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O fim está próximo (mas não será agora)

A dinâmica entre Tom Brady e Bill Belichick provavelmente nunca mais será vista na história do esporte. Primeiramente, porque o futebol americano é o único esporte coletivo que tem uma posição tão desnivelada em relação às outras: um quarterback tem muito mais impacto no jogo que qualquer camisa 10 ou pitcher.

São raríssimos os casos em que um jogador consegue carregar um time como um QB pode fazê-lo. O único exemplo contemporâneo que vem a mente (além de Yago Pikachu no Vasco) é LeBron James em Cleveland e, mesmo assim, ele só conseguiu vencer a NBA porque tinha uma estrela jogando do seu lado. Em segundo lugar, porque são igualmente raros os técnicos que transcendem o jogo. No futebol, o exemplo mais notável é Alex Ferguson, que você provavelmente já sabe quem é. Porém, em terceiro lugar, e mais improvável ainda, é o alinhamento entre esse jogador e esse técnico: nenhuma parceria entre nomes tão grandes durou tanto tempo quanto a de Brady e Belichick.

LEIA TAMBÉM: Uma dinastia sem fim

Você já deve ter ouvido que chegar ao topo é fácil, o difícil é se manter lá. Não cabe entrar no mérito da primeira máxima, provavelmente uma grande bobagem. Mas se manter no topo é com certeza mais difícil que chegar, porque, para isso, você precisa de tudo aquilo que foi necessário para atingir aquele posto, e por um período de tempo maior. Este ciclo de alternância é muito bem exemplificado pela NFL: muitas vezes o melhor time de uma temporada não consegue nem chegar aos playoffs no ano seguinte. As dinastias, se é que elas existem em outro lugar, não duram muito tempo.

O Patriots é a exceção que confirma essa regra. Nenhuma outra dupla QB HC teve um intervalo de 15 anos entre aparições no Super Bowl, muito menos de vitórias no Super Bowl. Se Brady venceu o Super Bowl em 2001 e 2016, Joe Montana venceu em 1981 e 1989. Se Belichick venceu o Super Bowl em 2001 e 2016, Vince Lombardi venceu a NFL em 1956 e 1967. Nem mesmo outros grandes nomes da história conseguiram tamanha consistência por tanto tempo.

Tudo tem seu fim

Por mais estranho que pareça para o fã brasileiro da NFL, que em sua maioria aprendeu a gostar do esporte no meio da dinastia de New England, um dia nós assistiremos uma liga em que a dinâmica em torno do Patriots – e de toda NFL, por consequência – não será a mesma.

É irreal para alguém como eu pensar nesse cenário. Desde o meu primeiro contato com o futebol americano, em uma noite de finais de Conferência onde um jogador desmaiado chamou minha atenção (na época era um grande fã do UFC – RIP), todas finais da AFC foram jogadas em Foxborough. Porém, essa realidade parece estar finalmente próxima do fim e, se Deus quiser, é o que 2018 nos reserva.

No início deste ano, logo após a temporada regular e antes dos playoffs, a ESPN americana publicou uma extensa matéria mostrando como a relação entre Tom, Bill e Robert Kraft, dono da franquia estava abalada.

Belichick tinha o desejo de deixar o esporte com um legado ainda maior que o que vemos hoje. Além de seus títulos e reconhecimentos, ele queria que os Patriots tivessem o sucesso encaminhado para os anos seguintes – isso incluía, principalmente, estabilidade na posição de quarterback. Para isso, ao longo dos anos, Bill sempre procurava um plano de sucessão para Brady: desde 2008, foram 4 QBs escolhidos nas três primeiras rodadas do draft. Na medida que o tempo se passava, esse “plano B” se mostrava mais importante, afinal não se sabia/sabe até quando Tom continuará jogando em alto nível. Por isso, em 2014, a escolha de Jimmy Garoppolo parecia ser aquela que implantaria a segunda etapa do legado de Bill. Depois de alguns anos aprendendo, Garoppolo poderia ser o  enfim sucessor de Brady.

Porém,  no ano passado, o último do contrato de Jimmy em New England, Tom vinha da maior vitória de sua carreira (um oferecimento Atlanta Falcons). Suas atuações de MVP ainda não ajudavam no plano de sucessão, afinal o Patriots não poderia simplesmente se desfazer de seu maior ídolo  enquanto este ainda jogava em alto nível.

Apesar disso, Belichick ainda queria contar com Jimmy, mesmo que isso significasse carregar dois QBs – e seus altos salários – no roster.  A ideia não agradava Brady, que não escondia de ninguém seus planos de continuar atuando até os seus 40 e tantos anos. Assim, em uma suposta queda de braço interna, o camisa 12 saiu vitorioso, e Garoppolo foi trocado para os 49ers, mesmo contra a vontade de Bill.

Se Tom tinha suas discordâncias com o plano de Belichick, a recíproca era verdadeira. Nos últimos anos, Brady tem se alinhado com Alex Guerrero, uma espécie de personal trainer. Juntos eles têm vendido o “método TB12”, baseado nas crenças de ambos sobre como tratar seu corpo e trabalhar para melhorar o rendimento. Até então esse método tem mostrado sucesso, afinal Tom não apenas ainda apresenta um bom nível de atleticismo, como podemos até mesmo discutir se ele não está melhorando.

O “método TB12” foi, então, levado para dentro da organização Patriots. Porém ocorreram discordâncias quando os processos de Alex Guerrero entraram em colisão com os de Bill. Assim, Guerrero foi proibido de trabalhar dentro da franquia, e sua “consultoria” acabou limitada. Acabou-se criando dois grupos de jogadores: os adeptos de “TB12” e aqueles que seguiam as orientações passadas pelo time. Tudo isso só serviu para inflamar o conflito entre Brady e Belichick.

Tom Brady & Amigos

O Patriots chega em 2018 em meio a esse turbilhão. Com seus dois principais nomes em rota de colisão (mesmo que neguem), a franquia vem enfraquecida para essa que pode ser a última temporada da dupla Tom e Bill.

O ataque terá Rob Gronkowski como principal recebedor, mas, depois dele, o único nome que inspira confiança é Chris Hogan. Julian Edelman, além de suspenso para o início da temporada, vem de lesão grave e pode estar se aproximando do final da carreira. Seu status como jogador é uma incógnita.

A linha ofensiva perdeu Nate Solder para o Giants e a escolha de primeira rodada desse ano Isaiah Wynn por lesão, mas ainda conta com jogadores interessantes. A unidade não deve ser um problema, já que Dante Scarnecchia, o OL Coach, é um verdadeiro mago capaz de tirar leite de pedra.

Por fim, a saída de Dion Lewis não deve gerar um impacto muito grande, já que a estratégia do time gira em torno de revezamento de jogadores na posição. E, mesmo assim, o Patriots já mostrou no passado que não vê problemas em abandonar o jogo corrido e depositar as fichas em Tom Brady.

Bill Belichick & Amigos

A defesa foi o ponto fraco da equipe em 2017, e isso ficou bem claro no Super Bowl. Nick Foles não sofreu pressão nenhuma enquanto deflorava secundária de New England. Para ajudar a resolver as deficiências, Belichick foi atrás de Adrian Clayborn no mercado e ainda realizou trocas por Danny Shelton e Jason McCourty. A linha defensiva reforçada pode ir bem, já que Malcom Brown é bom jogador e Trey Flowers é (discutivelmente) um dos 10 melhores defensores da NFL.

A secundária conta com nomes interessantes, como os irmãos McCourty, Eric Rowe e Stephon Gilmore. Se esses dois forem mais consistentes esse ano, vai ser difícil passar a bola contra o Patriots. Por fim, a maior fragilidade do grupo está no corpo de LBs. Kyle Van Noy e Elandon Roberts são quebra-galhos de grife, e a responsabilidade fica toda nos ombros de Dont’a Hightower. Quando ele se machucar, a tendência é o buraco ser tão grande que sugará toda a defesa junto.

Palpite: Apesar das desavenças em New England, ainda tem bambu para uma última flecha. A AFC East ainda é fraca e permitirá que o time chegue aos playoffs com um bye. Talvez não sobreviva dentro da AFC, mas, se chegar de novo no Super Bowl, Tom Brady terá que fazer mágica pra enfrentar um time certamente mais forte que o dele. Temos que aproveitar: talvez esse seja o último ano da dinastia.

Análise Tática #26 – As jogadas-chave do Super Bowl LII

O Super Bowl LII talvez tenha sido a final da NFL mais prolífica da história em termos de ataque. Foram 1152 jardas totais somando os dois times, recorde da liga seja para jogos de temporada regular ou playoffs.

Como ninguém esperava, inclusive nós do site, como vocês podem conferir no preview tático, o Eagles se saiu melhor que o New England Patriots em um festival ofensivo. Podem conferir em qualquer analista brasileiro ou de fora, seja texto, vídeos ou podcast, absolutamente ninguém esperava isso.

Apontamos no preview tático que a chave para a vitória dos Eagles seria a atuação da defesa, mas esse ponto não envelheceu bem. Como apontou nosso amigo Vitor Camargo do Two-Minute Warning, a responsabilidade da vitória é em boa parte no ataque e na capacidade que Nick Foles teve de causar estragos com passes a partir da média distância. Parafraseando o que nosso colega escreveu (leia o texto completo), Philly venceu apesar da atuação defensiva e não por causa da mesma.

Comparando, foi algo assim que Blake Bortles não conseguiu. O QB dos Jaguars executou muito bem o plano de jogo, mas para vencer os Patriots é preciso mais que isso, e o ataque de Jacksonville não tinha teto suficiente para se sobressair.

As estatísticas

Total de 143 jogadas a partir da linha de scrimmage, apenas um punt entre os dois times (chutado pelo Philadelphia Eagles), um sack (que definiu o confronto), uma interceptação e um turnover on downs. Para completar o festival, houve também extra points perdidos e chutados na trave.

O Philadelphia Eagles executou 71 jogadas ofensivas, converteu 25 first downs em 34min04s de posse de bola. Teve ganho de 538 jardas em 10 drives, 374 jardas pelo ar e 164 jardas terrestres. Nick Foles completou 27 de 43 passes e o time correu com a bola 27 vezes.

O New England Patriots, por sua vez, executou 72 jogadas ofensivas em 25min56s de posse de bola, converteu 29 first downs. Teve ganho de 613 jardas em 11 drives, 500 jardas pelo ar e 113 terrestres. Tom Brady completou 28 de 48 passes e o time correu com a bola 22 vezes.

A bola longa dos Eagles

Jogadas de passe de mais de 20 jardas tiveram um fator importante em relação ao plano de jogo dos Eagles. Esticar o campo é um mantra repetido por técnicos de futebol americano e funciona como uma das premissas do jogo, deixando a defesa sempre em dúvida sobre o que virá a seguir.

Como o Eagles correu bem com a bola, média de 6,1 jardas por tentativa, o Patriots foi obrigado a aproximar os jogadores da linha de scrimmage como compensação. E essa dúvida é suficiente para armar o playaction fake. Foi exatamente isso o que vimos no primeiro touchdown da partida, passe de Nick Foles para Alshon Jeffery.

Observe na imagem, um conceito de rotas cruzadas perto do segundo “I” no logo do Super Bowl, com Alshon Jeffery atacando a endzone e Nick Foles a partir do playaction. Os jogadores de linha ofensiva estão em posição de três apoios e encaram 4-men-rush. A linha contém muito facilmente o rush dos Patriots, permitindo que Nick Foles fique confortável para escalar o pocket.

