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Entre o presente e o futuro

Ao contrário da visão que muitos veículos da mídia especializada brasileira passam, o Kansas City Chiefs é muito mais que apenas o seu kicker tupiniquim Cairo Santos. Claro, Cairo tem um importante papel como embaixador do esporte no país e é uma atração à parte para os brasileiros, mas os Chiefs não são só Santos, muito pelo contrário: o time tem sido um dos mais interessantes de se assistir na NFL – ao menos durante a temporada regular. E a própria NFL concorda: KC jogará seis jogos de horário nobre em 2017. Mais que qualquer outro time da liga.

O hype em torno dos Chiefs pode ser atribuído ao desempenho nas últimas duas temporadas: em 2015 a equipe emplacou uma sequência de 10 vitórias consecutivas nos últimos 10 jogos, saindo de uma campanha 1-5 para 11-5 e chegando até o Divisional Round dos playoffs, onde foi derrotada pelo New England Patriots. Já em 2016, a segunda posição na classificação da AFC garantiu acesso direto à mesma rodada do Divisional, dessa vez em casa. A vantagem de jogar diante da torcida mais barulhenta do mundo não se fez valer, e os Chiefs acabaram apanhando do Pittsburgh Steelers, em derrota muito doída pela torcida.

Confie seu futuro nas mãos deste ser.

Recomeço

E é dessa derrota que partimos para explicar o ano de 2017 em Kansas City. Após mais uma eliminação nos playoffs, a percepção ao redor da liga – e dentro da franquia – era de que o time comandado por Alex Smith dava conta da temporada regular, mas não tinha forças para vencer em janeiro. Pensando nisso, os Chiefs subiram no último draft para escolher o QB Patrick Mahomes.

Mahomes é um prospecto notadamente cru, que ainda não tem todos os conhecimentos para jogar na NFL devido ao sistema de jogo em que estava inserido na faculdade. Porém, o talento, o braço e a promessa estão lá, e acredita-se que em pelo menos um ano ele estará pronto para ser titular; de qualquer forma Alex Smith ainda está lá para segurar a posição enquanto Patrick não está pronto.

No papel, a ideia é excelente – concordamos que Alex Smith não vai te levar muito longe nem que ele compre uma companhia aérea chinesa –, mas talvez o elenco dos Chiefs não consiga esperar o desenvolvimento de Mahomes para atuar com ele. Especialmente na defesa, alguns veteranos (óbvio) estão cada vez mais velhos, e não podemos cravar que manterão o desempenho de outros tempos.

O lado bom

Derrick Johnson e Tamba Hali já estão organizando os papéis da aposentadoria; e Justin Houston, após anos estelares, não foi o mesmo depois da lesão que sofreu em 2015. Recuperado, Houston talvez retome o auge da sua forma, mas não seria surpresa se, após mais uma temporada decepcionante, ele sequer esteja no roster em 2018. A ascensão de Dee Ford pode ajudar nessas posições, mas, se você fez a matemática, ela não bate: são três jogadores em baixa contra um em alta.

Além disso, Dontari Poe, que era uma força no meio da linha defensiva, já não está mais na cidade. Para o seu lugar chega Bennie Logan, e podemos acreditar que não haverá uma perda de qualidade, pois Chris Jones, que se destacou como calouro, está mais experiente em seu segundo ano na liga. E, para piorar, caso o front 7 mostre uma notável regressão, é importante lembrar que KC não tem a escolha de primeira rodada do ano que vem, visto que ela foi utilizada em troca para selecionar Patrick Mahomes.

A secundária, por sua vez, será o ponto forte do grupo: Eric Berry é capaz de ganhar jogos que já estejam perdidos, e Marcus Peters já se consolidou como um dos principais Cornerbacks da NFL. Fecham o grupo o Safety Ron Parker e o CB Steven Nelson.

A verdadeira esperança.

Um grande tristeza

No ataque, pouca coisa muda. O esquema do bom técnico Andy Reid será mantido, assim como o péssimo trabalho controlando o relógio ao final das partidas. Já Alex Smith será aquele QB que não estraga tudo, mas é incapaz de lançar a bola por mais de 15 jardas – mesmo que ele tenha um recebedor livre em uma 2nd& 17.

A linha ofensiva, que em 2016 não comprometeu, mas também não encheu os olhos, será a mesma (lesões à parte, como sempre): os Chiefs não perderão nenhum jogo porque a OL não conseguiu jogar, e isso já pode ser considerada um vitória em uma liga onde jogam Indianapolis Colts, Minnesota Vikings e Seattle Seahawks.

