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Procurando uma identidade

Uma nova identidade. Para a temporada de 2018, esse é o principal objetivo do Dallas Cowboys. Após Tony Romo ter nos dado mais um motivo pra ligar o SAP nas tardes de domingo e Jason Witten substituir Jon Gruden como COLOR GUY™ no Monday Night Football, cabe ao time encontrar novas lideranças.

Em uma despedida menos glamorosa, Dez Bryant foi defenestrado do Texas, por motivos que vão da queda de produção a ser um péssimo coleguinha de vestiário (fonte: nós achamos isso). Nesse caso, é necessário que Dak Prescott e Ezekiel Elliott assumam seus papéis como líderes do vestiário, tanto técnica quanto pessoalmente.

Uma offseason mais tranquila

Se em 2017 tivemos o circo armado pela punição de Ezekiel Elliott, em 2018 o Dallas Cowboys teve mais paz para trabalhar. Na medida do possível, claro. É intrínseco ao America’s Team a presença nos tabloides, então um circo menos intenso nos jornais ajuda a criar um ambiente em que a  liderança jovem tenha a tranquilidade para trabalhar. A questão Dez Bryant de certa forma é um percalço, porém é mais simples blindar um time às tuitadas de um jogador do que ter um dos seus principais nomes do ataque com problemas com a justiça.

Além dos nomes já citados, Dallas também perdeu o RB Alfred Morris, o WR Brice Butler e o CB Orlando Scandrick, como os jogadores mais notáveis (aqueles que o leitor já ouviu falar o nome). Em contrapartida, o time trouxe o WR Allen Hurns, o OT Cameron Fleming e o DE Kony Ealy (o cara-que-seria-MVP-do-Super-Bowl-50-se-os-Panthers-tivessem-ganhado), todos nomes que buscam se firmar.

O principal deles, Hurns, vindo de duas temporadas interrompidas por lesão, vem buscando espaço como titular na rotação de recebedores, que está em uma situação de time-que-precisa-de-mais-um-para-completar-a-pelada.

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Outro ponto importante da offseason é a volta do DE Randy Gregory, escolha de segunda rodada no draft de 2015. Após problemas com o uso de maconha (o que não deveria ser problema – mas isso é outra discussão), a NFL aceitou o plano de recuperação do jogador, permitindo sua reintegração após uma suspensão por tempo indeterminado.

Gregory, que teve o melhor ano de sua carreira em 2014 na Universidade de Nebraska, era cotado como talento top-5 do draft à época. Agora, o jogador busca espaço em uma liga com tendência de rotações de pass-rush bastante numerosas.

Recarregando (do inglês reloading) 

O Dallas Cowboys fez nove picks no draft de 2018, algumas delas conseguindo bons valores, em escolhas abaixo da cotação de mercado. Na primeira rodada, a escolha do LB Leighton Vander-Esch de Boise State dá a entender que o time busca peças de reposição para Sean eternamente-Lee(sionado). 

Uma substituição quase perfeita, já que o calouro já chega à liga com dúvidas sobre a saúde de seu pescoço. Vander-Esch está em uma daquelas situações de lesões que não se vê ocorrendo em campo (até por que quase ninguém assiste jogos de Boise State) mas aparecem magicamente na época do Combine. Traçando um paralelo, é um boato semelhante ao que ocorreu com Myles Jack, de Jacksonville, à época em que jogava em UCLA. Dallas arriscou a escolha dezenove em Vander-Esch, agora joga a sorte na moedinha para ver se o jogador permanece saudável.

A escolha de Michael Gallup, WR, na posição 81 pode ser o respiro para um grupo de recebedores com déficit de peças, assim como o TE Dalton Schultz, que precisa pisar em sapatos grandes (traduções literais.inc). O recrutamento de Dallas se encerrou com a escolha de Bo Scarbrough, RB do tipo tanque de guerra vindo de Alabama, que provavelmente deve ser familiar ao leitor.

