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Análise Tática #14 – Semana #7: O drive da vitória do Oakland Raiders

Poucas coisas no football são mais bonitas que um two-minute drill bem gerenciado. O momento em que a onça bebe água, a hora que separa os homens dos meninos. É exatamente aí em que as lendas nascem, não à toa que um dos maiores gerenciadores de two-minute offenses (sdds Peyton) é o responsável por eu estar escrevendo isso neste momento.

Derek Dallas Carr, 26 anos, irmão de David Carr (primeira escolha da história do nosso glorioso e tradicional Houston Texans), teve sua vida destinada a brilhar nesse esporte. Responsável por devolver o Oakland (por enquanto) Raiders aos seus momentos de glória, o QB recebeu um salário de 25 milhões de dólares anuais na última offseason.

Em sua quarta temporada na NFL, a escolha de segunda rodada vinda de Fresno State ainda tem alguns problemas: imprecisão nos passes, pressa no pocket, ineficiência em terceiras descidas, leituras arriscadas e baixa média de jardas por tentativa.

Em 2014, sua primeira vitória na NFL veio exatamente contra os Chiefs após uma jogada digna de piores momentos da semana (a coluna da família brasileira)Agora que você já sabe quem é Derek Carr (achamos importante apresentá-lo a nossa maneira), já pode ler, abaixo, um dos momentos mais divertidos de sua carreira.

Vocês perceberam na semana passada, que, apesar do título, apenas quatro ou cinco jogadas não são o suficiente para entender o que de fato ocorreu em um jogo. Por isso, nessa semana, o foco será o drive final do Oakland Raiders em sua totalida (também não ajudará no contexto macro da partida, vejam o tape completo, é divertidíssimo). O mesmo resultou na vitória por 31-30 no último Thursday Night Football (que em 2017 tem sido assustadoramente divertido).

Após sack dividido entre Khalil Mack e Denico Aultry, os Raiders receberam a bola restando 2:25 no relógio na linha de 25 jardas do campo de defesa, com um tempo por pedir. Foram 16 snaps, sendo 11 jogadas de ataque, 4 faltas e 1 extra point. 85 jardas até a vitória.

Durante esse drive, Derek Carr saiu do shotgun em todos os snaps. Na primeira jogada, o alvo é o WR Amari Cooper, alinhado como o recebedor X. Os Raiders se alinham em formação shotgun ace, com 3 recebedores do lado direito e Cooper isolado. Os Chiefs demonstram uma formação de Cover 2, com Marcus Peters alinhado para marcar em zona (repare que ele volta seu quadril em direção ao QB) e Terrance Mitchell marcando Cooper individualmente.

Após o snap, as rotas se desenvolvem de forma a deixar Amari Cooper, executando uma rota comeback, com marcação individual. Cabe ao mesmo vencer a press coverage de Mitchell na linha de scrimmage e se posicionar para receber o passe.

Ao receber a bola, Cooper se livra de dois marcadores girando o corpo para dentro, até ser tackleado no meio do campo. O two-minute warning parou o relógio ao fim dessa jogada. Os próximos dois lances foram malsucedidos para Oakland após Derek Carr colocar uma bola muito baixa para Amari Cooper no meio do campo e em seguida Johnny Holton cometer um offensive pass interference flagrante.

Em uma situação de 2nd & 20, com 01:47 restantes no relógio, Oakland volta a se alinhar em shotgun, dessa vez com um TE para ajudar nos bloqueios. Os Chiefs mostram blitz e dois safeties na cobertura antes do snap, porém apenas quatro homens iriam perseguir o signal caller.

Novamente Amari Cooper é o alvo da jogada e se encontra alinhado sozinho no lado esquerdo do campo como X. Ele executará primariamente uma rota post em direção ao símbolo dos Raiders no meio do campo. Derek Carr identifica o posicionamento dos safeties (primeira leitura pré-snap que todo QB deve fazer), e aliado à situação relógio-placar, sabe que enfrentará coberturas em zona.

