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Análise Tática #25 – Parte 1: A defesa dos Patriots

Por boa parte da temporada regular, a defesa dos Patriots foi alvo de críticas da torcida e dos especialistas – principalmente após as lesões do calouro Derek Rivers e de Dont’a Hightower, discutivelmente melhor jogador da unidade.

As atuações instáveis de Stephen Gillmore e Malcolm Butler, bem como a fragilidade do pass rush e dos linebackers em rotas laterais foram motivos de preocupação em Foxborough, mesmo que nós saibamos que no final das contas, Bill Belichick sempre encontra um jeito de fazer a unidade produzir.

As estatísticas

Contra Tennessee no divisional round o principal número a se mencionar é os oito sacks obtidos contra Marcus Mariota. Foram 61 jogadas e 27min04s em campo por 10 campanhas, cedendo 65 jardas terrestres em 16 tentativas. Foram 202 jardas aéreas em 22 passes completos de 37 tentados.

Contra Jacksonville no AFC Championship Game, a defesa passou 35min08s em campo, em 71 jogadas divididas em 12 drives. Foram 101 jardas terrestres em 32 tentativas e 273 jardas aéreas em 23 passes completos de 36 tentativas. Dessa vez, foram 3 sacks.

Apesar de boas atuações, em nenhuma das duas partidas a defesa dos Patriots forçou turnovers.

A importância dos sacks contra Tennessee

A defesa dos Patriots colocou o ataque de Tennessee em quinze situações de terceira descida, permitindo apenas cinco conversões.  Dos oito sacks, dois foram nessas ocasiões, em que a defesa forçou os punts.

Em uma unidade em que nenhum jogador é exatamente uma estrela da liga, New England se sobressai principalmente pela leitura pré-snap de cada jogador e a dedicação dos mesmos em cumprir sua função na jogada. Tennessee alinha seus recebedores em um set 2×2 em stack formation, concentrando a defesa no meio do campo.

Observe que o safety Patrick Chung lê o motion de Delanie Walker e o acompanha, dando a entender que o mesmo estará em cobertura individual contra o mesmo, apesar de seu posicionamento de quadril dizer o contrário.

Observe também que o jogador marcado com uma estrela (Corey Davis) está cercado por pelo menos três jogadores de New England. Esse sistema de cobertura é constantemente utilizado por Belichick e Patricia para anular recebedores velozes dos adversários. Pelo menos dois jogadores irão marcar o principal WR em uma combinação de marcação individual e zona half, semelhante à cobertura cover 2-man, porém acontecendo em apenas um lado do campo..

No momento em que a jogada se desenvolve, a secundária rotacional de um desenho de cover 2 para uma cover 1, com todas as rotas tendo pelo menos um jogador marcando individualmente. É como se New England tivesse uma superioridade numérica na cobertura, portanto, nenhuma rota dará uma janela de passe confiável para Mariota.

No front, temos os seguintes alinhamentos de techniques (9-0-3-8), enquanto o defensor na 3-tech (Rufus Johnson) ficará de QB-Spy em Mariota. Trey Flowers na 9 tech é o jogador que traz a pressão pelo speed rush, forçando Mariota a escalar o pocket. O espaço preenchido por Rufus Johnson tira a possibilidade do scramble de Mariota e ajuda a Deatrich Wise a fechar o sack.

Como mostramos no texto sobre a defesa do Jacksonville Jaguars, esse é um tipo de sack obtido graças à excelente cobertura, o chamado sack-coverage.

O cover 2-man aparece empregado em sua totalidade nessa jogada no terceiro quarto, o segundo sack em terceira descida conquistado pelo New England Patriots. Pela situação, consideremos que o alvo principal seja Delanie Walker no meio do campo, por ser o recebedor mais confiável e ter o melhor matchup em tese.

Walker é marcado de forma individual, enquanto no flat do lado esquerdo de campo, o esquema de cover 2 anula o checkdown de Marcus Mariota. Ele novamente está sem opções para passar a bola, enquanto enfrenta um 3-men rush com spy. Observemos o front de New England.

Dessa vez a linha varia o alinhamento das techs para 9-4-0-8, com o defensor na 4-tech em QB Spy. Com o objetivo de prender Mariota no pocket, o flat do lado esquerdo está coberto por uma marcação em zona, enquanto no lado com a marcação individual, está justamente posicionado o espião. Além disso, esse é o lado em que a pressão vem pelo speed rush.

Adam Butler (#70) ataca pelo A-gap do lado direito da linha enquanto Kyle Van Noy (#53) permanece em spy. Essa combinação é suficiente para gerar pânico em Mariota e fazer com que o mesmo tire o olho de suas progressões. Mais um sack em terceira descida.

Os ajustes contra o jogo corrido de Jacksonville

É de conhecimento geral que o ataque do Jacksonville Jaguars é uma unidade predicada ao jogo terrestre. Como mostrado anteriormente, foram 101 jardas em 32 tentativas, uma média 3.2 jardas por corrida, abaixo do ideal de 4 YPC (yards per carry). Considera-se tal valor para determinar que o jogo terrestre de uma unidade foi bem aplicado durante a partida.

