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Em busca da direção certa

O desempenho do QB Carson Wentz em sua temporada de rookie está longe de ser um primor. Foram 3782 jardas aéreas conquistadas, apenas 16 TDs e 14 INTs, números que são suficientes para colocá-lo, no máximo, próximo da linha da mediocridade. A NFL, felizmente, não é feita apenas de estatísticas. Assistir um QB em ação muitas vezes nos diz muito mais do que analisar friamente os números que ele produziu.

Desde que pisou no gramado para enfrentar o Cleveland Browns, na primeira semana da temporada de 2016, Wentz aparenta ser o que uma franquia espera de um QB. Os erros, é claro, estão lá, como estão para todos os rookie QBs, mas aparentam ter origem mais na inexperiência do que em uma eventual deficiência o que, claro, seria mais difícil de ser corrigido.

Wentz errou bastante em 2016, mas também acertou. O controle e a liderança que ele tinha no ataque do Philadelphia Eagles são raros para um calouro. Sua capacidade de leitura das defesas, antes mesmo do snap, também chama a atenção. O que mostrou em campo comprova o que muitos especialistas diziam antes mesmo do draft: Wentz é um grande amante e estudioso do football, algo semelhante a Peyton Manning, guardadas as devidas proporções.

Matou no peito.wentz

As armas

Não é à toa que o Eagles decidiu que Carson Wentz é o franchise QB que o time aguardava desde a saída de Donavan McNabb e decidiu construir o futuro ao redor dele. O primeiro passo foi reformular o grupo de recebedores, que em 2016 foi um grande problema para o ataque. O time mandou o inconstante Jordan Matthews para o Buffalo Bills em uma troca e contratou os veteranos Alshon Jeffery e Torrey Smith.

Jeffery tem o talento necessário para ser um dos melhores WRs da liga, sem dúvidas, mas precisa permanecer saudável, o que não era rotina em seus tempos de Chicago Bears. Em cinco anos em Chicago, foram apenas duas temporadas sem perder jogos por contusão. Nos dois anos em que ficou saudável, Jeffery recebeu mais de 1000 jardas aéreas e, em 2013, anotou 10 TDs. Seu talento nunca foi questionado e, se conseguir ficar longe das contusões, Alshon deve ser o principal jogador do ataque do Eagles em 2017.

Torrey Smith, outro contratado na free agency, ficou escondido por dois anos no horroroso San Francisco 49ers, mas em seus três anos de Baltimore Ravens mostrou que pode ser um jogador bastante útil e que adiciona o elemento do passe em profundidade ao ataque. Jeffery e Smith são uma versão um pouco mais pobre do que o Tampa Bay Buccaneers tem em Mike Evans e DeSean Jackson, por exemplo, mas têm a capacidade de complementar um ao outro e oferecer opções que Carson Wentz simplesmente não tinha em 2016.

Além de Jeffery e Simith, Wentz terá à disposição o bom TE Zack Ertz, que merece ser mais acionado, e o WR Nelson Agholor que, segundo os repórteres que acompanham o time, é um dos jogadores que mais evoluiu nessa offseason depois de um turbulento 2016.

Com esse grupo de recebedores e com uma linha ofensiva que tem Jason Peters, Jason Kelce e Lane Johnson, considerada a melhor da NFL pelo site Pro Football Focus, o Philadelphia Eagles pode ter um ataque bem interessante em 2017.

O ponto de interrogação

A dúvida fica para o grupo de RBs: Ryan Mathews, principal corredor do time em 2016, foi dispensado. Para o seu lugar, o Eagles contratou LeGarrette Blount, que deve ser responsável pelo trabalho sujo entre os tackles. As informações sobre Blount, porém, não têm sido boas durante o training camp e chegou, inclusive, a surgir a especulação de que ele poderia ser dispensado.

Além de Blount, o Eagles tem o segundo anista Wendell Smallwood, que teve oportunidades no ano passado e não mostrou muito serviço, e o especialista em receber passes e já idoso Darren Sproles. Em teoria, é um grupo que traz habilidades diversas e que pode se complementar bem, mas algo parece que vai dar errado.

As contratações ofensivas feitas pelo Eagles criaram um ataque com mais talento e mais alternativas, portanto é justo esperar uma performance melhor de Wentz e seus alvos em 2017.

O dono da bola.

