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A angústia de quem ainda espera um final feliz

Existem times irrelevantes na NFL. Times com que sabemos que não vale perder muito tempo, porque ele simplesmente não chegará a lugar nenhum, como não tem chegado nunca. Isso serve para Bengals ou Lions. E servia para Arizona até a chegada de um certo Kurt Warner, que quase deu um título à franquia, não fosse por um certo passe agarrado na ponta dos pés no fundo da endzone.

Quando Kurt se aposentou e a franquia não tinha um substituto à mão, esperamos outra vez pelo seu retorno à irrelevância. Entretanto, com uma combinação de bons movimentos na free agency (roubando, por exemplo, o LT e QB titulares do Oakland Raiders), a chegada de um grande treinador (também roubado do Indianapolis Colts, enquanto estes ficaram com o original, Chuck Pagano, que era pior) e belos drafts para ajudar a defesa, o time inclusive conseguiu vencer a NFC West contra a Legion of Boom em 2015.

Homão.

Resta, agora, saber se ainda há forças para chegar até o fim e vencer de verdade.

Os tropeços previstos de uma defesa monstruosa

Pode não parecer, mas a unidade mais importante para as campanhas positivas dos Cardinals tem sido a sua defesa, no top 6 em número de jardas cedidas em três dos últimos quatro anos, inclusive sendo a número 2 de 2016 (pouco mais de 305/jogo). Entretanto, algumas recentes perdas importantes sofridas podem mudar esse panorama.

Calais Campbell é talvez um dos jogadores de linha defensiva mais ignorados da liga, um paralelo talvez com Jurrell Casey (dos Titans, que você também não conhece); seus 8 sacks e seis passes defendidos produzidos da posição de DE de um 3-4 em 2016 são extremamente respeitáveis, assim como seu reconhecimento pelo site PFF.

Já na secundária, o S Tony Jefferson foi ganhando importância ao longo dos anos, fazendo o serviço sujo lá no fundo do campo tanto contra o jogo corrido como contra o passe. Ambos não jogarão em Arizona em 2017, recebendo mega-contratos em Jacksonville e Baltimore, respectivamente.

A mesma secundária, porém, deverá sofrer menos porque ainda conta com Patrick Peterson, um dos melhores cornerbacks da NFL, e Tyrann Mathieu, um dos melhores safeties, All-Pro em 2015, única temporada de suas quatro na liga em que não terminou na injured reserve (o que faz com que nos perguntemos quanto tempo mais ele poderá durar, mesmo com seu contrato de cinco anos).

Complementando os craques, há uma disputa entre Antoine Bethea e o rookie Budda Baker para a posição de Strong Safety, enquanto Justin Bethel é atualmente posicionado do lado oposto de Peterson – de qualquer forma, quem estiver por ali será explorado pelos adversários.

Já o front seven deverá sentir mais a perda para os Jaguars. O time até estará bem servido de pass rushers, com os LBs Markus Golden e Chandler Jones, que somaram 23.5 sacks em 2016. O rookie Haason Reddick se responsabilizará pelo meio da defesa ao lado do veterano Karlos Dansby, em sua 13ª temporada.

O problema se encontra nas trincheiras. Corey Peters retorna como NT, mas ao seu lado estão atualmente posicionados Josh Mauro e Frostee Rucker, que somaram apenas 40 tackles em 2016. A decepção principal fica por conta do maloqueiro Robert Nkemdiche, draftado justamente para substituir Calais, mas que com problemas de dedicação, não deve conseguir tão cedo a oportunidade de ser titular nessa defesa.

O fator David Johnson

Se você não sabe quem é e não sente maravilhas só de ler esse nome, o senhor está perdendo tempo na NFL. Um dos melhores e mais assustadores RBs da liga, deve ser o ponto focal desse ataque por muitos anos ainda – foda-se esse papo de “mimimi QBs são os mais importantes sempre”; Bruce Arians não tem tempo para seus mimimis.

Você diria não a esse homem?

Os que complementarão David Johnson

Se a primeira opção não é o QB, com certeza a segunda é. O problema é que Carson Palmer (draftado em 2003), está beirando os 82 anos de idade e, ainda que seus números mais básicos possam indicar o contrário (4233 jardas, 26 TDs para 18 turnovers), a piora na sua produção é iminente porque Palmer não é Tom Brady.

Mesmo assim ele ainda é um QB perfeitamente adequado para executar o que Bruce Arians espera (aguentar tempo no pocket e fazer lançamentos longos precisos), motivo pelo qual é possível que suas 7.1 jardas lançadas por jogo tenham sido mais reflexo de uma linha ofensiva ruim do que de seu próprio declínio – mas Arizona faria bem em já se preparar para substituí-lo com alguém que não fosse Drew Stanton.

Carson Palmer precisará de tempo para pensar e usar seu braço de velho para soltar a bola para esses alvos – além de que até deuses como David Johnson precisam de algum apoio.