Essa jogada no segundo quarto mostra como o Jacksonville Jaguars estava utilizando conceitos de misdirection para utilizar o jogo corrido de Leonard Fournette. O misdirection aplicado ao jogo terrestre tem o objetivo de tirar alguns jogadores da defesa da direção da jogada.

Aqui, os jogadores alinhados em trips-bunch se deslocarão para a direita, atraindo os defensores marcando em zona para aquele lado. O movimento de Blake Bortles vendendo o draw ajuda a dar veracidade a essa tentativa.

A corrida se desenvolve como uma outside zone para o lado direito, com Fournette atacando o espaço entre o left guard e o center (A-Gap). Observe que ficam apenas 5 jogadores do lado em que se desenvolve a jogada, e apenas o safety Patrick Chung não está bloqueado, podendo reagir ao tackle. Fournette consegue ganhar 13 jardas na jogada, em drive que terminaria em touchdown para os Jaguars.

Observemos agora os Jaguars realizando uma inside zone no início do último quarto da partida, quando os Patriots buscavam a virada no placar. Conter Leonard Fournette e Corey Grant foi um dos pontos chave para que o Patriots tivesse tempo de relógio, considerando o jogo quase limpo em termos de turnovers (apenas Myles Jack forçou um fumble em drives anteriores).

O leitor já deve estar familiarizado com o sistema de zone blocking, o jogador bloqueará o adversário à sua frente ou ajudará o bloqueio ao seu lado na direção em que a jogada se desenvolve, de olho na possibilidade de atacar o segundo nível da defesa.

Observe pelo alinhamento dos recebedores, que os Jaguars tentarão repetir o misdirection. Mas provavelmente pela análise de tendências e situação da partida, os Patriots basicamente sabem que será uma corrida. Bill Belichick se sobressai como técnico exatamente nesse ponto, New England quase sempre faz os ajustes corretos no segundo tempo de jogos importantes, mesmo nas derrotas.

Malcom Brown consegue fechar o tackle a partir da 0-tech, após receber apenas o bloqueio do center de Jacksonville. Com os linebackers fechando as opções no mesh point de Fournette, o mesmo não consegue ganhar mais que duas jardas.

Uma unidade que mesmo sem jogadores de elite é capaz de ajustar tão bem graças à competência de seu coaching staff. Essa capacidade foi importante para os Patriots diante dos Falcons no Super Bowl LI e deverá ser novamente fundamental em Minneapolis.

Dessa vez, Belichick e Matt Patricia deverão estar atento a uma arma que já os derrotou na temporada, a Run-Pass-Option, dessa vez empregada pelos Eagles.

O melhor time da NFL em que nos recusamos a acreditar

O general manager Mike Maccagnan conseguiu o que muitos consideravam perdido: trouxe de volta o QB Ryan Fitzpatrick (3905 jardas, 31 TDs em 2015) e pelo preço que ele queria pagar, afinal, em um mundo em que Brock Osweiler ganhará 18 milhões por ano, 12 milhões para um quarterback que produziu uma campanha de 10 vitórias e dois WRs com mais de 1000 jardas é uma barganha – considerando que sua outra alternativa era Geno Smith, que aparentemente prefere ouvir sua banda favorita, Nickelback, a ser um jogador profissional.

Além de Geno Smith, com quem ninguém mais conta como futuro QB titular em um time sério da NFL (excluindo o GM dos Jets para usá-lo como forma de pressão em Fitzpatrick), New York também terá como quarterback o rookie Christian Hackenberg, vindo da eternamente polêmica universidade de Penn St.

geno-smith

“Curto Nickelback sim, você vai fazer o quê? Me dar um soco na cara?”

Hackenberg teve uma grande temporada no seu ano de calouro em conjunto com o hoje HC dos Texans Bill O’Brien, mas regrediu muito nos dois anos seguintes com a troca no comando do time e, de acordo com ele próprio, pelo baixo nível de seus colegas, especialmente da linha ofensiva (o que é confirmado pelo que se viu nos jogos) – mas esse foi um dos grandes motivos que lhe levaram de provável escolhido no top 10 para a 51ª posição do draft de 2016.

O grande nome do ataque não está em campo

A temporada de 2016 também marcará o segundo ano do head coach Todd Bowles após cinco anos do falastrão Rex Ryan. Junto com Bowles, que recebeu a oportunidade pelo seu grande trabalho como coordenador defensivo em Arizona, também voltará uma grande mente ofensiva: Chan Gailey, apontado como o verdadeiro responsável pelo surpreendente sucesso do ataque nova-iorquino em 2015. O OC é o desenhista das jogadas que potencializam a inteligência de Ryan Fitzpatrick (interessante: o QB é formado em matemática em Harvard e acertou 100% do Wonderlic Test) e minimizam os efeitos do seu fraco braço, sempre possibilitando que pelo menos um dos WRs tenha um bom matchup.