Olhando a defesa dos Patriots, eles estão marcando de forma individual todas as rotas, e as do meio disfarçando a posição dos marcadores como se estivessem em zona. Apenas um safety está em profundidade (cover 1 man). Esse cenário é ideal para Nick Foles atirar no fundo do campo, e o safety ficando preso nas rotas do meio ajudou. Passe perfeito e Alshon Jeffery ainda fez uma recepção física.

O interessante dessa jogada é sobre os seguintes pontos: esse cenário construído é o que não seria ideal para os Eagles ganharem dos Patriots. Foi repetido intensamente de que o ataque coordenado por Doug Pederson não poderia cair em situações que eles precisassem confiar no braço de Nick Foles, o que exatamente aconteceu. Os Eagles mostraram para Bill Belichick e Matt Patricia que eles podiam explorar a bola longa a partir do playaction, e isso aconteceu repetidas vezes, já que o jogo corrido se desenvolveu.

As Trick Plays

Como em uma tarde de College Football qualquer, além do tiroteio, o Super Bowl apresentou as trick plays. Duas jogadas de reverse-pass para o quarterback, cada uma executada por um dos times.

Aos 12:04 restantes do Q2, os Patriots estão na linha de 35. James White parte do outside para o lado de Brady, e este entrega a bola para o corredor. A linha bloqueia para a esquerda dando a entender de se trata de uma inside zone. Entretanto, White entrega a bola para Danny Amendola, configurando o reverse. Brady parte em uma rota wheel e Danny Amendola arrisca o passe na linha de 25 (10 jardas a partir da linha de scrimmage). Tom Brady derruba a bola, colocada à frente de seu corpo.

O interessante dessa jogada, é que por todo o processo do Super Bowl houve a dúvida sobre a lesão reportada na mão de Brady. Segundo informações, o jogador se machucou em um treinamento e precisou sofrer quatro suturas na mão direita (a de lançamento). Apesar de toda essa novela, a verdade é que pela forma como o passe foi colocado, Brady, um QB de 40 anos, não tinha atleticismo suficiente para buscar essa bola, o que nos rendeu essa belíssima imagem.

Ele realmente não pode passar e receber passes ao mesmo tempo.

Agora observemos a chamada conhecida como Philly Special. Opção de Nick Foles para converter uma quarta descida para o touchdown restando 34 segundos antes do intervalo, quando os Eagles venciam por 15 a 12. Segundo relatos, essa jogada foi colocada no plano de jogo contra o Minnesota Vikings, mas não se fez necessária. Assim como a trick play dos Patriots, trata-se de um reverse pass para o quarterback, com alguns diferenciais.

Os Eagles se alinham em singleback com stack do lado direito. Nick Foles sai da posição de shotgun disfarçando que vai passar instruções de bloqueio à linha ofensiva, a estilo Peyton Manning. O QB toca as costas do right tackle, o snap sai diretamente para o RB em wildcat, esse se desloca para a esquerda em uma outside zone, faz o handoff para Trey Burton.

Nesse instante, Nick Foles parte da posição de linha ofensiva em direção à endzone. Touchdown. Aqui, cabe salientar que a questão da trick play, como o próprio nome sugere, é surpreender completamente a defesa adversária. Geralmente, isso começa snaps antes armando uma possível leitura de tendência a partir de determinado personnel.

No caso dos Eagles, o personnel com Corey Clement em campo indica uma jogada de corrida em zona ou passe, pela versatilidade do atleta em executar ambos os tipos de conceito – simplificando ao máximo a leitura, evidentemente, as possibilidades são maiores que isso. Como podemos ver nas primeiras amostras do NFL Turning Point pela NFL Films, Doug Pederson decidiu pela conversão da quarta descida e em discussão com Nick Foles, o quarterback chamou a jogada.

Como podemos conferir, jogadas antes, Nick Foles converteu uma terceira descida com ganho de 55 jardas a partir de um passe para Clement em uma rota wheel. Esse lance e mais outros com o camisa 30 em campo semearam a dúvida suficiente para fazer a trick play funcionar. Como disse Matt Patricia na coletiva pós-jogo a única forma de parar esse tipo de jogada é a defesa estar completamente ciente do que está acontecendo em campo, pois o reverse anula qualquer ajuste tático que poderia ser desenhado na cobertura.

Linha desbalanceada

Doug Pederson apresentou em seu plano de jogo uma variedade de conceitos que colocaram em cheque a capacidade de ajuste pelo New England Patriots. Um desses é a linha desbalanceada.

Acrescenta-se um jogador a mais de OL, geralmente um tackle e não um tight end, e este jogador se declara elegível a receber o passe para a arbitragem, mas sequer correrá uma rota. Sabemos que a linha ofensiva convencional se posiciona de forma simétrica em relação ao center. A OL desbalanceada posiciona um jogador a mais em um dos lados.

Na imagem acima, vemos o touchdown corrido de LeGarrete Blount partindo de uma inside zone com linha desbalanceada. O jogador extra é o camisa 73 Isaac Seumalo, marcado no retângulo vermelho. Ele alinha como um TE bloqueador, mas com melhor capacidade de realizar a função que um jogador com esse rótulo.

Acrescentar um jogador de linha na inside zone permitiu que o LT Halapoulivaati Vaitai bloqueasse em segundo nível, e esse foi o fator diferencial para que Blount chegasse a endzone.

A capacidade de ajustes de New England

Se tem alguma coisa que eu tive capacidade acertar nos previews sobre os Patriots é a capacidade de ajustes de Bill Belichick e o uso de Rob Gronkowski como ponto focal do ataque (“mas aí até eu”, deve estar pensando o caro leitor). Após um primeiro tempo ruim na conexão Brady-Gronk, a dupla começou a clicar as jogadas no início de terceiro quarto, resultando em um drive para touchdown apenas com recepções do Tight End.

Comparando com o que foi feito no primeiro tempo, a defesa dos Eagles não travou apenas um jogador na marcação individual de Gronkowski, confiando na capacidade de execução do defensor que estivesse no matchup.

A jogada apresentada acima ocorreu no jogo contra os Titans e uma vez anterior no primeiro tempo do Super Bowl, e ilustra exatamente o que o New England Patriots tem de melhor: a capacidade de ajustes táticos do staff de Bill Belichick e passar isso aos jogadores. Temos os Patriots alinhando em 11 personnel com set 2×2 e stack no lado esquerdo. A linha está em posição de 2 apoios e a situação de placar e relógio (PHI 32-26 NE Q4 9:22) indica o passe.

Amendola sai em motion da posição de Split-end para o lado do right tackle. Nesse momento, podemos ver os jogadores dos Eagles apontando entre si, o que significa que eles estão reajustando as marcações individuais na jogada. O Safety ataca o ponto em que as rotas dos três recebedores se cruzando no lado direito e deixa Gronkowski no mano a mano. Matchup que beira o injusto e touchdown para os Patriots, que naquele momento empataria o jogo em 32 pontos.

A pressão dos Eagles

O número de sacks leva a crer que Tom Brady jogou com pocket limpo a maioria das vezes. Mas esse tipo de análise preguiçosa focando apenas em drives brutos sempre leva a tirar conclusões erradas de qualquer situação estatística. Por vezes o front dos Eagles foi capaz de apressar passes ou acertar Brady com hits. Levar pancada de jogadores de mais de 140 kg afeta um QB de 40 anos de idade, por melhor que ele seja, simplesmente por questões físicas.

Essa pressão constante, principalmente em speed rush permitiu que Brady escapasse do sack algumas vezes escalando o pocket, mas quando ela vinha pelos A e B gaps, deixava o QB dos Patriots com a movimentação limitada, tendo que arriscar passes antes da hora. Isso explica principalmente a taxa de 56,25% passes completos (28/48), um pouco abaixo do que Brady normalmente produz.

Na jogada que praticamente selou o Super Bowl em favor dos Eagles, vemos Derek Barnett e Chris Long alinhados em wide-9-technique, enquanto Fletcher Cox (5-tech) e Brandon Graham (4-tech) estão na parte interna da linha. No resto do front, quando a jogada se desenvolver, percebemos que a defesa dos Eagles rotaciona para a direita, apesar de não ser uma fire zone blitz, e o mais importante, Malcolm Jenkins defende o flat, rota de James White, único jogador no lance livre para a recepção.

Chris Long é o jogador que consegue a melhor pressão em Brady com o speed rush, impulsionando o QB à direção de Brandon Graham, que consegue o strip-sack. A bola cai no chão e é recuperada por Derek Barnett. Os Eagles aproveitam o turnover na redzone e fecham o placar em 41 a 33.

O plano de jogo dos Eagles

Percebemos que o Eagles conseguiu a vitória no Super Bowl LII em uma situação de jogo que por muitas vezes pareceu desfavorável em determinados momentos. O maior tempo de posse de bola, o sucesso na conversão de terceiras descidas e a capitalização de pontos após drives em que parecia que o ataque dos Patriots havia entrado na partida foi essencial para que o time saísse com a vitória.

Doug Pederson explicou a ousadia na chamada das jogadas como “ser conservador é uma ótima maneira de terminar a temporada 8-8”, e o time, além de ser agressivo nas chamadas, conseguiu as converter, o que é mais importante.

Os Eagles jogaram com um quarterback reserva e conseguiram vencer os Patriots em um tiroteio. A secundária não conseguiu conter os recebedores dos Patriots (as 505 jardas aéreas não deixam mentir) e mesmo assim o time conseguiu responder em todas as instâncias do jogo.

O Super Bowl LII mostra ainda mais a importância de um coaching staff competente na construção de um plano de jogo. Pederson e sua equipe usaram a melhor arma dos Patriots contra eles, e surpreenderam mostrando leituras diferentes ao que havia passado na temporada regular. Por exemplo: no touchdown que deu a vantagem aos Eagles no final do último quarto, Zach Ertz correu uma rota slant em marcação individual, movimento que ele só tinha repetido no ano de calouro (2013).

Além do mais, tendo que responder drives de touchdowns para manter a vantagem no placar, Doug Pederson manteve a compostura e continuou apostando no plano de jogo montado, em vez de se afobar e tentar buscar Money plays que talvez estivessem marcadas do outro lado do jogo estratégico. Isso ajudou, sobretudo, a manter Nick Foles confiante e confortável a executar a melhor atuação de sua carreira.

Análise Tática #25 – Parte 4: O ataque do New England Patriots

Metamorfose. A unidade comandada por Tom Brady e coordenada por Josh McDaniels mostra, além de tudo, ser a prova do tempo e imprevisível. O time é capaz, mais do que qualquer outro na liga já foi, a ajustar adequadamente a cada adversário e explorar suas fraquezas.

O Patriots já foi um time de spread offense no início da década, aplicou bastante 12 personnel quando Rob Gronkowski e Aaron Hernández jogavam juntos, utilizou de run-heavy para vencer os Colts na final de conferência em 2014. Nos playoffs, New England utilizou bastante formações com dois running-backs contra os Titans e contra os Jaguars valeu-se bastante dos passes em rotas cruzadas.

E esse filme se repete há 18 anos. Domingo será a oitava aparição em Super Bowl da dupla Bill Belichick e Tom Brady, e na maioria delas o time manteve o grau alto de desempenho. Se nos três títulos entre 2001 e 2004 a fortaleza do time era a defesa, no Super Bowl XLIX e LII, o ataque fez seu trabalho. Esse cenário se repetirá no US Bank Stadium no domingo, com Tom Brady sendo responsável por comandar o melhor setor do time.

