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A distância entre céu e inferno é de uma jarda

Discursos motivacionais são comuns nos esportes e, claro, no futebol americano isso não é exceção. Nas peças que retratam o jogo – sejam as reais, como documentários, ou as fictícias, como filmes -, isso fica bem claro, já que o discurso motivacional é sempre mostrado como uma parte emocionante que pode decidir o futuro de um time.

Se você assistiu a série Last Chance U, você sabe do que estou falando. A forma como o técnico fala com o elenco após (SPOILERS) a briga ao final da primeira temporada fez com que seus jogadores (e boa parte dos telespectadores) perdessem o respeito por ele.

Em contrapartida, no filme Any Given Sunday, Al Pacino fez um discurso motivacional memorável: ele diz que o football é um jogo de centímetros, e esses centímetros fazem a diferença entre a derrota e a vitória. Ao final, a constatação, em tradução livre:

“Ou nós nos recuperamos como um time ou morremos como indivíduos.”

E por que estamos falando disso? Bem, você já sabe que trata-se de um preview para a temporada dos Seahawks. E, se você leu a matéria da ESPN, sabe que, em Seattle, o que vem pela frente, está baseado em uma jogada. A interceptação de Malcom Butler, que selou a vitória dos Patriots no Super Bowl, ainda não foi digerida.

A incapacidade de alcançar a única jarda que faltava para a consagração acabou por ruir a união e a estabilidade de um elenco que parecia destinado a ainda mais glórias. Hoje os Seahawks já não são mais uma equipe 100% unida. A comissão técnica, que é uma das melhores da NFL, já não tem mais o mesmo respeito de seus jogadores. Tudo isso por conta de uma jogada que, apesar das tentativas dos técnicos e da franquia de dizer o contrário, ainda afeta a equipe de Seattle.

O torcedor dos Seahawks, claro, pode discordar da existência dessa “racha” no elenco, e ele tem o direito de fazê-lo. Mas acreditamos que é um problema real, e temos alguns sinais disso. O ponto central da discussão em Seattle é a insatisfação da defesa – em especial Richard Sherman – com o ataque. Podemos elencar diversos momentos que mostram como os Seahawks vencem o jogo por causa da defesa, mas, quando ela falha, o resultado é negativo.

E, em algumas oportunidades, mesmo com brilhantes atuações da defesa, o sistema ofensivo não consegue chegar a vitória (todos lembramos do memorável duelo contra os Cardinals no ano passado: 6×6). Russell Wilson é um ótimo quarterback, mas a visão que seus colegas de time na defesa têm sobre ele é essa.

E, por causa de uma jogada que deu errado e que levantou questionamentos, os Seahawks entram em 2017 com um grande desafio pela frente: se consagrar, como um time. Se não fossem por aqueles 91 centímetros, a narrativa para esse ano seria outra.

Tentando consertar as coisas.

Amigos do Wilson

No ataque de Seattle, há um grande problema: a linha ofensiva. Durante a carreira de Russell Wilson a unidade foi se desmontando aos poucos, sem reposições à altura. Quando perceberam que a situação estava insustentável, já era tarde demais e o setor já havia se tornado uma porcaria.

Para ajudar a resolver o problema, Germain Ifedi foi escolhido na primeira rodada do draft no ano passado, mas não ajudou muito, embora pelo menos seja alguém com potencial – e não um jogador não-draftado que ninguém nunca ouviu falar. O time também foi atrás de Luke Joeckel, que em Jacksonville foi um bust, mas agora há a expectativa de jogar pelo menos um pouco melhor com Tom Cable como seu técnico.

Já no draft desse ano foi escolhido Ethan Pocic, de origem, mas que pode jogar em diversas posições da linha. Center, aliás, que é a posição mais sólida do conjunto, já que Justin Britt, agora de contrato novo, foi o melhor jogador da OL no último ano. O resto dos jogadores ninguém sabe quem são, tirando a comissão técnica, que vive os trocando de posição esperando que produzam algo que não sacks.

No jogo corrido, Thomas Rawls, que quando esteve em campo – seu maior desafio – foi produtivo, disputa posição com Eddie Lacy, que quando esteve no peso ideal – seu maior desafio – foi produtivo. A dúvida fica por conta de qual dos dois jogadores conseguirá superar seus problemas para produzir no sistema, que depende muito das corridas para funcionar. O grupo conta ainda com o versátil CJ Prosise, que mostrou potencial ano passado até, adivinhem, se machucar.

