Posts com a Tag : Dontari Poe

A (des)construção de legados

Há três anos, Cam Newton foi eleito o jogador mais valioso da NFL. Na mesma temporada, chegou ao Super Bowl e esteve muito perto de conquistar o Lombardy Trophy. Seu nome não foi escrito na história como vencedor; do outro lado havia um time melhor, é claro, mas é importante lembrar que, no último quarto da maior partida de sua vida, Newton hesitou em pular na bola em um fumble que ele mesmo sofreu. Apenas parou, contemplou a bola na sua frente e assistiu o Denver Broncos recuperar a posse e virtualmente ganhar a partida.

A jogada é um reflexo da montanha-russa que é a carreira de Cam Newton. No mesmo ano em que se tornou o melhor jogador da liga, desistiu de lutar em um lance que daria ao seu time a chance de virar o jogo. Parece apenas mais uma jogada – e realmente um atleta não pode ser julgado por uma decisão questionável em uma fração de segundos – mas escancara que Cam é o QB dos extremos: quando está bem, não é possível pará-lo; quando está mal, vai direto para o fundo do poço.

Apesar das oscilações, é possível dizer que Newton tem, sem dúvidas, uma boa carreira na NFL. Sua habilidade como corredor o torna uma arma única na história da liga. Apenas Michael Vick e Randall Cunningham tem mais jardas corridas entre QBs. Newton, em apenas sete temporadas, já tem o recorde da liga de TDs corridos por QBs, com 54. Em compensação, lançando a bola, tem apenas uma temporada com mais de quatro mil jardas e apenas em 2015 ultrapassou a marca de 30 TDs passados. Além disso, em  todas as temporadas como profissional, lançou mais de dez interceptações.

Newton é um bom jogador e tem qualidades peculiares, mas a diferença entre seus números como passador e como corredor impede que ele seja colocado entre os grandes QBs. A falta de um título também. Joe Flacco e Eli Manning sabem como uma carreira pode ser alavancada quando um troféu está em suas mãos. Aos 29 anos, e ainda em busca de um Super Bowl, Cam Newton se aproxima de uma fase em sua carreira que definirá como ele será lembrado.

O texto chega em seu quinto parágrafo e o nome do time em que Cam Newton joga ainda não foi mencionado. É estranho, já que o objetivo é antecipar a temporada do time – e não do atleta. Mas é perfeitamente justificável, já que, por bem ou por mal, Cam Newton é o Carolina Panthers. E o Carolina Panthers é Cam Newton.

A chegada de Norv Turner

Coordenadores ofensivos são peças valiosas no jogo de xadrez da NFL. O Atlanta Falcons, que passou de Kyle Shanahan para Steve Sarkisian e teve uma queda de produção considerável, pode confirmar esse ponto. Desde que entrou na NFL, em 2011, Cam Newton sempre teve ao seu lado Mike Shula – nos primeiros anos como técnico de QBs e depois como coordenador ofensivo.

Não é exagero dizer que muito do que Newton é vem de Mike Shula, que foi demitido após o fim da temporada 2017. De acordo com o Head Coach Ron Rivera, a demissão foi o resultado do desejo de trazer novas ideias para um ataque que não conseguia mais brilhar desde a espetacular temporada de 2015, que rendeu o prêmio de MVP para Newton.

O substituto é Norv Turner, um dos mais notáveis coordenadores ofensivos da NFL nos últimos anos, que agora fará parte da construção da parte final do legado de Cam Newton. O casamento parece promissor. Turner teve sucesso com QBs como Philip Rivers, que tem as mesmas características de Newton como passer: grandes, com braços fortes, que exploram passes em profundidade.

Turner provavelmente tentará explorar a força física de Cam e não a sua (falta de) precisão em passes curtos. É fundamental, é claro, que Newton não tenha o seu diferencial prejudicado: ele não pode parar de correr. De qualquer forma, Turner pode trazer o oxigênio que faltava para a carreira de um QB que parece ter atingido seu auge como passador em 2015.