Após um 3-step dropback um pouco atrapalhado, Carr tem o pocket limpo, e com os olhos, consegue atrair um dos safeties para a esquerda (você não o vê acima, mas o verá abaixo) da imagem. Enquanto isso, Cooper vende aos seus marcadores uma rota corner. Logo após, o recebedor executa um double move em direção ao meio do campo, o que configura a post mostrada na imagem antes do snap. Em vermelho, mostra-se a janela que Derek tem no momento do passe, facilmente completado pela excelente coordenação e conhecimento de playbook entre o QB e seu recebedor.

Na minha terra isso tem nome. “Livre pra caralho”, o nome.

Como dito anteriormente, Derek Carr ainda tem alguns problemas a corrigir. O principal deles é se livrar rápido demais da bola, mesmo com pockets limpos (medo de lesões, talvez?). Aqui, observa-se no lado direito um conceito semelhante ao levels (sdds Peyton), em que duas rotas se quebram para o meio ou para a linha lateral em amplitudes diferentes do campo. O objetivo dessa jogada é causar estresse na cobertura em zona, principalmente na comunicação entre CB/S, aproveitando os espaços.

Pode-se contestar que nessa jogada, a linha ofensiva não segurou os bloqueios por tempo suficiente para deixar a rota em azul se desenvolver. Entretanto, parte da proteção contra o passe também é responsabilidade do QB, que deve se posicionar no ponto ideal. Jogadores de OL geralmente treinam a coordenação de pass-protection com dummies posicionados no ponto de proteção, e o QB deverá permanecer no pocket, conforme mostra Pat Kirwan em seu livro Take Your Eye off the Ball (paga nois, Amazon).

Na imagem acima, Derek se desespera com o pass rush e ativa a rota de checkdown, enquanto havia um espaço considerável para escalar no pocket. Observe que o QB mantém corretamente seus olhos vagando pelo lado direito do campo, forçando os safeties a abrirem um espaço no seam. Caso tivesse mantido a calma e andado para frente, Carr poderia conseguir um ganho de aproximadamente 25 jardas para os Raiders. Aqui, houve uma perda de 1 jarda, além do relógio continuar rodando após o tackle dentro de campo.

Os próximos snaps resultaram em passes incompletos após bolas mal colocadas por Derek Carr, o que colocou os Raiders em uma situação de 4th & 11 com 00:41 restantes no relógio.

Formação de empty backfield com 5 recebedores espalhados pelo campo, enquanto os Chiefs colocam três defensive backs no fundo. As rotas são todas verticais e Jared Cook é o alvo da jogada. Ele precisa vencer o marcador fisicamente e receber a bola na marca do first down, enquanto os demais recebedores afastam a marcação em zona para o fundo do campo.

Contra um jogador mais baixo e mais fraco fisicamente, Jared Cook consegue se desvencilhar da marcação, recebe um passe alto e alcança a linha de first down na força física. Conversão que manteve os Raiders vivos na partida.

Nas duas jogadas seguintes, Derek Carr arriscou bolas em cobertura dupla no melhor estilo Brett Favre, duas interceptações dropadas pela defesa dos Chiefs.

Jogou de peruada.

A partir de então, o jogo virou a esquina da loucura. Raiders em 3rd & 10 na linha de 29 do campo de ataque, alinhados em shotgun ace com três recebedores na parte esquerda e apenas um na parte direita. Conceito four verticals (aquela jogada que você usa no Madden até ficar chato) e Jared Cook alinhado de Split-end, receberá uma jump ball na direção do pylon à beira da endzone. Cook recebe a bola e se joga em direção à endzone. Touchdown! Porém, após a revisão da jogada, observou-se pela pylon cam que houve um down by contact a um fio de cabelo da endzone. Após a reversão do lance, a arbitragem retirou 10 segundos do relógio (alguns torcedores do Lions infelizmente morreram) e o Raiders teve 1st & goal na linha de 1 jarda. Os Raiders não correram com Marshawn Lynch pois esse já havia saído na mão com um árbitro e fora devidamente expulso da partida.