Wide receivers que também têm grande participação nesse 12 milhões ganhados por Fitzpatrick. Brandon Marshall e Eric Decker (que pediram publicamente o retorno do seu quarterback) somaram 189 recepções, 2529 jardas e incríveis 26 touchdowns na temporada de 2015, dominando cornerbacks, impondo seu tamanho (ambos têm mais de 1.90m) e mostrando ter um grande catch radius – ou seja, ainda que as bolas não chegassem de maneira ideal, tinham capacidade de adaptar-se e se atirar até elas.

Além dos dois gigantes como alvo fora, Fitzpatrick contará com nova companhia no backfield, um RB que já demonstrou capacidade para ser um bom corredor e um incrível alvo no jogo aéreo (102 recepções em 2014), outra barganha do GM Maccagnan: Matt Forte, que assinou por 12 milhões de dólares e 3 anos – apenas para comparação, Chris Ivory saiu dos Jets para os Jaguars por 32 milhões em 5 anos.

A linha ofensiva, por outro lado, é a grande incógnita desse ataque, apesar do estilo de jogo de Chan Gailey também diminuir seu impacto acelerando as jogadas (os Jets sofreram apenas 22 sacks na temporada de 2015). A grande esperança está na recuperação do joelho sempre baleado do LT Ryan Clady (mais uma barganha do chefão da equipe), que é um dos melhores da posição quando saudável (mas perdeu absurdos 30 jogos nas últimas três temporadas). O eterno C Nick Mangold e o LG James Carpenter devem garantir estabilidade interior e boas chances no jogo corrido, mas o lado direito da linha deve sofrer mudanças em relação a 2015 após testes e competições na pré-temporada.

Chan Gaile

Tiozinho simpático? Ele ainda fará Geno Smith estuprar sua defesa.

A tradição defensiva tem que continuar

Desde os tempos de Mark Sanchez é a defesa a principal responsável por levar os Jets a grandes resultados. Por mais que a campanha de 2015 tenha chamado muito a atenção pelo surpreendente ataque, a defesa foi quem sofreu menos de 20 pontos por partida e facilitou muito as coisas para o outro lado. Entretanto, ao contrário do ataque, ela terá mais perguntas a responder antes de repetir o belo desempenho do ano passado.

Um grande (!) buraco se abre com a saída do nose tackle Damon Harrison (160kg) para os roommates (stadiummates?) New York Giants, já que Steve McLendon (140kg) não parece ter nem o tamanho ou habilidade suficiente para substituí-lo. Para sua sorte, ao menos terá aos seus lados uma rotação constante de três escolhas de primeiro round nas posições de defensive end, que deverão aterrorizar todas as linhas ofensivas e quarterbacks que o time enfrente: Muhamad Wilkerson (12 sacks em 2015), Sheldon Richardson (jogando por um novo contrato após receber a franchise tag) e Leonard Williams (63 tackles e muito potencial demonstrado como rookie).

Jets D

Não vão matar seu QB, só vão machucá-lo bastante.

A outra grande dúvida na defesa está na secundária: quanto tempo mais Darrelle Revis será “a ilha” que lhe deu fama? Após dois anos e um Super Bowl conquistado fora dos Jets, Revis voltou dando sinais de que, apesar de ainda ser um bom cornerback, já não é mais impossível lançar contra ele. Para piorar as coisas, com a dispensa do “Mr Catra da NFL”, Antonio Cromartie, os Jets não parecem ter alguém para ajudar Revis, já que entre Buster Skrine, o desconhecido Marcus Williams e o bust Dee Milliner o time não parece capaz de encontrar um bom CB – nem que combinasse os três. Pelo menos os safeties Gilchrist e Pryor são bons o suficiente na cobertura para tentar compensar a mediocridade dos companheiros.

Como adição interessante, New York contará com o atlético linebacker de Ohio St Darron Lee, que ganhou notoriedade no processo pré-draft por ter jogado como nickel CB em algumas jogadas na universidade devido a sua grande velocidade (uma característica importante para cobrir TEs como Rob Gronkowski). Outro rookie que deve se importante já esse ano nessa defesa é Jordan Jenkins, que deverá chegar já colocando pressão nos QBs a partir dessa segunda linha da defesa e permitindo que Sheldon Richardson se mantenha na sua posição original, sem ser improvisado. O veterano David Harris também deve estar de volta para seguir cumprindo um bom trabalho contra o jogo corrido, apesar do seu declínio parecer iminente.

Palpite: Nem comecem com “Brady suspenso dará a oportunidade para os Jets ganharem a divisão esse ano”. Essa divisão é dos Patriots mais uma vez. Pior, um início em 0-6 ou 1-5 não seria a coisa mais surpreendente da liga. Com uma campanha de recuperação, os Jets deverão acabar o ano entre 7-9 e 9-7, mas não devem sonhar com playoffs. De qualquer forma, o time não é melhor nem que Jaguars, nem que Raiders – o que por si só já diz muito.