Para colocar em prática o ataque vertical de Norv Turner, Cam terá a sua disposição os velhos conhecidos Greg Olsen e Devin Funchess. Olsen já não é um dos tight ends mais talentosos da liga, mas é um dos mais eficientes. Seu entrosamento com Newton é notável e a diferença do ataque sem Olsen, que perdeu várias semanas em 2017 com uma contusão no pé, é mais notável ainda. Funchess não é um grande jogador, mas já se mostrou útil em algumas oportunidades e agora tem a missão de substituir Kelvin Benjamin, que também não é nenhum primor, pela temporada inteira.

Porém, Olsen e Funchess não parecem ser suficientes para o que o Panthers pretende fazer em 2018. No draft, o time gastou uma escolha de primeiro round no WR D.J. Moore, que vem causando frisson na pré-temporada com sua habilidade pós-recepção. Moore pode acrescentar uma nova dimensão ao ataque do Panthers. Além dele, também chegou o veterano Torrey Smith, que a essa altura de sua carreira não parece capaz de causar muitos estragos.

Além de colocar o ataque aéreo para funcionar, o Panthers precisa achar uma maneira de obter ainda mais da sua escolha de primeiro round de 2017. Christian McCaffrey teve um desempenho sólido em 2017, mas apresentou dificuldades especialmente correndo entre os tackles. Como a habilidade principal McCaffrey não é quebrá-los, Turner terá que usar a criatividade para extrair tudo o que uma escolha tão alta precisa proporcionar ao time. Para fazer o trabalho sujo, chega o bom CJ Anderson, que parece ser um substituto ideal para o dispensado Jonathan Stewart.

Um baita front seven

Quando se fala em Carolina Panthers, é natural que a figura de Cam Newton venha à mente. Mas o Panthers tem a sorte de ter um franchise player tanto no ataque quanto na defesa. Luke Kuechly é o melhor middle linebacker da liga e comanda um dos front sevens mais temidos da NFL.

Kuechly é tão bom que, se não fosse ofuscado pela presença de Cam, seria tão badalado quanto JJ Watt e Von Miller. Junto com Thomas Davis e Shaq Thompson, Kuechly forma o melhor grupo de LBs da liga. Porém, nem tudo é perfeito: Kuechly passou pelo protocolo de concussão nas últimas três temporadas e Thomas Davis está suspenso pelos quatro primeiros jogos.

A linha defensiva, que em 2017 terminou a temporada em terceiro em número de sacks, perdeu o bom Star Lotulelei. Dontari Poe (que já concedeu entrevista ao Pick Six e é um dos maiores QBs da história), chega para substituí-lo.

Ao seu lado, na posição de tackle, Kawann Short é bastante efetivo. Os defensive ends são idosos, mas continuam mostrando trabalho. Julius Peppers e Mario Addison lideraram o time em sacks no ano passado, com 11 cada. Resta saber até quando vão durar, já que ambos estão na casa dos 30 anos.

É fundamental que o front seven faça um bom trabalho, pois as deficiências da secundária precisam ser compensadas. Não se sabe quem vai jogar do lado oposto a James Bradberry, que não é conhecido por fazer grandes jogadas.

Os demais jogadores que compõe a unidade, como Mike Adams e Captain Munnerlyn (que deveria ganhar o prêmio de nome mais valioso), são veteranos medianos que já não estão mais no auge. É difícil imaginar essa secundária tendo que enfrentar os ataques de New Orleans Saints e Atlanta Falcons duas vezes por ano e não sendo dizimada. É rezar para que o front seven não permita que a bola nem seja lançada.

Palpite

O Carolina Panthers de 2017 era um bom time, mas teve um pouco de sorte de chegar ao recorde de 11-5. Dos oito jogos com placares apertados, o time ganhou sete. Dificilmente essa marca será repetida. É provável que o Panthers figure no famigerado quadrinho “in the hunt” das televisões americanas até o fim da temporada, mas é difícil imaginar um cenário com mais de nove vitórias. Na NFC, que tem por volta de dez times que podem tranquilamente chegar aos playoffs, não é suficiente. A base do time é forte, mas falta um pouquinho mais para competir com New Orleans Saints e Atlanta Falcons. É possível cravar um 9-7 e Cam Newton sentado no sofá em Janeiro. Pelo menos ninguém vai reclamar que ele não pulou na bola.