Russell Wilson não verá nenhuma novidade no corpo de recebedores, sendo os três principais o veterano Doug Baldwin, melhor amigo de Russell desde sua entrada na liga; Paul Richardson, que após começo difícil na carreira parece finalmente ter acordado para a vida; e Tyler Lockett, extremamente veloz mas que perdeu parte da última temporada por lesão. Amara Darboh, escolhido na terceira rodada deste draft, fecha o grupo. Se quisermos também podemos falar de Jimmy Graham por aqui, tendo em vista que TIGHT END QUE NÃO BLOQUEIA É SÓ UM WIDE RECEIVER QUE COMEU ESPINAFRE.

Amigos do Sherman

A defesa de Seattle dispensa apresentações. Já fazem quatro anos que o grupo é o primeiro da liga em pontos permitidos por jogo, algo que não é alcançado desde os anos 50. O feito é ainda maior se considerarmos que Earl Thomas se machucou na semana 13 da última temporada. Mesmo não sendo evidente nas estatísticas finais, a lesão de Earl foi um golpe duro para o time, que sentiu multa falta do seu melhor jogador nos playoffs, quando Matt Ryan e cia. não tomaram conhecimento da defesa que enfrentaram.

Em nenhum dos três níveis vemos uma grande deficiência e, mesmo assim, os Seahawks ainda reforçaram a defesa com algumas peças no draft. Malik McDowell e Nazair Jones para a linha defensiva; e ainda toda uma nova secundária, com dois Cornerbacks, Mike Tyson e Shaquill Griffin; e dois Safeties, Delano Hill e Tedric Thompson. Esses jogadores devem ver uma quantidade limitada de snaps, já que, com exceção da posição de CB2, os titulares já estão bem definidos.

Lendo ataques e o Código de Defesa do Consumidor.

Na primeira linha, Ahtyba Rubin e Jarran Reed atuam pelo meio, enquanto Cliff Avril e Michael Benett formam talvez a dupla de pass rushers mais underrated da NFL (não que para eles não haja reconhecimento, mas a verdade é que ambos não são muito lembrados quando discutimos os melhores pass rushers).

Pelo meio, jogam KJ Writght e Bobby Wagner, uma dupla extremamente veloz. Quando um deles não está em campo, a defesa perde consideravelmente. O recém-chegado Michael Wilhoite fecha o corpo de LBs.

Por fim, temos a secundária. A Legion of Boom tem em Richard Sherman, Kam Chancellor e Earl Thomas uma força absurda. É um grupo que rivaliza com unidades como a OL do Dallas Cowboys como o melhor da liga. Aqui, Jeremy Lane deve ser o CB2, mas não seria surpresa se ele perdesse a posição ao longo do ano.

Palpite: Não sabemos até que ponto os problemas dos Seahawks continuarão, mas eles certamente não impedirão o time de vencer a fraca divisão. Resta saber se nos playoffs a equipe conseguirá chegar longe. Força para competir com o resto da NFC o elenco com certeza tem e já mostrou isso.

Análise Tática #7 – Como provamos que kickers não servem para nada

Arizona Cardinals e Seattle Seahawks protagonizaram um dos jogos mais bizarros da história da NFL. Sem muita inspiração ofensiva no tempo normal, que terminou com o ridículo placar de 3×3, os times acabaram trocando FGs na prorrogação e empataram por 6×6, em uma sequência de eventos que desafia nossa capacidade de acreditar no impossível.

O Arizona Cardinals teve a primeira posse de bola no tempo extra e saiu na frente com um FG de 45 jardas do K Chandler Catanzaro. Para continuar vivo, o Seattle Seahawks precisava pelo menos chutar um FG e empatar a partida, o que acabou acontecendo, com um chute de 36 jardas de Steven Hauschka.

A partir daí, qualquer pontuação venceria o jogo. Mas o improvável aconteceu: depois de dois bons drives, em que os ataques conseguiram chegar muito perto de marcar o TD da vitória, Catanzaro e Hauschka perderam FGs de 24 e 28 jardas, respectivamente, e nos presentearam com o primeiro empate na NFL desde 2014. Além da emoção dos dois chutes perdidos no final da prorrogação, tivemos também a consolidação da nossa certeza de que kickers não são seres humanos e não merecem respeito. Pelo menos não foi nos playoffs, não é verdade, Blair Walsh?