Tal qual o nosso Titans (quem é sabe), foi quase.

Houve faltas nos próximos 3 snaps, uma para os Raiders, após Michael Crabtree empurrar demais o coleguinha em uma jogada de fade, e duas seguradas defensivas dos Chiefs, uma delas com o cronômetro zerado. Segundo a regra, se houver uma falta defensiva no momento em que o cronômetro atinge zero, a falta é aplicada e o ataque recebe mais uma jogada. Isso aconteceu duas vezes seguidas nessa partida, salva de palmas para a defesa de Kansas City – ser burro dessa forma é um feito e tanto.

Sem tempo no relógio, Raiders na linha de 2, com shotgun ace e 11 personnel. Nas duas jogadas anteriores, Carr havia tentado 2 passes no meio da endzone, e aqui os Chiefs protegem a linha de gol pelo meio. Após várias chamadas contestáveis ao longo da partida, o coordenador ofensivo, Todd Downing faz Derek Carr executar um roll-out para esquerda, enquanto Michael Crabtree se direciona ao pylon.

Um passe contra o movimento natural do corpo, Derek Carr mostra a força de seu braço. Michael Crabtree protegeu de forma inteligente com o corpo o ponto de recepção, não permitindo que Terrance Mitchell defendesse o passe. O interessante é que a jogada havia sido treinada para o lado contrário, mas Oakland decidiu invertê-la para evitar a cobertura de Marcus Peters.

Vitória dos Raiders em um dos melhores jogos de quinta-feira dos últimos tempos, em que sabemos que os times chegam despreparados ou cansados pela semana curta. A NFL está em um nível de loucura tão absurdo que os melhores jogos de primetime dessa temporada foram exatamente na quinta-feira.

Os torcedores de Chiefs e Raiders ainda não tinham experimentado emoção suficiente, então coube ao kicker Giorgio Tavecchio selar a vitória dos Raiders em um extra point. O mesmo já havia perdido dois field goals ao longo da partida.

Com a vitória, os Raiders dão sobrevida à sua temporada, record de 3-4, sendo 1-2 dentro da AFC West. Do outro lado, será que estamos vendo nos Chiefs (5-2) mais um time começar bem e implodir após cinco jogos? (vide Falcons em 2015 e Vikings em 2016).

Diego Vieira, o estagiário prodígio, mora em Manaus e não é atingido pelo horário dos jogos. Maldito.

Podcast #4 – uma coleção de asneiras IV

Discutimos as principais surpresas da NFL e, depois, com o objetivo de fazer ainda mais inimigos, apresentamos jogadores supervalorizados ao redor da liga.

Também apontamos nosso Super Bowl dos sonhos – sem essa de Patriots x Seahawks, ninguém aguenta mais. Por fim, como já é comum, sugerimos alguns jogos para o amigo leitor ficar de olho!

Participação especial: Vitor, do @tmwarning.

Agradecemos a atenção e desde já nos desculpamos por pequenas falhas no áudio – somos eternos amadores em processo de aprendizagem. Prometemos que, se existir um próximo, será melhor.

Em busca da redenção

Os Raiders terminaram a temporada passada com mais vitórias do que derrotas e retornaram a pós-temporada pela primeira vez desde 2002. Apesar disso, ela terminou de forma nada agradável, com um anunciado segundo divórcio com Oakland e um casamento com Las Vegas com data marcada – em um roteiro de traição digno das melhores (piores) novelas mexicanas.

Mas tudo começou a ruir quando Derek Carr fraturou sua perna direita em um lance sem nenhum sentido lógico, durante uma vitória por 33 a 25 contra o Colts na tarde anterior ao Natal. Depois, já sem Carr, Oakland foi destroçada por Denver (24-6), terminando a temporada regular 12-4, para depois ser derrotado por Houston por 27 a 14 no wild card em uma partida em que assistimos Connor Cook (cuzão) desfilar toda sua incompetência e ensinar ao HC Jack Del Rio uma importante lição: “Não perca seu quarterback”, declarou durante o último NFL Scouting Combine.