Estatísticas

Os Patriots conseguiram 8 touchdowns na pós-temporada, sendo 5 passados por Tom Brady e 3 corridos. Brady não foi interceptado e o único giveaway dos Patriots foi um fumble cometido Dion Lewis contra os Jaguars.

Passes para Running Backs

Utilizar os jogadores de backfield no jogo aéreo é uma arma utilizada por vários times da liga. Masterizado pela West Coast Offense de Bill Walsh, o passe para RBs é uma forma de criar uma dimensão extra para a defesa ler, aumentando as possibilidades de sucesso das jogadas.

O Patriots extrapola a dimensão do passe para RBs com o conceito jet-sweep. Trick plays são sempre pontos utilizados como inversores de fase no jogo, uma forma de “tapa na cara” do adversário.

A Jet-Sweep consiste em uma forma de passe parecido com o levantamento do vôlei. Um jogador sai em motion em direção ao quarterback, e no momento em que ele se encontra, sai o snap. O QB toca a bola com a ponta dos dedos e o ballcarrier a pega no ar. Com a bola na mão, o RB corre uma rota wheel na direção oposta do campo, como se fosse um end around.

Nesse outro exemplo, o Patriots ataca o flat a partir do playaction em uma jogada que deveria ser de passe longo mas as opções estão marcadas. Os Titans estão sem safeties por estarem preocupados com o jogo corrido nesse ponto da partida, aspecto básico do futebol americano.

Tom Brady se livra da pressão e encontra Dion Lewis para um ganho de 8 jardas.

Rob Gronkowski como eixo motor

Falar sobre como Gronkowski é bom é chover no molhado. O TE é uma aberração física, criando um matchup desfavorável em 90% das defesas da NFL, mesmo após tantas lesões.

Bill Belichick investiu no TE após a derrota contra os Jets no divisional round de 2011. A partir daquele momento, o Patriots fez a transição do spread offense para um ataque de rotas mais curtas. Como diz Chris B. Brown em “The Essential Smart Football”, Belichick usa os TEs para tornar o ataque flexível mesmo com um set pesado, sendo capaz de receber passes e bloquear com a mesma excelência.

Isso nos ajuda a entender como Belichick trata seus RBs como assets descartáveis, ao mesmo tempo em que tem apreço por seu QB e seu TE. Mesmo se não fossem talentos geracionais dentro de suas posições, as tarefas que esses dois desempenham no ataque são primordiais para a execução do mesmo. Belichick pensa primeiro nas tarefas, ter dois talentos absurdos executando as mesmas é quase como um bônus que ninguém é tolo de recusar.

Simplesmente marcar Rob Gronkowski seja individualmente ou em zona é uma tarefa quase impossível. Além disso, Belichick e Josh McDaniels ainda potencializa ao máximo as chances de seu TE na jogada chamando um slant-flats.

Aqui, basta Tom Brady mandar um backshoulder fade e esperar que seu jogador ganhe a bola na força física. Basicamente, se um jogador tentar defender esse passe, fará uma falta de interferência, colocando os Patriots na linha de gol. Exemplo de como o Patriots é tão dominante por tanto tempo, um time que além de ter bons jogadores, ainda utiliza o sistema para maximizar suas habilidades.

Ajuste às necessidades

Em boa parte do AFC Championship Game os Patriots estiveram sem Rob Gronkowski, que saiu do jogo por concussão. Em parágrafos anteriores, eu disse que Gronk é o ponto central do ataque (à exceção do quarterback), então como o Patriots conseguiu a virada sem seu principal recebedor?

Bem, é de conhecimento geral que os Patriots são o time que melhor ajusta o plano de jogo de acordo com a situação. É talvez a capacidade que mais importa pelo fato de essa dinastia durar tanto tempo. Quando Gronkowski saiu do jogo, Josh McDaniels passou a colocar em campo sets mais variados de recebedores, bem como a habilidade dos mesmos em rotas curtas. Forma semelhante à que utilizou para combater a Legion of Boom no Super Bowl XLIX.

A jogada acima mostra as rotas utilizadas no primeiro touchdown de Danny Amendola no jogo contra os Jaguars. Sem Edelman, Amendola foi o responsável por usar as rotas de opção com cortes curtos ao longo da temporada. Aqui, ele corre uma shallow cross contra uma marcação em zona, e reagindo ao posicionamento em zona dos linebackers, cruza o campo inteiro. As demais rotas têm o objetivo de atrair os jogadores dos Jaguars para o fundo da endzone.

Observe que Brady poderia ter tentado o backshoulder fade em Brandin Cooks alinhado de Split-end, mas esse é um passe de baixa taxa de conversão. Ele espera a segunda leitura e conta com Amendola ganhando jardas após a recepção para o touchdown.

O TD da virada contra os Jaguars é mais um exemplo de como Brady tem a paciência de esperar a melhor opção para o passe aparecer livre, bem como o excelente trabalho de Dante Scarnecchia com a linha ofensiva ao permitir que isso aconteça. Duas rotas dig ao fundo da endzone enquanto Cooks corre uma slant/out.

Brady espera Amendola aparecer em cima do “P de Patriots” na endzone e manda o passe perfeito, o tipo de conexão que só é possível graças à capacidade do QB de antecipar esse momento. Vitória por 24 a 20 e os Patriots vão para o oitavo Super Bowl comandados por Bill Belichick.

Pontos-chave para o Super Bowl

É tolice não considerar os Patriots como favoritos no Super Bowl LII, ao mesmo tempo que também não se deve descartar o trabalho dos Eagles. Conter o poderoso front seven dos Eagles é uma necessidade. David Andrews terá um trabalho primordial contra Fletcher Cox no A-Gap.

Ano passado em Houston vimos um Patriots que parecia despreparado (uma novidade) contra os Falcons e que conseguiu fazer história graças aos ajustes de intervalo. Esse tipo de previsão não é possível de ser feita, já que seria pretensão afirmar que os técnicos não se preparariam adequadamente para um jogo da grandeza do Super Bowl.

Com Gronkowski fora do protocolo de concussão, o TE terá sua segunda atuação na grande final totalmente saudável fisicamente, já que esteve fora ano passado e jogou machucado no Super Bowl XLVI, em Indianapolis. O terror dos matchups será mais uma vez o eixo motor dos recebedores do New England Patriots.

 

Análise Tática #25 – Parte 1: A defesa dos Patriots

Por boa parte da temporada regular, a defesa dos Patriots foi alvo de críticas da torcida e dos especialistas – principalmente após as lesões do calouro Derek Rivers e de Dont’a Hightower, discutivelmente melhor jogador da unidade.

As atuações instáveis de Stephen Gillmore e Malcolm Butler, bem como a fragilidade do pass rush e dos linebackers em rotas laterais foram motivos de preocupação em Foxborough, mesmo que nós saibamos que no final das contas, Bill Belichick sempre encontra um jeito de fazer a unidade produzir.

As estatísticas

Contra Tennessee no divisional round o principal número a se mencionar é os oito sacks obtidos contra Marcus Mariota. Foram 61 jogadas e 27min04s em campo por 10 campanhas, cedendo 65 jardas terrestres em 16 tentativas. Foram 202 jardas aéreas em 22 passes completos de 37 tentados.

Contra Jacksonville no AFC Championship Game, a defesa passou 35min08s em campo, em 71 jogadas divididas em 12 drives. Foram 101 jardas terrestres em 32 tentativas e 273 jardas aéreas em 23 passes completos de 36 tentativas. Dessa vez, foram 3 sacks.

Apesar de boas atuações, em nenhuma das duas partidas a defesa dos Patriots forçou turnovers.

A importância dos sacks contra Tennessee

A defesa dos Patriots colocou o ataque de Tennessee em quinze situações de terceira descida, permitindo apenas cinco conversões.  Dos oito sacks, dois foram nessas ocasiões, em que a defesa forçou os punts.

Em uma unidade em que nenhum jogador é exatamente uma estrela da liga, New England se sobressai principalmente pela leitura pré-snap de cada jogador e a dedicação dos mesmos em cumprir sua função na jogada. Tennessee alinha seus recebedores em um set 2×2 em stack formation, concentrando a defesa no meio do campo.

Observe que o safety Patrick Chung lê o motion de Delanie Walker e o acompanha, dando a entender que o mesmo estará em cobertura individual contra o mesmo, apesar de seu posicionamento de quadril dizer o contrário.

Observe também que o jogador marcado com uma estrela (Corey Davis) está cercado por pelo menos três jogadores de New England. Esse sistema de cobertura é constantemente utilizado por Belichick e Patricia para anular recebedores velozes dos adversários. Pelo menos dois jogadores irão marcar o principal WR em uma combinação de marcação individual e zona half, semelhante à cobertura cover 2-man, porém acontecendo em apenas um lado do campo..

No momento em que a jogada se desenvolve, a secundária rotacional de um desenho de cover 2 para uma cover 1, com todas as rotas tendo pelo menos um jogador marcando individualmente. É como se New England tivesse uma superioridade numérica na cobertura, portanto, nenhuma rota dará uma janela de passe confiável para Mariota.

No front, temos os seguintes alinhamentos de techniques (9-0-3-8), enquanto o defensor na 3-tech (Rufus Johnson) ficará de QB-Spy em Mariota. Trey Flowers na 9 tech é o jogador que traz a pressão pelo speed rush, forçando Mariota a escalar o pocket. O espaço preenchido por Rufus Johnson tira a possibilidade do scramble de Mariota e ajuda a Deatrich Wise a fechar o sack.

Como mostramos no texto sobre a defesa do Jacksonville Jaguars, esse é um tipo de sack obtido graças à excelente cobertura, o chamado sack-coverage.

O cover 2-man aparece empregado em sua totalidade nessa jogada no terceiro quarto, o segundo sack em terceira descida conquistado pelo New England Patriots. Pela situação, consideremos que o alvo principal seja Delanie Walker no meio do campo, por ser o recebedor mais confiável e ter o melhor matchup em tese.

Walker é marcado de forma individual, enquanto no flat do lado esquerdo de campo, o esquema de cover 2 anula o checkdown de Marcus Mariota. Ele novamente está sem opções para passar a bola, enquanto enfrenta um 3-men rush com spy. Observemos o front de New England.

Dessa vez a linha varia o alinhamento das techs para 9-4-0-8, com o defensor na 4-tech em QB Spy. Com o objetivo de prender Mariota no pocket, o flat do lado esquerdo está coberto por uma marcação em zona, enquanto no lado com a marcação individual, está justamente posicionado o espião. Além disso, esse é o lado em que a pressão vem pelo speed rush.

Adam Butler (#70) ataca pelo A-gap do lado direito da linha enquanto Kyle Van Noy (#53) permanece em spy. Essa combinação é suficiente para gerar pânico em Mariota e fazer com que o mesmo tire o olho de suas progressões. Mais um sack em terceira descida.

Os ajustes contra o jogo corrido de Jacksonville

É de conhecimento geral que o ataque do Jacksonville Jaguars é uma unidade predicada ao jogo terrestre. Como mostrado anteriormente, foram 101 jardas em 32 tentativas, uma média 3.2 jardas por corrida, abaixo do ideal de 4 YPC (yards per carry). Considera-se tal valor para determinar que o jogo terrestre de uma unidade foi bem aplicado durante a partida.

Essa jogada no segundo quarto mostra como o Jacksonville Jaguars estava utilizando conceitos de misdirection para utilizar o jogo corrido de Leonard Fournette. O misdirection aplicado ao jogo terrestre tem o objetivo de tirar alguns jogadores da defesa da direção da jogada.

