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Cleveland, Joe Thomas, LeBron e Mayfield: uma nova (velha) cidade 635 dias depois

O que você faz em 635 dias?

Não existem canções de amor para Cleveland – ou, se elas existem, bem, não conhecemos. Mas não é como se ela precisasse de sua própria versão para “Sweet Home Alabama”.

Cleveland está no meio do nada, as margens do Lago Erie, em algum lugar entre a Pennsylvania, Michigan e Indiana; como quase tudo nessa vida, claro, localização é mera questão de perspectiva. Não que um estrangeiro não consiga se apaixonar por ela; é calma e aconchegante, diferente dos grandes centros dos EUA. Mas também vazia: desde 1950, a cidade perdeu mais da metade de sua população.

Cleveland agora está em uma encruzilhada entre passado e futuro: andar por suas ruas é como visitar décadas diferentes. Você vê pessoas em esquinas tentando se esconder do frio e, três quarteirões depois, está em um típico bairro de algum subúrbio norte-americano de classe média. E se o centro é limpo e agradável, repleto de vida, normalmente orbitando seus hospitais – a cidade, inegavelmente, é referência em saúde –, a leste, a poucos passos dali, você entra em um deserto pós-industrial.

Cleveland está para baixo”, conta-me um morador de rua, que vive próximo ao First Energy Stadium, casa do Cleveland Browns. “Só quero voltar para Chicago”, continua, antes de me mostrar a direção correta.

someone sed i should write

something constructive

about east cleveland”

Turistinha procurando clichês.

Literatura

Darryl Allan Levy (d.a. levy) morava próximo ao rio Cuyahoga, que desaguá no Lago Erie. Ele olhava pela janela e via a ponte Lorain-Carnegie e os “Guardians of Transportation”, esculturas que dão vida àquela passagem. Ele via Cleveland como ela era, mas sempre a imaginava além, queria mais para sua cidade.

Diariamente escrevia seus próprios poemas e, depois, caminhava sobre a ponte – mas ninguém que o via ali conseguiria imaginar que Levy se tornaria uma figura central na contracultura de Cleveland e, como consequência, seria alvo da polícia graças a sua literatura “subversiva”.

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Em 1964, Levy passou uma temporada em Nova York, lendo sua poesia pelos cafés da cidade, mas sempre se queixara do espírito cosmopolita da cidade: “Quase odeio aqui – quero a Cleveland confortável, sofisticada e indiferente”, escreveu a um amigo.

Queixava-se que a cidade que amava não era representada como merecia na literatura; falava sobre Sandburgh, Crane e Williams e como Chicago ou o Brooklyn tinham grandes obras literárias.

Por isso, provavelmente, escreveu “Cleveland Undercovers“, repleto de alusões aos naufrágios no Lago Erie, ao Assassino do Tronco, famoso serial killer que assombrou o estado de Ohio na década de 30, ou ainda profanando Moses Cleaveland, fundador da cidade. Levy é a versão beatnik de Ohio, que o ungiu, da mesma forma que Jack Kerouac e Allen Ginsbergm, a porta-voz de uma juventude que se rebelava para quebrar antigos costumes.

Roteiro fácil, claro, o apreço pela maconha e pelo LSD fez de Levy um alvo da polícia. Em 1966 ele foi indiciado e no ano seguinte acabou preso, sob a acusação de “contribuir com a delinquência”; ele havia permitido que menores de idade lessem seus poemas, permeados por sexo e drogas, algo considerado obsceno na época.

Sua prisão colocou Cleveland no centro de uma discussão nacional e nomes como o próprio Ginsberg e Gary Snyder (vencedor do Pulitzer em 1975) sairiam em sua defesa. Mas Levy nunca se recuperou do episódio e em 1968 confidenciou a vários amigos que deixaria a cidade. Em 24 de novembro daquele mesmo ano, ele se suicidou.

Cleveland, eu dei-lhe

os poemas que ninguém nunca

escreveu sobre você

e você não me deu

NADA”

Há ainda muito de seus poemas naqueles que vivem em Cleveland: você a ama, não quer deixá-la, mas ela não consegue lhe oferecer nada em troca. Então, caso insista em ficar, você precisa se apegar a algo e, bem, só existem três opções. Mesmo que elas teimem em lhe maltratar.