Já na posição de RB, Jamaal Charles deixa o departamento médico da equipe, mas Charcandrick West e Spencer Ware, que já se mostraram confiáveis, seguem no elenco. Além deles, Kareem Hunt, que chegou no draft com altas expectativas em torno de seu nome, e CJ Spiller, completam o versátil grupo, que ainda deve contar com boas jogadas de Tyreek Hill.

Hill, por sua vez, adquire a posição de WR1, que ficou vaga após a saída de Jeremy Maclin pela porta dos fundos. Os outros WRs dos Chiefs são desconhecidos, então não vale nem a pena citá-los. Travis Kelce, por outro lado, é bastante conhecido e, quando Rob Gronkowski não está em campo (aproximadamente 63% do tempo, de acordo com estatísticas oficiais), é considerado por muitos o melhor TE da NFL.

Normalmente não apontamos para os Special Teams das equipes ao fazer nossas previsões, mas em Kansas City a história é um pouco diferente. Tyreek Hill anotou dois TDs em retorno de Punts e um retornando Kickoffs. Cairo Santos, com exceção de um início de carreira errante, não decepciona quando é chamado. Logo, os ST dão aos Chiefs uma dimensão que muitas equipes da liga não sonham.

Palpite: Podemos ir junto com a corrente e falar que os Chiefs terão mais um bom ano, mas a verdade é que o cenário está desenhado para uma catástrofe. A torcida já não aguenta mais Alex Smith e, após uma atuação questionável em uma derrota no Primetime, sua cabeça estará em jogo. Ele sucumbirá a pressão e, eventualmente, perderá a posição para um Patrick Mahomes despreparado. Jogando em uma divisão complicada como a AFC West, o time ficará de fora dos playoffs e Alex Smith irá levar sua mediocridade para outra franquia em 2018. Vocês viram aqui primeiro.

A verdade é cruel: quem nasce Alex Smith nunca será Joe Flacco

Muito se fala do “escala Andy Dalton” para avaliar quarterbacks – ou seja, se um QB é melhor do que Andy Dalton, ele é uma boa escolha para a NFL; caso contrário, ele deveria ser descartado. Um dos jogadores mais difíceis de aplicar a essa escala é justamente Alex Smith, cuja história desde ser primeira escolha em 2005, a ficar no banco e ver Kaepernick jogar no Super Bowl, passando por ser trocado para os Chiefs é conhecida; mais do que isso, suas limitações também.

Enquanto, especialmente em 2015, Dalton foi eliminado (novamente) na primeira rodada dos playoffs por imbecilidades externas a ele, Kansas City ganhou a primeira rodada de um Houston sem quarterback, antes de cair para Tom Brady e seus Patriots, em um duelo em que o marido de Gisele Bündchen dominou e Alex Smith não conseguiu ter estrela suficiente para ganhar. Esse jogo deve servir como grande exemplo de que, independente dos 6 Pro Bowlers e 9 jogadores no Top 100 (votados pelos próprios jogadores e um recorde na NFL), nessa liga um QB decisivo (como foi o próprio “elite” Flacco para ganhar seu anel) ainda é essencial.

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Eric Berry após uma jogada que ajudará a manter Alex Smith no cargo mais um ano.

Justin Houston, Eric Berry e muito mais

Alex Smith e seus dilemas a parte, a defesa dos Chiefs foi excepcional em 2015, acabando em terceiro lugar em pontos sofridos/jogo, uma grande razão de muitos “bailes” aplicados pelo time. A começar pela linha defensiva, onde o time conta com o gigante nose tackle Dontari Poe, que se tornou o jogador mais pesado a marcar um touchdowns corrido na história, flanqueado por Allen Bailey e Jaye Howard, que são monstruosos contra a corrida, além de terem somado 10 sacks em 2015.

O grupo de linebackers é ainda melhor. Justin Houston, que quase bateu o recorde com 22 sacks em 2014, recebeu um contrato de 52.5 milhões de dólares garantidos na metade do ano passado e é o principal pass-rusher (do time e um dos melhores da liga), acompanhado do veterano Tamba Hali e de Dee Ford que, em seu terceiro ano, deve ganhar cada vez mais importância no time. O time também conta com Derrick Johnson por dentro, que voltou ano passado como que sem sofrer os efeitos da sua lesão no tendão de Aquiles, ainda que não tenha nenhuma clara companhia para completar o 3-4.

A secundária é um misto de grandes jogadores e dúvidas. Por exemplo, como safeties, Kansas City conta com o grande Eric Berry, que voltou a ser um dos melhores da NFL depois de lutar contra um câncer em 2014, e Stevie Brown, que teve uma boa carreira entre 2012-14 antes de machucar o joelho e não conseguir retornar ao mesmo nível. Como CBs, o time tem Marcus Peters, que realizou uma grande campanha já como rookie (raridade entre cornerbacks) e busca uma dupla entre Philip Gaines, que não mostrou muito em dois anos já na NFL, e outros dois rookies: Eric Murray (4ª rodada, Minnesota) e KeiVarae Russel (3ª rodada, Notre Dame); quem sabe Kansas City volte a ter a mesma sorte.