De qualquer forma, ao longo da temporada passada, abordamos a situação de Oakland diversas vezes no Pick Six; por um período extenso, a franquia foi uma grande confusão. Desde a perda do Super Bowl, passaram pelo Raiders nove treinadores e 18 QBs, até tudo mudar com a chegada de Del Rio e a consolidação de Carr. E, após o fim trágico para uma temporada mágica, houve ainda a chega de Marshawn Lynch, quase como uma resposta aos fãs após a confirmação da mudança para Las Vegas.

Incertezas

Obviamente, se espera que Derek Carr se recupere de sua lesão, mas mesmo assim o Raiders enfrentará muita incerteza naquela que será sua primeira temporada no Oakland Coliseum (aliás, nunca o nome de um estádio fez tanto sentido) enquanto a nova casa em Las Vegas é construída.

Em 2016, Oakland teve um dos melhores desempenhos em casa da NFL, mas agora sabemos como os torcedores irão responder após a “traição” (ou ao business, como você preferir): “Invariavelmente há o fato de que um determinado número de torcedores está desapontado até que chegará um ponto em que não apoiarão mais”, disse Jack.

Parabéns, é exatamente esse o tipo de pessoa que você quer irritar.

As boas notícias

Oakland teve um dos melhores sistemas ofensivos da NFL em 2016 e é bem provável que ele retorne ainda melhor. Com Carr saudável e o retorno de Lynch após um ano de férias (ou aposentadoria, como você preferir), não há motivos para duvidar disso: Lynch correu para mais de 9 mil jardas e 74 TDs em nove temporadas e tirou férias (ou se aposentou, como você preferir), após lutar contra lesões em 2015.

Porém é inegável que, saudável, é uma adição e tanto para um jogo que corrido que até então tinha Latavius Murray como seu principal nome; agora a combinação de Lynch com Jalen Richard e DeAndre Washington dá a Oakland três boas armas – consideremos ainda que o Raiders tem também o FB Jamize Olawale, com (algumas) boas corridas na temporada passada.

Este, claro, é o cenário ideal, mas é preciso ressaltar o que citamos anteriormente: a última vez que Lynch entrou em campo foi em 2015, quando correu para 417 jardas e três touchdowns em sete partidas (média inferior a quatro jardas por tentativa). O que Oakland precisa é uma versão 70% próxima do running back do Seattle Seahawks que teve quatro temporadas consecutivas com mais de 1000 jardas entre 2011 e 2014. Se isso acontecer, Derek Carr terá o campo ainda mais aberto, para encontrar seus alvos.

O preço que se paga

Antes da lesão, talvez por um delírio coletivo, Derek Carr era cogitado para o MVP – seus números eram dignos: 3937 jardas, 28 TDs e apenas seis interceptações. Seu rating anual, aliás, prova sua evolução: 76.6 em sua temporada como rookie, 91.1 no segundo ano e 96.7 no ano passado.

Tudo isto resultou em uma extensão contratual de cinco anos, o tornando o quarterback mais bem pago da NFL (ao menos por ora): US$ 125 milhões, 70 deles garantidos.

“RICO!!!”

Para justificar o valor pago, Carr terá como alvos Amari Cooper, quarta escolha geral do draft de 2015, um talento raro, embora não tenha dado o salto esperado em 2016. Michael Crabtree é a outra opção e se espera que continue sendo acionado na redzone: na temporada passada foram 8 TDs, boa parte deles no final das partidas.

Há, ainda, o TE Jared Cook; Cook sempre foi uma grande promessa, mas nunca entregou realmente aquilo que dele se esperava como profissional – o que pesa a seu favor é que, ao menos em Green Bay, ele teve alguns lampejos (méritos de Aaron Rodgers?), então ao menos há um resquício de esperança.