Algo a se apegar: basquete

Na offseason de 2010, LeBron James fez tudo errado. Hoje ele sabe disso. Sua quase cidade natal ligou-se a ele, mas ele decidiu cortar essa ligação da pior forma possível para que o rejeitassem com tanta força que James acabaria em um limbo, uma fadiga mental e física, da qual ele só conseguiria sair mais de um ano depois, durante as finais da NBA de 2011 – para então conquistar seus dois primeiros títulos.

Mas ele nunca se esqueceu do que aconteceu e, no fundo, sempre quis ser perdoado. Quatro anos depois, na offseason de 2014, o roteiro já estava escrito – e ele não se transformou em um reality show televisionado, como em 2010.

James não disse uma palavra. LeBron sequer insinuou algo ou especulou sobre sua decisão: ele a anunciou em um misto entre declaração de amor e pedido por perdão. E então voou para o Brasil assistir a Copa do Mundo.

Logo no primeiro ano, Cleveland retornou as finais da NBA, mas parou no Golden State Warriors. Há uma frase de David Blatt, técnico do Cavaliers na época, capaz de sintetizar o sentimento da cidade em relação aos esportes: “Estamos em Cleveland: nada é fácil por aqui”.

Mas no ano seguinte, LeBron e o Cavs recuperaram um déficit de três jogos para derrotar o mesmo Warriros e dar um título a cidade após 52 anos.

Quando retornou, James escreveu:

“Antes de qualquer um se importar com o lugar onde eu iria jogar basquete, eu era só um garoto do noroeste do estado de Ohio. Foi lá que eu andei, corri e chorei. É onde eu sangrei. É um local que tem um lugar especial no meu coração. As pessoas lá me viram crescer, eu quero dar a eles tanto quanto puder. Quero inspirá-los quando eu puder. Minha relação com o noroeste de Ohio é maior do que o basquete”.

É mais simbólico do que pode parecer e é provável que você só compreenda quando passar por Cleveland. “Meus primos, por exemplo, foram embora de Cleveland. Talvez como LeBron fez, agora eles possam pensar um dia em voltar”, me confidenciou um atendente de um Starbucks no caminho para a Quick Loans Arena, em novembro de 2017 – horas antes do Cavs vencer o Pistons pela temporada regular da NBA.

Destino: felicidade.

Kyrie Irving acabara de partir para Boston; a outra estrela do Cavs também havia recém deixado a equipe. Pergunto como a cidade lidara com um novo abandono. “Se James aprendeu ao partir, nós também: não temos nenhuma mágoa e, bem, lembra daquele arremesso no ano passado?”, diz o jovem, ao relembrar a cesta que garantiu o primeiro título para a franquia. Como já dissemos, a relação da cidade com o esporte, vai além de qualquer simbolismo tangível para aqueles que não estão lá.

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Antes de sair, relembro a conversa com o morador de rua e confesso que gostei mais de Cleveland do que de Chicago, por onde havia passado dias antes – ele se assusta, e pergunta se eu poderia viver ali.

Claro”, respondo. “Bom, não é uma cidade moderna, normalmente é cinzenta, mas você não verá trânsito e o aluguel é barato. Então não descarte essa possibilidade”, disse ele, antes de se despedir.

Algo a se apegar: football

Você pode não acreditar, mas nas ruas de Cleveland, existe apenas uma pessoa tão respeitada como LeBron James: não é absurdo cravar que a devoção por Joe Thomas está no mesmo patamar. E para entender essa relação, é preciso voltar para 2007: LeBron perderia sua primeira final da NBA naquele ano, mas o Browns tiveram aquela que continua sendo sua melhor temporada na última década.

Cleveland venceu 10 partidas no ano de rookie de Joe Thomas e ele foi ao Pro Bowl pela primeira vez na carreira (ele seria selecionado para o jogo das estrelas em todas as temporadas entre 2007 e 2016). Parecia o desenho de anos promissores, mas o Browns entrou em um espiral de disfunção e desde então foram seis HCs, uma infinidade de OCs e, bem, se contamos direito, 21 quarterbacks iniciando uma partida como titular até o último TNF contra o Jets.

Voltando a Joe Thomas, é difícil expressar o que um LT pode representar para uma organização – a dimensão dos feitos na posição raramente são mensurados por números, mas mesmo assim, Joe conseguiu quebrar essa barreira; ele esteve em campo em todos os snaps até uma lesão (posteriormente) encerrar sua carreira. Ele foi ao Pro Bowl em todas as temporadas que completou. E ele nunca deixou Cleveland.

