 2017, o time e o QB optaram por uma cirurgia no ombro – a ideia era deixar quaisquer resquícios da lesão para trás, agora de uma vez por todas.

O resultado você já conhece. O tempo de recuperação foi se estendendo, até chegar no ponto em que a participação de Andrew na temporada fosse descartada. O ombro não mostrava sinais de recuperação, e o ano já parecia perdido mesmo.

Após reavaliar o ombro e alterar um pouco os trabalhos de reabilitação, Luck vai jogar a temporada normalmente. A dúvida fica por conta de como serão suas atuações, já que seu último jogo foi há mais de 500 dias.

Pagano vs Grigson: a origem da ruína

A saga de Andrew Luck foi apenas a cereja no bolo de um processo inevitável, mas que, ironicamente, era mascarado pela própria capacidade de Luck dentro de campo. O time, apesar dos bons resultados, não era bom.

Após receber o prêmio de “executivo do ano” (sim) em 2012, Ryan Grigson, o então GM da equipe, não conseguiu realizar bons drafts ou reforçar o time à altura no mercado. Chuck Pagano, o head coach, não mostrava competência para dirigir sequer um bom time, quem dirá um questionável.

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Por conta dessa incompetência, tudo que Andrew não controlava fedia: a linha ofensiva, o jogo corrido e a defesa como um todo. Viradas milagrosas e uma AFC South que beirava o amadorismo ocultavam a verdade: Indianapolis não tinha um bom time.

Sem Andrew Luck, as deficiências da equipe e a ruindade de Grigson e Pagano ficaram escancaradas. Em um intervalo de menos de um ano, ambos foram chutados da franquia.

Reconstruindo (do inglês rebuild)

Para consertar o “elenco” deixado por Ryan Grigson, os Colts foram atrás de Chris Ballard, que é muito bem visto dentro da liga e tido por muitos como um dos melhores avaliadores de talento da NFL.

Daddy.

Em seu primeiro ano como GM, porém, ele não foi bem. O time não contou com Andrew Luck, claro, mas Chris não se mostrou muito ativo ao lidar com a situação. Se os Patriots não tivessem proposto uma troca, Indianapolis teria jogado 2017 com Scott “are you serious?” Tolzien como seu QB. Além disso, a equipe montada não se mostrou competitiva como se deseja, mesmo o trabalhando apenas se iniciando.

Finalmente e, sim, estávamos evitando, chegamos em 2018

Como tudo na vida é um ciclo, o dos Colts está se fechando agora. O ciclo que se inicia lembra muito aquele de 2012: um ou outro nome reconhecível e a esperança que Luck seja o diferencial da equipe. Se antes o ataque tinha Reggie Wayne, hoje ele tem TY Hilton. Se antes a defesa tinha Robert Mathis, hoje ela tem Jabaal Sheard. Não é um cenário animador.

Todos sabemos que um time que tem apenas três jogadores de nível de Pro Bowl (estamos ignorando Jack Doyle e Adam Vinatieri da lista, você não é o único que percebeu) não vai chegar muito longe, mas Indianapolis tem uma carta na manga: a juventude.

O elenco é hoje formado por alguns medalhões (os que já citamos, Eric Ebron, Anthony Castonzo, Al Woods, John Simon…) e muitos jovens. As três escolhas na segundo rodada, um grupo de RBs liderado pelo apenas segundo-anista Marlon Mack, além dos 1st rounders Quenton Nelson e Malik Hooker, e mais um bando de meninos que você não conhece, tornam os Colts um dos 5 times mais jovens da NFL.

Isso torna a temporada de Indy extremamente imprevisível. Se alguns desses jogadores jogarem em alto nível, daqui a um ano provavelmente estaremos falando de uma equipe pronta para disputar a AFC por anos. Por outro lado, se o desempenho for de medíocre pra baixo, a situação pode ser crítica a ponto de vermos a franquia de novo com uma escolha no top 5 do draft.

Um passo de cada vez

Se antes a ruindade do time apareceu quando Andrew Luck se machucou, agora os Colts estão fazendo de tudo para evitar que isso aconteça. A linha ofensiva foi ponto focal da offseason, menos de um ano depois de jogadores como Jeremy Vujnovich atuarem em todos jogos da temporada.

“Como é que eu vim parar aqui?”

A unidade agora conta com Anthony Castonzo, que, no geral, não compromete; Quenton Nelson, talvez o único prospecto universalmente aceito como BOM; Ryan Kelly, que quando jogou foi bem (porém tem sofrido com lesões); Matt Slauson, veterano que na liga há alguns bons nove anos; e Austin Howard, também veterano. Além deles, o calouro Braden Smith, escolha de segunda rodada esse ano, fica na reserva para suprir uma inevitável lesão. Não é o melhor grupo da liga, claro, mas não é a calamidade que vimos nos últimos anos.

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Se antes a linha ofensiva, o jogo corrido e a defesa eram ruins, agora podemos riscar pelo menos a linha ofensiva dessa lista. E isso apenas sete anos depois que Andrew Luck entrou na liga.

Tudo isso, não mais comandado por Chuck Pagano

É importante ressaltar que, também pela primeira vez em sua carreira, Luck terá o que achamos ser um Head Coach de verdade, não apenas um gerador de clichés motivacionais.

Reich chega depois que Josh McDaniels recusou o cargo, e só citamos isso aqui pra deixar bem claro que isso não influenciará em nada na temporada de Indy. Frank chega aos Colts com a credencial de ser uma das mentes envolvidas no processo que culminou com Nick Foles sendo o MVP do Super Bowl.

Tal qual um rookie, tudo que podemos dizer sobre Frank Reich é: esperamos que faça um bom trabalho e, pior que do que estava, dificilmente fica.

Palpite

É muito difícil saber o que esperar desse time em 2018. Muitos jogadores pouco ou nada jogaram na liga, tornando o nível da equipe extremamente imprevisível. No melhor dos cenários, pode brigar por playoffs e, no pior, pode acabar com uma pick alta no ano que vem. Como o meio-termo talvez seja a opinião mais sensata, um record entre 6 e 10 e 7 e 9 é onde esse time deve terminar o ano.