O quão longe se pode ir

Oakland tem um ataque intenso que certamente o levará aos playoffs, mas na verdade é seu sistema defensivo que nos mostrará o quão longe eles podem chegar em janeiro, por isso o Raiders focou em posições defensivas durante a free agency.

O LB Jelani Jenkins veio do Dolphins – em 2016 ele lutou contra uma lesão no joelho, mas tem apenas 25 anos e sua presença pode reforçar uma unidade historicamente pobre; em contrapartida, os Raiders perderam o LB Perry Riley. A linha defensiva também perdeu Dan Williams e Stacy McGee, mas trouxe o DT Eddie Vanderdoes, selecionado na terceira rodada do draft, mas visto como uma escolha de primeira até lesões invadirem sua carreira no college.

Por outro lado, há alguns pontos fortes no sistema defensivo de Oakland: Khalil Mack é um dos melhores defensores da NFL. Mack começou em 2016 em marcha lenta, com apenas um sack em seus cinco primeiros cinco jogos, mas mesmo assim terminou o ano com 11. Se você precisasse apostar em alguém para ter um 2017 excelente, poderia escolher Khalil sem medo – que deve ter grande ajuda de Bruce Irvin (7 sacks em seu primeiro ano em Oakland).

A secundária pode evoluir com a adição de Gareon Conley, escolha 24 do último draft – ele, porém, enfrenta sérias acusações de estar envolvido em um caso de estupro. Mas como sabemos que nossa querida NFL aparentemente não se importa com esta situações, é bem provável que ele esteja em um campo de football em setembro.

Palpite: Esse ataque é capaz de levar Oakland aos playoffs, assumindo que Carr permaneça saudável. Mas inegavelmente eles precisam evoluir defensivamente para chegar ao Super Bowl. De qualquer forma, cedo saberemos o destino do Raiders: eles têm uma das tabelas mais difíceis da NFL e serão testados logo de cara, com três jogos fora de casa (?) nas quatro primeiras semanas. Mais de 10 vitórias e o título da AFC West, de qualquer forma, é uma realidade palpável – tal qual uma decepção em janeiro.

Marshawn Lynch, Oakland e uma mudança para Las Vegas

Sobre o que realmente estamos falando quando dizemos que o Oakland Raiders, tradicional franquia californiana, está se mudando para a cidade de Las Vegas para aproveitar um “melhor mercado para a NFL”? A resposta é simples: falamos da realidade impiedosa dos números. E não nos referimos a números de vitórias, pontos por jogo e outras estatísticas caras ao football. Na maior parte das decisões da liga, números significam dinheiro, balanço de contas, venda de ingressos e merchandising.

De qualquer forma, o primeiro número que podemos considerar nessas contas da NFL é a população das cidades de Oakland, com aproximadamente 400 mil habitantes, e Las Vegas, já na casa dos 620 mil. A liga se baseia nesse argumento para dizer que a franquia se sustenta melhor em um mercado mais amplo de mídia (direitos de transmissão televisiva) e venda de ingressos, incluindo nesse caso a presença massiva de turistas na “capital do pecado”. Bem, esse argumento cai com um sopro quando pensamos que várias cidades de população menor que Oakland, como New Orleans, Minneapolis, Cleveland, Tampa, Pittsburgh, Cincinnati e Buffalo, possuem franquias da NFL e não circulam boatos relativos à mudança de endereço dessas equipes.

Talvez o número mais importante a ser considerado é 17.0%. Essa é a porcentagem de habitantes de Oakland abaixo da linha da pobreza, enquanto a mesma estatística em Las Vegas traz um índice inferior a 7%. Em resumo, Oakland não teve o dinheiro para manter seu popular time de football. Mas porque isso é um grande problema?

Senso de comunidade

A única pessoa a votar contra a mudança dos Raiders de cidade foi o proprietário do Miami Dolphins, Stephen Ross: “Minha posição hoje foi que nós, como donos e como uma liga, devemos aos fãs nossos esforços para fazermos tudo que pudermos para ficar nas comunidades que nos apoiaram, até todas nossas opções forem esgotadas“.