Atlanta, Kansas City, a touchdown: a talk with Dontari Poe

What’s your favorite play from last season? One of Antonio Brown’s insane receptions? A spetacular catch from Odell? Le’Veon Bell smoothly running through defenders? Maybe the blocked FG that the Broncos returned to score two points against the Saints?  Or Julian Edelman’s miracle in the Super Bowl?

Well, we respect your choice, but we believe there’s no debate: nothing was prettier than NT Dontari Poe and his 340 pounds finding TE Demetrius Harris completely open in the endzone on Christmas’ night – sending home the former Super Bowl champions Denver Broncos.

Until that moment, no NFL teams had trusted someone like Poe to throw a football – and the Chiefs trusted him to end the postseason chances of one of their biggest rivals. The play starred by Dontari was something extremely rare and beautiful: a guy with his size speeds up, suddenly stops and then rises up, almost in slow motion, and finds the open receiver… the truth is huge bodies aren’t supposed to move so “poetically”. And heavy human beings shouldn’t be capable of putting such a delicate touch on the ball.

You know, sometimes we played during practice. I like to throw the ball without great pretensions. We practiced the play a lot. Inside the field, it’s all about being prepared.”, says Poe, who currently plays for the Atlanta Falcons, in an interview for Pick Six. “Deep inside, I knew it would work, because we practiced that several times. It was a fun play to execute”, he adds.

Poe became the heaviest player in NFL’s history to pass for a TD. The previous record belonged to JaMarcus Russel, with 265 pounds and, well, Russel was a quarterback, not a nose tackle – and it’s Worth remembering that, in the end of 2015, Dontari also had become the heaviest man to run for a TD, passing William “Refrigerator” Perry and his “insignificant” 335 pounds.

A nice guy!

Roots

Another unusual fact in Dontari’s life is that, unlike most Young americans, he had never played football before high school. “I was part of the school’s band, coach Miller saw me and wanted me to play. It was simple: I ended up liking and he motivated me to get better”, he remembers.

Poe then consolidated himself as one of the most promissing prospects of the state of Tennessee and decided to join University of Memphis, where he spent three years before declaring for the NFL draft and becoming the school’s first player to be selected in the first round.

Looking back now, it may seem unbelievable… But I work really hard”, he says. “I had many amazing teammates and coaches. If you have a dream, in the end of the day, it’s just about how much you’re going to work hard to achieve it”.

The connection to Memphis remains untill now: if the city launched Poe to pursue his dreams and football changed his life, making him a professional athlete, his goal now is to retribute. “The Poe Man’s Dream Foundation’s objective is helping kids. I wanted to give something back to Memphis, it was a very good place for me”, he adds.

We want to give the chidren the abilities and the resources that will allow them to be successfull. We are just starting and are going to work to check their needs and help them”, he completes, reminding that his Project has multiple pilars, like food, education and, of course, sports.

Past and future

During the last free agency period, Dontari visited multiple cities, like Indianapolis, Jacksonville and Miami. But he opted for Atlanta, in a one year contract to prove his value and rejoin Scott Piolli, now assistant general manager for the Falcons – when he was Chiefs’ GM, Pioli selected Poe with the pick 11 of the 2012 draft.

I’m grateful for the opportunity Scott gave me in Kansas City. Of course, Pioli being here is a great bonus, but, anyway, Atlanta has a great team and I can contribute to the franchise: I’m anxious to be a Falcon”, he says, without forgetting the five years he spent in Kansas City.

Chiefs fans are great. They supported me during the whole time there and I will miss them. Believe what you hear on TV: they are really loud, but it gives you energy to play hard, after all, you don’t want to disappoint them.”

Atlanta, Kansas City, um TD: uma conversa com Dontari Poe

Qual sua jogada favorita da última temporada? Alguma recepção insana de Antonio Brown? Um TD improvável de Odell? Algum momento em que Le’Veon Bell tenha desfilado em campo? Talvez o bloqueio de FG retornado para dois pontos pela defesa do Broncos contra o Saints? Ou ainda o milagre de Julian Edelman no Super Bowl?