O drama de Alex Smith

Vamos admitir: existem argumentos para os defensores de Alex Smith (não que existam muitos ao redor da NFL). O seu número de interceptações está constantemente entre os mais baixos da liga e, por mais que seja acusado de ser conservador demais para consegui-lo, o seu valor de jardas por passe está na média da liga (11º em 2015, 20º em 2014), assim como seu rating.

Entretanto, em prol dos seus detratores, é conveniente lembrar que ele nunca lançou mais que 23 TDs (2013) e mais de 20 só nesse ano em 10 anos jogados. Além disso, também foi desbancado pelo que hoje é reserva de Blaine Gabbert. Também, em 2014, conseguiu a proeza de não lançar um TD sequer para seus WRs; em 2015, lançou apenas 11 para eles, sendo 8 para um recém-chegado Jeremy Maclin – bizarrices que não acontecem com QBs médios da NFL.

Também no banco, para adicionar pressão e possibilitar especulações para a imprensa, os Chiefs têm adicionado jovens com grandes carreiras na universidade em Tyler Bray, Aaron Murray e Kevin Hogan. Além desses, recentemente também Nick Foles foi trazido e, apesar da decadência clara, é inevitável lembrar que ele foi capaz de uma campanha com 27 TDs e 2 interceptações (em 2013 pelos Eagles de Chip Kelly), e então questionar: será que, nessa máquina tão bem montada, Foles não chegaria mais longe que Smith?

Kansas City Chiefs coach Andy Reid, left, talks with quarterback Alex Smith during the first half of an preseason NFL football game against the San Francisco 49ers at Arrowhead Stadium in Kansas City, Mo., Friday, Aug. 16, 2013. (AP Photo/Ed Zurga)

“Desculpa, seu Leôncio Reid, mas não vai ser dessa vez.”

A máquina bem montada

A linha ofensiva dos Chiefs é boa. Razoavelmente boa. Certamente não tão boa a ponto de que o LT Eric Fisher, primeira escolha do draft de 2013 e excepcional fisicamente, mas com deficiências técnicas, merecesse 40 milhões garantidos, mas coisas bizarras acontecem na NFL. Pelo menos o time contará com o melhor right tackle da NFL, Mitchell Schwartz (vindo de Cleveland), e com o center Mitch Morse, que deverá seguir evoluindo após sua boa campanha de rookie.

Uma das grandes razões da “boa aparência” da linha ofensiva é o jogo corrido. Quando a estrela do time Jamaal Charles se machucou na quinta rodada, a temporada parecia ter acabado – e, ao contrário, o ataque ganhou nova vida com Spencer Ware e Chancandrick West, que somaram mais de 1200 jardas e 11 TDs nos 11 jogos em que substituíram Charles, dando a garantia ao time de que, ainda que a idade lhe pese e não se recupere da segunda lesão no joelho, o jogo corrido da equipe, também contando com o apoio de um dos melhores fullbacks da NFL em Anthony Sherman, seguirá funcionando e garantindo o importante apoio a Alex Smith.

Por fim, por mais que normalmente pareçam subaproveitados por Smith, os Chiefs têm alguns bons alvos no time. O já citado Jeremy Maclin tem feito jus ao seu contrato de 55 milhões de dólares e trabalhado como um legítimo WR1 para o time, sendo o alvo principal; o segundo alvo mais acionado, além de Charles (se estiver saudável), é Travis Kelce (principal opção de Smith no bizarro 2014), que parece um Rob Gronkowski esperando para acontecer em um improvável crescimento do seu quarterback.

Como outras opções de wide receivers, há toda uma mescla que depende mais da criatividade dos co-OCs Brad Childress e Matt Nagy que das próprias capacidades em produzir bons números. Uma possibilidade curiosa fica por conta de Mike Williams, que tem tido dificuldade em manter a forma (e por consequência, lesões) e por maloqueiragens diversas ao longo de sua carreira, mas que recebeu quase 3000 jardas e 23 TDs em seus 3 primeiros anos (2010-12) na liga.

Palpite: Os Chiefs só perdem a AFC West nos próprios vacilos, que, obviamente, tendem a acontecer (ainda assim apostaria neles para ganhar). Infelizmente, é difícil de acreditar que Alex Smith possa vencer algum quarterback mais inteligente que Brian Hoyer nos playoffs – logo, assim que Smith se machucar e for substituído por Nick Foles ou (quem sabe!) Tim Tebow, realizarei aposta em algum site aleatório pelos Chiefs campeões do Super Bowl.