Aqui, os jogadores alinhados em trips-bunch se deslocarão para a direita, atraindo os defensores marcando em zona para aquele lado. O movimento de Blake Bortles vendendo o draw ajuda a dar veracidade a essa tentativa.

A corrida se desenvolve como uma outside zone para o lado direito, com Fournette atacando o espaço entre o left guard e o center (A-Gap). Observe que ficam apenas 5 jogadores do lado em que se desenvolve a jogada, e apenas o safety Patrick Chung não está bloqueado, podendo reagir ao tackle. Fournette consegue ganhar 13 jardas na jogada, em drive que terminaria em touchdown para os Jaguars.

Observemos agora os Jaguars realizando uma inside zone no início do último quarto da partida, quando os Patriots buscavam a virada no placar. Conter Leonard Fournette e Corey Grant foi um dos pontos chave para que o Patriots tivesse tempo de relógio, considerando o jogo quase limpo em termos de turnovers (apenas Myles Jack forçou um fumble em drives anteriores).

O leitor já deve estar familiarizado com o sistema de zone blocking, o jogador bloqueará o adversário à sua frente ou ajudará o bloqueio ao seu lado na direção em que a jogada se desenvolve, de olho na possibilidade de atacar o segundo nível da defesa.

Observe pelo alinhamento dos recebedores, que os Jaguars tentarão repetir o misdirection. Mas provavelmente pela análise de tendências e situação da partida, os Patriots basicamente sabem que será uma corrida. Bill Belichick se sobressai como técnico exatamente nesse ponto, New England quase sempre faz os ajustes corretos no segundo tempo de jogos importantes, mesmo nas derrotas.

Malcom Brown consegue fechar o tackle a partir da 0-tech, após receber apenas o bloqueio do center de Jacksonville. Com os linebackers fechando as opções no mesh point de Fournette, o mesmo não consegue ganhar mais que duas jardas.

Uma unidade que mesmo sem jogadores de elite é capaz de ajustar tão bem graças à competência de seu coaching staff. Essa capacidade foi importante para os Patriots diante dos Falcons no Super Bowl LI e deverá ser novamente fundamental em Minneapolis.

Dessa vez, Belichick e Matt Patricia deverão estar atento a uma arma que já os derrotou na temporada, a Run-Pass-Option, dessa vez empregada pelos Eagles.

Ainda odiados, cada vez melhores: nada muda em New England

Não somos fãs de discussões definitivas sobre aqueles que são, eventualmente, os melhores da história dentro de campo – invariavelmente, não se chega a lugar algum: Manning pode ter sido melhor que Brady e, na verdade, isso pouco importa. Hoje, e talvez até mesmo quando o sol engolir o planeta terra e todos derretermos, pode ser possível que Rodgers seja enfim considerado um atleta melhor e mais completo que Brady. Ou tudo isso é um misto de delírio e negação e, bem, Brady é melhor que Montana, Elway e Marino somados.

O fato é que se dentro das quatro linhas sempre haverá margem para discussões, fora delas, Bill Belichick construiu um império particular capaz de suplantar qualquer dúvida: em 17 anos, o New England Patriots têm 15 títulos de divisão, chegou no AFC Championship Game 12 vezes e ao Super Bowl outras sete – o número de anéis, claro, você já sabe de cor.

Falando em números, quando isolamos as conquistas do Patriots – e as quantificamos – em um recorte de tempo histórico, eles soam ainda mais irritantes. E ainda assim, não são capazes de contar a história em sua totalidade.

O domínio na AFC é produto direto da máquina que Bill construiu e aperfeiçoou a cada temporada – ele é o Head Coach, o GM e, por um momento, também foi coordenador defensivo; hoje ele talvez mande mais que Robert Kraft e ninguém saiba.

E enquanto é possível comparar jogadores, é quase impossível colocar Bill ao lado de outras treinadores e traçar comparações sólidas: não há HC na NFL contemporânea que sequer se aproxime de seus êxitos e, caso voltemos muito no tempo, pesará a seu favor a longevidade; enquanto grandes nomes como Vince Lombardi e Bill Walsh estiveram na NFL por uma década, nada indica que Belichick não chegará aos 20 anos comandando o Patriots – e, nas próximas semanas, ao seu oitavo Super Bowl, com o sexto título conquistado.

Sim, se existe uma sabedoria popular que deveria ser incorporada ao imaginário coletivo é esta: quando antes você aceitar seu triste destino, menor será frustração. Pode soar duro, mas é a mais pura verdade: estamos todos prestes a entrar em uma realidade em que Brady e Belichick venceram o Super Bowl seis vezes.

Bem louco.

Por que pode dar errado?

A sabedoria popular também nos ensina que quando tudo parece que dará errado é preciso se apegar ao passado. Mesmo dominantes, as derrotas de New England contaram com, claro, o destino: David Tyree recebeu um passe com o capacete, Asante Samuel caiu em desesperança, Randy Moss não alcançou bolas que normalmente alcançaria. Tudo ao mesmo tempo.

Enfim, mesmo para as equipes que costumeiramente estão no topo, algumas vezes, vencer ou perder pode ser determinado por um capacete.

Por que o Patriots vencerá?

Porque, afinal, está é a ordem natural das coisas: nada parece estar acontecendo e, mesmo assim, o New England Patriots está no topo da NFL. Eles podem não ter Tom Brady por quatro jogos, mas Brissett ou Jimmy G (também conhecido como o homem mais lindo que já pisou na terra) darão conta do recado.

Você também pode não ter escolhas de primeira rodada no draft e, mesmo assim, o planeta continuará girando normalmente: tudo está sempre sob controle e nada fará com que a franquia faça uma movimentação desesperada. Com o Patriots aprendemos sempre a esquecer o presente, afinal, eles estão sempre um passo a frente.

É tudo resultado de um longo processo, que pode parecer complexo, mas na verdade é essencialmente simples: faça as coisas certas, repetidamente. Em algum momento elas já funcionaram e você sabe o resultado final. Repita o processo ao longo dos anos e, invariavelmente, os resultados aparecerão.

Lógico, é impossível vencer sempre: times comuns implodem ao não saber lidar com suas frustrações, além de não ser possível controlar todos os fatores, como o capacete de Tyree ou as mãos de Wes Welker.

Ao olhar o sucesso do Patriots, entendemos porque nos desesperamos com os altos e baixos das demais franquias: é inacreditável o que o Vikings vem fazendo, mas parece que, para eles, é a última oportunidade de alcançar a glória – e, caso ela não venha, tudo será implodido. Lembramos que, por muito tempo, Indianapolis rodeou Peyton Manning por idiotas sem a mínima coordenação motora e esperou que seus milagres se repetissem até fevereiro. Ou ainda ficamos pasmos ao sermos confrontados com a ideia de que o Packers está desperdiçando os melhores anos de Aaron Rodgers com uma defesa, ano após ano, composta exclusivamente por débeis mentais.

Enquanto isso, em New England, absolutamente nada sai de controle.

Esperança.

O que nos resta?

O esporte é usado como válvula de escape para nossas frustrações, então é difícil, mas compreensível, aceitarmos o sucesso alheio repetido exaustivamente diante de nossos olhos. Queremos esforço coletivo e jornadas heroicas; queremos que David derrube Golias com uma frequência quase diária – para que assim possamos nos sentir vingados, seja de um boleto atrasado, de um chefe babaca ou do aumento da gasolina.

Por que alguns têm tanto enquanto nós temos tão pouco? De certa forma, a inveja é essencial para a evolução humana. Schadenfreude, palavra alemã que emprestamos para um segmento de nosso podcast (e o resto da civilização também emprestou para usar como julgar melhor), refere-se basicamente à felicidade que sentimos com a desgraça alheia.

Algo, ao mesmo tempo, humano e desprezível, mas que, de alguma forma, tentamos transparecer ainda mais no esporte, ainda mais em nossa relação com o New England Patriots: assim como o resto da liga, queremos ver seu reinado em chamas – mas ao mesmo tempo, podemos deixar esse egoísmo de lado e apreciar um momento tão raro como este, aproveitando o que resta disso: nenhuma dinastia dura para sempre.

A do Patriots, por exemplo, deve durar só mais uma década ou duas décadas. Começando no próximo dia 4.

OBS: se Blake Bortles e os Jaguars vencerem domingo, por favor, esqueçam esse monte de merda.

Quatro meses esperando janeiro

Já estamos cansados de repetir que Tom Brady ganhará pela 14ª vez a AFC East. Quando inevitavelmente chegar a hora dos playoffs, também comentaremos com desgosto sobre como, mesmo tendo sofrido com duas ou três lesões importantes (sério, pode ser literalmente qualquer um), New England ainda deu um jeito de não jogar a primeira rodada da fase final. Assim, os Pats chegarão descansados e bem preparados na semifinal para enfrentar um Steelers ou Titans meio-baleados. Porque, bom, essa é a vida na NFL.

Para nos deixar ainda mais desgraçados da cabeça, craque, desses transcendentais que realmente se destacarão na multidão daqui a 30 anos, o time só tem um: Rob Gronkowski. Tom Brady, o maior QB de todos os tempos, é um grande executor das tarefas que lhe são designadas (o que, obviamente, cria vitórias) – mas basta colocá-lo lado a lado das peripécias de Aaron Rodgers ou até Ben Roethlisberger e veremos que ele não é tudo isso. Lembre-se: de acordo com o próprio sr. Bünchen, o MVP do último Super Bowl foi James White.

Um homem do povo.

De certa forma (e sabemos que vocês curtem essas comparações), olhar o depth chart dos Patriots é bem parecido com estudar a escalação do Corinthians e não entender que caralhos esse time está fazendo onde está. Cássio e Rodriguinho, por exemplo, só não saíram do time para sempre porque seus substitutos eram piores ainda (aguarde a coleção de dispensados nesse elenco patriota). Jô pode ser funcional, mas duvido que seja a primeira opção de qualquer pessoa para a posição (e aqui ficam comparados Jô com Brady ou Edelman, o que for menos ofensivo). E, sério, Romero? Ainda?

Um ataque reforçado

Falando em inúteis, já que o craque Gronkowski tem problemas sérios em manter-se saudável (última vez em que ele esteve em campo os 16 jogos foi em 2011), os Patriots se reforçaram com Dwayne Allen que, draftado no mesmo ano, sempre esteve em uma disputa constante com Coby Fleener sobre quem conseguiria ser o mais inútil na posição de tight end em Indianapolis. Porém, ele recebeu seis TDs em 2016 e oito em 2014, então podemos esperá-lo como uma presença interessante na redzone.

E sobre reforços de verdade, enquanto a torcida dos Patriots acreditava que Julian Edelman era um dos melhores WRs da liga (repetimos: não é. E não venham com aquela catch do Super Bowl), Belichick se mexeu e foi atrás da melhor opção para Tom Brady desde Randy Moss: por uma escolha de primeiro round, o time contratou Brandin Cooks.

Apesar das nossas ressalvas pessoais (não gostamos dele, basicamente e não precisamos explicar os motivos), e de provavelmente ser o terceiro melhor WR em New Orleans, Cooks produziu mais de 1100 jardas nas duas últimas temporadas. Melhor ainda: ele representa uma ameaça as defesas adversárias em passes longos, o que abrirá espaço para as jogadas intermediárias com o próprio Edelman, Chris Hogan e um dos 300 mil RBs da equipe.