Bom, respeitaremos sua escolha, mas acreditamos que não há debate: nada foi mais bonito que o NT Dontari Poe e suas 340 libras (ou quase 155 kg) encontrando o TE Demetrius Harris livre na endzone na noite de natal – e eliminando o então campeão Denver Broncos.

Até então nenhuma equipe da NFL havia confiado em alguém como Poe para lançar uma bola – e os Chiefs confiaram nele para sepultar as chances de pós-temporada de um de seus maiores rivais.

O momento protagonizado por Dontari foi algo extremamente raro e belo: alguém com seu tamanho aumentar a velocidade, parar repentinamente e então levantar quase em câmera lenta e encontrar um recebedor livre… a verdade é que nenhum corpo tão imenso pode se mover tão poeticamente. E nenhum ser humano tão pesado seria humanamente capaz de colocar na bola um toque tão delicado.

“Sabe, às vezes nós brincávamos durante o treino. Gosto de lançar a bola sem maiores pretensões de vez em quando. Treinamos a jogada bastante. Dentro de campo, é tudo sobre estar preparado”, diz Poe, hoje no Atlanta Falcons, em entrevista ao Pick Six. “No fundo, sabia que daria certo porque nós treinamos isso várias vezes. Foi uma jogada divertida de se executar”, completa.

E assim Poe se tornou o jogador mais pesado da história da NFL a passar para um TD. O recorde anterior pertencia a JaMarcus Russel, com 265 libras (120kg) e, bem, Russel era um quarterback, não um nose tackle – e é válido lembrar que, no final de 2015, Dontari também já havia se tornado o homem mais pesado a marcar um TD correndo, quebrando a marca de William “Refrigerator” Perry e suas insignificantes 335 libras.

É muita simpatia!

Raízes

Outro fato inusitado na vida de Dontari é que, diferente da maioria dos jovens americanos, ele nunca havia jogado football antes do high school. “Estava na bandinha, o técnico Miller me viu e quis que eu jogasse. Foi simples: acabei gostando e ele me incentivou a melhorar”, relembra.

Poe então se consolidou como um dos prospectos mais promissores do estado do Tennessee e decidiu se juntar a Universidade de Memphis, onde passaria três anos antes de se declarar para o draft e se tornar o primeiro jogador da história da universidade a ser selecionado na primeira rodada.

“Olhando agora, pode parecer inacreditável… Mas realmente trabalho duro”, diz. “Tive muitos colegas e treinadores incríveis. Se você tem um sonho, no final do dia, é sobre o quanto você irá trabalhar e se esforçar para alcançá-lo”.

A ligação com Memphis segue até os dias de hoje: se a cidade impulsionou Poe atrás de seus sonhos e o football mudou sua vida, tornando-o um atleta profissional, seu objetivo agora é retribuir.

A Poe Man’s Dream Foundation é para ajudar as crianças. Quis dar algo de volta para Memphis, foi um lugar muito bom pra mim”, reforça.

Queremos dar às crianças as habilidades e os recursos necessários para terem sucesso. Só estamos começando e vamos trabalhar para ver quais são as necessidades e, assim, ajudá-las”, completa, lembrando que seu projeto trabalha diversos pilares, que vão desde a alimentação a educação, além, claro, do esporte.

Passado e futuro

Na última free agency, Dontari visitou diversas cidades, como Indianapolis, Jacksonville e Miami. Mas acabou optando por Atlanta, em um contrato de um ano para provar seu valor e novamente encontrar Scott Pioli, hoje assistente geral dos Falcons – ainda como GM do Chiefs, Pioli selecionara Poe com a pick 11 do draft de 2012.

“Sou grato pela oportunidade que Scott me deu em Kansas City. Claro, Pioli estar aqui é um ótimo bônus, mas de qualquer forma, Atlanta tem um ótimo time e posso contribuir bastante com a franquia: estou ansioso para fazer parte do Falcons”, afirma, sem esquecer os cinco anos que passou em Kansas.

Os torcedores de Kansas City são ótimos. Eles me apoiaram durante toda minha passagem e sentirei falta deles. Pode acreditar no que ouve pela TV: são realmente barulhentos, mas isso só te dá energia para jogar duro, afinal, você não quer decepcioná-los”.