O interior da linha ofensiva deverá melhorar, já que Mike Iupati versão 2017, obrigatoriamente, deve ser melhor do que o Iupati de 2016, mas a novidade mesmo fica por conta da troca entre tackles: o seguro Jared Veldheer, que teve um bom 2015, mas jogou apenas metade de 2016, vai para a direita, enquanto D.J. Humphries, que ainda parece “em processo de desenvolvimento” mesmo em seu terceiro ano na liga, é o novo protetor do lado cego de Palmer.

De qualquer forma, é válido lembrar que essa mudança reflete uma necessidade de proteger durante o passe também do lado direito (além do tradicional RT gigantesco que destrói no jogo corrido), com jogadores como J.J. Watt e Von Miller atacando pela esquerda da defesa.

Por último, Palmer e Arians também contam com bons receptores. O time se livrou do WR Michael Floyd ainda durante 2016, mas para seu lugar estão os jovens John Brown (1000 jardas em 2015, o que mostra seu potencial para ser grande após se recuperar de uma lesão na coluna em 2016) e J.J. Nelson (6 TDs em 2016 em apenas 6 starts), além do já veterano Aaron Dobson, que jogou pela última vez em 2015 no New England Patriots. O time também espera mais do TE Troy Niklas, draftado no segundo round de 2014 e também lesionado em 2016.

O alvo estrela, de qualquer maneira, ainda será o hall of famer Larry Fitzgerald, que teve suas primeiras temporadas seguidas com mais de 100 recepções agora, aos 32 e 33 anos. Entretanto, assim como o time deve se preparar para não depender de Drew Stanton como QB, também é hora de começar a se planejar a uma vida sem Fitz como WR, porque ele já diz que não se pegará chorando quando se aposentar.

“A única razão pelo qual ainda estou jogando, é para vencer um campeonato. De um ponto de vista pessoal, já conquistei o suficiente. ”

Previsão: Pode parecer clichê da NFL, mas a temporada de Arizona se concentra nas trincheiras. Se ambas as linhas forem medianas, as capacidades das unidades aéreas (tanto na defesa como no ataque) deverão garantir bons resultados. Além disso, será crucial ter uma campanha melhor em casa do que as 4 vitórias de 2016. Aproveitando-se de 4 vitórias fáceis contra Rams e 49ers, Johnson, Arians e companhia poderão chegar aos playoffs – onde, sabemos, na NFC sempre tem jogo (até pegar New England no Super Bowl e perder).

Há times que não nasceram para vencer: cedo ou tarde algo dará errado

Maior número de vitórias na história da franquia, 7 jogadores no Pro Bowl, um quarterback que lançou para 4671 jardas e 35 TDs e muitas outras grandes marcas individuais. Ainda assim, a impressão que fica quando se lembra do time de Bruce Arians em 2015 é estranha, é de fracasso – obviamente, o 49-15 com direito a sete turnovers na final da NFC para os Panthers (a segunda derrota em dois anos seguidos para Carolina nos playoffs) não faz nenhum favor à história.

Mais do que isso, talvez a grande razão para decepção seja a impressão de que Carson Palmer gastou todas as suas últimas forças até o penúltimo jogo da temporada passada e a sua última oportunidade de chegar (sempre bom lembrar: seria a segunda vez que um idoso seria o QB dos Cardinals no grande jogo) e ganhar o título foi desperdiçada – ele se machucar e sermos obrigados a curtir alguns jogos com Drew Stanton parece uma questão de “quando” e não de “se”.

E ainda assim, Arizona parece disposto a seguir tentando com Palmer – por mais preocupante que isso seja para o futuro da franquia, já que aos 37 anos Carson pode implodir a qualquer momento (vide Manning, Peyton) e Bruce Arians terá como melhor plano “dar oportunidades a Drew f***ing Staton” ou desenvolver Zac Dysert e Aaron Murray, do practice squad, ou ainda correr atrás de alguém como Brock Osweiller ou Tyrod Taylor, com sorte.

De qualquer forma, mais importante, isso deverá manter o ídolo-mor da franquia, Larry Fitzgerald, feliz. Larry, aliás, que anunciou que se aposentará quando os Cardinals não tenham mais um QB decente; ele confirmou ainda ter pesadelos com John Skelton, Ryan Lindley e Kevin Kolb, e que seu grande sonho é ir viver em uma fazenda com Carson e um Lombardi Trophy. E, bem, ele com certeza não é a única pessoa em Phoenix que tem esse sonho.

Vou decepcioná-los.

Vou decepcioná-los.

Falando em Fitzgerald…

Já que mencionamos o ídolo do time, comecemos pelo ataque. Enquanto Palmer se mantiver saudável e jogando o que sabe, provavelmente o único ataque que pode fazer frente ao do Cardinals é o do Pittsburgh Steelers; e ainda assim, Big Ben não tem tantas armas. A começar por Larry, que parecia estar sentindo a idade entre 2012-14, mas suas 109 recepções e 1215 jardas em 2015 parecem divergir dessa impressão – mesmo que não se repita em 2016 ele ainda será um alvo muito sólido.