Jason “The Clapper” Garrett

O Homem-Laranja (Garrett, não o outro) merece um tópico especial quando falamos de Dallas Cowboys. Após ser escolhido técnico do ano (sério, isso aconteceu mesmo, por mais absurdo que possa parecer) quando teve Dak Prescott e Ezekiel Elliott em grande fase quando calouros, o homem teve uma temporada de 2017 digna dos melhores momentos de Chuck Pagano.

O ataque comandado pela dupla Garrett e Scott Linehan teve a regressão personificada na atuação do QB Dak Prescott. Se em 2016 Prescott teve 67.8 % de passes completos, 3667 jardas aéreas, 23 TDs e o assustador número de apenas 4 INTs para um QB calouro, em 2017, a produção caiu bastante. 62.9% dos passes completos, 22 TDs e 13 INTs. Ainda, a queda do rating, de 104.9 para 86.6.

Além de números, no game tape vimos um Prescott bastante exposto, principalmente nas partidas em que não teve a ajuda de Zeke Eliott. Uma atuação do nível de 2016 gera a atenção da NFL, e com coordenadores defensivos adversários tendo longos sete meses para estudar as tendências do jogador, Dak teve um rendimento aquém do esperado  em 2017. Nesse aspecto, adivinha, Jason Garrett e Scott Linehan não foram capazes de adaptar o plano de jogo, se é que existe um (o nosso dinheiro está no “não [existe um plano de jogo]”).

No jogo corrido, a perda de Ezekiel Eliott por seis jogos trouxe um problema tanto para o time quanto para o jogador. Zeke  não conseguiu render o esperado antes da punição começar a ser cumprida e até mesmo quando voltou, destacando-se a péssima atuação na altitude de Denver (não é desculpa).

Embora falar que Zeke jogou mal é quase uma súplica para gerar a revolta do torcedor de Dallas, é inquestionável a queda de produção quando vemos que as jardas por tentativa caíram de 5.1 para 4.1. Acima das 4 jardas por tentativa é ainda considerado um bom número para RBs, mas a queda de conversão de primeiras descidas para 22.7% ajuda a regular esses números.

A linha ofensiva, outrora melhor da liga, agora tem que lidar com o problema da ausência por tempo indeterminado do center Travis Frederick. Outra questão importante é trabalhar as posições do LG Connor Williams e RT La’el Collins. Linhas ofensivas estão geralmente a uma lesão de serem ruins, e Adrian Clayborn fez suco de Dak Prescott quando Tyron Smith se lesionou contra os Falcons. Para incrementar a rotação, os Cowboys trouxeram o OT Cameron Fleming, que pode acabar sendo o titular no lado direito, mais pela falta de opção que pela sua qualidade técnica.

Uma defesa com duas caras

Ainda na questão da busca de identidade, a defesa do Dallas Cowboys pode ser explicada como a imagem e semelhança de Sean Lee. Como Lee luta contra as lesões, a defesa foi deficitária pela maior parte da temporada.

No pass rush, a atuação de DeMarcus Lawrence de certa forma mascarou o jogo tímido de Taco Charlton, escolha de primeira rodada de 2017. Nesse bolo, adiciona-se a chegada de Kony Ealy como mais uma peça de linha defensiva, sendo importante nas situações de terceira descida. David Irving provém uma boa opção no meio da linha, embora seja uma peça quase única jogando em 3 e 5-tech.

A principal deficiência defensiva a ser tratada por Rod Marinelli é a secundária. Byron Jones, Jeff Heath, Xavier Woods e Chidobe Awuzie são os titulares de uma unidade que além de tudo não tem muitos atletas para profundidade de elenco. A esperança se dá que o trio de LBs com Lee, Vander-Esch e o excelente-but-yet-to-be-seen Jaylon Smith consiga cobrir o passe.