Assim como a capacidade dos kickers de acertar chutes curtos, a performance ofensiva de Cardinals e Seahawks no tempo normal foi péssima, na prorrogação os ataques conseguiram mover a bola e quase marcaram TDs que evitariam a vergonha dos kickers. A seguir analisaremos duas jogadas que poderiam ter vencido a partida na última posse de bola de cada time.

David Johnson:

O Arizona Cardinals teve a bola na linha de 5 jardas do Seattle Seahawks, na melhor chance de marcar o TD e acabar com o jogo ali mesmo. A melhor opção para entrar na endzone era entregar a bola para o RB David Johnson, certamente o melhor RB da liga nesse ano. O Cardinals colocou dois WRs na parte de baixo da tela que fariam o bloqueio para Johnson, enquanto o Seahawks congestionou o meio do campo. Com o bloqueio dos WRs, Johnson teria apenas um marcador individual na parte de baixo da tela.

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Quando recebeu a bola, o RB do Cardinals percebeu que não conseguiria nada pelo meio e cortou rapidamente em direção à lateral. A movimentação do jogador do Seahawks no meio do campo, em cima da linha da endzone, seria decisiva para o desfecho da jogada.

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Johnson conseguiu abrir vantagem em relação aos defensores e parecia ter caminho livre para marcar o TD da vitória.

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Mas a persistência dos defensores do Seahawks fez com que Johnson parasse a cerca de 5,37 cm da endzone e forçou a demonstração de brilhantismo do K do Cardinals.

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Doug Baldwin:

Após o chute errado de Arizona, foi a vez de Seattle mover a bola desde a sua linha de 1 jarda e chegar em posição de anotar os pontos da vitória. A jogada mais espetacular do drive foi uma recepção do WR Doug Baldwin, posicionado no slot e com rota em direção à lateral. A movimentação em direção ao meio do campo do WR posicionado na parte de baixo da tela foi decisiva para que Baldwin recebesse o passe e pudesse tentar o avanço.

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Quando recebeu a bola, Baldwin tinha apenas um CB em marcação individual. O Safety, na linha de 20 jardas, já se movimentava em direção à bola. Ambos seriam vergonhosamente batidos.

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Primeiro foi o CB que não conseguiu acompanhar a velocidade de Baldwin e perdeu o tackle.

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Depois foi a vez do S, que tentou um tackle baixo e foi basicamente humilhado.

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Baldwin só foi parado na linha de 10 jardas, em uma excelente posição para que o kicker ganhasse o jogo. Infelizmente, como já mencionamos, kickers não servem pra nada.

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A única OL no caminho da Legion of Boom é a de Seattle

E chegamos ao final dos previews dos times da NFL, assim como chegou ao fim da carreira do sempre polêmico, mas muito eficiente dentro de campo, running back Marshawn Lynch, depois de uma temporada em que sofreu muito com lesões e atrapalhou a vida dos repórteres (alegrando a nossa) com seu tradicional “só estou aqui para não ser multado”.

De qualquer forma, mesmo perdendo um de seus melhores jogadores, não é como se o time de John Schneider e Pete Carroll parecesse sentir – sempre parece haver um substituto pronto, como vimos com Brandon Browner para Byron Maxwell para Jeremy Lane, ou com o surgimento de Thomas Rawls substituindo Lynch no ano passado. Ano vai, ano vem, e Seattle novamente parece presença certa nos playoffs e um candidato certo para o Super Bowl.

Obviamente não há uma razão clara apenas para o sucesso dos Seahawks, porque muitas coisas são muito bem-feitas: como o bom trabalho dos coordenadores de Carroll (mais raro nessa liga do que deveria) e a capacidade de encontrar novos jovens jogadores constantemente (terão 16 rookies no time em 2016).

E a sorte é uma componente muito presente nesse sucesso também: desde ter encontrado um QB elite, Russell Wilson, na terceira rodada do draft, que não se machuca nunca, até o erro de Blair Walsh no final do jogo de wildcard – que eu, como torcedor de Minnesota, não superarei tão cedo.

O resto é muito bom, mas a OL é um lixo

Antes de escrever sobre os Seahawks, consultei alguns amigos em busca de alguma história importante que tivesse deixado passar durante a pré-temporada, mas além de críticas gratuitas sobre Jimmy Graham (mais a seguir), a única grande impressão que deixaram é: a linha ofensiva que já era ruim, conseguiu ficar pior (último lugar no ranking da PFF) com as saídas de Russell Okung (que apesar de ter perdido vários jogos por lesão, tem qualidade) e do já mediano J.R. Sweezy.