Sim, porque empenhado em encontrar a combinação ideal, o time tem 10 jogadores para a posição no elenco. A opção mais interessante ainda deverá ser Dion Lewis, ao menos durante os seis ou oito jogos em que ele participará antes (ou depois) de se machucar. As novas contratações Rex Burkhead e Mike Gillislee (respire fundo e repita comigo: QUEM? 1116 jardas, os dois somados em 2016) deverão brigar por espaço com James White (139 jardas, 3 TDs em 20 toques no Super Bowl, incluindo 14 recepções) – o primeiro mais como receiver, o segundo como trombador. Entretanto, pensando no fantasy, lembre: lá pela 9ª rodada, o RB titular dos Patriots será alguém que hoje provavelmente é o quarto reserva em Dallas ou Minnesota.

Esse dia foi louco.

Quanto a linha ofensiva, sério, torcedor dos Patriots, não tem com o que se preocupar. Os inexperientes, porém seguros, do interior da linha de 2016 estão um ano mais maduros, e enquanto Nate Solder e Marcus Cannon se mantiverem saudáveis, os corredores terão espaço e Brady terá tempo.

Não é delicioso esquecer que Jimmy Garoppolo existe?

É sim, bastante. Se deus quiser ele ficará no banco sem dar as caras esse ano (porque ninguém aguenta mais historinhas Jimmy x Brady sem sentido). Em 2018, Garoppolo será problema do texto sobre algum outro time, que pagará 400 bilhões de dólares para descobrir que ele nem é tudo isso (oi, Jaguars, estamos olhando para vocês).

A magia do tio Bill

Talvez o leitor se deixe enganar por esse ataque, seria compreensível. Mas as coisas que acontecem nessa defesa só dão certo porque, bom, têm que dar. A magia negra obriga que funcionem.

O S Patrick Chung, por exemplo, é a cara do que estamos falando: absolutamente inútil quando saiu de Boston, bastou voltar para formar uma bela dupla com Devin McCourty. O undrafted Malcolm Butler, que surgiu para o mundo no Super Bowl XLIX com a interceptação mais inesperada da história, se tornou um CB mais do que sólido – mas não o suficiente para receber um grande contrato do tio Bill.

Aproveitando-se do espaço no cap, New England roubou Stephon Gilmore do rival Buffalo com um mega-contrato de 5 anos e 65 milhões (mesmo que, pra gente, ele não está nem entre os 15 melhores Corners da NFL); para completar a secundária, NE conta também com o retorno de Eric Rowe, que deve trabalhar principalmente no slot.

No front seven, ano passado o time deixou ir (na verdade, trocou) seus até então dois melhores jogadores: Chandler Jones (pass rusher) e Jamie Collins (linebacker puro). Somente Dont’a Hightower (aparente crush de Belichick) teve seu contrato renovado: 35,5 milhões em 4 anos. Como LB típico para marcar a corrida, o time trouxe o veterano David Harris (dispensado pelo Jets!), que mesmo aos 33 anos se sentirá renovado saindo de um time medíocre para sonhar com um Super Bowl no maior rival.

Se juntas já causa, imagina juntas.

A linha defensiva sim deveria ser motivo para preocupação – supondo que fosse um time normal. Alan Branch e Malcom Brown até deverão manter a solidez no interior, e a escolha de quarta rodada de 2015, Trey Flowers, produziu sete sacks em apenas oito partidas como titular em 2016.

Entretanto, a grande aposta para correr atrás dos QBs adversários fica por conta de Kony Ealy, que mesmo tendo muito hype no draft de 2014, acabou não conseguindo se estabelecer como titular em Carolina (com exceção do seu desempenho nos playoffs de 2015, na verdade, ele tem sido bem merd*) – fica a curiosidade pelo que, em seu último ano de contrato rookie, as mãos de Bill Belichick e Matt Patricia conseguirão tirar dele.

Previsão: 13-3, para ser humilde. Brady deverá começar voando, mas administrará o braço, estratégias e um tropeço em Tampa é bem possível. Com nove vitórias até a décima rodada, a divisão já estará garantida antes mesmo do time encontrar-se com Miami ou Buffalo. Jogar em Denver, no México (contra Oakland) ou em Pittsburgh não deverão ser tarefas fáceis, mas obter duas vitórias nesses três jogos é possível, o que até permitiria que Jimmy Garoppolo jogasse bem as duas últimas semanas (em casa contra Bills e Jets) para deixar Brady fresquinho. Polêmica para os playoffs!

Do desapego a um ciclo sem fim: o método Belichick

A NFL está repleta de jogadores com que ninguém se importa – o terceiro CB que só os torcedores conhecem, o backup OL que nunca entrou em campo, ou até mesmo uma escolha do draft do tempo que você não entendia bulhufas sobre futebol americano (também conhecido como “semana passada”).

E, a cada ano, esse ciclo de desconhecidos se renova, com centenas de atletas entrando e saindo da liga: não se engane, aquelas listas intermináveis de cortes no início da temporada são compostas por seres humanos reais, como eu e você.

Mas e se seu time conseguisse encontrar, nesses jogadores desconhecidos, indesejados ou supostamente irrelevantes, peças importantes para montar o elenco? A verdade é que na maioria esmagadora das vezes esses atletas realmente não são grandes talentos – afinal, se fossem, não estariam escondidos no meio do roster do Detroit Lions.

Mesmo assim, eles podem ter um conjunto único de características e habilidades que, se aproveitados corretamente, irão produzir um jogador eficiente na rotação ou até mesmo um titular de qualidade.

Tomemos como exemplo as mais recentes aquisições (via troca) do New England Patriots: o CB Eric Rowe, do Philadelphia Eagles, o TE Martellus Bennett, do Chicago Bears e o LB Kyle Van Noy, do Detroit Lions. Rowe era uma escolha de 2ª rodada que não se firmou em Philly, tanto que Howie Roseman não exitou em despachá-lo para o norte por uma escolha de 4ª rodada em 2018 (!!!).

Já Bennett é figurinha conhecida na liga, já tendo mostrado o seu valor em diversas oportunidades. Mesmo assim, Chicago achou interessante se livrar do jogador e de uma escolha de 6ª rodada por uma de 4ª. Sabe quando você tem uma figurinha que seu amigo precisa e, mesmo ela sendo rara, você troca ela pau a pau? Foi isso que Ryan Pace fez.

Só bala boa.

Enfim, sobre Van Noy, em respeito a sua inteligência, caro leitor, não vou sequer fingir saber quem era, mas Bill Belichick viu valor suficiente no jogador e enviou uma escolha de 6ª rodada para Detroit em troca.

Rowe e Van Noy foram jogadores valiosos na defesa no último ano, tendo coroado temporadas sólidas jogando aproximadamente ⅓ dos snaps da unidade no Super Bowl. Já Bennett substituiu Rob Gronkowski a altura e suas cinco recepções para 62 jardas na final ajudaram os Patriots na maior vitória de sua história.

Apenas para efeito de comparação: as duas trocas de escolhas de fim de draft que o Indianapolis Colts fez para a última temporada, sequer terminaram o ano com a franquia: o LB Sio Moore, que já está na sua 3ª ou 4ª equipe depois que foi chutado, e o DE Billy Winn, que você não deve conhecer, mas jogou em Denver em 2016. Temos certeza que seu time também coleciona alguns fracassos com aquisições do tipo.

Para mostrar que não se trata de um fato isolado, voltemos para 2014, ano em que os Patriots também venceram o Super Bowl e também fizeram algumas aquisições under the radar. Naquela temporada, New England adquiriu o LB Akeem Ayers, dos Titans, e uma escolha de 7ª rodada, por uma de 6ª. Ayers jogou 23% dos snaps na final.

E não são só trocas que ajudam a construir o elenco de New England. As aquisições de jogadores não-muito-gabaritados ao redor da liga permitem ao time manter o Salary Cap sob controle e, ainda assim, reforçar o roster no mercado:

  •  O WR Chris Hogan, o menino destinado a correr eternamente na secundária de Pittsburgh, assinou contrato de 3 anos e 12 milhões de dólares.
  • O RB Dion Lewis, que rodou por metade da liga e achou seu lugar em Foxborough, receberá 1.2 milhões de dólares esse ano.
  • O DT Alan Branch, escolhido em 2007, só foi se firmar na defesa dos Patriots, em 2014. Branch já está no seu terceiro contrato com a franquia.

E a lista continua com nomes como Rob Ninkovich, Jabaal Sheard, Chris Long e Brandon LaFell. Jogadores que não chegaram para resolver problemas, mas ajudar a compôr o elenco e cumpriram/cumprem muito bem esse papel.

Além disso, existe uma categoria especial para aqueles que só renderam em New England, como o RB LeGarette Blount e o S Patrick Chung que, após saírem, só duraram um ano ou menos longe do Gillete Stadium.

E onde está a mágica por trás disso tudo? A resposta é simples. Bill Belichick não busca os jogadores mais talentosos ou com maior hype. O treinador procura jogadores com habilidades que se encaixam no esquema dos Patriots. Você não vê New England com um bando de talentos em determinada posição sem saber utilizá-los, como é o caso de outras equipes – os Rams, por exemplo, estão até hoje tentando entender como usar o WR Tavon Austin.

Uma prova disso é a forma como os Patriots não se apegam a nenhum jogador não chamado Brady: Chandler Jones e Jamie Collins eram dois dos melhores nomes da defesa, mas Belichick preferiu trocá-los nessa temporada. Ambos receberam uma bolada de grana de suas equipes e, enquanto isso, Bill colecionava o quinto anel, chegando ao Super Bowl como uma das melhores defesas da NFL.

Para essa temporada, a fórmula segue a mesma e New England trocou todas as suas escolhas do Draft por jogadores que Belichick queria:

  • primeira rodada pelo WR Brandin Cooks;
  • segunda rodada  pelo DE Kony Ealy (e uma escolha do alto da terceira rodada);
  • quarta rodada pelo TE Dwayne Allen (e uma escolha de sexta rodada).
  • as outras escolhas também foram trocas por jogadores: o já citado Kyle Van Noy, o LB Barkevious Mingo e o TE Michael Williams.

Além disso, mais jogadores da categoria você-não-conhecia-mas-em-New-England-serão-astros foram contratados: RBs Mike Gillislee e Rex Burkhead, além do DT Lawrence Guy.

E, por fim, claro, jogadores caros, sendo Dont’a Hightower a exceção, foram chutados: Logan Ryan assinou com os Titans, Jabaal Sheard assinou com os Colts e Martellus Bennett assinou com os Packers. Com isso Belichick ainda pode receber algumas escolhas compensatórias. E então reiniciar todo esse maldito ciclo com que já estamos acostumados: a cada final de temporada, uma nova velha tristeza.

*Rafael é administrador do @ColtsNationBR e acredita piamente que Chuck Pagano é o próximo Bill Belichick.

Top Pick Six #9: os 15 melhores HCs da NFL

Último ranking no ar. E para finalizarmos, listamos os 15 melhores HC (head coaches) da NFL. São os cérebros das equipes, responsáveis pelo playbook – alguns inclusive fazem as chamadas das jogadas. Entre os principais técnicos na história da NFL estão nomes como Vince Lombardi, Don Shula, Bill Walsh, Paul Brown, John Madden e George Halas.

Para confecção do ranking, cada um selecionou 15 jogadores. Se o jogador estava na posição 1, lhe atribuí 1 ponto. Na posição 2, 2 pontos, e assim sucessivamente. Se o jogador não apareceu na sua lista, atribuí – pontos. Os jogadores com menos pontos, em média, (soma dos valores dividido por 8) ficou em primeiro lugar, e assim por diante. É possível verificar as somas na tabela ao final desta coluna.

Participaram da formulação do ranking:

Integrantes do Pick Six: Cadu, Digo, Ivo, Murilo e Xermi.