Palpite

A NFC East é mais uma daquelas divisões em que raramente o vencedor do ano anterior consegue defender o título. Se Dallas conseguiu aparições nos playoffs nos últimos anos de Tony Romo e no ano de calouro de Dak Prescott, essa não deve ser a realidade de 2018. O grupo de recebedores é muito fraco e mesmo se os novatos tiverem impacto, não será suficiente para fazer frente aos rivais. A temporada será de reconstrução em Dallas, possivelmente com a demissão de Jason Garrett ao fim do ano. A partir disso, será necessário trazer uma mente moderna para o ataque, que saiba explorar melhor com as habilidades de Prescott e Elliott, enquanto uma escolha no top 10 do draft de 2019 será essencial para tapar alguns buracos do elenco. Nessa questão, provavelmente uma campanha entre cinco e sete vitórias será o teto que esse time pode alcançar.

Um grande hype enfrentando enormes expectativas

Após o surpreendente sucesso na temporada passada, Dallas, ao que tudo indica, está agora em uma nova direção; 11 atletas deixaram a equipe na última free agency, enquanto outros dois se aposentaram. Aliás, estes 11 jogadores começaram mais de 500 jogos de suas carreiras com o Cowboys – incluindo 94 no último ano.

Mesmo assim, o dono e novo hall of famer, Jerry Jones, mantém o otimismo. “Perdemos um número significativo de atletas, mas fomos seletivos nestas perdas”, justificou o proprietário da franquia durante a offseason.

“É importante que os novatos joguem, eles realmente precisam de oportunidades. Eu não ousaria projetar nosso número de vitórias, mas acredito que temos uma equipe melhor do que a que terminou a temporada passada; temos a chance de sermos melhores do jeito correto: mais novos”.

Jaqueta em homenagem a todo o ouro que este homem trouxe para liga.

Pequenos fantasma

Tony Romo sofreu uma lesão durante a pré-temporada de 2016 e, como em qualquer outro dia, todas as perspectivas se dissiparam em Dallas. Naquela ano, porém, tudo foi diferente: havia uma pequena esperança no Texas de que Dak Prescott poderia fazer o trabalho com dignidade até Romo estar recuperado.

Mas Prescott foi tão eficiente que não deixou brechas e assumiu a posição: foram 23 touchdowns e apenas quatro interceptações – e outros 6 TDs corridos. Com mais de 67% dos passes completos, Dak teve média aproximada de 8 jardas por tentativa.

Claro, ele tem um ótimo elenco de apoio para auxiliá-lo, mas de qualquer forma é pouco provável que grande parte dos rookie quarterbacks da NFL teriam atuado no mesmo nível que Dak.

Voltando ao elenco de apoio, o integrante de maior destaque, também foi um novato: o RB Ezekiel Elliott correu para 1631 jardas e 16 TDs – ele ainda teve 32 recepções para outros 363 jardas. O fato é que algumas equipes não tiveram respostas para Elliott em seu primeiro ano. Mas tudo pode ser diferente em 2017.

O grande hype a espera de uma grande decepção

Diante do exposto, Prescott terminou o ranking dos 100 melhores jogadores para esta temporada organizado pela NFL Network na 14ª posição. Releia com atenção: 14ª posição.

E que fique claro que aqui não há nada contra Prescott; ele talvez tenha tido a melhor temporada de um rookie QB da história da NFL. Mas também é fato que ele não é sequer o melhor jogador ofensivo de Dallas – o já citado Eliott, o WR Dez Bryat, o G Zack Martin e o C Travis Frederick são melhores jogadores que Dak.

Inegavelmente, Prescott é mais valioso, sobretudo por sua posição. E achamos Dak talentoso e com potencial para ser um grande QB nos próximos anos, mas a verdade é que será muito difícil para ele evoluir seus números de maneira proporcional ao hype em sua segunda temporada – entenda que os adversários, agora, tiveram uma offseason toda para estudá-lo e a tabela está longe de ser fácil.