O melhor jogador da linha provavelmente é o razoável center Justin Britt, e daí é só ladeira abaixo. O guards serão o rookie German Ifeidi, escolhido no final da primeira rodada, que terá sua oportunidade de provar seu valor junto com Mark Glowinski, escolhido no draft de 2015, mas que não jogou muito no ano passado. A situação dos tackles, por último, não dá qualquer esperança: afinal de contas, provavelmente só sabemos que Bradley Sowell e Garry Gilliam existem porque anunciamos já que eles matarão Russell Wilson.

Essa cena deverá ser mais comum essa temporada. E não por vontade de Wilson.

Essa cena deverá ser mais comum essa temporada. E não por vontade de Wilson.

Russell Wilson é a esperança

De qualquer forma, pelo menos na temporada regular contra defesas medianas ou não tão motivadas (difícil fazer os gordões darem o máximo de si o tempo inteiro, né), Wilson deverá ser o suficiente para livrar a cara dessa OL, porque além de realizar um bom trabalho dentro do pocket (mesmo que esse não deva se formar bem), ele trabalha muito bem com as pernas, como mostram seu rating de 110.1 e suas 553 jardas corridas no ano passado.

Thomas Rawls e Christine Michael também parecem que conseguirão dar um jeito de trabalhar atrás dessa linha, se a preseason e o ano passado são alguma indicação. Rawls teve uma média absurda de 5.6 jardas por corrida quando conseguiu tomar a posição de Lynch no time titular, enquanto Michael parece destinado a finalmente mostrar seu potencial de segunda rodada (depois de muitas idas e vindas nesses quatro anos de NFL), tendo uma média de 6 jardas por corrida nos jogos amistosos de começo de temporada.

Por último, os recebedores, apesar de não serem grandes nomes (a exceção de Jimmy Graham, que foi envolvido em uma grande troca em 2015 e até agora só decepcionou em meio as lesões), são no mínimo extremamente sólidos. Doug Baldwin era um WR2 de carreira até assustar a liga com 14 touchdowns no ano passado, enquanto também deveremos ter grandes jogadas de Jermaine Kearse e especialmente Tyler Lockett (664 jardas ano passado), agora em seu segundo ano, que foi o único rookie a ser nomeado All-Pro como retornador.

Legion of Boom versão 5.0

Já faz quatro anos que a defesa do Seattle Seahawks é a que menos sofre pontos na NFL e não há uma razão para acreditar que isso vá mudar, já que considerando que ano passado eles começaram muito mal, com um Kam Chancellor mal preparado por conta de brigas contratuais, e ainda assim deram a volta por cima e chegaram à média (à sua média, obviamente, acima de todos os outros times com seus 17.6 pontos cedidos por jogo – inclusive se lembramos que a defesa dos Broncos é teoricamente a melhor da liga e vencedora do Super Bowl).

Cliff Avril e Michael Bennett retornam à titularidade e assumem novamente a responsabilidade de ser os principais a chegar ao QB adversário, e deverão conseguir mais que os 19 sacks que produziram ano passado, o que só irá melhorar o desempenho da defesa. Também contarão com a ajuda de Frank Clark para executar bem sua tarefa, já que o jogador deverá seguir evoluindo em seu segundo ano, além do veterano Chris Clemons, que já teve grandes momentos em Jacksonville, especialmente para substituírem a produção de Bruce Irvin, que partiu para Oakland.

O back seven, por último, deverá seguir sendo incrível e o principal responsável por acabar com a vida dos ataques adversários. Os linebackers KJ Wright e Bobby Wagner seguirão dominando todos os níveis de jogo, tornando impossível correr contra e lançar nas rotas curtas e intermediárias.

E tampouco é como se lançar as rotas longas vá ser fácil: Kam Chancellor estará de volta, dessa vez até fazendo uma aparição em dois jogos da pré-temporada, enquanto Earl Thomas seguirá sendo Earl Thomas e Richard Sherman seguirá bloqueando o seu lado do campo, como já é tradicional.

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Mais um ano aguentando Richard Sherman e tendo que aplaudir sua arrogância, sim.

Palpite: 12-4 e fé para os playoffs. Entretanto, por mais que a boa campanha garanta a vantagem de jogar pelo menos um dos jogos ao lado da sua infernal torcida, ter problemas com a linha ofensiva é o tipo de coisa que acaba voltando quando a coisa fica séria contra defesas de alto nível. É exatamente o que acabará acontecendo com Seattle e não será esse ano que eles voltarão ao Super Bowl.