Duas pessoas referência na internet quando o assunto é NFL e que, diferente de nós, realmente sabem o que falam sobre football: Felipe, do @oQuarterback e Vitor, do @tmwarning.

– E um leitor convidado!

Embaixo dos nomes dos jogadores, coloquei a ordem que cada um de nós classificou este jogador. Caso ele não esteja no top 15 de alguém, um traço está no lugar. A ordem é Xermi, Digo, Cadu, Murilo, Ivo, Felipe, Vitor e Rafael. Vamos ao que interessa! 

15° Adam Gase

12 14 11 14 11 10

Time: Miami Dolphins

Idade: 39 anos

Career highlights and awards

AFC champion (2013) / NFL Post-Season Appearances (2011, 2012, 2013, 2014, 2016)

Regular season: 10–6 (.625)

Postseason: 0–1 (.000)

Career: 10–7 (.588)

Um treinador de mentalidade ofensiva, Gase teve muito sucesso como coordenador ofensivo dos Broncos, em 2013, quando ganhou a AFC em um dos ataques mais potentes da história, comandado por um Peyton Manning em seus melhores dias. Após isso, tentou resolver a situação do ataque em Chicago (não deu certo), mas logo em 2016 já foi contratado para o cargo de HC em Miami, onde fez uma boa temporada de início, levando seu time aos playoffs.

14° Sean Payton

5 13 11 10 12 14

Time: New Orleans Saints

Idade: 53 anos

Career highlights and awards

Saints Career Wins Record (94) / Super Bowl (XLIV) / 2x NFC champion (2000, 2009) / 3x NFC South champion (2006, 2009, 2011) / AP Coach of the Year (2006)

Head coaching record

Regular season: 94–66 (.588)

Postseason: 6–4 (.600)

Career: 100–70 (.588)

Payton, que foi um QB nada brilhante em seus tempos de atleta – na NFL jogou apenas nos Bears – é um dos treinadores com mais relação ao seu atual time. Ele treina os Saints desde 2006 e, nesse período, formou uma excelente parceria com o QB Drew Brees, um dos melhores da liga, levando seu time ao título do SB XLIV. Payton é o recordista de vitórias como HC dos Saints: 94.

13° Mike McCarthy

7 10 8 13 8

Time: Green Bay Packers

Idade: 53 anos

Career highlights and awards

Super Bowl champion (XLV) / 6× Division champion (2007, 2011–2014, 2016)

Head coaching record

Regular season: 114–61–1 (.651)

Postseason: 10–8 (.556)

Career: 124–69–1 (.642)

McCarthy, assim como Payton, é o comandante dos Packers desde 2006. Com ele, seu time venceu o Super Bowl XLV em cima dos Steelers. Ele também é seis vezes campeão da divisão norte da NFC, tendo ganhado em 2007, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2016. Nos últimos anos, foi alvo de críticas de torcedores e jornalistas, que afirmavam que ele era o responsável por uma queda de rendimento do QB Aaron Rodgers, tido por muitos como o melhor da NFL.

12° Mike Zimmer

14 10 7 15 15 11 6 13

Time: Minnesota Vikings

Idade: 60 anos

Career highlights and awards

Super Bowl champion (XXX) / NFC champion (1995) /3x NFC East champion (1995, 1996, 1998) / 2x AFC North champion (2009, 2013) / NFC North champion (2015)

Head coaching record

Regular season: 26–21 (.553)

Postseason: 0–1 (.000)

Career: 26–22 (.542)

Com estilo focado na defesa e no jogo físico, Mike Zimmer, que foi coordenador defensivo dos Cowboys, Falcons e Bengals, foi contratado em 2014 para ser o homem a frente da equipe dos Vikings. Tido por muitos torcedores como um técnico ruim, Zimmer tem se mostrado consistente e, mesmo com equipes teoricamente fracas e sem um QB excelente, tem feito boas campanhas baseadas em suas defesas sólidas. Ano passado, chegou a abrir a temporada 5-0, mas o carro desandou e o time acabou ficando fora dos playoffs.

11° Jason Garrett

11 8 8 12 12 13 11

Time: Dallas Cowboys

Idade: 51 anos

Career highlights and awards

NFC Offensive player of the week (1994) / 2× Super Bowl champion (XXVIII, XXX) / PFWA Assistant Coach of the Year (2007) / NFL Coach of the Year (2016)

Head coaching record

Regular season: 58–46 (.558)

Postseason: 1–2 (.333)

Career: 59–48 (.551)

Jason Garrett, que foi QB nos seus tempos de NFL (jogou muito pouco), é head coach dos Cowboys desde 2010. Em seis anos à frente do time teve, no ano passado, a melhor campanha de sua carreira. Puxado pelos calouros Dak Prescott e Ezekiel Elliott, o time de Dallas chegou à semifinal de conferência, onde acabaram derrotados pelos Packers, em um FG no final da partida.

10° Dan Quinn

13 9 12 10 13 8 14 9

Time: Atlanta Falcons

Idade: 46 anos

Career highlights and awards

Super Bowl Champion (XLVIII) / 3x NFC Champion (2013, 2014, 2016)

Head coaching record

Regular season: 19–13 (.594)

Postseason: 2–1 (.667)

Career: 21–14 (.600)

Outro head coach de mentalidade defensiva, Quinn teve sua carreira impulsionada quando atuava como coordenador defensivo dos Seahawks em 2013 e 2014, naquele grande time cuja defesa ficou conhecida como Legion of Boom – time que, inclusive, foi campeão do SB XLVIII dando uma surra nos Broncos de Manning. Em 2015, foi anunciado HC dos Falcons que, por incrível que pareça, vem se destacando por sua força ofensiva. Perderam o último SB na prorrogação para os Patriots, após sofererem uma virada improvável, no que ficou conhecido como um dos melhores Super Bowls já vistos na história do esporte.

09° Ron Rivera

12 5 9 14 10 9 5 15

Time: Carolina Panthers

Idade: 55 anos

Career highlights and awards

2× NFC champion (2006, 2015) / 2x AP NFL Coach of the Year (2013, 2015) / 2× PFWA NFL Coach of the Year (2013, 2015) /PFWA NFL Assistant Coach of the Year (2005)

Head coaching record

Regular season: 50–37–1 (.574)

Postseason: 3–3 (.500)

Career: 53–40–1 (.569)

Ron Rivera teve uma carreira boa como jogador na NFL. Atuou pelos Bears como linebacker de 1984 a 1992, inclusive vencendo o SB XX. Como membro da comissão técnica, principalmente na parte defensiva, passou por Bears, Eagles e Chargers, até ser contratado, em 2011, como HC dos Panthers. Junto com Cam Newton, chegou a disputar o Super Bowl em 2016, mas perdeu para os Broncos. Em 2013 e 2015, foi nomeado o Coach of the Year pela imprensa especializada.

Pouco tiozão.

08° Jack Del Rio

9 7 11 6 9 7 12

Time: Oakland Raiders

Idade: 54 anos

Career highlights and awards

2× All-PAC-10 (1982, 1983) / Third-team All-American (1983) / Consensus All-American (1984) / Second-team All-PAC-10 (1984) / Pop Warner Trophy (1984) / Rose Bowl Co-MVP (1985) / NFL All-Rookie Team (1985) / Saints Rookie of the Year Award (1985) / Pro Bowl (1994) / Super Bowl champion (XXXV) / USC Athletic Hall of Fame (2015) / Earle “Greasy” Neale Award

Head coaching record

Regular season: 87–84 (.509)

Postseason: 1–3 (.250)

Career: 88–87 (.503)

Jack Del Rio foi, assim como Rivera, um grande atleta na NFL. Iniciou sua carreira como jogador atuando como linebacker dos Saints. Passou também por Chiefs, Cowboys, Vikings e Dolphins, durante seus 11 anos como profissional. Em 1997, assumiu um cargo na comissão dos Saints, e de lá pra cá só foi crescendo. Foi HC dos Jaguars de 2003 a 2011 e, em 2015, assumiu os Raiders, já levando o time aos playoffs na última temporada. Venceu o SB XXXV como treinador de LBs dos Ravens.

07° Bill O’Brien

10 14 8 9 7 4 6

Time: Houston Texans

Idade: 47 anos

Career highlights and awards

Paul “Bear” Bryant Award (2012) / Big Ten Coach of the Year (2012) / Maxwell Coach of the Year (2012) / AT&T-ESPN Coach of the Year (2012) / 2× AFC champion (2007, 2011)

Head coaching record

Regular season: 27–21 (.563)

Postseason: 1–2 (.333)

Career: 28–23 (.549)

HC de Penn State, um dos principais times de futebol americano universitário, em 2012 e 2013, Bill O’Brien foi contratado pelos Texans em 2014 para buscar um título inédito para a franquia. Desde que chegou, foi aos playoffs todos os anos, mas a falta de um QB de qualidade tem atrapalhado seus planos. Com a chegada da sensação DeShaun Watson para 2017, a esperança que ronda a cidade de Houston por vôos maiores é alta.

 06° Andy Reid

8 6 3 7 6 6 7 3

Time: Kansas City Chiefs

Idade: 59 anos

Career highlights and awards

Eagles career wins’ record (130) / 6× NFC East Division Champion (2001, 2002, 2003, 2004, 2006, 2010) / NFC Champion (2004) / AP Coach of the Year (2002) / Sporting News Coach of Year (2000, 2002) / Pro Football Weekly Coach of Year (2002) / Maxwell Club NFL Coach of Year (2000, 2002) / Philadelphia Eagles 75th Anniversary Team

Head coaching record

Regular season: 173–114–1 (.602)

Postseason: 11–12 (.478)

Career: 184–125–1 (.595)

Um dos grandes treinadores da história da NFL, Reid comandou os Eagles de 1999 a 2012, sendo o recordista de vitórias por essa franquia (130). Foi seis vezes campeão de divisão na Filadélfia, em 2001, 2002, 2003, 2004, 2006 e 2010. Em 2004, levou a NFC e foi vice-campeão do Super Bowl. Em 2009, perdeu a final da NFC para os Cardinals. Em 2013, foi contratado como HC dos Chiefs, onde está até hoje. Pelo time de Kansas City, vem fazendo ótimas campanhas, mesmo com um QB mediano como Alex Smith à frente do time.

05° Bruce Arians

4 13 6 4 2 4 3 7

Time: Arizona Cardinals

Idade: 64 anos

Career highlights and awards

2× Super Bowl champion (XL, XLIII) / 3× AFC champion (2005, 2008, 2010) / 2× NFL Coach of the Year (2012, 2014)

Head coaching record

Regular season: 45–21–1 (.679)

Postseason: 1–2 (.333)

Career: 46–23–1 (.664)

Arians tentou ser QB, mas melhor pularmos essa parte. Seu sucesso veio mesmo como treinador. Com uma grande mentalidade ofensiva, teve excelentes trabalhos nos Steelers e nos Colts, como coordenador ofensivo. Em 2013, substituiu Ken Wisenhunt nos Cardinals e fez excelentes campanhas, chegando inclusive à final da NFC na temporada de 2015. Em 2012 e 2014, venceu o prêmio de HC do Ano. Como head coach dos Cardinals, vem fazendo um excelente trabalho, e dá esperanças à torcida do time para os próximos anos.