Como Ross disse, é uma questão de comunidade. A Raider Nation, torcida oficial do time, é uma tradição completamente embrenhada nas raízes das comunidades em Oakland – e foi a cidade e seu povo que emprestou ao time uma identidade imediatamente reconhecida em todo o planeta. Adotado como time oficial de uma cena de hip-hop de Compton, um dia centrada na N.W.A., cujo membro Ice Cube usava o boné com o escudo dos piratas do futebol americano com orgulho em todas as suas aparições, hoje centrada em Kendrick Lamar, os Raiders se tornaram parte da identidade das comunidades afro-americanas de baixa renda na Califórnia e além. E a recusa do time, motivado por dinheiro, a permanecer com seu público, é brutal.

Outro motivo apontado por muita boataria para a mudança de endereço dos Raiders é uma possível renovação nas políticas da NFL em relação às apostas e jogos de azar. Atualmente, jogadores da liga não podem nem mesmo visitar a cidade de Nevada por causa desses regulamentos estritos, e a cidade é vista como uma enorme distração para jovens com milhões de dólares no bolso e, claro, potenciais problemas com a lei. Mas se Roger Goodell está mirando o modelo britânico da Premier League, com apostas legalizadas, talvez esse seja o caminho que a liga esteja trilhando.

Terremotos em Oakland.

O bom filho a casa torna

A parte mais peculiar de toda essa história? Bem, os Raiders terão que permanecer dois anos, mesmo após o anúncio oficial da mudança, em sua cidade de origem. E para reverter esse caos de relações públicas, eles conseguiram uma peça importante para a narrativa do time: tiraram da aposentadoria um dos filhos mais célebres da cidade de Oakland, o running back Marshawn Lynch, ex-estudante do mesmo Colégio em Oakland que gerou Huey Newton, ícone do movimento negro pelos direitos civis nos EUA.

Já sobre Marshawn, uma de suas muitas histórias conhecidas, aconteceu na offseason de 2015. Durante um Youth Camp, Lynch correu ao lado de um jovem. “Essa interação de dois minutos pode mudar a vida dele”, disse Yossef Azim, oficial do departamento de Polícia de San Francisco, que levara ao camp três jovens, casos considerados graves de delinquência juvenil. Ali, na Oakland Tech High School, eles foram orientados por uma estrela da NFL.

“Marshawn está fazendo com que vejam a vida de uma nova perspectiva. Ele está realmente atingindo um grupo e os influenciando de uma maneira que ninguém mais poderia“, completou Yossef. Mais do que touchdowns ou nomeações ao Pro Bowl, Lynch estava construindo seu legado através de ações diárias na região de Oakland.

Há pouco mais de um ano, Lynch inaugurou sua loja na 811 Broadway, coração de Oakland. As sete pessoas que ali trabalham, estão ligadas a sua infância. As confecções são quase em sua exclusividade locais; Marshawn faz alguns projetos por conta própria, outros em parceria com o designer local Hingeto. Por todos estes fatores, o apelo populista dessa contratação é inegável, mas será suficiente para encobrir a traição inicial?

Vai dar boa.

Dentro de campo

Inegavelmente há certa melancolia ao redor de um retorno que, talvez, esteja acontecendo apenas para atenuar uma perda. Mas vamos levantar também outra questão: Lynch no Raiders pode ser muito, muito divertido.

Marshawn já é uma lenda nos arredores; há camisas penduradas por toda a costa. E, como já dissemos, ele sempre permaneceu ligado à comunidade. Agora, dentro das quatro linhas, o Raiders de 2017 contará com um ataque comandado por Derek Carr, um jovem e talentoso quarteback; Khalil Mack, um dos defensores mais dominantes da liga e, bem, a última temporada já nos prova que, sob o comando de Jack Del Rio, eles estão preparados para a grandeza.

Agora adicione Marshawn Lynch que, mesmo com 30 anos de idade e após um ano aposentado, ainda é um RB que impõe respeito: é uma aposta muito mais seguro que as que Saints e Broncos fizeram com Adrian Peterson e Jamaal Charles, por exemplo.