O copo meio cheio

A defesa do Philadelphia Eagles em 2016 não teve uma performance horrível. A unidade terminou a temporada em 12º em pontos cedidos e 13º em jardas permitidas, por exemplo. Mas as deficiências de defesa são óbvias e talvez a principal delas seja na posição de cornerback.

Na temporada passada, os defensores do Eagles permitiram que os QBs adversários completassem 60% dos passes. Nolan Carroll e Leodis McKelvin deixaram o time, para a felicidade dos torcedores de Philly. O problema é que quem ficou não inspira confiança e talvez isso tenha motivado a troca com o Buffalo Bills, em que o Eagles enviou Jordan Matthews e recebeu o CB Ronald Darby, que chega e automaticamente entra no time titular. O grupo de linebackers também é uma preocupação. Além do dinâmico Jordan Hicks, não há muita certeza.

A força da defesa talvez esteja na linha defensiva. Fletcher Cox é um dos melhores DTs da NFL e vence constantemente as coberturas duplas que recebe. Além de Cox, o Eagles conta com jogadores de pedigree que ainda não conseguiram atingir todo o potencial que têm, como Brandon Graham, escolha de primeiro round do draft de 2010, e Vinny Curry, que assinou uma extensão contratual de 47,5 milhões de dólares que alguns classificam como o pior contrato de um DL da NFL.  Chris Long e Timmy Jernigan chegam via free agency com a expectativa de adicionar elementos a mais no pass rush, que será fundamental para o sucesso da defesa.

Palpite: A evolução, principalmente ofensiva, acontecerá, mas é difícil enxergar esse time ganhando mais do que oito jogos. Um recorde de 8-8 não seria surpreendente. Um 9-7 seria um sucesso absoluto. Mas, como mencionado no início do texto, a NFL não é feita apenas de números. O que o Philadelphia Eagles precisa em 2017 é ter a certeza que encontrou seu QB e que a franquia está no caminho certo.

Não há luz no fim no túnel (tampouco uma equipe confiável)

O quarto quarterback a iniciar a temporada em quatro anos, sexto a iniciar uma partida nesse mesmo período de tempo (o último a conseguir começar duas temporadas foi o grande Michael Vick em 2012-13): essa é a condição em que estreará Carson Wentz na principal liga de futebol americano, depois de apenas dois anos como titular na “segunda divisão” do football universitário, sob uma pressão que ele jamais teve na vida.

Pressão essa que vai muito além do valor investido em escolhas do draft para subir à segunda posição para levá-lo à Filadélfia. A torcida dos Eagles é conhecida por ser uma das mais impacientes dos Estados Unidos (e já estamos todos ansiosos por essa revolta constante quando o draft aterrissar na cidade ano que vem) – eles vaiam até o Papai Noel. E também há salários em jogo: só esse ano, o time vai pagar mais de 15 milhões de dólares a Chase Daniel e Sam Bradford para não jogarem; um absurdo, considerando-se que esses contratos foram feitos meses antes do draft e Doug Pederson e companhia poderiam ter se adiantado e economizado alguns trocado (e espaço no cap).

Sam Bradford, inclusive, cuja saída abriu as portas para Wentz atropelar Chase Daniel (que, inclusive, com certeza foi enganado com a oportunidade de tomar a posição assim que Bradford se machucasse). A proposta de troca do Minnesota Vikings, dando a oportunidade ao time de recuperar a escolha de primeira rodada investida na troca por Wentz, foi boa demais para ser recusada.

O sorriso de quem não sabe onde está se metendo.

O sorriso de quem não sabe onde está se metendo.

Desistindo da temporada

É valido lembrar já no começo do texto ao mais otimista dos torcedores que a temporada de 2016 será de muito aprendizado e surras para os Eagles. Por mais brilhante que seja o futuro de Carson Wentz, a velocidade do jogo na FCS (a já mencionada segunda divisão em que ele jogava) é muito reduzida em relação a da NFL – e abrir mão de Bradford, assim como voltou a dar esperança a Minnesota, levou o último QB suficientemente adaptado a liga de Philadelphia.

Além disso, Wentz perdeu treinamentos e oportunidades da pré-temporada (mais um motivo pelo qual Chase Daniel deve estar felizão com o comando da equipe) por conta de uma lesão nas costelas, além de disputas contratuais, e não há talento ou físico que possa superar isso, especialmente no caso de um jogador tão cru.