 04° Mike Tomlin

2 3 5 5 3 3 9 4

Time: Pittsburgh Steelers

Idade: 45 anos

Career highlights and awards

Super Bowl champion (XLIII) / 2× AFC champion (2008, 2010) / 5× AFC North champion (2007, 2008, 2010, 2014, 2016) / Motorola NFL Coach of the Year (2008) / Super Bowl champion (XXXVII)* / NFC champion (2002)*

*assistant coach

Head coaching record

Regular season: 103–57 (.644)

Postseason: 8–5 (.615)

Career: 111–62 (.642)

Tomlin, que iniciou sua carreira na NFL como técnico de DBs nos Bucs, ganhou muito respeito após assumir como HC dos Steelers, em 2007. Venceu o Super Bowl XLIII em uma partida memorável contra os Cardinals e, em 2008 foi considerado o técnico do ano. Além disso, detém um coaching record invejável de .644, um dos maiores da liga. Na pós temporada, seu coaching record também é excelente, com .615. Em uma equipe altamente qualificada, puxada pelo triplete Big Ben, Antonio Brown e Le’Veon Bell, Tomlin tem tudo para aumentar o número de vitórias .

03° John Harbaugh

6 4 4 2 4 5 2 5

Time: Baltimore Ravens

Idade: 54 anos

Career highlights and awards

Super Bowl champion (XLVII)

Head coaching record

Regular season: 85–59 (.590)

Postseason: 10–5 (.667)

Career: 95–64 (.597)

John Harbaugh é técnico dos Ravens desde 2008. Sua formação vem de Special Teams: foi coordenador dos Eagles de 1998 a 2007. Ele, inclusive, usa jogadas mirabolantes em seu time de especialistas até hoje. No Super Bowl XLVII, em que foi campeão, no último lance da partida ele proporcionou um lance bizarro de safety, selando a vitória. Com um coaching record de .590 na temporada regular e de .667 nos playoffs, Harbaugh merece a posição no top 3. Como curiosidade, no SB XLVII ele enfrentou o 49ers, que tinha como HC seu irmão Jim Harbaugh, hoje técnico de Michigan no futebol americano universitário – e que certamente estaria entre os melhores deste ranking se ainda estivesse na NFL (aceitem, haters!).

Cadê o chicletes?

02° Pete Carroll

3 2 2 3 5 2 8 2

Time: Seattle Seahawks

Idade: 65 anos

Career highlights and awards

Super Bowl championship (XLVIII) / 2× NFC champion (2013, 2014) / AP national champion (2003, 2004) / 4× Rose Bowl champion (2003, 2006–2008) / 2× Orange Bowl champion (2002, 2004)

Head coaching record

Regular season: 101–69–1 (.594)

Postseason: 10–7 (.588)

Career: 110–76–1 (.591)

Um dos grandes treinadores da história do futebol americano, Pete Carroll é treinador dos Seahawks desde 2010. De 2001 a 2009, comandou o time de USC no futebol americano universitário. Ele é um de apenas três técnicos que foram campeões no College e na NFL (os outros são Jimmy Jonhson e Barry Switzer). Carroll tem uma carreira invejável, especialmente na NCAA, onde teve um recorde de .814. Na NFL, é o líder do time de Seattle, onde não é somente HC, mas também VP. É atualmente o HC mais velho da NFL, com 65 anos.

01° Bill Belichick

1 1 1 1 1 1 1 1

Time: New England Patriots

Idade: 65 anos

Career highlights and awards

5× Super Bowl champion (XXXVI, XXXVIII, XXXIX, XLIX, LI) / 3× AP NFL Coach of the Year (2003, 2007, 2010) / NFL 2000s All-Decade Team / 2x Super Bowl champion (XXI, XXV)*

*As a defensive coordinator

Head coaching record

Regular season: 237–115 (.673)

Postseason: 26–10 (.722)

Career: 263–125 (.678)

Número 1 unânime e de longe o melhor HC da liga. Muitos já o consideram o melhor HC da história da NFL. Como coordenador defensivo, levou os SBs XXI e XXV, pelos Giants. Como HC, venceu outras cinco vezes, todas com o New England Patriots. Melhor treinador da NFL em 2003, 2007 e 2010, Bill Belichick ainda pode vencer mais, e isso é o que impressiona. Seus times são sempre muito dominantes e, para 2017, o Patriots parece continuar invencível. Ele assumiu os Patriots em 2000 e terminou a temporada 5-11; sua única temporada com mais derrotas do que vitórias. Desde 2001, Belichick e os Patriots só não venceram a AFC East em duas das 16 temporadas, uma supremacia absurda. Desde que comanda o time de New England, Belichick chegou a sete Super Bowls.

Algumas curiosidades do ranking:

  • Bill Belichick é a única unanimidade no Top 3 e Top 5. Inclusive, todos os votantes o selecionaram como o melhor HC da NFL;
  • Bruce Arians é o HC com maior diferença entre dois rankings: é o segundo no do Ivo, e décimo terceiro no do Digo;
  • Um total de 21 técnicos diferentes foram citados, veja na tabela final abaixo;
  • O top 15 contempla 8 técnicos da NFC e 7 da AFC;
  • 9 HCs são comuns a todos os rankings: Belichik, Carroll, Harbaugh, Tomlin, Arians, Reid, Rivera, Quinn e Zimmer;
  • 11 deles já foram campeões do Super Bowl, seja como HC ou apenas como participante da comissão técnica: Belichick, Carroll, Harbaugh, Tomlin, Arians, Del Rio, Rivera, Quinn, Garrett, Zimmer, McCarthy e Payton.
  • Ficaram fora do top 15, em ordem: Jay Gruden (WAS), John Fox (CHI), Kyle Shanahan (SF), Hue Jackson (CLE), Marvin Lewis (CIN) e Jim Caldwell (DET);
  • Todos os treinadores citados são milionários!

Patriots, Tom Brady e Bill Belichick: quando tudo e nada fazem sentido

Tom Brady tem a equipe ao seu redor, instantes antes de ir para o snap. Ele dá um leve sinal com a mão para Julian Edelman. New England estava oito pontos atrás no marcador, em uma 1&10 na linha de 36 jardas de seu próprio campo. O passe é desviado e paira no ar por segundos que, na verdade, soaram como uma eternidade. Quando três defensores de Atlanta convergiram em direção a bola, Edelman passou entre as pernas de um deles. Ele segura a bola, mas dessa vez por um milésimo de segundo, também quase eternos, ela escapa. Mero capricho antes de Julian agarrá-la definitivamente, sem que ela tocasse a grama.

Dessa vez foi preciso respirar por alguns segundos, quando agora eram necessários minutos, para perceber que estávamos diante do instante definitivo que escancarava a inevitabilidade da vitória de New England – e o consequente fracasso de Atlanta. E mesmo que possam ser apontados outros momentos tão densamente significativos quanto aquela recepção, como o fumble forçado por Hightower ou o sack de Trey Flowers empurrando Matt Ryan em um abismo particular, o lance protagonizado por Edelman flertou com o surreal.

Ali, naquela fração de tempo, se encontravam diversos instantes que definiram a história do esporte, como a recepção de David Tyree anos antes diante do mesmo New England, o arremesso de Ray Allen contra o Spurs no Jogo 6 ou mesmo os minutos derradeiros de Cleveland e Warriors na última decisão da NBA. Havia um pouco também do Chicago Cubs quebrando sua maldição particular e de Patrick Kane com seu Phantom Goal.

Aconteceu ou não aconteceu?

O caminho até aqui

Tudo o que aconteceu no último domingo só foi possível porque Brady e Belichick colocaram o Patriots em condições de vencer, na maior atuação que um quarto período de um Super Bowl já viu. Claro, eles contaram com um auxílio fundamental do sistema defensivo, que após ir para os vestiários retornou avassalador e talvez tenha sido o maior responsável pela vitória. De qualquer forma, não foi uma sensação estranha, após tudo que já vimos esta dupla fazer. Mas há um quê de ironia, quando voltamos duas temporadas no tempo: na week #4 da temporada 2014-2015, contra Kansas City, Tom Brady e o New England Patriots como conhecemos pareciam finalmente ter chegado ao fim.

O destino daquela temporada, porém, terminou com a conquista de mais um Vince Lombardi. E cada vez que alguém credita o sucesso de New England a sorte por Brady ter parado em Foxborough ou a Belichick e seu sistema perfeito, esquece a melhor parte da história: qualquer destes elementos poderiam ter ido para qualquer outro lado.

Além de tudo isto há diversos fatores quase intangíveis que ajudaram a moldar Belichick, New England e, sobretudo, o próprio Brady: quando Adam Vinatieri acertou aquele field goal em meio a uma nevasca, Brady se tornou um pouco do que é hoje. Dois anos depois o mesmo Adam ajudou o Patriots a vencer um jogo de playoff contra o Titans com outra bomba de mais de 45 jardas com termômetros congelados. Se essas bolas não tivessem entrado, talvez não estivéssemos tendo esta conversa.

Talvez isso ajude você a argumentar que a sorte sempre esteve ao lado de Brady e Belichick. Há uma dose de verdade, claro: no segundo Super Bowl da dupla, contra o Panthers em 2004, Carolina havia empatado a partida com menos de dois minutos para o fim. Mas John Kasay inexplicavelmente chutou o kickoff pela lateral, dando a chance para o Patriots começar sua caminhada já na linha de 40 jardas de seu campo; para azar de Kasay (ou sorte de New England), Brady e seu jogo aéreo estavam próximos da perfeição naquele dia, então eles só precisaram fazer seu trabalho. Na história há ainda a interceptação de Malcolm Butler na linha de uma jarda, quando tudo já parecia perdido diante do Seattle Seahawks em 2014 e diversos outros momentos favoráveis a New England.

Mas também se há uma dose de sorte ao lado de New England, o que dizer da já citada recepção de David Tyree em um Super Bowl que provavelmente o Patriots merecia vencer – o mesmo jogo, aliás,  reservou um drop em uma interceptação quase certa de Asante Samuel, quase tão sofrível como o drop de Wes Welker quatro anos depois. E se no passe para Tyree há a inegável carga de “sorte”, a conexão de Eli Manning para Mario Manningham provavelmente foi o mais próximo que o Giants já chegou da perfeição – ou o mais próximo do azar com que New England flertara.

A história do New England, de Brady e Belichick é marcada por toda a casualidade possível a qualquer narrativa, em que de forma quase poética “sorte” e “azar” se relacionam: se o Patriots já viveu a melhor sorte com que você pode sonhar, ele também já conheceu o pior lado do infortúnio que você pode imaginar.

Filme repetido.

As pedras na estrada

Vamos falar a verdade: a NFL é uma liga paranoica e para todos os lados sempre há alguém pensando que Belichick e companhia estão fazendo algo fora das regras. E talvez para a liga o grande legado do Super Bowl LI seja a oportunidade perfeita para enterrar definitivamente o Deflategate.

O fato é que a coisa toda já soa como ridícula, uma histeria não compensada entre evidências e ingenuidade. Desde então várias teorias surgiram com a mesma velocidade em que foram descartadas. Não que seja possível desconsiderar que Brady sabia o que estava fazendo, longe disso; é ingênuo crer que, coincidentemente, Tom passou a ter contato regular com John Jastremski, responsável pelos equipamentos de jogo, logo após aquela partida em que amassou Indianapolis.

Ao mesmo tempo, talvez finalmente nada disso importe, já que no auge da discussão gente como Boomer Esiason e Rich Gannon sugeriram que em tudo isto não há nenhum impacto real sobre desempenho e que equipes manipulam bolas de football por anosAaron Rodgers, aliás, declarou diversas vezes que se sente mais confortável com bolas mais cheias e eu não passo minhas tardes imaginando que Rodgers está sentando em seu sofá criando estratégias não convencionais para inflá-las.