Mesmo assim, o Oakland Coliseum nunca teve um nome tão simbólico como em 2017. O que o fã verá lá é a luta de uma cidade contra sua desvalorização, de um fã contra o impulso de abandonar sua paixão, de um time que finalmente tem chances de trazer para seus torcedores um título, mas resolveu buscar novos ares. Verá o passado e o futuro da liga, dois gladiadores em campo em um embate que, invariavelmente, só acabará com a morte de um símbolo americano.

*Ana Clara torce para os Patriots, morreu no intervalo do último SB, mas passa bem.

Entre um dono querendo fugir e vizinhos quase-campeões

A offseason dos Raiders começou agitada já em fevereiro. Bom, janeiro, na verdade, ou até antes, considerando que eles não tinham chances de playoffs na temporada passada. Começou agitada porque os Raiders eram um dos times envolvidos, junto com Chargers e Rams, em um possível retorno à Los Angeles (já foram Los Angeles Raiders entre 1982-94), com um projeto solitário. No final das contas, o tal do projeto não foi aprovado pelos donos da NFL e coube ao owner, Mark Davis (e seu corte de cabelo maravilhoso), voltar a buscar opções para conseguir um novo estádio: Las Vegas, San Antonio ou mesmo um acordo com a própria prefeitura de Oakland – afinal, não é como se faltasse paixão na torcida alvinegra na cidade.

Também durante a offseason, os torcedores da cidade viram seus vizinhos, o Golden State Warriors (a Oracle Arena é anexa ao Oakland Coliseum), realizarem a melhor campanha da história da temporada regular da NBA, só para terem sua alegria destruída por LeBron James e o Cleveland Cavaliers na final. Um time de Cleveland campeão? Claro que não seria na NFL! Bom, quem sabe os Raiders não usam isto como motivação e se vingam dos Browns nos playoffs da NFL? Não, não se vingarão porque os Browns não vão aos playoffs nem a pau.

Mas entre várias historinhas, há um bom time de football. Mais do que isso, um time jovem cheio de potencial, com um ataque interessante liderado por Derek Carr em sua terceira temporada (aquela temporada que já se convencionou nomear de “AGORA VAI”) e uma defesa feroz liderada pelo candidato a DPOY Khalil Mack que, se chegar próximo às expectativas, vai ser uma presença constante nos playoffs pelos próximos anos, quebrando uma seca de 13 temporadas sem chegar lá (desde que perderam o Super Bowl para o Bucs em 2003. Sim, para o Bucs).

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Markinho, filho do lendário Al Davis, cansou do playground em Oakland.

Ou vai ou racha

Historicamente, o terceiro ano é um período muito importante no desenvolvimento dos QBs, o que separa homens dos meninos, já que é ali que acabam desculpas clássicas como “ele ainda não teve tempo suficiente para se adaptar” ou “é a primeira temporada que ele é o titular indiscutível desde o training camp”. Não, a hora é agora, especialmente para a classe de quarterbacks de 2014 (que inclui ainda nomes como Bridgewater, Bortles, Garoppolo), que além do próprio desempenho, também terão o desempenho dos “colegas” para ser comparado.

E quem olha os números de Derek Carr por cima verá um futuro Tom Brady, com seus 32 TDs e apenas 13 interceptações. Ok, nos empolgamos: sabemos que valores como 7 jardas por passe tentado e pouco mais de 60% de passes completos não colocam nenhum QB no hall da fama; Carr ainda precisa e pode evoluir significativamente.

E mais do que capacidade para evoluir, Carr terá ajuda para provar que é realmente o franchise QB que Oakland busca desde Rich Gannon (MVP em 2002 que jogou seus últimos cinco anos na Califórnia): o Raiders provavelmente teve melhor linha ofensiva da NFL junto com os Cowboys na temporada passada e ainda fizeram um investimento de 58 milhões de dólares em 5 anos para trazer Kelechi Osemele (LG, mas que jogou bem sendo improvisado como LT pelos Ravens ano passado), o que só poderá torná-la ainda melhor e garantir que o time terá tempo para desenvolver o jogo aéreo, além de espaços para o jogo corrido, qualidades importantes para quem enfrenta Kansas City e Denver duas vezes por ano.