“Hoje entendo LeBron, claro, mas Joe nunca foi embora: ele nos escolheu”, me conta o vendedor da loja oficial do Browns no First Energy Stadium. “Bem, é óbvio que Jim Brown é o maior jogador da história do Browns – não por acaso há uma estátua dele logo ali. Mas mesmo assim, era outra época, uma época em que mesmo o Cleveland Indians havia vencido poucos anos antes, então é difícil expressar o quanto amamos Joe”, continua.

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Em 10 anos, Joe viveu apenas uma temporada com mais vitórias do que derrotas. Seu maior feito, porém, não está dentro de campo: Joe conseguiu ensinar para uma cidade que esporte é muito mais do que vencer; é sobre querer estar onde se está e, por mais difícil que pareça, ser alguém a quem é possível se apegar enquanto a maré não acalma é tão representativo quanto qualquer troféu.

Ame este homem.

Novos ventos

O que você faz em 635 dias? Nesse período o Cleveland Browns perdeu. Mas no TNF da semana 3 desta temporada, Baker Mayfield deu ao Browns algo que ele não tinha há 635 dias: uma vitória.

Substituindo Tyrod Taylor após uma concussão, a primeira escolha geral do draft de 2018 explodiu uma vantagem de 14 pontos do New York Jets contaminando o estádio com um sentimento até então distante: esperança. E inspirando torcedores ao redor do PLANETA a torcer por um franquia até então motivo apenas de COMPAIXÃO.

Ao final de seu primeiro drive, Mayfield já tinha mais jardas do que Tyrod Taylor havia conseguindo em praticamente dois quartos – ele terminaria a partida com 17 passes completos em 23 tentativas para 201 jardas. Assim que Baker pisou em campo, parecia que o Browns havia desbloqueado diversas jogadas antes travadas em seu playbook – ele simplesmente era capaz de fazer o que Tyrod não conseguia.

O cenário em que tudo isso ocorreu dificilmente seria pensado por um ótimo roteirista especialista em CLICHÊS: jogo transmitido nacionalmente, três escolhas de primeira rodada do último draft e, bem, um running back correndo entre o estádio e o hospital enquanto esperava o nascimento de seu primeiro filho – no dia do seu aniversário.

Tudo é épico na vitória comandada por Mayfield: ele levou a equipe a um FG na primeira campanha, recebeu uma conversão de dois pontos ao final do terceiro quarto para empatar a partida e viu o então futuro pai, Carlos Hyde, anotar o TD da vitória.

Direto do túnel do tempo.

O caminho até ali

Nos primeiros 28 minutos de partida Cleveland foi o que havia sido nos últimos anos: uma equipe apática. O ataque estava imóvel enquanto Tyrod Taylor lutava contra sua própria incapacidade (foram quatro passes completos em 14 tentativas) e a de seus companheiros – Antonio Callaway deixou um TD fácil escapar e o jogo corrido simplesmente não fluía.

Para tornar tudo ainda mais cruel, Isaiah Crowell, ex-Browns, anotou dois TDs – no segundo, moleque travesso e rancoroso (rancor, o sentimento mais belo que um ser humano pode cultivar e alimentar), limpou-se com a bola e atirou na arquibancada.

Mas logo depois Taylor precisou sair de campo e, com 1 minuto e 23 segundos no relógio, Baker entrou em campo disposto a interromper anos de sofrimento.

Dilly dilly!

Após a vitória, Joe Thomas perguntou a Mayfield onde ele encontrara confiança para jogar, já que não havia treinando como titular durante a semana. “Por mais engraçado que isso possa parecer, foi assim minha vida inteira”, respondeu, antes de perguntar. “Os bares ainda estão abertos? Dilly dilly!”, disse, se referindo a promessa de cerveja gratuita em caso de vitória dos Browns.

Na última quinta-feira, Baker não ganhou apenas um jogo, ele ganhou o direito de construir sua própria narrativa na NFL – assim como já havia feito em sua carreira universitária, onde escreveu sua história semana após semana. Mayfield não apenas derrotou os Buckeyes em Ohio; eles os derrotou e cravou a bandeira de Oklahoma em pleno Ohio Stadium.

Ele não apenas conquistou a titularidade em Texas Tech em seu primeiro ano; ele o fez e então se transferiu para Oklahoma, não apenas inspirando pessoas a fazerem camisas o criticando – ele as comprou para vestir. Mas como o próprio Baker disse após o jogo: “Passado é passado. Você precisa apertar o botão de reset e dar o próximo passo em frente”.