John Brown também superou as 1000 jardas no ano passado em apenas seu segundo ano na NFL e deverá cada vez mais ganhar status de alvo principal do time; Michael Floyd, que perdeu um pouco de espaço com o crescimento de Brown, está no último ano de seu contrato de rookie, e tipicamente a produção de qualquer jogador da liga cresce nesse tipo de situação.

Para finalizar o quarteto (!) (provavelmente são poucos os outros quarterbacks na NFL que têm mais de três bons alvos), Arizona ainda tem Jaron Brown, um jogador que entrou na liga sem ser draftado em 2013, mas que Bruce Arians, falastrão, chamou de “melhor WR dos Cardinals” em uma entrevista durante a pré-temporada.

E, na verdade, ainda há um quinto grande alvo para Carson: David Johnson, novato que surgiu no final da temporada (mais exatamente na semana 13), bom em todos os aspectos do jogo: correndo, recebendo, e até colaborando na proteção ao QB. Válido lembrar que David só surgiu após a lesão de outro Johnson, Chris, o famoso CJ2K, que vinha fazendo um grande 2015, mas deverá assumir a condição de veterano secundário enquanto o garoto em seu segundo ano, como titular, deverá ser um dos melhores running backs da liga.

Para fechar, como com qualquer QB e especialmente um de tanto valor e com risco como Palmer, a proteção é fundamental. Por isso, é sorte dos Cardinals poder contar com o LT Jared Veldheer e com os guards Mike Iupati e Evan Mathis, roubado dos Broncos, três jogadores de altíssimo nível (prova de que Jonathan Cooper, trocado, não fará falta).

As dúvidas ficarão por conta do center A. Q. Shipley, que não foi grande coisa em 2015, e no basicamente novato D. J. Humphries, draftado na primeira rodada do ano passado, mas que não jogou nenhum snap. Teremos o veredicto agora se o ano de transição foi bem utilizado.

Não aprendi dizer adeus.

Não aprendi dizer adeus.

Melhorando o que já era bom

Falando em Cooper, desconsiderando a possível mágica que Bill Belichik poderá operar para torná-lo o melhor guard da NFL, ele foi envolvido em uma troca (somado a uma escolha de segunda rodada) que, em uma primeira impressão, parece um grande ganho para os Cardinals, ao adicionar um grande pass rusher ao time em Chandler Jones (12.5 sacks em 2015). Oposto a ele, deverão aparecer Alex Okafor e principalmente Markus Golden, que fechou bem seu ano rookie com 3 sacks nos últimos seis jogos (sim, não são grandes números, mas mostram como Arizona chegou pouco ao QB).

A frente deles estará o grande DE Calais Campbell, também colaborando especialmente em exercer pressão no QB. Com ele, na linha defensiva também estarão Corey Peters, que é provavelmente o jogador com o maior *asterisco* dessa defesa por estar voltando de uma lesão no tendão de Aquiles do alto de seus 138kg, e Frostee Rucker, especialmente responsáveis por ocupar espaços e bloqueadores.

Rucker, entretanto, deverá ceder espaço ao longo da temporada para a escolha de primeira rodada, o talentoso Robert Nkemdiche, que só chegou aos Cardinals pelos tradicionais problemas fora de campo (em seu caso, um irmão mala e uma atitude muito cool para os padrões apreciados pela NFL).

Por último, o ponto forte da defesa, uma raridade na NFL moderna, a secundária. O safety Tyrann Mathieu, que recebeu um contrato de 5 anos, 62.5 milhões, mesmo voltando de uma lesão no joelho (que o tirou do fim da sua incrível temporada passada, em que conseguiu 5 INTs, fazendo muita falta nos playoffs) e o cornerback Patrick Peterson dispensam maiores comentários. Ambos estão entre os melhores de suas respectivas posições e deverão ser evitados pelos adversários.

Pelo depth chart atual, a dupla de Mathieu será Tony Jefferson, que venceu Tyvon Branch na disputa por posição da pré-temporada. O time ainda conta com Deone Buccanon compondo a (agora) famosa posição híbrida de LB/S apoiando a secundária (e fazendo dupla com Kevin Minter como LB, esse mais responsável por parar o jogo corrido).

E oposto a Patrick Peterson deverá jogar Brandon Williams, um novato de segunda rodada, que ganhou a posição por pura falta de competição (Justin Bethel teve problemas com uma lesão no pé na preseason e não conseguiu vencer o rookie).

Válido lembrar que Williams só jogou uma temporada como CB na universidade e cornerbacks, por mais brilhantes que sejam, levam tempo para se adaptarem à liga – sendo que lançar contra Peterson não é uma opção, pode ser que Williams sofra bastante já em seu primeiro ano.

Palpite: um caminhão de vitórias na temporada regular, título da divisão e a decepção inevitável nos playoffs, seja por uma lesão de Carson Palmer e a necessidade de utilizar um cone como quarterback, ou por alguma pipocada do mesmo Palmer na hora “h”. Aceitemos: há times que não nasceram para vencer.