Por fim, mas certamente não menos importante, Carr conta com alvos de respeito. Além do running back Latavius Murray que serve como escape para momentos de pressão (41 passes recebidos ano passado), o time tem uma dupla de wide receivers de alto nível: Amari Cooper, que tende a melhorar após uma primeira temporada rara entre rookies (1070 jardas, 6 TDs), na qual ainda enfrentou diversos problemas com lesões, e Michael Crabtree, com 9 TDs recebidos ano passado – Crabtree, aliás, parece estar reencontrando aquele potencial que demonstrou em seus primeiros anos em San Francisco: como as defesas focam em Amari Cooper, sobram espaços, que devem ser aproveitados.

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Marca o touchdown e ainda mostra a língua.

Khalil Mack e amigos vão pegar você

O que Khalil Mack, Bruce Irvin e Mario Edwards têm em comum além de atropelarem linhas ofensivas, serem muito rápidos e, se possível fosse, comerem QBs no café da manhã? Todos eles compõem o front seven do Raiders (que é ancorado pelo gigante – literalmente – Dan Williams) e vão trabalhar em um dos pass-rush mais ferozes da liga. Mais do que isso, Khalil Mack é um dos melhores (melhor?) jogadores defensivos da liga e o primeiro jogador escolhido para All-Pro Team em duas posições (LB e DE).

É incrível pensar que poderiam ser ainda melhores se Aldon Smith, suspenso por um ano e que virou hit no twitter após postar um vídeo fumando maconha falando “ninguém sabe que sou eu, não tá escrito Aldon Smith em lugar nenhum”, fosse menos idiota e pudesse colaborar na perseguição aos atacantes adversários também.

Além disso, a secundária também foi reforçada, mesmo com a aposentadoria de Charles Woodson depois de 18 grandes anos na NFL. A chegada de Sean Smith (40 milhões em 4 anos) como CB e de dois novos safeties, o veterano Reggie Nelson e o rookie Karl Joseph, deve ser benéfica para o setor, responsável por ter cedido quase 25 pontos por jogo na temporada anterior.

O time é inteiro bom, mas…

No meio do caminho há uma pedra. No caso, algumas pedras. O caminho para os playoffs será muito difícil, a começar pela briga dentro da própria divisão: a defesa dos Broncos segue nada menos que incrível (mesmo que Mark Sanchez seja o QB. Aceitem: estamos em 2016 e Mark Sanchez ainda é o quarterback de algum time), os Chargers talvez esteja finalmente saudáveis e os Chiefs são candidatos aos playoffs com um time tão equilibrado quanto e mais experiente que o Raiders. Além disso, os piores QBs no caminho de Oakland serão Brock Osweiller e Tyrod Taylor, ambos teoricamente com capacidade próxima a do próprio Derek Carr – excluindo, obviamente, o Broncos: sabemos que eles não dependem de um QB para ganhar nada.

Provavelmente, os primeiros cinco jogos (@NO, ATL, @TEN, @BAL, SD), aparentemente mais fáceis que o restante da tabela, serão cruciais para definir o destino do Raiders esta temporada – se ganhar menos de quatro partidas das cinco iniciais, mais um ano longe dos playoffs. E a razão é bem simples: ganhar mais da metade dos outros 11 jogos será uma grande superação.

Palpite: 8-8, terceiro lugar na AFC West, jogando bem e perdendo vários jogos no detalhe (dois por erros de kicker) e, novamente, muita esperança para sair da fila na temporada 2017-2018. Além disso, Mark Davis vai visitar mais três cidades interessadas em ser a nova casa dos Raiders e Derek Carr verá mais dinheiro do que você em toda sua vida antes da metade do ano que vem.