Agora não importa mais se Cleveland teve um dos maiores jogadores da história do basquete (e indiscutivelmente o melhor de sua geração) por 10 anos e o transformou em apenas um título. Não mais importa se Cleveland teve o melhor OT da história da NFL e não conseguiu nada além do que transformá-lo em um símbolo para cidade. Na última quinta-feira, tudo valeu a pena, afinal, 635 dias depois, Cleveland bebeu cerveja de graça.

Eu escolhi esperar

No mundo dos esportes, existe uma velha citação sobre como você nunca quer ser o cara que substitui “O cara”. Você quer ser o cara que substitui o cara que substitui “O cara”.

Para o 49ers, “O cara” era Jim Harbaugh, o grande treinador que chegou em 2011 de Stanford para salvar a equipe da mediocridade. Antes da chegada de Harbaugh, San Francisco vinha de uma humilhante sequência de oitos anos sem chegar na pós-temporada, tempo esse no qual a franquia teve campanha média de 5-11 e não teve UM ano com mais vitórias do que derrotas; Harbaugh trouxe mudanças, e uma nova cara para a franquia: em seus três primeiros anos, San Francisco foi a três finais de NFC consecutivas e um Super Bowl, ficando a cinco jardas (nota da edição: ou um holding não marcado) de conquistar o sexto anel da franquia. Foram três anos gloriosos, e graças àquele que logo se tornou um dos melhores técnicos da liga.

Saudades.

Mas vocês sabem como a história acaba. Uma diretoria egocêntrica quis os créditos pelo sucesso do time, o que levou a uma queda de braço e à saída de Harbaugh de San Francisco, enquanto Balkee e York buscavam provar que o time não dependia do técnico para continuar ganhando jogos, e que a dupla era a verdadeira origem do sucesso da franquia.

De certa forma, tanto Jim Tomsula (2014) como Chip Kelly (2015) – os dois técnicos seguintes – foram “o cara que substituiu O cara”: sim, eram pessoas diferentes, mas ambos foram um subproduto da mesma mentalidade distorcida, do desejo da diretoria de ganhar no curto prazo para comprovar sua crença no próprio sucesso. Por mais problemas que tivessem, Tomsula e Kelly estavam fadados ao fracasso mesmo antes de começarem seu trabalho.

Felizmente isso agora ficou no passado, e agora o time tem seu cara para substituir os caras que substituíram “O cara”. Kyle Shanahan chega não para tentar arrumar um time já existente em uma tentativa desesperada de conseguir vitórias, e sim como uma peça para iniciar um processo de reconstrução com foco no longo prazo. E isso é uma ótima notícia para uma franquia que voltou a ser uma piada nos últimos dois anos da sua gloriosa existência.

Para o 49ers voltar a ser bom, primeiro precisava admitir que não era mais. E foi o que o time fez. Shanahan e o novo GM John Lynch assinaram contratos muito longos (seis anos) justamente para terem a segurança e estabilidade no cargo que precisam para poder pensar no amanhã, sem se preocupar em ganhar no hoje. É um processo, e o time parece ter enfim construído sua base para se lançar nessa empreitada.

A realidade

Embora isso seja uma boa notícia para o torcedor de SF, uma guinada na direção certa, isso também significa que pelo menos por enquanto o time está conformado em ser um time ruim, que não vencerá muitos jogos. Tudo fica claro na montagem no elenco: jogadores mais talentosos saíram da equipe, e o time não investiu para estancar o sangramento.

Ao invés disso, apostou no draft, trocou para acumular escolhas extras, e encheu o time de jovens promessa. Ainda assim, o mais provável é que ainda demore anos para termos uma noção clara de como e para onde está indo essa reconstrução. E, depois das últimas duas temporadas, isso não será um problema. Ser ruim o time já era, pelo menos agora ele pode oferecer algo ao torcedor pela primeira vez em três anos: a perspectiva de um futuro melhor.

E onde esse futuro parece estar mais próximo é do lado defensivo da bola. Em parte pelos legados de drafts anteriores, em parte pela ótima atuação de San Francisco no seu primeiro draft sob o comando de John Lynch, a defesa do 49ers já possui um número maior de grandes prospectos para servirem de pilar para essa nova etapa.

Onde mora o futuro

Em particular, o que impressiona é o talento que o time acumulou na linha defensiva. Nos últimos três drafts, o 49ers usou sua primeira escolha em um jogador da posição: Arik Armstead (#17 em 2015), DeForest Buckner (#7 em 2016) e Solomon Thomas (#3 em 2017).