De qualquer forma, se você crê que Brady e Belichick fizeram e fazem algo contra as regras, talvez você consiga provar. Mas se você parte da premissa que Tom faz algo que lhe permita ter uma grande vantagem em relação as outras franquias, você estará apenas alimentando a narrativa de “todos estamos contra o Patriots”, tão entediante quanto aquela que vem do próprio New England: “todos estão contra nós”.

Enfim, nenhum problema, você só está escolhendo o caminho mais cômodo. De qualquer forma, os odeie pelo motivo que quiser, por qualquer outra razão. Os odeie até mesmo sem motivo algum – apenas deixe de lado esta muleta.

A chave do sucesso

Todo o êxito de New England, porém, não pode ser resumido a dupla construída entre seu quarterback e seu head coach; não são apelas eles que permaneceram os mesmos ao longo dos últimos 15 anos: o núcleo e a essência do sistema ofensivo do Patriots se aperfeiçoou neste período, estabilizando as transições necessárias e, sobretudo, permitindo a próxima evolução, afinal sua concepção e organização são as mais adequadas para se adaptar a uma NFL em que mudar de pessoas e tendências é a única certeza.

Tudo isto se torna mais absurdo quando consideramos que a liga é construída e planejada para ser homogênea: há o draft que prioriza o equilíbrio e cada franquia, a grosso modo, tem os mesmos recursos e as mesmas instalações. É um cenário em que a homogeneidade faz todo sentido.

Mas por algum motivo que nunca conseguiremos mensurar, no mesmo sexto round em 2000, 16 escolhas antes, o Browns selecionou Spergon Wynn. No primeiro round daquele mesmo ano, o Jets escolheu Chad Pennington. Já na terceira rodada, o 49ers, time da infância de Tom, escolheu Giovanni Carmazzi. E, claro, citamos tudo isso sabendo que o draft está longe de ser uma ciência exata; relembramos apenas para termos a real dimensão do que talvez a humanidade um dia tenha convencionado como “destino”.

Browns, Jets, 49ers e tantos outros o deixaram escapar para que Brady acabasse ao lado do treinador mais brilhante que a NFL já viu. Para que Tom, por muito tempo, estivesse ao lado de uma grande defesa e, ao menos nos primeiros de sua carreira, protegido por uma das melhores linhas ofensivas do football, que o manteve saudável em seus melhores anos enquanto, por exemplo, Andrew Luck é violentado jogo após jogo.

Bem louco.

Sorte por estar ao lado de um grande head coach? Por estar em uma franquia que soube compreender suas necessidades para potencializar suas qualidades? Reduzir a trajetória de Brady a estes elementos seria ignorar todo o caminho que ele percorreu, ignorar o que faz sua carreira cada vez mais incrível. Michael Jordan, por exemplo, teve a “sorte” de passar a maior parte de sua carreira ao lado de Scottie Pippen, alguém que o completava em todos os sentidos possíveis dentro de uma quadra de basquete. Jordan também esteve sob a tutela de Phil Jackson, um dos melhores treinadores que a NBA já viu. Tim Duncan teve a sorte de estar ao lado de Gregg Popovich ou talvez Popovich teve a sorte de estar ao lado de Duncan por duas décadas. Magic Johnson teve Kareem Abdul-Jabbar e depois teve James Worthy. Joe Montava teve Bill Walsh e Jerry Rice.

E se Bill Belichick não tivesse tropeçado com aquela escolha de sexto round há quase 20 anos, não estaria hoje comemorando seu quinto Super Bowl. É assim que a vida funciona e o esporte é o melhor reflexo dela: às vezes é sobre estar no lugar certo na hora certa e todas as peças naturalmente vão convergir, então você só precisará fazer seu trabalho. O ser humano ama a grandeza, se fascina pela glória, mas esquece quão arbitrária ela pode ser. É como nossa própria vida: pensemos o quão aleatórios são os momentos e interseções que definiram exatamente onde estamos hoje?

Nunca torci para o New England Patriots, mas sempre vou admirar a maneira como Brady e Belichick construíram a história da franquia. Sempre olharei para a carreira de Tom Brady com um misto de admiração e inveja saudável por tudo isto não ter ocorrido no meu time, mesmo que a história de cada franquia seja repleta de grandes momentos particulares, que não as fazem maiores ou menores que a história construída por New England.

Hoje, Brady tem cinco Super Bowls, foi quatro vezes MVP da decisão e duas vezes MVP da liga. Teve também uma temporada regular sem derrotas, tem mais títulos da AFC East do que cabem em meus dedos e foi responsável pelos melhores 20 minutos finais que uma partida de football já viveu. Trabalho e talentos são tão cruciais para o sucesso quanto qualidades intangíveis como paixão e a sinergia necessária para que todos estes elementos estejam em sincronia.

Ah, claro, a sorte também precisa estar ali e, com altas doses dela, você pode até chegar ao topo, mas nunca conseguirá se manter nele por tanto tempo – e ninguém que está no topo chegou lá sem alguns acidentes no meio caminho.

Razões para o New England Patriots vencer o Super Bowl (e não só esse ano)

O Patriots talvez tenha sido um dos grandes tópicos de toda a intertemporada de 2016, enquanto acompanhávamos ansiosos as idas e vindas dos julgamentos de Tom Brady e, quando elas acabaram, passamos a esperar o começo do fim da carreira de um dos maiores vencedores da história da NFL. Surpreendentemente, olhando hoje, Belichick era apenas mais um coadjuvante (um grande sidekick, mas um coadjuvante do marido da Gisele) que escrevia cartas para Donald Trump nas horas vagas.

Hoje, já questionamos quem realmente é o monstro, como questionávamos há muitos anos atrás, quando Brady “ganhou de presente” (MVP com 145 jardas lançadas e 1 TD?) seu primeiro Super Bowl em apenas seu segundo ano de carreira. E então calculamos se Bill não seria capaz de tais feitos mesmo se Jimmy Garoppolo fosse o homem no comando de seu ataque. Para a sorte dos representantes de Boston, eles têm os dois e muito mais.

A loucura que não faz falta

Todos conhecem Rob Gronkowski e sabem que ele é um mito em todos os sentidos. Infelizmente, o melhor amigo (dentro de campo, obviamente) de Tom Brady segue pagando o preço de sua vida desregrada, sofrendo com lesões que, dessa vez, lhe tiram da grande final. Para a sorte dos Patriots, o Lord Sith estava preparado para isso e, no começo do ano, contratou Martellus Bennett, TE titular dos Bears para complementar  Gronk – Bennett, aliás, é até mais falastrão que a grande estrela; ele consegue formular frases e contar histórias engraçadas!

Obviamente Martellus não é aquele alvo acionado 10 vezes por partida, mas trata-se de um bom complemento que descolou 700 jardas e 7 TDs na temporada regular e, ainda que não tenha sido acionado muito durante a pós-temporada, é alguém para se ter em conta contra a defesa insegura dos Falcons, ao lado de outros jogadores igualmente perigosos nas mãos de Josh McDaniels, como Julian Edelman e Chris Hogan (Chris FUCKING Hogan: reserva dos Bills).

Com essa cara de atendente de loja chique, você já desviaria dele no shopping.

Por outro lado, provavelmente os melhores skill players do time estão no backfield. Atrás de uma linha ofensiva sólida ancorada pelo left tackle Nate Solder, o nosso maconheiro trombador favorito LeGarrette Blount correu para absurdos 18 TDs (máximo na NFL), mesmo sem nunca ter mostrado grande talento; ao lado dele, o retorno de Dion Lewis dá o elemento dos sonhos para causar inferno nas defesas adversárias – Emmanuel Acho, jogador pelo qual ele foi trocado de Philadelphia para Cleveland, esses dias comentava no Twitter que alguém merecia ser demitido por achar que os dois tinham o mesmo valor.

E obviamente, para fechar, o começo e o fim de tudo, a grande estrela é Tom Brady. Se ele mantivesse as médias que teve em 12 jogos para os 16 jogos de uma temporada normal (sem punição por murchar bolas e destruir celulares), teria lançado para 4738 jardas e 37 TDs, números equivalentes ao de Matt Ryan, e os dois estariam concorrendo ao título de MVP voto a voto, certamente. Truque do destino, ou de Roger Goodell, Brady perdeu esses jogos que na verdade só devem ajudá-lo a estar um pouco menos cansado para brincar com a defesa dos Falcons.

Sobre clichês

À parte da historinha clássica de que Brady e o lorde das trevas serão favoritos todos os anos ao grande título até que decidam aposentar-se (depois do vigésimo, provavelmente), falemos de outra história muito repetida ano após ano na NFL e que, no caso desse Super Bowl, pode fazer mais sentido do que nunca: “defense wins championships”. Primeiramente, porque isso tem sido verdade na história de New England.

Você já deve ter ouvido falar no Greatest Show on Turf, de Kurt Warner – se não, saiba que só faltavam fazer chover, com as devidas proporções de monstruosidades, a exemplo do que Matt Ryan faz hoje. Eram favoritos por 14 (DOIS TOUCHDOWNS) na final… e perderam para Belichick e um QB em seu primeiro ano como titular. Donovan McNabb estava na melhor temporada de sua vida, mas perdeu para Deion Branch MVP. E Malcolm Butler. Esse eu duvido que alguém já tenha esquecido, especialmente Russell Wilson.

(Eu sei que só foram três jogos listados. Mas o outro foi contra Jake Delhomme, achei que não fortaleceria meu caso)

De qualquer forma, essa temporada tem tomado contornos parecidos. Perceberam como depois de tanto escândalo na preseason e no começo (com Garoppolo e aquele outro QB que ficará rico daqui a três anos em algum time trouxa), os Pats seguiram seu caminho para um 14-2 quase que por inércia. A razão disso? O ataque não foi a coisa mais espetacular do mundo, afinal sem Gronk as coisas se distribuíram bastante, mas a defesa foi sólida.

Quão sólida? Oitava em jardas cedidas e a que menos cedeu pontos para os oponentes. Basicamente o oposto perfeito para o ataque dos Falcons. E para aqueles que quiserem um “fator corretor” para os oponentes que o time enfrentou (sim, na temporada regular as maiores potências enfrentadas foram Seahawks, Bengals, Dolphins e Ravens, não exatamente exemplos de ataques), ele atende pelos nomes de Big Ben e Antonio Brown.

Marcando o Brown, já de olho em Julio Jones.

Adendo importante: dessa defesa foram retirados dois dos seus melhores jogadores, que mesmo depois da troca mantiveram o alto nível de atuação: os linebackers Chandler Jones (trocado por uma escolha de segundo round e um G que já foi dispensado) e Jamie Collins (trocado por uma escolha de terceiro). Isso tudo basicamente nos ensina a nunca duvidar das mágicas que pode fazer o Mestre dos Magos.

Sobre Eli

São seis Super Bowls até aqui e uma escrita é completamente verdadeira, independente da maneira que você olhe: sempre que não enfrentou Eli Manning, Brady saiu vencedor. Do outro lado, para esse domingo, só vemos um Matty Ice magrão e ansioso para derreter, torcendo para que, como o próprio Eli disse, “tenha sorte de enfrentá-los no dia certo”.

Acontecerá de novo?

Enfim, o dia em que Tom Brady quer se provar mais homem que o comissário da maior liga americana não parece propício para um dia certo. É bom ter isso em conta na hora de marcarem suas apostas.

A minha: Tom lança 2 TDs para nosso querido Bennett e outros dois para Hogan, o próximo milionário fabricado por ele. Malcolm Butler repete o gostinho de ter uma interceptação decisiva e os Patriots levam em um 37×31.