E não é apenas as expectativas em torno de Prescott que podem fazer os sonhos de Dallas desmoronarem: há também a dúvida sobre a possível suspensão de Elliott, que ainda não sabemos como acabará – hoje, ela é de seis jogos, mas o recurso ainda será julgado.

A defesa, que já era mediana, perdeu peças-chave, sobretudo na secundária e torce para que alguns novatos consigam preencher os buracos – vale lembrar que Dallas terminou com 7 vitórias e uma derrota em partidas decididas por sete pontos ou menos na última temporada.

Onde realmente mora a esperança

Se você crê que Dallas pode repetir as mais de 10 vitórias da temporada passada, saiba que a esperança para isso ainda mora na linha ofensiva, uma das melhores da NFL nos últimos anos. Zeke foi incrível e Dallas construiu seu sistema ofensivo em torno dele – ele era a base do ataque, e não Prescott. E, claro, Elliott deveria ter conquistado o ROY caso o hype não vencesse.

O fato é que a linha ofensiva permite que Dallas controle o ritmo das partidas, conquistes caminhões de jardas por terra, mantenha o ataque adversário fora de campo e dê tranquilidade ao seu jovem quarterback. Essa fórmula permanece inalterada: enquanto a OL continuar dominante, os Cowboys podem chegar longe.

Já os WRs Cole Beasley, Dez Bryant e Terrance Williams somaram para 169 recepções, 2223 jardas e 17 touchdowns, uma das melhores unidades da NFL. E enquanto Bryant continua a ser a grande estrela, Beasley, que liderou a equipe em recepções (75), se mostrou uma opção de segurança para Dak.

Há ainda o TE Jason Witten, que renovou seu contrato durante a offseason e terminará sua carreira em Dallas – mas apesar de ter jogados as 16 partidas pela 13ª temporada consecutiva, aos 36 anos, parece difícil que Witten siga produzindo efetivamente.

Preenchendo o vazio

Não parece surpresa que Dallas tenha investido suas três primeiras escolhas de draft para reforçar o setor defensivo: a unidade foi fraca quando comparada ao ataque, terminando na 14ª posição da NFL.

Foram 36 sacks, cinco a mais que em 2015, mas mesmo assim a temporada foi a quinta consecutiva em que a defesa dos Cowboys terminou fora do top 10 da liga. Dallas, aliás, não tem um jogador com dígitos duplos em sacks desde que o DE Jason Hatcher conseguiu 11 em 2013.

Talvez por isso a escolha de primeira rodada tenha sido usada no DE Taco Charlton, de Michigan, trazido para reforçar a linha defensiva (adendo: nenhum jogador da equipe teve mais que seis sacks na temporada passada). Além dele, o setor também espera mais de Demarcus Lawrence, que teve oito sacks em 2015, mas viu o número despencar para apenas um na temporada passada – pese o fato de que ele esteve em campo em apenas nove partidas, devido a uma cirurgia nas costas.

Já na secundária, Dallas perdeu os CBs Brandon Carr e Morris Claiborne e os S Barry Church e JJ Wilcox. Claro, nenhum dos quatro possui números que saltam aos olhos e podem ser considerados perdas irreparáveis, mas enquanto grupo eles contribuíram com 254 tackles, 5 interceptações e 28 passes defendidos na temporada passada – a responsabilidade agora está com uma turma de novatos, que têm potencial, mas ainda não sabemos onde podem chegar.

Palpite: em Dallas, tudo parece um pouco demais. É, ainda, muito cedo, para o nível de otimismo que se instalou. Prescott pode ter uma segunda temporada maravilhosa, e ainda assim não ter os mesmos números de seu ano de estreia. A defesa está longe de ser uma das melhores da NFL e um ou dois contratempos, envolvendo Dak, Bryant, Elliott ou mesmo a OL, pode fazer tudo desmoronar – além disso, o calendário não será fácil. De qualquer forma, um número maior que 10 vitórias é factível e o Cowboys pode estar na pós-temporada. Mas também pode facilmente perder o controle da divisão.