Armstead teve altos e baixos, mas em geral se destacou na curta carreira indo atrás dos QBs adversários, e Buckner teve um ótimo ano de calouro. Apesar da pouca idade, experiência e rodagem pela NFL, é um trio de enorme talento, altas expectativas e que devem constituir a espinha dorsal da identidade do Niners daqui para frente.

Solomon Thomas, que em português quer dizer “esperança”.

O sistema defensivo de San Francisco mudou para um alinhamento 4-3 nessa temporada, o que também deve ajudar a maximizar o impacto desse grupo, em especial a versatilidade de jogadores como Thomas e Armstead, capazes de se moverem ao longo da linha e jogarem em múltiplas funções e posições.

Junte a esse trio o subestimado Aaron Lynch, que vem de um 2016 ruim, mas que já teve destaque no passado com seus sacks e pressão, e a profundidade de nomes como Earl Mitchell, Quinton Dial e Tank Carradine: essa linha de frente pode ser bastante assustadora muito em breve.

O resto da defesa não está com tantas promessas e tantos talentos de ponta, mas ainda tem alguns nomes interessantes. NaVorro Bowman, aos 29 anos e vindo de múltiplas lesões sérias, provavelmente não é uma peça que estará no próximo time vencedor do 49ers, mas é um líder querido e respeitado no vestiário que pode por pra jogar junto do jogador que deve ser o futuro do 49ers no miolo da defesa, o LB Reuben Foster, um talento Top 5 do último draft que caiu até o fim da primeira rodada por problemas no ombro. Se ficar saudável, será um grande achado e mais uma boa peça para essa defesa.

A secundária não tem esse tipo de talento ou de certezas, mas ainda tem jogadores jovens que podem contribuir, como os “herdados” Jaquiski Tartt e Eric Reid, dupla de Safeties; o promissor Rashard Robinson (escolha de quarta rodada de 2016); os cornerbacks Jimmy Ward e Dontae Johnson e o calouro Ankhello Witherspoon.  É uma unidade com muito mais jogadores decentes e apostas – o tipo de situação onde você tenta descobrir exatamente o que tem, e ver se alguma das suas apostas se torna um acerto para carregar.

Ainda assim, a secundária deve depender muito mais de boas atuações da linha defensiva – e da pressão colocada nos QBs adversários – do que da sua própria qualidade durante a temporada. Idealmente, Robinson e Witherspoon atingiriam seu potencial e se tornariam uma boa dupla titular, e pelo menos um dos veteranos se mostraria um sólido complemento. É o que o coordenador defensivo Robert Saleh vai esperar encontrar para a temporada, enquanto tenta recuperar a identidade defensiva e física que marcou os anos de ouro do 49ers nessa década.

O lado oposto

O ataque, por sua vez, foi montado com uma abordagem muito diferente – tão diferente que dá para dizer que é quase oposta. Se a defesa está mais avançada na reconstrução, com vários talentos intrigantes de alto nível e altíssimo potencial, o ataque está praticamente sem nenhum talento jovem de alto potencial. Seu QB titular e seu WR #1 em 2017 terão 31 anos, seu melhor jogador de linha tem 32, e o time gastou apenas UMA escolha de draft nas três primeiras rodadas dos últimos três anos com o ataque – o G Joshua Garnett que, aliás, foi muito mal em 2016.

Então, com essa escassez de talento jovem, a diretoria de San Francisco inteligentemente decidiu seguir na direção contrária: ao invés de montar o ataque através de seus jogadores, o time decidiu começar a construí-lo montando e estabelecendo nele um sistema e um plano claro de jogo – o mesmo que Kyle Shanahan implementou com tanto sucesso em Atlanta. Com um esquema definido já implementado, fica muito mais fácil para saber que tipo de jogador buscar, incorporar novas peças, e achar talentos subvalorizados que têm muito mais valor dentro de um estilo de jogo específico – como o New England Patriots tem nos mostrado há 16 anos.

Então o Niners se preocupou em ir atrás dos jogadores que fizessem sentido para o plano de jogo de Shanahan, e trouxe as peças que poderiam ajudar nesse momento. Para jogar como QB veio o veterano Brian Hoyer, um jogador bastante subestimado que jogou com Shanahan no Browns em 2014 e que portanto já conhece seu playbook. Hoyer não é bom o bastante e nem tem a idade para ser o QB do futuro do time, mas como esse jogador não está hoje no elenco, até lá Hoyer é um bom nome para fazer a função que o time espera dele.