Mas pelo menos o rookie entra em uma condição boa, né?

Não. Na verdade, muito pelo contrário, a começar pela companhia no backfield. Ryan Mathews já realizou boas partidas na NFL, mas nunca conseguiu ser constante quando titular (sua média de 5.1 jardas por corrida veio sendo o RB2 atrás de DeMarco Murray), especialmente por ser mais sensível a lesões que o já citado Bradford (jogou as 16 partidas somente em 2013, em seus 6 anos de liga); a outra opção é Darren Sproles, que aos 33 anos parece eminente a sua decadência.

Falando em opções, Wentz também não terá grandes recebedores (talvez o mais seguro seja o próprio Sproles): o grupo foi apontado pela PFF como o pior da NFL e o único reforço trazido foi Dorial Green-Beckham (em uma troca por um OL sem nome), que fracassou nos Titans, outro time que tampouco é conhecido pelos seus WRs.

Suas melhores opções deverão ser Jordan Matthews, que apesar de suas quase 1000 jardas e 8 TDs atrapalhou muito a vida de Bradford com drops, Nelson Agholor, que teve apenas 23 recepções como novato, e Zach Ertz, que assinou um novo contrato com o valor de 42 milhões de dólares (5 anos) mesmo sem nunca ter recebido mais de 4 touchdowns em uma temporada (mas 853 jardas ano passado).

Por último, a proteção também vai mal das pernas. Os melhores jogadores da linha, os tackles, têm problemas: Jason Peters, left tackle, está sentindo o peso da idade e seu nível já vem caindo desde o ano passado, enquanto Lane Johnson, o homem da direita, está suspenso por 10 jogos pelo uso de esteroides e será substituído por um jogador que deveria ser guard ou por um rookie. Por dentro, Wentz ao menos receberá os snaps do confiável Jason Kelce e Brandon Brooks foi trazido de Houston para reforçar a linha – quem começará como left guard ainda é uma incógnita, pois Allen Barbre pode acabar como RT.

Ao menos temos Fletcher Cox

A situação do outro lado da bola é um pouco mais otimista, especialmente com a chegada de Jim Schwartz (medíocre como head coach, um grande coordenador defensivo). O DT Fletcher Cox (9.5 sacks em 2015) assinou em junho um merecido novo contrato com 63 milhões garantidos e deverá trazer terror por dentro da linha defensiva dos Eagles, que volta a jogar na formação 4-3. No pass rush, ele terá a companhia de Brandon Graham, Connor Barwin (7 sacks ano passado) e Vinny Curry, que também recebeu um novo contrato e parece destinado a despontar nessa nova formação, mesmo após um 2015 decepcionante.

Atrás deles, Philadelphia sofreu reformas importantes no seu back seven. O LB Kiko Alonso e o CB Byron Maxwell foram enviados para o Miami Dolphins para que os times trocassem as escolhas de primeira rodada (manobra que depois permitiu a troca pela segunda escolha, Carson Wentz), mas não é como estejam prestes a fazer muita falta, especialmente o segundo.

O dono da bola.

O dono da bola.

Alonso será substituído por Nigel Bradham, também vindo do Buffalo Bills, mas tendo uma passagem bem menos impressionante por ali. Ele será acompanhado de Jordan Hicks, voltando de uma lesão no peitoral que interrompeu um bom início que teve como novato, e Mychal Kendricks, que protege bem contra a corrida e… só.

A secundária estará bem servida dos safeties Malcolm Jenkins e Rodney McLeod, vindo dos Rams por 37 milhões de dólares. Além disso, Leodis McKelvin e Ron Brooks deverão ser substitutos mais do que suficientes à mediocridade de Byron Maxwell, jogando do lado oposto a Nolan Carroll – mesmo que isso não signifique que qualquer um desses CBs será grande coisa.

Palpite: A defesa pode até tentar nos enganar e gerar um pouco de otimismo com bons jogadores, mas a situação do ataque é de reforma total e não ilude: esse é o pior time da NFC East. De qualquer forma, com a troca de Bradford o próprio time admite estar mais interessado em seguir trabalhando e construindo uma nova equipe ao redor de Wentz nos próximos anos – a disputa pela primeira escolha de 2017 será intensa. Seria uma pena se ela já tivesse sido trocada para os Browns.