San Francisco também foi atrás e pagou bem caro por complementos a Hoyer, notavelmente Pierre Garçon, Marquise Goodwin e Kyle Juszczyk (eu olhei no Google). Os valores pagos levantaram questionamentos merecidos, pois foram bastante acima da média de mercado. Isso pode se dar por conta de um GM novo no cargo, e ser atribuído a John Lynch ainda não sabendo lidar bem com o mercado. Pode ser também o fato de que o Niners é um time ruim, com uma imagem pior ainda ao redor da NFL, e que sabia que não conseguiria os jogadores que queria se não pagasse mais por eles.

Mas todas essas caras aquisições foram feitas por um motivo. Pierre Garçon é um sólido WR que também conhece bem o playbook que o time quer implementar, tendo jogado dois anos com Kyle Shanahan em Washington, quando inclusive liderou a NFL inteira em recepções (2013, com 113). Já Marquise Goodwin nunca jogou com Shanahan, mas é um jogador que trás uma habilidade importante: é um WR de grande velocidade e muito dinâmico com a bola nas mãos, um papel importante para o esquema de Shanahan e que deve fazer a função que foi de Taylor Gabriel em Atlanta em 2016.

E por fim Juszczky é um fullback bastante versátil, e Shanahan é um dos técnicos mais criativos usando FBs na NFL de hoje.

Eu quero acreditar.

Desnecessário dizer que trazer esses jogadores não é nem de longe para igualar o que Matt Ryan, Julio Jones e companhia fizeram em 2016 por Atlanta. Os jogadores que levarão esse ataque – espera-se – ao próximo nível ainda não estão na equipe, e devem ser um dos focos para os próximos anos.

A arte da paciência

Somando tudo isso, é difícil para o torcedor do 49ers realmente esperar um grande ano da sua equipe em termos de vitórias e performances. É o primeiro passo de um projeto de longo prazo, e paciência será parte importante dele. Mas isso não quer dizer que não possa ser um ano divertido. Do fundo do poço só se pode ir para cima, e o Niners TEM pontos de interesse para se acompanhar. Em particular, a linha defensiva tem chance de ser especial, e o ataque é um sistema de sucesso que já produziu momentos muito divertidos.

Com um pouco de sorte, San Francisco talvez tenha mais talento do que parece à primeira vista. Hoyer é um QB competente, e tem algumas armas de valor ao seu redor. Ninguém vai confundir esse ataque com o do Steelers, claro, mas tanto Hoyer como Garçon já produziram temporadas muito boas sob o comando de Shanahan.

Carlos Hyde é secretamente um dos RBs mais subvalorizados da NFL (quando saudável), e se a linha defensiva conseguir pressão suficiente para encobrir a secundária, esse time pode pelo menos almejar ser respeitável. E esse é um aspecto mais importante do que parece: a percepção do 49ers ao redor da NFL hoje, depois de chutar um dos melhores técnicos da NFL em uma batalha de egos e afundar por dois anos, é péssima.

Técnicos, coordenadores e executivos recusaram entrevistas para assumir cargos na franquia, e jogadores não queriam jogar lá. Reconstruir esse tipo de coisa leva tempo, mas um bom ano, com performances respeitáveis, poucas brigas e algumas vitórias empolgantes pode fazer muito por reparar a reputação de um time.

A nova era do San Francisco 49ers começa agora. Onde ela vai dar, nós não sabemos. Mas aproveite a jornada, porque essa é uma franquia que sabe muito bem o que é estar sem direção, nadando no fundo do poço e achando que está acima de todos os demais.

Palpite: 6-10. San Francisco não deve ser tão ruim quanto o esperado em 2017 se alguns fatores funcionarem. A linha defensiva tem totais condições de estar em boa forma, e Brian Hoyer é um veterano que pode trazer estabilidade para o ataque – ambas as unidades devem caminhar mais para a média da NFL esse ano. O calendário não é dos melhores, com quatro jogos contra os sempre fortes Cardinals e Seahawks, e mais quatro jogos contra a forte NFC East, mas também há dois jogos contra Rams, um contra Chicago e quatro contra a AFC South para buscar algumas vitórias. Com a possibilidade de alguns jovens talentos explodirem esse ano, San Francisco conseguirá uma mais que respeitável campanha de 6 ou 7 vitórias, a melhor desde a saída de Jim Harbaugh (saudades).